fevereiro 25, 2004

Nós portugueses, a américa e as conversas de café.

As conversas de café surgem espontaneamente, assim como surgem as palavras e as frases aqui no Domquixote. São escritas a jacto de tinta e apesar de eu ser uma pessoa suspeita para as criticar, considero que não é por se escrever a jacto, que as palavras e as ideias dentro delas perdem a sua vida.
As conversas de café são ainda a grande tribuna do país e é disso que me proponho a falar hoje...

Em qualquer mesa ou balcão de café deste país repartimos ideias, discutimos soluções apontamos críticas e indicamos caminhos para este ou aquele facto.
A actualidade nem sempre é um factor preponderante na conversa de café.
Numa destas noites, um senhor de meia idade, depois de ter bebido a sua conta em Chivas, estendeu a passadeira da fala até mim.
Começou por criticar o estado do país, a crise, as guerras, os americanos, o sistema dito capitalista do ocidente, o comunismo, a religião e... chegámos até à lua e à conquista de Marte.
No final, ninguém chegou a nenhuma conclusão, como já é habitual nas conversas de café. O sr de meia idade também começou por mastigar as palavras e entrou naquilo que eu chamo um carrocel de ideias. O homem não saía do mesmo sítio. Queria à força bater na mesma tecla. Numa coisa qualquer que eu teria dito de mal.
O que disse eu de mal!?
Na abordagem dos americanos, o Sr. identificou o povo americano de burro:
"São uns atrasados mentais... nem sequer sabem onde fica Portugal! Pensam alguns que somos uma província de Espanha...!"
Sim. Devo concordar que a grande maioria do povo americano não sabe onde fica a terra da saudade. Mas talvez isso também não seja o factor determinante para saber se a generalidade do povo americano tem uma cultura geral abaixo da média.
Tenho quase a certeza, ao reparar em concursos de Tv, que muitos dos portugueses não sabem sequer onde fica o seu próprio país, como às vezes podemos constatar.
Há dias, o cantor Pedro Abrunhosa numa entrevista à TSF fez um comentário interessante qualquer coisa como isto; que só um país terceiro mundista se apoia no futebol em alturas de crise.
Antes de nos tornarmos também nós próprios os juizes de casa alheia, nós portugueses teremos muito de reflectir também qual o nosso "grau" de cultura. A televisão não nos oferece novelas, big-brothers e outros que tal, só por acaso...!!!

Publicado por Nuno Teixeira em 04:13 PM | Comentários (0)

fevereiro 22, 2004

Bragança e o fim do mundo

Se alguém vasculhar um qualquer jornal diário, pode constatar. A região transmontana só é notícia pelos piores motivos.
Só o macabro ou a infelicidade e a dor das pessoas tem honras de jornal.
As imagens das casinhas de pedra e com os carros de bois que parecem ser a imagem de marca de uma terra apelidada por muitos de "fim do mundo."
Mas Trás-os-Monte é Portugal. Os transmontanos são portugueses.

Mas que raio de coisa...
Em Portugal a justiça é feita nos jornais, isso já não era novidade. Agora que é preciso serem os jornalistas sérios da Times magazine a ditarem as regras, isso já é novidade.
E as mães de Bragança!? Não as há também na vossa terra!?!?
As frustadas, com dor de corno, as beatas que falam mal de toda agente nas missas de domingo. Aquelas que são donas da moral e guardiãs do templo tradicionalista que parece não querer abandonar as gerações conservadoras deste país.
E se pega moda aparecerem também as mães de Lisboa, Porto, Coimbra, Leiria, Braga, etc...!?
Será preferível assistir a uma prostituição decadente como aquela que vemos ao longo da estrada nacional 1?
Será que não havia de aparecer um movimento entitulado "os pais de Bragança", para denunciarem o atraso, o fraco desenvolvimento e as poucas oportunidades de fazer vida por estas terras?
Ou se querem denunciar algo mais sensacionalista, que mostrem o tráfico e o consumo de droga que existe há anos na cidade de Bragança. Que se tente perceber porque razão os jovens consomem droga. Será que a integração social se torna difícil num sítio onde há poucas perspectivas de formação superior e de saídas profissionais!?
Será que cada vez faz mais sentido falar em Lisboa, terreiro do paço e no resto!? A paisagem!?
E em Lisboa não há casas de alterne!?
Perguntas que esperam respostas daqueles que habitam fora de trás os montes mas que todos os dias são manipulados com as imagens das casinhas de pedra e com os carros de bois que parecem ser a imagem de marca de uma terra apelidada por muitos de "fim do mundo."
Mas Trás-os-Monte é Portugal.

