janeiro 18, 2006

Os Guardadores de Escamas


(so)limões são azuis de ana tropicana

Eu vi - ninguém me contou - os grandes cargueiros estrangeiros, a avançar a boca do Negro e do Solimões, magestosos coraçados de ferro e aço a rasgar as águas na impunidade da surdina, a largar as suas redes, como tentáculos, nas enseadas ribeirinhas onde os caboclos apascentam as suas artesanais criações de peixes. Eu vi - ninguém me contou - os grandes navios gringos, corsários de igarapés e igapós, sugando de uma vezada toda a pesca que é sustento das comunidades locais, e a voltar costas à mata, indiferentes ao que sobra depois da cobiça, ganhando de novo o rumo do Atlântico, os porões cheios, as redes ainda a fervilhar de vida e do sustento roubado, de regresso à Venezuela, a terras da Dinamarca e aos mares do Japão. Eu vi.

(...)

Naquele fim de tarde, vinhamos descendo um cordão de água do Solimões, quando o motor da velha voadeira deu sinal de urgência no descanso, valente a velharia, mas caprichosa como só ela, nas demandas e exigências impostas em troca. Fizemos-lhe a vontade: apontámos à reentrância em enseada que se abria na margem. Chegando perto percebeu-se o vulto brando de um caboclo sentado no barranco. Perguntámos se esperava a carreira do barco de linha, mas não. Apresentou-se como o sentinela de um plantão que iria até ao cair do sol. Disse que por essa altura chegaria a rendição, depois a janta e mais tarde uma noite de sono na rede, porque agora sim, agora era possível dormir descansado. Desde que haviam implantado o sistema de vigilância comunitária das baías e lagoas que os canais de igarapés formam por aquelas bandas. E assim ficamos a saber que, na aldeia, há sempre pelo menos alguém que não dorme, um guardador das águas, filho de Tupã, velando os tanques e os peixes ali criados. Alguém disposto a gritar o alerta, acaso os garimpeiros das redes cheguem sem alarde, de madrugada, para vazar o alimento dos ribeirinhos aos gigantescos porões gringos, que ninguém controla, ninguém impede, ninguém trava, nem pune. A não ser os guerreiros dos igarapés, cansados de esperar uma defesa que nunca chega, soldados de ocasião que a necessidade do dia-a-dia se encarregou de recrutar. Para defender os peixes e o rio. Eles: único garante de justiça sobre o curso das águas livres.





Foto: (So)limões São Azuis (autor: Ana Tropicana)




Piscicultura duplica vendas
Fonte: Jornal do Comércio de Manaus | Data: 14 de Janeiro de 2006


A produção de piscicultura elevou-se em mais de 100% em todo o Estado nos últimos três anos. Os dados foram anunciados pelo diretor-chefe do departamento da cadeia produtiva do pescado da Agroamazon, Rigoberto Pontes. Segundo o diretor, quando a cadeia produtiva da piscicultura for totalmente regularizada, haverá uma queda no preço do peixe.
“A perspectiva é que haja realmente uma redução no preço do produto para o consumidor final, mas antes temos que nos consolidar para atender mercado interno”, avaliou o diretor da Agroamazon (Agência de Agronegócios do Amazonas).

Pontes disse que a piscicultura antes era feita mais por lazer do que pela comercialização. Nestes últimos cinco anos, houve um salto quantitativo e qualitativo na produção, por isso o Estado resolveu se tornar autosuficiente, e para isso começou a produção de insumos básicos, como os alevinos de tambaqui e matrinxã, ração para o peixe, dentre outros.


Capacitação profissional

“No município de Benjamim Constant, por exemplo, já temos a produção de insumos, com a fábrica de ração e unidade de beneficiamento de pescado, além de cursos de capacitação de técnicos a nível médio e crédito para financiamentos da Afeam (Agência de Fomento do Estado do Amazonas)”, explicou Pontes.

Quanto aos investimentos em tanques escavados e na criação de peixes em tanque-rede, o especialista disse que foram realizados pela Sepror (Secretaria de Estado da Produção Rural), através do Idam (Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Amazonas) e da Agroamazon.

Com isso, o diretor do departamento disse que houve investimentos da iniciativa privada, aumentando as áreas ou unidades de produção. “Também foram ampliadas as modalidades de criação de peixes, que antes era feita só por sistema de barragem”, explicou.
Entre os sistemas de cultivo utilizados, os peixes em cativeiro estão em tanques-redes (estruturas metálicas hexagonais, medindo 3m x 3m x 2m, com telas de arame galvanizado revestido de PVC), barragens e canais de igarapé.

Na avaliação de Rigoberto Pontes, a realidade atual é da piscicultura economicamente viável, porque existe mercado para o tambaqui curumim (com peso entre 300g e 400g), que substitui perfeitamente a sardinha, em restaurantes que servem refeições às empresas do PIM (Pólo Industrial de Manaus).

“O amazonense sempre foi produtor de peixe, mas de pesca extrativa. Com o sistema artesanal, tínhamos produção em demasia que estragava muito”, explicou Pontes, ressaltando que o valor médio do tambaqui de 1,5 kg custa entre R$ 4,50 e R$ 6 atualmente, e o de 3,5 kg pode ser encontrado de R$ 6,50 até R$ 8.

Balcão de Negócios

O mercado de Manaus tem aceitação de outros peixes da piscicultura de tamanho maior. Próximo de 95%, o tambaqui vendido nos supermercados da cidade são provenientes desta cultura, conforme apontou o diretor-chefe do departamento da cadeia produtiva do pescado da Agência de Agronegócios.

“Estamos trabalhando para que as feiras e mercados públicos também tenham um canal de comercialização. Os produtores não estão estruturados para atuar com este tipo de venda”, assinalou Pontes, ressaltando que o órgão está trabalhando com o Balcão de Negócios de venda no atacado do peixe da piscicultura, na balsa da Feira da Panair.


Venda direta

Além do balcão, existe um posto de venda direto ao consumidor, no estacionamento do Estádio Vivaldão Lima, na Av. Constantino Nery. O diretor afirmou que o local está servindo para dar apoio ao escoamento e a comercialização do piscicultor e do aqüicultor.
Segundo Rigoberto Pontes, atualmente, mais de 80 piscicultores estão cadastrados em Manaus e no entorno da cidade. Ainda assim, devido aos períodos em que falta peixe no mercado, a exemplo da entressafra, é necessário importar dos Estados de Roraima e Rondônia.

Publicado por Ana Tropicana às 05:23 PM | Comentários (0)

janeiro 05, 2006

«O Chamado da Terra»


30 dias de del

Conta Ela, com a tranquilidade dos corajosos, que essa foto lhe saltou ao caminho, quando voltou a usar a máquina fotográfica. Uma semana e tal após o regresso. Depois de 30 dias. Um mês de jornada em que não estive, dessa vez. Não porque a vida não deixasse, mas porque me lembrei de querer atoleiros em vez de estradas. Circunstâncias! Podem lamentar-se, mas sabemos que não são graves. Fatal seria erguer o olho e não ver mais caminho por onde avançar o pé.

E, subitamente, nenhum pesar.
Por mim, gosto desta coisa de saber que ainda há um chão que nos falta para andar.

Publicado por Ana Tropicana às 01:22 AM | Comentários (0)