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abril 27, 2006

Tróia


urgências de autor desconhecido

Hoje acordei a pensar que deve estar a fazer mais ou menos um ano, sobre a implosão de Tróia. Até que uma voz mais avisada me situa: «Só em Setembro!... Foi a 8 de Setembro. Por volta das 16h.» Agradeço! Sim, em Setembro. Claro! Bem vistas as coisas, só podia ter acontecido em Setembro. Setembro - mês das definitivas derrocadas, a começar pelo fim do Verão: imperdoável, indesculpável, inesquecível decepção. Mas também, as implosões vão sendo tantas, que a imprecisão nas datas se torna cada vez mais um detalhe sem importância. Diria mesmo, um "detalhe" esquecido.




Vou confirmar. Cá está... "Exactíssimamente"!

«(...) Às 16:00 horas do dia 8 de Setembro terá lugar a implosão das duas torres, Verde Mar e T04, de 16 pisos cada, do complexo da Torralta, excluídas do projecto de requalificação ambiental e urbanístico da Península de Tróia. A implosão marca o arranque de um projecto, que só deverá estar concluído em 2010-2011.»

in Agência Financeira





Foto: Torres Verde Mar e T04, em Tróia (autor: LUSA)

Publicado por Ana Tropicana às 09:10 AM | Comentários (0)

Só pra dizer


Sobre «Papel Manteiga»: AQUI

Publicado por Ana Tropicana às 08:07 AM | Comentários (0)

abril 26, 2006

Mais

The Gift: outra excelente cartilha. Igualmente sugerida à leitura. Com o sumário das "lições" a começar AQUI.

Publicado por Ana Tropicana às 10:57 PM | Comentários (0)

abril 24, 2006

«Perfil»


ana carolina de divulgação oficial

É certo que «Perfil» já fez a sua época, já teve o seu momento, os seus instantes de revelação. Seja como for, nunca é demais escutar a "Mulher dos Cabelos Vermelhos". Recomendam-se as letras. Todas. Vivamente!... que há sempre mais alguma coisa para aprender, quando se pega numa boa cartilha. É indiferente qual se escolhe, ou por onde se começa: qualquer uma é boa. Basta atirar ao ar e escolher a lição: AQUI.

Publicado por Ana Tropicana às 10:05 PM | Comentários (0)

Dolce Fare Niente


happy hour de ana tropicana

Acordo com fome. Continuo a não gostar de comer sozinha. Na telefonia, alguém canta: «... meia hora pra mudar a minha vida...». Ele há coincidências! Pergunto-me porque não corro, se a manhã já vai alta. Para mim, hoje é feriado, é por isso. Um dia feliz, portanto. Ontem já passou e amanhã é 25 de Abril, dia das lembranças felizes, a provar que o bom dos dias é que nenhuma folha de calendário sobrevive mais do que 24 horas. Café, ovos e pão fresco, á minha frente, sem piquete, sem correrias, sem atropelos, com o céu azul e os pássaros a cantar lá fora, no jardim, e este restauro na alma a tamborilar na pele que "a vida é bela" para quem tem fome e ainda sabe contar o tempo certo das coisas acima da cadência irreversível dos ponteiros do relógio. Grácia!

Publicado por Ana Tropicana às 12:39 PM | Comentários (0)

A «Cultura do Secreto»

Leio na edição do NYT desta manhã:

«as part of the CIA's efforts to reemphasize a culture of secrecy, dozens of employees took polygraph tests. Even the agency's independent inspector general participated--a highly unusual measure, since only the president can remove him. Meanwhile, former employees say the agency is being more aggressive in censoring their books and articles and trying to block publication even when no single piece of information is classified.»

... e fico a revirar por dentro os sinuosos mecanismos da estratégia, enquanto vou fazendo o exercício abstracto de imaginar em que tipo de degredo se transformaria a nossa vida, se submetessemos ao teste do polígrafo todos aqueles que nos chegam mentindo com os dentes todos, todos aqueles que nos chegam velados ou com meias-verdades. E depois desisto da "brincadeira" mental. Deixo para os EUA o perturbado fervor de "repor" a tal «Cultura do Secreto». Bom proveito!

