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agosto 09, 2005

Tristezas

Leio AQUI: «António Teixeira foi traído pelas pernas. A morte foi mais rápida quando, anteontem à noite, o fogo o apanhou longe de casa, longe da pequena aldeia de Monteiros, em Vila Pouca de Aguiar, Vila Real.» e depois continuo a ler, mas infelizmnte o resto da história conta-se em poucas linhas: «Maioria dos incendiários detidos sai em liberdade»

Fogo mata em Vila Real
Fonte: Correio da Manhã | Autor: Luis C. Ribeiro (Vila Real)/Luis Oliveira (Viseu)| 2005-08-09 | 00:00:00

O corpo só foi descoberto ontem de manhã, quando a luz do dia mostrou a destruição causada pelo fogo: dez mil hectares de floresta ardida e 21 casas destruídas. 16 pessoas ficaram sem tecto e, durante horas, duas estiveram desaparecidas. António Teixeira tinha 75 anos. Morreu intoxicado.

“As pernas já não o ajudavam. Ele até já tinha uma operação marcada, por causa dos problemas. Não conseguia andar depressa e quando quis regressar já era demasiado tarde”, contou ao CM uma familiar, em estado de choque. Pela morte de António e pela destruição que se abateu sobre a aldeia de Monteiros, freguesia de Bragado. Numa noite, o fogo reduziu a cinzas dez das 21 casas.

Mas durante a manhã temeu-se que a tragédia em Vila Pouca de Aguiar fosse ainda pior. “Em aldeias com poucos habitantes é fácil saber quem falta”, dizia um popular. Octávio Teixeira faltava em Carrazedo da Cabugueira e Irene Costa Pinto não ‘respondera’ em Parada de Monteiros. Mas ambos deram sinais de vida, “de perfeita saúde”, logo que souberam que os procuravam.

O incêndios responsável pela morte de António Teixeira, pela destruição de metade das casas de Monteiros e pelo pânico no concelho, começou domingo em Pielas. Fora de controlo, as chamas avançaram sobre a freguesia de Parada de Monteiros, desalojando duas pessoas. Some-se mais duas em Capeludas e duas outras em Carrazedo da Cabugueira e Soutelo de Matos. Em Monteiros, a aldeia de António Teixeira, dez ficaram sem casa.

Destes 16 desalojados, muitos passaram a noite na escola preparatória e esperam agora uma solução. Já que as suas casas desapareceram. Domingos Dias, presidente da Câmara de Vila Pouca de Aguiar, pediu a declaração de calamidade pública para as quatro freguesias do seu concelho atingidas pelo fogo. “As populações, na sua maioria idosos, ficaram com a vida reduzida a cinzas. É justo que o Estado as ajude”, afirmou o autarca, revelando que a câmara municipal abriu uma conta bancária para apoiar as vítimas.

Ontem, um mar de cinza esperava os quase 200 bombeiros empenhados em acções de vigilância e combate a reacendimentos, com o apoio de 11 aeronaves. Ao final do dia, com o tempo a ficar mais fresco, o fogo tinha desaparecido. Mas uma certeza ficou. Na autarquia e junto dos bombeiros. “Os fogos tiveram mão criminosa. Começar em quatro locais em simultâneo é muita coincidência”, diz Domingos Dias. O coordenador distrital dos bombeiros, Almor Salvador, acha o mesmo.

CHAMAS CAUSAM PÂNICO EM CASTELO MOVO

O violento incêndio que deflagrou na tarde de domingo em Pereiros, Castelo Branco, propagou-se à Serra da Gardunha e na madrugada de ontem cercou a aldeia histórica de Castelo Novo, no Fundão, tendo destruído quatro casas que estavam desabitadas. As chamas provocaram muito pânico junto dos habitantes, na maioria idosos, queimaram culturas agrícolas e mataram animais.

“A serra parecia que tinha gasolina tal foi a velocidade com que o fogo chegou até às nossas casas”, descreveu Conceição Adolfo, de 45 anos, que durante a noite viveu momentos de terror: “Os bombeiros salvaram-me. Estava sozinha em casa com uma filha de 12 anos e fiquei cercada pelas chamas. Pensei que ia perder tudo”, acrescentou a mulher.

Rosa Alves Pereira, de 75 anos, já estava na cama quando, às duas da manhã lhe bateram à porta gritando: “Fuja dona Rosa que o fogo vem aí”. A septuagenária não queria acreditar no que via: “Estava tudo a arder. Tiraram-me de casa à força e depois fui para o hospital porque sofro do coração e entrei em pânico. Ardeu tudo, menos a minha casinha, graças a Deus”, disse a idosa enquanto que com baldes apagava o barracão onde tinha lenha.

