outubro 15, 2003

Net-working

Somos todos pecadores, diz a Bíblia. Somos todos pescadores - penso eu.

Pescar é uma actividade metafórica da condição humana. No pescar há a iniciativa - mas também a aceitação. No pescar há a estratégia - mas também o imprevisto. No pescar há o indivíduo - mas também a imensidão. No pescar há o artefacto - mas também a natureza.

Pescar não é take it easy. Pescar é take it as it comes, mas pondo-se a jeito. E quem negará que a vida é assim?

Hoje não foi dia de pescaria. Foi dia de remendar rede. Ai do pe(s)cador que menospreza o trabalho de remendo! Quantas vezes ai de mim... Mas hoje remendei, com afinco, com gosto.

Remendando a rede em plena faina...

O café da manhã, partilhei-o com a secretária do ciclo doutoral. Além de simpatiquíssima, é-me indispensável: porquê escondê-lo? Mas a simpatia genuína dos doutorandos não lhe é menos indispensável para embelezar o quotidiano.

Em seguida, tentei servir o melhor que podia o professor de quem sou assistente. Trata-se de uma mente brilhante e alheada das technicalities; projectar-lhe os acetatos não é para mim desonra alguma. E apoiar os seus estudantes é um grande prazer.

Segui depois para um piquenique no Luxembourg com uma velha conhecida deste blog. Foi simpático, sereno, outonal. Ela fez as sanduíches, eu trouxe os macarons. Framboesa ou chocolate?

Deixei-a voltar aos seus afazeres sorbonnards e, já que ali estava, desafiei o Thibaud, meu vieux renard de estimação, a tomar um café expresso. Ele consentiu em trocar o Palais por um troquet alguns minutos e pudemos pôr a conversa em dia. Só com o Thibaud poderei alguma vez gizar em tão pouco tempo o projecto de um livro que nunca escreveremos. Será um brulôt sobre o governo tecnocrático e a inversão do modelo principal-agente - whatever that means.

Voltei ao meu porto seguro, trabalhei alguma coisa, apedeitei o ginjal, li blogues, e finalmente, ao fim da tarde, atravessei o Sena. Para um rive gauche patológico, é obra. Mas valeu a pena. Em Ternes reencontrei a Nathalie R., a mais unavowable das malhas da minha rede. Nada de mal-entendidos: é uma menina bien comme il faut, só a malha que nos liga se reveste de certo estigma. Longe dos nossos habitats, partilhámos um apfelstrüdel no Stübli, e depois vagueámos até ao Winston (ali mesmo em frente à Caixa) em cuja cave reminiscente do putedo de luxo que por lá se praticava em tempos idos tomámos um martini dry on the rocks. E falámos. Do tempo que passa. De nós. Dos outros. Da pesca. Da rede. Das malhas. Do oceano.

Sem esta malha singular e inconfessável que é a Nathalie, o dia de hoje não teria sido dia de remendos. Teria sido um dia bem vazio. Porém, sem as outras malhas, também não seria possível colocar este dia sob o signo da rede. A força dos laços fracos. A pivotalidade da malha marginal.

Afinal, ainda acredito.
Que quem bem faz a rede, bem nela se deita.
É que isto de pescar, não pode ser sempre.

Publicado por Vasco do Ginjal em outubro 15, 2003 10:10 AM
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