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agosto 13, 2005

Lenda da "Mulher Deitada"


mulher deitada de chiara belmonte

A profecia foi cumprida. «Quem passar pelo Vale do Paraíba, nas mediações de Itatiaia, olhando na direcção dos Três Picos de Penedo, verá o perfilar de uma mulher deitada. É Jandira, a índia petrificada, a espera de seu amado Jatyr, que nunca mais voltou...».





Foto: «Mulher Deitada» [autor: Chiara Belmonte ]




Narra Piaga Aymoré uma lenda bela que culmina em profecia. Fica aqui, tal e qual a escutei do próprio:

«Há alguns séculos atrás, quando existiam ainda os Puris ou Purias, uma antiga tribo nómada que vagava pela Cordilheira da Mantiqueira nos cumes da serra de Itatiaia, contava-se a respeito do velho cacique Caboaçu que tinha uma filha, Jandira, que era cobiçada pelos índios da tribo. Porém, somente Jatyr a conquistou, já o cacique queria dá-la a Gurupema, o mais forte da tribo que desejava ser seu sucessor. Gurupema sentiu-se rejeitado por ela e seguiu seus passos até descobrir que ela amava Jatyr. Então, ele revelou o segredo ao cacique e colocou Gurupema em batalha de vida e morte com Jatyr. Somente o vencedor teria como prêmio à filha do Cacique. Jatyr era exímio atirador com arco e flecha e humilhou seu rival perante toda a tribo, atirando-lhe a flecha que atravessa a cada instante uma orelha de Gurupema, que, envergonhado fugiu pela mata adentro. Jatyr recebeu sua amada como companheira e foram felizes por muito tempo. Certa época, um índio chegou exausto e espavorido, notificando que os Emboabas se punham a caminho, depois de terem expulsado os Tamoios da Cordilheira do Mar. O cacique Caboaçu ordenou a fuga da tribo, quando Jatyr interveio dizendo que iria ao encontro dos Emboabas. No caminho, foi atingido, morto por uma flecha traiçoeira, desferida por gurupema. Gurupema surgia na tribo afirmando que os Emboabas se aproximavam guiados por Araribóia e por Jatyr, que os havia traído. O velho Piaga-Pajé, sacerdote, chefe espiritual dos índios, prenunciou a morte da índia e a imortalidade de seu corpo, transormado em pedra, com a forma das cordilheiras que cerram o vale.»





Quem já percorreu as cordilheiras da Serra da Mantiqueira entende, sem regatear em demasia, que a razão peça (nem que seja ao imaginário!) uma forma humanamente concebível de digerir o esmagador espectáculo que a natureza achou por bem extravazar naquele lugar ao ermo. Alda Bernardes de Faria e Silva [Presidente da ACIDHIS Académica - cadeira n. º 04 - Cel. José Mendes Bernardes], nasceu em Itatiaia muitos e muitos séculos depois dos primeiros Puris que habitavam a região. Tal como os índios, continua a olhar o recorte da "Mulher Deitada" e a procurar falar do que as palavras dificilmente deixam exprimir.
Deixo aqui o que escreveu, por altura do 13º aniversário do município:


«Contemplo encantada a serra da Mantiqueira, o imponente maciço do Itatiaia e a majestosa Agulhas Negras, cenário dos mais belos já vistos e cuja sombra vim ao mundo em Itatiaia.
Mas não é, apenas o aspecto físico e as belezas naturais de Itatiaia que hoje, ocupa toda a nossa atenção, mas também o futuro radioso que a espera.
Escreverei um pouco de sua história em comemoração aos seus 13 anos .
Sabemos que a serra da Mantiqueira e o Vale do Paraíba foram primitivamente cobertas de densas matas, ocupadas por selvagens, os Puris, pertencentes ao grupo dos Coroados, que deram ao maciço o nome de ITA-TI-AIA, que segundo Afonso de Taunay, que em tupi-guarani, significa: "Pedra Cheia de Pontas".
Do século XVI ao século XVII, com a descoberta do ouro nas Gerais, o Valedo paraíba e a Serra da Mantiqueira , foram intensamente percorridas por aventureiros e faiscadores a procura de indícios auríferos, seguindo as primitivas trilhas dos selvagens.
No século XXVII, suas terras serviam de passagem ou de pouso de viajantes que, provenientes do Sul de Minas, demandavam os portos sul-fluminenses de Angra dos Reis em especial .
Com o esgotamento das minas, mineradores procuraram suas terras para atividades agrícolas e pecuárias, como o plantio de cana-de-açúcar.
Com o início do Ciclo do Café, no final do século XVII, surgiram grandes fazendas com plantações, subindo e descendo as encostas dos morros arredondados que ornam o vale do Paraíba de Itatiaia.
A região que compreendia a região de Queluz a Barra do Piraí foi habitada pelos primitivos índios Puris ou Purias, sendo o último aldeamento foi na vila de Fumaça, conforme estudou nosso acadêmico Cel Claudio Moreira Bento (*).