Publicado por Nuno Teixeira em 05:23 PM | Comentários (0)

fevereiro 20, 2004

Para os que ainda por lá ficaram

Os que por lá ficaram, trazem ainda na voz o mesmo grito de guerra. São eles que nos despertam o beijo para a nova aventura, que apesar de nova, se repete.

Tenho uma estrela nos olhos das raparigas, tenho uma rainha formosa. Tenho a noite por minha conta e por conta das asas dos meus anjos da guarda que sorriem em cada grito de emoção que é soltado ao expoente da loucura de vivermos com o mesmo sangue derramado numa vindima feita em Maio, uma noite cheia de amor.
Tenho uma balada que não me sai da garganta. Quer da forma de um nó que fica e teima em apertar a lágrima que exprime o bom e o mau dos anos de sabor a veludo negro que se espalha ao passar da voz que arrepia as camisas brancas sujas… inundadas com a mancha da primavera aquelas noites de um só momento.
Para os amigos do 5º ano de “Ginecologia”. Fica a oração a um deus desconhecido. Não é um álbum dos Sétima legião. É uma balada que nos remete ao inicio da cantiga que era erguida ao mesmo céu, quando a cantávamos em redor da mesma fogueira de paixões.

Os que por lá ficaram, trazem ainda na voz o mesmo grito de guerra. São eles que nos despertam o beijo para a nova aventura, que apesar de nova, se repete.

Dedicado aos últimos guerrilheiros e à minha maneira, os meus fados, as minhas palavras, o meu elogio feito com a mesma voz que ecoava no limite das noites talhadas para a amizade e regadas com muito vinho. Para os amigos Ricardo Silva, Nuno Silva e Marta Silva.


“Se eu pudesse viajar”

Se fosse soubesse escrever
Cantava um fado com prazer
Se eu fosse um soldado
Guerreava até morrer

Se eu soubesse ler
Lia teus olhos de prazer

Se eu soubesse viajar
Era terras de além mar
Momentos e viagens
Levo na capa de encantar

Teus olhos são tesouros
São mensagens a guardar

Se eu fosse um escritor
Cantava a estória
Cantava a vida
Se eu fosse um pintor
Pintava a estória já vivida

Meus amigos. Dedico-lhes também a música que para mim devia ter sido o hino do meu 5º ano, se a coragem e a força na altura me tivessem ajudado.

Se meus passos de despedem,
Ao partir desta cidade
Mas com o brilho no olhar

Se as palavras não se medem,
Quando a cantiga é vontade,
De um dia aqui voltar.

Vem comigo até ao mar
E vamos conquistar,
Um castelo junto ao sol.
Vem comigo navegar,
Vem sentir e vem amar,
Vem comigo navegar.

Navego por navegar
E canto aquele fado,
Encho o mar de paixão.

Já não sonho por sonhar,
Estarás sempre a meu lado,
Neste mar de ilusão.

------ refrão--------

Quando te quiser abraçar,
Levo na capa e garganta,
As lágrimas e o prazer.

Já não sonho por sonhar,
Para além da rainha santa santa,
Sinto o rosto humedecer.


-------refrão-------

Quando eu já for velhinho,
Conto a estória a retalhos,
Oiço a balada ecoar.

Teu suspiro de nansinho,
Nossas noite de pecados,
Com Coimbra no olhar.

(Guitarra toca os acordes da minha balada. Eu sou um afortunado que tive a minha vida de estudante em Coimbra e os melhores compinchas do mundo. Bem haja e boa sorte a todos).
Música e letra adaptada de “Vem Comigo navegar – Dissidente/Nuno Teixeira – 1998)

Publicado por Nuno Teixeira em 03:17 PM | Comentários (0)

Tudo acaba mas nem tudo se esquece

Não há dúvida que o discurso do mundo futebolístico é muito pobre. Mas houve um dia, que uma das claques do Futebol Clube do Porto apresentou uma faixa na despedida do velho estádio das Antas que continha a seguinte inscrição:
"Na vida tudo acaba, mas nem tudo se esquece". Banal, simples, mas pode bem ser adaptado a vários contextos da vida.

