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agosto 29, 2008

Não resisti...

"Como tudo é um todo, toda a matéria está ligada e todo o movimento no todo produz algum efeito nos corpos distantes, proporcional à distância. De tal forma que cada corpo não é apenas afectado pelos outros corpos com os quais está em contacto, sentindo assim de algum modo tudo o que lhe acontece; além disso, através deles, cada corpo sente também os corpos que afectam aqueles com os quais está em contacto imediato. Daí que esta comunicação se estenda ao longo de toda e qualquer distância. Consequentemente, cada corpo sente tudo o que se passa no universo, de tal forma que aquele que vê tudo poderia ler em todo e qualquer corpo aquilo que está a acontecer em todo e qualquer lado, e mesmo aquilo que aconteceu ou aquilo que acontecerá. Seria capaz de observar no presente aquilo que é remoto tanto no tempo como no espaço (...). Uma alma, contudo, pode ler em si mesma apenas aquilo que está directamente representado nela; ela é incapaz de desdobrar de uma só vez só todas as suas dobras; porque estas vão até ao infinito".

Escritos sobre a monadologia de Leibniz, no livro de Paul Auster "Inventar a Solidão", página 180.

Não resisti.

Publicado por Miklos Kazantakis às 09:51 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 28, 2008

A Manhã

Paul Auster, no seu "Inventar a Solidão", deixou este pensamento de Pascal: "Se o acaso traz os pensamentos, o acaso os leva. Não existe nenhuma arte nem para os reter nem para os alcançar. Um pensamento escapou-se. Eu queria escrevê-lo; em vez disso, escrevo que ele me escapou..."

Acordou.
Maquinalmente esticou todos os músculos para os sentir e pô-los a funcionar novamente.
Respirou fundo, suspirou profundamente e deixou-se estar quieto e calado em cima da cama, deitado, a olhar o tecto, tentando preencher o vazio da sua mente que a noite despejara.
Sem sequer olhar o relógio tentou lembrar-se de que dia era hoje e o que tinha programado fazer.
Demorou um pouco a restabelecer os laços com o mundo.
Levantou-se com toda a calma e parou sentado na cama a olhar para o chão do quarto.
Esfregou os olhos lentamente e aclarou a vista: ao lado dos chinelos, estava um pequeno papel cor-de-rosa escrito à mão.
Debruçou-se e pegou nele.
Leu-o primeiro mentalmente mas, como estava ainda muito ensonado, não percebeu nada do que tinha lido.
Deixou passar uns segundos.
Olhou em várias direcções no quarto e fixou objectos ao acaso.
Dizia para si, muito baixinho, como se fosse uma reza, o nome do objecto fixado e esforçava-se para compreender se tinha compreendido que nome e o que era realmente o objecto observado.
Esteve nisto alguns minutos, e sempre com o papel cor-de-rosa na mão.
Depois, como se sentisse confiante do seu exercício cerebral matinal, olhou novamente o papel.
Aqui, já se deu conta que não conseguia ler as letras daquela caligrafia.
Os óculos?
Havia dias em que acordava e demorava algum tempo até acordar realmente.
Até começar a "funcionar" devidamente.
Hoje, inequivocamente, era um desses dias.
Odiava quando isso acontecia, porque era sempre nessas alturas que tinha de fazer qualquer coisa importante: atender uma chamada; abrir a porta a alguém; procurar algo importante nas suas coisas; ler papéis cor-de-rosa.
E, também, era nesses dias que os seus óculos, que deixava religiosamente na mesinha de cabeceira, antes de adormecer e apagar a luz, desapareciam.
Era inevitável considerar-se vítima de um "complot" muito bem organizado e orquestrado para o desmorecer enquanto ser humano.
O seu ego saía sempre de rastos destas situações.
Devia haver, de certeza, um sistema, uma organização, alguém que puxava os cordelinhos para isto acontecer.
Cada vez que acordava e lhe acontecia isto, ficava cada vez menos com dúvidas.
Os óculos, como sempre, porque se esquecia ele sempre isto?, tinham caído para o chão, entre a cama e a mesinha de cabeceira.
Apanhou-os, já com cara de poucos amigos e a desejar um café, antes que uma dor de cabeça se apoderasse dele logo ali.
Leu e não compreendeu novamente nada, mesmo com os óculos postos.
Respirou fundo e suspirou profundamente.
Era já segunda vez que fazia tal nessa manhã.
Odiava repetir as mesmas coisas, ainda por cima logo no começo do dia.
Parece que as "nuvens negras" vieram para ficar...
Desta vez teve a ideia de ler em voz alta.
A sua voz saiu algo esganiçada e roufenha depois de uma noite de sono:“Sou maravilhoso, maravilhoso, maravilhoso!”
"Maldito dia aziago que ainda agora começou e logo com o pé esquerdo", praguejou ainda em voz alta mas entre dentes, sustendo uma raiva que lhe subia pela garganta acima.
"Isto só a mim...", pensou ele antes de se levantar definitivamente, calçar os chinelos e ir em direcção da casa-de-banho.
"Há pessoas que não conseguem ser mesmo felizes...como eu!", e fechou a porta.

Publicado por Miklos Kazantakis às 09:11 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 27, 2008

Sem Saída

Temos sempre dois lados que disputam o nosso pensamento em cada decisão que tomamos. Por vezes pode ter o seu quê de cansativo...

Ele olhou para mim e fixou os seus olhos.
Senti-me desconfortável com tal atitude.
Evitei o seu olhar e puxei de um cigarro para, aos seus olhos, parecer o mais normal possível.
Era noite e, aos poucos e poucos, uma camada densa de nevoeiro foi-se instalando na rua deserta de gente.
Não era tarde, mas também não sabia dizer muito bem que horas seriam.
Nas janelas dos prédios por onde passavam via luz, luz da TV e via crianças a pé, o que queria dizer que não seria tarde.
Ele tinha fixado os seus olhos conforme eu me ia aproximando dele, e da esquina onde ele estava parado e encostado.
Passei por ele e foi aí que fiquei cravejado com os seus olhos algures no meu corpo.
Ao acender o cigarro, fui traído pela tremura das minhas mãos quando levava o fósforo aceso perto do cigarro, na minha boca.
Não dei muita importância porque daquele ângulo ele não poderia ter visto a minha mão trémula.
Ainda por cima era noite, estava nevoeiro e havia pouca luz.
Era impossível ele ter visto o que quer que fosse.
Tentei acalmar-me só que, distintamente, comecei a ouvir os seus passos atrás de mim.
A minha respiração aumentou de ritmo porque o meu coração aumentou de batimentos.
Se o coração bate mais depressa, sua-se, as pernas ficam trémulas e há, de repente, um torpor que se instala, fazendo que as ordens do meu cérebro não cheguem tão depressa aos devidos sítios.
O mundo e as suas coisas parece que ficam sem nitidez e deixa-se de ouvir.
Nós próprios parecemos fantasmas devido ao lado surreal que se instala sem pedir licença e se apodera de nós nestas situações.
Mas depois, entra em cena o lado racional, "o negociador" que vem "falar" com o teu lado emotivo e dizer-lhe que há precipitação, que de certeza há uma explicação lógica e simples para o facto de o homem estar a andar atrás de mim.
O meu lado emotivo desconfia.
O meu lado racional alerta para alguma imprudência que se possa cometer sem se saber exactamente o que se está a passar.
esse meu lado pensa no canivete que trago no bolso.
Fraco de lâmina mas que pode sempre fazer o seu estrago irremediável.
O meu lado emotivo nem ouve.
Consigo aumentar o ritmo da passada, como um teste que se faz para ver se o nosso cão obedece cegamente às ordens.
Mando calar os meus dois lados em disputa e apuro o ouvido.
Será que o tipo também aumentou a passada?
Não consigo perceber com o barulho desenfreado que o meu coração está a fazer.
"E se parasses e fingisses que estavas a apertar o cordão?", alvitrou o lado racional.
"Assim poderias ver se o tipo está ou não atrás de ti!".
"Sim, e porque não, já agora, espetares o canivete que tens no bolso em ti próprio ao mesmo tempo que lhe dás o dinheiro?", respondeu logo o meu lado emocional.
" Não achas que seria de mais parar e ver o que o tipo quer? Não seria muito estúpido? Além do mais estamos de botas e não há cá cordões.".
" Podemos sempre disfarçar qualquer coisa. Assim teríamos a perspectiva correcta do que está suceder e não cometeríamos nenhum erro de julgamento que mais tarde nos poderíamos arrepender."
"Mas se se sente algo no ar, algo inexplicável, não se vai ficar aqui à espera da tragédia, pois não?"
" Lá estão vocês a serem tão alarmistas."
Enquanto esta pequena diatribe decorria entre mim e mim...(?!), fui assaltado pelo o homem que me seguia.
Que querem que vos diga mais?
Que deveria ter corrido?
Gritado por socorro?
Que falasse com o tipo de modo a tentar dissuadi-lo?
E se estivesse enganado?
Que raio de situação que não te deixa saída...

