janeiro 25, 2012

Agora o assunto é outro

Faz tempo, eu disse que interromperia este blog para trabalhar num livro. O livro ainda não está pronto, mas está nessa direção.
Por outro lado, fez falta dizer algumas coisas, e ter um ambiente público pra debater -- facebook e tuíter são boas ferramentas, mas cada ferramenta para um ofício, correto?
De modo que, for the time being, há um outro projeto começado: Minha Vida Cultural.
Este começou com Aristóteles, e vai acabar com São Tomás de Aquino. Pois, se tem um início, então tem um fim, é corruptível, não é perfeito. O outro também será assim: começou, durará um tempo, cumprirá algumas promessas, descumprirá outras, e finalmente morrerá, talvez de morte matada, talvez de morte morrida, e talvez cometa alguns crimes, ele mesmo, no meio do caminho. O que pode ser ameaça, mas pode ser também promessa.
Mas o belo das obras é que não morrem. Mesmo as obras pobres, desconjuntadas, como esta aqui. Faço o convite, visitem o Minha Vida Cultural. Mas façou ainda outro convite. Revisitem O que eu vou comer amanhã. Há uma diferença gritante entre ler uma obra como se fosse o cotidiano, e ler o cotidiano, como se fosse uma obra. Se este blog deveria servir para alguma coisa, que fosse ao menos pra isso.
E obrigado por terem estado aqui, fazendo essa preciosa companhia.

Publicado às 10h43 | Comentários: 0

janeiro 10, 2010

Do gênero epistolar (VI)

Bru,

Chega uma hora em que é preciso se dizer chega. Em que é preciso mover-se para outras paragens.

Embora isso não seja nem exato, nem oportuno.

Não é exato em que não é a maneira correta de dizer isso. Vou dizer o quê, que estou interrompendo o blog por tempo indeterminado? Mas isso já não foi dito imediatamente antes?

E também não é oportuno, porque não é nunca oportuno interromper as coisas. Apenas os inícios são oportunos, os términos são sempre cortantes, dilacerantes, god knows what.

Mas, de fato, eu poderia escolher mil outras maneiras, mil outros momentos, para fazer isso, mas há um muss es sein, um muss es sein que eu sou obrigado a responder, it must, e responder a vc porque vc é que é capaz de testemunhar isso, e vc é capaz de testemunhar isso porque vc sabe que esse não é meu jeito de ser, é só um personagem, mais um personagem do qual eu preciso, uma vez mais, me desvencilhar.

Então eu não vou mais poder escrever aqui da mesma maneira como tenho escrito. Mas, também, não vou poder mais criar personagens para aqui. Isso aqui já se tornou longínquo demais para que eu possa carregar como se estivesse perto o bastante para que possa interessar a alguém.

Ontem entrou alguém aqui a partir de uma busca na internet, a partir da frase "o que é um escritor?". Segundo consta no registro que eu coloquei aqui, como vc deve se lembrar, essa pessoa não ficou mais do que 10s e se foi, provavelmente insatisfeita, porque verificou não ser o lugar adequado para obter a necessitada resposta.

De minha parte, não posso levar isso muito a sério, como nada mais, porém é preciso verificar que uma busca que eu ou vc possamos fazer não vai encontrar este site como referência. O fato técnico que eu já fiz notar de que os resultados das buscas na internet são filtrados regionalmente, e que portanto a mera circunstância de o impaciente pesquisador estar a uma certa distância destas paragens, senão próximo demais do meu creditoso servidor, é algo que contraria este segundo fato, o de que o resultado dessa busca, a nós, tenha toda a aparência de um completo acaso, não mutila a perspectiva, talvez supersticiosa, de que esse aparente acaso tenha, afora sua justificativa puramente técnica, uma outra de fundo mais promissor para quem a técnica pertinente ao caso já é bastante dominada para que possa proporcionar maior interesse, e por isso não deseja investigar ou aprender mais nada nesse ramo, mas acredita poder dessa outra justificativa tirar outras consequências menos diretas, ou ortodoxas.

