dezembro 11, 2005

Dorothy Stang II


«a morte da floresta é o fim da nossa vida» de ana tropicana

É com agrado e um pouco mais apaziguada que percebo que, à semelhança da imprensa internacional, também em Portugal o julgamento dos acusados pelo assassinato da freira missionária, Dorothy Stang - a 12 de Fevereiro deste ano, em Anapu, na região amazónica do Pará - foi considerado digno de ser notícia (vá lá!...). Foram raros os meios de comunicação que não dedicaram espaço ao caso, como se pode observar AQUI. Quero crer que é um sinal de que o mundo começa a acordar para as atrocidades acontecidas ao longe, no útero isolado da Grande Mata. Pelo menos sinto aquecer a esperança de que se caminhe para o fim das impunidades que, há séculos, por lá reinam.






























Fotos: Julgamento do Caso Dorothy Stang (Autor: Oswaldo Forte e Cláudio Pinheiro)




Assassinos de Dorothy Stang são condenados
Fonte: Estado de São Paulo | Autor: Roldão Arruda | Data: 10 Dezembro de 2005 - 20h 15

A Justiça do Pará condenou na noite deste sábado Rayfran das Neves Sales a 27 anos de prisão pelo assassinato da missionária americana Dorothy Stang. Clodoaldo Carlos Batista, que acompanhava Rayfran no momento do crime, foi condenado a 17 anos de prisão.

A freira foi morta com seis tiros em 12 de fevereiro último em um acampamento de trabalhadores rurais, a 50 quilômetros de Anapu, no sudoeste do Pará.

Logo após o juiz Cláudio Montalvão das Neves, titular da 2ª Vara Penal do Tribunal do Júri, ter anunciado o resultado da sentença, o irmão da missionária, David Stang, que permaneceu no tribunal durante os dois dias do julgamento, comentou: “Esse é um grande dia, é um grande começo para a família Stang. Nós vamos voltar aqui para acompanhar cada um dos próximos julgamentos.”

David e a irmã Margarida fizeram vários elogios à Justiça do Pará, que teria prestado um grande serviço não só à família, mas também aos pobres de Anapu que eram defendidos por sua irmã. O júri rejeitou todas as teses da defesa, incluindo a de que não houve recompensa financeira para a execução. Isso foi comemorado pelas entidades de defesa de direitos humanos, pois facilita o caminho para o julgamento dos fazendeiros acusados de sem

O julgamento, que começou na sexta-feira às 8h40 e prosseguiu até as 19h30 - foi reiniciado pela manhã com as alegações finais do promotor de Justiça Edson de Souza. Logo no início da intervenção, ele deixou clara a intenção de pedir pena máxima para Rayfran e Clodoaldo Carlos Batista.

De acordo com o promotor, foi um homicídio qualificado - planejado, mediante promessa de pagamento, e no qual a vítima não teve nenhuma chance de defesa.

Uma das principais preocupações do promotor Souza foi tentar derrubar a tese da defesa de que Clodoaldo teria tido uma pequena participação no crime e até procurou demover Rayfran do intento.

Segundo a tese do promotor, Clodoaldo teve participação direta no crime. “Já pudemos ver que Rayfran é instável emocionalmente, mudando de opinião com facilidade, enquanto Clodoaldo é mais duro, domina melhor as situações”, afirmou. “A arte de matar está no Rayfran, mas a arte de conceber o crime intelectualmente está neste outro homem aqui”, completou, apontando para Clodoaldo, que, à frente dele e de costas para o júri, ouvia de cabeça abaixada.

O promotor também disse que irmã Dorothy, “senhora de comportamento humilde, mas de inteligência acima da média”, sabia que o controle da situação estava nas mãos de Clodoaldo e por isso dirigiu-se a ele, no rápido diálogo que teve com os dois antes de receber os seis tiros. “Quando sentiu que ia morrer, foi a ele que a Dorothy se dirigiu, tentando estabelecer um diálogo.”

No primeiro dia, a principal novidade do julgamento foi a mudança de comportamento dos dois acusados, que passaram a apontar como mandante do crime o patrão deles, o fazendeiro Amair Feijoli da Cunha, o Tato. Até agora ele era apontado como intermediário da execução da religiosa.

Publicado por Ana Tropicana às 05:35 PM | Comentários (0)

dezembro 09, 2005

Michelle Bachelet

«Tengo opinion / Tengo voz / Tengo seguridad / Tengo un deber / Tengo tiempo / Tengo que hacer / Tengo convicción»

Ainda a pensar em mulheres...ELA quer ser a próxima presidente à frente dos destinos do Chile.

«Tengo la fuerza / Tengo confianza / Tengo una meta / Tengo herramientas / Tengo una prioridad /... Estoy contigo»

Ficam as Ideias, o Programa de Governo e... o Blog.




Chile: Michelle Bachelet quer ser a primeira mulher Presidente do país
Fonte LUSA | Autor: António Rodrigues | Data: 09-12-2005 10:32


Michelle Bachelet, a ex-ministra da Saúde e da Defesa socialista, filha de um general que o regime de Pinochet torturou e matou na prisão, poderá tornar-se domingo na primeira mulher a ganhar a presidência do Chile.

Tendo em atenção a evolução das sondagens, tudo aponta para uma segunda volta em Janeiro, já que é muito pouco provável que Bachelet consiga obter mais de 50 por cento dos votos este domingo.

A grande dúvida no seio da Concertação, a coligação de quatro partidos de esquerda e do centro que governa o Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet em 1990, é se o resultado de Bachelet se aproximará mais dos 48 por cento ou dos 45 por cento.

A diferença é maior do que os três por cento aparentam, pois pode representar ter ou não uma votação maior do que a soma do resultado dos dois candidatos da direita, o empresário Sebastián Piñera ou o antigo pinochetista e membro activo da Opus Dei Joaquín Lavín.

As intenções de voto de Bachelet, a favorita desde há muito tempo, têm evoluído de forma inversamente proporcional à da popularidade do Presidente Ricardo Lagos - o primeiro socialista a assumir o cargo desde Salvador Allende - que vai terminar o mandato com 59,8 por cento de popularidade.

Na sondagem de 15 de Novembro, elaborada pelo reputado Centro de Estudos Públicos (CEP), as intenções de voto em Bachelet desceram sete por cento, ficando-se pelos 39 por cento, enquanto as de Piñera subiam cinco por cento para 22 por cento, ultrapassando Lavín com 21 por cento.

Este resultado é ainda mais perturbador para a esquerda chilena, pelo facto do quarto candidato, Tomás Hirsch, apoiado pela coligação Juntos Podemos Mais, englobando comunistas, ecologistas e outras pequenas formações políticas, surgir com apenas três por cento.

A sondagem da CEP dá a vitória a Bachelet na segunda volta, seja qual for o seu adversário, mesmo assim há quem na sua campanha ameace com a demissão se os números da primeira volta se ficarem pelos 45 por cento.

Na Concertação, a possibilidade da repetição do cenário das presidenciais de 1999 tornou-se plausível, depois de um ano de liderança destacada nas sondagens.

Há seis anos, Lagos venceu Lavín na segunda volta com apenas 51,3 por cento dos votos.

Perante os sinais de alarme, os responsáveis da campanha de Bachelet resolveram mudar de estratégia.

Depois de muitos meses a recalcar a ideia que a candidatura de Bachelet provinha da cidadania e não dos partidos e a garantir que a ex-ministra da Defesa não representava a continuação das presidências de Patricio Aylwin, Eduardo Frei e Ricardo Lagos, a candidata surgiu nos últimos dias da corrida eleitoral ao lado de dois patriarcas da Democracia Cristã (DC) chilena, Aylwin e Gabriel Valdés.

Aliás, um dos grandes problemas da candidata é, precisamente, a posição da DC no interior da coligação governamental.