Publicado por Miklos Kazantakis às 10:08 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 26, 2008

O "doente da saudade".

E se de repente a nossa memória deixasse de existir totalmente e os nossos dias passassem a ser descartáveis?

Tenho dias assim.
Dias que são descartáveis.
Não porque o queira, simplesmente porque já não consigo reter nada.
Sou aquilo a que passei a chamar de "doente da saudade".
Chamo-me assim porque a minha memória, algures alojada no meu cérebro, deixou de funcionar.
Quem sabe se para todo o sempre?
Desde que tive um acidente agudo de coração quebrado - ela deixou-me no altar - nunca mais consegui ficar com nada dos dias que passam.
Sento-me em frente à janela e sinto no meu corpo a leve brisa da manhã.
Nos olhos tento guardar o sol, e na pele o calor de um Agosto qualquer, que nunca me fará diferença no dia de amanhã.
Tenho sempre ao pé de mim um papel e uma caneta para ir desenhando o que vejo, e escrevendo por baixo os nomes.
Rosas, pássaros, o meu irmão, o sol, a Maria que me dá de comer, o cão do vizinho, a praia que vejo a partir de uma foto onde está o meu antigo eu...
Eu sei que amanhã me fará uma diferença enorme, saber que a árvore de hoje será ainda um castanheiro amanhã.
Que areia é dourada e o mar azul-turquesa.
Deram-me uma máquina fotográfica digital, para colocar no seu cartão tudo o que queira registar e guardar.
Só que amanhã já me esquecerei de como se utiliza aquela caixa de memórias electrónicas.
Nem sei muito bem se sofro, porque de um dia para outro a dor atenua ou é esquecida.
Se me lembro e escrevo estas frases é porque consegui, pela enésima vez que alguém se sentasse ao meu lado e contasse a história de um eu perdido.
O tal da memória gasta, o "doente da saudade".
Eu...
Mas mesmo a palavra sau-da-de, de um dia para o outro, perde tudo o que ela encerra, aquilo que trazemos dentro de nós.
Deve ser por isso que tenho um diccionário na minha cama e uma chamada de atenção para essa palavra.
A primeira da manhã.
Choro e sofro por um século porque sei que amanhã, se ninguém me contar a história do meu eu perdido no limbo, e que cada vez mais vai sendo raro, eu voltarei a olhar para as coisas quase como se fosse pela primeira vez.
Fico sempre com a vaga sensação que já lá estive, já ouvi, já vi e já senti mas sem guardar os contornos, os sabores, as cores, as texturas.
Como se visse tudo a preto e branco e inodoro.
Quando me fecham a janela, atiro a folha dos meus desenhos para o lixo e com ela as recordações, sensações e vibrações de um dia.
Porque amanhã quero ser criança de novo e ter a coragem de vibrar novamente com o mundo que me acolhe, com o dia que me embala, sem memória do que fui, só do que sou.
Até quando conseguirei?

Publicado por Miklos Kazantakis às 10:15 PM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 25, 2008

Às 7 da manhã.

O nosso dia dependerá sempre da maneira como abrimos os olhos logo pela manhã.

- Sariiiiitaaaaa!
São 7 horas da manhã, nem vale a pena olhar muito para o despertador que tenho na mesa de cabeceira.
Nota mental: reforçar novamente o vidro duplo da janela do meu quarto.
- Sariiiiitaaaa!
Eu mordia a almofada de nervos e dava três voltas na cama contando até 533 para me acalmar.
Pensava porque razão a Virgem Maria era virgem sendo ela Mãe de Jesus.
Isto para não ir buscar uma bacia de água suja e atirá-la ao velho que grita estridentemente, com a vozinha mais esganiçada que se possa conceber.
Parecia uma galinha no cio.
Eu sei que as ditas não têm cio, mas imaginem se tivessem e aí têm, mais ou menos, a vozinha do velho.
Só que 10 vezes pior.
A Sarita era a sua filha. Do velho, claro está, que todos os santos dias gritava da rua o seu nome.
Fizesse sol ou chuva, vento, calor, frio, neve ou outra situação meteorológica, o raça do velho da vozinha chamava pela filha.
- Sariiiiitaaaaa!
Ai mãezinha, que é hoje que desço 5 lanços de escadas em 15 segundos em pijama e, de faca na mão, abro-lhe as goelas, tiro-lhe as cordas vocais uma a uma para que o raio do tipo nunca mais grite...
- Sariiiitaaa!
Chiça! Ainda por cima é sempre a mesma coisa.
A Sariiiitaaaa (Deus me valha, até eu já não consigo pensar ou dizer o nome dela sem imitar o esganiço do homem...) deve ter um sono de chumbo protegido com betão para não ouvir a voz "linda" do paizinho.
A esta hora, todas as pessoas que habitam nos apartamentos dos cinco andares já estão a rogar pragas ao homem.
Mas o que é verdade é que ele nunca falha.
E já se sabe, de segunda a segunda-feira o tipo aparece pontualmente às 7 horas e...
- Sariiiitaaa!
Barulho na janela.
- Diz!
- Olá, filha bonita!
- Diz!
Isto é sempre igual. Dia-sim-dia-sim.
Ainda por cima a Sariiiitaaaa! tem um mau acordar.
- Quantos pães queres que o papá te traga?
- Pai! Já te disse mais de mil e trezentas vezes...
Eu aumentava isso para cinco e mesmo assim nem chega perto ao número de dias que o tipo esganiça a voz às 7 da matina.
- ...que quero 7! São sempre 7 pães.
Naquela família o 7 deve ser o número da sorte.
Que 7 mil milhões de raios caiam na careca do velho durante os próximos 7 mil anos por acordar gente trabalhadora e honesta que quer dormir um pouco mais.
- Pronto, minha linda, vai lá dormir outra vez o sono dos justos.
- Depois, já sabes, deixa-me o pão pendurado na minha caixa do correio para não me acordares outra vez.
Barulho da janela a fechar com estrondo.
Barulho de um assobio que se afasta na rua, regalado.
E claro, desde há 5 anos para cá, desde que a Sarita se mudou para o prédio, que os rádios, estereofonias, televisões e outros aparelhos passíveis de reproduzir voz ou música são ligados no máximo.
E o dia começa, radioso.
Nota mental: procurar casa em prédio que forneça "curriculum vitae" dos vizinhos.
Post-Scriptum à nota mental prévia: a)- nunca escolher casa em prédios onde haja raparigas solteiras;
b) - nunca escolher casa em prédios com mulheres mesmo que casadas que se chamem Sarita;
c) - nunca escolher casa em prédios que sejam perto de padarias, panificadoras ou pastelarias e/ou cafés que vendam pão;
d) - escolher casa em prédios com vidros triplos!
Onde será que deixei a minha cassete dos AC/DC?

