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julho 31, 2008

O tipo da esquina.

A verdade.
Alguém sabe se ela existe?

- Que quer que lhe diga?
- A verdade, nem mais, nem menos.
- Straight, sem gelo...
- Brincamos?
- Por vezes...quem gosta da vida straight? "On the rocks", a coisa adquire outro sabor. Mas quer a verdade nua e crua, não é?
- É pedir muito?
- Sei lá eu! Se lha conto tal e qual vai-me achar lunático. Estou num beco, entende?
- Nem por isso.
- Pois...Eram para aí 23 horas, quando saí do pub...
- Qual?...
- Chiça, homem! Já me fartei de dizer o nome do tasco a outros agentes. Vocês não trocam informações?
- Queremos ver é se você não se troca. Nome.
- "El Pombero". Curto aquilo porque as cotas giras param lá para dançar aquelas cenas latinas. Ok, já percebi, eu continuo. O supérfluo nunca encheu mentes de ninguém, sem ser a dos fantasiosos e dos tipos da semiótica e da filosofia.
- Quer que volte daqui a 5 minutos, quando acabar a introdução e prosseguir com o seu relato?
- Interessante. Não lhe chamou história mas sim relato. Os factos nus e crus, a verdade acima de tudo...
- Bom, parece que nos saiu em rifa um papagaio. Só que este fala do que não interessa.
- As minhas 9 namoradas acusaram-me do mesmo. Interessante. 10 pessoas não podem estar erradas, efectivamente...
- Camaradas, cheira-me que vamos ficar aqui a noite toda...
- A verdade tem um tempo próprio. Só dela. Um tempo que está envolto num nevoeiro muito denso, que só as partículas de pó podem entrar. O pó é sempre o peso do presente que, dentro da verdade, se torna passado. Ui...ando a ler Murakami demais...
- Alguém tem trocos para a máquina do café?
- Só quando o nevoeiro se dissipa, o que é raro digo-lhe já, é que a verdadeira verdade se impõe. A verdade tem sempre três vertentes. A minha verdade, a sua e a da imaginação. Foi uma tipa americana que disse isto, sabe?
- Ouça amigo. A minha Faculdade já a fiz há muito. A faculdade que agora possuo é a de ouvir. E ouvir unicamente a porra da verdade. Preciso de lhe fazer algum desenho explicativo da simplicidade que pretendo?
- Sim, simples. Dizem que a água é simples, mas duvido, sabe? Mas não há tempo. A verdade quer-se.
- Será desta?
- Saí do "El Pombero" por volta das 23 horas, depois de ter levado uma nega de uma cota de se cair para o lado. Na esquina da rua Brilhante com a Passadiço dei de caras com um tipo.
- Descreva-nos esse tipo.
- Sabe...é difícil. Era tão normal, tão normal que não fixei o que quer que fosse dele. As pessoas normais têm sempre esse defeito: nunca nos lembramos delas para nada. Lembramo-nos das situações normais, das cartas normais, dos passeios normais, das viagens normais mas nunca, nunca das pessoas normais. Sabia?
- Vou assentar isso para me esquecer para a próxima...
- Estava escuro. O tipo nunca saiu do escuro, apenas lhe via o vulto e o fumo do cigarro. Cena digna de um film-noir dos anos 30, não?
- Se o diz...
- O tipo chamou-me. Nunca deu um passo. Cheguei-me ele. Com uma voz bastante calma disse ser o Diabo em pessoa...
- Como?
- Viu? Eu bem lhe tinha dito que me ia chamar lunático se lhe contasse a verdade tal como ela é.
- O Diabo, disse você?!!
- Sem tirar nem pôr.
- E você acreditou?
- Acreditar em algo é deveras judaico-cristão. Se acreditas és um iluminado por algo, se não acreditas és um raio de um desconfiado nas leis do mundo. O tipo disse e eu nem pensei se acreditava ou não, apenas me cheguei a ele para o ouvir. E nem foi preciso perguntar ou falar ou acreditar em nada. O tipo disse-me que se não acreditava que fosse ao nº 12 da Rua Ventosa, que ele lá apareceria tal como é.
- Você bebeu, drogou-se ou saiu de alguma instituição?
- A verdade afinal depende de quem a ouve. Nunca de quem a viveu e a guarda...Estranho, este mundo...

