O Blog Esquisito apresenta... Toca e foge.

 

I
O Pintor

Chamava-se Cirino e fora figura secundária num grupo de pintores com atelier montado no Porto. Naquele tempo a ideia dos jovens artistas era revolucionar a arte, mas a arte é que acabava por os revolucionar. Todos os trabalhos eram expostos nas principais ruas da cidade. Ninguém comprava. E os jovens pintores desesperavam.

Como iriam pagar o aluguer dos quartos e comprar tintas, pincéis, telas e tabaco para o cachimbo? Muitos partiram para o Canadá, país indicado por um velho inglês também pintor.

Cirino veio para a capital e instalou-se em Cascais. Do quarto da pensão fez atelier e começou por pintar paisagens de telhados e nesgas de céu azuis. Só o que a varanda - seu principal ponto de observação - permitia enxergar.

Mais tarde, quando o seu nome se dissolveu pela vizinhança, arranjou um modelo que ardia de amores por ele. Rapariga da província que trabalhava numa casa às ordens duma velha que dormia em cima dum baú que, diziam, continha um tesouro. Só de noite é que a rapariga podia posar para o jovem artista. Quando a velha dormia, ela fugia pelas traseiras do prédio e batia na porta do jovem. No quarto, apenas uma luz difusa se mantinha acesa. Por trás dum biombo o modelo despia-se. Cirino não despregava os olhos da silhueta do corpo nu. O cavalete já suportava a tela branca. As tintas ao lado numa mesa de apoio. Depois o silêncio apenas interrompido pelo deslizar do pincel. O cheiro forte das tintas. A tosse convulsa do artista. A nudez da rapariga, secretamente visível na obscuridade do quarto.

Era assim todas as noites. Mas, ultimamente, sentia-se fraco. As insónias cavaram-lhe os olhos e o rosto pálido assemelhava-se ao de um defunto. Gastava a maior parte do tempo na varanda, diante do cavalete, pintando eremitas sentados nos caminhos, interiores de tabernas, meretrizes com vestidos coloridos e fitas nos cabelos. Era raro vender um quadro. Utilizava-os para disfarçar as manchas de humidade nas paredes do quarto.

Um dia, porém, recebeu a visita dum homem que veio a saber-se ser um comerciante de arte e que possuía uma sala de exposições no Cruzeiro. Falaram longamente. As visitas sucederam-se e uma tarde parou à porta da pensão uma furgoneta que levou mais de cinquenta telas de Cirino. Comentava-se que o jovem pintor tinha enriquecido. Que partiria para Espanha assim que recebesse uns bons milhares de euros pela venda das obras de arte.

Porém, Cirino não ficou rico nem foi viajar, como todos pensavam. E só mais tarde as pessoas comentavam que os quadros lhe foram roubados...

II

Cirino permanecia uma vez mais interrompido. O desaire no seio do movimento revolucionário artístico acompanhava-o sem qualquer relutância, vigiando-o infatigavelmente. Impressionante como o Destino persistia em desarmar Cirino, evitando sempre uma tendencial melhoria, impedindo-o de almejar um outro Fado que não o de artista adiado, Sorte partilhada por toda uma geração.

A paixão incendiária de transformar aquilo que vê naquilo que sente vinha-se diluindo com o passar do tempo, tornando-se esta desventura a estocada final. Nenhum sofrimento é sequer comparável ao da separação forçada entre um criador e sua obra. Cirino, o criador, deixou-se enrolar por um desespero em surdina. A rapariga da província ainda o visitava de noite, ainda se despia por trás do biombo…mas Cirino não desviava os olhos da Baia e já não criava. Quando lhe levaram os quadros, infligiram-lhe maior dano que a privação da sua obra: arredaram-lhe a sua alma, estropiaram-no da sua vontade. Cada tela era um pedaço seu, cada tela era um pouco da sua vida e do turbilhão de ideias e histórias e imagéticas que o atormentavam.

