dezembro 07, 2007

Verdade na penumbra

Chove lá fora, não se vê ninguém nas ruas, a lua está coberta pelas nuvens, deixando apenas passar escassos raios de luz. Está tão escuro, a sala de estudo está vazia, só estou eu, sentada numa poltrona velha e encardida, fitando a estante de livros da avó Matilde. Estou aborrecida, este tempo deixa-me assim, não sei o que me apetece fazer. Talvez ler? Talvez..
Pego num livro de capa castanha de aspecto velho, parece grosso, foge-me a paciência de o ler. Olho para o lado, e uma sombra de formas e estranhas faz-me sentir um arrepio no pescoço. Aproximo-me, a sombra mexe. No entanto a curiosidade é mais forte que a apreensão. Dou mais um passo, e o vulto desaparece repentinamente fazendo-me dar um pulo. Esfrego a cara, pensando que o sono já esta a pregar as suas partidas. É melhor ir para a cama, antes que a avó Matilde ralhe comigo.
Subo as escadas, os trovões deixaram a casa sem luz, e tenho que ir tacteando o meu percurso até chegar ao quarto. Abro a porta, entro. Tenho a sensação de estar a ser observada. Arrepio-me novamente. Deito-me, espreguiço-me e volto-me na cama até encontrar a posição mais confortável para adormecer. Finalmente encontro-a. Mil pensamentos vêm-me à cabeça, resultado dos acontecimentos do dia. Adormeço. Um estalido! Sento-me na cama rapidamente. Procuro uma vela e fósforos. Tenho a certeza de que ouvi um barulho. “Talvez não devesse ver tantos filmes de terror”, pensei para mim de forma a acalmar-me. Acendo a vela, ergo-a no ar. Nada, tudo na mesma. Vou ver a avó, está descansada na sua cama, a dormir, parece um anjo. Mikas, o gato dorme na caixa de papelão que a avó trouxe do mercado na manhã anterior. O silêncio é tal que me causa um certo incómodo. A luz voltou! Vou ver televisão. Não dá nada de jeito. Mesmo assim fico a ver, pode ser que me dê o sono. Dou um salto no sofá! Senti uma coisa fria nas minhas costas, sei que a senti! Levanto-me, encosto-me á parede. Agora sim, estou a ficar assustada. Silêncio novamente. A televisão desligou-se. Terei sido eu a desligá-la? Não me lembro, não sei. Fecho os olhos com força, pode ser que passe. Acalmo-me, e acho-me estúpida por estar nesta situação e a reagir desta maneira. Dou uma chapada na minha cara, “Acorda Ariana!”.
Vou então à cozinha, comer alguma coisa que o jantar foi fraquito. Abro o frigorífico, olho e tiro um ovo. Sim, apetece-me um ovo no pão. Ligo o fogão, ponho a frigideira a aquecer, parto o ovo.. Engulo em seco, com os olhos fixados no ovo que acabei de partir para dentro a frigideira e lá está, uma enorme pasta de sangue a borbulhar diante dos meus olhos. Dou um passo para trás, tentando ser racional, mas não consigo. Um raio de luz ilumina a cozinha, descobrindo uma sombra na parede. A mesma sombra que vi no meu quarto. Não me consigo mexer, estou gelada do medo, no entanto continuo a olhar fixamente para o vulto. Ele ganha relevo e movimento, sai da parede. Estou cada vez mais aterrorizada, não acredito no que vejo, o meu corpo não me obedece. Quero sair daqui. A sombra negra caminha na minha direcção, deixando atrás de si rastos de pegadas ensanguentadas. Começo a ouvir uma música, longínqua, suave mas arrepiante e triste. E a sombra aproxima-se. Pára na minha frente, sinto frio, tanto frio. Fecho os olhos, a única parte do corpo que ainda controlava. A música parou, o frio passou. Abri os olhos lenta e receosamente. Desapareceu, a sombra desapareceu. Olho