O partido de centro, que surgiu em 1990 ao lado de socialistas e sociais-democratas por necessidade de garantir a estabilidade na transição da ditadura para a democracia, tem sido o que mais problemas tem causado à Concertação nos últimos anos.

Aylwin disse-o em Junho passado: "Na velha guarda da DC há quem se sinta mais próximo de (Sebastián) Piñera que de Michelle (Bachelet).

É precisamente ao eleitorado da DC que as baterias de Piñera têm apontado na sua campanha.

O empresário, doutorado em Harvard, é um dos homens mais ricos do país e representa uma direita liberal moderna que nada tem a ver com a herança de Pinochet - Piñera salienta que em 1988 votou contra a continuação do ditador como Presidente, no plebiscito que abriu as portas da democracia.

Piñera tem procurado ocupar um espaço alargado do centro- direita, espaço que incluiria a DC, ou, pelo menos, parte dos democratas-cristãos.

Os estrategas da sua campanha pensam já numa segunda volta Bachelet-Piñera e estão apostados em romper com os dois blocos que têm dominado a vida executiva e legislativa do país desde 1990, a Concertação no poder e a Aliança, coligação entre a União Democrática Independente (mais à direita) e a Renovação Nacional (liberal), na oposição.

Para conseguir esse novo "arco-íris", como lhe chamam, precisam da DC, não só por representar o espectro central do eleitorado chileno, também porque assim infligiriam um golpe na Concertação, golpe que provavelmente não resultaria vitorioso nestas eleições, mas seria um bom augúrio para as presidenciais de 2009.

Será em 2009, porque este ano a Concertação conseguiu, depois de oito tentativas falhadas, acordar com a direita uma reforma da Constituição feita por Pinochet e que tem manietado a democracia chilena desde o fim da ditadura.

Embora se tenham introduzido 55 modificações na Constituição, incluindo a redução do mandato presidencial de seis para quatro anos, a nomeação do Chefe de Estado Maior das Forças Armadas pelo Presidente e o fim dos senadores nomeados, a Concertação foi incapaz de convencer a direita a abdicar do sistema binominal que tem dividido os cargos políticos entre as duas grandes coligações.

Este sistema eleitoral (os dois partidos mais votados dividem os cargos entre si) restringe o pluralismo político, excluindo os partidos que não pertencem às coligações e dificulta a criação de novos partidos.

O sistema foi criado para favorecer a direita que consegue ter quase metade dos mandatos com pouco mais de um terço dos votos.

Porém, num país onde Pinochet morreu politicamente e a sua herança já não é reclamada por quase ninguém - Lavín, o mais próximo herdeiro dos pinochetistas, afastou-se completamente do antigo ditador, num processo que começou aquando da prisão deste em Londres e culminou com o escândalo das contas no estrangeiro - parecem reunidas as condições para reformar o que resta da Constituição de 1980 que a ditadura impôs à democracia.

Na Concertação espera-se voltar ao assunto da revisão do sistema binominal no próximo ano, isto no caso de continuarem a governar o Chile.

Um país que Lagos deixa entre as democracias mais sólidas da América Latina, com resultados económicos próximos da Europa, mas desigualdades sociais ao nível dos piores países do continente americano.

Apesar dos avanços em termos de luta contra a pobreza, o país permanece como um berço de desigualdades, principalmente na relação entre os mais ricos de Santiago e Valparaíso e os habitantes da periferia, das zonas rurais mais inacessíveis e a população indígena.


Publicado por Ana Tropicana às 12:07 PM | Comentários (0)

dezembro 08, 2005

Dorothy Stang I


dorothy stang de autor desconhecido

A missionária Dorothy Stang trabalhava há quatro décadas junto de pequenas comunidades no interior da Amazônia. No dia 12 de fevereiro de 2005, caminhava na mata, como sempre fazia, quando foi abordada. Parou, conversou, leu um trecho da Bíblia para os pistoleiros. Em seguida, foi fuzilada.

Passado quase um ano do crime, dois dos cinco acusados vão a julgamento.








Em quatro décadas trabalhando junto a pequenas comunidades no interior da Amazônia, a missionária americana Dorothy Stang tornou-se uma figura marcante – pela coragem, pela simpatia, pela eficiência da sua ação junto aos trabalhadores rurais, pela importância internacional de sua pregação em defesa do desenvolvimento sustentável e da reforma agrária. No dia 12 de fevereiro de 2005, um pistoleiro se infiltrou entre os trabalhadores e assassinou-a.

A freira naturalizada brasileira foi atingida pelas costas, com quatro tiros. Caminhava na mata quando foi abordada. Parou, conversou, leu um trecho da Bíblia para os pistoleiros. Em seguida, foi fuzilada.

Passado quase um ano do crime, dois dos cinco acusados vão a julgamento. Os pistoleiros Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, e Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, acusados de assassinar a freira, serão os primeiro a ir ao banco dos réus. Os fazendeiros Vitalmiro Bastos Moura e Regivaldo Pereira Galvão, acusados de encomendar o crime, e Amair Feijoli da Cunha, apontado como intermediário, devem ir a julgamento em 2006.


Em defesa dos camponeses
Em uma de suas últimas entrevistas, em novembro de 2004, a missionária americana afirmava que apesar das ameaças que vinha recebendo – desde 1999 ela aparecia em uma “lista negra” de fazendeiros e madeireiros da região de Anapu, no Pará, – não tinha medo. “Não quero fugir, nem abandonar a luta dos camponeses que vivem sem nenhuma proteção em plena selva”, afirmou. Em dezembro, recebeu o prêmio José Carlos Castro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e foi elogiada no Senado. Era referência na história da colonização amazônica. Também em 2004, recebeu o título de cidadã do Pará. Desde 1972, unida às mulheres e agricultores da comunidade Sucupira, ela desenvolvia projetos sustentáveis para geração de emprego e renda com reflorestamento em áreas degradadas. Queria reduzir os conflitos fundiários, mas chegou a ser acusada, em 2001, de instigar a violência. A morte da missionária foi a primeira de uma integrante da CPT no governo Lula.


Rayfran das Neves Sales, o Fogoió & Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo
Foram denunciados pelo Ministério Público por homicídio triplamente qualificado e serão os primeiros a ir a júri popular. Se condenados, os pistoleiros poderão pegar entre 45 e 60 anos de prisão. Eles afirmam que Vitalmiro Bastos Moura, o Bida, encomendou a morte de Dorothy, forneceu a arma e a munição, além da promessa de pagamento. O crime teria custado R$ 50 mil, mas eles não receberam o dinheiro.


A defesa
Os advogados dos pistoleiros pretendem defender no julgamento a tese de que foi a própria irmã Dorothy quem provocou sua morte. Segundo eles, a missionária americana seria inimiga declarada de fazendeiros, grileiros de terras e madeireiros da região e com isso teria atraído o ódio de todos. A tese será reforçada com antecedentes criminais da religiosa.


italmiro Bastos Moura, o Bida; Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão; Amair Feijoli da Cunha, o Tato
Os fazendeiros Vitalmiro Bastos Moura e Regivaldo Pereira Galvão são acusados de encomendar o crime. Amair Feijoli da Cunha é apontado como intermediário. Eles aguardam o julgamento de recursos que tramitam no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF) contra decisão da Justiça paraense de mandá-los a júri popular. Taradão também responde a processo na Justiça Federal por envolvimento nas fraudes contra a extinta Sudam. Bida é um grande criador de gado de corte em duas fazendas que ocupam área de 3 mil hectares, em Anapuã. Já foi apontado pelo Incra como grande grileiro, em relatório de inspeção feito pela autarquia. Indiciado pela polícia por homicídio qualificado pela morte da freira, Bida , segundo a polícia, um dos homens que fizeram fortuna com a prática de grilagem no Pará. Depois do crime, ele perdeu um dos três lotes, que foi repassado ao Incra para o assentamento de 90 famlias, que vivem na área onde a missionária foi assassinada.