Quem sabe a conduta que se apreenda, aqui, não seja mesmo a de um escritor? Talvez seja o caso de que, repetindo fórmulas bem-sucedidas de um determinado capítulo -- e deve-se entender essa palavra no seu mais amplo alcance semântico --, nomeadamente o terceiro, caso novamente restrinja-se a semântica pertinente ao caso -- ou mesmo o primeiro, caso se pretenda ser mais imparcial e menos indulgente, ou apenas exibir um fútil, e ainda assim profundo, conhecimento de uma obra apenas rascunhada --, o autor, no caso, eu, não esteja mais criando nada de original, conforme vc solicita, carinhosamente, e o faça não por indolência ou conformismo, ou decadência, mas simplesmente porque está preso a uma fórmula, ou antes, sim, antes, porque não se trata de criticar a falta de originalidade, porque quanto a isso, nunca é demais repetir, ainda que no contexto de uma ária fúnebre, sabe-se que é a necessidade de origens, para fazer a crítica inteira de maneira sintética, ou a exigência de originalidade, para satisfazer os que dela fazem senhora, é essa que deveria mais ser criticada, é que tem-se mais a criticar, e talvez o clichê, nesse ponto, seja mais inovador, mais promissor, nesse ponto, ou seja, diante do atual estado de coisas, nessa altura do campeonato, etc., mas sim, antes de uma fórmula, uma forma, ou seja, portanto, o blog mesmo, que é, como todos sabem, ou deveriam saber, a essa altura do campeonato, não apenas um meio, uma media, como sói chamar o nosso século bilíngue, com isso querendo dizer que é muito para qualquer um, hoje, falar mais de uma língua, e já tem nisso um trabalho hercúleo, mas sim, senão, uma forma que imprime, como toda forma, boa parte, não precisamente de seu conteúdo, mas de seu resultado.

Assim portanto, para mirar resultados mais altos, quais sejam os da permanência -- ainda que, nesse ponto, poderá intervir mais de um comparsa que eu tenha em alta conta, já que, de caso pensado, escrevo essa carta aberta, ao invés de escolher um molde mais íntimo, o que não é preciso explicar, já que é o próprio assunto em questão, e diria, esse comparsa, que a permanência não é o alvo mais alto que poderíamos mirar, ao que eu responderia, para não estender a conversa, que o alvo tampouco, porque o negro também poderia nos satisfazer em certos casos -- embora isso fosse nos levar a outras discussões, e portanto basta para uma risada condescendente e um aval para prosseguir -- o que me leva a te dizer, portanto, e agora sim, principalmente a vc, que para mirar a permanência é preciso ter em vista a transitoriedade, e não de uma maneira metódica, senão como uma questão de método, é preciso tempo para permitir-se experimentar, e experimentar todo tipo de coisas, coisas estúpidas, o que nem sempre foi possível aqui, coisas íntimas, o que certamente não será o caso aqui, senão de maneira bastante desviada, ou seja, como é mister perante o público, coisas incoerentes ou ilegíveis, para que se possa conceber uma outra forma de ler, e portanto, de escrever, ou seja, coisas muito fáceis de explicar, mas difíceis de executar, e nem por isso menos reais, ou seja, virtuais, como eu te dizia, mas num sentido mais complexo que no espelho, porque não basta simplesmente olhar para o problema: é preciso esmerar-se nele.

É preciso, portanto, em poucas palavras, escrever em outro lugar. Longe das vistas de qualquer um. E sim, apesar de eu ter, não lembro se te contei isso, mas evito falar sobre o assunto, já que se tornou lugar comum criticar o Saramago, dito que era ridículo ele interromper o blog para terminar um livro, considero que são excludentes, no meu caso, devo dizer, não estou capitulando ou mudando de ideia quanto a outros casos, e ademais, não digo que é por falta de tempo, o que, como vc sabe, seria uma justificativa perfeitamente justa, já que eu não vivo, deus sabe por quê, da literatura, mas por um motivo, ainda que mais sutil -- mas haverá algo mais sutil que o tempo? -- mais concreto, que é o exposto: não posso criar outros personagens para escrever aqui, porque eles já estão saindo sem vida, e não posso permitir que se alimentem de nós.

