fevereiro 16, 2004

1900

Não era um filme do Bertolucci?

Publicado por Vasco do Ginjal em 01:28 AM | TrackBack

fevereiro 04, 2004

Por uma hermenêutica psicanalítica do amor pátrio: esquisso de uma auto-análise

O amor pátrio é claramente um fenómeno incestuoso. Senão vejamos: a pátria começa por ser mãe, mas depois pede que casemos com ela. Quereis provas? Aqui estão: alguma mãe pede a um filho que morra por ela? Nunca. Mas uma esposa não hesita em encorajar os instintos belicosos do macho que a fecunda para proteger a sua casa e os seus filhos.

Para escamotear esta dimensão incestuosa dos mitos nacionais, criou-se a palavra pátria, que não é senão um fenómeno de inversão da realidade – uma espécie de pacto de negação – cuja função não é tanto esconder a verdade como calá-la, de modo a que cada um possa sublimar na comunidade política as suas pulsões incestuosas caseiras em público. Todos nós sabemos, no entanto, que there is no such thing as pátria: há a mátria, e para os mais pudicos, a mãe-pátria (haverá mais belo afloramento do inconsciente do que este?).

O analista (ora portantos, este aqui sou eu) não escapa a esta condição incestuosa. Mas acrescenta a ela uma condição adulterina. Isto é: sendo casado com Portugal, sua mãe – que ainda não o mandou para a guerra, mas podia se quisesse - anda de há uns anos para cá amancebado com uma tal de França. Cada vez que a vê a passar, só pensa em comê-la. Ela dá-se de bom grado – rameira que é, chama à pouca vergonha universalismo! –, e de todas as maneiras: ela é baguette, ela é brie de meaux, ela é blanquette de veau

Mas casar-se com ela? Aí reside a nevrose do analista: nem pensar! O seu superego é completamente avesso à poligamia – a mãe, que já queria casar com ele de pequenino, educou-o bem. E divorciar-se de Portugal? Isso é contra a moral católica, que resiste com valentia no seu reduto inconsciente aos assaltos do liberalismo dos costumes. Que no entanto sabem bem: a outra é tantas vezes mais apetitosa que a legítima… Mas a legítima é legítima. E disto o superego deste vosso servidor não se livra.

Publicado por Vasco do Ginjal em 06:25 PM | Comentários (3) | TrackBack

Post umbiguista para desanuviar a atmosfera

Quando já estava mesmo farto disto, lá decidi ir tomar um café com flã. Instalei-me num banquinho de jardim: o jardim estava óptimo, o flã assim-assim, o café uma peçonha.

Pus-me a pensar na conversa do almoço: está bem que quando tens uma estudante a bater-te o couro, tu resistes quase sem dar por ela. Mas e se és tu que não resistes a uma estudante que nem sequer te passa cartão? Nem sequer tens a muralha da ética ofendida para te defender, e muito menos a vantagem do estatuto para te ajudar na tua empresa de sedução. En un mot, estás fodido, Cédric. O que te vale é a boa que andas a papar, sempre desvia a tua atenção de pensamentos pecaminosos. (não conto o que respondeu o Cédric)

Nisto passa pela alameda do jardim uma confirmação empírica da teoria do Cédric: uma miúda assim tão bem feita que só mesmo uma lésbica a poderia descrever com a sensibilidade apropriada. Eu limitar-me-ei a salientar aquele peito pesado e maternal que teimava em manter uma aspiração ascensional apesar do pull-over que o moldava. Mas lá está: havia algo de pueril naquelas feições, um tudo-nada de cheiro a leite no oval da cara, que um gajo (acho que o qualificativo me assenta bem) quando está a engatar numa discoteca nem liga, mas quando está de pé numa sala de aula sente logo como um poderoso dissuasor do desejo. E descansei: acho que afinal vou conseguir.

Recebo então a chamada do dia. Acerca dela, quase no comments. Apenas isto: sabem qual é a diferença entre uma tia e uma goiana ao telefone? A tia diz ‘então vá’. A goiana diz ‘então tá’. Tanto mar que nos separa… eu cá prefiro a goiana.

Revigorado pelo então tá, bebo o resto do café de um trago tremelicante e dirijo-me ligeiro e ledo para o escritório. Cruzo-me na rua com a 'miúda assim tão bem feita'. Nem preciso de fingir indiferença: estava mesmo indiferente, eufórico por outros motivos. Mas as nossas trajectórias roçavam-se (tal era inevitável) e a vaga de perfume nada pueril que ela espalhava deixou-me outra vez com dúvidas sobre a minha vocação docente.

