agosto 15, 2005

«Kuarup», Lisboa!


Ritual Kuarup de ana tropicana

Estou entre a impressionante massa de 52 mil pessoas que assistem ao show dos U2. Arrepiante o efeito poderoso da multidão. Cada vez que as vozes se unem em coros para engrossar a noite, penso no intrigante fascínio dos fenómenos coincidentes. Nas entranhas do Brasil, algures numa clareira refundida no Amazonas, a "lua" de 14 de Agosto foi igualmente a escolhida para o Kuarup, rito que vem renovar o ciclo de eterna celebração dos espíritos ancestrais. No palco, Bono Vox abre a goela à noite sufocante de Lisboa. Na gema da Floresta, dilata-se o olho soberano do Grande Pajé Aritana, chefe das tribos Kamayurá, conduzindo as celebrações.

Toda a multidão é, sim, uma expressão de crença: um acontecimento político.







Foto: Ritual Kuarup [autor: Ana Tropicana com António Scorza]




Mavutsinim: O primeiro Kuarup ou a festa dos mortos
(Lenda Kamayurá, extraída da obra Xingu: os índios, seus mitos, de Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas - Ed. Kuarup)


Mavutsinim (o primeiro homem no mundo) queria que os seus mortos voltassem à vida. Foi para o mato, cortou três toros da madeira de kuarup, levou para a aldeia e os pintou. Depois de pintar, adornou os paus com penachos, colares, fios de algodão e braçadeiras de penas de arara.

Feito isso, Mavutsinim mandou que fincassem os paus na praça da aldeia, chamando em seguida o sapo cururu e a cutia (dois de cada), para cantar junto dos kuarup. Na mesma ocasião levou para o meio da aldeia, peixes e beijus para serem distribuídos entre o seu pessoal. Os maracá-êp (cantadores), sacudindo os chocalhos na mão direita, cantavam sem cessar em frente dos kuarup, chamando-os à vida.

Os homens da aldeia perguntavam a Mavutsinim se os paus iam mesmo se tranformar em gente, ou se continuariam sempre de madeira como eram. Mavutsinim respondia que não, que os paus de kuarup iam se transformar em gente, andar como gente e viver como gente vive.

Depois de comer os peixes, o pessoal começou a se pintar, e a dar gritos, enquanto fazia isso. Todos gritavam. Só os maracá-êp é que cantavam. No meio do dia terminaram os cantos, o pessoal, então, quis chorar os kuarup, que representvam seus mortos, mas Mavutsinim não permitiu, dizendo que eles, os kuarup, iam virar gente, por isso não podiam ser chorados.

Na manhã do segundo dia Mavutsinim não deixou qie o pessoal visse os kuarup. "Ninguém pode ver" - dizia ele. A todo momento Mavutsinim repetia isso. O pessoal tinha que esperar. No meio da noite desse segundo dia os toros de pau começaram a se mexer um pouco. Os cintos de fios de algodão e as braçadeiras de penas tremiam também. As penas mexiam como se estivessem sacudidas pelo vento. Os paus estavam querendo transformar-se em gente.

Mavutsinim continuava recomendando ao pessoal para que não olhasse. Era preciso esperar.

Os cantadores - os cururus e as cutias - quando os kuarup começaram a dar sinal de vida cantaram para que se fossem banhar logo que vivessem. Os troncos se mexiam para sair dos buracos onde estavam plantados, queriam sair para fora. Quando o dia principiou a clarear, os kuarup do meio para cima já estavam tomando forma de gente, aparecendo os braços, o peito e a cabeça. A metade de baixo continuava pau ainda.

Mavutsinim continuava pedindo que esperassem, que não fossem ver. "Espera...espera...espera" - dizia sem parar. O sol começava a nascer. Os cantadores não paravam de cantar. Os braços do kuarup estavam crescendo. Uma das pernas já tinha criado carne. A outra continuava pau ainda. No meio do dia os paus começavam a virar gente de verdade. Todos se mexiam dentro dos buracos, já mais gente do que madeira.

Mavutsinim mandou fechar todas as portas. Só ele ficou de fora, junto com os kuarup. Só ele podia vê-los, ninguém mais. Quando estava quase completa a transformação de pau para gente, Mavutsinim mandou que o pessoal saísse das casas para gritar, fazer barulho, promover alegria, rir alto junto dos kuarup. O pessoal, então, começou a sair de dentro das casas.

Mavutsinim recomendava que não saíssem aqueles que durante a noite tiveram relação sexual com as mulheres. Um, apenas, tinha tido relações. Este ficou dentro da casa. Mas não agüentando a curiosidade, saiu depois. No mesmo instante, os kuarup pararam de se mexer e voltaram a ser pau outra vez.

Mavutsinim ficou bravo com o moço que não atendeu à sua ordem. Zangou muito, dizendo: - O que eu queria era fazer os mortos viverem de novo. Se o que deitou com mulher não tivesse saído de casa, os kuarup teriam virado gente, os mortos voltariam a viver toda vez que se fizesse kuarup. Mavutsinim, depois de zangar, sentenciou:

- Está bem. Agora vai ser sempre assim. Os mortos não reviverão mais quanto se fizer kuarup. Agora vai ser só festa.