Publicado por Miklos Kazantakis às 06:22 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 24, 2008

A previsão.

Antecipar é agir.
Prever é nunca reagir à causa das coisas?

Antes que fosse tarde, estendia a mão a si próprio e sentia-se mais seguro de si.
Nunca esperava que as coisas acontecessem primeiro para reagir depois.
Actuava antes que as coisas se complicassem, ou que ficasse sem reacção para corresponder à situação em conformidade.
Quase parecia que previa as situações antes delas acontecerem.
Aliás, gabava-se de nunca o apanharem desprevenido ou com a "guarda em baixo".
Quando se apercebeu que a sua mulher andava um pouco estranha, decidiu de imediato, sem falar com ela ou com os seus filhos, divorciar-se.
Nunca a mais a quis ver ou falar.
Tudo acontecia através do seu advogado, homem bastante ambicioso e ávido de dinheiro rápido.
Quando o seu filho mais velho tirou duas negativas no primeiro período às disciplinas de matemática e português, tirou-o logo da escola e pô-lo a trabalhar numa panificadora, tinha ele 15 anos.
Quando a sua filha lhe pediu para ir ao cinema com um amigo, tratou logo de saber quem era o rapazola e mandou uns certos "amigos" pregar um susto ao miúdo, passando este três semanas no hospital.
Quando o carro tinha um barulho fora do normal, trocava-o no mesmo instante.
Se a sua casa acumulava mais pó do que o costume, comprava outra.
Se esperava mais do que 10 minutos por uma mesa num restaurante qualquer, ia ao supermercado comprar qualquer coisa e comia em casa, estivesse acompanhado ou não.
Se houvesse uma única nuvem no céu ou saía da praia a correr ou comprava um guarda-chuva, conforme o local onde estivesse e a estação do ano.
Se o avião que esperava para se deslocar a qualquer sítio se atrasasse, comprava logo um bilhete no autocarro com o mesmo destino.
Ainda hoje toda a gente pensa como é que ele nunca conseguiu prever o camião que passou um sinal vermelho, porque ficou sem travões, já que o seu motorista alcoólico vinha com excesso de velocidade, e o "espremeu" dentro da sua viatura, contra a parede de betão do hospital local.

Publicado por Miklos Kazantakis às 06:25 PM | Comentários (4) | TrackBack

agosto 23, 2008

A Fada Cansada.

As Fadas são como as Bruxas:"Eu nunca as vi mas que as há, há".

Etiénne nasceu num dia cheio de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Foi encontrado horas depois, por um velho pescador que vivia numa cabana perto dali, a chorar a plenos pulmões.
O velho Sotegã levou-o e esperou durante dias, meses, anos que alguém viesse à sua palhota bastante humilde perguntar por um bebé que tinha nascido num dia de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Como isso nunca aconteceu, ele, o velho Sotegã e a sua filha Monique, admiradora incondicional de Etiénne Daho, criaram-no como se fosse sangue do seu sangue.
Para Sotegã, que desde sempre se lembrava de criar e viver de baixo do mesmo tecto com a filha, não houve problema em ter mais uma boca para alimentar.
Aquele bebé passou a ser mais uma fonte de alegrias nos dias que passavam calmamente, como as nuvens no céu.
Para Monique, a entrar na puberdade, foi este um teste de admissão na vida adulta, ao ter que assegurar as necessidades básicas de um ser humano, quando ela própria ainda tentava perceber quais eram as suas.
Foram dias, meses, anos de luta, de choro, nunca de raiva ou desalento mas de muita união.
Para Etiénne, aqueles dois seres que o fizeram crescer eram sem dúvida responsáveis pela sua vinda ao mundo, até que...
Bem, até que um dia perguntou, como quem pergunta que estrela é aquela muito brilhante ali no céu, se o velho Sotegã e a Monique eram os seus pais, palavra nova que tinha acabado de aprender nos primeiros dias de escola.
Palavra essa tão nova e cheia de coisas interessantes, e nunca ouvida ou sequer utilizada lá em casa.
O velho Sotegã olhou para ele calmamente.
Coçou a barba rala e branca e considerou.
Monique olhou para os dois com um sorriso nos lábios.
O velho Sotegã continuava calado mas agora de olhos postos no chão.
Monique pegou na mão de Etiénne e na mão do velho e levou-os pela praia fora até a um velho coqueiro.
Debaixo da sua sombra fê-los sentar e contou uma história de uma Fada cansada de voar com um pequeno bebé muito bonito nos braços.
Enquanto descansava, calhou de passar por ali o velho Sotegã que viu ali a pobre Fada cansada, oferecendo-lhe logo de seguida um pouco de água para saciar a sua sede.
Como a Fada estava mesmo exausta, e ainda tinha muito caminho para voar, pediu ao velho Sotegã se não se importava de ficar com aquele lindo bebé que ela, quando pudesse, logo viria para o levar de novo.
Etiénne ficou então conhecido pelo o filho da Fada cansada, história que nunca se cansou de repetir pelos quatro cantos da ilha a todos que o quisessem escutar.
Desde então, todas as noites, Etiénne fica algumas horas à espera dela, a sua mãe Fada Cansada, que o venha buscar.
Nunca ficou triste com o passar dos anos e ela sem vir, porque, claro, um dia alguém lá lhe disse que as Fadas nunca existiram naquelas partes do mundo e que tinha sido o velho Sotegã a encontrá-lo num dia cheio de sol, perto de uma praia calma e de baixo de um coqueiro.
Etiénne nunca deixou, mesmo assim, de cumprir o seu ritual diário de espera nocturna debaixo do mesmo coqueiro onde fora encontrado.
E diz aos 4 ventos, novamente para o quem quiser escutar, que a Fada Cansada, sua mãe, afinal tinha voltado há muitos atrás para o buscar, só que tinha resolvido ficar na sua companhia e do velho Sotegã naquela bela praia e viver em calmamente, aproveitando cada dia de paz e de sol debaixo de um certo coqueiro.

Publicado por Miklos Kazantakis às 02:11 PM | Comentários (4) | TrackBack

agosto 22, 2008

A escolha da velha águia.

A águia é a ave que possui a maior longevidade da sua espécie chegando a viver setenta anos. Mas para chegar a essa idade, por volta dos 40 anos ela tem que tomar uma decisão muito séria e difícil. Nessa idade as suas unhas tornam-se compridas e flexíveis e deixa assim de conseguir agarrar as presas das quais se alimenta. O bico, outrora alongado e pontiagudo, está agora encurvado. Encurvadas também contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas devido à grossura das penas. Voar torna-se cada vez mais difícil. Nesse momento a águia só tem duas alternativas: morrer… ou enfrentar um doloroso processo de regeneração que irá durar cerca de cinquenta dias. Ela terá que voar para o alto de uma montanha e recolher-se num ninho perto de uma rocha, de onde não seja forçada a sair. Após encontrar esse lugar a águia começa a bater repetida e dolorosamente com o bico na rocha até conseguir arrancá-lo! Depois de o extrair, espera pelo nascimento de um novo bico como o qual inicia nova e dolorosa regeneração arrancando agora as suas unhas. Depois, quando as novas unhas começam a nascer, ela puxa e arranca uma a uma, as suas velhas penas. Então um dia, passados cinco meses desse lento e difícil processo de mudança a águia renascida lança-se no seu famoso voo de renovação, que abre as portas a uma nova etapa de mais trinta anos de vida.