Publicado por Miklos Kazantakis às 07:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

julho 30, 2008

Cara amiga...

Há cartas que se revelam como definidores de personalidades.
Mas já não existem cartas escritas em papel e com esferográficas para uma pessoa que está perto ou distante. Já não se contam façanhas, tristezas e vontades. Já não se quer saber de notícias do outro lado e desejar que "esta vos vá encontrar de saúde".

"Cara amiga,
deixe-me que a trate por cara amiga, embora de amiga você já tenha pouco. É apenas uma questão de cortesia da minha parte, já que nem sequer se pode considerar que seja boa educação.
É que existe uma diferença enorme entre entre ser cortês e ser educado. Sou simpático por natureza para quem conheço e para quem não conheço de todo.
Tenho um amigo, esse sim verdadeiro, que se esforçou por me dizer que primeiro somos bem-educados e depois é que somos corteses. Eu discordo. Sou educado para quem quero mas devo tratar bem toda a gente, mesmo sendo frio e distante, arrogante ou prepotente, embora não me considere tais coisas. É de mim.
Escreveu-me você uma missiva que data dos fins de Março.
Se só agora lhe respondo é porque levei este tempo todo, embora o tempo não tenha noção do tempo que leva e do tempo que contém, para saber se lhe havia de responder e, se lhe respondesse, o que lhe haveria eu de escrevinhar.
Como vê pela presente, considerei escrever-lhe umas quantas linhas, embora sabendo de antemão que não irá apreciá-las, quanto mais guardá-la nessa caixinha de madeira gasta que utiliza como recipiente de memórias dos outros.
Confesso que me intriga se tem guardada algures uma caixinha com memórias suas. Mas adiante, isso são contas de outro rosário.
Prometi-lhe uma breves linhas e tenho de fazer jus à minha promessa, algo para si é impensável: cumprir algo a que se comprometeu e prometeu.
Quando li a sua carta, não interessa o que tenha sentido ou pensado, achei apenas que a Primavera, que tinha acabado de entrar neste ano das nossas vidas, não lhe tocou a alma por aí além.
Triste por sabê-lo e ainda mais constatá-lo.
Afinal, mesmo sem o querer lá vou desabafando alguns, poucos, sentimentos de ler as suas tristes frases.
Cara amiga, não me fez qualquer tipo de favor em despedir-se de mim por carta. Sou eu que lhe agradeço. Afinal, seria bem pior se não o fizesse de todo ou se o fizesse cara a cara, correndo assim o risco de lhe virar as costas e não lhe responder, como agora o faço.
Para quem prometeu, sim, prometeu, lutar por mim e por aquilo que os dois queríamos, vejo-me forçado a constatar que afinal o meu juízo de valores em relação a si ficou prostrado pelas calçadas sujas e bafientas da cidade onde vive.
Se lhe prometi amor, amor lhe teria dado. Se lhe prometi futuro, ele seria eterno. Se lhe prometi a mais pequena coisa deste mundo, era porque considerava que a podia satisfazer.
Agora queria, cara amiga, que considerasse o seguinte. Sou casado vai para 5 anos com D. Cecília de Bourbon, Condessa de Almanter e Viscondessa de Bourbon. Temos 2 filhos, Edmund Ephilias com 6 anos e Constância Almedina de 4. Ocupo o cargo de Conselheiro Estadual do Imperador e tenho relações com todos os Imperadores e seus Ministros de todo o mundo ocidental. Como vê, tenho uma vida instalada e que corre a todo o pano.
Por vezes sinto até que a minha vida não acompanha de todo o modernismo em que vivemos, uma vez que a sinto galopar muito mais depressa, muito mais profunda. E o mais admirável de tudo é que me sinto capaz de a domar e ter os reflexos necessários para a ajustar sempre que necessário.
Perdoe-me esta confidência, cara amiga, mas espero que compreenda que a estima que tinha por si era por achar que compreendia as vicissitudes desta minha vida interior e exterior, apesar da sua tenra idade, uns inocentes 22 anos.
Conheci-a num momento de ajuste e achei que poderia ser a minha alma feminina. Apesar dos meus 40 anos de idade sinto que tenho um lado feminino.
Considerei que poderia ser o meu pêndulo e o meu segredo.
Escreve-me você que "ser minha progenitora" é algo que nunca quis para alguém que estivesse ao seu lado, "muito menos prostituta de luxo privada".
Como vê, era impossível ficar indiferente ao que me acusa, embora o tenha tentado, acredite.
Mais lhe digo, cara amiga, não vejo, num futuro próximo ou longínquo, a mulher ganhar capacidades para pensar por si. Ganhar capacidades para ser um ser individual de vontade férrea, independente. Com capacidades para discernir e actuar em conformidade.
A mulher estará sempre na sombra do homem, por muito que lhe custe aceitar.
Nunca na vida homem algum adormecerá nos louros conquistados, enquanto a mulher ganhará qualquer estatuto perante a sociedade. É impossível acreditar e contar com as mulheres, como foi exactamente o seu caso comigo!
Queria-lhe instalar casa, criados e serventias dignas de uma Baronesa. Tenho pena que tenha desdenhado do meu papel superior para consigo. Mulheres da sua estirpe serão o fim do mundo ocidental, tal como o conhecemos, se um dia virão a comandar qualquer destino da nossa sociedade.
Mas como isso NUNCA acontecerá, nunca mulher alguma pode ser comparada com as minhas qualidades e virtudes, deixe-me então dizer-lhe que o seu futuro será mesmo vaguear nesses becos bafientos e conspurcados dessa cidadezinha onde habita e tenta sonhar algo maior que você!
Cara amiga, os meus mais sinceros cumprimentos para alguém com visões lunáticas e desfasadas da realidade envolvente.