Publicado por Ana Tropicana às 11:22 AM | Comentários (0)

A Propósito dos Deuses...


comité de c.m

Por estes dias, em Manaus, os índios discutem questões teológicas com representantes de 13 países das três Américas. O V Encontro de Teologia Índia aborda as diferentes culturas, realidades e organizações sociais, a partir das concepções teológicas indígenas.

Saudade de quem pensa, de quem se interroga e arrisca respostas. Saudade de Manaus. Funda a saudade, neste país ao norte, tão e sempre em irremediável desnorte!...

Publicado por Ana Tropicana às 11:00 AM | Comentários (0)

Omissões e Cobardias


fórum de solange luciano

Uiton Tuxá, liderança da Apoinme - Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo - , a segunda maior organização do género no Brasil, apresentou um balanço sobre a situação indígena no país durante o II Fórum Social Brasileiro, em Recife.

Tuxá garante que o «Governo Lula foi omisso com a questão do índio», e acusa-o de não ter tido coragem de enfrentar «madeireiros, latifundiários e mineradoras» para não perder a sua volátil base parlamentar e os apoios de que ainda goza no Congresso.

Vale a pena ler a entrevista ao líder indígena AQUI.




Otimismo, Uiton Tuxá só demonstra ao falar dos avanços na articulação das lutas dos povos indígenas. Liderança da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas e Espírito Santo (Apoinme), a segunda maior organização do gênero no país, Uiton apresentou um balanço sobre a situação indígena no país durante atividade do II Fórum Social Brasileiro, em Recife. Feita ainda durante o Abril Indígena – mês de mobilização convocado pelas organizações –, a avaliação do líder indígena sobre a atuação do governo Lula é branda no que diz respeito à possibilidade de diálogo. “Não se pode negar que pudemos conversar com eles”, disse Uiton durante o evento. Já os números recolhidos pelas organizações explicam as razões da decepção dos indígenas com Lula. Comparando o número de terras identificadas (primeira etapa do processo de reconhecimento, onde há a declaração de qual território pertence a determinado povo), demarcadas (segunda etapa, com a delimitação formal) e homologadas (última etapa, de emissão do documento de posse), os indígenas apontam um retrocesso no governo Lula em relação às duas primeiras ações. Enquanto Fernando Henrique Cardoso identificou em média, em cada mandato, 52 novas terras indígenas, o atual governo abriu o fez apenas em 39 processos. Na demarcação dos territórios, a situação é ainda mais desfavorável à Lula. São 59 em cada mandato de FHC (em média) contra 18 nos três primeiros anos do atual mandato. A única etapa em que Lula reúne números expressivos é na homologação de terras. Mas para Uiton essa é “a parte mais fácil”. Em entrevista exclusiva à Agência Repórter Social, após o evento, Uiton oferece uma explicação para tal retrocesso. Segundo ele, as seguidas crises no governo complicaram a relação do primeiro com o Congresso. Assim, Lula não teria tido mais coragem de peitar o que Uiton chama de “bancadas anti-indígenas” (dos madeireiros, latifundiários, das mineradoras) para não perder a sua volátil base parlamentar. Na outra ponta, os parlamentares que tradicionalmente apoiavam o movimento indígena sumiram diante do avanço do bloco contrário. “Alguns parlamentares, infelizmente, diante dessas divulgações não querem envolver seus nomes defendendo a questão indígena”, afirmou Uiton, dizendo que os anti-indígenas aproveitaram a omissão para bancar a criminalização das lideranças dos índios.

por Cristina Charão, no Recife





Repórter Social – Por que, afinal, a homologação de terra é “pouco”?