Mavutsinim depois mandou que retirassem os buracos os toros de kuarup. O pessoal quis tirar os enfeites, mas Mavutsinim não deixou. "Tem que ficar assim mesmo", disse. E em seguida mandou que os lançassem na água ou no interior da mata. Não se sabe onde foram largados, mas estão lá até hoje lá, no Morená.




Kuarup, a cerimónia dos mortos
(extraído da obra A Marcha para o Oeste, por Orlando e Cláudio Villas Bôas)

Na hora do almoço chegou o motor da aldeia. A festa havia terminado. Chamamos de festa por causa da luta e das flautas na fase final, mas em verdade o que assistimos foi o mais importante cerimonial dos índios desta região.

Os mortos são representados por toras de madeira (madeira especial, de origem lendária) plantados no centro da aldeia. Cada família enfeita o seu "morto" com os melhores e mais caprichosos enfeites que possuem, e a seu pé choram um dia e uma noite. Para trás, dois contadores, com o corpo um pouco curvado, seguram com a mão esquerda um arco que serve como Cordão, enquanto com a direita sacodem o maracá, que marca o ritmo do canto que entoam. A madrugada inteira, sempre os mesmos contadores, cantam chorando, sempre agitando o maracá. Ao pé de cada tora de madeira um pequeno fogo é ativado a noite toda pela família, que dele não se desgarra um só minuto. A essa tora de madeira dão o nome de Kuarup. O velho Karatsipá foi um dos contadores deste Kuarup. É uma cena sem dúvida impressionante ver um velho de quase 90 anos, já sem voz, chorar toda a madrugada batendo um maracá, instrumento mágico feito de cabaça.

O Kuarup é a encenação da lenda da criação. Só se justifica a cerimônia quando morre um índio de linhagem que outro não é senão aquele que foi criado pelo herói Criador, Mavotsinin. A tora de madeira que representa o morto tem mais ou menos um metro e sessenta de altura, sendo que os trinta a quarenta centímetros do topo são de uma madeira que os índios chamam de mavunhá - a mesma usada pelo Criador.

Passado o Kuarup, os índios que lá estavam, antes de regressar às suas aldeias, resolveram vir até aqui. Assim é que chegaram seis canoas com quarenta índios cuicuros, duas outras com quinze inalapitis e algumas dezenas de índios camaiurás. Karatsipá veio com o motor, acompanhado pelo juruna Tamacu.




Deixo algumas notas que, entretanto, tudo somado, fui tirando.




O Kuarup - Ritual dos grupos indígenas do Parque do Xingu para homenagear os mortos. Os troncos feitos da madeira “kuarup” são a representação concreta do espírito dos mortos ilustres. Corresponderia a cerimônia de finados dos brancos, entretanto, o Kuarup é uma festa alegre, afirmadora, exuberante, onde cada um coloca a sua melhor vestimenta na pele. Na visão dos índios, os mortos não querem ver os vivos tristes ou feios. (1)

Descrição do Kuarup da tribo Kuikuro – Região do Rio Kuluene
Uma cerimônia de mais profundo sentimento humano realizam os Kuikuro no mês de maio de cada ano e sempre em uma noite de lua cheia. Num cenário fantástico os índios desta tribo, convidam as tribos amigas para evocarem juntas, as almas dos mortos ilustres. Ainda noite, trazem da floresta vários toros de madeira, conforme o número dos que desapareceram, que vão ficando em linha reta no centro do terreiro em frente às malocas onde são recortados na forma humana de cada um e pintam neles as respectivas insígnias que em vida os fazia distinguir pajés, guerreiros, caçadores ou até mesmo aqueles que maior descendentes legaram à comunidade. Enquanto são executados estes trabalhos. Alguns homens com arco e flechas entoam hinos aos mortos.

Preparação do tronco ou o kuarup - Tudo pronto, aos gritos de há-ha, vão os homens às malocas e de lá voltam acompanhados das mulheres e crianças. As mulheres, de cabelos soltos, trazendo algumas frutas e guloseimas, em largas folhas de palmeira, outras, ricos cocares, plumagem de coloridos vivos, braceletes e colares, aproximam-se em passos harmoniosos dos kuarupes e em voz baixa como um sussurro, travam com eles um pequeno diálogo em que parecem exprimir toda a gratidão, falando-lhes das saudades que deixaram, oferecendo-lhes ao mesmo tempo os frutos e guloseimas, e enfeitando-os com os ricos cocares, as plumas, os braceletes.
Vai-se fazendo noite, não tarda a escuridão, os homens trazem da floresta archotes de palha incendiados, cuja luz violenta faz luzir os corpos untados de urucum em reflexos metálicos que desenham toda a beleza dos seus músculos.
Começa a dança do fogo, fantástica visão em volta dos kuarupes.
Primeiro em passos cadenciados depois em um crescendo cada vez maior, ao ritmo do chocalhar dos maracás e das canções místicas, até se fazer ouvir a voz do pajé, numa evocação a Tupã, implorando fazer voltar à vida aqueles mortos ilustres. Neste exato momento a lua cheia se encontra em seu máximo esplendor. Terminando a evocação os homens se dispersam pelo terreno em pequenos grupos, enquanto só o pajé continua a entoar as suas loas até o alvorecer. De novo voltam as mulheres para ouvirem os cânticos que lhes anunciam ter o sol feito voltar à vida os mortos ilustres. Então começa a dança da vida e é executada pelos atletas da tribo, cada um trazendo ao ombro uma longa vara verdejante, símbolo dos últimos nascidos na comunidade.
Os atletas formam um grande círculo correndo em volta dos kuarupes ao mesmo tempo que em gestos e curvaturas os reverenciam. Depois o grande círculo se divide em dois e logo cada qual se dissolve em vários grupos representando a sua respectiva tribo.