É preciso, mais uma vez, fugir.

Ia escrever, diante dos vampiros, mas essa é uma outra crítica que terá de ser feita em outra ocasião.

É preciso criar outros personagens, mas esses são muito evanescentes, ainda, ou seja, deverão encarnar, se tanto, um espírito muito mais instável, efêmero, intangente, do que o necessário para tomar corpo aqui. Ainda que isso surpreenda, ou sugira impossibilidade. Sim, meus disfarces não têm sido muito impressionantes, e embora tenham toda a aparência de seriedade, não bastam para que eu me iluda a respeito da maneira como eles iludem os leitores deste lugar: é certo que não duram o bastante.

Mas, ainda assim, não são bastante arriscados, ou seja, não contam o suficiente como o acaso, ou em uma palavra, ainda que equívoca e gasta, não são suficientemente experimentais. E não o são pelo mesmo motivo pelo qual um mágico esconde seus truques: todo o mundo sabe que a sorte se faz menos presente quanto mais olhos se voltam sobre ela. Aliás, disse mágico? Pensava num jogador. Mas, taí um ótimo exemplo, pensava nos dois: não é à toa que adivinhamos a próxima música numa lista em shuffle, mas não ganhamos na loteria; não é só a quantidade de números em jogo, é a quantidade de pessoas torcendo.

Portanto, daqui em diante, mesmo vc verá menos o que eu escrevo. Eu sinto isso tanto quanto vc, acredite, embora vc ainda possa ver muita coisa que já está escrita, e não é de menos importância, isto é, não é menos suscetível à influência. Mas preciso escrever mais escondido. Porque há o tempo de atuar, e há o tempo de investigar. O que é um escritor. Diferente do que é um ator, que é mais ou menos uma prova do outro.

Mas vc vê, sei que escrevo mais rápido do que falo, e não basta estar impresso para que se possa ler mais lentamente. Isso demanda um outro tratamento. Que, como eu disse, demanda outro tipo de experiência. Em outro lugar. Sim, como trata-se de uma despedida, ou uma forma de despedida, já que se trata de uma despedida da forma, é preciso repetir: em outro lugar.

Vc perderá tempo vindo aqui novamente, por um tempo, pelo menos. Se alguma coisa eu colocar aqui, será coisa pronta, ou pelo menos resultados bem-sucedidos de testes que mais valeriam por seus erros.

Ia falar alguma coisa mais sobre a forma do blog. Mas já te disse isso. Tem a ver com o a posteriori do Lacan. Tem uma palavra em alemão que principia com nach, mas em latim está bom, e assim eu finjo, mais uma vez, mais pertinência do que a de que sou capaz.

Portanto let's call it an end, ou antes, let's call it a day.

Vc sabe que é à noite que eu funciono melhor.

Brigado por ter me acompanhado aqui, e por ter escrito. Foi importante pra mim.

Com muito amor,

R.

Publicado às 5h35 | Comentários: 4

dezembro 12, 2009

Ai ai ai

Eu sei que pra vcs isso não é nada, mas 140 e-mails, sendo 70 sequer lidos, e ainda sem internet em casa.

E dizer que na caixa dizia "móvel".

Mas tudo bem, vcs não ficam sem mim.

Se der tempo, passa pra ver a mim, à Ana Rüsche, ao Felipe Sentelhas, e à Maiara Gouveia lendo poesia.
Claro que não só isso: a exposição de gente pelada da Lelê Cestac. A coisa mais linda de todas.
A primeira é obra da Gabriela Golder, a gracinha chegada de Buenos Aires que se aproveitou dos contatos da Lelê pra montar uma obra curiosíssima. Algumas imagens da prémière são as do vídeo, sob o nome "Despojos". Tem lá também uma outra obra dela, umas moças incríveis. Se alguém usar a palavra histéricas é pelego. Só vendo.

Como sempre.

Desculpem a ausência, mas tenho estado presente em outras partes. Logo tudo volta ao normal.

PS.: ou não; como não sei quando volto, já adianto: serei surfista.