Em meados do século XVIII, a serra e o vale tornaram-se importantes vias de transporte das Minas Gerais para o Porto de Angra dos Reis, por onde escoava o ouro por via marítima.
Em conseqüência desse tráfego, foram surgindo na região vários ranchos que serviam como ponto de apoio aos tropeiros. Os arranchadores, para se manterem, faziam roças e viviam em pequenos ranchos. E Itatiaia surgiu assim como arranchamento de tropeiros anônimos .
A colonização só se deu nas primeiras décadas do século XIX, com a chegada de algumas famílias mineiras, procedentes de Aiuruóca-MG, com o esgotamento das minas de ouro das Gerais. Verificando-se maior estabilidade dos que já aqui viviam.
As terras apresentavam a vantagem de servir para outras plantações, surgindo na vasta planície os canaviais e seus engenhos, formando-se os grandes latifúndios.
Foi somente no início do século XIX que surgiu o povoado de Campo Belo e atual Itatiaia, com a instalação do Distrito de Paz e Tabelionato, em 13 de maio de 1832, para inclusive, o registro de terras e de escravos.
Em 5 de abril de 1839, foi instalado o curato Eclesiástico de São José do Campo Belo e subordinado à matriz Nossa Senhora da Conceição de Resende.
A primitiva capela data de 1839. Esta capela deu origem a Matriz de São José, em Itatiaia. Ela foi erigida em terras doadas por D. Silvéria Soares Lucinda, com a condição de invocar São José, padroeiro de sua família.
No início do século XIX, o transporte da região se fazia por via terrestre. Em penoso desfilar, as tropas de muares abriram os caminhos do Oeste para o Leste. Do Sul vinham grandes levas de tropeiros gaúchos, fornecedores de mulas para a lavoura cafeeira e seu escoamento para Angra dos Reis. Foi do Norte que mineiros transpuseram a Mantiqueira para o Vale do Paraíba e lançaram as primeiras raízes da sociedade colonial Itatiaiense.
Podemos citar o Comendador Manuel da Rocha Leão, proprietário da Fazenda Cachoeira, cujo café obteve prêmio de alto preço - medalha de ouro. O galardão só foi conferido a 3(três) dentre cerca de 100 grupos do Produto, na Exposição de Paris de 1866.
Na década de 1870, o Comendador Rocha Leão, adquiriu na Inglaterra, sete milhas de trilhos para a projetada via férrea que teria de percorrer suas lavouras, situada em Itatiaia, hoje, Nhangapi, pertencente à Vila de Campo Belo.
Era filho de Dona Maria Benedita Gonçalves Martins, conhecida como a Rainha do Café em Resende.
Um dos grandes cafeicultores da época, o Comendador Joaquim Gomes Jardim, em sua fazenda Valparaíso, (situada na freguesia de Campo Belo), produziu 8.551 arrobas de café no ano de 1860.
Em 1876, Domingos Gomes Jardim, descendente do Comendador Joaquim Gomes Jardim, recebeu na Feira da Filadélfia, o prêmio de Alta Qualidade.
Na Exposição Regional de 2de dezembro de 1885, destacava-se o café tipo "Moca", das fazendas Itatiaia, ambas da freguesia de Campo Belo.
Foi na década de 1860 e no início de 1870 com a fase áurea do café - o Ouro Verde, que surgiu a exploração da via fluvial pelo rio Paraíba com os barcos enormes que, desde Barra do Piraí, navegavam rio Paraíba acima de Itatiaia (então Campo Belo) para atender os grandes comerciantes das firmas Rocha Bernardes e Irmãos, chegando a exportar 100.000 arrobas de café no Porto das Barcas, hoje, Fazenda Belos Prados; "Teixeira Caboré e Companhia Diogo Santos Pinto com armazéns no Porto das Barcas, na época considerado um dos maiores entrepostos alfandegários e comerciais, pelo volume das operações que realizava , pelo qual, inclusive, eram despachadas para o Rio de Janeiro produções dos municípios de Queluz e Areias.
Os trilhos da Estrada de Ferro D.Pedro II chegaram em Itatiaia em 1873, substituindo aos poucos o comércio fluvial até Barra do Piraí.
Com o fracasso da lavoura do café, por causas amplamente conhecidas, as antigas fazendas de Itatiaia voltaram-se para a pecuária, especialmente a leiteira.
Foi em Itatiaia que surgiu o primeiro exportador fluminense de manteiga e o segundo em leite que era transportado ao Rio em vagões frigoríficos.
Em 1891, surge a Companhia Centros Pastoris do Brasil, que teve como principais incorporadores Rocha Leão e Luiz Rocha Miranda Sobrinho(Barão de Bananal), com o objetivo de reunir o leite produzido na região, para exportá-lo para o Rio de Janeiro. Em 1905, empregava 200 homens e exportava 10.000 litros de leite para o Rio.