Huca-huca - É um momento de intenso silêncio, homenagem a estes últimos nascidos. Finda a homenagem, as diversas tribos executam uma luta que denominam “Uka-uka*” uma espécie de luta romana.
Encerram a cerimônia em que os Kuarupes são, em festiva procissão, levados para o rio, e lá, entregues às suas águas.(2)

* Outras grafias: "huca-huca" e "huku-huka".
(1). Índios – Suplemento Especial. Encarte do Jornal Radical, produzido em parceria com a FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Abril de 1997.
(2). Danças do Brasil / Felícitas. - Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint Ltdda., sem/data

Publicado por Ana Tropicana às 10:34 AM | Comentários (1)

julho 31, 2005

A Festa das Tribos


aqui é Juruti de ana tropicana

Nesta época do ano, os Povos da Floresta tomam a direcção de Juruti, um município nos cafundós ribeirinhos, a oeste do Pará - Okara Sagrada da Festa Tribalesca ("Okara" que significa "morada" na linguagem indígena) que há-de encerrar a disputa entre os grupos Muirapinima e Mundurukus. Por três luas o vermelho dos azuis enfrenta o vermelho dos amarelos em clareira limpa, num grande Tabacuri Místico das ancestrais etnias que compõem o mosaico tribal da Nação Tupi.




É a Amazônia - fonte de vidas, pátria de mitos e lendas - a falar da importância da preservação dos rios e das matas, a ressaltar em ritos sagrados o retrato alado da mágica biodiversidade da floresta.


Fotos: Rumo a Juruti [autor: Ana Tropicana]




Este ano acontece a 10ª edição do Festival das Tribos, considerado o maior da região do Baixo-Amazonas, após reconhecimento oficial como evento de carácter cultural, devidamente registrado no calendário cultural do Estado do Pará.

Desde o mês de Abril, as tribos Mundurukus e Muirapinima vêm ensaiando as coreografias e rituais indígenas que serão apresentados na arena do festival. Os ensaios acontecem nas 'okaras', nome indígena dado às quadras pertencentes aos grupos rivais.

Quem chega pelo Porto de Juruti já pode sentir o clima de animação que toma conta da cidade. As tribos fazem apresentações diárias para receber os visitantes. E durante todo o mês de julho, os ensaios das tribos, com a participação ao vivo das batucadas que acompanham cada uma, transformaram-se na principal atracção noturna da cidade. "As okaras das duas tribos ficam lotadas todas as noites. O público dança e canta as músicas junto com os integrantes. emocionante", explicou-me, ainda durante a viagem de barco, Luiz Souza, que estuda em Belém, mas aproveita religiosamente as férias para "peregrinar" todos os anos a Juruti, por altura da festividade das tribos.

Nos barracões das tribos, os artistas locais trabalham 24 horas para concluir as fantasias e as gigantescas alegorias, que já são a marca registrada da festa. Entre as matérias-primas utilizadas na confecção dos adereços estão a fibra de juta e a palha. Ainda assim, continuo a achar que o traço mais fascinante da celebração é a arte da pintura corporal indígena, que cada tribo recupera na tentativa de se aproximar ao máximo da que é feita nas entranhas da floresta pelos índios da região.

Trazer os rituais para os municípios imprime, inevitavelmente um certo cunho turístico ao acontecimento e obriga à participação de outro tipo de cambiantes que possuam o conhecimento e a destreza necessária a colocar de pé o festival numa estrutura complexa e urbanizada como o são já as pequenas cidades de município, como Juruti. Ainda assim, creio que é interessante o envolvimento de antropólogos, historiadores e folcloristas da cidade, pelo trabalho de intensa pesquisa a que obriga, em torno do tema definido como mote pelos Mundurukus e Muirapinima , e que é desenvolvido durante todo o ano, na preparação dos três dias da apresentação das tribos. Sei que chegam a passar dias nas aldeias da região em busca de novas inspirações e lendas.

Tanto cuidado e dedicação começa, finalmente, a trazer como recompensa uma certa visibilidade da tradição cultural, necessidades e protestos da região. A cada ano que passa, e à medida que se torna mais conhecido e divulgado, o Festival desperta o interesse de pessoas de todo o Brasil e até do exterior, encantadas com a riqueza cultural da região e da festa em si. Uma delas é a estudante de História da UFPA, Rosiane Marques, que desenvolve uma tese de mestrado em Antropologia sobre o trabalho das tribos Mundurukus e Muirapinima. "Só vindo aqui para descobrir como é interessante esse trabalho de pesquisa sobre a cultura indígena feito por eles", confessou-me ela, há um ano atrás, quando nos cruzámos em Juruti.

Em Lisboa, recebo feliz o telefonema de Christian Emanoel, da Coordenadoria de Comunicação Social do Governo do Estado. Ele e Claúdio Santos, estão no local.