para trás, os raios de sol a passar através da janela de vidro revelam que já é dia. Sinto-me estranha, dói-me o corpo todo, tenho sono e sinto-me pesada. Sento-me numa das cadeiras da cozinha. Fecho os olhos por um bocado. Adormeço. Mais tarde, algo na minha consciência pede que acorde. Abro os olhos, está escuro novamente. Onde estarei? Não consigo ver nada. Tenho medo de me mexer, posso cair nalgum precipício ou pisar algo. Não me quero mexer. Puxo os joelhos ao queixo, baixo a cabeça, tenho medo. Choro, quero voltar à sala quente e aconchegante da casa da avó. Quero gritar mas não sai nenhum som. Deixo cair a mão direita sobre a pedra fria do chão. Sinto algo duro, com relevos. Não sei se lhe pegue ou não. Acabo por pegar no objecto. Manuseio-o e passo os dedos pela sua superfície. Está tão escuro. Ás tantas consigo abrir o objecto que revela uma bonita e suave luz. Ergo-o. Estou em casa, no sótão que a avó nunca abriu. Sei que estou aqui porque me lembro da avó me ter dito que guardava aqui espelhos velhos. Mesmo antes de pensar como e porque raios vim aqui parar, a curiosidade leva-me a vasculhar o sótão. Tem montes de espelhos, grandes e médios, cobertos com lençóis e lá ao fundo um baú velho. Está aberto, mas não parece mexido. Debruço-me sobre ele, vejo tecidos de cetim e veludo, quero tocar-lhes. Pego num vestido, lindo. Vesti-o, sem perceber que o tinha feito e porquê. Assenta-me bem. Destapo o primeiro espelho que vejo, quero ver-me. Miro-me, senti-me bonita por momentos. Sorri. E então no meio daquela fantasia toda apercebo-me que estou no sótão da casa da avó. Não me lembro como vim aqui parar. O objecto que encontrei há pouco, emanava agora uma luz tal que iluminava grande parte do compartimento. Vou buscá-lo, tinha-o pousado assim que experimentei o vestido. Ergui-o para ver melhor, Não encontrei a porta. Nem a janela. Começo a ficar nervosa. E então o frio outra vez. Nas costas, no pescoço. Viro-me repentinamente! Nada. E vejo-me no espelho, aproximo-me. Havia algo de estranho com o espelho, a superfície parecia.. consistente?! Estiquei o braço e depois o dedo. Toquei-o, senti um pouco de calor no meio de todo aquele frio. Assustei-me! Dou um passo para trás, tropeço no vestido e caio no chão. Acho que torci o pé. À medida que me levanto vejo uns pés diante de mim, pés femininos, depois uma silhueta de aspecto delicado num vestido amachucado, sujo de manchas de sangue, rasgado e estranhamente parecido com o que eu tinha vestido. Tive medo de olhar para o rosto, mas olhei: uma jovem, alta, cabelos negros, lisos, olhos verdes, boca bonita mas seca e exibindo cortes, assim como o resto do rosto. Era extremamente parecida comigo, à excepção dos olhos verdes, eu tenho-os castanhos. Tinha um olhar vazio, no entanto sorriu-me. Sorri também. Pegou-me na mão e voltou a colocar-me o objecto reluzente que havia deixado cair. Pela primeira vez falei: “Quem és?” Ela não falou, aliás, adoptou uma expressão dura. Parecia ofendida. Percebi que não era capaz de falar. Baixei a cabeça e, sem querer, olhei para um golpe bastante fundo que ela tinha no abdómen, Arregalei os olhos e olhei-a preocupada. Ela sorriu, parece que não lhe doía. Fazia-me imensa confusão aquilo tudo, estaria maluca? Já nem sabia bem o que loucura era. Entretanto o objecto brilhava intensamente, mais do que antes. Olhei para ele, limpei-o e li: “Belongs to Sarah”. Percebi que o objecto viera de longe, Inglaterra