Entrei no emprego, passei pelo Cédric, fui à casa de banho, e ao lavar as mãos olhei para o espelho e pude constatar que ‘um dos problemas desta selvajaria – lavar o cabelo dia sim dia não - é que, mesmo que nos repugne muito, não pode ser erradicada por nenhuma lei que não traga infinitamente mais inconvenientes que vantagens. Teremos por isso que a combater sem a ajuda da lei.’ Mea culpa, mea maxima culpa. E agora, se me permitem, estou atrasado para o psiquiatra.

Publicado por Vasco do Ginjal em 05:28 PM | Comentários (0) | TrackBack

fevereiro 03, 2004

As palavras são terríveis, Ivan

Que o teu post não é sobre a despenalização do aborto é evidente, Ivan. Por isso mesmo ele me choca. Posso compreender que condenes aquilo que vês como uma indevida limitação da liberdade reprodutiva das mulheres. Já não posso compreender que suspires por não haver lei que te possa apoiar numa empresa que qualificarei sem pejo como luta contra a liberdade de culto.

Vamos lá ver: essas selvajarias e barbaridades que te chocam entroncam na visão do mundo proposta pela doutrina cristã. Segundo o teu post – não tenho outra fonte sobre o assunto – a Igreja Católica propõe um apoio a mulheres que abortaram, que passa pelo reconhecimento da culpa do acto de abortar, que passa também pela humanização do feto nas representações dessas mulheres.

Que não estejas de acordo não me espanta. Que aches isto bárbaro já me deixa perplexo. Afinal, esta barbárie tem durado há já uns dois mil anos, mais coisa menos coisa, através de mecanismos como a confissão, onde o crente reconhece a sua condição de pecador in concreto (será isto latim ou algaraviada?) e obtém o perdão através do arrependimento. Pôr em causa o facto que uma religião possa basear as suas actividades sociais na sua doutrina e na sua fé, no respeito pelas leis em vigor, só tem um nome: sectarismo.

Ou achas que a selvajaria que denuncias põe em causa os valores básicos da ordem social? Porventura deveria ser proibido acreditar na natureza humana do feto? Porventura deveria ser proibido uma mulher sentir-se culpada de ter abortado? Porventura deveria ser reservada a possibilidade de se ajudar quem pede ajuda a detentores de alvará de conformidade ideológica? Porventura algum filósofo-rei terá decretado que a felicidade e o equilíbrio psicológico são valores superiores à liberdade de consciência?

Eu, que não reparei nisso, continuo a pensar que não se pode impor a ninguém a felicidade e o equilíbrio. O que diz o teu estudo psicológico: que as consequências negativas de abortar são maiores para as pessoas cujas crenças – religiosas ou laicas, aliás – são contrárias ao aborto. So what? Vamos proibir as dissonâncias cognitivas em nome da felicidade? Também podemos lobotomizar a população mundial, aí de certeza que a incidência dos dissabores causados por fenómenos tão disparatados como a fé ou a convicção diminuiria acentuadamente.

Tal como o teu, o meu post não é sobre a despenalização do aborto. Das minhas palavras será certamente impossível tirar uma ilação fundamentada sobre a minha posição nesse debate. O meu debate aqui é outro: é a defesa do pluralismo e da democracia contra aquilo que chamarei, por disso estar convicto em virtude de ser um leitor relapso e contumaz d’a praia, friendly fire.

Publicado por Vasco do Ginjal em 06:56 PM | Comentários (3) | TrackBack

Livros lidos ultimamente

Hummm… deixa cá ver : O meu pipi, e o pipi de mais quem ?
Pois, afinal menti. Para todos os que cá vieram ver o que escrevia o blogger que andava a treinar para Marcello… vejam o que escreveu o blogger que vai fumando narguilés e bebendo caipirinhas quando devia era estar a honrar os contribuintes (franceses ! attention…) que o sustentam – pouco, à mon avis.


Mesmo pouco.


Quer dizer, pouco é sempre relativo.


E para mim nada é demais...


...se for para mim, não é isto verdade?

Se calhar um dia destes (r)emigro. Esta gente não me merece!

Onde é que eu ouvi isto antes?

...é de fumar demais, é o que é.

Publicado por Vasco do Ginjal em 05:20 PM | Comentários (0) | TrackBack