Começa sexta-feira julgamento de matadores de irmã Dorothy
Fonte: Estado de São Paulo | Autor: Roldão Arruda | Data: 07 Dezembro de 2005 - 03h 37


Trancafiados numa mesma cela, no Presídio Estadual Metropolitano 3 (PEM3), em Santa Isabel, a 56 quilômetros de Belém, os dois homens acusados pelo assassinato da irmã Dorothy Stang passam os dias acuados por um profundo medo. Não do julgamento oficial, previsto para este fim de semana e para o qual devem ser mobilizadas organizações de direitos humanos de todo o Brasil e do exterior, mas dos outros presos. Clodoaldo Carlos Batista, o Eduardo, e Rayfran das Neves Sales, o Fogoió, temem ser mortos.

Eles raramente saem da cela, num pavimento acima daquele onde ficam os outros presos. Só vão para o banho de sol, ao qual todo detento tem direito durante uma hora e meia por dia, depois de certificarem-se de que os corredores e o pátio estão vazios. Também precisam de horários especiais para os chuveiros. Tomam o café da manhã, almoçam e jantam debaixo de trancas, confiantes na afirmação das autoridades de que a comida deles é feita à parte. Para evitar envenenamento.

Não é um medo infundado. Pelo código de leis próprias que rege a vida nos presídios, o assassinato da religiosa, uma senhora de 73 anos, é uma espécie de crime hediondo e sem perdão. Assim como o estupro e a violência contra crianças.

O crime ocorreu em 12 de fevereiro, numa estradinha vicinal de Anapu, no sudoeste do Pará. Eduardo e Fogoió foram presos em seguida e levados para Altamira. De lá, foram transferidos para o PEM3, espécie de presídio de segurança máxima, no qual os detentos não têm acesso a celulares, TV, rádio nem a livros. Só à Bíblia.

Os assassinos confessos da irmã foram postos numa cela especial, com Amair Feijoli da Cunha, o Tato, um dos três fazendeiros acusados de terem contratado os serviços dos dois. Os outros acusados de serem mandantes do crime, Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, estão em outro presídio da região metropolitana. O julgamento dos pistoleiros começa sexta-feira, enquanto o dos fazendeiros não está marcado.

Ontem, o Estado tentou ouvir os dois. Fogoió, por orientação de seu advogado, não quis falar. Apareceu por alguns instantes na ala de recepção do presídio, mas depois se recolheu. Eduardo, acompanhado pela defensora pública que cuida de seu caso, concordou em falar. Ele tem 31 anos, aparência robusta, com 58 quilos e 1m65 de altura, e tatuagens nos dois braços. As mãos de pele fina não lembram alguém que trabalha desde os 7 anos na roça, como ele conta. "Elas estão assim porque eu estou há nove meses na cadeia, sem trabalhar", diz.

Desde que foi preso, nunca recebeu visita amiga: de parentes, amigos, nem de conhecidos. "Só Deus é que me sustenta nessa hora", diz o acusado, que começou a ler a Bíblia. Segundo a advogada, a ausência de familiares ocorre porque eles são pobres, sem recursos para sair lá do interior do Espírito de Santo, de onde Clodoaldo zarpou, em 2004, a pedido de seu patrão, o fazendeiro Amair, e foi bater no sudoeste do Pará.

Ele contou ontem que seu pai resolveu dá-lo para uma família de conhecidos quando tinha apenas 7 anos, alegando que não tinha condições de criá-lo. Cresceu entre estranhos. Mais tarde soube que o pai tinha sido assassinado e que o assassino vivia solto: "Eu cresci olhando para a cara do homem que matou ele. Se eu fosse um homem violento, teria matado. Mas não sou. Não matei a irmã Dorothy. Nunca matei ninguém." Uma das pessoas que o acusaram de ter participado do crime foi o próprio Fogoió. "Mas não é verdade. Eu estava ali porque ia para o trabalho."




Especial: Até a próxima morte
Após assassinato da freira Dorothy,governo se mexe, mas política
agrária sofre críticas

Fonte: Revista Isto É | Autor: Mino Pedrosa e Ronaldo Brasiliense
Anapu (PA) | Colaborou: Florência Costa

Os seis tiros que ceifaram a vida da freira americana naturalizada brasileira Dorothy Mae Stang, 73 anos, na manhã do sábado 12, em Anapu, no sudoeste do Pará, expuseram a fragilidade da política agrária do governo Lula. O assassinato da missionária é fruto também da impunidade nos crimes em conflitos de terras. A ausência da Justiça já transformou em tradição no País e funciona como combustível para a violência que queima vidas no campo. Sob pressão internacional, o governo foi forçado a promover a maior movimentação de tropas dos últimos anos para evitar uma nova guerra pela posse da terra na Amazônia. Pelo menos dois mil soldados foram deslocados de batalhões de Belém, Manaus e Marabá para a região, a 680 quilômetros da capital paraense. Um grande aparato policial foi montado para caçar em plena selva amazônica quatro suspeitos do assassinato: o mandante, um intermediário e dois pistoleiros.

Apontado como mandante, o “fazendeiro” Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, foragido, está sob a proteção do verdadeiro grileiro das terras: Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, um velho conhecido da Polícia Federal. Ele chegou a ser preso no escândalo da Sudam, acusado de desviar mais de R$ 1,2 bilhão de incentivos fiscais para projetos fraudulentos, mas foi libertado e continua com sua carreira de golpes em Altamira, na região da rodovia Transamazônica, onde tem residência fixa. Vitalmiro nada mais é do que um “laranja” a serviço de mais uma fraude comandada por Regivaldo, grilando as terras da União, desta vez de olho no dinheiro fácil dos incentivos fiscais da Agência de Desenvolvimento da Amazônia (ADA) sucessora da Sudam.

Antigo alvo
A irmã Dorothy estava na linha de tiro dos latifundiários da região há muitos anos. Mas os ânimos dos fazendeiros-madeireiros ficaram mais acirrados desde o fim de 2004, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) baixou uma portaria obrigando os donos de terra a se recadastrarem. O problema é que boa parte da área é de terra devoluta (pertencente à União). A medida do Incra fez com que dez mil proprietários tivessem seus títulos de terra suspensos. A onda de violência no Pará provocou várias reuniões no Planalto. Na quinta-feira 17, o presidente Lula reuniu seus principais colaboradores.

O governo anunciou a interdição de 8,2 milhões de hectares de florestas em terras da União junto à BR-163 (Cuiabá–Santarém): equivalente a quase o dobro da área do Estado do Rio de Janeiro. Outra decisão tomada na reunião foi a de instalar um gabinete provisório do governo federal na área. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, antecipou a criação de um parque nacional e de uma estação ecológica na região conflitada; o Incra assegurou que 140 mil hectares de terras do Projeto de Desenvolvimento Sustentável defendido pela missionária Dorothy seriam regularizados a curto prazo; a Polícia Federal, no Tocantins, prendeu 14 grileiros na operação Terra Nostra. O governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), comunicou que em poucos dias a Assembléia Legislativa votará o projeto de reordenamento fundiário, transformando em unidades de conservação 63% do território paraense.

Quando o líder seringueiro Chico Mendes foi assassinado em 1988, em Xapuri (Acre), o governo criou a reserva extrativista que leva seu nome, com 960 mil hectares, e liberou recursos extras para reforma agrária e de combate aos desmatamentos na Amazônia. A história se repete: a cada assassinato a reação do governo vem rápida, com ações espetaculosas para justificar a ineficiência dos sucessivos projetos de reforma agrária. A falta de projeto não inibe a política de extermínio de líderes sindicais e religiosos.

