maio 27, 2005

“Abutres e Hienas”

...Enquanto Elliot e James fecundavam a sua estranha cumplicidade no lusco fusco dos vazios aposentos do palácio de Miss Elliot na província da Parvónia, lá longe nas lindas praias da Costa Sul Anton Mechirikov, rondava o quarteirão atraído pelo cheiro a rosas das várias lojas de flores que o bairro possuía.
Mechirikov sempre fora um sentimental fanatizado pelos perfumes, nada o contrariava mais que o cheiro a cadáver que, por vezes nas sarjetas das ruas se fazia sentir, quando por distracção ou descuido alguém deixava o lixo doméstico à porta das belas lojas do bairro.
Esse era o hábito de James, o gosto imundo fazia-o transformar a bela atmosfera florida e odorosa do Petit Cartier (assim era conhecido o “pequeno bairro”) num nauseabundo sarcófago que, da sua janela na torre, olhava com apetites vorazes de vampiro senil em busca de faustosos repastos que, a memória da Parvónia lhe trazia para seu desconsolo e tédio. Dirigia-se então, para a sala de banho à procura dos despojos menstruais, consolando-se depois na cozinha com caldinhos masturbatórios cujas receitas enviava aos amigos, entre os quais e em destaque Miss Elliot.
Mechirikov conhecia-o, quando dissimulado de jardineiro o ia visitar para, a pretexto das tertúlias agronómicas em passeios didácticos, procurar nas ervas secas algum cadáver a jeito onde pudesse ferrar. Generosidade que os verdadeiros predadores tinham para esta rapina incapaz de caçar o que fosse para alimentar a gula desorbitada que se lhe sentia no olhar.
Por várias vezes, James tinha sido escorraçado quando tentava espetar o dente em presa viva : uma pata choca, ou mesmo uma andorinha do beiral, eram presas inacessíveis à sua desajeitada destreza de abutre, só os despojos eram acessíveis a esta ave agoirenta. O mesmo se passava com Miss Elliot.(...)

Extractos do Romance inédito “Abutres e Hienas”
Sir Joseph Badmington, London 1839

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“Abutres e Hienas”

- ... cinismo e impotência, sinais de decrepitude meu caro James!
- A nossa cumplicidade profunda Mss Elliot!
- A solidão em que fiquei depois do Sir Hallicot me ter deixado naquele fatídico Verão em Yorkshire, a mim e aos meus filhos, que só pela imensa bondade de Sir Fred e Lady Mary, não caí no mais negro e tenebroso abismo que às almas sensíveis, como a minha, parece o destinado.
- Não sejais tão pessimista, a tragédia tem sempre algo de apetecível e por vezes gostoso.
- Que humor tão sinistro tendes por vezes, James!
- Nasci assim, e já a minha ama notava uma corcunda pronunciada, agoiro familiar que nos atira para a necrofagia.
- Credo!, Sir James falais como ave de rapina.
- Miss Elliot, há uma fase na vida de todos nós, em que devemos assumir a imagem que o espelho nos retribui.
- Quereis dizer que vos sentis uma espécie de abutre?
- Nem mais! Mas acrescento que nunca me passou despercebido em vós um certo gemido que evoca a selva, mais concretamente aqueles latidos sinistros que enunciam os repastos da podridão.
- Julgo que insinuais que estais defronte de um chacal ou hiena.
- Nem mais! Minha cara Miss Elliot.
- Que ofensa, Deus do Céu!
- Sempre admirei a forma ingénua com que disfarçais o vosso gosto por carne podre.
- Contenhais-vos, peço-vos!
- A verdade virá ao de cima, o homem não estava morto e vós tentastes arrancar-lhe as vísceras, por isso acorri logo a ajudar-vos, não simulais agora a inocência.
- Estranha cumplicidade a nossa, o amor nasce em nós do desejo necrófilo?
- Não somos os únicos, e isto tende a acentuar-se com a idade.(...)


Extractos do Romance inédito “Abutres e Hienas”

Sir Joseph Badmington, London 1839

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maio 09, 2005

INTRODUÇÃO À HORTÍCULTURA POLÍTICA





A Couve-galega.
Plantar em sítio definitivo, no início da Primavera.
Urinar diariamente (com algum desprezo) as folhas e o talo.
Observar o crescimento e evitar o ataque dos vermes.
Principais Inimigos:
- O verme literário – devora todas as folhas e rebentos deixando só o talo, engorda, forma casulo e no final arma-se em borboleta e bate à asa. TRATAMENTO 1 -urinar para cima das folhas esfregar as folhas com merda fresca se possível do dia ou colhida nas estrumeiras da cidade; TRATAMENTO 2 – apanhar o verme à mão de noite e esborrachá-lo contra a parede mais próxima ou esmigalhá-lo numa folha extraída a um livro de poeta pútrido e ambicioso tipo dos que se encontram nos escaparate das retretes da crítica cagona da moda.
nota: as couves plantadas em vasos ganham mobilidade evitando o ataque dos parasitas, mas precisam do carinho do agricultor pois devem acompanhá-lo para todo o lado, acabando como é óbvio por se tornarem um fardo incomportável restando ao proprietário cozinhá-la, comê-la e cagá-la pondo fim a esta épica de alimentar seres vegetativos.
Animais amigos:
Serpente, Cão e Gato
Animais inimigos:
Búfalo, Cavalo, Caracol e Galo
Animais indiferentes
Tigre, Macaco e Mosca

*nunca adubar com terra ou turfa comprada nos “cento e cinquenta”, são produtos falsificados fruto da ganância pequeno-burguesa, do lucro fácil e da promoção a qualquer preço.

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