Uiton Tuxá - A identificação e a demarcação de terras indígenas seria o processo que regulariza uma área como terra indígena. A homologação seria o estágio final que garante que aquela é uma área indígena e é uma portaria assinada pelo presidente da República. Na nossa região aqui do Nordeste, este é um ponto central da nossa luta, a garantia dos nossos territórios. Você pode observar claramente neste momento que ainda há uma clara discriminação sobre os índios do Nordeste. A grande maioria dos povos indígenas aqui estão ou com os processos de terra paralisados na Justiça, muitos deles não tem nem a identificação definida, nem tem terra demarcada. Então, um processo importante para a gente seria avançar na demarcação dos nossos territórios. É claro que, na seqüência, queremos sim, gostaríamos de ter a homologação, que é o estágio final.

Repórter Social - É a garantia jurídica...

Uiton Tuxá - Exatamente. O que que o governo fez? Ele não avançou nas demarcações, que era o compromisso anterior dele. Ele pegou processos de demarcação paralisados, de governos anteriores, e citou isso como saldo positivo. É importante sim, mas para nós aqui do Nordeste seria muito mais importante, e é uma ação prioritária para nós, avançar no que se refere à demarcação dos nossos territórios.

Repórter Social - Por que este retrocesso em relação ao que foi prometido?

Uiton Tuxá - O governo teve suas crises internas, estas fraudes que ocorreram e tomaram toda a atenção do Congresso por meses, meses e meses. Mesmo assim, nós esperávamos que o Lula articula-se suas bases no Congresso para apoiar a questão indígena, mas isso não ocorreu. O Lula calou sua voz. Não mencionou a questão indígena. As poucas repercussões positivas ocorreram por conta da pressão do movimento indígena, que reagiu fortemente contra o governo.

Repórter Social - A partir de quando começou esta reação?

Uiton Tuxá - Nos dois primeiros anos, nós ficamos quietos, esperando que o governo agisse por conta própria. Quando vimos que este governo não é diferente dos outros governos que a gente tem enfrentado ao longo dos anos, decidimos nos organizar e partir para uma pressão. Assim como fez o MST, que é um movimento criado de origem dentro do próprio PT e que no primeiro ano do governo Lula já foi lá pressionar. Nós não. Nós esperamos. Acho que foi um pecado que nós cometemos, mas que estamos tentando corrigir agora, com mobilização e pressão política frente ao governo.

Repórter Social – E a bancada pró-indígenas no Congresso? Por que ela se omitiu, como vocês vêm denunciando?

Uiton Tuxá - Acho que todo essa tensão que o Congresso tem vivido e mais as pressões das mobilizações sociais, e agora o movimento indígena tem pressionado de forma articulada e mobilizada, isso tumulto permitiu que o setor anti-indígena crescesse. Eles estão brigando agora de forma jurídica, com projeto de lei, proposta de emenda constitucional, propostas com sentido único e exclusivo de tirar os direitos dos indígenas, de diminuir, de omitir. Então, quando o movimento se levanta e exige que o governo se levante e reaja contra isso, articulando suas bases, os caras percebem que eles permitiram que a coisa crescesse tanto que agora eles não sabem como contornar a situação. Por isso eles se omitem, fogem.

Repórter Social – Você está dizendo que o governo não quer comprometer a sua base no Congresso, por isso faz estas concessões?

Uiton Tuxá - Os setores anti-indígenas hoje estão usando muito a mídia. Estão criminalizando as organizações indígenas nas aldeias. Isso tem uma repercussão imensa. E alguns parlamentares, infelizmente, diante dessas divulgações não querem envolver seus nomes defendendo a questão indígena. Aqueles que eram nossos aliados em outros governos, agora a gente não consegue mais pautar.

Repórter Social – Você pode resumir os resultado do último acampamento Terra Livre? (O acampamento reuniu 86 povos em Brasília, entre 4 e 6 de abril, e faz parte das mobilizações do Abril Indígena.)