A missionária não contava com proteção policial – que ela recusava. “Ninguém vai gastar uma bala numa velha como eu”, acreditava. Para os grileiros, irmã Dorothy era “terrorista”. Mas os trabalhadores rurais a chamavam de o “Anjo da Transamazônica”. Sua morte, após uma noite mal dormida num barraco coberto de palha de apenas 1,7 metro de altura, alcançou repercussão internacional só comparável à que ocorreu com a morte de Chico Mendes. Na pasta amarela que carregava dentro da bolsa a tiracolo no momento em que foi assassinada numa estrada de terra aberta em meio a floresta, a 47 quilômetros de Anapu, irmã Dorothy deixou para a polícia mais do que indícios para apontar seus executores: dois documentos oficiais, autos de infração, com multas de R$ 3 milhões, expedidos pelo Ibama contra Vitalmiro, apontado pela polícia como o mandante do assassinato, por ter desmatado ilegalmente uma área de dois mil hectares no assentamento Esperança, menina-dos-olhos de irmã Dorothy. Segundo a polícia, Vitalmiro teria acertado com Amair Feijoli da Cunha, o Tato, a contratação dos pistoleiros que mataram a religiosa.


A morte de Dorothy causou grande comoção. No enterro da missionária, duas mil pessoas gritavam por justiça e pediam o fim da impunidade. Sob pressão, o governo mandou o Exército para caçar os acusados, como Vitalmiro.

























Fotos: Adeus a Dorothy (Autor Desconhecido)


Publicado por Ana Tropicana às 12:09 PM | Comentários (0)

Imaculada Conceição


a padroeira de d.a

É feriado, numa margem e na outra: Da Pororoca ao Tejo, é feriado! Fecho os olhos só mais um bocadinho: debaixo das batidas de chuva, 26 mil pessoas avançam as ruas do centro de Manaus. Vão levando o andor de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Manaus e da Praia do Carvoeiro: não, não há coincidências, é certo. Fico mais um pouco entre edredons, grata à Santa que me dá o feriado, a pensar que deve começar por aqui: a sensação de um certo colo, a vertigem reconfortante do descanso. Senhora da Conceição: Senhora Aparecida dos Navegantes. Mãe dos pescadores e dos povos das águas, dos seres anfíbios e dos naufragados. Senhora da Conceição: minha também.





Foto: Imaculada Conceição





Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino.
in Dicionário Histórico de Portugal, por Manuel Amaral

Nas cortes celebradas em Lisboa no ano de 1646 declarou el-rei D. João IV que tomava a Virgem Nossa Senhora da Conceição por padroeira do Reino de Portugal, prometendo-lhe em seu nome, e dos seus sucessores, o tributo anual de 50 cruzados de ouro. Ordenou o mesmo soberano que os estudantes na Universidade de Coimbra, antes de tomarem algum grau, jurassem defender a Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Não foi D. João IV o primeiro monarca português que colocou o reino sob a protecção. da Virgem, apenas tornou permanente uma devoção, a que os nossos reis se acolheram algumas vezes em momentos críticos para a pátria. D. João I punha nas portas da capital a inscrição louvando a Virgem, e erigia o convento da Batalha a Nossa Senhora, como o seu esforçado companheiro D. Nuno Alvares Pereira levantava a Santa Maria o convento do Carmo. Foi por provisão de 25 de Março do referido ano de 1646 que se mandou tomar por padroeira do reino Nossa Senhora da Conceição. Comemorando este facto cunharam-se umas medalhas de ouro de 22 quilates, com o peso de 12 oitavas, e outras semelhantes mas de prata, com o peso de uma onça, as quais foram depois admitidas por lei como moedas correntes, as de ouro por 12$000 réis e as de prata por 600 réis. Segundo diz Lopes Fernandes, na sua Memoria das medalhas, etc., consta do registo da Casa da Moeda de Lisboa, liv. 1, pag. 256, v. que António Routier foi mandado vir de França, trazendo um engenho para lavrar as ditas medalhas, as quais se tornaram excessivamente raras, e as que aquele autor numismata viu cunhadas foram as reproduzidas na mesma Casa da Moeda no tempo de D. Pedro II. Acham-se também estampadas na Historia Genealógica, tomo IV, tábua EE. A descrição é a seguinte: JOANNES IIII, D. G. PORTUGALIAE ET ALGARBIAE REX – Cruz da ordem de Cristo, e no centro as armas portuguesas. Reverso: TUTELARIS RE­GNI – Imagem de Nossa Senhora da Conceição sobre o globo e a meia lua, com a data de 1648, e; nos lados o sol, o espelho, o horto, a casa de ouro, a fonte selada e arca do santuário. O dogma da Imaculada Conceição foi definido pelo papa Pio IX em 8 de Dezembro de 1854, pela bula Ineffabilis. A instituição da ordem militar de Nossa Senhora da Conceição por D. João VI (V. o artigo seguinte) sintetiza o culto que em Portugal sempre teve essa crença antes de ser dogma. Em 8 de Dezembro de 1904 lançou-se em Lisboa solenemente a primeira pedra para um monumento comemorativo do cinquentenário da definição do dogma. Ao acto, a que assistiram as pessoas reais, patriarca e autoridades, estiveram também representadas muitas irmandades de Nossa Senhora da Conceição, de Lisboa e do país, sendo a mais antiga a da actual freguesia dos Anjos, que foi instituída em 1589.


Publicado por Ana Tropicana às 08:59 AM | Comentários (0)

dezembro 04, 2005

... Ainda os «Grandes Amores»

Ainda estou para aqui a magicar na reportagem da Cândida.
De tudo o que vi e ouvi para somar ao que já conhecia da história de Snu e Sá Carneiro, retenho três linhas de força:

- A perpicácia "Mátria" de Natália Correia, que a fez pressentir que o nórdico sono de Snu no seu «esquífe de gelo» devia ser desperto por Francisco, e os apresentou aos dois. Estava certa, a poetisa: foi amor à primeira vista. Como na literatura mais fina. Como se o romance já tivesse sido escrito por alguma musa e tudo o mais que se seguisse não fosse senão pura fatalidade literária.

- A franqueza de Vasco Abecassis quando fala desse «estranho bicho nórdico» que era a ex-mulher, lhe reconhece o que designa por "will power" e, com um certo brilho ainda a perdurar no olhar, quase 30 anos depois, coloca desta forma o derradeiro instante do abandono: «Percebi, nesse momento que não havia nada a fazer: dei-lhe o divórcio e deixei-a ir». Como se fosse simples deixar partir um grande amor. Como se a suprema dignidade estivesse afinal em saber perder a mulher da nossa vida.

- O embaraço mal disfarçado de Mário Soares, confrontado com a frase infeliz usada no tempo de antena da campanha eleitoral da época, tentando teimosamente justificar o injustificável, como se nenhum acto de contricção lhe tivesse chegado com o tempo. Como se na condição de actual candidato a um 3º mandato na Presidência da República, em 2006, continuasse a parecer-lhe aceitável que «o combate político» legitime todas as analogias. Até as mais deploráveis, como aquela: «Como é que se pode esperar que um homem que não soube tomar conta da própria família, saiba tomar conta de um país?».





Foto: Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro (autor: Alfredo Cunha)





Foto: Camarate, 04 de Dezembro de 1980 (autor: Alfredo Cunha)

Publicado por Ana Tropicana às 03:26 PM | Comentários (0)

dezembro 03, 2005

«Snu»


snu e francisco de autor desconhecido

Conheceram-se num almoço. Eram ambos casados, no Portugal conservador do pós 25 de Abril. Apaixonaram-se. Ele era primeiro-ministro, o primeiro eleito com maioria absoluta em democracia; ela viera da Escadinávia e abrira uma editora, que incomodava a pasmaceira intelectual do país e trazia a PIDE em furor persecutório. O divórcio foi-lhe concedido a ela. A ele não. Amaram-se mesmo assim: sem nunca recuar, contra tudo e contra todos, desafiando protocolos, resistências familiares, interesses partidários, morais e outras razões de Estado. Ele nunca abriu mão da presença dela a seu lado, qualquer que fosse a ocasião, por mais fortes, hipócritas ou sinistras que fossem as ameaças, os ataques, as pressões. Exigiu a Portugal e ao Mundo que a tratassem com o respeito e a dignidade que convêm a um Grande Amor. A 4 de Dezembro de 1980, em plena campanha eleitoral para as eleições presidenciais, embarcam num Cessna em Lisboa rumo ao Porto. Faltava um ano para expirar o prazo que faria com que a lei o reconhecesse, também a ele, como um homem divorciado. A viagem dura 38 segundos. O avião cai em Camarate. Cedo demais.

