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agosto 15, 2005

Mood


olho da mata de ana tropicana

A Floresta ensina a confiar. Não adentra a Grande Mata quem não confia. Ali, entre tantas outras coisas, eu reaprendi que há caminhos que pedem a mão.




A Floresta ensina a confiar. Não adentra a Grande Mata quem não confia. Ali eu reaprendi que há caminhos que pedem a mão. Porque quem não nos quer bem não se aproxima. Sabe que nada tem a fazer junto de nós e por isso mantém-se ao largo. É assim na Floresta: nada se dissumula, tudo chega nú e de frente. Tudo é claro e nenhuma coisa tem a vã pretensão de parecer ser o que não é. A Floresta não despreza o fruto que azeda, nem o espinhaço que fere, nem o bicho que mata, nem a folha que envenena. Pede apenas que não se ofereçam enganadores, e é por ser assim que é menos atraente o fruto azedo, mais agudo o espinho, menos acessível a folha venenosa, menos afável o animal feroz. Os povos da Floresta traduzem com o termo "traição" cada ocorrência que viole esta regra simples. O curioso é que o mesmo se aplica - sem grande distinção - ao Homem Branco, a cada vez que chega afável, com palavras de bem-querer e, todavia, sem a atenção e o cuidado daqueles que verdadeiramente trazem o zelo no coração. São esses "os que traem": os que a Grande Mata despreza, expulsa dos seus recantos e prefere longe e sem notícia. Para que não espalhem sobre o puro chão as suas lições de mentir, para não contaminarem as limpas águas dos igapós com as suas roupagem enganadoras, nem encherem as malocas da difícil arte de bem ocultar.
Pelos caminhos da Floresta se aprende, como eu aprendi, o valor de um olho sábio e uma palavra confiável. E quando um mateiro diz: «vem por aqui» é porque avançar é plenamente confiável. Nada a recear, portanto. Confia-se, sim. Cega e incondicionalmente, como na verdade sempre me pareceu que devia ser a correcta forma de viver, o correcto sentido de rumar em alguma direcção.

Publicado por Ana Tropicana às agosto 15, 2005 12:54 PM

Comentários

Se antes eu sentia a Floresta como un íman, agora, depois de ler as suas palavras, sei que essa sensaçao se deve ao chamado da Mae Natureza. Ter-se-à enganado ao permitir que nascesse em outro hemisfério, ou trata-se de mais uma das suas sábias liçoes...?

Publicado por: DT às agosto 16, 2005 07:06 AM

Fundo o "chamado". Chegado assim: gentil e gentio. Como o apelo das vozes eternamente familiares.


E, sim, talvez necessario fosse o hemisferio inverso. Nao exactamente por ser contrario, mas para impor a cambalhota, que ha revelacoes providenciais que so acontecem apos o exercicio incontornavel da reviravolta...


Publicado por: Ana Tropicana às agosto 24, 2005 01:00 AM

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