Obrigado, Niklas.

Lembro-me do meu Avô, cada vez que passa um western na TV.
De repente, o John Wayne transforma-se nele, naquele velhote de bigode farfalhudo, cara redonda e olhos doces, cada vez que desce de um cavalo, ou empunha o seu Colt 45 ou, sobretudo, chama "pilgrim" a alguém.
O meu Avô vibrava tanto com os filmes do John Wayne e do John Ford que, por volta dos meus 7 anos, passei a ser o seu Pilgrim.
Juntos, nunca falhava-mos um filme de cowboys no cinema ou na TV.
Da sua boca o meu nome desapareceu para todo o sempre e, para grande irritação da minha Mãe, eu era o Pilgrim.
O seu Pilgrim.
- Pilgrim, ouvi dizer que bateste no Zézito hoje no fim das aulas.
- A culpa foi dele. Pedi-lhe se faz favor se me emprestava a borracha para apagar uma coisa e ele disse que comprasse uma que os meus pais têm muito dinheiro.
- E a tua?
- Emprestei-te a ti para apagares uns erros quando escrevias uma carta àquela senhora.
- Ah! Então deste-lhe poucas, Pilgrim.
É verdade. Lembro-me tão bem.
Devo ter sido o único neto no mundo que acompanhou bem de perto a paixão que o meu Avô nutria por uma senhora que vivia um pouco mais abaixo de nós, duas ou três casas, na rua.
Com esta distância, percebo agora o esforço que o meu Avô teve de fazer para renascer das cinzas para o amor, depois da morte da minha Avó e perante a fragilidade da minha Mãe.
A questão para ele não era de todo simples.
Da vida de 50 anos em comum com a minha Avó, dizia ele, só restava o amor incondicional que sempre demonstrou pela minha Mãe.
O resto era levado pelo vento, de cada vez que os meus Avós se iam afastando um do outro.
Ele nunca a deixou porque, como um dia me confidenciou, um verdadeiro cowboy nunca cospe no prato onde come, nem maltrata o cavalo que o transporta.
Na verdade, na altura, não atingi o que realmente me queria dizer.
No fundo, para ele, respeito e amor pela mulher com quem se tinha casado nunca se confundiram.
Daí que para a minha Mãe, era um desrespeito para a memória da minha Avó aquele amor patético de "velho xéxé", nas palavras duras dela, que nutria pela senhora Idalina lá da rua.
Durante muito tempo ele viveu na angústia de um acto, qualquer que fosse ele, que deveria tomar em mãos para assumir a paixão que lhe fazia vibrar o seu coração, já frágil, pela primeira vez em 75 anos de vida.
Ou então ficar quieto e calado, cada vez que a senhora Idalina passava na rua e sorria para ele com os olhos de soslaio, por amor à filha que tanto amava e respeito à falecida.
Penso que o rascunho da carta para a senhora do fundo da rua, escrita a lápis, o meu lápis da escola, andou nos bolsos das suas calças durante meses seguidos até se desfazer em pequenos pedaços.
Como se fossem fragmentos do seu coração, que aos poucos e poucos se desvanecem no ar por acção do tempo, que irremediavelmente passa.
No fim de contas, o amor que o meu Avô nutria pela senhora Idalina nunca passou de uns sorrisos de olhos nos olhos muito breves e sorrateiros, cada vez que se cruzavam.
Tal como o Lucky Luke, o Jonh Wayne fazia-se ao deserto ao pôr de sol, cavalgando para longe daqueles que amava.
Por isso mesmo, por amá-los muito.
Hoje em dia o mundo do John Wayne vive na recordação de uns quantos, tal como o meu Avô vive no meu coração.
Parece que o estou a ver, em cima do seu cavalo em direcção ao pôr do sol a cantar "I'm a poor lonesome cowboy and a long way from home...", quando soube que a senhora Idalina sucumbiu a uma falha de coração.
Um coração que, segundo se constou anos mais tarde, só pertenceu a meu Avô, já que ela sempre fora solteira.
E tal como um verdadeiro Pilgrim que sempre fui para ele, disparo para o ar com a minha Colt 45 imaginária para que ele possa sentir as minhas lágrimas, sempre que o John Wayne entra em cena num filme qualquer do John Ford.
E eu fico colado ao ecrã, na esperança de ver em segundo plano um casal de velhotes a sorrir, de soslaio, com os olhos.

Publicado por Miklos Kazantakis às 09:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 21, 2008

Um raio de sol.

Afinal, mesmo sem o querermos, todos temos uma estrela na vida. Um estrela que aquece e brilha para nós durante tanto tempo do nosso caminhar...

Ando há anos nisto.
Tenho dias que quase desisto, outros chego até a não me suportar com esta obsessão.
Só quem tem objectivos bem definidos na vida é que poderá, de alguma maneira, perceber o que é isto de se ter uma obsessão e lutar por ela.
Desde que me lembro que quero agarrar um raio de sol.
Quero tê-lo na minha e sentir aquele calorzinho único.
Claro que estamos a falar de um raio de sol daqueles matutinos que entram pelas frinchas das janelas ou das portas e alegram-te por segundos.
Reconfortam-te por breves segundos porque tens a consciência, nesses poucos segundos, que a vida corre normalmente e que o sol se levantou de novo para mais um dia.
Sim, eu tenho pavor só de pensar que um dia me levantarei e o sol não.
Não quero estar lá.
Por isso, e por ter tido este pensamento muito cedo, quando muito tinha 6 anos, que desde então tenho lutado na minha vida por ter um raio de sol na minha mão.
Sim, daqueles dos primeiros segundos da manhã, onde apenas se escuta os pássaros e as flores sorriem.
Fiquei ainda mais determinado nesta minha odisseia quando vi um filme chamado "Ladyhawke" de 1985, realizado por um senhor chamado Richard Donner.
Esta é uma história tão bela quanto assustadora, inventada e escrita por um tal Edward Khmara, um simples mortal que se calhar deve ter a mesma obsessão que eu.
Inventou este senhor um feitiço, já que a história se passa na idade média, feito por um bispo a uma bela mulher quando esta fugiu dos seus intentos de se casar com ela.
A bela dama estava apaixonada por um destemido guerreiro, também ele belo.
Esse feitiço ditava que de dia essa bela mulher se transformava num falcão possuído por esse belo guerreiro e que, de noite, ele se transformava em lobo possuído por essa bela mulher.
O único momento em que se podiam tocar e ver, como homem e mulher, era precisamente nos primeiros raios de sol quando a lua deixava o seu palco.
Único.
Chorei baba e ranho pelo infortúnio daqueles dois.
Se calhar, no fundo chorei por mim, pelo meu infortúnio de nunca ter tido, até hoje, um pequeno raio de sol nas minhas mãos.
Não me canso e não desisto.
Já estive mais perto e mais longe.
E todos os dias são dias passíveis de alguma coisa boa me acontecer e ter, nem que seja por breves segundos, o calor de um raio de sol acabado de nascer para um novo dia.

Publicado por Miklos Kazantakis às 02:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

agosto 20, 2008

"Inventar a Solidão"...