Hoje, como marcos históricos rurais, existem as fazendas Belos Prados - antiga propriedade do Cel. José Mendes Bernardes que desenvolveu a pecuária com a criação do gado jérsei, tendo sido o 1º exportador de manteiga e o 2º em leite; Fazenda Campo Belo - propriedade do Dr. Eduardo Augusto Torres Cotrim - a sede das atividades de um dos criadores mais progressistas que a pecuária teve para organizá-la.
Seus trabalhos, marcando uma orientação decisiva numa época de parcos conhecimentos biológicos e zootécnicos, ainda hoje se patenteiam em seus ensinamentos, que noventa anos depois, ainda não se tornaram arcaicos. Em 1915, publicou o livro A FAZENDA MODERNA que serve de referência bibliográfica nos cursos de agronomia e veterinária ainda hoje.
Fazenda Itatiaia - propriedade do Tito Lívio, dedicava-se ao plantio e cultivo do café. Hotel Fazenda, pertencente à Família Cotrim.
Foi também em Itatiaia que, em 1922, surgiu a primeira Usina de Laticínios Campo Belo, de propriedade de Rodolfo Bernardes Cotrim, com a exportação de leite para o Rio de Janeiro, em vagão da Estrada de Ferro Central do Brasil.
Vale lembrar que Itatiaia, foi o precursor da pecuária no município de Resende.
A partir da década de 1930, as fazendas entraram em decadência, iniciando-se nova fase, a do Comércio Hoteleiro, onde as antigas fazendas se transformam em hotéis fazendas.
Com a construção da Rodovia Presidente Dutra, por volta de 1950, ligando os dois maiores centros urbanos do Brasil e mais a Hidroelétrica do Funil, determinaram um grande surto migratório para Itatiaia, surgindo as indústrias XEROX (hoje Flextonics) MICHELIN, Refinações de Milho do Brasil, CREMOGEMA (hoje BIOCHIMICO), IMI...
Foi no século passado que cientistas naturalistas, geólogos e botânicos, visitaram e estudaram o maciço de Itatiaia.
Dentre os brasileiros cumpre mencionar Franklin Massena, Barão Homem de Mello e, em data mais recente, Alberto Lamego, Campos Porto, como também A.J.Sampaio, A.C. Brade. Dentre os estrangeiros, registre-se o francês Glaziu, em companhia da princesa imperial Izabel e seu marido o conde D. Eu, Holt, Wavra, Ulo, Duzeu, Derby, etc.
Merece destaque especial o entomologista José Francisco Zikán, que organizou coleções com mais de 100.000 insetos colhidos no Itatiaia indicando o valor científico da obra por ele realizada, razão de seu nome haver sido perpetuado na ciência de diversos países.Parte do acervo que ele desenvolveu se encontra no Museu do Parque Nacional do Itatiaia, criado em 1937, a outra parte, está no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro e todo ele a serviço da ciência.
Campo Belo, atual Itatiaia, foi elevada à Vila por lei federal n. º 311, de dois de março de 1938.
Em 31 de dezembro de 1943, o Decreto Lei n. º 1056, deu ao 4 o de Resende e Vila de Campo Belo, o expressivo nome de Itatiaia que, em Tupi Guarani, segundo Afonso de Taunay, repetimos que quer dizer "pedra cheia de pontas".
O município de Itatiaia foi criado por lei n. º 1330, de 6 de julho de 1988, por desmembramento de Resende e com uma área de 204 km quadrados por ato firmado pelo governador Wellington Moreira Franco.
Sua sede foi elevada à cidade a 1º de junho de 1989. E a 13 de junho de 2000 se deu a criação da Comarca do Município de Itatiaia.
Seja no bairro de Penedo, onde uma antiga Colônia Finlandesa foi fundada, particularmente, em 1929, por um grupo de Finlandeses, seja na sede de Itatiaia o município nesses 13 anos está evoluindo nas trilhas do ecoturismo, sendo possuidor dos maiores números de hotéis do sul fluminense, perdendo apenas para a capital do Estado. N a área de Educação, ocupa um relevante degrau na Excelência do Ensino. Na Saúde, com um dos melhores hospitais do Estado, com uma capacidade de atendimento de alto nível.
Itatiaia, hoje, no terceiro milênio possui efetivamente o triângulo eqüilátero, com os três poderes constituídos: Executivo, Judiciário e Legislativo.
É relevante registrar que alguns dos líderes emancipacionistas morrerão sem serem reconhecidos em vida, no que só podemos lamentar:
" Ver o filho nascer sem ter nele o direito ao exercício à maternidade, mas apesar disso tudo, a chama da vela ainda acesa demonstra a forma de uma esperança ainda viva".

