fevereiro 04, 2004

Por uma hermenêutica psicanalítica do amor pátrio: esquisso de uma auto-análise

O amor pátrio é claramente um fenómeno incestuoso. Senão vejamos: a pátria começa por ser mãe, mas depois pede que casemos com ela. Quereis provas? Aqui estão: alguma mãe pede a um filho que morra por ela? Nunca. Mas uma esposa não hesita em encorajar os instintos belicosos do macho que a fecunda para proteger a sua casa e os seus filhos.

Para escamotear esta dimensão incestuosa dos mitos nacionais, criou-se a palavra pátria, que não é senão um fenómeno de inversão da realidade – uma espécie de pacto de negação – cuja função não é tanto esconder a verdade como calá-la, de modo a que cada um possa sublimar na comunidade política as suas pulsões incestuosas caseiras em público. Todos nós sabemos, no entanto, que there is no such thing as pátria: há a mátria, e para os mais pudicos, a mãe-pátria (haverá mais belo afloramento do inconsciente do que este?).

O analista (ora portantos, este aqui sou eu) não escapa a esta condição incestuosa. Mas acrescenta a ela uma condição adulterina. Isto é: sendo casado com Portugal, sua mãe – que ainda não o mandou para a guerra, mas podia se quisesse - anda de há uns anos para cá amancebado com uma tal de França. Cada vez que a vê a passar, só pensa em comê-la. Ela dá-se de bom grado – rameira que é, chama à pouca vergonha universalismo! –, e de todas as maneiras: ela é baguette, ela é brie de meaux, ela é blanquette de veau

Mas casar-se com ela? Aí reside a nevrose do analista: nem pensar! O seu superego é completamente avesso à poligamia – a mãe, que já queria casar com ele de pequenino, educou-o bem. E divorciar-se de Portugal? Isso é contra a moral católica, que resiste com valentia no seu reduto inconsciente aos assaltos do liberalismo dos costumes. Que no entanto sabem bem: a outra é tantas vezes mais apetitosa que a legítima… Mas a legítima é legítima. E disto o superego deste vosso servidor não se livra.

Publicado por Vasco do Ginjal em fevereiro 4, 2004 06:25 PM
Comentários

Temos mátria, pátria, ego, id, super, alter; todos nos lembram dessa nossa legítima raíz. Adorei o texto.

Afixado por: gigi em março 1, 2004 01:59 AM

Ali no 1900 não encontro os coments....fica aqui!
Acaso o filme mudou de realizador? ficou farto do mesmo?
Há que saber!

Afixado por: M. em fevereiro 16, 2004 02:49 AM

Gostei! Alias, me fez lembrar de Patria Minha, poema de Vinicius de Moraes.

Afixado por: Christine em fevereiro 5, 2004 09:39 AM