As telas permitiam a conexão entre o real e o imaginário, entre o vivido e o idealizado. Da sua vida amputada, pouco mais restava do que ficara gravado naqueles quadros; o seu desaparecimento teve o mesmo efeito que a gélida amnésia que afecta os seres de idade cinzenta…fria indiferença perante tudo o que o rodeia, o observa, o imagina, perante tudo o que lhe pertenceu e que ainda lhe pertence. Lentamente envolvido pelo manto agridoce da apatia, tão reconfortante como debilitante, os pequenos momentos de consciência impediam-no de se fixar naquele outro sítio, aquele local inacessível por todos, concebível apenas por alguns, onde habitam quimeras, ninfas e ninfetas.

O choque tornou tudo irrelevante enquanto observava aquilo que não pode ser visto, e mesmo sob cuidada vigilância da rapariga da província, ele não se negava a permanecer por lá, onde as restrições inadiáveis não o alcançavam, onde se permitia satisfazer os seus desígnios, onde se sentia completo. A hecatombe já não o era mais, e a rapariga da província permanecia vigilante e presente, agora onerada com mais um cadáver. O Fado da rapariga da província é tão inexorável e inescapável como o de Cirino: toda a sua vida amparou outros, e este acto sai-lhe tão naturalmente como o cordial cumprimento de todas as manhãs aos transeuntes da Baia de Cascais, enquanto deambula, cumprindo os seus deveres de sóbria ama de duas almas, almas que escondem os seus segredos e seus tesouros no local mais inacessível e remoto que enxergam: a velhota na arca que lhe dá leito, Cirino na sua mente delirante…

III

Maria das Dores era seu nome, fruto de uma inédita e jamais repetida profecia materna. Ainda molhada dos líquidos do parto, a pequena foi depositada nos braços fortes da mãe, campesina e viúva recente, que a olhara a chorar e dissera: "Ah, pobre, nasceu para sofrer... Há de se chamar Maria das Dores". Das Dores era e Das Dores seria. Crescera no trabalho pesado das lidas do campo, convivendo em um casebre apenas com sua mãe, que jamais superara o amargor de perder o marido tão nova, antes mesmo que este pudesse contemplar a filha. Vivia Das Dores uma vida sem carinho, repetitiva como as estações do ano, até que a morte da mãe - sua única família - a deixara à deriva na vida.

Descobriu que um fazendeiro abastado da região procurava quem servisse sua mãe na cidade do Porto, e ofereceu-se para a posição, dizendo que sentia falta da mãezinha. Aquela noite Das Dores dormiria nos aposentos dos criados da fazenda, num quarto vago. Foi nesta noite que a inocente Das Dores descobriu, da pior forma, como se encontram os homens e as mulheres. Ele foi o boiadeiro que transformou Das Dores em gado, deixou-a doída, sangrando, marcada como a ferro em brasa. No dia seguinte, cabeça baixa, seguiu com ele para o Porto como previsto.

As tarefas era inúmeras, e Das Dores uma só, mas o que a incomodava mais era a ocasional visita do filho fazendeiro, que antes mesmo de partir renovara a posse do corpo inexperiente da moça. Dois anos viveu Das Dores esta vida de sobressalto, até que soube da morte por acidente do fazendeiro que a atormentava. A mãe dele, ao saber, tornara-se algo demente. Trancara-se no quarto por dois dias em absoluto silêncio. Das Dores já se perguntava, aflita, o que deveria fazer, a quem procurar, quando a velha abre a porta do quarto e desce, dizendo à moça apenas uma palavra: "Comida."

Das Dores a serve, e enquanto a velha come, sobe ao quarto para espiar. Surpreende-se ao perceber que a velha empurrara a cama para o canto da parede, trocando-a de lugar com um baú que sempre ficara ali. O colchão a velha colocara sobre o velho baú, que fazia agora as vezes de cama. A velha, subindo correndo as escadas, a boca cheia de comida e o prato na mão e guinchando feroz, bate a porta na cara de Das Dores. Nunca mais Das Dores entrara naquele quarto.

Hoje, lembrar este longo tempo de solidão e desespero faz Das Dores sentir ainda mais forte o quanto ela ama e precisa do olhar de artista de Cirino sobre si. Ela está decidida a descobrir quem roubou suas telas.


(continua...)

 

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