Adolfo Carlos de Borba e Mouton Bourbon, Marquês de Alem-Rio e Visconde de Samonde, Abrunheira, 13 de Abril de 1852."

Também há cartas que nunca deveriam ser escritas, quanto mais lidas...

Publicado por Miklos Kazantakis às 01:57 PM | Comentários (2) | TrackBack

julho 29, 2008

"Agarro a madrugada..."

‘Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.’

Excerto de Um Homem na Cidade de José Carlos Ary dos Santos

Hoje olhei para longe, ainda o sol se levantava, de mansinho, como se não quisesse acordar ninguém.
Estava só, contigo nos meus braços a dormir descansadamente. Parecias um malmequer ao vento suave de uma tarde qualquer.
Lembravas-me aquela pessoa que mal me quis, disse que os seus dias dali para frente não seriam nunca mais os mesmos.
Senti o mesmo, embora nunca to tenha dito.
Sou homem, e guardo uma data de coisas e coisinhas numa caixa bem pequena, daquelas que poderia partilhar ou simplesmente dizê-la por a estar a sentir.
Volto a olhar para longe e imagino-te a voltares-te de lado nos meus braços, continuando a dormir profundamente, como se tudo não passasse de um sonho...que o é. Meu.
Lembro-me dos teus sorrisos de mulher feita, ao descobrires que guardava orgulhosamente a tal caixinha de coisas partilhadas e sentidas.
Perante a minha traquinice, tentaste que me desfizesse dela aos poucos e poucos, como se insiste com as pétalas de um malmequer para ver se ele bem-pouco-ou-nada-me-quer.
E eu guardei-a mais. Com muito pudor e pouco amor por ti. Com muito orgulho sem sentido e com indiferença à tua partilha.
Acordas quando um raio de sol toca nos teus olhos fechados. Imagino-te a olhares para mim e sentires-te segura daquilo que te dou....
Deixo de olhar para longe porque sei que o teu acordar, o teu olhar e o teu carinho não passam de uma vontade da minha imaginação.
Ponho o vinil a rolar a 33 rotações.
A voz do Carlos do Carmo penetra pela manhã que entra no meu quarto e em mais um dia da minha vida, e canta para a minha dor:
‘Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.’...


Publicado por Miklos Kazantakis às 01:25 PM | Comentários (3) | TrackBack

julho 28, 2008

O Ponto.