As memórias não têm de estar fechadas num livro. Num diário de borbulhas e de rebeldias incompreendidas. Um amor não tem de escolher gerações. Um amor não deve viver na sombra dos dias. Os sonhos não devem ser a simples ressaca do que não se realiza.
Se te amo e me foge a coerência do agir e me refúgio na rotina das palavras. Se sou louco para os que não te sentem como eu te sinto no pulsar de cada emoção que deixas fugir quando estás longe ou perto. Se sou um pobre diabo para os que me abraçam e me dão força para deixar a loucura. Se sou para ti um doente que tende a cair no esquecimento atirado para a sala da morte onde me deixaste a definhar e a contar os dias.
O especial deu lugar à desilusão e esta traduziu-se na evolução do guerreiro. Deixei escapar a melancolia e comecei a lutar noutras guerras pela conquista do sorriso sarcástico que vai denunciar a tua fraqueza na hora em que o teu lobo fugir com o rabo entre as pernas por entre as florestas que guardam os teus medos.
Não há estratégias para atacar o amor, por isso muitos se refugiam no ódio, remédio tão sempre rebuscado sempre que a lucidez nos foge.
Não há estratégias nem tácticas elaboradas para a traição, porque essa é uma guerra que não se elabora nos mapas, porque acontece fora deles.
Deixo-te a imagem do meu sorriso e das minhas lágrimas. Algo que poderás voltar a ver e a sentir mas nunca o brilho doente dos meus olhos que tantas vezes te aclamaram em silêncio e te abraçaram com a força que ia buscar sempre que a tua faltava. Mal eu sabia que me a consumias aos poucos.
Mas ainda sobrou um saco cheio dela para juntar ao sorriso que lançarei na passagem por terras inimigas.
Se me declaras guerra, declaro-te diplomacia e obrigo-te a assinar este acordo de desarmamento através da indiferença.

Publicado por Nuno Teixeira em 03:10 PM | Comentários (0)

A Rádio. Uma espécie de magia.

Loucas são as noites, que passo sem dormir.
Sim. Esta é uma das passagens da letra de Pedro Abrunhosa (Lua).
Loucas eram as noites em que ficava sentado ao comando da minha nave espacial, iluminado por uma imensidão de pequenos pirilampos que irradiavam várias cores

Assim é a minha visão saudosista de um estúdio de rádio. Para aqueles que tiveram a sorte de deixar a noite acontecer por entre dezenas de botões, rodeado por aquele perfume que existe em qualquer estúdio de rádio e que ainda hoje não consigo descrever e acarinhado por centenas ou milhares de discos vinil, sabem o quanto afortunados foram (ou ainda são), por terem podido desfrutar do mágico toque da rádio quando esta se envolvia pela noite.
Quantas vezes eu apagava a luz do estúdio e deixava-me ficar para ali, com a companhia de uma música do momento. A rebeldia de U2, The Smiths. A loucura de Velvet Underground e Loureed, dos Doors, Led Zeppelin. As viagens deliciosas com Pink Floyd e Vangelis. Todos, um sopro melódico de inspiração para produzir os mais variados “instrumentos” radiofónicos.
Como tive a oportunidade de escrever uma vez na revista Íman, não tive a sorte de viver a revolução de uma tal noite de Abril nas noites da amiga rádio. Isso não confere a muitos que a viveram, a oportunidade de se tornarem gestores pouco inteligentes do mundo radiofónico. Esquecem-se, esses pequenos lunáticos (que hoje invadem as nossas amadas rádios com mega estruturas de imbecilidade), dos momentos que passaram sentados em frente a um microfone quando a camisola e a confraternização era a única batalha que se tinha de ganhar diariamente. Se eles ainda sentissem o perfume do estúdio e se de vez em quando desligassem a luz e fizessem amor como o fizeram no passado, sentados aos comandos da nave espacial, talvez voltassem a ganhar consciência que os sonhos não se forçam. Os sonhos na rádio acontecem como por magia.
Muitos dos que hoje ordenam os destinos das rádios esquecem-se do humanismo. Esquecem-se de tratar aqueles que ainda olham para a rádio como um instrumento romântico, divertido, interactivo e acima de tudo informativo, como pessoas gostam de estar e viver o espectro radiofónico. Querem viver cada dia obcecados com a auto-estrada da (má) informação e contagiar os ouvintes com guerras pessoais que mantém com o poder político.
Querem ser à força (e para isso forçam a amada rádio, os que lá trabalham e também os ouvinte), os protagonistas dos condados portugueses. Fama e sucesso, seja qual for o preço. Uma rádio local ou regional não nasceu para ter pretensões megalómanas, senhores! Muitos de vocês andaram em guerra com o poder político, realizaram congressos, encontros de rádios piratas, andaram com os papéis da legalização de um lado para o outro, fizeram-se poetas do Fm… mas agora constato que eram apenas poemas sem sangue romântico.
É preciso declarar guerra, a alguns destes senhores. Restaurar a paz e a veracidade do Fm. Deixo-lhes um poema de um senhor da rádio. Um poeta dos verdadeiros que tenho a certeza que ainda ouve, idealiza e sente a rádio tal como ela deve ser.

