dezembro 04, 2003

Do outro lado...

Hoje o sol, não nasceu para todos...

A princípio é tudo simples. Deixamo-nos divagar junto com o reflexo do nosso mundo, num rio que corre morto rumo ao cinzento dos dias. Vivemos do outro lado das cataratas e presenciamos incrédulos à nossa própria escravidão. Somos escravos dos políticos, dos jornalistas, de um tal a quem chamam deus, dos poetas, dos sonhos que nunca se concretizam (porque não passam disso mesmo… de sonhos), e fundamentalmente do amor. Mas será possível viver com todas estas explosivas combinações?
Criações do hipócrita contemporâneo que nos aprisiona às fábricas de escravidão. Temos por ferramenta um bloco de notas e a caneta da mentira. Escravizamo-nos e somos coagidos a escravizar os outros.
Gritem ao mundo a mensagem. “É urgente reinventar a sociedade.” Nietzsche disse um dia: “ a humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões”. Vamos cantar pinturas de guerra nas cidades e pintar com cantigas da revolta, o céu para que ecoem para lá da casa do tal deus que dizem lá habitar e que teremos eventualmente de temer. Vamos fazer revolução e matar com palavras os loucos da nação. Amanhã vamos a todo o lado derrubar os sanguinários, os manipuladores de emoções… vamos queimar as imagens de dor e finalmente vamos suspirar uma lágrima e um sorriso de criança. Vamos nascer outra vez.


- São quase duas da manhã. Tens mesmo de gravar isso hoje?
-Tem calma meu amigo! Isto tem de ficar como eu quero, porque amanhã quero chegar a todo o lado… ah,ah,ah.
- Pois. E quase já não há cerveja, não é?
- Ok. Vamos gravar.

“Eu não sou deus. Felizmente que não sou. Seria de todo impossível para mim estar em todo o lado. Sei que não sou desejado em muitos mundos do meu mundo. Não é uma infeliz redundância, mas sim a percepção de quem foi expulso e insultado em vários paraísos que criei. Apesar de tudo, ensinei muita gente a rir e a sonhar e eles fizeram da minha alma o abrigo perfeito para lágrimas e pesadelos.
Felizmente que não sou deus. Era incapaz de sacrificar o meu próprio filho em nome de quem nunca vai amar na vida. Apesar de novo no circo da existência sou um velho palhaço na arte de sentir. Isso não faz de mim um daqueles poetas frustados que também querem chegar a todo lado, a todas as esquinas da paixão.
Não sou deus. Mas afinal até quero estar em todo o lado para relatar com objectividade o que não posso ver com o coração.
Quero ser jornalista mas sem o poder do tal deus de fazer rir ou chorar.
Amanhã quero estar em todo o lado, mas ausente da acção, quero ser o homem do mundo inteiro, quero amar e ser amado… amanhã até quero estar em todo o lado.”

- O que achas? Está bom?
- Não sei. Isso é um bocado esquisito. Qual é a finalidade disto Fernando?
- E porque é que tem de ser para alguma coisa. É simplesmente um desabafo da noite ao mundo, um pensamento de um merdas que está quase bêbado. Por falar nisso! Já não há cerveja!
- Pois. Estivemos para aqui a gravar coisas sem sentido… agora só nos resta ir à “noites buer” um copo.

GUERRA DO SÉCULO: A GUERRA INFORMATIVA
A APATIA DOS DIAS VS APATIA DAS EMOÇÕES

Oito horas da manhã. O dia já despertou mas o corpo teima em estender-se por entre o rio da preguiça que corre por entre os lençóis.
A noite não foi espectacularmente terrível. Resta partir para a hipocrisia de mais um dia. Vamos fingir mais uma vez que somos felizes, quais meras marionetas nas mãos de quem sustenta o prazer da dor. Escolhi ser jornalista, não escolhi ser traído no tal sonho. Escolhi ter amado mas não me lembro ter escolhido ser traído e espezinhado.
Mas se vivemos em silêncio com a nossa dor e com a dor dos outros, então está tudo bem… porque escolhemos viver obcecados com o comodismo. Talvez a dor seja um prazer óbvio, mas que por qualquer razão ainda não o identificámos como tal. As bruxas do jornalismo pensam assim. Exploram a dor e sentem prazer com ela. Vendem-na aos milhões.

“Uma fogueira que ardia na clareira daquela floresta. Um fogueira que irradia cor daquele caldeirão quadrado e mágico. Dezenas de bruxas feiosas chegam entretanto em suas vassouras vibratórias. Por entre gargalhadas estridentes regam os corpos com garrafas de vinho enquanto combinam jogos de poder. Rasgam depois violentamente as suas vestes, estendem os corpos no chão e esfregam-se por entre as folhas secas. A chama da fogueira ilumina os gemidos e os gestos fugazes com que aquelas criaturas atiçavam o prazer por entre as suas coxas. Roçam vaidosamente o clitóris nos troncos incandescentes. Carentes de dor, carentes de prazer, muitas delas encontram o clímax e só a fogueira calou o calor alucinante daqueles corpos doentes”