"Inventar a Solidão" de Paul Auster (ASA)
Este é mais um best-seller austeriano que, apesar de já ter sido publicado em 1982 nos EUA, só agora foi editado em Portugal.
O livro é composto por duas partes sendo a primeira intitulada de “Retrato de um Homem Invisível”. Aqui o autor tenta, ao longo de cerca de 90 páginas, recuperar a memória do seu pai, num esforço de reinventar a sua vida após uma morte súbita.Um livro que pretende demonstrar que escrever é inventar a solidão para depois partilhá-la. Que, sem ser directivo, mostra o caminho para o auto-conhecimento.
Porque todo o livro que implique uma escrita criativa é um livro de memória.
Para prolongar o momento até à eternidade.
Cláudia de Sousa Dias - 05.04.2005 (www.hasempreumlivro.blogspot.com)

- No outro dia reparei que se fechasse os olhos durante precisamente 33 segundos conseguia ver o futuro.
Olhei para para ela, desconfiado.
Por vezes acontecia-me desconfiar das pessoas que olham para mim enquanto espero o autocarro das 15e22.
Agora tinha mesmo de desconfiar mais seriamente porque ela falou directa e exclusivamente para mim, não se limitando a olhar como se fosse mais um a tirar-lhe o lugar quando o autocarro aparecesse.
Tinha os cabelos pretos soltos que lhe davam pelos ombros.
Era de estatura baixa e magra de carnes.
Vestia uma saia curta e justa vermelha de um tecido forte e um top amarelo.
Nos pés, pequenos e bem feitos, umas sandálias pretas com um pequeno friso dourado.
Olhei para ela, já que me tinha interrompido a leitura do meu "Inventar a Solidão".
- É verdade. Vejo-me num futuro próximo a fazer qualquer coisa, não sei muito bem o que é porque me assusto e abro os olhos e tudo se desvanece. Acontece sempre isto. Nunca consegui ir mais além por causa do susto que aquilo me dá...por mais que tente...
Continuei a olhar para ela tentando ler traços de loucura ou outra patologia conhecida na sua fisionomia.
Ela limitou-se a sorrir. Olhou de novo para baixo, com tristeza.
Que raio! Aquele olhar tocou-me fundo. Comoveu-me porque foi mesmo um olhar sincero e sentido.
Como se ninguém mais a ouvisse ou sequer conseguisse perceber o que as suas palavras queriam alcançar.
Pousei o livro nas minhas pernas e durante breves segundos hesitei até o fechar.
Olhei para ela, como se quisesse encorajá-la a dizer mais qualquer coisa por mais insignificante que fosse, porque agora estaria a ouvi-la e concentrado no que a sua boca-alma me transmitiria.
Atento apenas a ela, ao seu pequeno mundo, às suas visões.
Ela limitou-se a tirar o pé da sandália e esfregar com o seu pé nu a barriga da perna, sempre a olhar baixo e com as mãos apoiadas à borda do banco de espera.
Procurei o que lhe dizer.
Enquanto procurava algo interessante para a estimular a falar comigo e fazer com que perdesse aquele olhar que me "matava" até ao mais profundo do meu ser, ela levantou-se e foi-se embora sem sequer olhar para trás.
Para mim, o único que se calhar a queria ouvir e que tinha desperdiçado a oportunidade...

Publicado por Miklos Kazantakis às 12:03 PM | Comentários (3) | TrackBack

agosto 19, 2008

Duas ou três coisas que eu sei dela!

"É melhor saber coisas inúteis do que não saber nada" Séneca.
Será que esta frase desculpa o que se segue?

Há sempre duas ou três coisas que eu sei dela.
Isso não equivale a que ela saiba os mesmo número de coisas sobre mim.
Aliás, até acho que ela me conhece melhor do que eu.
Não acho.
Tenho a certeza.
Suspeitei durante anos a fio que as mulheres possuíam um tal de sexto sentido. Só suspeitava.
Até que a conheci.
Ela olha para mim e consegue num ápice perceber o que estou a pensar ou a sentir.
E num abrir e fechar de olhos adequa-se ao que aí vem.
Tento perceber como ela o faz.
Mas só tento, o que não quer dizer que o consiga de todo.
Pensei durante umas semanas que o truque estaria na observação. Quer o queiremos ou não, acabamos por ter sempre um padrão de reacções a certos e determinados estímulos.
São sempre maneiras inconscientes que o nosso consciente tem de se defender, ou reagir, à realidade.
Se observarmos alguém durante as semanas suficientes em que acontecem situações de toda a espécie, conseguimos situar e depois prever o que esse alguém fará.
No fundo é como conhecer por dentro e por fora, fraquezas e forças, ponderáveis e imponderáveis, do banco que queremos assaltar antes de gritar por dentro da máscara de esqui: ISTO É UM ASSALTO! para toda a gente que vai ficar sem o seu dinheiro.
Sim, porque quando se faz observações de qualquer espécie, para qualquer fim, há sempre alguém ou algo que perde qualquer coisa.
Nem que seja o tempo que se levou a observar algo sem resultado.
Ninguém correria o risco de o pisar, falo do risco obviamente, se não estudasse a lição toda em casa.
A observação é uma "arma" imprescindível, tal como a G3, num assalto.
Não a tens, arriscas-te. E está tudo dito.
Provavelmente as mulheres preparam-se melhor para o "assalto" do que os homens.
Não olhamos, não vemos, não observamos.
(Que raio fazemos, então?!)
Daí que depois de ter reflectido este assunto durante várias semanas, passei, nas semanas seguintes, a planear o meu "ataque", ou seja, a observação.
E observei.
O problema é que não sou um tipo muito racional, nem paciente, nem disciplinado, itens indispensáveis para uma pura observação científica.
Por mais que tentasse nunca consegui estabelecer qualquer tipo de padrão.
Todas as tabelas que tentava construir com índices, critérios, parâmetros e avaliações iam por água abaixo.
A sua complexidade de pensar e de actuar nunca corresponderam a um determinado padrão esperado por mim.
Ao avaliar aqueles resultados dei-me conta da armadilha que me tinha imposto: queria que ela correspondesse a um determinado tipo de pessoa, com determinados tipos de pensamentos e atitudes.
Estaquei e fiquei sem perceber de que terra era.
Aos 16 anos estas coisas não são fundamentais quando se tenta enga(n)tar uma rapariga.
Faz-se e pronto.
Nem sequer consideramos se ela está atenta às nossas necessidades, seja o que isso quer dizer aos 16 anos, e nós às dela.
Fazemos e já está.
Não há considerações ou considerandos.
Perante isto fiquei mesmo estático.
Defronte de mim a avenida da indecisão, pejada de tráfico, acrescente-se, apresentava-se.
Ou continuava num rumo de propositadamente ignorar, como se ignora que o Pai Natal é um produto feito para trocar sonhos puros e inocentes por dinheiro, ou encarava que não tinha pedal para perceber as minhas infantilidades, quanto mais as subtilezas ínfimas e complexas do sexo feminino.
Achei por bem sair e dizer-lhe que ia comprar cigarros e voltava já...

Publicado por Miklos Kazantakis às 10:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 18, 2008

11 anos.

O tempo é uma arma com a qual não se pode disparar, apenas sentir o seu impacto no mais profundo de nós.

