novembro 10, 2004

Esse cara não sabe do que fala...

...ou melhor, saber até sabe, mas sabe pouco, o que por vezes é pior do que não saber nada.

Com que então o problema do anti-semitismo em França foi tão grave como no III Reich. Porque não dizer antes isso desta forma: o problema do anti-semitismo na 3a República foi tão grave como na Alemanha?

Esta pequena incongruência poderia, para alguns especialistas da hermenêutica acusatória, revelar uma vontade de estender o opróbio do anti-semitismo francês do início do século à França de todos os tempos, limitando simultaneamente o opróbio do anti-semitismo alemão que culminou com o regime nazi aos anos de vigência desse mesmo regime. Mas, porque não vislumbro nenhuma razão que justificasse tamanha parvoeira, não vou imputar intenções ao Rodrigo.

Imputo-lhe, isso sim, um uso enviesado do seu (des)conhecimento da questão. Aqui vão algumas luzes sobre o “pequeno mas importante pormenor”:
1. Em França, o anti-semitismo em política tem uma longa tradição, cujos momentos culminantes foram o virar do século e os anos trinta. Casos como o affaire Dreyfus, escritos como os de Barrès, de Drumont, de Maurras, de Brasillach, entre outros, atestam-no sobejamente. A diferença que poderemos apontar entre a França e a Alemanha é que nunca a Action Française, o PPF e as diversas ligas de extrema-direita estiveram em posição para conquistar o poder à maneira do NSDAP. Muito menos para o exercer à maneira de um Hitler. Nem as teses de Zeev Sternhell, que identifica as raízes ideológicas do fascismo europeu no século XIX francês, permitem equiparar a gravidade do anti-semitismo em França com o anti-semitismo contemporâneo na Alemanha.
2. O regime de Vichy, encabeçado pelo marechal Pétain, empenhou o Estado francês numa política de colaboração com o ocupante alemão que o levou a fazer suas as políticas discriminatórias e exterminatórias nazis, particularmente no que diz respeito aos judeus, fossem eles cidadãos franceses ou não. Para isso, contou com o apoio de uma minoria e a passividade de uma larga maioria. Mas confrontou-se também com a resistência de uma considerável minoria, e os inúmeros casos de judeus salvos por franceses atestam-no.
3. Com a libertação do território francês em 1944-45, deu-se um processo de purgas, simultaneamente legais e selvagens, que levou a uma renovação considerável da elite política francesa. Como é evidente, nem todos os cúmplices franceses das atrocidades nazis foram afastados – como a brilhante carreira posterior de Maurice Papon evidenciou exemplarmente. Mas quem poderá seriamente afirmar que o processo de desnazificação limpou a Alemanha de nazis?
4. O problema do anti-semitismo na Alemanha, contrariamente ao que parece pensar o Rodrigo, não foi (seriamente) reconhecido nem combatido no imediato pós-guerra. Apenas a partir dos anos sessenta a questão dos campos de exterminação começou a impôr-se no debate público alemão. As exigências da reconstrução e da reconciliação nacional, em França como na Alemanha, levaram à construção de certos mitos e silêncios que só a pressão das segundas e terceiras geraçãoes pôde fazer desabar.
5. Se é verdade que em França a leitura gaullo-comunista da História popularizou o mito de uma pátria de resistentes, não é menos exacto que na Alemanha um silêncio ensurdecedor sobre o passado rapidamente sucedeu à campanha de desnazificação protagonizada pelos Aliados. A historiografia da RDA tendeu a apresentar o povo alemão como uma vítima do fascismo, enquanto que na RFA a concentração do opróbio na personalidade de Hitler permitiu encobrir as responsabilidades partilhadas por uma parte significativa da população.
6. Por último, se é verdade que hoje em dia, na Alemanha, a Shoah é ensinada e debatida até à exaustão, também não podemos escamotear a evolução da posição oficial do estado francês, que reconheceu em 1995 pela voz de Jacques Chirac a sua responsabilidade na exterminação dos judeus, algo que Mitterrand, por exemplo, sempre se tinha recusado a fazer. Isso já para não falar da própria evolução da consciência pública do que foi o regime de Vichy e do que foram as divisões da sociedade francesa naqueles anos que hoje são considerados como de “guerra civil sob ocupação”. Poucos períodos na história francesa suscitam tanto interesse público como esse, e com franqueza, não me parece que a historiografia dos últimos anos seja particularmente branda em relação à auto-estima nacional.