Amanhã vai doer mais.

Agora, ainda não demos por nada.

Temos o corpo quente da pancada.

Agora erguemos os copos e o espanto todo.

Agora não dói.

Agora, ainda não sabemos que dói.

É certo: o amor da rádio nunca acaba.

Afastai-vos da lepra que este silencio trás.

De quarentena companheiros.

Que aos outros, aos que sobram, este silencio também pesa.

Escutemos o silencio das vozes que sobram.

Sussurrante nostalgia do que virá.

Voltaremos à antena numa inesperada manhã, para dizer de novo:

O amor da rádio nunca acaba!

Erguemos pois os copos e os beijos.

Uma manhã destas, surpreenderemos os espantalhos do FM.

Amada rádio, até já.

(FERNANDO ALVES)


Tenham vergonha na cara. Deixem o sensacionalismo. Às vezes fazer as coisas da forma mais correcta também traz audiências, dinheiro e se ainda assim quiserem o vosso protagonismo vistam-se com ele e partam para outra aventura em patamares mais elevados.
Agarrem nos vossos estratagemas infelizes, nas vossas ferramentas sensacionalistas, nas merdas todas que ouvimos nas programações das rádios que vocês exploram, derretam-nas e engulam-nas ainda incandescentes para sentirem o mal que causam nos ouvintes.

Publicado por Nuno Teixeira em 02:57 PM | Comentários (1)

fevereiro 18, 2004

Dia dos namorados

Mas que dia é este!?

Mais um dia daqueles que nos dá vontade de ficar em casa fechados afastados do mundo exterior.
Não me levem a mal. Não tenho nada contra o amor, mas o amor em Portugal não se identifica com importações americanas.
Centros omerciais, cinemas, restaurantes são pontos de passagem obrigatório para os "mãos dadas" gastarem de forma inútil o tempo e o dinheiro.
Telemóveis, mensagens SMS E MMS, campanhas publicitárias... o mundo ocidental capitalista no seu melhor a apelar ao consenso de duas pessoas apaixonadas para gastarem dinheiro.
RECOMENDO VIVAMENTE UMA VISTA DE OLHOS A UM OUTRO COMPANHEIRO INCONFORMISTA. WWW.CHOURICO.BLOGSPOT.COM
Uma outra forma de encarar este amor que nos impingem. Através da sátira e do mau gosto.
Bom fim de semana a todos.

Publicado por Nuno Teixeira em 04:14 PM | Comentários (0)

fevereiro 06, 2004

Qualquer dia resta apenas o vento

Tudo parece morrer à sua volta. A terra tem o rumo traçado. Para quem acredite em tretas, podemos dizer que são coisas do destino. O destino foi-lhes traçado com os erros dos falsos visionários e com as demagogias dos senhores que agora são donos de condados. A terra pertence a todos e não a meia dúzia de homens que imundam as vestes a o comer de um grande tacho.