Sempre soube que entre nós nunca haveria um "adeus".
Quando muito, um "até já" ou "até logo".
Por muito tempo que passe, o espaço desse tempo é sempre diminuto, mesmo que se passem 11 anos.
Desta vez olhei-o bem nos olhos.
Queria saber nos primeiros segundos se tinha a mesma alma de sempre.
O seu sorriso disse-me que sim, embora notasse um cansaço avassalador.
Era o mesmo de sempre não o sendo neste instante em que olho para ele e o vejo com menos 11 anos em cima, menos rugas, mais cabelos e menos problemas.
Olha-me também fundo nos olhos.
Sorrio, como para lhe sussurrar que descanse, que sou o mesmo, embora também não o sendo.
Há um peso entre nós que se vai diluir, de certeza, quando o abraçar e apertá-lo forte para que o tempo não se dilate na realidade.
Para que não haja 132 longos meses, de sóis e chuvas, de flores e ventos, de sorrisos e tristezas, que nos afaste ainda mais.
Sinto-o mesmo cansado.
De tudo. Do que luta e do que já se esqueceu.
Nos seus cabelos cheira-se o peso dos sonhos diluídos, longe do tempo que ainda se batia por pouco mais que um sorriso e um brilho nos olhos.
Agora quase tenho a certeza que foi a sombra dos sonhos não conquistados que moldaram e deram peso aos 11 anos entre nós.
Apetece-me dizer-lhe o que qualquer mãe diria a um filho de olhos tristes e sonhos despedaçados: "Não te preocupes, vai tudo correr bem. Acredita."
Mas não lhe digo nada. Apenas engulo em seco.
Ele abraça-me de alma cansada.
Sinto na minha pele as suas lágrimas quentes e aperto-o com mais força.
Sei no meu íntimo que me veio dizer adeus e eu não consigo suportar essa realidade.
Queria que se passassem mais 11 anos de telefonemas e mails apressados.
De risos e abraços perdidos na dureza do tempo e do espaço.
11 anos depois...um "adeus".
E eu comecei também a morrer.

Publicado por Miklos Kazantakis às 09:42 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 10, 2008

Em busca do futuro.

"O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter." Jean-Paul Sartre (1905-1980)

- Olhe, desculpe, sabe-me dizer onde posso encontrar o futuro?
- Como?!
- Estou um pouco perdido e como nunca aqui tinha estado perdi-me no mapa. Você é daqui?
- Espere aí. Você disse-me que procurava o quê?
- O futuro. Se calhar nunca deve ter ouvido falar...
- Mas o futuro quê? Uma loja, um restaurante, uma livraria que se chama assim?
- Não. O futuro. O tempo das nossas vidas que vem depois do passado e logo a seguir ao presente.
- Está a brincar comigo, não está? Isto é para os apanhados, não é?
- Agora quem não está a compreender sou eu. A brincar? Apanhados?!
- Você está-me a deixar desconcertado...porque que me parece extremamente sincero...nem sei explicar...
- Não, não estou a brincar consigo de todo. Apenas procuro o futuro.
- Mas como assim? É impossível procurar o futuro! É um sítio que não existe. É apenas uma consequência de tudo que fazemos e somos no passado e no presente.
- Sartre?
- Quem?
- Deixe lá. O futuro é um sítio onde nunca estive e queria ir lá.
- Mas o que é esquisito é isso mesmo. É impossível ir lá e vir embora.
- Porquê?
- Porque como lhe disse, se for ao futuro ele passa a ser presente! Eu tentei explicar-lhe que o futuro é uma consequência das escolhas que fazemos no presente, e que as mesmas são afectadas pelo fomos no passado. Eu por exemplo passei do presente ao futuro, que se transformou em presente, falando consigo. Foi uma escolha minha passar assim o tempo.
- Passamos do presente ao futuro e eu não dei por isso? E logo o futuro se transformou em presente...
- Ei, tenha calma...sente-se bem? Não se quer sentar um pouco aqui neste banco?
- É melhor...Meu Deus!
- Sabe, nunca tinha conhecido ninguém que quisesse ir ao futuro. Tirando claro toda a ficção que se escreveu sobre as viagens no tempo. Mas se reparar são mais as histórias das viagens ao passado do que as viagens ao futuro. O passado está documentado. O futuro é sempre no segundo a seguir a este.
- Percebo. Então se parar um pouco de pensar no aqui e agora viajo ao futuro se pensar no daqui a tantos minutos?
- Não sei se será assim tão fácil. O futuro só tem forma consciente em si quando olha, por exemplo, para uma foto quando tinha 5 anos. Depois pega noutra quando tinha 12 anos, noutra quando tinha 20 e outra com a idade actual. Se ligar todos esses fios invisíveis verá um percurso. Esse percurso ganha forma momentânea de futuro. Mas é só por breves momentos, enquanto pensa nas decisões que tomou. Se tivesse feito e actuado de uma maneira diferente não estaria onde está.
- Não estaria a perguntar a um estranho se sabe onde fica o futuro, não é?
- Você só toma consciência de si quando toma consciência dos outros.
- Sartre?
- Quem?
- Deixe lá. No fundo, o que me quer dizer é que não posso de todo apagar quem fui e quem sou. Sou uma soma de todos os momentos, decisões e pessoas que se cruzaram comigo. Só vou ter consciência do meu futuro quando olhar para o meu passado no presente. Certo?
- Acho que é isso. Coloquemos a coisa nestes termos: é assim que eu a vejo, pelo menos.
- No fundo, o futuro só existe quando fazemos planos a longo prazo.
- É, infelizmente. Desculpe tê-lo desapontado.
- Se calhar era o que futuro me reservava.
- Esta conversa comigo num banco do jardim ou o desapontamento de descobrir que o futuro é um fino traço que existe desde que nascemos até que morremos sem dar por ele?

Publicado por Miklos Kazantakis às 01:04 PM | Comentários (81) | TrackBack

agosto 09, 2008

As coisas invisíveis.

Se bem me lembro, " o que é essencial ao coração é sempre invisível aos olhos". Isto pensando no "Princepezinho" do Exupéry.

Sebastião sabia que ainda tinha duas coisas para fazer, antes que o dia acabasse.
Por volta das 16e03 tinha que tirar um fotografia à rua onde habita desde que se conhece.
Foi um hábito que adquiriu há 6 anos atrás quando por acaso viu um filme chamado "Smoke" de 1995 de um tipo que se chama Wayne Wang e que foi escrito por um tal de Paul Auster.
Para Sebastião isto são pessoas que lhe dizem muito pouco, isto para não dizer que lhe dizem rigorosamente nada.
Viu por acaso o filme na TV, numa noite de insónia quando visitou a sua Tia Estér, a asmática.
O filme passava-se numa pequena livraria de bairro nos Estados Unidos, onde apareciam as mais variadas pessoas e falavam de sua justiça.
O dono era um tipo muito cool (o que isso queira dizer...) que ouvia tudo e todos com uma paciência de Job. Sobretudo um escritor que andava com um bloqueio de escrita enorme desde que a sua mulher tinha falecido.
E era exactamente o dono dessa livraria que todos os dias, religiosamente, fotografava a rua à mesma hora.
Fazia-o, porque afirmava ele, a rua ganhava e perdia coisas e pessoas com o caminhar dos anos. E para o demonstrar, tinha grossos volumes de fotos e mais fotos onde se podia ver o "caminhar" da rua durante muito tempo.
A hora era sempre a mesma, pela manhã por causa do sol, e o sítio também era sempre o mesmo.
Numa dessas fotografias, o tal escritor com bloqueio do filme, viu a sua mulher ainda viva com um sorriso enorme nos lábios, enquanto passava na tal rua num dia de sol.
Um instante no tempo que ficou registado. Um sorriso que ficou marcado de uma pessoa que só habitava nesse momento na saudade e no coração do escritor.
Se calhar era por isso que ele fotografava a rua todos os dias.
Só assim nos apercebemos das verdadeiras mudanças: as subtis.
Aquela cena tocou imenso Sebastião.
Aquela noite de insónia transformou-o.
De repente, como se fosse um passe de mágica, ele começou a dar mais importância às coisas mínimas e invisíveis, mas que fazem sempre a diferença.
O seu portefólio fotográfico ia-o provando, subtilmente, sem pressas e sem dar nas vistas.
Nunca lhe passou pela cabeça questionar porquê que de repente começou a dar atenção a pormenores sem pormenor.
Na sua cabeça a explicação era uma não explicação: era assim e pronto.
A pessoa cresce, vai ficando mais madura e as coisas acontecem a quem tem os olhos abertos e está atento.
Era um acontecimento normal, ao fim ao cabo, no caminhar e crescimento de qualquer ser humano.
Fazia-o sem esperar algo em troca do universo.
Fazia-o porque o colocava em sintonia consigo, no seu espaço e no seu tempo.
E nesse dia ele ainda tinha duas coisas para fazer.
A fotografia, às 16e03 da sua rua, a tirar no mesmo sítio de sempre e, também, deixar uma flor, às 16e32, no alpendre da velha Mariana, uma velha só e amarga, para a ver sorrir...