Fico a saber que para comemorar os 122 anos do município, o perfeito, Henrique Costa, encomendou à laia de prsente de aniversário o "Auto da Fundação de Juruti - Uma visão indígena", um espetáculo que vai contar em 40 minutos como os primeiros habitantes da cidade, os índios Mundurukus, reagiram à chegada dos portugueses, liderados pelo padre jesuíta Manoel Sanches de Brito, em 1818.

Apesar da subjectividade da apreciação, sussuram-me que este ano a Tribo dos Mundurucus é uma das que monopoliza a atenção do público. Através deles, sei que a Prefeitura de Juruti, o Governo do Estado e o Basa abriram os cordões à bolsa e decidiram ajudar com patrocínios. Comentamos: «até que enfim!» - mais que não seja porque o Festival das Tribos também "aquece" o comércio de Juruti, mudando o ritmo da cidade e fazendo aumentar as vendas 30% nesta época do ano. Christian diz-me que chegaram à cidade caravanas vindas de Manaus, Parintins, Óbidos, Oriximiná, Terra Santa e Faro. Conta-me também que houve um grupo de jipeiros de Santarém que fez o caminho de Juruti, pela rodovia Translago, que liga os dois municípios. Segundo apurou junto da coordenação do evento estima-se que hoje (Sábado) estarão no local 30 mil pessoas, considerando que é o dia mais importante, pois é quando as duas tribos se enfrentam na arena.

Christian passa depois o telefone a Claúdio que promete fazer-me chegar as fotografias que tirar. Extraordinário o instinto de captação da lente de Claúdio! Sempre achei. É ele quem me descreve as modificações que encontraram em Juruti, quando chegaram, principalmente na zona do tribódromo, como é conhecida a arena onde os grupos se apresentam. Por telefone, conta-me que a prefeitura construiu uma grande estrutura no entorno da arena de modo a garantir maior conforto aos visitantes. Christian é um pouco mais lacónico. Para ele as melhorias prendem-se com o facto de Juruti estar sediando um novo projeto de exploração de bauxita, desenvolvido pela multinacional ALCOA. Seguramente que todos os estrangeiros que se encontram temporariamente deslocados na região estão relacionados com a previsão de que este seja um dos festivais mais concorridos dos últimos anos. E com o apoio da Perfeitura, também.





A propósito do projecto de exploração de bauxita e da multinacional ALCOA... deixo um artigo muito interessante, publicado ainda que já no mês de Maio, onde se parte justamente de um lenda associada à fundação da cidade de Juruti para equacionar o impacto do projecto:




Juruti e Canaã: revoluções?
Fonte: Jornal Pessoal | autor: Lúcio Flávio Pinto | Publicado: 04/05/2005


Diz a lenda que pesa sobre Juruti a maldição do padre João Braz. Autoritário, o pároco acabou provocando a revolta do seu rebanho, numa época em que Juruti ainda era vila do município de Óbidos, no início do século passado.

A igreja teve que removê-lo à força, para atender à pressão dos moradores do local. Antes de embarcar num velho vapor que o levaria para sempre de sua base missionária, o padre limpou de suas sandálias franciscanas qualquer resquício do solo jurutiense e amaldiçoou seus desafetos. Eles pagariam caro pelo que estavam fazendo.

De fato, Juruti parou no tempo, distanciando-se dos demais municípios do Baixo Amazonas, tendo como centro a vizinha Santarém, no extremo oeste do Pará, na divisa com o Estado do Amazonas. Seu índice de desenvolvimento humano o coloca entre os mais atrasados municípios paraenses. Sua beleza e suas riquezas naturais pouco serviram para melhorar a vida de seus 31 mil habitantes.

Mas tudo pode estar mudando. Já está mudando. A maior produtora de alumínio do mundo, a americana Alcoa, chegou a Juruti há dois anos. Mesmo ainda na fase de pesquisa de bauxita, o minério a partir do qual é extraído o metal, a Alcoa já é a maior empregadora do município, a maior fonte de renda, a maior contribuinte de impostos e a maior fonte de preocupações e esperanças, com pouco mais de 100 empregados.

Mas os planos da multinacional, que fatura 40 bilhões de dólares (mais de 100 bilhões de reais) ao ano e tem 110 mil empregados espalhados pelos quatro continentes, representam uma autêntica revolução. Para confirmar ou finalmente acabar com a maldição do furibundo padre João Braz, que persiste na memória dos munícipes como um estorvo.

A Alcoa pretende investir US$ 400 milhões (em torno de R$ 1 bilhão, ao câmbio do dia) para produzir inicialmente, a partir de 2008, 4 milhões de toneladas de bauxita, podendo vir a produzir também alumina no futuro.

Da outra margem do rio Amazonas, a Mineração Rio do Norte produz 17 milhões de toneladas do mesmo minério. Quando começou a funcionar, em 1979, a MRN previa não passar de 6 milhões, mas foi ampliando a escala à medida que a procura por bauxita crescia. Seu investimento acumulado já bate em um bilhão de dólares.

A Alcoa conhece bem a região. É uma das sócias da Companhia Vale do Rio Doce na Rio do Norte, instalada no município de Oriximiná. Pretendia explorar sozinha uma jazida vizinha, no Trombetas, mas acabou se associando à MRN porque era mais barato e cômodo.

