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março 12, 2006

O Carnaval do Exército


«quinta-feira de cinzas» de antonio lacerda

Ainda na ressaca dos festejos pelo terceiro lugar (inconformada, não obstante, sem a vitória que, este ano, seria, mais que justa) da minha Verde&Rosa, assisto daqui, com um nó no peito, às mais recentes movimentações que vão pelo meu Morro de Mangueira. Findo o corso, o exército sobe o morro, decidido a fazer renascer o Carnaval antes sequer que as cinzas de Quarta-Feira tenham tempo de arrefecer. Tanques blindados no lugar dos carros alegóricos da semana passada, camuflados por fantasia, tiros e metralhas para render a bateria... Tudo «para recuperar dez fuzis roubados, que estariam escondidos nas favelas cariocas», como sintetiza João Ubaldo Ribeiro, na crónica de hoje em O Globo, que vale a pena ler AQUI.





















Fotos: «Quinta-feira de Cinzas» António Lacerda e Marcelo Sayão

Para situar a questão: o roubo das dez armas automáticas do arsenal do Rio, que ocorreu na semana passada, é atribuído a traficantes, supostamente instalados nos morros periféricos à zona central da cidade. O exército avança na direcção das favelas de Mangueira, Santo Amaro e Providência. Para começar, um helicóptero armado, cinco tanques blindados e um contingente de 1500 soldados. Ainda assim e apesar do cerco, nenhuma arma é recuperada. Sexta-feira, 10 de Março: o cerco continua e a tensão aumenta. O confronto estende-se pela madrugada. Durante a manhã o tiroteio intensifica-se. Em resultado: três feridos. Todos recebem alta do hospital, mas um deles é um bebé que foi atingido por estilhaços. Nada das armas, apesar do número de detenções continuar a aumentar. O braço de forças entre o insucesso da operação e o aparato da acção militar montada ganha proporções descontroladas. A persistência dos militares começa a confundir-se com questões de honra e as razões do Estado mesclam-se com a humilhação da dignidade ferida. O clima nestes bairros pobres é de sobressalto e, de acordo com vários relatos da imprensa, a maioria das crianças deixa de ir à escola com medo da violência.
Entretanto, o Ministério Público Federal apresentou uma acção pedindo a suspensão da chamada «Operação Asfixia», iniciada no passado dia 03. É que na avaliação dos procuradores, a acção do Exército é inconstitucional, porque os militares estão a realizar funções exclusivas das polícias Civil e Militar, como revistar pessoas ou veículos. O exército deixa três favelas, mas continua a ocupar seis comunidades no Rio de Janeiro. A violência sobe de tom: em resultado, um menino de 12 anos encontra-se hospitalizado, vitíma de uma bala perdida na troca cruzada do chamado "fogo amigo". Segundo a edição de hoje de O Globo será submetido, até ao final do dia, a uma intervenção cirúrgica decisiva.

E agora os recortes:





O sonho do Urutu próprio
por João Ubaldo Ribeiro (*)

Felizmente, enquanto escrevo, o presidente não está no Brasil, mas em febricitante jornada de trabalho na Inglaterra e não pode ver na televisão — eis que jornais ele proclama não ler —- o Exército mobilizado para recuperar dez fuzis roubados, que estariam escondidos nas favelas cariocas. Mais pessoal, acho eu, que o enviado ao Haiti, o qual é um pouquinho mais extenso que o Rio de Janeiro e, afinal, é o Haiti, país abaixo de nós (sei que os de má vontade dirão que todo mundo ficou acima, mas com má vontade não se chega a lugar nenhum) na lista dos que menos cresceram e cheio de estrangeiros. Aqui o espetáculo do crescimento não tem sido propriamente emocionante, mas, sabem vocês como são essas coisas de show business . Sempre pode dar algo errado e, além disso, como afirmou o presidente há alguns dias, o Brasil não tem pressa. Quem tem pressa é quem tem fome, segundo também palavras dele, e isso vem sendo exemplarmente tratado, como poderá testemunhar qualquer pequeno empresário que receba o bolsa-família, juntamente com funcionários municipais parentes dos prefeitos, política social avançada, que vem sendo implantada em todo o nosso imenso Brasil.