Publicado por Miklos Kazantakis às 02:11 PM | Comentários (210) | TrackBack

agosto 07, 2008

Medo...

O medo faz-nos pensar que não sabemos aproveitar o que quer que seja neste mundo. Ter essa consciência faz-me sempre considerar no que será feito de tudo que guardo na memória quando partir. E isso dá-me medo...

Lembro-me perfeitamente da pergunta, apesar de já terem passado mais de 25 anos.
- Porque te tremem as mãos?
Ela virou-se para mim.
Olhou fundo nos meus olhos e sorriu.
Era um sorriso quente. Um sorriso que só se dá e só se demonstra a quem gostamos muito.
Não.
Utilizemos as palavras como devem de ser utilizadas. Com conta, peso, medida, tamanho e sem falsos pudores.
Era um sorriso que só se dava a quem amamos verdadeiramente. Com o profundo amor que sentimos com um círculo muito restrito de pessoas.
Só assim podem ter uma ideia de quanto quente e terno era aquele sorriso dela.
Na sua cara não havia preocupação, atrapalhação, confusão ou temor por aquela pergunta.
De um momento para o outro eu acho que os pais tiram um curso rápido de "Respostas rápidas a perguntas difíceis" a dada altura da sua "carreira".
Deve ser por isso que ela me sorriu daquela maneira.
(Que falta me faz agora aquele sorriso...)
Como se sabe, as mães têm sempre a virtude de serem muito práticas em relação a tudo.
Claro, menos na compra de sapatilhas, na escolha de cuecas de rapaz e na escolha, sobretudo, do que devem dizer quando um filho se confessa atraído pela professora exuberante e sexy de Português, no 5º ano de escolaridade.
Lembro-me perfeitamente que não me fez festa nenhuma no cabelo. Ou se baixou ao meu nível para me falar olhos nos olhos. Ou encolheu os ombros ou tenha dado um suspiro profundo. Ou sequer me tenha abraçado e falado como se fala a um bebé de 6 meses.
Nada disso. Sorriu. Um sorriso quente e terno de amor profundo e sincero como deve ser todo o amor.
- Eu tremo das mãos porque tenho medo.
- Medo?! Como assim?
- Medo, meu filho.
Lembro-me como se fosse hoje.
Ela virou-se e continuou o que estava a fazer, deixando-me, até há bem pouco tempo a matutar porquê que o medo nos faz as mãos tremerem, se não há nada de assustador quando há paz, amor e muito carinho entre 2 pessoas.
Já faz uns anos que ela partiu sem me dizer nada.
E agora, finalmente, eu percebo porque as suas mãos tremiam.
Percebo, porque foi pouco depois de ela ter partido para sempre que as minhas começaram a tremer quando a saudade dolorosa se instalou pela perda...

Publicado por Miklos Kazantakis às 10:28 PM | Comentários (175) | TrackBack

agosto 05, 2008

Ponto da situação.

Um ponto da situação impõe-se neste blogue. É o que se tenta a seguir, sem muita arte ou engenho, diga-se...

A realidade impõe-se sempre.
Mesmo quando queremos algo mais efabulado, mais fantástico.
Daí que escrever ficção se torne complicado senão dominarmos os "modelos" da realidade.
Criar situações com o seu quê de verosímil não é assim tão fácil.
Eu gostaria de ter o dom de instalar o clima, o mood, o compasso certo para a criação e um modelo só meu. Claro, porque só assim conseguiria ter uma escrita só minha, reconhecida como sendo um assinatura.
Quando escrevemos algo parecido com a ficção, de uma maneira inconsciente, tendemos para "copiar" o autor de quem gostamos muito, ou simplesmente, aquele que lemos no momento.
Sair dos clichés não é fácil mas, por outro lado, é exactamente por aí que temos de começar, pelos clichés, para saber de antemão por onde se não deve ir.
Uma complicação.
Daí que haja gente muito boa a escrever sobre a realidade ou, quando muito, a ter um bom diário. Isto no tempo deles.
Agora vivemos no boom bloguista.
E cada vez há mais e melhores "profissionais" na arte de blogar.
É verdade, é preciso ter arte para deixar um bom post. Para deixar as linhas bem urdidas no sentido de as tornar apetecíveis para quem chega, de repente, e se queira colar a esta janela, que é o monitor do computador.
Obviamente deixo de fora deste acto quem tem menos de 25 anos de idade, uma vez que essa geração nasceu com o monitor no sangue e nos olhos!
Por isso, aos poucos e poucos, tento ao máximo ir deixando de lado os clichés que me dominam, assim como as tendências dos modelos de escrita.
Tento perceber o que faz sentido ler num monitor de xis polegadas.
É óbvio que falo dentro dos modelos da ficção, das short-stories, algo que me diz muito, por serem muito difíceis de fazê-las nascer.
Mas como sou um anónimo neste mundo imenso de blogues, não tenho rigorosamente que provar nada nem uma reputação a manter.
Daí que posso fazer as experiências que bem me der na gana, que não há de haver ninguém que se possa sentir atingido.
Quem não tiver bem pode continuar para o blogue seguinte.
Esta deve ser das desculpas mais oficiais e utilizadas desde os anos 90 do século XX, para quando não conseguimos lidar completamente com o "touro".
"Quem quiser que não olhe, não é obrigado!"
Assim tudo se torna mais fácil, não é?
Hoje deu-me para falar da realidade.
E, querem saber?
Detestei.
Realmente não dou mesmo para isto.
Prefiro o..."Era uma vez..."
E agora?
Vai uma estória?
Era mesmo isso que devia ter escrito...

Publicado por Miklos Kazantakis às 08:07 PM | Comentários (5) | TrackBack

agosto 04, 2008

O Roque e a Amiga.

"O Roque e a Amiga", fazia parte de um programa radiofónico na antena da Comercial no início dos idos anos 80 (mais um saudosismo!). Era um programa humorístico com vários textos que se chamava "Pão com Manteiga" e eu lembro-me de ouvi-lo na companhia do meu irmão mais velho ao sábado pela manhã. O programa teve tanto sucesso que anos mais tarde, a meio dos 80, teve direito à edição de 2 volumes com todos os textos lidos em antena. Era um programa da autoria de Carlos Cruz, José Fanha, Mário Zambujal e outros que já não me recordo. Tenho o 2º volume que guardo religiosamente, já que foi roubado ao irmão da minha primeira namorada. Com esta distância, os textos de "O Roque e a Amiga", são os que me deixam sempre a pensar. O que se segue é meramente uma recriação e apropriação da ideia, já que as minhas saudades são muitas. Ou não tivesse eu crescido nos anos 80 do século XX.