Já saí da minha terra há cerca de 6 anos.
Trás-os-Montes.
Queixam-se os Compadres Alentejanos com razão dos factores de interiorização, do envelhecimento precoce da população, da falta de apoios para isto e para aquilo.
Queixa-se em silêncio as terras altas. As serras tentam chorar mas a água já não corre.
Os que não saíram nas décadas de 60, 70 e 80 para o estrangeiro, saem agora para dentro do seu país à procura de um canudo que lhes traga o que as saudosas terras "para lá do sol posto" ou o "fim do mundo" (como lhes chamam alguns urbanoides ignorantes que se colam aos televisores noite e dia, os senhores fazedores de opinião que apenas mostram as casas de pedra e o "macho" que o "ti António" leva para as lides do campo), não lhes pode oferecer. Infelizmente já lá vai o tempo das vacas gordas. O país rebenta pelas costuras depois de anos de erros políticos e a criança que agora é homem e com canudo da mão, de um qualquer curso dito superior, só vê exactamente isso mesmo. O canudo... e tudo através dele.
O litoral, terra de oportunidade, já não é o que era e voltar a casa é sinónimo de desistência.
Não seria assim. Se o país tivesse crescido para cima, para baixo e para ambos os lados.
Não seria assim se os senhores políticos de segunda categoria continuassem a impingir as suas demagogias a todo o custo. Prometem mundos e fundos. Prometem cidades, faculdades, festas, futebol. Prometem Roma e o circo a seu povo que calam com a festa e com um naco de pão molhado do grande tacho.
Costuma dizer-se que em terra de cegos quem tem olho é rei.
Os senhores das pequenas terras do meu berço expulsam os adversários, exilam-nos e ficam donos a tempo indeterminado de autênticos condados que repartem com as os servos que rosnam aos que por lá ficam e que teimam em resistir.
Esta é a história do meu pequeno país interiorizado e pequenino onde só interessa encher a barriga. A política, deixou de ser há muito, uma actividade nobre para servir o povo, mas passou a ser meio de alcançar o pequenino poder nem que seja através do velho manual de Maquiavel (O Príncipe), que ainda mantém as técnicas e as tácticas bem actuais para os novos senhores feudais.
Ainda choro quando te visito, minha terra. Ainda me fazes escrever coisas bonitas quando estou apaixonado. Ainda me sinto grande por ter nascido no teu ventre e por ver a tua torre tocar o céu. Não vou fugir e não permito que os meus amigos fujam. Enquanto essa toore tocar o céu, vai haver esperança.

Publicado por Nuno Teixeira em 04:35 PM | Comentários (0)

fevereiro 05, 2004

Não há tempo para parar.

São as 6 horas da tarde. Já anoiteceu de leve.
Perdido na cidade, atiro ao mundo selvagem de betão que me rodeia um suspiro de amor aos que vagueiam.
A cidade chora mansinho e embala nas calçadas um rio de lágrimas.
De passo apressado vai a aquela mulher desgastada pela vida, que leva numa mão a criança que sorri e brinca nos charcos de água e na outra leva o chapéu-de-chuva.
Os automóveis gritam a violência cobarde dos condutores que se refugiam dia após dia no mesmo rodopio.
Não há tempo. Não há tempo para chorar pelos outros nem por nós próprios, talvez por isso mesmo a cidade se entristeça e acumule o sofrimento de todos e se inunde de água.
Não há tempo para parar e perguntar ao homem que não se apressa cabisbaixo por entre as gotas de chuva se precisa de um amigo que lhe ajude a combater os fantasmas que transporta dentro de si.
Não há tempo aqui. Todo se gasta espontaneamente a tentar viver o óbvio e o redundante.
Não há muito tempo para sorrir mas há sempre tempo para cantar a dor em silêncio, porque ela rasteja connosco e abafa as alegrias porque estas têm sido tão poucas.
Passo à porta daquele bar onde estive pela última vez que o amor me abandonou. Olho lá para dentro e ainda me vejo atirado para a mesa do canto. Ainda para ali estou abraçado aos copos de cerveja que não me interessam já contar.
Foi ali que fiquei desde esse mesmo dia. Foi ali que construí e memorizei o conjunto de palavras que me fugiram mais tarde para as folhas de papel, sobre ti e sobre mim.
Tentei escrever razão e não conseguia. Tentei segurar a raiva com um gole de cerveja e as lágrimas apertei-as ao canto dos olhos, por isso os vejo tão brilhantes. Vejo-me agora e percebo-me porque não quero mostrar as lágrimas. Um homem não chora mão é!?
Apetece-me entrar e confortar-me, mas acho melhor não o fazer. É melhor deixar-me ali sozinho para que eu tente perceber através da raiva, porque é que ela o deixou na noite anterior. É melhor não incomodar e deixar-me sozinho com o copo de cerveja para eu falar mim próprio e debater porque razão dei tanto para receber tão pouco. O que será feito do que dei por amor uns anos mais tarde. De que vale um esforço mais para amar ou provar o amor (que vale por si próprio como prova) quando ficamos sentados com a dor enquanto ela fica indiferente ao que sofres e aos castelos que lhe dedicaste?
Tenho uma explosão de lágrimas a apertar-me a garganta. Vejo-me a agarrar o copo com força e a cerrar o semblante. Prometo coisas que sei que não consigo cumprir mas vejo-me escapar uma lágrima que limpo com a manga da camisa. Foi nesse preciso momento que deixei de olhar. Deixei-me ali sentado e saí.
Não tive coragem de entrar e dar-me um abraço que precisava. Foi a última vez que me vi. Não sei se me passou toda aquela angústia porque não mais me encontrei para ver através de mim se o amor passou ou se chegou um outro.
Não sei se hoje sou feliz, jamais me voltei a ver para lhe perguntar. Não sei o que é feito da criatura.
Talvez por isso, sempre que a cidade chore e que eu encontre alguém cabisbaixo arranjo tempo para parar. Para dizer que há um amigo na grande cidade que pára e escuta.
Já agora, para aqueles que a quem certo e determinado estilo de música marcou uma parte das suas vidas e que hoje se sentem desiludidos, talvez esteja na hora de fazer as pazes. Evoluímos mas não esquecemos… voltei a ouvir o November Rain.