Agora quer ter mina própria. Com ela, vai garantir o suprimento da fábrica de alumina que implantou, junto com outra multinacional, em São Luís do Maranhão. A Alumar, por enquanto, é abastecida pela MRN, mas quer se livrar dessa dependência, principalmente porque vai se expandir, junto com sua irmã-siamesa na capital maranhense, a fábrica de alumínio, a segunda maior do Brasil, abaixo apenas da Albrás, que fica em Barcarena, a 50 quilômetros de Belém. A Albrás também funciona ao lado de uma usina de alumina, a Alunorte, a maior do mundo. Ambas são controladas pela CVRD, em sociedade com japoneses e outras multinacionais. Representam investimento superior a US$ 2 bilhões.

Números e situações como essas nunca estiveram ao alcance dos habitantes de Juruti. Sua economia mal vai além da subsistência. Seu principal produto é a farinha de mandioca. Vista de uma ótica interna, sua vida atual pode ser considerada como sendo de maior plenitude do que a que a espera. Os jurutienses vivem em comunidades tranqüilas. Têm aquilo de que precisam, desde que essa necessidade não vá além do elementar, para mera sobrevivência. Mas também, de moto próprio, dificilmente sairão dessa situação.

O Projeto Juruti vai alterar todo esse quadro de vida tradicional. Isso é bom e ruim. Há um lado positivo evidente, mesmo na fase prospectiva, ainda cercada de indefinições e desconhecimentos. A Alcoa teve que avaliar o impacto socioambiental do seu investimento na área.

Antes, o EIA-Rima era pouco mais do que uma formalidade. Ocupava prateleiras, motivava uns poucos debates em ambiente fechado, e pouco mais do que isso. Hoje, o documento precisa ter consistência. Do contrário, a empresa pode não obter o licenciamento ambiental da sua obra, que se tornou um dos momentos mais difíceis e tensos no cronograma de quem não se importa com os aspectos sociais e ambientais do seu investimento.

Mas a exigência não é apenas de qualidade técnica: o EIA-Rima tem que ser submetido à apreciação da população. Anteriormente, havia audiências públicas só no local do projeto. Agora, elas se estendem à capital e podem se multiplicar, como no caso da Alcoa, que já fez três audiências e pode ter que realizar uma quarta, em Juruti Velho, já solicitada à Sectam (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente do Estado).

Esse tipo de debate ainda não atingiu um ponto de maturidade satisfatório, mas tem melhorado. A sociedade está aprendendo a estudar os documentos, a projetá-los sobre fatos concretos e a reivindicar além do quadro de referência estabelecido pela empresa.

Há que chegar a um ponto de equilíbrio entre a atitude de cobrança sem limites e a postura de aceitar o que lhe concedem, como manda o ditado popular em relação ao cavalo dado (sem olhar-lhe os dentes). O percurso é longo, mas sua direção já foi divisada.

O Projeto Juruti se apresenta como o melhor laboratório dessa evolução. O EIA-Rima permitiu diagnosticar a situação de uma comunidade humana que simplesmente foi ignorada até agora. Ela vive num paraíso original, delimitado por lagos, animais, árvores, plantas. Mas vive mal nessa bela paisagem. E não vive mais isolada, como antepassados recentes. Pode estar ameaçada por contatos ainda mais graves, como o da frente da soja, que já sangra sua vizinha, Santarém. Precisa melhorar.

Há argumentos disponíveis para os defensores do ingresso da Alcoa, tanto como confirmação da maldição do pároco bilioso quanto de sua negação. A vizinha Oriximiná serve de vitrine para essas reflexões. O município está mais rico do que antes, melhorou materialmente, tem perspectivas. Mas não parece ter tirado todos os benefícios possíveis do investimento da MRN. A mineradora chegou até a reduzir seu capital, por considerá-lo excessivo, sem se importar em identificar quanto de dinheiro oriundo de incentivo fiscal (ou seja, de renúncia fiscal do governo) havia nesse capital a encolher. Pegou uma multa milionária da Receita Federal por essa "desatenção" e se desgastou com o episódio. Não se recuperou até hoje, embora continue lucrando muito.

Espera-se que a Alcoa não se seduza por essa derrapagem e a população de Juruti se instrua a partir desse exemplo. O EIA-Rima delimita competentemente o âmbito do projeto, mostrando até onde vai seu efeito direto e até que ponto alcançam os efeitos indiretos. Essa é a responsabilidade social estrito senso da empresa. Mas ela precisa contribuir para evitar um dano social e ambiental mais sutil, embora, às vezes, mais profundo e duradouro.

No auge da minha tiligância com a Eletronorte em torno da construção da hidrelétrica de Tucuruí, alguns técnicos me levaram para visitar os nucleamentos da beira do Tocantins, que seriam inundadas pela barragem, e as novas vilas, que a empresa edificaria em locais fora do futuro reservatório. Voltei depois para conferir minhas restrições ao discurso triunfalista dos técnicos. De fato, as novas vilas tinham maior e melhor infraestrutura do que os antigos povoados, mas a população, separada do rio, vivia pior. Perdera seu eixo de vida, no mais amplo sentido, que os engenheiros não podiam (ou não queriam) perceber.

Se fossem qualitativos (sociológicos, antropológicos e mesmo psicológicos), os medidores mostrariam que a transformação, para os nativos, não foi para melhor. Esse componente novo na avaliação deve ser aplicado no licenciamento ambiental do Projeto Juruti para prevenir, evitar, mitigar e compensar os danos que vai causar à natureza e ao homem da região, ao romper seu equilíbrio. O equilíbrio é, atualmente, a razão de ser da pobreza, cercada de mitologias.

