20.06.12

Mãe, virei batráquio
Eu sei que tu nunca
Nenhuma mãe, afinal
Mas, como podes, diz-me
Após tanta coisa feia que já fiz
Em mim continuar a ver
Algo de minimamente belo?


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Empurro um elefante escadas acima
Atrás de mim, um piano cai desfeito no chão
Há um novo planeta no sistema solar
Não, nada levo escondido na minha manga

Preciso beija-flores, ursos dançantes
De ti, dos teus sonhos mais doces
Um visão d’estrelas, a Lua debaixo d ’olho

Vou rompendo o que for, dobrando colheres
Renascendo, cuidando flores, buscando
Respostas sempre mais, muito mais além



Isto aqui em cima, esta amostra de tradução, até que serviria como definição/objectivo dum blog. Não é meu. Não me importaria nada que fosse. Faz parte da letra duma música escrita por Buck, Mills e Stipe, em 1999, para um filme chamado «Man on the Moon». Caiu, como um piano, por aqui abaixo.

Gostava que este sítio tivesse um pouco de tanto disso. Não vai ser nada fácil. Já deu para ver que um blog pode pesar como um elefante, e que este desajeitado paquiderme pode, de raspão, tocar num piano frágil - frágil como todas as músicas que valem a pena -, fazendo-o tombar em cima de quem está por perto. Melhor será, talvez, fazer desta coisa apenas uma máquina registadora para uso pessoal.





Os templates aparentam ser ricos, democratas gordos, ministros africanos. Sobra-lhes tanto: gavetas em off-shores desconhecidos, tags ou etiquetas, arquivos para todos os gostos, módulos atrás de módulos, dúzias de lugares para referrers, links, botões publicitários e o diabo a sete. Não me levem a mal o pudor eremita - quase tudo parece muito útil para quem deseja interagir com o mundo virtual.

Este sítio, na ausência de tal vocação, não vai ter nada disso. O intento? Criar uma máquina registadora de episódios e impressões, para aqui poder voltar no futuro e conferir o que foi acontecendo, diante e por dentro; para ver se houve alguma evolução, evitar a repetição de erros, coisas assim do meu umbigo e algum cotão que dele extravase. Não por um desígnio que muito importe. Apenas porque a memória, qualquer registo da passagem do tempo, costuma funcionar como um passevite.

16.06.12

carcavelos.png

5 do 6 de 2006, 16 do 6 de 2012. Agora que pouco faltava para este sítio atingir o template perfeito, o nihil quase absoluto, a Weblog, plataforma onde esta coisa chamada blog esteve alojada nos últimos seis anos e onze dias, anunciou o encerramento da sua actividade e arquivos para o próximo dia 22. Fazem sentido as razões desta eutanásia virtual, como já teriam feito há três ou quatro anos. Ter acontecido nesta altura indicia que a cómica noção de uma justiça cósmica não é exclusiva dos seres que pululam na Nebulosa do Caranguejo. Mais umas semanas e este sítio alcançaria provavelmente uma espécie de vazio estelar, mas do avesso: uma brancura imaculada, sem posts sequer. Resta-me agradecer a estadia à equipa da Weblog e a atenção dos que aqui terão Passado. Adeus, então, espirais queridas, adoradas elipses. Quadrados não, chega de arestas. Bolas, ainda mal me fui e já sinto saudades deste template.

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zizi possi

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E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas

Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros
Eu falo somente dos pés vermelhos
Eu falo... eu falo... eu falo...

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida
No vigésimo século as nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

Ainda um céu marinho de agonia onde eu
sou um copo de aguardente francesa e tu
uma gaivota que passa rente ao barco que me leva

Sim, é verdade, os cabelos loiros
Então, meia-noite!
Senhora, se me dá licença, este dia acabou




Colagem de excertos de quatro poemas de António Maria Lisboa