Uiton Tuxá - O que o movimento Terra Livre discutiu agora em 2006 foi apenas a continuação do que vinha se discutindo desde o primeiro acampamento Terra Livre em 2004. É pedir agilização nos processos que estão parados na Justiça – são aproximadamente 30, tanto de terras aqui do Nordeste, como do Nordeste, Sul e Centro-Oeste. Que o governo melhore a assistência à saúde, a oferta de educação. Que ele possa punir os agressores de lideranças indígenas nas aldeias. Nesse governo, o número de assassinatos de líderes cresceu muito, de forma gigantesca. E as providências não estão sendo tomadas, porque a Justiça desse país está paralisada. Nós queremos que sejam punidos todos os assassinos e todos os mandantes de ataques a lideranças indígenas. E queremos, finalmente, que o governo faça avanços na questão da terra, que é o ponto focal do nosso movimento aqui no Nordeste e em todo o Brasil. Existem vários povos indígenas que estão tendo suas terras invadidas por posseiros, por empresas madeireiras, mineradoras, etc. Nós estamos sofrendo vários impactos e o governo está aí assistindo. É isso que o movimento indígena veio reiterar neste acampamento de 2006. Talvez, a esta altura do campeonato não se possa fazer mais nada, mas quem vier assumir a Presidência da República já vai ter acesso a reivindicações dos povos indígenas e saber que nós vamos partir com força e coragem.

Repórter Social – De onde vem esta força? Os povos indígenas são tantos e com características e problemas tão diversos que deve ser um desafio articular todas estas demandas...

Uiton Tuxá - O movimento indígena tem crescido muito, amadurecido. Em abril de 2000, nos 500 anos do Brasil, nós organizamos uma grande marcha lá em Porto Seguro. Se seguiu uma grande divisão do movimento e as organizações macro se distanciaram. Agora, desde 2003, a gente conseguiu retomar o diálogo e estamos fortes e unidos. A causa indígena, hoje, está sendo reivindicada por uma única voz, dos povos indígenas do Brasil, sem limitar regiões.

Repórter Social – Por que desde 2003? Por conta do processo eleitora, da chegada do Lula ao poder?

Uiton Tuxá - Isso se deu por conta da omissão do governo. A gente percebeu que se não estivéssemos unidos, jamais chegaríamos aos nossos objetivos, que é respeito aos nossos direitos constitucionais.





Outras notícias: AQUI

Publicado por Ana Tropicana às 10:22 AM | Comentários (0)

abril 21, 2006

Capicuas


wheel of life de autor desconhecido

No dia 4 de Maio deste ano de 2006, quando passarem dois minutos e três segundos da uma da manhã, o tempo escrever-se-á assim:

01:02:03 04/05/06

Não sei se são resquícios da convivência com tantos jogadores, na noite de inauguração do Casino Lisboa, mas retive a curiosidade, algures nas Azenhas do Mar. Diz que o mesmo só irá repetir-se daqui a mil anos. Mas está garantido o essencial: calma!... seja como for, é certo que se repetirá. E então pergunto-me pela validade dos instantes únicos e volto (como sempre) às verdades maiores de Heraclito e ao Mito do Eterno Retorno.
Fica o apontamento, à laia de quem repara em certas ocorrências perfeitamente inúteis da vida. Como diria Cora, aproveitem (não sei bem para quê)! Muito provavelmente para coisa nenhuma. Como sempre. Como dantes. Que a repetição é fado difícil de se romper. Como a vida e os seus retornos. Frívolos e triviais, banais à conta de tanto se repetirem. Inúteis. Perfeitamente. Perfeitamente inúteis.

