outubro 29, 2004

Saudade da pincelada

É em dias como este, em que tenho a garganta toda rebentada – isto apesar do frio que não está; e em que as pastilhas e os sprays se revelam de uma confrangedora inutilidade para acalmar a dor, estancar a narina, aclarar as ideias; é em dias como este, portanto, que tenho umas brutais saudades da pincelada.

A pincelada! O mais saudoso suplício da minha infância!
Oh! Pincelada – saberás tu jamais o quanto, te odiando
Acabei por te amar?

Depois deste gradiloquente interregno em verso livre, prosando vos explicarei a proustiana natureza da pincelada, tanto quanto saiba e possa debaixo desta carga bacteriana.

Então é assim: era uma vez um rapazinho que tinha as amígdalas sempre inflamadas, que andava sempre cheio de dores de garganta, otites, faringites e infecções afins. Esse rapazinho, era eu! Pois é (sniff)… Até que um dia, depois do insucesso de repetidas injecções de penicilina – era assim que se tratavam as crianças, no tempo da AD! – que aliás me deixaram alérgico ao venerável antibiótico, foi tomada uma grave decisão: a faca!!!

E foi assim que se extraíram as minhas amígdalas quando eu tinha 5 anos. Ora, como todos o corpo médico hoje em dia reconhece, essa é uma intervenção de alto risco e enormes consequências para o futuro.

Ainda assim consenti nela – não que o meu consentimento fosse necessário – por via das várias gratificações antecipáveis a curto prazo: por um lado, uma ou duas semanas a comer gelados com beneplácito paterno, para facilitar a cicatrização; por outro, a possibilidade de ser um herói e exaltar a minha coragem face ao perigo.

Tudo isso funcionou, mas nada disso me livrou da horrível sina que hoje é a minha: ter a garganta escancarada a toda e qualquer bactéria qe se encontre flutuando nas proximidades. Escancarada (por via da falta de portas), e ainda por cima quentinha, fofinha, confortável… ousarei mesmo hospitaleira. Pêga!

Donde: a pincelada. Quando filhinho sofria da garganta, papai dizia: “Olha, e que tal uma pincelada?” Aí, filhinho se punha correndo pela casa toda, fugindo desse maldito espectro. Mas papai, com suas manápulas extensíveis, agarrava filhinho e o trazia para a casa de banho, o sentava no rebordo da banheira, lhe escancarava a boca, empunhava agulha de tricô bem longa e grossa onde enrolava algodão na ponta de tal forma que ele nunca se soltava – artes que se estão perdendo hoje em dia –, mergulhava o pincel numa mixórdia mentolada provavelmente composta de iodo e mercurocromo… e pincelava a garganta de filhinho!!! Dá pr’acreditar, galera?

(Em geral isto passava-se com uma telenovela brasileira em ruído de fundo.)

Ele era a frescura agressiva do mentol nas paredes da minha garganta, ele era a agulha a escarafuncar o fundo da minha traqueia até me puxar náuseas, ele era a eficácia proporcional ao espavento e terror que o procedimento me causava.

Ah, hoje, agora, agorinha mesmo... que saudade da minha pincelada!

Publicado por Vasco do Ginjal em outubro 29, 2004 06:01 PM
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