Ele teve uma viagem feliz a Londres. Sabe que, numa performance irretocável, a oposição vem trabalhando com rara eficiência para facilitar sua reeleição. Deu uma bofetada com luva de pelica nas elites, que ficam só saindo na “Caras”, enquanto ele janta com a rainha da Inglaterra, que, aliás, não é elite, é somente rainha mesmo, pois lá na Inglaterra, não sei se vocês sabiam, a rainha reina mas não governa, igualzinho a ele, que preside mas não governa, ou só governa se interessar. E evidenciou-se a verdade contida nas ironias constantemente perceptíveis, quando ele fala sobre sua educação formal. Se ele soubesse inglês, teria reagido a qualquer comentário desairoso sobre a Amazônia, afirmando que um presidente não pode saber de tudo o que acontece no seu país e que Amazônia é essa, tirem esse bicho daí, nunca se ouviu falar desse problema em sua presença. Mas não sabia e não pôde fazer nenhum de seus festejados improvisos, havendo pronunciado exemplarmente o discurso preparado para ele, como faz qualquer presidente. Seremos informados em breve, através dele mesmo, que nunca se visitou tão bem uma rainha da Inglaterra em toda a história deste país e ainda está para nascer quem visite.

Mas faço enorme digressão, antes mesmo de entrar no assunto que me motivou, entre tantas notícias que merecem comentários e me entopem de assuntos o juízo, já de nascença meio desregulado. Falo na operação militar no Rio de Janeiro, que talvez venha a ser conhecida, por historiadores futuros, como a batalha inicial de uma guerra que já vinha em curso, mas somente agora ganha pinta de guerra mesmo, com blindados, canhões e tudo mais. Já não temos que passar muita vergonha diante do Iraque ou do Afeganistão. Ou do próprio Haiti. Sei que tem gente satisfeitíssima com a operação e torcendo para que a tropa engrosse logo e dê uns tiros de canhão nas favelas. Se pegar em alguém da maioria, ou seja, uma criança, uma dona de casa ou um trabalhador, é chato, mas é fogo amigo, expressão que, como as frentes frias de que falam tanto os meteorologistas de tevê, não explica nada, mas torna a coisa bem mais chique, foi designação criada pelos americanos. E quem manda morar em favela? Quem sai na chuva é para se molhar e, se se for pensar em todos os prós e contras, nunca se faz nada. Metralha neles, é o que bastante gente quer e não diz por conveniência. Não afasto mesmo a possibilidade de haver quem advogue o bombardeio aéreo das favelas, contanto que seja também como os dos americanos, que dizer, “cirúrgico”. Parece que não adianta nada, pois atingem hospitais e escolas do mesmo jeito, mas adianta, sim, por fornecer explicações altamente técnicas de que a culpa, afinal, é dos atingidos, além de propiciar excelentes motivos para pedidos de desculpas, eloqüente prova de que estamos numa democracia. Só falta que dêem a ordem e que forneçam combustível à Força Aérea, que, segundo soube, anda meio a perigo nessa delicada área, pois os aviões se recusam impatrioticamente a voar sem combustível. Aliás, me dizem que andam a perigo todas as Forças Armadas, situação que ninguém pode apoiar, a não ser por preconceito e — por que não dizer? — burrice ou desinformação.

Bem, mas não sejamos pessimistas. Percebamos nisso as oportunidades criadas. Quando vi a foto de um blindado parado, se não me engano, ao sopé do morro da Mangueira (Mangueira, teu cenário é uma beleza, já se cantou), me ocorreu que a blindagem de carros é um dos setores mais bem-sucedidos da nossa economia e o Brasil detém tecnologia exportável. Por que não aproveitar, agora que a guerra já está patente, com quase tudo o que vemos no cinema, para exercer a criatividade nacional e mostrar novamente o nosso pioneirismo? Antes, se acenava para a sofrida classe média com o sonho da casa própria. Agora o sonho talvez seja mais fácil. Sou capaz de apostar que, com algumas centenas de milhões de propaganda, os brasileiros desenvolveriam facilmente o sonho do Urutu próprio. Sem armamento, a não ser em casos especiais, definidos por Medida Provisória, mas Urutu legítimo. Naturalmente, os bandidos roubariam do Exército alguns foguetes antitanque, mas acredito que a maior parte do estoque estaria suficientemente protegida para dar vantagem aos legalistas, pelo menos enquanto o inimigo não contar com ajuda interna, hipótese, que eu saiba, não investigada pelo Exército. Já pensou o gentil leitor ou a encantadora leitora na alegria de sair de casa dentro do conforto e da segurança de um Urutu do ano? Aí mesmo é que a gente vai ver que nunca um governo fez tanto pela segurança pública neste país.


(*) escritor.


