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março 11, 2006

«(Amazon)Idades»

Leio o artigo do Prof. Ozório Rodrigues, publicado na sua habitual coluna de fim-de-semana, no Jornal do Comércio de Manaus. Fala de «amazonidades», o professor.

Talvez devesse escrever-lhe a dar-lhe conta de que o recorte histórico, económico e social, que faz vai mais além da Floresta: atravessa o mar e assenta como uma luva neste Portugal "à beira-mar plantado". Não sei se lhe terá ocorrido, mas sinto uma enorme tentação de lhe sussurrar ao ouvido que a realidade acéfala que descreve é bem mais abrangente do que pode parecer: devidamente decalcada, poderia traduzir na perfeição o velho drama português que dá pelo nome de «interioridades».

Mas quem conhece a vastidão do Estado do Amazonas perceberá (seguramente) que, ainda assim, a generosidade de distâncias (num país "espaçoso" por condição, como o Brasil), faz com que estes contrastes agudizem de forma preocupante as contingências de que afinal se tecem as mais elementares e costumeiras necessidades do quotidiano. Não, nem sempre é facil. Mesmo no "país do carnaval", no país do samba, suor e cerveja, mesmo para a brava nação guerreira do valente sangue Tupi, e apesar de todos os sorrisos e outros bons espíritos que sopram do verde da Floresta, não é fácil. Não é mesmo nada fácil, a grande maioria das vezes.

Vale a pena ler o artigo na íntegra: AQUI.

Amazonidades - Um desafio à Economia
Jornal do Comércio de Manaus | 11/03/2006
por Ozório Fonseca (*)


Hoje resolvi desafiar o leitor transcrevendo alguns trechos antigos sobre a realidade amazônica, instigando-os a encontrar diferenças essenciais entre o passado e o presente. Começo com uma abordagem sobre a questão do acesso e uso de nossa biodiversidade.

1. “Não precisamos nos preocupar com as plantações de borracha que surgiram na Ásia. As condições climatéricas especiais, do vale amazônico, o novo sistema de beneficiamento do nosso produto, que atualmente está sendo aplicado com tanto êxito às nossa colheitas da Hevea, as imensas extensões de nossas regiões seringueiras, algumas ainda inexploradas e, finalmente, as inúmeras necessidades da indústria moderna, nos permitem fazer pouco caso do que os outros estão realizando no mesmo setor. Com efeito, se não considerássemos um dever acompanhar as descobertas cientificas relacionadas com a borracha da Índia, poderíamos, perfeitamente, ignorar por completo as plantações estrangeiras.”. Discurso do Governador do Pará, Augusto Montenegro, em 1910, repudiando o conhecimento cientifico e encabeçando a lista de governantes despreparados para lidar com a complexidade de nossos organismos. E hoje, algo novo?

Prática política.

2 “Perdemos uma guerra de quase 100 anos e não se pode distinguir hoje, qualquer diferença de atitude entre os generais da vitória e os generais da derrota, pois eles sempre foram muito pequenos para que a história os responsabilize pelas batalhas ganhas ou perdidas, que aconteceram em uma fronteira econômica, terreno que eles não podiam e nem sabiam pisar e muito menos comandar.” Trecho escrito por Cosme Ferreira Filho, em 1965. E hoje, algo novo?

3. “Sistematizou-se o assalto aos dinheiros públicos. Todas as formas de pilhagem foram postas em prática, para o que se lançaram aos pés os menores escrúpulos. [...] Pesam agora sobre o tesouro público, compromissos extraordinários, como resultado das prodigalidades. Fizeram-se empréstimos leoninos, sem que o resultado se concretizasse em beneficio coletivo.” Trechos do livro Chorographia do Estado do Amazonas, escrito por Agnello Bittencourt, e publicado em 1925. E hoje, algo novo?

OBRAS FARAÔNICAS

4. “Inaugurou-se, a um custo de 3,3 milhões de dólares, o Teatro Amazonas, em 1896 – a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada, com painéis, centenas de lustres de cristais venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristais bisotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas – tudo o que, aliás, em 1912, desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo em depósito de borracha de uma firma americana.”
5. O governo de Constantino Nery (1904-1907) “encampou, fraudulenta e inutilmente, a empresa “Manaos Improvement Limited”, por 10.500 contos de reis, o mesmo preço de construção do Teatro Amazonas.”. O prédio encampado abriga, hoje, o Teatro Chaminé que, evidentemente vale muito menos que o Teatro.
Trechos extraídos do livro “O Amante das Amazonas” escrito por Rogel Samuel, amazonense, professor da Universidade do Brasil. E hoje, algo novo?

TUDO COMO ANTES....

6. Existem três Amazônias que podem ser tipificadas sob a óptica da geografia humana. A primeira composta por Manaus e Belém, cidades que servem de modelo para as demais capitais, podendo ser incluída aí, a cidade de Santarém que poderá vir a ser uma futura capital. As duas capitais têm características próprias, realçando-se o fato de serem sedes dos governos estaduais, manterem a representação de entidades federais, terem a melhor assistência médica e as melhores escolas, tornando-as pólo de atração da economia. É também para elas que convergem navios, aviões, visitantes e imigrantes, indústrias de maior sofisticação tecnológica, empresas prestadoras de serviços modernos, a maior parte das rendas tributárias, o comércio intenso e a produção e exportação de bens. São cidades com estruturas trabalhadas pela civilização.

A segunda Amazônia reúne as cidades sedes dos municípios do interior, tanto as que estão em fase de desenvolvimento, como aquelas que apenas têm rótulo de cidade. Os governos se esforçam para implantar alguma modernidade na infra-estrutura básica, construindo unidades de saúde mal equipadas, escolas de nível muito ruim, aeroportos, poços artesianos, estações de telefonia e reprodução de imagens de TV, mas a população, apesar da aparente figura citadina, mantém profunda relação com a atividade extrativista. Nem mesmo a inserção de núcleos universitários muda a feição da segunda Amazônia.

A terceira Amazônia é composta por um número desconhecido de famílias, vivendo em estado de profunda desagregação social, sem perspectivas de futuro, em condições subhumanas, embrutecidas e aviltadas, conformadas com o destino que é definido pelos donos da terra. Elas formam vilas, povoados, sítios, se alojam em fazendas, seringais, castanhais, pontos de comércio, se alimentando da caça, da pesca, de frutos da floresta e de produtos de uma incipiente cultura de subsistência.
Resumo de um artigo de Djalma Batista publicado no Jornal da Cultura em 1975.

É uma pena que no Amazonas de hoje não tenhamos um político com a coragem de Heliodoro Balbi, para denunciar que o tempo passa, os governantes se sucedem, e pouco ou quase nada muda.

(*) é professor da UEA e ex-diretor do Inpa

Publicado por Ana Tropicana às março 11, 2006 08:55 PM

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