Mas a revolução provocada pela aplicação maciça de capital e tecnologia, como nunca houve em toda região, para a criação de uma mercadoria nova, como a bauxita, de valor incomparavelmente superior ao de qualquer outra mercadoria existente no município, não pode se ater a dados numéricos, a grandezas materiais. A economia imaterial deve ser levada na conta devida: aquela que representa para os nativos, agora.

Essa perspectiva, contudo, não deve ser o canto de sereia para uma visão passadista, para um épico populista e um discurso paternalista, que acabarão por também desorganizar por dentro a comunidade local. O religioso de hoje pode ser o oposto do padre mandão de ontem, para o qual rebanho bom é o de carneiros obedientes, mas o mundo também mudou na Amazônia.

Tornou-se extremamente complexo e sofisticado, para poder ser reduzido a um maniqueísmo dogmático (o bem límpido de um lado, o mal estigmatizado do outro). Juruti poderá ganhar muito se estudar o que acontece simultaneamente em Canaã dos Carajás, do outro lado do Estado, em estágio mais adiantado. Canaã já abriga um dos maiores empreendimentos econômicos do Pará, a mineração de cobre da Serra do Sossego.

A mesma Companhia Vale do Rio Doce, dona de quase toda a província mineral de Carajás, está iniciando ali mesmo um novo projeto, ainda maior, de quase R$ 2 bilhões, para gerar mais uma mercadoria nova na cesta de produtos do Estado: o níquel.

Simultaneamente, ensaia uma autêntica revolução tecnológica. Em planta experimental, de 10 mil toneladas (equivalente a 8% da produção comercial de Sossego), testa um novo caminho tecnológico para concentrar o cobre, usando muito menos energia, solventes no lugar de fundentes e podendo aproveitar minério de teor mais baixo. Um resultado satisfatório dará viabilidade comercial para a maior - mas também menos rica e mais complicada - jazida de cobre do país, a do Salobo. A hidrometalurgia confirmada, Carajás vai acabar com os gastos brasileiros de todos os anos, de uns US$ 400 milhões, na importação de cobre, e fazer o Brasil pular para o topo dos produtores mundiais.

Cobre e níquel são as duas grandes novidades dessa província mineral de 20 mil quilômetros quadrados. Mas seu produto tradicional, o minério de ferro, também dará saltos. O máximo que se imaginava para ele quando começou a produzir, duas décadas atrás, eram 20/25 milhões de toneladas. Hoje, sua escala está triplicada. Poderá bater em 130 milhões de toneladas no final da década, se incorporar a jazida mais importante, da Serra Sul (com 11 bilhões dos 18 bilhões de toneladas existentes).

A região de Carajás, em uma década, deverá estar com o valor da sua produção de origem mineral ultrapassando a marca de R$ 10 bilhões. Provocará uma transformação que, no momento, mal podemos divisar. Boa ou ruim? Positiva ou negativa? Qual o saldo de ambas as alternativas?

Canaã dos Carajás já possui uma fundação e uma agência de desenvolvimento municipal, que irão administrar os recursos a serem repassados pela CVRD para o cumprimento de sua responsabilidade social. As duas estruturas estão à altura dos desafios que as esperam? Têm verdadeira autonomia? Dispõem de capacidade técnica? São representativas? Estas e várias outras perguntas devem ser feitas antes de um juízo adequado sobre a situação.

Mas pelo menos já há a quem fazê-las. Na maioria dos casos o controle da empresa era total ou completo o despreparo da população. A combinação dos dois fatores resultou no final infeliz da exaustão da mina de manganês de Serra do Navio, no Amapá. Os royalties foram mal aplicados e o fundo de exaustão ou não teve os recursos necessários ou foi mal gerido. Até hoje o governo do Estado não aceita a reversão do patrimônio e a Icomi não consegue encerrar a relação contratual. Ficou um buraco real, o da lavra, e um simbólico, o jurídico. Com uma mesma vítima: a sociedade.

O grande projeto não pode continuar a ser um cavalo de Tróia, que traz o autêntico presente de grego nas entranhas de uma aparência monumental. Tem que se enraizar na localidade onde existe e ser uma fonte de relação comercial proveitosa para a unidade federativa (e o país) que o abriga. Esses resultados são impossíveis? A condição de enclave inviabiliza a relação positiva? Em tese, sim. Mas está na hora de submeter a tese a um teste definitivo.

Juruti precisa escolher, primeiro, se quer continuar como está ou se modificar. Em seguida, é preciso entender o melhor possível a proposta de mudança que lhe está sendo apresentada, explorando suas máximas possibilidades. Além das compensações, dos direitos e do fundo de exaustão, conforme a norma legal exige, um fundo de desenvolvimento, a ser administrado por uma agência pública, controlada por uma fundação, seriamente constituída, parece um passo à frente nessa novela de mau gosto dos grandes projetos. Pode ser, finalmente, uma mudança para melhor. Não em função de soluções santificadas ou amaldiçoadas, mas das possibilidades do próprio homem.




