agosto 02, 2003

Nem só de espuma são feitos os dias

Ele há dias em que afloramos a lage do tempo. Hoje, por exemplo. Abri os olhos pelas 16h00 - depois de ter atendido chamadas da minha mãe e do Bruno com aquela voz entaramelada típica das horizontalidades a desoras. E assim, sem mais nem menos, telefonei à Xana. Que atendeu!

A Xana é uma parte do meu passado. Não tive nenhuma paixoneta por ela - não que eu fosse insensível ao que nela enfeitiça meio mundo, mas na altura em que fomos próximos eu andava perdido por alguém bem menos interessante. Não, não é esse o nosso passado. É melhor. A Xana foi a cantora da minha banda musical. Does anybody here remember... Vox Antiqua? É natural que não: afinal, não passámos de uma banda de um liceu perdido algures por essa Europa fora. Nunca fizemos maquettes nem vimos editores, mas se os tivéssemos visto, não me espantaria que eles nos dessem uma palmadinha nas costas e nos dissessem para comer um pouco mais de boroa. E se tivéssemos emboroado os nossos talentos, possivelmente nos teriam dito que "you're in the same market niche than Madredeus", querendo com isto significar - então até sempre!

Pois é. Apesar de tudo isso, Vox Antiqua foi uma aventura linda. Eu fiz uma data de letras e músicas, que ainda devo ter aí encostadas em qualquer lado. À guitarra (acústica) com o Nabais, orquestrávamos aquilo. Tínhamos também o Mário ao baixo, e o Carlos com um tambor moçambicano em madeira (para o bum) e um tambor argelino em barro (para o pim). Eles davam uma côr rítmica à coisa, uma consistência francamente inesperada.

E depois havia a Xana. A voz da Xana era como um diamante em estado bruto. Uma potência descontrolada, um timbre cristalino, uma emoção à flor da pele, um arrepio... A maneira como ela se dava às letras que eu escrevia criou entre nós um laço silencioso, tácito, até secreto. Unverified.

A vida, mais que a vontade, dissolveu a nossa banda. Hoje já não estamos no mesmo liceu. Já não vivo a 200 metros da Xana. Milhares de quilómetros se interpõem entre nós, usualmente. Mas não neste momento. Por isso, num repente, após tantos anos desencontrados, telefonei-lhe. E num repente, verifiquei o laço. Toquei na lage do tempo. É bom saber que o fundo do tempo é empedrado.

(act.) Hoje a Xana é uma parte do presente de todos os portugueses. Entra-lhes em casa entre dois programas. É a cara mais bonita da publicidade nacional. Se calhar já estão a ver de quem estou a falar... Mas não se esqueçam que a cara ainda é o que ela tem de mais banal.

Publicado por Vasco do Ginjal em agosto 2, 2003 06:53 PM
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