Publicado às 22h47 | Comentários: 2

novembro 25, 2009

Inútil

Quanto mais eu trabalho, mais eu penso, e mesmo um fim-de-semana prolongado não me permite dar descanso a essa mente grosseiramente fértil, isto é, ao contrário! Descansado, e não tendo tido descanso o dia todo, tive ideias demais, em vez de ficar prostrado. Chegou a noite, e não consegui desligar.
Tenho o título do outro livro, o que eu estou planejando há anos, mas do qual ainda não escrevi uma linha -- claro, porque há o Dêixis e o Poemas para o Século XX na frente da fila -- fora a empolgação que me faz escrever em línguas.

Não, fiquei um pouco frustrado ao me reconhecer no livro do Gombrowicz. Um poeta inédito. Sim, desses loucos, que andam pela rua falando sozinhos, para ter certeza de que suas obras não vão acabar junto com eles. Por causa não de um poema meu, mas da tradução que fiz do poema do Celan. Parece que ninguém deu muita bola, tirando a Ana Rüsche, que não conta porque me ajudou. Não, não devo reclamar, isso é deprimente.

Por que diabos então fui ler Gombrowicz? Esse é um daqueles escritores que eu sempre tive respeito, mesmo sem ler. Influência, neste caso, do <a href="eu.pagaria.pra.ver.um.blog.aqui" target=_blank> Juliano </a>, e em verdade as ideias do escritor são muito boas, tendo a concordar com elas 70% (o que é muito, não há dúvida), mas sinto que ele não logra realizar a obra. É a segunda vez que pego um livro dele para ler e rateio. Este agora é o Ferdydurke, e como tem um certo humor, pode ser que eu consiga terminar. Além disso, não é desprovido de valor. Mas, puxa, já não é possível admirá-lo. Já não posso roubá-lo, quero dizer, ou furtá-lo. Sim, furtá-lo talvez, mas mais provável que não. E um autor que não necessitamos roubar não é um autor que necessitemos ler. Porque ler é roubar. É o que venho tentando dizer.

Mas essa é a minha coisa com o respeito. Se eu tenho alguma coisa de sobra, é respeito. Bom, talvez ignorância, mas o povo de Inverno acharia que estava me jactando, então fiquemos só com respeito. Sim, tanto, que é difícil alguém se livrar de mim, quando eu chego a conhecê-lo bem. Isto porque respeito tanto essa pessoa, inevitavelmente, que faria um mal muito grande ao respeito que a própria pessoa nutre por si de repente se ver alijada do respeito que eu nutri por ela. Porque esse, frequentemente, é maior. A não ser, claro, quando esse mesmo respeito deixa a pessoa tão envergonhada, supondo que não pode haver nada de mais enganoso e hipócrita do que manter esse respeito alimentado, supondo que ele não tem nenhuma, a mais remota, razão de ser, tal é o desprezo que nutre por si mesma, que não pode fazer mais nada além de, realmente, livrar-se de mim. Porque às vezes não chego a nutrir um respeito tão grande pela pessoa a ponto de respeitar a ideia que ela faz de seu próprio valor. E há, também, a outra exceção, baseada no fato simples de que eu, a par de ser extremamente respeitoso, sou também extremamente preconceituoso, e embora a balança pese de maneira mais ou menos aleatória, ao menos vista a olho nu, para um lado ou outro, há um certo número considerável de casos a que simplesmente deixo de devotar qualquer grau de respeito, senão o mais completo e desinteressado desprezo.

Isso não é uma declaração de moral ou caráter, como se vê, mas simplesmente uma constatação lógica daquilo que penso não se afastar muito do normal, e fazendo parte da minha maneira de ser, vejo como sendo absolutamente normal, senão um pouco excêntrica apenas.

Tive um impulso de furtar algo do Gombrowicz, por um instante, mas passou. Não valia a pena.

Sim, infelizmente sou escolado demais na arte da imaturidade para achar que ele pode me ensinar qualquer coisa, ou que eu possa me aproveitar insuspeitadamente.

