agosto 09, 2003

Ainda os Fogos Florestais

Os dias vão passando e os fogos continuam imparáveis.
Assistimos à destruição de um património que Portugal levará muito tempo a recuperar, se o conseguir recuperar, porventura à alteração climática das regiões afectadas, à modificação do “habitat” natural.
Os noticiários referem os locais onde os fogos lavram, quantos homens estão envolvidos nas operações de combate, o dinheiro estimado em prejuizos;
A TV relata histórias, entrevista os actores no terreno, ouve os desabafos de quem perdeu tudo;
Os políticos abrem a boca para dizer disparates, o Ministro do Ambiente atribue “responsabilidades aos combatentes na guerra colonial”, o Líder Parlamentar do PSD diz que “o número de vítimas foi relativamente restrito”, o Primeiro-Ministro diz que “não entra em polémica” e manifesta a sua confiança política no Ministro do Ambiente e no Ministro da Defesa; enfim, pessoas que não se apercebem da responsabilidade que transportam, por virtude do cargo que desempenham, completamente alheios ao que se está passando, numa demonstração de falta de respeito para com os seus compatriotas.
Agora, a “zanga” entre a Associação Nacional dos Bombeiros Profissionais e o Cooerdenador Nacional de Operações de Socorro.
E o mais que virá a acontecer!!!

Surpreende-me que os meios de comunicação, os políticos, os comentadores, os que se julgam responsáveis, não tenham começado já a questionar as razões porque aconteceu esta tragédia.
Não quero acreditar que os que se julgam responsáveis pela gestão do país e repito, meios de comunicação, políticos, comentadores, uns sigam tranquilos para as suas férias, outros continuem de férias, e pacatamente aguardem as primeiras chuvas para limpar as cinzas depositadas no terreno.

A discussão tem de ser feita e é necessário pensar Portugal. Eu sei que, para alguma gente, pensar faz doer a cabeça e para outra gente, não pensar é consequência de não conhecer o país em que vive.
A este propósito, lembro-me de um artigo de Vasco Pulido Valente, publicado o ano passado, creio que no Diário de Notícias, que dizia mais ou menos o seguinte:
“Salazar e Cunhal são 2 personagens com algumas coisas em comum; durante quarenta anos representaram a nação dividida em 2 partes e nem um nem o outro conheciam o País”.

Desde que o sistema mudou, a situação não teve alterações significativas. Continuamos a ter governantes que não conhecem o País, com excepção de algumas feiras e mercados, arraiais e a praça do município de algumas terras que podem render votos.

A tragédia que agora se abateu sobre Portugal tem necessariamente causas que têm de ser estudadas, com o objectivo de eliminar o que está mal e tomar medidas para pôr em prática um projecto nacional que vise o desenvolvimento do país.
Mas, tenham dó senhores governantes, não entreguem este estudo a uma qualquer comissão parlamentar de inquérito.
Pensamos nós que esta vaga de calor e as trovoadas secas poderão ser consequência das experiências que os Estados Unidos e outros países estão realizando, sem respeito pelo meio ambiente e pelas alterações climáticas; aqui pouco podemos fazer para além da actividade diplomática.
Quanto ao ordenamento florestal, aqui a música toca com notas diferentes; suponho que não existe um plano de ordenamento florestal que, sem produzir a destruição dos solos, crie riqueza e se prolongue através dos tempos, estudado e concebido por técnicos especialistas, conhecedores profundos do terreno, idóneos e isentos, impermeáveis aos “lobbies”. Então chegou a oportunidade de o realizar e fazer dele um grande projecto nacional.

E já agora, um recado para o Senhor Primeiro-Ministro: a gestão de um país faz-se a partir da concepção de projectos nacionais que perdurem no tempo; e como o Senhor sabe, Portugal não tem projectos.

Publicado por Manuel Marques em agosto 9, 2003 02:34 AM