Antes de chegar à crónica de Ubaldo, incontornável e impossível não passar pela primeira página:

«General diz que Exército está pronto para a guerra no Rio »





«O Exército não vai recuar»
entrevista conduzida por Antônio Werneck e Jorge Antônio Barros

Oficial de artilharia desde 1963, o chefe do Comando Militar do Leste, general Domingos Carlos de Campos Curado, 63 anos, está apenas botando sua tropa para correr atrás de um prejuízo — dez fuzis e uma pistola roubados de um quartel do Exército, o mesmo crime que já resultou em 21 IPMs sobre o envolvimento de militares com o desvio de armas e munição dos quartéis, desde 2001. Mas acabou se tornando o comandante de uma guerra contra o tráfico de drogas nas favelas, que boa parte da população do Rio parece apoiar. “O Exército não entra numa ação para recuar”, diz o general mato-grossense que pretende se radicar no Rio, onde garante não se sentir nem um pouco inseguro.

Quantos militares ou ex-militares estão envolvidos com o tráfico no Rio?

GENERAL DOMINGOS CURADO: Um primeiro aspecto que nós devemos ressaltar: o ex-militar. Porque militar envolvido com o tráfico, quando descoberto, é excluído da tropa pelos meios legais. E ele tem o amplo direito de defesa para que não fique qualquer dúvida. Mas eu considero que o número é muito reduzido. Existem os ex-militares de carreira, que nós chamamos de profissional da Força, mas seu envolvimento também é diminuto. É bom ressaltar também que nós estamos tomando todos os cuidados com a seleção do nosso recruta. Mas, apesar de todo cuidado, alguns podem não ser alcançados nas nossas verificações. Nós temos meios para tomar as medidas legais para excluí-lo, dependendo da gravidade do fato.

Quantos IPMs investigam desvio de armas no Exército?

CURADO: Em praticamente um ano do meu comando no CML (Comando Militar do Leste), é o primeiro (a assessoria do CML informou depois que, de 2001 a 2005, foram abertos 21 IPMs para apurar o envolvimento de militares com o desvio de armas e munição dos quartéis).

Quantas unidades sediadas em áreas de risco podem mudar de endereço dentro do Plano de Reestruturação do Exército no Rio?

CURADO: O que eu poderia dizer é que há um plano coordenado pelo Estado-Maior, de mudança de endereço de algumas unidades. Não estamos saindo por se tratar de uma área de risco, estamos mudando de endereço porque algumas unidades não dispõem de condições para o adestramento. Por isto alguns batalhões estão sendo transferidos para outras áreas e estados.

Há reforço na vigilância de algumas unidades?

CURADO: Todas as unidades do Exército no país estão com sua segurança reforçada. E o Rio não foge à regra. Nós temos centenas de milhares de fuzis. Neste caso foram dez fuzis roubados, que precisam ser recuperados. Mas seja um ou sejam dez, a quantidade que for, é ponto de honra do Exército buscar o seu armamento.

O Exército já pensa em usar tropas de elite como as Forças Especiais, para guardar essas armas?

CURADO: Não gostaria de responder a essa pergunta. É uma informação estratégica, confidencial.

Os soldados estão enfrentando muitas provocações. Eles estão preparados para resistir?

CURADO: O soldado profissional é preparado para atuar em situação de risco. Não pode responder com uma arma a um deboche.

No Rio o que o senhor considera um grande problema?

CURADO: O maior problema hoje é o consumo de drogas. Um problema mundial. Existem as mais diferentes campanhas, mas eu não vejo nenhuma campanha mais intensa do que a campanha do cigarro. Hoje você compra um maço e já vê uma caveira. Com o consumo de droga isso não acontece de uma forma mais intensa. E o problema não é do governo, mas da sociedade. Esse é um foco e a imprensa poderia colaborar no combate à droga, para reduzir a demanda.

Como o Exército viu a enquete divulgada pelo Globo Online de que a maioria aprova a operação?

CURADO: Eu respondo de outra forma: o Exército tem grande credibilidade na nação em tudo que faz. Em operações e no apoio ao desenvolvimento nacional. Agora há pouco nos participamos da obra da duplicação da BR-101 em três trechos, o Exército está sempre participando. Recentemente, na Operação Boiadeiro, em que nós empregamos tropa para fechar fronteira; e agora mesmo tem gente imaginando que, se vier a gripe aviária, tomara que não chegue, nós deveremos ter algum emprego. Mas tudo isso faz parte das nossas atribuições. Atuar na garantia da lei e da ordem e contribuir para o desenvolvimento nacional é nossa missão constitucional. O que é possível nós vamos fazer sempre.

O que motivou essa operação?

CURADO: Essas armas nas mãos dos bandidos, nós não podemos permitir. Não podemos ser complacentes.