Publicado por Ana Tropicana às 11:52 AM | Comentários (0)

O Acto de "Responder"

O psicólogo americano Charles Tilly gosta de se ocupar com o «porquê?». Não que lhe importem as resposta à perguntas em particular, mas porque o intriga o modo como as pessoas respondem, em geral. Segundo tem averiguado:

«há pelo menos cinco maneiras diferentes de explicar por que as coisas acontecem. Usando Katrina como exemplo: a primeira explicação é a “convenção” (sempre há um desastre após um furacão); a segunda é a “explicação técnica” (na qual os meteorologistas mostram exatamente como condições climáticas criaram o caos); a terceira são “códigos” (neste caso, as leis federais, estaduais e municipais que, confusas, impediram que responsáveis claros pela situação surgissem imediatamente); quartas são as explicações “ritualísticas” (a fúria de Deus contra seus inimigos); em quinto, histórias.»

Graças ao Pedro, deixo um excerto da obra e a entrevista do The Guardian ao autor.

Publicado por Ana Tropicana às 11:21 AM | Comentários (0)

abril 20, 2006

Mood


atravessada de ana tropicana

O dia está assim, sem estar. Mas paciência!... Faz de conta.

Publicado por Ana Tropicana às 08:53 AM | Comentários (0)

abril 19, 2006

Frase do Dia

«A tristeza é como um casaco velho molhado que nos carrega os ombros. Amanhã tudo passou.»
Luisa Castel-Branco

Esta manhã. Falando-me de muitas coisas e de «águas esquecidas». Grande Luisa!...

Publicado por Ana Tropicana às 12:54 PM | Comentários (0)

abril 08, 2006

«Quadras»

Esta madrugada cantou-se o fado, entre amigos, para celebrar o lançamento do 1º DVD ao vivo do Camané. Agradeço e retribuo a vénia, mas deixo-o a cantar aqui. Porque tudo o que há para saber a respeito de todas as coisas já está (na verdade) dito no fado, e nenhuma sabedoria ou lição da vida deve ser guardada em segredo, no peito e na sina cruzada de alguns.

«O amor quando se revela
não se sabe revelar
Sabe bem olhar para ela
mas não lhe sabe falar

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer
Se fala parece que mente,
Se cala parece esquecer

Ah, mas se ela adinhasse
se pudesse ouvir o olhar
e se o olhar lhe bastasse
pra saber que a estou a amar

Mas quem sente muito cala
quem quer dizer quando sente
fica sem alma nem fala
fica só inteiramente.»

[ «Quadras» - voz de Camané para os versos de Fernando Pessoa sobre "Fado Alfacinha" de Jaime Santos ]

Para escutar AQUI

Publicado por Ana Tropicana às 04:06 PM | Comentários (0)

Terras ao Sul


al-zahra de ana tropicana

Hoje acordei a sentir falta da geometria dos espaços organizados em terraços que descem sobre o vale do Guadalquivir, entre jardins, pátios, fontes e arcadas, redutos frescos e floridos, guardados no interior das belezas esculpidas em pedra escaldada à aridez tórrida do sol generoso da Andaluzia. De frente para a planície interminável e para a força bruta do rio que rasga a Península com a altivez de um rei a galopar o reino.

Hoje acordei e vieram-me à memória os versos que em 2003 fizeram mais sentido que qualquer outra coisa dita ou por dizer.

I have recalled you with longing in al-Zahra,
Between limpid horizon and sweet face of earth whilst the breeze
languished at sunset, almost diseased with pity for me.

[Ibn Zaidun - poeta árabe (1003-1070)]


E, entretanto, ocorre-me que são mais nossos os lugares onde já fomos alguma coisa. Mesmo que penas, tristezas e até um certo dó.



Talvez nunca como em 2003, tenha vagueado tanto pela Andaluzia. De Córdova a Sevilha, passando pelo porto de Cádiz, não deve ter havido fim-de-semana em que não tenha largado Lisboa às pressas para rumar ao Sul. Acontece que, por razões que não vêm ao caso, subitamente, o sul alentejano me pareceu pouco e já não chegava.

