setembro 26, 2003

Ibn Errik Rex

Ontem, depois de um lauto jantar por mim preparado - lauto, pois! que outro qualificativo outorgar a um magnífico caril de pescada powered by Pescanova & Uncle Ben's ? - em honra do meu regresso ao doce lar parisiense, o Nuno, outro marado que partilha o mesmo lar que eu, extraiu da sua sacola uma garrafa de Ibn Errik Rex.

Uma garrafa de quê? Ibn Errik Rex. Pois, meus amigos. Ginjinha. Ginjinha da boa. Ginjinha da melhor. A melhor ginjinha que já alguma vez bebi.

Não se pode dizer que eu não estivesse prevenido. Na realidade, quando o gajo sacou da garrafa lembrei-me logo do programa do Eládio Clímaco em Óbidos, onde o apresentador de todos nós (quer dizer, o que sobra depois do outro ter ido parar ao xilindró) muito bem explicou como uma loja de antiguidades que vendia ginjinha se transformou num bar especializado na Ginjinha d'Óbidos.

Foi assim. Um gajo - um senhor gajo - cujo nome já não m'alembra lembrou-se de abrir uma loja de antiguidades em Óbidos. E lembrou-se também de crismar o estabelecimento com o nome do querido fundador da nossa nacionalidade - El-Rei D. Afonso Henriques. Mas - diríeis vós - "Afonso Henriques Antiguidades e Velharias Lda.", não é muito inspirador, que diabo! Pois não. Mas o senhor gajo - cujo nome já não m'alembra - era homem de erudição histórica superior à média. E crismou o seu estabelecimento, não com o nome pelo qual ficámos a conhecer o nosso querido soberano, mas sim pelo nome que aterrorizava as hostes sarracenas, a mourama, os infiéis, enfim... esse pessoal de turbante e espada curva ao qual a bandeira das quinas (reparai no subtil anacronismo) reconquistou, palmo a palmo, razia a razia, golpe de mão a golpe de mão, cabeça decepada a cabeça decepada, etc. o território de Portugal.

Esse nome era Ibn Errik Rex. Isto é: Rei Filho de Henrique. Reparai que a mourama era mais perspicaz do que muitos, visto que percebeu logo que o nosso Afonsinho do Condado não podia aspirar a menos do que a Rex. E, com franqueza, alguém poderia imaginar que, patriota como era o senhor gajo - cujo nome já não m'alembra - ele fosse crismar a sua loja de antiguidades de Ibn Errik Dux, acaso os infiéis tivessem sido mais cautelosos na denominação do homem que tanto dano lhes infligiu?

Bem, e assim abriu a loja de antiguidades de Óbidos. Mas - há que dizer com frontalidade - os negócios não começaram de feição. Para aliciar o freguês, o senhor gajo fundador da loja, cujo nome já não m'alembra, lembrou-se então de servir uns copinhos de ginjinha à clientela de passagem. A clientela de passagem foi abancando, a ginjinha dada começou a ser vendida, e em pouco tempo as antiguidades já eram um pretexto para a venda da ginjinha, e não o contrário.

O senhor gajo, cujo nome já não m'alembra, pode até ter lamentado a evolução do seu estabelecimento. Provavelmente o homem até tinha amor ao mister de antiquário! Mas mais do que isso, tinha o sentido dos negócios. E lamentos não pagam dívidas. Vai daí, transformou o Ibn Errik Rex em bar, e até vende a ginjinha para fora. Desde então, o sucesso - nacional e internacional - não tem sido desmentido.

Sabem porquê? Porque esta ginjinha é fenomenal. FE-NO-ME-NAL. Uma riqueza de aromas, uma suavidade, uma xaroposidade fluida q.b., enfim... um mundo.

Obrigado Nuno por ma teres dado a provar.

Publicado por Vasco do Ginjal em setembro 26, 2003 05:09 PM
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