outubro 31, 2003

Uma Casa no Fim do Mundo

"O ar cheirava a terra crua, húmida, e a pereira erguia-se no meio do pequeno quintal, esplêndida e surpreendente como um vestido de noiva, as pequenas flores emitindo um ténue brilho branco. Detive-me por uns momentos nos degraus da cozinha. Era uma noite sem Lua, límpida o bastante para revelar a faixa da Via Láctea entre a multidão de estrelas. Nessa noite até o modesto quintal parecia repleto de boas promessas. Se o futuro fosse uma nação, aquela seria a sua bandeira: uma árvore em flor contra um fundo de estrelas."

Michael Cunningham, Uma Casa no Fim do Mundo, p. 99.

Publicado por ajr em 01:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Auto-censura

Havia aqui um post que foi apagado.

Publicado por Filomena em 01:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 26, 2003

Major em Direito e Minor em Genética?

"É mais livre e prematuro o consentimento de adolescentes para a prática de actos heterossexuais, sendo mais tardio o processo genético (sic) de formação de vontade de adesão dos adolescentes para a prática de actos homossexuais".

Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça sobre o recurso da defesa de Michael John Burridge.

Publicado por ajr em 01:16 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 25, 2003

Páginas Soltas

Bárbara Guimarães convidou Ferro Rodrigues para o programa da SIC Notícias "Páginas Soltas". A escolha literária do convidado? "O Vento Assobiando nas Gruas", de Lídia Jorge.

Em Roma, chamavam-lhe um augúrio.

Publicado por ajr em 05:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 22, 2003

AH, DOLENTE PARTITA!

Ah, dolente partita!
Ah, fin de la mia vita!
Da te parto e non moro?
E pur i' provo
la pena de la morte.
E sento nel partire
un vivace morire
che dà vita al dolore,
per far che moia immortalmente il core.

(Pastor Fido: III - 4, 498-505)
Battista Guarini

Publicado por ajr em 12:04 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 19, 2003

Sunday boring sunday

Os domingos, pontes abstrusas entre o sábado e a segunda-feira. O nervoso miudinho de segunda-feira, sujeitos abstrusos a olharem para mim, medindo as minhas capacidades e suspeitando as minhas infâmias. A madrugada de domingo, penosa, lenta, antecipando o tempo.
Pego no telefone. A voz embala-me e sou um menino, cada vez mais próximo da eterna sexta-feira.

Publicado por Filomena em 06:36 PM | Comentários (4) | TrackBack

O perfeito gentleman

Na janela reflectiam-se duas coisas: o rosto do homem de copo na mão e o corpo da mulher adormecida. Do outro lado a rua, na semiobscuridade. O homem via-se a si e via a mulher, sob a luz amarela do candeeiro da mesa de cabeceira. Não era preciso virar-se para a contemplar, seminua, desfeiteada, com a boca entreaberta, com os lábios carmins a deixarem adivinhar os dentes, a língua quente. Bastava-lhe ou olhar para o espelho da janela ou fechar os olhos. E se fechasse os olhos conseguia vislumbrar o mamilo rijo, as gravinhas dos pêlos. Tudo à sua disposição ainda há momentos.
O homem sentou-se na poltrona, em frente à cama. Àquela luz, respirando, quase ressonando, o corpo macio da mulher repugnava-o e enternecia-o. Onde é que se tinham cruzado? Quanto tempo tinham demorado a chegar até ali? Era um corpo macio, cheio de curvas e molezas, um corpo banal e que ninguém cobiçava.
Bebeu o copo de um trago e levantou-se. Passou-lhe a mão pelo cabelo. Ela despertou, sorriu, puxou-o para ela. Queria abraçá-lo, queria beijá-lo, não se tinham beijado enquanto faziam amor.
Ele afastou-a, delicado.
--Beijava-te, mas sabes a tabaco.
Procurou a roupa espalhada pelo chão. A dela, a dele. Vestiu-se rapidamente. Sem dizer uma palavra, hipnotizada, de olhos vidrados, a mulher seguiu-lhe os movimentos. A caminho da garagem, no elevador, ele brincou com ela, mexendo-lhe no peito. Ela riu para fora como quem chora para dentro: não se pode ter feito amor com quem não sabe o que é amar.

Publicado por Filomena em 01:05 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 16, 2003

Telefonia

A cozinha era pequena. A mesa exibia uma telefonia. Era uma caixa rectangular amarela. Os "Parodiantes de Lisboa" eram servidos com pão e "Tulicreme" e um copo de leite. A janela abria para um olival à beira da extinção.

Publicado por ajr em 05:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 15, 2003

outros sons

mp3, pizzicatofive, maria armanda viu um sapo, dartacão e os três moscãoteiros, plzyback by Carlos Paião: quais leitor de cds! Mp3! Mp3!
(Ou à falta disso: lembras-te da bela telefonia?)

Publicado por Filomena em 06:21 PM | Comentários (2) | TrackBack

Disgrace

Há dias em que só a música nos salva. Infelizmente, o leitor de CD's está avariado.

