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abril 08, 2006

Terras ao Sul


al-zahra de ana tropicana

Hoje acordei a sentir falta da geometria dos espaços organizados em terraços que descem sobre o vale do Guadalquivir, entre jardins, pátios, fontes e arcadas, redutos frescos e floridos, guardados no interior das belezas esculpidas em pedra escaldada à aridez tórrida do sol generoso da Andaluzia. De frente para a planície interminável e para a força bruta do rio que rasga a Península com a altivez de um rei a galopar o reino.

Hoje acordei e vieram-me à memória os versos que em 2003 fizeram mais sentido que qualquer outra coisa dita ou por dizer.

I have recalled you with longing in al-Zahra,
Between limpid horizon and sweet face of earth whilst the breeze
languished at sunset, almost diseased with pity for me.

[Ibn Zaidun - poeta árabe (1003-1070)]


E, entretanto, ocorre-me que são mais nossos os lugares onde já fomos alguma coisa. Mesmo que penas, tristezas e até um certo dó.



Talvez nunca como em 2003, tenha vagueado tanto pela Andaluzia. De Córdova a Sevilha, passando pelo porto de Cádiz, não deve ter havido fim-de-semana em que não tenha largado Lisboa às pressas para rumar ao Sul. Acontece que, por razões que não vêm ao caso, subitamente, o sul alentejano me pareceu pouco e já não chegava.

Ás vezes ainda penso nisso, na ironia dos itinerários traçados em percurso: inaugurar 2003 em Alcântara-mar, apontado a Belém e ao cais de onde as caravelas partiram, vê-lo adoecer lá para as bandas do Príncipe Real, de frente para a colina onde ficava a casa, entre duas ou três garfadas de sanguínea carne argentina servida sobre mesa indigesta, para se abandonar mais tarde junto à Alameda, a agonizar na berma do passeio com os primeiros raios da manhã chuvosa, numa praça a que deram estúpida e despropositadamente o nome de "Chile", como se Chile fosse o nome certo para servir de jazigo a vencidos e cobardes...

Algures, por aí, na breve caminhada que foi preciso fazer entre o jazigo e o regresso a casa, qualquer coisa aconteceu. Não sei se foi a janela aberta de par em par, de onde se via o cinzento do Tejo em manhã alta de lágrimas e chuva, se foi o Cristo Rei na outra margem, de braços abertos a tudo e a coisa nenhuma, ou se um certo cansaço de carros, ruas e rostos. Sei que a vida me apontou adiante e me cupiu ao horizonte, bem por cima dos pequenos acidentes do chão e dos grandes desastres que nunca chegam a ser mortais, e quando vi havia estrada, asfalto, quilómetros novos e gasolina no tanque.

... E depois ganhar o Sul e o Alentejo, e ainda mais Sul e terras de Espanha, e mais e mais Sul e o Norte de África, os mercados muçulmanos, as muralhas e as praças militares do Império, rés-vés com o começo das areias, no princípio do deserto; e mais e mais Sul ainda: o Sul dos mares, até ao outro lado do oceano, por onde o Grande Rio corre ao Norte.

Hoje acordei a sentir falta da geometria dos espaços organizados em terraços que descem sobre o vale do Guadalquivir, entre jardins, pátios, fontes e arcadas, redutos frescos e floridos, guardados no interior das belezas esculpidas em pedra escaldada à aridez tórrida do sol generoso da Andaluzia. De frente para a planície interminável e para a força bruta do rio que rasga a Península com a altivez de um rei a galopar o reino.

Hoje acordei e vieram-me à memória os versos que em 2003 fizeram mais sentido que qualquer outra coisa dita ou por dizer.

I have recalled you with longing in al-Zahra,
Between limpid horizon and sweet face of earth whilst the breeze
languished at sunset, almost diseased with pity for me.

[Ibn Zaidun - poeta árabe (1003-1070)]


E, entretanto, ocorre-me que são mais nossos os lugares onde já fomos alguma coisa. Mesmo que penas, tristezas e até um certo dó.

Se calhar é por isso (ou talvez não seja!), eu não sei. Faz sol desde que me levantei, e não me apetecem grandes explicações. A verdade é que hoje acordei e voltei a sentir falta dessa horizontalidade dos lugares onde a Península se faz mais moura, e dei-me mais uma vez a pensar "de mim para comigo", que se um dia me deportassem, que se alguma vez tivesse que viver em exílio, e não pudesse ser nem na Pororoca, nem no Tejo, escolheria que fosse na Andaluzia. Podia ser feliz ali, sim. Podia chamar a região de país e esse país de meu. Sem esforço e quase sem dor.









Fotos: Planícies do Guadalquivir (autor: Ana Tropicana)


Publicado por Ana Tropicana às abril 8, 2006 01:40 PM

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