janeiro 19, 2005

Biblioterapia

por Jorge Vicente

0 INTRODUÇÃO

Na área das bibliotecas, uma das questões mais debatidas é a intervenção social – tentar determinar as necessidades que os utilizadores de determinada biblioteca sentem, satisfazê-las e criar, assim, laços intensos entre a comunidade e a biblioteca. É neste âmbito que surge a biblioterapia, uma nova forma de terapia que pretende, acima de tudo, prevenir a doença através dos livros, ou seja, curar através da palavra e da leitura. De facto, desde os tempos da Antiguidade, a palavra teve sempre muito poder. Na África tribal, por exemplo, a palavra do feiticeiro pode matar visto que, através dela, uma pessoa arrisca-se a ser excluída da sociedade e a deixar de existir. Assistimos, neste caso, ao poder psicológico da palavra. Também na Europa moderna, esse poder psicológico da palavra escrita é evidente: ainda hoje, recitamos orações, lançamos feitiços, declamamos poemas e contos, transmitimos toda uma tradição oral às gerações vindouras. Aliás, o próprio vocabulário português é bastante rico em exemplos de palavras curativas. Destaca-se o vocábulo ensalmar («dirigir a palavra a algo, para efeitos de cura»), entre outros.

Já Aristóteles afirmava, na Poética, que a palavra tinha um efeito catártico sobre o indivíduo. Presumivelmente, estaria a referir-se à tragédia grega. «Com efeito, alguns [indivíduos] são particularmente predispostos a este movimento [da alma]; mas, [por efeito] dos cânticos sagrados, quando se servem daqueles que são aptos a produzir na alma a exaltação religiosa, vemo-los pacificados, como se tivessem sido sanados e purificados.»1 A literatura religiosa mística e espiritual tem igualmente efeitos consoladores no ser humano como se pode verificar pela grande quantidade de livros de exercícios espirituais, orações e biografias de santos que têm surgido ao longo dos séculos. E não nos podemos esquecer da poesia e dos romances, companheiros de milhares e milhares de indivíduos lançados em hospitais ou prisões, curando-os ou, pelo menos, minorando a sua solidão.
1. UMA VIAGEM PELA HISTÓRIA DA BIBLIOTERAPIA

Na Roma Antiga, já se praticava a biblioterapia. Aulus Cornelius Celsus recomendou a leitura dos grandes oradores latinos com o objectivo de desenvolver a capacidade crítica dos seus pacientes2.

Mais tarde, no século XVIII, foi criado o movimento filantrópico que levou a leitura aos hospitais e, sensivelmente na mesma altura, Jean-Jacques Rousseau escreveu o romance autoterapêutico Émile. No século XIX, John M. Galt defendeu a leitura nas clínicas uma vez que, segundo ele, essa leitura:

• afastava os pensamentos menos saudáveis;
• informava;
• criava divertimento;
• melhorava a atitude dos pacientes perante a terapia;
• mostrava o interesse que o hospital tinha pelo doente.

Foi no século XX, porém, que a palavra «biblioterapia» surgiu. Em 1936, Marie-Madeleine Famin definiu a função da leitura enquanto biblioterapia. Segundo a autora, a leitura deveria dar prazer e distracção aos pacientes de um hospital; deveria estabelecer laços de ligação com a realidade do doente; deveria promover a auto-estima desse mesmo doente; deveria formá-lo tanto moral como espiritualmente. Em 1941, foi desenvolvida a primeira definição de biblioterapia. Contudo, só oito anos mais tarde é que foi criada a primeira teoria consistente sobre a biblioterapia.

2. A BIBLIOTERAPIA ENQUANTO TERAPIA

Na então Alemanha Federal (RFA) havia uma ligação entre as bibliotecas e o sistema de saúde. Mas emprestar livros aos hospitais não resolve nada; é fundamental que os bibliotecários tenham uma relação directa com os doentes.

A biblioterapia é, assim, fundamental para que essa relação se concretize de maneira eficaz. O terapeuta deve intervir, tanto numa perspectiva hospitalar como psicológica Podemos dar exemplos dessas possíveis intervenções: com as crianças, com os idosos, com doentes que sofram de patologias graves, etc. Em todos esses casos, assiste-se a uma importância cada vez maior do contacto humano entre bibliotecário e paciente; transmissor e receptor de cultura; terapeuta e paciente.

Giovanni Jervis definiu a relação terapêutica do seguinte modo:

«Tudo que se passe de verbal ou não-verbal, de consciente ou não-consciente entre duas pessoas, em que uma espera ajuda e a outra assume explicitamente a posição de quem ajuda. Esta relação pode ser formalizada; neste caso, trata-se de uma psicoterapia num sentido restrito.»3
Como o próprio Jervis assinalou mais tarde, esta posição é limitadora e não corresponde à complexidade da biblioterapia.