Ás vezes ainda penso nisso, na ironia dos itinerários traçados em percurso: inaugurar 2003 em Alcântara-mar, apontado a Belém e ao cais de onde as caravelas partiram, vê-lo adoecer lá para as bandas do Príncipe Real, de frente para a colina onde ficava a casa, entre duas ou três garfadas de sanguínea carne argentina servida sobre mesa indigesta, para se abandonar mais tarde junto à Alameda, a agonizar na berma do passeio com os primeiros raios da manhã chuvosa, numa praça a que deram estúpida e despropositadamente o nome de "Chile", como se Chile fosse o nome certo para servir de jazigo a vencidos e cobardes...

Algures, por aí, na breve caminhada que foi preciso fazer entre o jazigo e o regresso a casa, qualquer coisa aconteceu. Não sei se foi a janela aberta de par em par, de onde se via o cinzento do Tejo em manhã alta de lágrimas e chuva, se foi o Cristo Rei na outra margem, de braços abertos a tudo e a coisa nenhuma, ou se um certo cansaço de carros, ruas e rostos. Sei que a vida me apontou adiante e me cupiu ao horizonte, bem por cima dos pequenos acidentes do chão e dos grandes desastres que nunca chegam a ser mortais, e quando vi havia estrada, asfalto, quilómetros novos e gasolina no tanque.

... E depois ganhar o Sul e o Alentejo, e ainda mais Sul e terras de Espanha, e mais e mais Sul e o Norte de África, os mercados muçulmanos, as muralhas e as praças militares do Império, rés-vés com o começo das areias, no princípio do deserto; e mais e mais Sul ainda: o Sul dos mares, até ao outro lado do oceano, por onde o Grande Rio corre ao Norte.

Hoje acordei a sentir falta da geometria dos espaços organizados em terraços que descem sobre o vale do Guadalquivir, entre jardins, pátios, fontes e arcadas, redutos frescos e floridos, guardados no interior das belezas esculpidas em pedra escaldada à aridez tórrida do sol generoso da Andaluzia. De frente para a planície interminável e para a força bruta do rio que rasga a Península com a altivez de um rei a galopar o reino.

Hoje acordei e vieram-me à memória os versos que em 2003 fizeram mais sentido que qualquer outra coisa dita ou por dizer.

I have recalled you with longing in al-Zahra,
Between limpid horizon and sweet face of earth whilst the breeze
languished at sunset, almost diseased with pity for me.

[Ibn Zaidun - poeta árabe (1003-1070)]


E, entretanto, ocorre-me que são mais nossos os lugares onde já fomos alguma coisa. Mesmo que penas, tristezas e até um certo dó.

Se calhar é por isso (ou talvez não seja!), eu não sei. Faz sol desde que me levantei, e não me apetecem grandes explicações. A verdade é que hoje acordei e voltei a sentir falta dessa horizontalidade dos lugares onde a Península se faz mais moura, e dei-me mais uma vez a pensar "de mim para comigo", que se um dia me deportassem, que se alguma vez tivesse que viver em exílio, e não pudesse ser nem na Pororoca, nem no Tejo, escolheria que fosse na Andaluzia. Podia ser feliz ali, sim. Podia chamar a região de país e esse país de meu. Sem esforço e quase sem dor.









Fotos: Planícies do Guadalquivir (autor: Ana Tropicana)


Publicado por Ana Tropicana às 01:40 PM | Comentários (0)

Clipping

- Leio e releio. O efeito perturbador permanece: «As 48 Leis do Poder» AQUI
- Os deuses estão por toda a parte. Este site sabe que sim. A mim interessam-me estes, em particular: AQUI
- O Google Earth continua a desenvolver ferramentas que, depois de permitirem um olhar ciclópico inicial sobre o planeta, se vão ensaiando em novos desafios. Passámos à fase do ensaio das possibilidades: " e se... as marés subissem?" Em parceria com a NASA, é possível espreitar o resultado, em qualquer recanto dos cinco continentes: AQUI

[ com a devida vénia à Maura, incansável descobridora de curiosas curiosidades. ]

Publicado por Ana Tropicana às 01:13 PM | Comentários (0)