Tememos e temos sempre o ponto.
O ponto final; o ponto e vírgula; o ponto de exclamação; o ponto da situação; até que ponto...;és um ponto; o ponto cardinal; o ponto de observação; o ponto de apoio; o ponto indefinido; o ponto de restauro; o ponto G; olho para para ti e ponto e temos alguns pontos em comum. E posto isto há sempre um ponto que se une a outro ponto formando um novo ponto de intersecção. Ponto final.

- E continuas calado...
- .
- Lembro-me que tive uma namorada assim. Não atava nem desatava. Para ela era era tudo ponto. Até termos um ponto final. Aliás, eu é que coloquei o ponto final naquilo tudo.
Para ela era simples. Se eu questionava, se eu me admirava, se colocava reticências, ela apenas colocava pontos finais.
No início até acreditei que nos complementava-mos, mas com o andar da carruagem começou a haver pontos finais a mais para poucas frases em comum.
Eu costumava dizer que o seu ponto ficava sempre aquém do final, como se apenas fosse movida pelas incertezas, certezas, considerações, questões, orientações e outras assumpções que quem estava ao seu lado ia fazendo, carregando, trazendo, fazendo.
No fundo, ela vivia como a moreia: no meio das pedras à espera que o mergulhador a fizesse sair da toca a troco de um pedaço de peixe para umas fotos.
Nunca a vi ter vontade própria, a não ser para colocar um ponto em cada situação, fosse ela boa ou má, indo sempre embora depois disso.
Se calhar tinha vontade própria, ao colocar pontos onde lhe apetecia, apesar de se submeter à vontade dos outros, sempre.
Vês? Nem sei muito bem o que consigo achar dela, agora que passaram tantos anos depois do último ponto final. O meu ponto final.
Que achas?
- .
- Pois...já se estava mesmo a ver.
Nunca consideraste que tens que "soltar os cães", por vezes?
Por um lado para saberes que tens "cães para soltar", o que faz de ti vivo e a pensar por ti. E por outro, dizeres na cara que o que sentes, não se limitar ir até um ponto qualquer determinado, é dizeres o que tens a dizer até um ponto que tu próprio criaste.
Por isso, se fosse a ti, tentava criar um ponto de contacto com os outros, ou faço-te como fiz com a minha namorada: deixo-te a colocar pontos sozinho e faço de mim um ponto distante demais para estar próximo...

Publicado por Miklos Kazantakis às 01:16 PM | Comentários (209) | TrackBack

julho 27, 2008

A queda.

Saber cair deve ter sempre a mesma dignidade que saber levantar-se. Pelo menos deveria, digo eu.

Quando se deu conta estava no chão.
Parecia-lhe que tinha acordado nesse momento, só que em vez de ser na sua cama fofa, era mesmo em cima do cimento agreste e frio do passeio.
Olhou em volta.
Toda a gente que estava naquele momento a passar parou. Olhava-o, desconfiado.
Estaria bêbado? Drogado?
Alguém lhe estendeu a mão para o ajudar a levantar-se.
Sorriu levemente mas recusou com a toda a graciosidade que pode ser possível em alguém que acabara de cair de bruços no passeio.
Voltou a olhar em volta.
As pessoas começaram aos poucos e poucos a continuar as suas vidas, ainda desconfiadas.
Deve estar mesmo bêbado ou drogado, para não aceitar uma simples ajuda. Coitado...
Levantou-se com toda a dignidade. É preciso saber levantar-se quando se cai de frente.
Sacudiu com estremo cuidado a camisa Mike Davis azul clara, os jeans Denim e deu um acerto aos sapatos Vela castanhos.
Pareceu-lhe estar tudo em ordem outra vez.
Bêbado, drogado...como se fosse possível...
Voltou a olhar em volta.
Já ninguém se dava conta que ele tinha acabado de cair de bruços no passeio. Aliás, muitos deles, os que continuavam a passar, nem se davam conta de que ele existia.
Mas, e tentou pensar nisto claramente, porque tinha caído no passeio e nem se tinha dado conta?
Procurou uma pedra ou outro objecto que pudesse ser o causador de tão estranha e embaraçadora experiência.
Nada!
Voltou uns minutos atrás em pensamento e tentou recordar-se do que o tinha distraído ou absorvido ao ponto de o fazer cair estrondosamente de bruços no passeio.
Parecia-lhe que o tal dito popular, "A vida por vezes prega-nos rasteiras quando menos esperamos", fazia sentido naquela situação sem tirar nem pôr.
Mas o pior, considerava agora ele, era o olhar que aquelas pessoas lhe tinham dirigido. Um olhar cheio de recriminações, objecções e preconceitos. Como se fosse uma coisa imcompreensível e impensável o cair em via pública. Quase um crime de "lesa-majestade".
Ainda não tinha conseguido andar para sair dali, do sítio que o fez acordar de repente.
Recordou mais uma vez os seus olhares. Sentiu-se sujo, como se ainda tivesse aqueles olhos pungentes, cortantes colados ao seu ser.
Tentou ainda lembrar-se do último pensamento antes de "acordar" no passeio...
"Ah, sim!".
Tinha pensado que há pessoas estúpidas q.b que logo de manhã eram apressadas e mal-humoradas e...
Isto só de olhar para elas.
Teve logo ali a sensação clara que tão cedo aqueles olhos ainda colados a si, não se iriam desvanecer tão cedo...