3. AS VARIANTES DA BIBLIOTERAPIA
Existem três variantes de biblioterapia:
• a primeira, já assinalada, consiste na biblioterapia vista como ajuda ao processo terapêutico (hospitais, centros clínicos, etc.);
• a biblioterapia como terapia própria;
• a biblioterapia como disciplina de desenvolvimento e crescimento pessoal.

A biblioterapia enquanto terapia própria pode, no entanto, subdividir-se em:
o BIBLIOTERAPIA TRADICIONAL (também chamada receptiva ou prescritiva – na qual apenas se lêem livros);
o BIBLIOTERAPIA SIMBÓLICA OU INDUTIVA (o objectivo seria reactivar os afectos emocionais e resolver os bloqueios do doente – a escrita de diários é muito usada);
o A BIBLIOTERAPIA EXPRESSIVA ou CRIATIVA (também chamada poesiaterapia ou Escrita Criativa.

A propósito, é pertinente citar José Gil e Isabel Cristóvam-Bellmann acerca da Escrita Criativa:

«Aquilo que todos nós possivelmente conhecemos e aquilo que a escrita criativa pretende impedir é o bloqueamento na escrita. O que quero dizer é que há um que quer escrever e não consegue, rói o lápis ou a caneta, fita a folha de papel, a folha de papel olha-o e espera e não se conseguem encontrar um ao outro. Um bloqueio na escrita pode exprimir-se também de outra forma. Um texto é produzido mas este é superficial e de qualquer forma vazio dando ao seu escritor uma sensação insatisfeita. Nos Estados Unidos existe uma série de pesquisas já sobre o ‘bloqueamento na escrita’. Estas pesquisas, no entanto, não chegaram ainda a conclusões específicas sobre como desbloquear bloqueamentos de escrita. A escrita criativa poderá, no entanto, ser um meio de luta contra estes fenómenos, indicando-lhes técnicas de como saber lidar com eles.»4

O processo terapêutico consiste no seguinte: em primeiro lugar, o paciente tenta identificar-se com as personagens do texto. Surge a chamada projecção na personagem. De seguida, dá-se uma ab-reacção na fase da catarse –compreensão através do distanciamento. Movimento de libertação e de cura. Ou seja, esquematizando o processo:
1º o afecto projectado na personagem literária;
2º interpretação das causas de actuação das figuras literárias e da intenção do autor;
3º verbalização das emoções, da agressão e da memória (catarse);
4º autoconhecimento, tolerância, aprendizagem e interacção no EGO.

4. CONCLUSÕES

Como se verificou ao longo deste trabalho, a biblioterapia é uma forma de terapia muito interessante que poderá ajudar as bibliotecas a aproximarem-se da comunidade em geral. O trabalho desenvolvido por muitas bibliotecas, um pouco por todo o mundo, as relações que se estabelecem entre elas e os hospitais, o trabalho de incentivo na prática da escrita, a aproximação dos leitores com os livros, tudo isso é fundamental. No entanto, será que o trabalho do bibliotecário é o de terapeuta? Terá ele as competências necessárias para ser terapeuta, para ajudar na cura de um determinado indivíduo? É uma questão de difícil resposta. Se, por um lado, o bibliotecário não deverá misturar as suas competências, por outro lado, ele é a peça fundamental no processo da biblioterapia. É ele que conhece os frequentadores da sua biblioteca: quem vai lá porventura todos os dias em busca de conhecimento; quem vê os livros como companheiros de vida; quem os utiliza apenas como elemento de estudo; quem frequenta a biblioteca apenas para sentir o cheiro do papel. Nesse sentido, deverá envidar todos os esforços para satisfazer as necessidades de todos os que frequentam a biblioteca.

As bibliotecas públicas têm, aqui, uma importância fulcral, pois mobilizam muitos e muitos leitores5. O trabalho do terapeuta é ajudar o bibliotecário a «curar» os pacientes de um grande mal que grassa na nossa sociedade: a falta de cultura. E a biblioteca deverá colmatar essa lacuna: através de ateliers de escrita criativa, leitura e representação de contos para crianças, espectáculos teatrais onde as pessoas sejam convidadas a participar, utilização dos livros da biblioteca como partes integrantes desses espectáculos, etc. Muitas e variadas alternativas para que o livro seja realmente curativo e benéfico para a comunidade.


5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARISTÓTELES – Poética. 2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990, 316 p.

FERREIRA, Danielle Thiago – Biblioterapia: uma prática para o desenvolvimento pessoal [Em Linha]. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, [Junho 2003], actual. Março 2004. [Consult. 21 Março 2003 22.15]. Disponível em WWW. .

GIL, José; BELLMANN, Isabel Cristóvam – A construção do corpo ou exemplos de escrita criativa. Porto: Porto Editora, 1999. ISBN 9-789720-340948, 96 pp.

JERVIS, Giovanni – Kritisches handbuch der psychiatrie. Frankfurt am Main : Syndikat Verlag, 1978. ISBN 3810800430

Publicado por constantino às 10:29 PM | Comentários (0)