Publicado por Nuno Teixeira em 03:20 PM | Comentários (0)

fevereiro 02, 2004

São mais do que memórias, minha velha amiga.

Já não estendo o meu manto negro por essas calçadas acidentadas, porque já lá vai o tempo de boémia. Ao longe ecoam agora as baladas dessa cidade velhinha. Choramos de saudade ao ouvir os cantos dos que por lá ficaram, os que ainda invadem a rua em bandos e sobem ao alto da colina de memórias. As mesmas memórias que escrevemos num rasgo de tinta corrente que se enevoa com o bater firme de uma lágrima solitária que cai repetidamente numa folha de papel.
Ficam essas palavras e as que demos aos outros em conjunto com um abraço que se repetia sempre que a noite durava para além da colina da alegria. Sempre que víamos chegar o sol através do fundo de uma garrafa de bom tinto. Sempre que deixávamos a cidade velhinha para trás das costas ficava uma balada a bater lá longe, do outro lado do rio.
Parecem os espectáculos do parque da fantasia, virado ao mítico rio que atravessa gerações apaixonadas e que leva sempre renovado lençóis de lembranças que desaguam fora do limite dessa alma lusitana. Sempre que nos afastávamos do parque, lá ficava a música a bater ao longe e como guerreiros cansados apenas ouvíamos o eco como um chamamento da próxima noite.
Eu quero voltar aqui um dia, quero trazer a capa que levei comigo e entendê-la à tua passagem sempre que trouxeres as mesmas noites em ficávamos eu, tu e os velhos amigos… os que por lá ficaram e que ainda me recordam o eco do chamamento.
Se a música não me trair como traiu o velho amor dos livros de aventuras e das serenatas envergonhadas, ainda te espero ouvir na minha telefonia, e dizer-te que o “Perfect Love Song” ainda toca na minha telefonia porque o rádio não escolhe razões do mundo (in)consciente e a música não entra ao ritmo de playlists.
A balada existe e o amor existe, minha cidade velhinha. Quando aqui voltar quero pedir-te perdão e sentar-me de novo apaixonado nesses mais belos cenários naturais com os quais me ajudaste a construir o que não era possível. Para ti velha cidade eu canto a mesma canção de amor que sacudia as asas da noite e espalhava a brisa que te invadia.
Quando eu voltar, trago a minha viola e a minha tenda. No alto desse penedo que toca no céu do mundo e da saudade vou erguer o meu acampamento e contemplar-te e vamos ouvir o chamamento da noite. A música vai ecoar lá longe mas não vamos responder ao chamamento, porque o guerreiro já não luta e hoje defende e guarda o que ainda resta do amor que sobrou dentro de nós.
Trago uma guerreira, a mais bela e em conjunto contigo minha velhinha cidade amiga, vamos beber a noite e adormecer dentro dela embrulhados na respiração e no suor dos beijos entregues ao amor.
Vou voltar aí. Chego em breve. Até um dia Coimbra.

Publicado por Nuno Teixeira em 04:39 PM | Comentários (0)