Não só o ALCOA ameaça esta região. Leia-se o relato preocupante e comovedor que a ACESA faz no seguinte documento, divulgado pelo Grupo de Trabalho Amazônico.




SOS Juruti Velho

O manifesto SOS Lago de Juruti Velho grita por ajuda para as comunidades locais no município de Juruti (PA) contra invasores de terras. O Lago de Juruti Velho, localizado à margem direita do rio Amazonas, é mencionado na Enciclopédia Amazônica como “um dos mais belos lagos da Amazônia” e com grande potencial para o turismo - mas corre o risco de ser destruído antes de ser descoberto no seu valor verdadeiro. Ao redor do lago encontram-se mais de trinta comunidades ribeirinhas, com cerca de 6.600 habitantes descendentes do povo Munduruku, pessoas carentes e excluídas como é o caso no interior de quase todos os municípios da Amazônia.

O município de Juruti é pequeno e pobre, com cerca de 30 mil habitantes que vivem da agricultura familiar, da caça e pesca, do pequeno comércio, de aposentadorias e de empregos na prefeitura, estes últimos concedidos exclusivamente a quem apóia o actual prefeito sem respeito por concursos públicos e qualificação dos concorrentes. O desemprego e a carência são grandes, de modo que muitas pessoas estão dispostas a aceitar qualquer emprego sob quaisquer condições. O prefeito se beneficia desta situação de miséria mantendo o povo em dependência, não apoiando movimentos populares e insultando os seus líderes.

Questão fundiária

A falta de vontade política, tanto municipal como estadual e federal, responde pelo facto de que nenhum morador da região de Juruti Velho possua documentos dos seus terrenos, embora o povo tenha lutado desde 1986, pedindo a legalização das terras, fazendo abaixo-assinados e levantamentos, trazendo equipes do Incra e promovendo inúmeras reuniões.

A área em questão, chamada Gleba Vila Amazônia/Juruti Velho, de 221 000 hectares, é "propriedade" do cidadão de São Paulo, Luiz do Vale Miranda (desconhecido pela população nativa desta terra). O INCRA alega que faltam recursos para a desapropriação e fica, a cada ano, na promessa renovada de legalização das terras. Enquanto isso, os moradores da região são prejudicados nos seus projetos, não podendo contrair empréstimos do crédito agrícola e até sendo insultados, pelo próprio gerente do BASA, como “invasores” e “ocupantes ilícitos” da terra que, de facto, herdaram dos seus antepassados indígenas.

As autoridades, desrespeitando as necessidades e direitos das populações tradicionais, mostram-se, em nome do “progresso” e “desenvolvimento”, bem mais generosas para com os exploradores comerciais desta terra, como as empresas madeireiras, de mineração e de plantio de soja, não colocando nenhum obstáculo nas suas actividades predatórias e menos ainda impedindo esta invasão.

Madeireiras

Há décadas, a região está sendo cobiçada e invadida por diversas madeireiras, tanto empresas estrangeiras (como a EIDAI), como pequenos e médios empresários individuais que revendem a madeira às grandes empresas, apesar dos inúmeros abaixo-assinados, protestos, denúncias e inclusive apreensões de madeira levadas a cabo pela população nativa. Embora existindo um Projeto de Plano de Manejo, o corte de árvores continua a ser realizado em toda a região mais fora que dentro do projeto e inclusive em terrenos particulares dos moradores que, pelas ameaças de morte, vão perdendo a coragem de denunciar tais procedimentos.

Em nenhuma parte há reflorestamento nem maneira de trabalhar digna do nome de Manejo Florestal. A devastação é grande e o IBAMA, chamado pela população e levado para a vistoria in loco várias vezes, sempre constata a irregularidade de ditas actividades madeireiras, proibindo a sua continuação. Porém, como faltam a fiscalização e o apoio do poder executivo municipal, a destruição continua.
Conforme o IBAMA, outras 247 grandes e pequenas empresas já deram entrada para Projetos de Plano de Manejo na região.

Alcoa – Projeto Juruti

Uma das maiores companhias de alumínio no mundo, a multinacional ALCOA Inc., instalou um projeto de mineração de bauxita nas margens do Lago Grande de Juruti Velho. O trabalho de prospecções através da prestadora de serviços Senior Engenharia começou em 2001. Sem se comunicar ou procurar acordo com a população, a ALCOA está já a pesquisar outras áreas, chegando até o limite com o município de Santarém. Fala-se em construir uma hidroelétrica no intacto rio Xingu (Belo Monte) para atender essa empresa consumidora de grande quantidade de energia eléctrica e transferida para um país subdesenvolvido pelas suas matrizes nos países ricos. A empresa diz-dona de uma área de 50 mil hectares, dos quais 25 mil são destinados à extração de bauxita.

O desmatamento de 8 mil hectares já se dá como facto indiscutível. Nas diversas publicações da empresa, os números, tanto da área como do volume das jazidas e do tempo previsto de exploração, variam. Para a ALCOA, sendo ela uma empresa multinacional e poderosa, prometendo empregos, impostos e dólares, a questão fundiária parece inexistente. Os órgãos públicos e o poder político são coniventes com todo o procedimento por parte da empresa, ignorando a existência de pelo menos 30 sítios arqueológicos, de cultura e populações tradicionais e de uma biodiversidade exorbitante e, por partes, desconhecida.