Mas não queria entrar no mérito do livro, uma vez que ele escapa ao escopo da minha admiração, mas também não cai no do preconceito, e não nutrindo o escritor um desprezo invencível por si mesmo -- não nutria vivo e certamente não nutre agora, morto -- escapa igualmente ao escopo do post de hoje, que se torna, por esse motivo, inútil.

Eu só devia ter escrito que estou jogando Machinarium.

Publicado às 0h54 | Comentários: 0

novembro 19, 2009

Formação

Um homem forte cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o fato elementar de que, simplesmente por ser o que é, possui, em si, a capacidade real e presente de, a qualquer momento, e de acordo com sua disposição, engajar-se num combate físico mano-a-mano e, em consequência disso, matar um outro homem com as próprias mãos, o que é exatamente mais real, e menos imaginário, de acordo com o grau dessa mesma disposição.

Por causa disso, cresce, ou seja, torna-se homem, tendo que lidar com o dilema moral que essa disposição determina. É preciso que não se disponha a matar esse outro, porque, caso contrário, ele o fará, mais cedo ou mais tarde.

Falo de homem forte, mas, em verdade, qualquer homem de força mediana enfrenta essa questão.

Apenas a um homem constitutivamente fraco não se apresenta o dilema de Caim
frente a seu irmão.

Em consequência, um homem constitutivamente fraco será, também, um homem cuja moral terá de passar por outros caminhos, outros meandros, para se constituir naquilo que em geral chamaríamos de um bom caráter.

Não gostaria de ir ao ponto de dizer que isso implicaria, também, que tem esse homem suposto mais chances de perder-se, em termos morais, do que aquele outro, o constitutivamente mais forte. Embora, tendo-o dito, não me vêm argumentos fáceis para desdizê-lo, e a experiência do homem comum, a que temos acesso pela vivência e observação, não me oferece tais argumentos, uma vez que, a uma, são demasiados os homens sem caráter para que achemos muito restrita a circunstância de sua perdição, e a duas, do fato de que seja necessário, a esses homens fracos, um certo número de meandros, a fim de encontrar-se, não decorre que esses meandros sejam raramente encontrados, e poderia bem ser que houvesse mais homens fracos e de caráter, do que homens fortes, e que houvesse mais homens fortes sem caráter, do que homens fracos na mesma categoria, e justamente porque esses últimos terão precisado de enfrentar dilemas de maior monta, mais sutis ou mais exigentes que aquele outro, mais simples, com o qual iniciei toda essa argumentação, e que constitui a hipótese que estou tentando provar.

Considero, assim, secundária a questão de decidir se os homens fracos têm ou não mais chance de se perder, e também secundária a questão de decidir se, de fato, perdem-se mais que os outros, os homens fortes. Aliás, qualquer leitor deste blog, que como todos sabem, tenho em alta conta, consideraria falaciosa e perigosa a tentativa de estabelecer uma ligação direta entre a força física ou constitutiva de um homem a seu valor moral.

A questão, portanto, que tenho como primeira, aqui, é de saber se, de fato, aquele dilema é importante para aqueles homens que o enfrentam, e se, em decorrência disso, sua falta exige que os outros homens passem a enfrentar um certo número de outros dilemas para chegar às mesmas conclusões ou valores morais que farão, também deles, aquilo que em geral chamaríamos de homens de caráter.

Meus argumentos são fracos, na verdade: em primeiro lugar, me ocorre que esse pensamento não passa, em mim, de uma intuição, mas uma intuição poderosa o bastante para me colocar convicto de meu argumento. Não tão convicto que não o ponha à prova, aqui, mas também, por isso mesmo, mais convicto ainda, posto que uma hipótese que pomos à prova torna-se mais possante por esse mesmo motivo. Em segundo lugar, tenho, a favor dela, um dos documentos mais privilegiados para verificar alegoricamente o que são os padrões e modelos humanos, e que levanta minha hipótese como verdadeiramente essencial, apresentando-a na história de Caim e Abel na posição e altura em que apresenta. Finalmente, em terceiro lugar, possuo um argumento duplo, e de pouca valia, mas aqueles familiarizados com a maldição de Tirésias haverão de concordar comigo. Tal argumento consiste em que eu mesmo, tendo nascido com uma fraca constituição, e adquirido, com o passar dos anos, não apenas uma estatura mas uma condição de saúde bastante invejável, tenho o privilégio de conhecer os dois lados da moeda, e tendo passado por todos os meandros dos quais falo, e sem mencioná-los aqui, uma vez que a palavra meandros não se presta à dúvida e expressa verdadeiramente a dificuldade em explorá-los (o que, não obstante, tenho feito em outros lugares e momentos), acabei passando, eventualmente, pelo dilema oposto, ao qual aludo em primeiro lugar, e que, não menos do que os outros, me faz considerar a posição em que me encontro neste mundo, entre outros homens, iguais ou não tão iguais a mim.