O Exército está preparado para uma radicalização do tráfico?

CURADO: O que eu posso dizer é que o Exército não entra numa ação para recuar. As forças policiais (polícias Civil e Militar) também não. Se eles partirem para um confronto direto, vão ter resposta. Nós vamos reagir em legítima defesa. Não só nos morros, mas nos quartéis também. Os sentinelas estão preparados para reagir.

Em todo cenário de uma batalha há os recursos que podem ser mobilizados. Existem ambulâncias, médicos e uma infra-estrutura para atuar nos tiroteios entre os militares e os traficantes?

CURADO: O que eu posso dizer é que tudo isso está planejado. Todas essas ações estão planejadas, com tropas enquadradas, com seus comandantes e oficiais experimentados.

O senhor acredita que há orquestração de traficantes por trás de manifestações de moradores, como na Providência e nos outros casos?

CURADO: O que o senhor acha? O direito de manifestação dos moradores é legítimo. É um direito de todo cidadão brasileiro, mas claro que estamos detectando o envolvimento de traficantes em algumas manifestações. Tudo isso era previsto, era esperado.

Qual é a mensagem do comandante Militar do Leste para o morador das favelas, para o morador do asfalto que quer que a operação continue, como mostrou uma pesquisa, e para os traficantes?

CURADO: O Exército é parte da sociedade e vê no morador da comunidade pobre um brasileiro digno, que merece toda consideração, e que conta com todo nosso respeito. Para o cidadão do asfalto a mesma coisa. Para o traficante... bem, para o traficante o recado é que ele tem que pensar duas vezes antes de investir contra uma unidade do Exército.

O senhor não acha necessária uma força-tarefa permanente entre Exército e Secretaria de Segurança para recuperar armas das Forças Armadas e combater o tráfico de drogas?

CURADO: Foge à minha competência. Nossos limites estão na Constituição, mas estaremos sempre à disposição caso sejamos convocados.

Como o Exército à luz de outras operações militares, como a Operação Rio (94/95), avalia sua conduta? Que lições essas operações deixaram?

CURADO: Bom, o que eu poderia dizer é que, quando nós preparamos uma operação e atuamos numa determinada área, podemos encontrar dados de inteligência obtidos em outras operações.

O senhor já sofreu alguma violência no Rio?

CURADO: Nunca. Nem eu e nem meus parentes. Mas já tive amigos que sofreram algum tipo de violência não só no Rio como em vários outros estados. Moro atualmente em Botafogo e vou morar aqui quando deixar o Exército. O Rio é uma cidade maravilhosa e me sinto seguro aqui. Meu carro já foi arrombado, mas foi em outro país cujo nome prefiro não dizer.

http://www.oglobo.com.br/rio


Força-tarefa pelo desarmamento dos bandidos


Convidado pelo chefe do Comando Militar do Leste (CML), general Domingos Curado, para participar da entrevista, o secretário de Segurança Pública, Marcelo Itagiba, revelou ao GLOBO que já existe no Estado do Rio uma força-tarefa permanente pelo desarmamento dos criminosos. O grupo reúne representantes das polícias estaduais, da Polícia Federal e do Exército, encarregado da fiscalização das armas de uso restrito das Forças Armadas.

— É um trabalho integrado e permanente entre a Secretaria de Segurança e o Exército — disse Itagiba, exibindo os índices de recuperação de armas de uso exclusivo das Forças Armadas nas mãos de bandidos do Rio, que não passam de 0,1% das 44 mil apreendidas pelo estado nos últimos três anos.

Prestigiado pelos comentários do general Curado, de que precisa da cooperação da polícia fluminense, Itagiba devolveu os elogios.

— Tudo que está sendo feito aqui é com respaldo de um IPM (inquérito policial-militar) e fiscalizado por um juiz militar. Nossas ações estão respaldadas pela lei — disse Itagiba.

O secretário de Segurança enfatizou que a cooperação da polícia tem sido grande também por meio da Subsecretaria de Inteligência do estado, que está trabalhando com os órgãos de inteligência do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, nas buscas às armas roubadas há nove dias de um quartel em São Cristóvão.

Itagiba disse ainda que no ano passado enviou ao chefe do Comando Militar do Leste “um planejamento para as ações integradas, listando inclusive os locais que deveriam ser asfixiados”.

— Toda movimentação tem um objetivo, apesar de a população não compreender — disse Itagiba, defendendo as operações do Exército. — Estamos unidos contra o crime — acrescentou.

Publicado por Ana Tropicana às março 12, 2006 09:50 AM

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