talvez. Nesse momento, a minha sósia ensanguentada toca-me pela primeira vez. O coração bate descompassadamente, sinto calor e frio ao mesmo tempo, o chão parece que treme e ouço zumbidos. Fecho os olhos para voltar a abri-los depois destas sensações cessarem. E olho em volta. Estou no mesmo sótão, mas está mais limpo, parece mais novo. Não tem os espelhos nem o baú que vasculhei. Há bastante luz e vejo a porta. Vejo-a a abrir-se e a rapariga com quem estive pouco tempo atrás, surge pela porta. Está feliz, tem uma voz bonita, vem a cantarolar e a sorrir. Sorri também ao vê-la. Veio deixar uma caixa. Pousou-a e voltou atrás para fechar a porta. Parecia curiosa e eu também fiquei. Abriu-a finalmente, revelando o seu interior. “Papéis?” disse eu. Ela não me ouvia. Não consegui ver o que eram. Ela leu-os, parecia nervosa, começou a chorar. Preocupei-me. Uma segunda pessoa entra no sótão. Um homem, alto, de aspecto arrogante. Viu-a, e pareceu extremamente irritado. Ela levantou-se, gesticulou e gritou “You killed him!” Era inglesa, mas percebi o que ela dissera. Estaria a ser metafórica? Tive a sensação que não. Olhei para o homem, ele sorriu sarcástico e acenou afirmativamente com a cabeça. Horrorizada, a rapariga de olhos verdes tirou da caixa o mesmo objecto luzente que eu segurara antes, e guardou-o na sua mão fechada, dizendo que lhe pertencia, que lho haviam dado. Ele agarrou-a pelos cabelos, arrastou-a, ela debatia-se sem nunca largar caixinha de luz. Foi então que percebi, no meio de berros e choros, que o “ele” de que falavam era na realidade o irmão da rapariga. Fiquei horrorizada. Quis ajudá-la! Mas não consegui, senti-me impotente. Afligia-me vê-lo a espancá-la daquela maneira tão bárbara. Fê-la bater nas paredes, nos móveis e no chão com uma força impressionante. Ela ameaçava desvendar a verdade. Ele batia-lhe mais e eu não queria ver aquilo. Foi então que a rapariga se libertou e fugio. Correu em direcção à porta e ele foi atrás dela. Apanhou-a, agarrou-lhe as pernas! Ela caiu, ficando de costas voltadas para cima. E num acto desumano, o homem de aspecto mau, puxou-lhe os cabelos negros, rodando-lhe bruscamente a cabeça para o lado. Tinha lhe partido o pescoço. Afundei a cara nas minhas mãos, soltei um grito de horror. Aquele estalido ecoou-me na cabeça. Chorei.
De repente aquele silêncio novamente. Senti-me cansada de tudo aquilo, só queria que tudo não passasse de um pesadelo, queria acordar. Voltei ao sótão poeirento e desarrumado onde estava antes de presenciar aquela cena arrepiante. E lá estava ela, a rapariga. Ela apontou para o baú. Olhei para lá, remexi-lhe. Encontrei uma fotografia, antiga, via-se pelas cores gastas. No entanto viam-se bem os rostos. Estava ela com um rapaz pouco mais baixo, em frente da casa, a casa da avó. Sabia que nem sempre foram dos meus avós. Virei a fotografia “Sarah and Tom” Seria aquele Tom o irmão de quem ouvi falar na discussão que presenciara? Ela pareceu ter lido os meus pensamentos, e acenou afirmativamente. “Que queres de mim?” Perguntei eu. Ela apontou novamente para o baú. Não vi nada, estava vazio mas ela apontava seriamente. Virei-o, tacteei todos os recantos, senti um relevo. O forro estava rasgado, pus a mão na abertura e tirei de lá uma cassete de vídeo. De repente nova sensação estranha, zumbidos, o chão a tremer. Senti-me cair, não gritei, apenas fechei os olhos. Parou. Estava novamente na sala onde me encontrava no início