Publicado por Miklos Kazantakis às 02:26 PM | Comentários (1) | TrackBack

julho 26, 2008

Estavas lá?

Estar não estando ou não estar estando torna tudo menos perceptível, enganoso, dissimulado e de dúbia aceitação. Um caminho simples para o engano e a hipocrisia.

"Estar não estando ou não estar estando torna tudo menos perceptível, enganoso, dissimulado e de dúbia aceitação. Um caminho simples para o engano e a hipocrisia."
Fechou a contra-capa do livro.
- Sai-me cada uma na rifa!
- Querias que te dissesse o quê? Que tu eras na verdade o tal do Príncipe que andavas perdido algures num reino e que voltaste da Odisseia a tempo de salvar a Princesa e casar com ela?
- Desposá-la, se faz favor
- Tenho dias que não te percebo...
- É assim tão grave?
- Sei lá! Contigo deixa de ser normal o que se entende por normal e passa a calamitoso dentro de uma escala parecida aos tremores de terra.
- Não foste tu que disseste que para uma estória nascer, bastava alguém querer contá-la e outro alguém querer ouvi-la?
- Sim. E?
- Achei que se lesse a contra-capa de um livro qualquer à sorte um estória surgisse.
- Assim...tal qual artes mágicas...
- Bem...quando muito com uns pózinhos de perlimpimpim. Só para tornar a coisa ainda mais fantástica.
- Fico sempre a achar que a razão te tolda por demais o teu senso comum.
- Que eu me lembre também foste tu que disseste que uma estória sai de um coração para entrar noutro, certo?
- Sim...
- Queremos a razão do senso comum para quê?
-Porque estas coisas, seu matraquilho sem óleo, não nasce porque simplesmente queres aplicar uma fórmula que viste resultar para alguém. Cada um tem a sua. Tal qual como um segredo, só que este segredo podes contá-lo a quem quiseres porque o segredo varia de pessoa para pessoa. Cada um tem o seu.
- Anh?
- Perdi-te algures, não foi?
- Explica como se tivesse 10 anos. Vi isto num filme e resultou.
- Vês!? Lá estás tu...
- Estou eu o quê?!
- A querer aplicar em ti o que resulta nos outros. Ouve lá, ó marialva, já alguma vez leste alguma história, estória,(h)istória, conto, pequeno texto, o que lhe quiseres chamar, escrita por alguém que fosse igual a uma outra de outro escritor? Consegues ter estilos de escrita idênticos em dois contos diferentes?
- Pois...quando muito parecidos mas nunca idênticos, não é?
- Bem me parecia que a tua cabeça de alho porro dava para cultivar outro tipo de culturas. Daí que a fórmula utilizada por mim para te contar ou mesmo escrever uma estória nunca será igual a ti. O que eu sinto, o que eu vivo, o que eu digo nunca é igual a ninguém. Pode ser parecido, mas nunca igual.
- Estou estarrecido e siderado com a tua explicação.
- E eu esgotado de explicar aquilo que já sabes sem saberes que sabes.
- Anh?
- Lê lá outra vez a contra-capa do livro e cala-te...

Publicado por Miklos Kazantakis às 09:20 PM | Comentários (0) | TrackBack

julho 25, 2008

O espelho.

