novembro 04, 2004

Crónica de uma noite eleitoral

First things first. Na terça à noite, o Porto jogava a sua última possibilidade de qualificação contra o PSG. Poderia ser dramático para mim se fosse um confronto entre as minhas duas cidades (sem adjectivos). Mas não foi, porque não era: tratava-se de um confronto entre o meu FCP e os ranhosos do PSG. Que, por acaso, fizeram com que FCP se empenhe agora numa difícil campanha de qualificação para a taça UEFA.

Flashback. Há duas semanas, eu estava no Parc. Lá, ainda foi pior. Dois secos num minuto. Eu, com os meus três cachecóis azuis-e-brancos, era um alvo particularmente visível e apetecido de chacota. Até houve um pretito de 12 anos que, na sua comoção perante o golo do Coridon, se esticou cinco assentos para me aplicar um fortíssimo beliscão no braço. Eu, em vez de dizer “cabrão do puto”, ou “cabrão do preto”, ou “cabrão do que quer que fosse”, sorri com alguma sobranceria perante à alegria da populaça. Tinha sido educado com um Porto que dá voltas ao resultado. Passado um minuto, um cabrão de açoreano fez-me voltar à real. Tá certo. Issicé/Parri! (x3)

Fondu-enchaîné. Portanto na terça, fui ver a bola ali para os lados de Montparnasse. Sozinho. Ao intervalo, montei na patinette e apanhei o metro para a Madeleine. Vi o fim do jogo no Extrêmes, um bar ali mesmo ao lado do Olympia, cheio do jovens quadros de gravata meio desfeita a encanalharem-se. Entrei mudo e saí calado. Mas ouvi coisas do género: “Como é que o Porto pôde descer tão baixo?”; “Estes gajos são tão nulos que nem me espanto que a gente ganhe…”; o pior de tudo ainda foi “Acabámos de perder a qualificação, eram três pontos tão fáceis…”

Plan-séquence. A seguir, dirigi-me para a rue Daunou.
Para quem não saiba, a rue Daunou fica ali entre a rue de la Paix e a Avenue de l’Opéra.
Para quem não saiba, na rue Daunou fica o Harry’s New York Bar.
O bar que organiza o “straw vote” (traduz-se por, digamos, voto a brincar) que até terça à noite, só se tinha enganado uma vez.
[Agora, enganou-se duas].
Para quem não saiba, a rue Daunou é zeplêcetobi na noite eleitoral americana, pelo menos quando se está em Paris.
Digo a rue Daunou e não o bar, porque entrar lá dentro é missão impossível, e quem consegue apesar de tudo autodestrói-se ao fim de 5 segundos, tal é a temperatura e a concentração em vapores tóxicos.
Fiquei no bairro até às três e meia da manhã, ouvindo rumores, cânticos gospel entoados por apoiantes de Lyndon LaRouche, um pianista a declamar Nabokov – e eu a ajudá-lo – uma pitinha de Sciences Po a explicar-me já não sei bem o quê, mas que não fazia grande sentido, enquanto um khâgneux se armava em pró-Bush a ver se as jornalistas da RFI se interessavam por ele. Uma jornalista do “Service Brésil”, aliás, quase me entrevistava sobre o “straw vote”, mas escondi a minha condição de politólogo e fiz-me de estúpido porque, provavelmente, assim soariam as minhas palavras quando fossem para o ar… Acabei por engraçar com dois franceses meio artistas, e foi com eles que passei o essencial da noite, em frente ao Footsie’s, bar bastante envidraçado, onde a CNN muda coabitava com videoclips cegos. E cá de fora, tínhamos vista panorâmica à la fois sobre o cândido balancear de traseiros casadoiros, sobre os suspensórios do Larry King, e sobre a evolução dos swing states (chama-lhe swing, chama…). Por isso a nossa conversa também oscilava entre as vantagens relativas da patinette e do patim; a mobilização dos newborn christians; porque é que só em França é que as mulheres muito bonitas são as mais fáceis; e as obscuras razões que levavam dois de entre nós a sentir um certo gozo com a vitória de Bush que então ainda não se anunciava, apesar de serem marginalmente favoráveis a Kerry, só para meter nojo.

Fondu-enchaîné. Quando acordei no dia seguinte, o Ohio estava já estatisticamente republicano. Decidi sair deste mundo, e mergulhar num mundo onde a eleição americana ainda não teve lugar, e onde, provavelmente, o vencedor será um Democrata, o primeiro POTUS afro-americano da história: David Palmer.

In a videoclub near you.

Publicado por Vasco do Ginjal em novembro 4, 2004 06:00 PM
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