fevereiro 25, 2010

O Tempo e o Vagabundo

Aqui onde estou, deitado, neste banco de paragem, embora pareça pouco confortável, sinto-me bem, porque vejo o mundo girar, vejo o mundo correr.
O dia-a-dia das pessoas é uma constante corrida, ninguém tem tempo para nada! Ninguém tem tempo para se sentar à espera do autocarro, ninguém tem tempo para se chatear com quem está deitado no banco da paragem, ninguém tem tempo para apreciar a vida. A vida é feita de pequenas corridas, ao acordar, toma-se um duche a correr, em seguida o pequeno-almoço numa corrida. Sair de casa a correr, seja de carro ou para o autocarro, mas tem que ser a correr. Chegar atrasado ao trabalho e ter de correr para compensar. Almoçar de fugida, porque afinal o tempo não é muito, voltar a correr para o trabalho e esperar que o tempo passe depressa.
O Homem é engraçado, tão depressa deseja que o tempo passe acelerado, como a seguir quer que ele se demore a passar. Desde sempre existiu uma relação de amor-ódio entre o Homem e o Tempo, algo que os aproximava, mas que mais tarde os repelia. Dizem, alguns estudiosos, que Deus quando criou Adão e Eva e os colocou no paraíso, a árvore que se encontrava no centro do Paraíso de onde Eva comeu uma maça, não era uma árvore, era um enorme relógio. Um relógio que marcava o tempo do Universo, e Deus dissera-lhes “Eva, Adão, isto é um relógio e marca o tempo do Universo, eu deixo-o aqui entre vocês para que o protejam, enquanto ele estiver parado, vocês estarão sempre no Paraíso, vocês serão os Guardiões do Tempo e do Paraíso”, andavam todos orgulhosos com o importante papel que Deus lhes atribuira. Para não falar da vantagem que era trabalhar em casa, acordavam à hora que queriam, embora no único relógio que conheciam e que dava as horas de todo o Universo os ponteiro marcavam insistentemente as 12 horas, nem se podia dizer se era meio-dia ou meia noite, porque de um lado do Paraíso era dia, do outro era noite!, a vida no Paraíso era boa, não lhes faltava comida, não existiam doenças que os afligissem, e se houvesse tempo que contasse o tempo que passou enquanto eles assim estiveram, dir-se-ia que se passaram um par de séculos, coisa pouca para quem não tem tempo que os controle. Um dia Eva apanhou Adão a olhar fixamente o Tempo, quer era como chamavam ao grande relógio, e perguntou-lhe o que estava ele a fazer, Adão respondeu que estava apenas a observar o mecanismo do relógio, os botões, as opções, e Eva sentou-se ao lado de Adão a observar, assim ficaram ambos, sentados, pensativos e curiosos, até que Eva disse a Adão que assim com o Tempo parado não conseguiam observar o mecanismo a trabalhar, mas Adão disse que só podiam ver assim porque se ligassem o Tempo isso poderia ser o fim do Paraíso e quem sabe o fim do próprio Universo, Eva aquiesceu, mas sugeriu que empurrassem o ponteiro dos segundos apenas um segundo, deixando-o permanecer assim, só para ver que alavancas se moviam ao avançar um ponteiro, Adão sempre curioso com as Novas Tecnologias, deixou-se tentar, Eva empurraria enquanto Adão olhava, fora a única coisa que Adão pedira. Eva empurrou, Adão maravilhado olhava, o ponteiro deslocou-se lentamente da esquerda para a direita, uma pequena roda dentada no cerne do relógio rodava, fazendo uma outra roda adjacente rodar em sentido contrário, uma espécie de alavanca subiu por cima dessa pequena roda dentada, e caiu novamente no espaço existente entre saliências, olhou fascinado para Eva por ter presenciado aquele momento único, aquele avançar do tempo que não mais se repetiria, Eva estava um misto de cores, vermelha-arroxeada por força em demasia, branca por pensar que teria cometido um erro!, o som das rodas dentadas e das alavancas tornara-se constante, o ponteiro dos segundos continuava o seu movimento ensinando a Adão e Eva o que significava a expressão “andar no sentido dos ponteiros do relógio” Eva esforçava-se por impedir que o Tempo andasse, mas andava. Sentaram-se ambos, preocupados com o Tempo e com o criador do Tempo e a sua ira, mas Deus, apareceu calmo e sereno, com um ar pesado e preocupado, mas sereno e calmo!, aprontaram-se logo a apresentar as suas desculpas, não o tinham feito com esta intenção, nem com o intento de desobedecer a Deus, Deus sempre tão misericordioso passou a mão pelas suas cabeças e disse-lhes que as suas acções teriam as suas repercussões, que se tinham vivido duzentos anos até à data, sem terem envelhecido um único dia, hoje, por causa das suas acções, estavam mais perto do fim da sua existência, “Criei o Universo para o Homem viver, e o Homem o irá viver, e consumir, até ao fim”, quem diria que nove meses depois do ponteiro dos segundos começar a girar, Eva estaria a ter o primeiro filho do Homem, antes, durante o que poderia ter sido duzentos anos, nunca nada aconteceu, e agora, grávida à primeira, a verdade é que Eva já há muitos anos que estava grávida, mas como o tempo não passava, ela não crescia, o feto não desenvolvia, mas este será provavelmente o bebé mais velho de sempre, o único a ter demorado duzentos anos e nove meses para ser concebido.
O tempo, também já vivi sobre as ordens do austero tempo, insatisfação constante, tudo o que fazemos é medido e quantificado em tempo. O tempo parece sempre insuficiente para fazer tudo aquilo que desejamos, e por ser insuficiente o tempo deixa-nos um sabor a frustração percorrer o corpo todo. O tempo, para mim, que aqui durmo neste banco de paragem de autocarro, para mim deixou de existir tempo, não tenho obrigação para com nada ou ninguém, posso apenas sentar-me e ver, ver as pessoas, os carros, as montras, a chuva, o nascer e o por do sol, o namoro do sol e da “Cabra”, ver a vida a correr!, não a minha, que a minha não corre, a minha passeia-se, porque como não tem tempo, não tem pressas e porque não tem pressas aprecia. Aprecia o Sol, a chuva, o dia, a noite, os cheiros, os toques, sou e estou vivo!

Publicado por @bc_ideias às 02:24 PM | Comentários (0)