A Amiga entrou de repente, exactamente quando o Roque via uma "Playboy Special Edition".
Contra ao que era costume, Roque corou. A Amiga notou e sorriu com ironia.
Roque, lentamente, colocou a revista no chão e tapou-se com os lençóis da cama.
- Você é insaciável ou simplesmente é estúpido? - Largou a Amiga sem se conter muito.
Fez beicinho, o que lhe dava um ar ainda mais sexy. Ele sorriu perante aquele aspecto tão sensual mas logo reprimiu um pensamento que lhe aflorou possível.
- Responda!
- Bom, querida, não sendo você um homem, duvido que consiga compreender os meandros masculinos.
- Tente, meu caro, nunca se sabe do que serei capaz de compreender no que ao sexo masculino diz respeito.
- Ouça, vá por mim. Há subtilezas muito subtis, se é que me faço entender.
A Amiga fez aquela cara de que vinha aí uma discussão e que ela ia vencê-la sem dificuldade. Aliás, em todas as discussões que tiveram desde que se conheceram, a Amiga ganhou-as todas sem se esforçar muito, além de que fizera sempre aquela cara antes da coisa começar. Só aí o Roque viu a estupidez em que se ia meter.
Como explicar à companheira o que estava a fazer nu, em cima dos lençóis da cama como uma "Playboy Special Edition" numa das mãos?
Tentou.
- Ouça, a querida tem de entender que há necessidades que um homem tem de quando a quando. - Tentou, fazendo a cara de carneiro mal-morto que lhe fazia lembrar o pai quando explicava à sua mãe que não estava bêbado em cima do seu próprio vómito, de gatas na casota do cão.
- Talvez eu lhe possa falar das minhas necessidades de quando a quando, meu caro. Que diz, interessado em ouvir?
Roque viu ali a derrota.
Levantou-se dando o ar físico de que era imune a qualquer catástrofe de palavras.
Foi à cozinha e do frigorífico tirou uma garrafa a meio de JB.
Sentou-se no sofá, depois de emborcar um gole do líquido fresco e logo teve de vontade ouvir no pick-up os Rolling Stones e o seu "Angie".
Olhou em frente e deu de caras com a Amiga nua, encostada à soleira da porta da sala. Tinha um sorrisinho maroto.
- Já lhe falei alguma vez do nosso vizinho Carlos?

Publicado por Miklos Kazantakis às 07:42 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 03, 2008

As Palavras Mágicas.

«Desde sempre, pelo menos que me lembre, que me falam das palavras mágicas.
“Primeiro tens de dizer as palavras mágicas”.
Eis a frase que, quer fosse dita em tom pedagógico, irónico ou provocador, produzia sempre o mesmo efeito. Ia à lista mental das mesmas e começava a experimentar o encaixe perfeito para cada situação. Entre sucessos e tentativas falhadas lá fui aprendendo a importância das tais palavras, ditas mágicas.
Com o tempo apercebi-me que todas as palavras carregam magia, boa ou má. Assim, como noutras poções mágicas – isto sou eu a inventar, nunca fiz nenhuma pois ainda estou a frequentar o grau introdutório no curso das artes mágicas - na dose é que reside o segredo. Tanto pode matar o excesso como a ausência.»
Niklas

Dennis, o Mágico, olhou mais uma vez para o espelho defronte de si. Com todas as lâmpadas em volta, a imagem reflectida era a de um mágico com poderes para lá do inimaginável.
Pela a enésima vez ajeitou o fraque de fino corte e olhou-se e remirou-se vezes sem conta em 6 segundos, virando-se à esquerda e à direita, por cima ou por baixo, a três quartos e mesmo de frente, olhos nos olhos consigo.
Estava impecável.
O fraque comprado recentemente e feito à medida, dava-lhe mesmo um ar de mágico dos anos 20 do século passado. Camisa, colete e papillon branco. Sobrecasaca e calça preta. A compor, um ligeiro cachecol de caxemira branca. No bolso da sobrecasaca, um cravo vermelho, para lhe dar um ar distinto.
Calçava uns sapatos que tinham sido do seu avô, negros como carvão mas eficientemente engraxados pelas mãos mágicas de Dennis, o Mágico.
Aqueles sapatos eram o seu amuleto, que guardava e usava como um tesouro. O seu avô já era mágico e tinha-lhe passado todo o seu amor e arte pela prestidigitação.
Recordava-se Dennis, quando era ainda o simples Noquinhas, diminutivo dado pela sua irmã mais nova na dificuldade de articular Norberto, que o primeiro truque mágico que tinha posto os olhos em cima era o de uma borboleta de mil cores a esvoaçar dos bolsos de Dennis, o Prestidigitador, seu avô.
Mas o que gostava mais de ouvir, eram mesmo as palavras mágicas, símbolo máximo de um poder só ao alcance de alguns, como lhe disse vezes sem fim o seu avô Dennis, ou melhor, Norberto Leça, o homem dos mil ofícios.
Para Dennis avô, ser mágico era um amor que, se pudesse, trocava de bom grado em milésimos de segundo pela sua profissão de marceneiro num estaleiro de barcos de pesca. Profissão que abraçou depois de ter sido arrumador de cinema, varredor, mecânico, pastor de gado, oleiro, taberneiro e apicultor.
Quando Dennis, o neto, via num palco qualquer, desde das quermesses da rua ao palco do auditório municipal, o seu avô Dennis, o Prestigitador, o mundo parava e abria-se um mundo novo e admirável de magias.
Claro, ao som de certas palavras mágicas que só se passavam de ouvido para ouvido, de pais para filhos, de avós para netos.
Foi assim que aos 7 anos de idade, Noquinhas decidiu ser Prestigitador até ser velhinho e poder passar as palavras mágicas para o ouvido/coração de um neto, amante daquela arte e daquelas palavras.
Nunca escreveu as palavras mágicas em lugar algum. Sabia-as de cor, desde que o seu avô Dennis lhas tinha dito ao seu ouvido, num Verão qualquer de má memória, pouco antes de ter partido para todo o sempre para as Terras Mágicas.
Deixou-lhe uma caixa de cartão com os seus sapatos e nos seus ouvidos as palavras mágicas. E depois foi-se embora, para ser, com toda a certeza, o Dennis, o Prestigitador para todo o sempre, como sempre foi o seu desejo.
Quanto a Norberto Leça, o homem dos mil ofícios, esse já tinha falecido quando a mulher recém-casada lhe proibiu de ser Prestigitador a tempo inteiro, se queria continuar casada com ela. Ser prestigitador não era uma vida responsável e digna.
O amor tornou-se assim numa palavra sem magia alguma, lembrou-se de pensar Noquinhas anos mais tarde, quando soube dessa história, que o fez chorar 7 dias seguidos em que choveu sem parar.
Foi assim que, em honra do grande Dennis, o Prestigitador, que Dennis, o Mágico, se iria estrear no Casino Mil Sonhos numa noite fabulosa de Agosto em companhia de Mary Berta, sua assistente em palco e em vida. Que nunca lhe fez prometer por palavras o que quer que fosse!

Publicado por Miklos Kazantakis às 12:55 PM | Comentários (3) | TrackBack