A imagem que deveras é tua, será reflectida por um qualquer espelho ou, como diz a canção, só vês o que queres ver?

Desceu as escadas perdida nos seus pensamentos.
Ia algo apressada apesar de não ter um fim ou objectivo preciso para onde se dirigia.
Aliás, nem sabia muito bem para onde caminhava.
Andava apenas.
E como fazia parte da sociedade feminina activa, caminhava apressadamente. O impacte nos outros é sempre outro.
Quando dobrou a esquina, depois das escadas na calçada, deu de caras consigo própria, apressada, a passar em frente a uma montra espelhada. Olhou de soslaio, sem tentar dar muitos nas vistas para si própria.
Como é raro ver-mo-nos durante horas e horas por dia, quando damos de caras connosco algures, que não seja no espelho da nossa querida e salvadora casa-de-banho, demoramos alguns minutos a perceber que realmente somos nós ali reflectidos. E muitas vezes temos surpresas...
Com ela sucedeu o mesmo.
Tentava não dar nas vistas e tentava muito menos parar frente ao espelho e demorar-se a olhar para si.
Para começar, em casa não tinha um espelho do tamanho daquela montra, onde se podia observar a toda a altura e com espaço para caminhar para ambos os lados. Depois, dentro de casa não temos o mesmo impacto da luz.
É verdade, por muita luz natural que entre na divisão onde temos o nosso espelho colocado, nada bate aos pontos a luz natural sem filtros de janelas ou cortinas.
Aquele sol radioso estimulava a cor do seu vestido, um azul turquesa bastante discreto.
Mas algo foi mais forte do que ela. A pessoa que estava reflectida na montra espelhada clamava por atenção e pedia-lhe para parar, para a olhar de frente.
Pensou que aquela ideia de outra pessoa pedir-lhe que lhe desse atenção devia ter sido a ideia mais estúpida que tivera desde que tinha decidido ir de férias num grupo de seis pessoas para Barcelona e ter bebido até se esquecer.
Abrandou o passo.
Sentia-se dividida entre o que ela pensava, o que as outras pessoas que ali passavam achariam da atitude dela a olhar-se ao espelho e o que a pessoa que estava a ser reflectida lhe pedia cada vez mais insistentemente.
Parou e olhou em volta. Os outros transeuntes passavam cada um "enfiado" na sua vida e seu mundo de coisas.
Provavelmente ninguém notaria, se ela se acercasse da montra espelhada e se admirasse. A pessoa reflectida concordou vivamente com ela e pediu-lhe ainda mais.
Achou por bem ter um subterfúgio. Não podia ser assim tão descarada.
Agarrou no telemóvel que tirou da bolsa de pano verde claro que trazia a tiracolo e começou a falar como se tivesse recebido ou feito uma chamada. Acercou-se mais da montra e, sem estar de frente, ia-se mirando e admirando. Pareceu-lhe que a pessoa reflectida sorriu satisfeita.
- A sério, meu querido? - O vestido tinha o seu quê de "demodé", com aquelas alças azuis mais escuras que o azul turquesa do vestido. Dava-lhe um ar de grávida.
- E pareceu-te bem, assim de repente? - A bolsa a tiracolo também iria para o lixo. Nunca tinha reparado que aquele verde claro ficava mal com aquele vestido, como também o conjunto de vestido e bolsa lhe davam um ar de grávida a caminho da praia. Que coisa mais detestável...
- E achas que consegues ir lá comprar, meu querido? - Observava agora as sabrinas brancas que tinha comprado há dois dias atrás e que compunham o conjunto descomprometido que ela tinha decidido ser melhor vestir nessa manhã de início de Primavera. Achava-se uma imagem reles e sem graça. Sem o sentido feminino que achava que tinha naturalmente. Sem o ligeiro charme apelativo que achava que fazia parte da sua personalidade.
Questionou-se por momentos se seria ela mesma que estava a ser reflectida no espelho ou se era outra pessoa qualquer. Se calhar era mesmo aquela pessoa que lhe tinha pedido minutos atrás que parasse em frente à montra para se observar.
Ela não conhecia de todo aquele ser ali reflectido.
Quem era afinal que estava ali à sua frente?...
Deixou de falar para o telemóvel, mas com ele ainda no ouvido virou-se de frente para a sua imagem. Ou se calhar, para a outra imagem/pessoa diante de si.
Por breves momentos, enquanto olhava, achou que a imagem/pessoa à sua frente deixava escorregar, face abaixo, duas grossas lágrimas e lhe pedia ajuda através da maneira como lhe olhava olhos nos olhos e lhe sorria tristemente.