Para ver, depois das 20h, AQUI.




Na noite de 4 de Dezembro de 1980, o primeiro-ministro de Portugal, Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis, o então Ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa e a mulher, Maria Manuel Amaro da Costa, António Patrício Gouveia e os pilotos, morreram num desastre de avião, durante a campanha para as eleições presidenciais desse ano. O avião tinha acabado de levantar voo quando se despenhou em chamas numa rua do bairro de Camarate, às portas de Lisboa. Vinte e cinco anos depois da queda do Cessna as dúvidas e as suspeitas sobre as causas do desastre continuam por esclarecer.


Em 1999, tentámos, eu e a equipa que fez para a RTP 2 a resenha dos factos mais marcantes do século, conversar com a família de Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro. O conceito de «O Juízo Final» obrigava à selecção de um e um só facto, acontecimento e/ou personalidade, marcantes do Século XX por programa. No total: 100 escolhas para 100 programas, a emitir durante os 100 dias que faltavam até à chegada do novo milénio. Foram muitas e vivas as discussões e os argumentos, até chegarmos ao alinhamento definitivo: Marylin ou Elvis Presley, Hitler, Kennedy ou Gandhi, a invenção da pílula ou o 1º transplante cardíaco, a chegada à lua ou a descoberta da electricidade, enfim. Nesse processo de selecção, recordo-me que houve raros momentos de consenso. A escolha de Francisco Sá Carneiro foi um deles. Todos entendíamos que era um nome incontornável, não apenas pela dimensão de estadista, mas sobretudo como homem, vertical nos sentimentos, íntegro na forma como lhes foi coerente e leal, desafiando convenções e preconceitos, protagonista irrepreensível de uma grande história de amor, inevitavelmente inscrita na memória colectiva do país: Sá Carneiro, o amador sem concessões, à laia de Pedro, vergando a corte em reverência à Bela Inês.

Importava-nos Sá Carneiro pelos olhos do amor a Snu. Mizé Freitas do Amaral, Conceição Monteiro, Maria João Avillez, encabeçaram o restrito leque de amigas de Snu que permitiram, pela primeira vez, erguer o véu sobre um amor maldito, tão belo quanto castigado. Não fomos mais longe: de um lado e de outro, ambas as famílias se recusaram à conversa, magoadas pela ausência de vontade política no esclarecimento das circunstâncias da morte dos dois, pelos sucessivos arquivamentos do processo de apuramento de causas e responsabilidades que estiveram na origem do acidente, pelo desgaste teimoso e solitário na luta pela reabertura da investigação, melindradas pela memória fresca da condenação pública da relação dos dois, assustadas pelos rumores do interesse, que entretanto começava a surgir, para passar ao cinema a vida de Snu e Francisco, ainda que à revelia do seu consentimento.


Durante o ano seguinte, os rumores confirmam-se, apesar da polémica em torno da autorização e contra as vontades expressas das famílias, Luís Filipe Rocha e Tino Navarro levam em diante o guião e realizam o filme a que dão o lacónico título: «Camarate».


Hoje, véspera do dia em que se cumprem 25 anos sobre a morte de Snu e Francisco, a SIC passa uma reportagem onde, finalmente, aqueles que se cruzaram mais de perto com o casal aceitam quebrar o longo e intrespassável silêncio, para falar de amor.


O trabalho é da autoria de Cândida Pinto que fala assim, da reportagem que será exibida logo, durante o Jornal da Noite, no ar a partir das 20h:


«Quem era a nórdica que apaixonou Sá Carneiro e desafiou a sociedade portuguesa nos anos 70? Esta curiosidade levou-me a tentar perceber a mulher fugidia, que surgia sempre em segundo plano, atrás de Sá Carneiro, em escassos momentos de imagens ou em meia dúzia de fotografias, mas que suscitava todo o interesse. A razão é simples: como diz o filho de Sá Carneiro, Francisco Sá Carneiro, a Snu «bastava estar».


Há dez anos tentei fazer este trabalho, conhecer melhor esta mulher esquiva que tinha levado um líder político português a deixar a conservadora família no Porto, para viver em "união de facto" com uma escandinava. Na altura a família não aceitou falar, mas agora, 25 anos depois da morte de Snu e Sá Carneiro, foi possível obter depoimentos inéditos, consultar os arquivos familiares e revelar imagens exclusivas de Snu Abecassis.

E encontrei algumas surpresas: o carácter determinado, aventureiro e competitivo de Snu quando era criança e adolescente, contado pelas colegas de liceu, na Suécia. O "will power" que cativou o ex-marido de Snu, o português Vasco Abecassis, homem de forte personalidade que impressiona pela lucidez e transparência com que fala da mulher que amou. Os filhos de Snu, que ficaram com uma relação prematuramente quebrada, que não conheceram bem a mãe e que ainda hoje procuram saber mais sobre ela. O filho de Sá Carneiro, que confessa a saudade que lhe deixou Snu. Os funcionários que a acompanharam na Dom Quixote, e que guardam a imagem de uma mulher de coragem, que desafiava a PIDE.

Mário Soares, Cavaco Silva, Artur Santos Silva, Francisco Pinto Balsemão, Miguel Veiga, Maria João Avillez dão testemunho do que viveram com Snu e Sá Carneiro.

A paixão vivida pelo casal, contra tudo e contra todos, não deixava ninguém indiferente. Nem a mãe de Snu, Jytte Bonnier, que identificava na filha uma personalidade de liderança.

Entre o rigor nórdico e a falta de organização portuguesa, Snu surge sempre inquieta. O ex-marido é claro na conclusão: Snu nunca se integrou na sociedade portuguesa.

A 4 de Dezembro de 1980, com 40 anos, morre num desastre de avião, ao lado de Sá Carneiro.»


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Ficha Técnica:

Reportagem SIC/Expresso
Jornalista: Cândida Pinto
Imagem: José Maria Cyrne
Montagem: Marco Carrasqueira
Grafismo: Paulo Alves
Produção: Isabel Mendonça
Coordenação: Daniel Cruzeiro
Emissão: 3 de Dezembro de 2005

Publicado por Ana Tropicana às 11:23 AM | Comentários (0)

setembro 25, 2005

Na Volta do Correio


gurupá de mónica barroso

A Mônica prometeu enviar um ensaio fotográfico sobre o Gurupá, um pequeno município de cerca de 25 mil habitantes, localizado no Norte do Pará. São imagens registradas entre Março e Abril do ano passado, durante o trabalho de campo da pesquisa de doutoramento sobre Políticas Sociais que a Mónica desenvolve na London School of Economics and Political Science. Aguardo animada.

Publicado por Ana Tropicana às 08:10 AM | Comentários (0)

setembro 18, 2005

Intacta Faculdade de Intuir


memorias & llegando al mar de carola nudman

Pergunto se é de propósito, se acaso é bruxa ou visionária. Responde que quando o pincel lhe resvala para a tela desce ao centro de um alcance que nem ela conhecia ao punho. Dou-me por satisfeita. Com a resposta e com o resultado - um retrato contemporâneo dos dias e da alma.