Acho que estou a ficar maluco! Acordar com fantasias horizontais, não faz parte das manhãs comodistas! Está na hora de voltar a falar com o “eu” aparentemente normal. Embora uma coisa seja certa. A mim, a dor excita-me o hábito de escrever. Gosto de sentir a força de mil vulcões a arremessarem-me contra o manto negro das estrelas onde vou desintegrar-me. O nada será para sempre aquilo que eu nunca concebi racionalmente; a minha inexistência. Pode ser que nessa inexistência acorde para os braços do velho das barbas que me diziam lá habitar. Nos anos de miúdo era assim que comia a sopa, aprendi a temer o tal deus; “come a sopa ou então o velho das barbas vem buscar-te”.
Saio para a rua. A cidade está deserta de paixão. O tal comodismo e conformismo invade cada família, que aquela hora se desloca de carro para entregar as crianças à senhora má educação. Ocorre-me um pensamento; já houve amor ali. Aquele casal, naquele carro, já amaram nas suas vidas, hoje aprendem a ser felizes e respeitam-se pelo carinho dos anos, ou então matam-se de insultos na privacidade da toca, e passeiam-se amorosamente no salão de baile, para que os amigos não possam pincelar as suas vidas.
A cidade está histéricamente revoltada com a luz do dia e com o desespero de mais um dia na fábrica. Hoje vou tentar não escrever a dor dos outros, porque já basta a minha. Nem que para isso tenha que contrariar alguma bruxa.

- Hoje vais fazer uma peça para o caldeirão das 20h. Vai à cidade falar com a dor. Tragam-me boas imagens de sangue. Quero ver isso mais tarde.
- Eu não vou. Prefiro ir à cidade procurar amor. Estou farto de ver desgraças.
- Quem pensas tu que és!? Que raio de jornalista és tu. O amor não é notícia. Quero coisas reais, coisa que o amor não é. O amor ainda vai trair o teu sucesso. Vai já para a cidade buscar-me sangue para o caldeirão.
- Não vou. Prefiro ser eu a vítima do caldeirão e contar a minha dor, a explorar a dor dos outros.
-Imbecil. Para teu castigo vais morrer em directo, para te provar que o teu amor não merece o esforço. E no fim de tudo ninguém se vai lembrar do teu gesto.


A DOR EM DIRECTO.
“AMOR É FOGO QUE ARDE...”

Já leste o jornal hoje?
Pode ler-se em primeira página em letras garrafais; “AMO-TE”.
Mas desde quando amor é notícia? Só o meu. Porque não encontra o teu sorriso e o teu abraço. Um beijo teu na multidão, um abraço eterno na noite passada, era o que bastava para calar estas bruxas. Assim elas já sabem que só eu amo. Cheiraram a dor. E agora? Nada vai ser como antes.
E o rádio? Já ouviste o rádio hoje? (Eu também sou filho da madrugada e ainda não ouvi a tal revolução. A promessa de que sofrer até vale a pena desde que sirva para conquistar o castelo que posso habitar contigo.) Hoje tocou uma linda canção no rádio, mas a melodia foi abruptamente interrompida pelo directo de um sopro no coração.
A televisão também lá estava, para dar imagens de sangue dor e lágrimas aos que em suas casas há muito ansiavam pelo fim de uma novela. Os tais vermes da contradição, esfregavam as mãos de contentes com um semblante carregado de aparente tristeza. Masturbam-se na expectativa de um desfecho idealizado ao longo de anos estratégia gorada. O veneno estava prestes a saltar-lhes da garganta para inundarem o pobre coração com o famigerado; “bem te avisei”.
O caldeirão acende-se. Vai começar.

- Como se sente?
-Bem. Contente pela dor e pela ironia das palavras. Os meus suspiros foram sempre sinceros. Mas parece que isso não chegou. Agora sei que por vezes a farsa veste a pele da verdade, por isso, essa é sempre relativa porque no universo das palavras, a verdade de uns pode ser a minha mentira e vice-versa.
-Sente-se então desiludido? Traído no amor?
- No amor na amizade e na confiança. Por tudo e por todos, estou doente e vou curar-me. Quero redimir-me e esquecer o amor.
- Vai então deixar de amar e optar pela razão?
- Não gostei da sua pergunta. Amar não implica ausência de racionalidade. Antes pelo contrário. Quem nunca amou na vida não é sabiamente racional. É um simples egoísta que recebe e não sabe dar. É um animal enjaulado desde que saiu do ventre da sua mãe e que nunca tomou contacto com o belo que o rodeia.
Vê apenas os que lhe atiram amor para dentro da jaula, mas nunca toca nem deixa ser tocado. Se não tem contacto com o belo mundo exterior, como pode ser uma criatura racional? Pergunte-me antes se vou passar a ser irracional… sim vou, até porque já o fui. Antes de ter amado era esse egoísta e cínico animal enjaulado que olhava o amor desconfiado. Poderei tornar-me num raivoso irracional. Mas para que a raiva não me cegue, queimarei hoje mesmo com a raiva de quem amei, as bruxas que manipulam o caldeirão.

E no fim de tudo o que fica? Resta sair em liberdade. Tentar ser jornalista sem o poder de deus de fazer rir ou chorar… deixei de ser a marioneta das bruxas e dos poderes do mundo. Há-de haver alguém neste mundo que não manipule o caldeirão! Há-de haver alguém que não queira contar-me histórias de adormecer.
De mochila às costas sigo agora para outras paragens.

Publicado por Nuno Teixeira em 02:43 PM | Comentários (2)