Publicado por Miklos Kazantakis às 02:59 PM | Comentários (1) | TrackBack

ALERTA!

Alerta: todas as estórias, ou (h)istórias (obrigado pela sugestão cbg) aqui deste blog já escritas, podem sofrer alterações. O tempo tudo cura e tudo altera. A distância cria alternativas e dá-nos novos vislumbres e/ou perspectivas. Assim a escrita flui e tenta-se com isso ter alguma qualidade. Atenção que eu escrevi "tenta-se", o contrário de se obter ou ter!

Publicado por Miklos Kazantakis às 11:55 AM | Comentários (1) | TrackBack

julho 24, 2008

O coiso.

- Assim de repente esse coiso não me diz nada!- Disse ela sem vontade nenhuma de o voltar a ouvir.

- Mas acredita que sempre houve, desde que a vi, um coiso especial...
Ele olhou-a de maneira especial, esperando quem sabe, um olhar de volta ainda mais especial. Se aconteceu, foi só na imaginação dele.
- Acha que é possível sentir isso?
- Isso o quê? - respondeu ela sem tirar os olhos do livro.
Ele debruçou-se para ver que livro a desviava de uma conversa que ele se esforçava para manter séria e profunda. Leu "À Procura de Platão".
"Ui", pensou ele, "não me tinha apercebido que ela gostava dessas coisas".
Tentou interiormente que isso não o desviasse um centímetro do seu objectivo: olhá-la nos olhos e dizer-lhe que sentia uma coisa especial.
- Pergunto se acha que é possível sentir um coiso especial por determinada pessoa. - Voltou ele à carga.
- Assim de repente esse coiso não me diz nada! - Disse ela sem vontade nenhuma de o voltar a ouvir.
Ele não percebeu a intenção dissimulada dela e, quase sem pensar, atirou:
- Mas são coisas que podem acontecer-nos assim sem estarmos à espera. Um coiso que bate e "prontos", não é?
Ela virou a página com interesse ou, pelo menos, disfarçou muito bem que estava interessada.
Ele esperou que ela retorquísse.
Ela virou mais uma página depois de ter gasto alguns longos minutos supostamente a ler o que o Platão andou a espalhar pelo mundo das ideias corpóreas e incorpóreas.
Na sua ideia, ele esperava conscientemente que ela estaria a fingir que lia pensando naquilo que ele lhe tinha dito. Inconscientemente, ele ia tendo a certeza que nem no próximo século a levaria dar um passeio pela praia num pôr-do-sol de mãos dadas.
Um dos problemas masculinos é que não está acordado o suficiente para escutar a sua "voz inconsciente", por isso insistiu.
- É uma coisa que não consigo explicar lá muito bem, sabe? Como se o coiso que falo fosse muito além, topa? Fora de mim...
Ela olhou-o, finalmente, de frente. Olhos nos olhos.
- Se não consegue explicar-se o que é o coiso, das duas uma: ou não sabe do que fala ou fala sem pensar. Geralmente costumo conversar e trocar ideias com quem apenas quer fazer unicamente isso. O tempo de pensar divide-se em dois estados. Há um tempo do surgimento e percepção da formação de uma ideia. Estabelece-se assim um princípio de introspecção e formula-se uma linha de pensamento ilógico, orientado unicamente em separar o trigo do joio, se me quiser entender a um nível de compreensão básico. Seguidamente temos o tempo de assimilar, comparar e criar um espaço só seu no mundo das ideias. Das suas ideias e das dos outros, porque a sociedade em que vivemos assim o exige, se quiser partilhar e esperar um feed-back daquilo que o seu raciocínio produziu. Pensar unicamente para o seu mundinho é visto como egoísta e pouco filosófico. Como vê, o coiso de que fala dificilmente encaixa num destes estados temporais do pensamento. Obviamente que isto é só um vislumbre dos caminhos que nós, seres pensantes, tomamos em relação a tudo que nos rodeia. Mas, pela cara que me está fazer, vou directa ao assunto e numa linguagem que seja perceptível por um macho dominante como você. Atirar o barro à parede a ver se cola nunca foi filosofia de vida para mim. Agora mais a sério: a minha tosta-mista ainda demora muito?
Ele sorriu o suficiente para se mostrar minimamente simpático e para fazer jus à profissão que exercia.
- Está já sair...
Rodou os calcanhares e pelo canto do olho observou que havia outra rapariga de cabelos louros, mini-saia de ganga e top vermelho de alças e, para mais, só, na mesa 32. Esta pelo menos lia calmamente a revista "Nova Gente", página 12, resumo das telenovelas da TV.