Conclusão: a evolução da França e da Alemanha em relação à assunção das suas responsabilidades na Shoah são, mutatis mutandis, comparáveis. O que não é de todo equiparável é a substância dessas responsabilidades. Ora, não me parece razoável que se queira comparar árvores sem olhar aos frutos.

Publicado por Vasco do Ginjal em 06:47 PM | Comentários (1) | TrackBack

novembro 09, 2004

Djavan é preciso

Publicado por Vasco do Ginjal em 03:54 PM | TrackBack

novembro 08, 2004

Sydney Sheldon e Portugal

Via Aviz, tive a curiosidade de fazer um gugle "Sydney Sheldon" Portugal. O livro deve ser giro, e não pode ser dêvêdês todas as noites.

Mas não estava à espera desta pérola que encontrei:

Russian cuisine

We recommend you to visit restaurant of Russian cuisine - Podvorie. International fame of Podvorie began from Welsh Prince Charles. Architect Ivan Knyasev, who designed the building of restaurant, became a laureate of English Prince's Preemie.

The President of Russian Federation - Vladimir Putin, for 5 years is being restaurant's favorite client. He also held his birthday party there.

For years of restaurant's existence many famous guests have been there: the King and the Queen of Thailand, the Prince Michael, the President of France Jacque Shirack and then Madam Shirak, the Prime Minister of Portugal. Frequent guests are Mstislav Rostropovich and Galina Vishnevskaya.
Among other international stars are actress Katrin Deneuve, great choreograph Moris Bejar and 'Pet Shop Boys', ex-agent 007 Pirce Brosnan and Sydney Sheldon.

Já reparastes que o Prime Minister of Portugal, juntamente com Sydney Sheldon, é o único famous guest estrangeiro que não está mal ortografado? Nem o Président de la République escapa ao massacre. E ainda dizem que a Central de Comunicação do Governo não funciona… ah, gente de pouca fé, não vêdes que é também pela ortografia que se mede o prestígio de uma pátria?!

Publicado por Vasco do Ginjal em 06:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 04, 2004

Crónica de uma noite eleitoral

First things first. Na terça à noite, o Porto jogava a sua última possibilidade de qualificação contra o PSG. Poderia ser dramático para mim se fosse um confronto entre as minhas duas cidades (sem adjectivos). Mas não foi, porque não era: tratava-se de um confronto entre o meu FCP e os ranhosos do PSG. Que, por acaso, fizeram com que FCP se empenhe agora numa difícil campanha de qualificação para a taça UEFA.

Flashback. Há duas semanas, eu estava no Parc. Lá, ainda foi pior. Dois secos num minuto. Eu, com os meus três cachecóis azuis-e-brancos, era um alvo particularmente visível e apetecido de chacota. Até houve um pretito de 12 anos que, na sua comoção perante o golo do Coridon, se esticou cinco assentos para me aplicar um fortíssimo beliscão no braço. Eu, em vez de dizer “cabrão do puto”, ou “cabrão do preto”, ou “cabrão do que quer que fosse”, sorri com alguma sobranceria perante à alegria da populaça. Tinha sido educado com um Porto que dá voltas ao resultado. Passado um minuto, um cabrão de açoreano fez-me voltar à real. Tá certo. Issicé/Parri! (x3)

Fondu-enchaîné. Portanto na terça, fui ver a bola ali para os lados de Montparnasse. Sozinho. Ao intervalo, montei na patinette e apanhei o metro para a Madeleine. Vi o fim do jogo no Extrêmes, um bar ali mesmo ao lado do Olympia, cheio do jovens quadros de gravata meio desfeita a encanalharem-se. Entrei mudo e saí calado. Mas ouvi coisas do género: “Como é que o Porto pôde descer tão baixo?”; “Estes gajos são tão nulos que nem me espanto que a gente ganhe…”; o pior de tudo ainda foi “Acabámos de perder a qualificação, eram três pontos tão fáceis…”