A área de influência directa do empreendimento, onde moram umas 1800 famílias, está parcialmente degradada pelo uso pastoril e de agricultura, assim como pela devastação causada pelas madeireiras. Mesmo assim existem, conforme consta no relatório preliminar da CNEC Engenharia Ltda., contratada pela ALCOA para a elaboração do EIA/RIMA (Estudo de Impacto Ambiental/Relatório do Impacto ao Meio Ambiente), grandes partes de mata virgem (Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas e Floresta Ombrófila Densa Submontana), contando com fauna e flora diversificadas. Existem pelo menos três espécies de árvores protegidas: o Pau-Rosa (Aniba rosaedora), a Castanheira-do-Pará (Bertholletia excelsa), e o Jutaí Vermelho (Hymenaea courbaril). Foram encontradas várias espécies de animais ameaçadas de extinção, entre outras a onça pintada (Panthera onca), a onça vermelha (Panthera puma), a suçuarana (Felis concolor), o gato maracajá (Felis wiedii), a jaguatirica (Felis pardalus), e o peixe-boi (Trichechus imunguis). Outras espécies extremamente raras como a arara azul (Anodorhynchus hyacinthinus), a arara vermelha (Ara chloroptera), e o uirapuru (Cyphorhinus aradus) existem em populações viáveis.

Também a área degradada ("Floresta com Sinais de Exploração") constitui um ecossistema digno de preservar. A maior parte conta com mata alta rica em andiroba, cumaru, itaúba, copaíba, amapá, açaí, uxi, piquiá, fazendo dela um tesouro para actividades extrativistas e uma farmácia fitológica. Os conhecimentos tradicionais vêm sendo esquecidos à medida que os ribeirinhos vão sendo transformados em mão-de-obra assalariada e fardada.

Receamos que toda esta área se transforme em deserto depois do desmatamento. Os resíduos da lavagem de bauxita e uma futura refinaria destinada à mesma, na região, causarão a contaminação do lago, da água do subsolo e do ar, provocando danos irrecuperáveis à vegetação restante. Na lenda do reflorestamento, visivelmente um grande fracasso em outras partes. Um exemplo está bem próximo, na Mineração Rio do Norte do município de Oriximiná, vizinho de Juruti.

Estamos bastante esclarecidos para saber que um complexo ecossistema como este não pode ser substituído por uma simples plantação de árvores nativas, especialmente imbaúbas. Além do abuso da biodiversidade, um projeto de mineração terá incalculáveis impactos sociais - prostituição, empobrecimento de cultura, destruição de empregos tradicionais, futuro desemprego, etc. As políticas sociais e ambientais da ALCOA, embora respeitando a legislação brasileira e certas normas de preservação ambiental, são política de fachada para vender uma imagem positiva a quem nela acreditar, já que tais actividades sempre estão afetando ecossistemas locais, devastando florestas, extinguindo espécies naturais e desprezando a cultura existente. Sua política de ajuda às comunidades da região não passa de uma ajuda assistencialista e paternalista, servindo fins de propaganda e visando calar as opiniões adversas.

Com a resistência das Associações Comunitárias da região ao projeto de mineração, em favor da preservação do meio ambiente, a ALCOA está começando a executar pequenos projetos de infra-estrutura, como poços e micro-sistemas de água em algumas pequenas comunidades. Dá um tostão para colher bilhões de dólares!

Soja

Como se não já bastassem tantos invasores na terra, começaram, em Abril de 2003, empreendedores sulistas e mato-grossenses de soja a abrir picos nas roças dos moradores e na mata virgem que as comunidades ribeirinhas consideram sua reserva, tendo-a protegida para realizar actividades de caça e extrativismo, e para cumprir a lei que exige que 40% de cada propriedade seja reserva. Não houve nenhum diálogo com as comunidades; pelo contrário, questionado sobre o porquê das medições de terrenos e sobre a existência de alguma autorização, os operários e responsáveis deram as mais absurdas explicações, até que, através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, soubemos a verdadeira causa e intenção desta invasão.

Percebendo a resistência dos moradores, os invasores adotaram outra táctica: ofereceram preços “astronômicos” aos agricultores humildes, e conseguiram que alguns lhes vendessem seus lotes de terra, facilitando a invasão dos lotes adjacentes. Os mais conscientes, porém, sabem que a agricultura intensiva e as monoculturas vão prejudicar esta região de modo a que esta nunca mais possa vir a ser a mesma, de deixar de ser Amazônia e passar a ser local de produção de grãos para o gado norte-americano e europeio, enquanto os próprios moradores desta terra, famintos, continuarão na miséria.

A nova direção do INCRA regional está facilitando a actuação dos invasores, afirmando que, dividida a terra, “há lugar para todos”, e que “o Governo precisa de dólares para desenvolver o país”. Em 03 de julho de 2004 soubemos que o INCRA Estadual / Belém cedeu 5 (cinco) mil hectares da Gleba Juruti Velho a dois empresários para o cultivo de soja, enquanto a solicitação de legalização das terras dos moradores tradicionais fica parada no mesmo órgão em Belém.

Diante desta situação da nossa região, perguntamos: O engajamento e a luta de décadas por parte da população nativa em benefício da preservação do meio ambiente foram e estão sendo em vão? Nós da região podemos e devemos contentar-nos com isso?

Publicado por Ana Tropicana às 12:36 AM