Publicado por Miklos Kazantakis às 04:56 PM | Comentários (4) | TrackBack

julho 23, 2008

O início...

Nunca se sabe quando estamos a começar algo até tudo acabar.

Lembro-me perfeitamente de quando tudo acabou.
O mais engraçado é que sempre me falaram que quando tudo acaba lembramo-nos sempre de como começou.
Lembro-me perfeitamente de me terem dito isto mas não me lembrava...melhor, não me lembro mesmo de como tudo começou.
Há pessoas de memória prodigiosa que se lembram de todos os detalhes: a temperatura, a cor do céu (geralmente faz um sol lindo se for algo feliz ou se for algo muito triste a chuva cai. Às vezes impediosamente.), a maneira como se estava vestido, as notícias importantes desse dia, a música que se ouvia numa grafonola ou rádio ou mp3 ali perto (já imaginam o tipo de música de se for uma recordação feliz ou não, não é?) ou, por exemplo, se alguém da família foi lá almoçar, tornando esse dia num dia talismã.
Já se sabe que os talismãs podem dar para os dois lados: coisas boas ou coisas más!
Eu devo ser de uma casta à parte, realmente...
Não me recordo de nada no início.
Também só sei que acabou porque tive de lidar com o facto.
Ainda estou aqui a tentar assimilar como poderei lidar da melhor forma com este sucedido.
Provavelmente muitos de vocês lidariam com a questão de uma forma mais racional, lógica. Avançariam porque chorar pelo leite derramado não o faz crescer novamente nas tetas das vacas.
Outros, mais conectados com o coração chorariam baba e ranho depois de terem comprado uma pistola nos USA via net, terem rebentado com metade da população que assiste à missa das 19h no vosso bairro.
Eu ainda estou a tentar processar a informação, ou melhor, o facto de que algo acabou sem eu me lembrar como começou.
Não se pode dizer que esteja em estado de choque, a cair em mim, a tentar perceber o que se passou, a assimilar ou algo parecido.
Não.
Estou a pensar, agora mesmo, neste preciso segundo, porque raio penso, ou melhor, estou a pensar nisto.
"No início era o verbo", alguém escreveu ou disse, ou pediu a alguém para escrever, perpetuando assim a ideia de início, de começo, de obra, de prolongamento.
Sento-me estafado desta minhas ideias e pensamentos a baloiçarem-me cabeça adentro sem permissão efectiva. Acho que devia ter uma password de acesso aos meus pensamentos ou quando quisesse pensar. Só me autorizaria se realmente estivesse para aí virado. Ou, quando muito, soubesse como tudo começou.
Seria estúpido se, daqui a uns anos, quisesse contar algo aos meus netos e começasse "ERA UMA VEZ", "TUDO COMEÇOU NUM BELO DIA", "FOI ASSIM QUE TUDO COMEÇOU", "LEMBRO-ME COMO SE FOSSE HOJE QUE TUDO COMEÇOU", etc...
Acho que apenas gostaria de começar com:
Espirrei e quando abri os olhos depois do espirro reparei que uma folha caíra de uma árvore perto de mim. Percebi aí que o Verão tinha acabado e que o Outono entrava de mansinho...
Falta saber se os meus futuros netos adormeceriam se lhes contasse este início.
Um início que é já por si uma estória.
Sejam bem-vindos a este blog de estórias.
E agora? Vai uma estória?

Publicado por Miklos Kazantakis às 08:52 PM | Comentários (1) | TrackBack