Hoje, o município, emoldurado pela paisagem do maciço do Itatiaia com suas elevações, picos, cascatas, rios, matas e vales, são um convite permanente para os turistas ocuparem os hotéis da região, seja do próprio Parque, seja em Penedo, antiga colônia finlandesa fundada, em 1929, ou nos campos de altitude de Maromba e Maringá, na região de Visconde de Mauá, seja no Paraíba do Sul, antes navegável, seja a Represa do Funil em suas quedas d'água, Itatiaia oferece muito a quem deseja encontrar belezas naturais.»


(*)Cf. "Os puris do Vale do Paraiba Paulista e Fluminense".
Cel Claudio Moreira Bento
Volta Redonda : ACIDHIS,Gazetilha ,1995 .





... E falando dos índios Puris ou Purias, acho que talvez valha a pena ler:




OS ÍNDIOS DO PARAÍBA
José Luiz Pasin (historiador, professor universitário e membro do Instituto de Estudos Valeparaibanos)

Fundados as vilas de São Vicente e do porto de Santos, por Martim Afonso de Souza e Brás Cubas, fortificaram-se os portugueses no planalto, fundado a vila de Santo André da Borda do Campo, cujo alcaide-mor e guarda-mor do campo foi João Ramalho, amasiado com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá, senhor das tribos tupiniquins que habitavam os campos de Piratininga. Em 1554, um grupo de treze jesuítas, liderados pelo Padre Manoel de Paiva saíram do Colégio de São Vicente, transpuseram a serra de Paranapiacaba e atingindo o planalto, fundaram o colégio de São Paulo dos Campos de Piratininga, no dia 25 de janeiro de 1554. Em 1560, o governador geral Mem de Sá, depois de expulsar os franceses da baía da Guanabara, atendendo razões de Estado e interesse dos jesuítas, extinguiu a vila de Santo André e uniu seus moradores ao Colégio de Piratininga, dando origem à vila de São Paulo. Isolados no planalto, os portugueses e mamelucos paulistas buscavam no sertão e nas suas roças de milho, feijão, trigo e algodão a sua economia de subsistência, utilizando a mão de obra indígena para os trabalhos da lavoura, colheita, transporte, construção e defesa. Os tamoios do litoral confederados com as tribos que habitavam as margens do rio Paraíba, promoveram diversos ataques aos sítios e roças dos paulistas, matando seus moradores, queimando lavouras, saqueando as casas e aprisionando mulheres e crianças. Para se defender dos constantes ataques dos índios do Paraíba, a Câmara Municipal de São Paulo, ordenou a construção de muros e baluartes de taipa de pilão e convocou João Ramalho para iniciar o bandeirismo paulista de apresamento.
Embrenhando-se nos sertões do Paraíba, os paulistas atacavam e parisionavam os índios, levando os sobreviventes como "presa de guerra", para vendê-los como escravos aos engenhos de cana-de-açúcar do litoral vicentino ou para utilizá-lo como mão de obra em seus sítios e engenhocas. O Padre José de Anchieta, em carta escrita de Colégio de São Vicente para o Padre Diogo Laynez datada de 16 de abril de 1563, narra com todos os pormenores o violento ataque desfechado pelos índios do Paraíba à Vila de São Paulo e as atas