daquela noite, ou a noite anterior, já não tinha noção do tempo. Tinha a cassete comigo. Arrisquei-me a colocá-la no vídeo velho da avó, estava com medo que não funcionasse. Liguei a televisão. E assisti novamente às cenas horríveis que assistira no sótão. O homicídio tinha sido filmado. Percebi então que deveria desvendar a verdade. Mas não sabia bem como. Voltei à sala de estudo, sentei-me, pensei naquilo tudo, estava tão cansada. Adormeci. Tive a sensação que dormi horas, no entanto, quando acordei, estava tudo igual, como se o tempo tivesse parado ali. Olhei em frente, e dei com os olhos no tal livro grosso que me aborrecera ler. Peguei-lhe sem saber bem porquê e abri-o. Tinha letras pequeninas, parecia entediante. Folheei, e acabei por encontrar um recorte de jornal velho. A curiosidade fez-me lê-lo. Estava em inglês, fiz um esforço para perceber o texto: “Jovem encontrado morto em Lisboa”, “ identidade do criminoso desconhecida”. Ligando os acontecimentos, percebi que o rapaz de que se falava era o irmão da rapariga, de Sarah. Numa fracção de segundos percebi o que tinha que fazer. Com toda a coragem que alguma vez tive, saí de casa, ainda com o vestido que encontrara no sótão, despenteada e meio desorientada. Dirigi-me ao posto de polícia mais próximo, mostrei a cassete e o recorte de jornal. Voltei para casa, meia zonza e ainda a digerir tudo o que me tinha acontecido. Já não tinha noção de nada. Cheguei a casa, a avó estava a fazer o pequeno-almoço, era de manhã portanto. Perguntou-me onde estive, mas eu, metida nos meus pensamentos, não lhe respondi. Sentei-me e comi, havia muito tempo que não comia. Olhei para o meu colo, já não tinha o vestido posto, nem sabia onde tinha deixado o objecto que emanava luz. Parecia que nada tinha acontecido. Teria sido imaginação minha? Não podia. Acabei por me obrigar a esquecer o assunto.
Os dias foram passando, nunca mais senti nada de estranho, o sótão continuava fechado, a vida decorria normalmente. Ajudava agora a minha avó nas tarefas domésticas. Na rádio passava uma música da qual ela gostava muito. O locutor interrompe a emissão para uma notícia de última hora, sem saber bem porquê, parei e ouvi com atenção: “Após a análise de provas doadas anonimamente à polícia, foi, um criminoso procurado pela polícia há anos, foi capturado. O indivíduo de origem inglesa assassinou cerca de 28 pessoas entre as quais os filhos, Tom e Sarah, esta última morta numa das suas casas, em Portugal. Após o julgamento foi condenado a 14 anos de prisão…”. Gelei, fiquei petrificada perante o que ouvira, o próprio pai? No entanto estava feliz mas ao mesmo tempo confusa, incrédula e intrigada. Caí em mim. Afinal aconteceu! Porquê a mim? Foi a primeira pergunta que em ocorreu. Seria por ter tantas semelhanças físicas com Sarah? Não quis pensar mais nisso, a justiça tinha sido feita. Abracei a avó, ela olhou-me intrigada, mas sorriu-me. Subi as escadas e fui até ao sótão, sem me aperceber do percurso que tinha feito. Parei em frente da porta, senti-me como que hipnotizada. A porta abriu-se e eu entrei. Sarah estava lá, sorriu-me, acenou-me e desvaneceu-se na minha frente, deixando atrás de si o objecto que me acompanhara nesta aventura. Abri-o, a sua luz suave aqueceu-me a alma, senti-me bem, olhei mais de perto, limpei-o com a manga, e li em letras pequenas e perfeitas: “Belongs to Ariana”.

Ariana Duarte

Publicado por Hard Candy às 04:24 PM | Comentários (0)