Com isso, talvez os mais perspicazes entre vocês, ou aqueles mais atentos, ou simplesmente aqueles que, pelo peso das horas, acabe deparando-se, entre as linhas, com as mesmas sutilezas das quais agora me ocupo, acabem percebendo, ou acreditando, que penso estar em condições, pelo que acabo de afirmar, de ser juiz dos outros homens, ou que, pelo menos, me julgue moralmente superior, tendo passado por uma dupla prova, quando outros, diferentemente, enfrentaram apenas uma. Nada pode estar mais longe da realidade, quando efetivamente, ao referir Tirésias, tinha também a intenção de fazer ver que a dupla prova não é, de forma alguma, um privilégio, ou ao menos não é um privilégio que não atraia, em consequência, uma maldição. Se faço ver mais longe, ou mais fundo, ou mais após do que o comum dos mortais, se me faço de profeta ou opto por uma linguagem mais canhestra, misteriosa, ou simplesmente arrogante, e se assim mesmo disser verdades, se, portanto, tirar forças da minha deficiência ou maldição, e puder por isso enxergar onde outros veem somente trevas, isso não deve ser encarado como dom, mas simplesmente como a natureza compensatória daquilo que é mítico e que, por essa mesma razão, de ser mítico, não faz de mim um herói, apartado dos outros homens, iguais ou não tão iguais a mim, e mulheres, que não haviam ainda entrado nesta história, mas sim alguém que partilha, em igual medida que todos, daquilo que insufla esse mito, e que, sendo heroico, invejável, ou possante, não é menos terrível, doloroso, agourento.

Publicado às 0h45 | Comentários: 1

novembro 18, 2009

A internet é um tesão

Se vcs entrarem no blog do Radiohead, vão ver a coisa mais sensacional: os caras da banda colocam listas de música. Sim, como se fosse um disco, só a lista das músicas. Provavelmente o que eles estão ouvindo no tocador de mp3. E o Johnny, pelo menos, cuja seleção é sempre mais rara, põe um link para um lugar onde se pode ouvir a lista dele.
É como se eles te dissessem o que está alimentando a própria criação. Como se eu escrevesse, aqui, um monte de bobagem, colocasse um certo número de referências, copiasse uns textos, pra que quem leia tenha uma ideia de pra onde está indo minha criação.
Espere, eu faço isso.
Mas meu blog não é um tesão. Instalei um negócio chamado Clicky. Descobri agora que os 100 leitores que o weblog apontava são pura mentira. A não ser que 90 deles estejam me acessando por leitores RSS, tenho menos de 10 leitores por dia.
Mas sou eu que estou enganado.
Não é a falta dos outros 90 leitores que faz do meu blog menos tesão.
Afinal, sei quem são os outros 10.
Eles com certeza fazem do meu blog um tesão.
Acharam que eu não ia terminar com um xaveco, hein!

Publicado às 0h00 | Comentários: 0

novembro 14, 2009

Back to back

Então eu estou escrevendo o meu livro e mudando de apartamento.
Grande coisa.

Pois é, grande coisa.

Publicado às 15h10 | Comentários: 0

novembro 12, 2009

Todesfuge, reloaded

Agora sim, fechei com a versão final do poema.
Atualizei no post inicial, que se acha aí
Todesfuge - Paul Celan.
Comentem, por favor. Uma tradução nunca é algo final.