Publicado por ajr em 03:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 12, 2003

O país da minha infância

Na minha infância, Portugal era um país fabuloso. Os meus pais, muito jovens, andavam envolvidos em acontecimentos escaldantes como a Reforma Agrária. O meu pai usava uma barba que denunciava a sua condição revolucionária. A minha mãe usava tranças e saias curtas e sapatos de cunha. Era no final dos anos 70. Só havia um canal de televisão. Na parede da cozinha da minha avó repousava um calendário (de que ano?) com a foto do Vasco Gonçalves. Mário Soares era mais ou menos um fascista. Eram tempos divertidos. O 25 de Abril e o 1º de Maio eram como os santos populares, com as pessoas na rua a festejar. Desses anos, dos primeiros dez anos da minha vida, só me lembro de coisas boas. Do Jogos sem Fronteiras e dos Festivais da Canção. Do casamento da Princesa Diana com o Príncipe Carlos. De rodopiar sempre que a emissão da RTP abria. De brincar na rua até tarde.
Coroavam esta visão da vida e de Portugal dois mitos fundamentais: sermos o país onde Cristo tinha nascido no mesmo local donde tinham partido as caravelas e termos tido uma guerra, em que os guerreiros saíam de um cavalo de madeira, na praia que eu frequentava.

Publicado por Filomena em 03:58 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 10, 2003

L'assassinato di Lenita

O saudoso "Grupo do Lumiar" imaginou uma ópera, infelizmente nunca escrita, nunca composta e nunca levada a cena, intitulada "L'assassinato di Lenita". Seria uma ópera italiana, com ecos barrocos, onde se contaria a história do homicídio de uma jovem mal-amada. O argumento misturava veneno em sumo de laranja, guarda-roupa quinhentista, números de bailado ("Não vás ao mar, Toino") e a história de um pasteleiro trostkista na Itália dos anos 50 (Obrigado, Nani Moretti).

Publicado por ajr em 12:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 09, 2003

Um novo mito

Um dos programas da TV Bulgária era o de ginástica. A estética era um misto de "Olympia" de Leni Riefenstahl e a "ginástica cueca" de "O Pátio das Cantigas". O cenário? Um austero ginásio. A apresentadora? Uma garbosa tractorista eslava.

Publicado por ajr em 05:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

Sem título

Diz o leitor Duckman que afinal Heterobanalidades era o título de uma música dos Ban que não chegou a ser gravada.
Sou herdeira do Valentim Loureiro?

Publicado por Filomena em 04:57 PM | Comentários (1) | TrackBack

TV Bulgária

Não se passou bem assim. É que eu não vi a estátua do Sousa Martins e tinha bebido ginginhas a mais no Portas Largas. Não sabia que lugar escuso de Lisboa era aquele que saía do eixo Avenida da Liberdade-Avenida Fontes Pereira de Melo-Avenida da República-Campo Grande-Lumiar. Além disso, o taxista não se calava. (Li há dias no Público que tinha sido atribuído um Ig-Nobel a um tipo que descobriu que os cérebros dos taxistas londrinos eram maiores que os da restante população... se tal estudo fosse feito em Portugal, o cientista descobriria que isso determina a capacidade dos taxistas falarem mais,usarem cabelo oleoso, peúga branca e a unha do mindinho crescida).
Mas foi quando eu respondi "Éramos muito pobres e não tínhamos televisão" que nasceu um novo mito. Como era filha de pobres camponeses proletários só víamos a TV Bulgária e o seu único canal: o que nem é mentira, porque eu gostava imenso da bonecada que o Vasco Granja passava.

Publicado por Filomena em 04:51 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 08, 2003

Roque Santeiro

Uma vez, a Filomena perguntou a um taxista o que era "aquilo". Aquilo era a estátua do Dr. Sousa Martins, no Campo dos Mártires da Pátria, mas a resposta, simultaneamente clara e obscura foi: "É o Roque Santeiro". A alusão a uma famosa telenovela brasileira suscitou uma resposta imediata: "Nós éramos pobres, não tínhamos televisão". Não era verdade, mas era uma boa ficção.

Publicado por ajr em 01:12 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 07, 2003

Orlando Furioso

Furiosamente, fui ao baeta e cortei o cabelo e a barba de filósofo estóico que adornava o meu rosto.

Previsivelmente, o resultado foi desastroso. Nos vidros e espelhos, cruzo-me com um desconhecido e a criatura imberbe, avistada para os lados do Campo Grande, não é o meu irmão mais novo, mas eu próprio.

Sensatos, os militares da GNR perceberam há muito o carácter inestimável destas pilosidades, tão essenciais como os sapatos que nos calçam e as roupas que nos vestem.

Publicado por ajr em 03:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 06, 2003

Amizade

A escuridão da noite resiste aos faróis do automóvel. A estrada é uma dúvida atrás de uma curva apertada. No sentido contrário, as luzes cegam-nos e empurram-nos para a berma. Falamos do desconforto da vida e da amizade que nos une. Rapidamente, percebo que não te posso ajudar, não te posso oferecer aquilo que mais desejas. Resta-me permanecer a teu lado, sentado na escuridão.

Publicado por ajr em 09:52 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 03, 2003

A depressão do Outono

Dei-me conta que estava com a depressão do Outono. Foi exactamente às 16.45h. Já tinha arrumado a tralha para ir para casa, mas no momento em que duas moscas moles e outonais começaram o seu voo aqui no gabinete percebi: era a depressão a chegar.
De repente ficou frio. De repente as aulas começam para a semana. De repente o ministro do Ensino Superior demitiu-se e a filha do ministro dos Negócios Estrangeiros já não vai ser médica.
Amanhã comemoramos o final do Verão lá em casa, no meio de pantangruélicos manjares. E de repente tenho saudades dos amigos que se vão embora no domingo e que trazem o sabor do verão nos sorrisos.

Publicado por Filomena em 05:22 PM | Comentários (0) | TrackBack