Plan-séquence. A seguir, dirigi-me para a rue Daunou.
Para quem não saiba, a rue Daunou fica ali entre a rue de la Paix e a Avenue de l’Opéra.
Para quem não saiba, na rue Daunou fica o Harry’s New York Bar.
O bar que organiza o “straw vote” (traduz-se por, digamos, voto a brincar) que até terça à noite, só se tinha enganado uma vez.
[Agora, enganou-se duas].
Para quem não saiba, a rue Daunou é zeplêcetobi na noite eleitoral americana, pelo menos quando se está em Paris.
Digo a rue Daunou e não o bar, porque entrar lá dentro é missão impossível, e quem consegue apesar de tudo autodestrói-se ao fim de 5 segundos, tal é a temperatura e a concentração em vapores tóxicos.
Fiquei no bairro até às três e meia da manhã, ouvindo rumores, cânticos gospel entoados por apoiantes de Lyndon LaRouche, um pianista a declamar Nabokov – e eu a ajudá-lo – uma pitinha de Sciences Po a explicar-me já não sei bem o quê, mas que não fazia grande sentido, enquanto um khâgneux se armava em pró-Bush a ver se as jornalistas da RFI se interessavam por ele. Uma jornalista do “Service Brésil”, aliás, quase me entrevistava sobre o “straw vote”, mas escondi a minha condição de politólogo e fiz-me de estúpido porque, provavelmente, assim soariam as minhas palavras quando fossem para o ar… Acabei por engraçar com dois franceses meio artistas, e foi com eles que passei o essencial da noite, em frente ao Footsie’s, bar bastante envidraçado, onde a CNN muda coabitava com videoclips cegos. E cá de fora, tínhamos vista panorâmica à la fois sobre o cândido balancear de traseiros casadoiros, sobre os suspensórios do Larry King, e sobre a evolução dos swing states (chama-lhe swing, chama…). Por isso a nossa conversa também oscilava entre as vantagens relativas da patinette e do patim; a mobilização dos newborn christians; porque é que só em França é que as mulheres muito bonitas são as mais fáceis; e as obscuras razões que levavam dois de entre nós a sentir um certo gozo com a vitória de Bush que então ainda não se anunciava, apesar de serem marginalmente favoráveis a Kerry, só para meter nojo.

Fondu-enchaîné. Quando acordei no dia seguinte, o Ohio estava já estatisticamente republicano. Decidi sair deste mundo, e mergulhar num mundo onde a eleição americana ainda não teve lugar, e onde, provavelmente, o vencedor será um Democrata, o primeiro POTUS afro-americano da história: David Palmer.

In a videoclub near you.

Publicado por Vasco do Ginjal em 06:00 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 02, 2004

Declaração de voto

Esta noite joga-se o nosso futuro. O ginjal não pode ficar indiferente ao que está em jogo nestas eleições. Por isso, o ginjal vota. O ginjal vota Democrata. É que o afrontamento entre democratas e republicanos não se circunscreve a um país. Trata-se de uma disputa cujas repercussões são mundiais: não podemos ficar indiferentes perante elas.

É certo que o ginjal nunca se pautou por uma oposição maniqueísta aos republicanos. Pelo contrário, este blog tem reconhecido o que de positivo deram ao Mundo diversas administrações desse partido. Por outro lado, o ginjal sempre se demarcou do repúdio pelos EUA que leva certos comentadores a menosprezarem os efeitos da contenda eleitoral. Por isso, apesar de termos como provável que ambos os candidatos acabem por ter de fazer face a dificuldades dificilmente superáveis face a temíveis adversários, não enjeitamos escolher o nosso candidato.

O nosso candidato desta noite é democrata. Que o melhor ganhe.

Estou certo que esta declaração de voto terá o entusiástico apoio da Ana, do Bruno e do Francisco.

Publicado por Vasco do Ginjal em 12:24 PM | Comentários (1) | TrackBack