Conheci Carola no final de 2003... talvez até começos de 2004... não posso precisar... tinha ela acabado uma série de trabalhos a que chamou «La Otra Realidad» , em Santiago do Chile. Estendeu-me um cartão sépia onde estava gravada a curiosa ocupação de "Consultora en Feng Shui - asesorias, talleres y fuentes de agua".






«Ana / Anna» e «Encuentro con el Infinito / Meeting with the Infinite»



Achei graça ao detalhe das "Fontes de Água". Pareceram-me ainda mais belas por serem «Fuentes» e delas se dizer que eram «de Água». Agradou-me aquilo, não sei porquê... o detalhar de certas minúcias aparentemente ( aparentemente!) dispensáveis e redundantes. E agradou-me porque me interpelou algures onde o óbvio sempre trai a percepção, no que ela tem de linear: ... porque me recordou de sopetão que existem, sim, pessoas que sabem da existência de outras fontes, outros escorreres... da persistência inefável de um certo Olímpo onde Baco continua a jorrar vinho entre ânforas e cântaros mais tintos.






Pintando un Sueño / Painting a Dream





«El Salto / The Jump» e «Claro en el Bosque / Clear in the Forest»



Por essa altura, ter-me-á dito, mais ou menos com estas palavras, e uma certa candura inusitada à mistura:

«A mi me gusta la técnica milenaria de armonizácion de los espacios»

Voltei a achar graça. Talvez até belo, essa coisa de alguém se "ocupar" a buscar a "harmonização" ao espaço. Guardei o cartão junto com a impressão que me ficou das telas, um tanto ou quanto oníricas. Depois guardei a amizade e os escritos com que sempre vamos farejando distâncias, ausências inofensivas e mútuos silêncios mais ou menos irregulares.






«Multitude I»





«Realidades Desconocidas / Unknown Realities»





«El Ladron del Tiempo/ The Time Thief»





«Asombro / Fear»





«Simbolo I / Symbol I»



Entre 1997 e 1999, Carola andou por Bangkok e pela Tailândia, estudou a arte taoísta do Feng Shui e tornou-se autodidacta em óleos, tintas e acrílicos. As telas vieram quase de seguida, como explica no texto de apresentação das suas exposições, e que nunca muda, nunca refaz, nunca altera uma vírgula, desde a primeira vernissage:

«My painting is the via that I use to express what I see, that in the end is like a dream. Because, as I feel it, each painting is a dream it self, in which the color and the feeling give us to hope.»

Voltámos a conversar há dois dias atrás. Primeiro escreveu. Dentro do envelope vinha a polaroid desta tela que eu vi pela primeira vez em 2003, numa sala perfumada a acácias, em Santiago. Depois telefonou. Esqueci-me de perguntar porquê o envio. Ou talvez não. Porque, em verdade, desde o embate da primeira "mirada" sempre nos entendemos na convicta intencionalidade do "sem razão" das coisas.





«Al Borde de los Sueños / At the Dreams'Edge»


Falámos, pois, eu disse: da Casa das Artes que teima de portas abertas; do convénio quase assinado entre a Universidade do Chile e a Universidade Nacional de San Juan, na Argentina; das atrocidades da pesquisa genética aplicada à agricultura e da guerra declarada contra a uva menos perfeita; das suas preocupações na quinta: dos pêssegos de primeira qualidade que, por algum motivo, ficaram farinhentos e manchados durante o transporte, das uvas de mesa que caíram da videira antes de estar maduras, da cor fúsia dos pimentos da última colheita, da seca da queñoa e da perfeição curva do tamarugo. Falámos das novas tonalidades que tingiu com sucesso nos teares do atelier, dos mais recentes grafismos nativos que descobriu e (claro!) de algumas questões indígenas associadas a tudo isto. Desligamos. Conto-lhe pouco ou quase nada sobre as coisas da vida por Lisboa. Passaram dois dias. Esta tarde recebo dois jpeg's que, combinados e "enfiados" tão criteriosamente no mesmo email, me deixam até agora de sorriso no canto dos lábios.

«Mi trabajo ha surgido de una búsqueda personal e intensa de la propia intuición», recordo-me ter ela escrito no tal texto de apresentação que costuma fazer seguir com o catálogo de cada exposição. Esse a que não muda uma virgula. Porque não precisa. Continua inalterável: «el frágil equilibrio entre el arte, el entorno, el quehacer y la necesidad de expresarse». Eu bem vejo que sim: intui em duas telas o que me levaria horas a relatar por telefone, se acaso lhe tivesse querido traçar o esboço dos meus últimos dias aqui. É essa a maravilha inenarrável que, há um bom par de horas, me faz prolongar o sorriso: constatar que tudo o que lhe possa contar, já ela o sabe. Porque o intuiu e pintou antes mesmo de me poder ocorrer dizer-lho.






«Llegando al Mar / Arriving at the Sea»





«Memorias / Memories»

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setembro 09, 2005

Fala Tapirapé


aldeia tapirapé de unicamp

Existe uma característica que me interessa sobejamente na oralidade dos índios tapirapé: trazer o interlocutor para perto e tratá-lo com proximidade.





Fotos: Redacções e Desenhos Tapirapés




Maria Gorete Neto é linguista no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/Unicamp). Durante três anos morou em aldeias da região do médio Araguaia, no Mato Grosso, leccionando a língua oficial brasileira aos indígenas. A experiência inspirou-lhe uma muito interessante dissertação de mestrado, que defendeu em Fevereiro deste ano:

«Construindo interpretações para entrelinhas: cosmologia e identidade étnica nos textos escritos em Português, como segunda língua, por alunos indígenas tapirapés»


Maria Gorete analisou 30 textos de alunos de 5ª a 8ª séries do ensino fundamental. Nas cartas, redacções e bilhetes, os jovens apresentavam um jeito próprio de se manifestar na segunda língua. Questões aparentemente estilísticas mostraram-se recorrentes nos textos. A investigadora focou a sua atenção na influência da língua tapirapé no português usado pelos índios: “ É perceptível a resistência ao colonizador feita de forma estratégica e muito súbtil” ,defende.

Na gramática desse povo, a mobilidade sintáctica é muito flexível. O adjectivo pode vir no início da frase e o sujeito no fim. O sujeito e objecto são colocados antes ou depois do verbo. Mas todos se entendem. Dito de outro modo, as partículas presentes na língua indígena permitem a um tapirapé dizer algo do tipo “a menina mordeu o cachorro”, sem risco de o interlocutor pensar que o cão de facto foi ferido.

As marcas da língua-mãe e o modo de ver o mundo aparecem sempre na fala de quem aprende um segundo idioma. No caso dos tapirapés, os temas preferidos são a abundância de comida, as suas crenças e, principalmente, a sua alegria. Segundo a investigadora, a alegria é o mote da vida da etnia e está associada ao estar junto e partilhar.

Entre os habitantes das duas últimas aldeias, uma nas proximidades da cidade de Santa Teresinha e outra em Confresa, ambas no Mato Grosso, não se nega um pedido feito por uma pessoa próxima. É essa mesma postura que aparece refletida nos textos dos alunos. A professora cita como exemplo a carta que uma menina tapirapé, de 13 anos, escreveu ao presidente, pedindo ajuda nas questões da sua terra: “Meu amigo Fernando Henrique, estou escrevendo para você organizar a área indígena.” Esta intimidade manifestada com o ex-presidente da República´não difere daquela com que lidaria com um dos últimos 560 remanescentes da sua etnia: “Na linguagem deles não existem formas de tratamento específicas para autoridades. O respeito aos índios mais velhos e sábios é mostrado por atitudes quotidianas” conta Maria Gorete Neto.