O fogo galgou com rapidez pela Serra da Gardunha e chegou às portas da cidade do Fundão. Rui Esteves, coordenador do Serviço Nacional de Bombeiros de Castelo Branco, referiu que o incêndio “foi de difícil combate devido à inexistência de acessos” e porque junto das habitações “havia muitos arbustos e mato”. O fogo ficou circunscrito às 13h00 e depois seguiram-se as operações de rescaldo no qual participaram 218 bombeiros com 68 viaturas.

DESASTRE NATURAL NA SERRA DA ESTRELA

O ‘coração’ do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) foi ontem seriamente destruído pelo fogo. As chamas que deflagraram na noite de domingo já consumiram dois mil hectares de uma área composta por um tipo de flora rica e rara. Os bombeiros tiveram grande dificuldade para chegar às várias frentes do fogo, que assim ‘passeou’ à vontade numa zona perto da nascente do Rio Zêzere.

“Trata-se de um desastre natural, ambiental e social sem precedentes”, afirmou ao CM Fernando Matos, director do PNSE, que está muito preocupado com as consequências deste incêndio: “Não sei se as linhas de água vão ser afectadas. Se forem, é uma situação muito grave, porque a água é uma das nossas importantes riquezas”, acrescentou Fernando Matos, lembrando que é naquela zona que se faz a captação da água da Serra da Estrela.

O fogo grassou durante o dia nas encostas do vale glaciar em zonas inacessíveis aos bombeiros. Os meios aéreos também tiveram grandes dificuldades operaracionais devido ao intenso vento e à nuvem de fumo que se formou. “A situação está muito complicada, porque temos muitas dificuldades em chegar ao fogo. Só mesmo o São Pedro nos pode ajudar”, afirmou Joaquim Saraiva, comandante dos Bombeiros Voluntários de Manteigas. Ao início da noite, o fogo ainda não estava controlado e mobilizava perto de uma centena de bombeiros.

OUTROS CASOS

“PLANO CRIMINOSO”

O presidente da Câmara de Penalva do Castelo, município que foi fustigado por diversos incêndios nos últimos cinco dias, diz que as chamas tiveram “origem criminosa”. “Parece que foi preparado um plano criminoso para destruir parte do concelho”, disse Leonidio Monteiro, acrescentando: “Surgiram, quase sempre de noite, vários focos de fogo em diversos sítios. Estava tudo programado”.

FERIDA EM LAMEGO

Uma mulher de 65 anos sofreu queimaduras em 60 por cento do corpo quando, no domingo à tarde, tentava salvar do fogo um pequeno terreno agrícola, no Lugar de Magueija, Meijinhos, concelho de Lamego. Maria da Anunciação Moura, que foi transportada para a Unidade de Queimados dos Hospitais da Universidade de Coimbra, tinha a seu cargo um filho paraplégico de 35 anos.




Maioria dos incendiários detidos sai em liberdade
Fonte: Correio da Manhã | Autor: Ricardo Marques | 2005-08-09


A história conta-se em poucas linhas. Um homem de 23 anos foi detido pela PJ, na semana passada, por existirem fortes indícios de ser o autor de alguns incêndios florestais ocorridos este ano.

No currículo tinha já uma detenção em 2002, pelo mesmo crime, e a condenação a uma multa, que reverteria a favor dos bombeiros. Que nunca pagou. E na sexta-feira, depois de ouvido em tribunal, saiu em liberdade, sujeito a termo de identidade e residência. Mais um para a estatística.

Este ano, de acordo com dados oficiais, a PJ deteve 71 pessoas suspeitas do crime de fogo posto. No entanto, destas, apenas a 16 foi aplicada a mais grave das medida de coacção: a prisão preventiva. As restantes 55 saíram em liberdade: apenas com termo de identidade e residência ou sujeitas a apresentações periódicas junto da polícia.

Anteontem, na RTP, o ministro da Administração Interna, António Costa, defendeu que os magistrados devem “afinar” o critério de aplicação de medidas de coacção a suspeitos de fogo posto, sublinhando que a moldura penal para este tipo de crime “é razoável”.

Uma fonte da PJ sublinhou ao CM que é necessário “reflectir” sobre as medidas a aplicar aos suspeitos de fogo posto. “Estamos a falar de medidas de segurança, de modo a evitar que estas pessoas cometam este tipo de crime”, referiu, lembrando o caso de um homem com antecedentes criminais, inimputável, durante a época de fogos, recolhe a uma instituição psiquiátrica.

Publicado por Ana Tropicana às agosto 9, 2005 11:33 AM