Publicado às 17h02 | Comentários: 0

novembro 11, 2009

Coisas que adoramos: poemas de ocasião

Se eu soubesse que íamos ter um apagão, teria colocado mais gasolina no carro. Teria carregado o celular e pagado um provedor de internet discada. Eu teria mantido um lampião funcionando, e teria ido morar mais perto da minha namorada. Eu teria mais grafite pra lapiseira, porque não escrevo muito a lápis. Por ora isso vai ter que servir. Teria uma poltrona perto da janela, e uma mesinha ao lado para a cachaça, porque nessas condições posso me indispor com algum livro. Teria tirado o dobro de dinheiro no banco esta manhã, ou mesmo o triplo, embora não tenha muita vontade de sair de casa. Teria um quarto maior, onde eu pudesse fazer exercícios não só sentado e deitado, e teria gasto menos meus olhos, descansando mais. Teria menos comidas congeladas, mas provavelmente não me satisfaria tampouco com as conservas. As coisas são imprevisíveis quando o assunto é o apetite. Fiz bem em não ter doado todas as minhas revistas em quadrinhos. Teria aprendido o violão, o piano e o trumpete, e teria vizinhos que não se importariam de ouvi-los à noite, mas ao contrário, me cumprimentariam carinhosamente pela manhã, antes de irem ao trabalho. Eu teria mais plantas, elas não se importam com o escuro quando não é dia. Não teria toda essa mobília escura, mas sim um enorme tapete branco. Teria mais livros importantes na minha estante, e menos num diretório obscuro na pasta raiz. Moraria sozinho, mas teria uma xícara com o nome de cada um dos meus amigos, que é pra eles se sentirem na obrigação de vir exercer a propriedade de tempos em tempos, e o apagão pode durar muito. Teria um dicionário de espanhol, outro de italiano e outro de alemão, porque nunca se sabe o que esse clima pode nos fazer querer pensar. Teria pelo menos alguns pontos de encontro definidos, de modo a que não precisasse requisitar ninguém específico se eu me sentisse sozinho. Os acasos é que fariam dos encontros algo específico. Saberia mais músicas de cor, e teria aprendido a assobiar e tocar gaita. Talvez não seja tarde ainda. Saberia mais números de telefone de cor. Teria uma lousa de giz e muitos cartazes rabiscados com pincel atômico. Eles seriam a imagem do meu cérebro quando estivesse muito escuro pra enxergar. Eu teria mais o costume de pronunciar as palavras enquanto escrevo, e de cantarolar sozinho. Meu tocador de mp3 teria mais música clássica, e não só Mahler e Rachmaninov. E também discos raros do David Bowie, se é que os há. Teria uma outra escrivaninha. A geometria das coisas muda de acordo com a direção de onde vem a luz. E pode se tornar muito angulosa e desconfortável. Teria mais travesseiros, mais almofadas. Definitivamente eu teria mais velas, e lugares adequados onde deixá-las. O medo de um incêndio é imanente, como se apenas estivesse apagado sob as luzes frias do dia-a-dia. Como se qualquer um pudesse acordar, no meio da noite, sob os gritos de socorro, de alguém ardendo em febre, ou em chamas. E eu fico pensando que tudo aquilo que fica, de comum, sob o nível da água, cristalinamente escondido, tivesse então que ser iluminado. Talvez não incidissem sobre ele as melhores luzes. Eu penso que o relógio não deve ser levado tão a sério, e como gosto de dormir tarde, posso achar incrível que a maior parte da nossa vida, ou ao menos boa parte dela, tenha que se passar no escuro. E penso, também, que no escuro as perguntas que nos fazem levam mais tempo pra chegar até nós, e assim também é normal que levemos mais tempo para responder. E acho curioso que as metáforas de pensamento, por exemplo, reflexão, sejam metáforas de luz.

Publicado às 10h50 | Comentários: 2

novembro 10, 2009

Não importa se foi comigo

Encontrei uns amigos do colégio, e um deles me lembrou dessa história, que eu infelizmente tinha esquecido:
De ter saído na mão com um cara, por causa de uma menina, sendo que ela não queria saber nem de mim nem do outro. E que hoje ela é um canhão.

Publicado às 3h19 | Comentários: 0