Ainda a propósito do trabalho desenvolvido, vale a pena ler:


Surge uma nova língua: o ‘português-tapirapé’
Fonte: Jornal UNICAMP | Edição 299 - 29 de agosto a 4 de setembro de 2005

Ensinar a Língua Portuguesa aos índios sem interferir nos costumes e na cultura do povo é um dos grandes desafios atuais na formação educacional indígena. Desafio que a lingüista Maria Gorete Neto sentiu na pele. Convidada a lecionar a disciplina de Língua Portuguesa, como segunda língua, na aldeia dos Tapirapé, no Mato Grosso, Maria Gorete acabou permanecendo três anos em contato direto com este povo, de 1999 a 2001. O resultado da experiência levou a pesquisadora a analisar os textos escritos em português dos adolescentes e jovens de 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental e chegar à conclusão de que existe um “português-tapirapé”. “Embora sejam totalmente compreensíveis a qualquer falante do português, os índios carregam uma marca de identidade muito forte nos textos”, explica.


Pelo menos três características identificadas nas 30 redações livres e desenhos analisados pela lingüista estão descritas em sua dissertação de mestrado “Construindo interpretações para entrelinhas: cosmologia e identidade étnica nos textos escritos em português, como segunda língua, por alunos indígenas Tapirapé”, orientada pela professora Marilda do Couto Cavalcanti. Uma das questões abordadas pela pesquisadora é aquela que chamou de “etnicização” do português. Ela explica, por exemplo, que a mobilidade sintática no “português-tapirapé” é flexível, assim como ocorre na língua Tapirapé. As frases “Estou com fome muita” ou “Índio muito joga bola animado” são perfeitamente aceitáveis dentro dos padrões de escrita e oralidade dos índios.


Outro aspecto foi a presença incisiva de elementos da cosmologia Tapirapé nos textos. “As relações de partilha e a alegria associada à abundância de comida e de terra – características do povo – aparecem a todo instante na escrita”, comenta Maria Gorete. Os relatos das invasões de terra, discussões sobre direitos indígenas, ameaça de morte pelos posseiros, enfim, questões relacionadas às necessidades de sobrevivência dos índios, e os conflitos com os não-índios, são assuntos recorrentes nas redações.


A terceira marca, e talvez a mais importante observada nos textos, refere-se à identidade indígena. “Por um lado, os aspectos da cosmologia constantes nos textos apontam para um modo Tapirapé de ver e agir no mundo. Tais aspectos os diferenciam e auxiliam a construir sua identidade étnica em contraste a outros povos. De outro lado, as características aparentes nos textos denotam um português-tapirapé com uma função identitária, diferente do português considerado ‘padrão’ e de outras variedades desta língua. É um português específico que traz à tona o fato dos povos indígenas apropriarem-se e moldarem a Língua Portuguesa ao invés de aceitá-la passivamente. Apesar de utilizar a língua historicamente imposta, os alunos ‘preservam’ suas especificidades”, esclarece. Neste sentido é que a lingüista defende políticas lingüísticas que garantam o ensino e a valorização das múltiplas variedades do português sem que haja discriminação para com nenhuma delas.

Publicado por Ana Tropicana às 03:34 PM | Comentários (0)

agosto 12, 2005

Miguel Rio Branco


blue tango de miguel rio branco

Leio no Le Monde uma interessante matéria de Bérénice Bailly, e fico a saber que o trabalho de Miguel Rio Branco atravessou de novo o Atlântico. E depois só esta saudade lânguida do atelier de espelhos venesianos, súbtil metáfora corpórea dos reflexos do mundo abismados nas fotografias em redor. Até meio de Setembro Cris sourds estará exposta em Paris, mas a mostra retrospectiva de outros ensaios fotográficos de MRB - como este memorável Blue Tango que falava da arte da capoeira entre os meninos da rua - prolonga-se até ao fim de Novembro.





























Fotos: Blue Tango, 1984 | [ autor: Miguel Rio Branco (1946) ]




Eis o artigo:


Miguel Rio Branco ausculte la violence du monde, à travers ses images baroques
LE MONDE | Bérénice Bailly (Rio de Janeiro de notre envoyée spéciale) |11.08.05 | 13h14

C'est un homme blessé. Incapable d'oublier la violente algarade qui s'est déroulée, la veille de notre rencontre, sous les fenêtres de son appartement-atelier de Santa Teresa, à Rio de Janeiro. Incapable d'oublier que ce quartier de bohème nantie est "cerné par le tiers-monde", les favelas à quelques mètres de là. Cette dure réalité, Miguel Rio Branco la vit en son coeur. Et tout son travail s'en ressent. Certes, il a passé l'essentiel de sa vie à l'étranger, suivant un père diplomate puis ses envies de liberté. Certes, sa pratique est très éloignée de celle d'un photo reporter témoignant des difficultés de son peuple au quotidien. Mais dans ses sombres et baroques plans rapprochés, c'est toute la douleur de son pays qu'il porte et ausculte ; sa continuelle quête d'identité.


Son exposition dans l'église des Frères-Prêcheurs d'Arles en témoigne. "Cris sourds". Un travail sur la cicatrice, la souffrance, le passage du temps. Le pouvoir, l'oppression, la mort, la survie. Autant de questions très brésiliennes... "Conçue comme un film en plusieurs morceaux", elle mêle "des images de l'Amérique latine à celles des pays conquérants". Est-ce Saint-Jacques-de-Compostelle, le Portugal, La Havane ou Salvador de Bahia, que l'on découvre dans ce chaos d'images ? Peu importent les lieux, seuls immergent ces quelques mots : "la douleur, le labyrinthe de la douleur".


"MES AMBIANCES SONT NOIRES"


Rouge sang et ombres variées : la prédominance de ces sombres nuances a souvent suffi à faire passer Miguel Rio Branco pour un coloriste. Mais le jugement le fait sourire : "Mon atelier a brûlé en 1980, à Sao Paulo, et j'ai perdu dans l'incendie tous mes noirs et blancs des années 1970. Il ne m'est resté que la couleur : peut-être est-ce pour cela que l'on m'appelle un coloriste. Mais en fait j'ai très peu de couleurs, et mes ambiances sont le plus souvent noires. Peut-être faudrait-il commencer à voir un peu en bleu, mais dans ce monde, ce n'est pas évident."

"Cris sourds" construit une vanité moderne, empreinte d'une mystique qu'aucun espace n'aurait pu mettre en valeur mieux que cette superbe église des Frères-Prêcheurs. Plutôt qu'un acte de foi, son auteur la conçoit comme une digression spirituelle. "Bien sûr, explique-t-il, il y a une très forte présence catholique dans mon travail, et j'ai toujours ressenti la nécessité de croire qu'il y avait quelque chose de plus que ce moment où l'on passe sur terre. Mais je ne suis pas attaché à une religion en particulier, toutes m'intéressent : je suis chrétien ; mais au Brésil on n'est jamais seulement chrétien, il y a toujours un fond de candomblé, cette religion née des esclaves africains. Et en ce moment, je suis surtout intéressé par les religions orientales."

Vidéos projetées sur des tissus translucides, images photographiques en installation, sculptures de néons et verre brisé... L'ensemble hétéroclite présenté ici témoigne du parcours tourmenté de Miguel Rio Branco. Commençant par la peinture, dès les années 1960, pour se tourner vers la photographie en 1968, "pour aller vers plus de concret, et un peu par hasard. Mais à mes débuts, je n'avais aucune connaissance sur les photographes. Le seul que je connaissais en 1967 était Bill Brandt. J'aimais son côté ombrageux. De la même manière, quand j'ai passé deux ans à New York, de 1970 à 1972 : j'avais des contacts avec des plasticiens, jamais avec des photographes".