da Câmara Municipal de São Paulo, registram os "termos" de convocação da população, estado permanente de alerta, conserto dos muros que cercavam a vila e preparativos para a "Guerra no Paraíba". Os mais antigos documentos se referem aos "tamoios" como os índios que "habitavam as margens do rio Parahyba, e foram os desta nação os mais valorosos que teve o sertão...". Da ilha de São Sebastião para o norte até o litoral de Cabo Frio se estendia o território tamoio, abrangendo no interior a regiào do Vale do Paraíba do Sul. Anchieta em mais de uma carta, faz referência aos "tamoyos" ou "tamujas" do Paraíba. Durante o seu cativeiro em Ubatuba, onde fora intermediar as pazes com os tamoios confederados, ele assinala a chegada e partida dos índios do Paraíba.

Assim, em carta escrita de São Vicente, no dia 08 de janeiro de 1565 ao Superior Geral Diogo Laynez, narrando a sua viagem e cativeiro em Ubatuba, diz: aonde depois vieram mais de 300 dos tamujos moradores no campo, em um rio, mui nomeado, chamado Paraíba...". Em outro trecho da sua carta "Ao mesmo tempo que eu cheguei eram baixados os Tamujas do Paríba pelas montanhas que tinham abertas, por onde soiam a vir fazer seus saltos...". O Padre Simão de Vasconcelos, o cronista dos jesuítas, também se refere aos índios do Paraíba confederados com os tamoios do litoral "Por mar eram canoas duzentas, por terra eram os arcos que habitavam as ribeiras do rio Paraíba, com pacto que dessem todos sem cessar, até acabar com a capitania e senhorearem a terra...".

Quanto à distribuição etnográfica das tribos que habitavam o vale do paraíba, não possuímos elementos para situá-las ou nomeá-las corretamente. Os documentos quinhentistas pesquisados (cartas jesuíticas e atas da câmara) só se referem ao "tamoyos" e "tamujas" do paraíba ou aos "cõtrairos do paraíba". Região de passagem e ligação com o litoral de Paraty e Ubatuba, com São Paulo e com as montanhas do planalto mineiro, o vale do Paraíba foi uma região de migração e encontros de tribos e culturas diversas, conforme atestam os mais antigos e recentes achados arqueológicos, em Aparecida-Guaratinguetá, Piquete-Embaú, Paraitinga-Cunha, Caçapava, São José dos Campos e Jacareí. A presença indígena no Vale do Paraíba não se restringe aos achados arqueológicos, mas, se faz presença na toponímia das serras, rios, cidades, bairros, animais, peixes, árvores, aves e frutas, na culinária, no artesanato, nos mitos e crendices, na medicina natural, na linguagem, nos usos e costumes da gente valeparaibana, como tomar banho no rio, comer içá, queimar a terra para plantar, andar descalço, pitar em cachimbos de barro, assar ou cozinhar alimentos em folha de bananeira, estórias de bichos e nas casas de pau-a-pique e sapé. Resgatar esses valores e buscar as nossa raízes indígenas, constitui o desfio maior para descrição e a construção de uma possível identidade cultural da gente valeparaíbana.

Publicado por Ana Tropicana às agosto 13, 2005 06:12 PM

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