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outubro 11, 2005

As Vazias Redes de Manaquiri


pescadores do manaquiri de rickey rogers

Admito que, para muitos, o Manaquiri seja pouco mais que um nome que lembra o do "Mikado". Poucos saberão que fica nas margens do rio Paraná, a cerca de 150 km de Manaus, e talvez menos ainda se inquietem em excesso com as redes vazias dos pescadores das 25 comunidades que por lá se ajeitam, há anos e anos. Não chover no Manaquiri pode parecer coisa banal, tendo em conta a seca que por cá vai lavrando. O pior é que não chover por há-de agravar tremendamente os dias sem chover aqui!...








Foto: Pescadores do Manaquiri (autor: Rickey Rogers)




Amazônia enfrenta a pior seca dos últimos 40 anos
Fonte: Reuters | Autor: Terry Wade | Data: Seg, 10 Out - 14h44


A Amazônia sofre sua mais grave seca nos últimos 40 anos, e as consequências são incêndios, doenças e a morte de milhões de peixes.

"O que é terrível para nós é a morte de todos esses peixes, e quando a água voltar não vai ter sobrado quase nenhum", disse o pescador Donisvaldo Mendonça da Silva, de 33 anos.

Perto dali, piranhas debatiam-se na água rasa, com profundidade de apenas 5 centímetros -- o que restou do rio Paraná de Manaquiri, um afluente do Amazonas. Milhares de peixes podres jaziam nas margens secas do rio.

O governo do Amazonas declarou estado de calamidade pública em 16 cidades por causa da seca, que já dura dois meses e vem deixando a população ribeirinha sem alimentos, pois não pode pescar nem plantar.

Há cientistas que responsabilizam pela seca uma elevação da temperatura dos oceanos, provocada pelo aquecimento global. O fenômeno também foi relacionado com os recentes furacões de grande intensidade que atingiram os Estados Unidos e a América Central.

A elevação do ar no Atlântico Norte pode ter feito com que o ar que fica acima da Amazônia tenha descido, impedindo a formação de nuvens e a precipitação, afirmaram cientistas.

"Se o aquecimento do Atlântico Norte for tomado como evidência, ela é uma prova de como o mundo está mudando", disse Dan Nepstadt, ecologista do Instituto Woods Hole, com sede em Massachusetts, financiado pelo governo dos EUA e por entidades privadas.

"A Amazônia é um sinal de saúde para o planeta. Estamos em território desconhecido, pois estamos entrando na tendência do aquecimento global", disse ele.

O desmatamento também pode ter contribuído para a seca, porque a retirada das árvores reduz a umidade do ar, por aumentar a penetração da luz solar na vegetação.

Outros cientistas dizem que secas severas são normais e ocorrem em ciclos, independentemente do aquecimento global.

O rio vira estrada

No principal porto de Manaus, dezenas de barcos estão sobre a terra, com o recuo da água. Onde antes dava para nadar, as pessoas andam de carro.

A uma hora do local onde se junta ao rio Negro para formar o rio Amazonas, o Solimões está tão baixo que quilômetros de leito transformaram-se em dunas. O vento provoca tempestades de areia, e urubus atacam a carniça.

Outro grande afluente do Amazonas, o rio Madeira, está tão seco que os barcos que levam óleo diesel desde Manaus não conseguem chegar à capital de Rondônia. O combustível, usado para alimentar usinas termelétricas, tem de ser levado de caminhão por milhares de quilômetros, desde o sul do Brasil.

O vento seco e a falta de chuvas deixaram a floresta mais suscetível aos incêndios, causados por fazendeiros que querem abrir clareiras para a pastagem.

Durante as estações de seca normais, as chuvas ainda ocorrem e apagam o fogo que tenha escapado do controle dos fazendeiros. Este ano, elas não apareceram, e o incêndio continua.

No Acre, 100 mil hectares de floresta já queimaram desde o início da seca, e a espessa fumaça chegou a fechar aeroportos por falta de visibilidade.

"É ilegal provocar queimadas, mas todo mundo faz isso. Eu faço para me livrar dos insetos e das cobras, e para criar pasto novo para meu gado", disse um homem que se identificou apenas como Calixto, usando folhas verdes para controlar sua queimada perto da estrada.

A seca também atrapalhou a vida das comunidades ribeirinhas, que vivem ao longo do labirinto de igarapés da bacia amazônica.

"Fechamos 40 escolas e cancelamos o ano letivo porque não há comida, transporte nem água potável", disse Gilberto Barbosa, secretário de administração pública de Manaquiri. Os moradores cujos poços artesianos secaram correm o risco de beber água contaminada pelas carcaças de animais.

As vias de navegação acabaram sendo cortadas pelo rebaixamento do nível das águas, prejudicando a rede de transporte da região.

Muitos moradores das 25 comunidades ribeirinhas de Manaquiri estão sendo obrigados a andar quilômetros para comprar comida ou remédio.

Os casos de diarréia, uma das doenças que mais matam no mundo em desenvolvimento, estão crescendo na região. Teme-se que a água parada aumente a ocorrência de malária. O governo estadual enviou 5 toneladas de medicamentos básicos para os vilarejos mais afastados.

Serão necessários mais dois meses para que o rio volte a se encher, durante a estação das chuvas. Mas os moradores temem que a água poluída ainda contamine os peixes e plantações.

"Nunca vi nada assim", disse Manuel Tavares Silva, de 39 anos, que planta melão e milho perto de Manaquiri, cidade que fica a 149 Km de Manaus.

Publicado por Ana Tropicana às outubro 11, 2005 11:08 AM

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