Aujourd'hui, c'est pour lui une certitude, il a complètement basculé vers les arts plastiques, par besoin de trouver des nouvelles formes. "Je suis un plasticien qui a un pied dans le réel : c'est tout le problème. Avant, je croyais qu'en montrant une situation dure on pouvait la changer. Avant." Avant le 11-Septembre et son cortège d'anéantissement, des hommes et des illusions. Un événement historique qui n'a pas laissé indemne son amour de la photographie. "Je suis très négatif par rapport à l'information et à la façon dont elle est mise en scène. Le basculement s'est opéré peu à peu, mais le coup fatal a été porté en 2001. La télévision a pris le dessus, définitivement, sur le documentaire. Depuis 1972, je suis correspondant de l'agence Magnum au Brésil. Mais correspondant de quoi ? La photographie de presse est de moins en moins considérée. Heureusement, Magnum n'est pas une agence figée, elle autorise les travaux personnels, et nous laisse un contrôle total sur l'image. Mais j'ai vraiment pris un tournant, pour prendre l'image de façon métaphorique, très différemment de ce que la presse peut montrer. Ce qui m'intéresse, c'est la question de l'auteur et de la liberté."

"Cris sourds". Miguel Rio Branco à l'église des Frères- Prêcheurs.
Jusqu'au 18 septembre. De 10 heures à 19 heures.
Rue du Docteur-Fanton, Arles (Bouches-du-Rhône)
Tél. : 04-90-96-76-06

Sur Internet : www.rencontres-arles.com.

Rétrospective à la Maison européenne de la photographie
Du 28 septembre au 27 novembre
Rue Fourcy Paris-4e,5-7,
Métro Saint-Paul




Ela foi ver a exposição. Deixo aqui o relato que faz:


«Lorsque l’on pénètre dans la pénombre de l’Eglise des Frères Prêcheurs, on constate que Miguel Rio Branco a installé ici un étrange jeu de lumières et de couleurs. L’exposition comporte des assemblages en damier de photographies disparates – par exemple, photographies de tableaux ou de statues versus photographies de requins – qui semblent mariées sous un sceau nouveau assurant la cohérence de leur assemblage (ambiances, textures, ensembles de couleurs chaudes et ocres opposés à des compositions froides). Ce lien est avant tout thématique : le photographe nous parle ici de pouvoir, de justice et du rôle joué, selon lui, dans ces rapports de pouvoir, par la religion. La façon originale dont Rio Branco va traiter cette question apparaît tout d’abord au moyen de quelques signes avant-coureurs qui créent une sorte de malaise : les statues religieuses paraissent en effet douées de vie. Le traitement photographique participe de cette impression étrange, l’artiste jouant sur les textures des statues christiques. Un triptyque s’attache particulièrement au rendu du volume des statues et de la pierre, avec ses veines, ses aspérités, ses nœuds. Muscles et cou noueux du corps du Christ font se confondre pierre et chair dans un même transport. Plus loin, une statue présente une pose peu conventionnelle : yeux fermés, bouche entrouverte aux lèvres charnues, les mains se touchant le torse - une posture bien éloignée des statues habituellement figées et rigides des lieux de culte.

Ce trouble gagne en intensité à la vue de photographies de peintures religieuses inquiétantes comme celle où l’on peut voir une femme en extase, défaillante : lorsque l’on détache son regard du centre du tableau, on remarque sur la droite un enfant qui la regarde avec inquiétude et effroi. Le regard de l’enfant, dans l’ombre, donne au tableau photographié une tonalité dramatique et l’extase de cette femme se charge soudain d’une atmosphère lourde et pesante, comme si elle semblait désormais victime d’une malédiction divine. Jouxtant ce cliché, une photographie d’un Christ semble aussi le montrer en proie à un mauvais sort. Cette torture intérieure habite la majorité des objets photographiés, et chacun semble en proie à une tourment qui n’épargne pas même le Christ, dont on se demande s’il est victime ou bourreau.

Le malaise qui habite les photographies de Miguel Rio Branco et qui, dit-il, l’a habité tout au long de la réalisation de ce projet, est d’autant plus impalpable et profond que l’artiste ne nous en montre que les signes, les manifestations, étant dans l’impossibilité d’en déterminer la cause. On voit là des personnages aux mains liées, des crânes en nombre, ici une ville déserte envahie par des fils tentaculaires, mais la cause de ce qui ressemble à un châtiment divin demeure insaisissable. Nous restons ignorants des raisons de cette colère divine. Violence et mort sont omniprésentes ; le danger suggéré, potentiel ou visible. Sur les murs de l’église, requins, pieuvre (animal à huit bras, symbole de l’infini, cher à Victor Hugo dans Les Travailleurs de la mer), scènes de corrida, crânes et squelettes semblent participer à une gigantesque danse macabre. Un cliché montre une statue d’un homme tranchant la tête d’un autre et le traitement de l’éclairage donne un rendu tellement réussi du volume que la statue semble sortir du plan de la photographie. Un autre triptyque présente des masques métalliques au rictus cynique, et cet univers trouble semble assaillir le visiteur de toutes parts.

Pouvoir et justice sont aussi présents en filigrane dans les deux installations sonorisées de cette exposition. Sur un grand écran, une vidéo projette l’image d’un tunnel à l’apparence anodine. Il s’agit pourtant du tunnel qui relie l’Assemblée Nationale au Sénat brésilien, passage réservé au pouvoir, sécurisé et interdit au public. Cette sphère ultra-sécurisée du pouvoir privé a pour pendant la présence insidieuse de la violence dans l’espace public, et ce jusque dans les habitacles des voitures : la seconde installation expose un amoncellement de pare-brises cassés. Cette installation avait déjà été présentée au Brésil, et les pare-brises récupérés par Miguel Rio Branco étaient à l’origine troués d’impacts de balles. Présence ostentatoire de la mort, de la violence, impuissance. Présence dissimulée du pouvoir et ambiguïté des figures religieuses. Cette exposition aux couleurs sourdes plonge son spectateur comme son auteur dans un univers inquiétant où Le Cri sourd de Münch trouverait un écho tout particulier. Un dernier aspect, et non le moindre, de cette exposition est l’effet double qu’elle produit : elle procure un effet saisissant de loin, lorsqu’on entre dans l’église, et un autre de près, une fois que l’on s’approche des photos et que l’on appréhende des détails révélateurs. L’un n’annule pas l’autre, ils semblent au contraire se surajouter tour à tour pour amplifier l’impression dégagée par ce travail remarquable, d’une intensité troublante.»

Louise Charbonnier
(juillet 2005)

Publicado por Ana Tropicana às 04:41 PM | Comentários (0)

agosto 10, 2005

«Night is Slow»


drowning de b.medeiros

A Thousand Kisses Deep, por Leonard Cohen

Há, no rebordo da floresta, alguns bares de "copo sujo", onde passo-vem, passo-vai, "são dois prá lá, dois pra cá" , se baila com o corpo mais raso à alma. Em madrugadas mais afortunadas, é por esses tampos de mesa que sempre o encontro: a ele, que é autista, prático, procurado, perigoso. Diz que dança mal e beija bem. Avisa que mente (às vezes). Faz desenhos devassos, conjecturas dissolutas e outras patifarias, mas vomita a arte da embriaguez como ninguém.






Foto: Drowning [autor: Medeiros]


Publicado por Ana Tropicana às 03:49 AM | Comentários (1)

julho 30, 2005

O «Contista»


Contos em Óbidos de ana tropicana

Ainda a propósito do Canto da Juriti-pepene, na página 64 do livro "Cenas da Vida Amazônica" , José Veríssimo, o primeiro autor de contos da Amazónia de que existe registo, escreve assim:

«uma ave fantástica, que canta perto de vós e não a vêdes,
que está talvez à vossa cabeceira e a não sentis;
ouvireis o pio lúgubre da ave,
sem que possais jamais descobri-la.»


São tesouros como este que se preservam aqui, na simplicidade de uma casa azul, aparentemente igual a tantas outras do País das Casas Azuis. Num lugar a que chamaram Óbidos. Perto de Santarém. No estado do Pará.







Sobre o Homem: AQUI e AQUI.


Publicado por Ana Tropicana às 12:23 PM