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agosto 15, 2005

«Kuarup», Lisboa!


Ritual Kuarup de ana tropicana

Estou entre a impressionante massa de 52 mil pessoas que assistem ao show dos U2. Arrepiante o efeito poderoso da multidão. Cada vez que as vozes se unem em coros para engrossar a noite, penso no intrigante fascínio dos fenómenos coincidentes. Nas entranhas do Brasil, algures numa clareira refundida no Amazonas, a "lua" de 14 de Agosto foi igualmente a escolhida para o Kuarup, rito que vem renovar o ciclo de eterna celebração dos espíritos ancestrais. No palco, Bono Vox abre a goela à noite sufocante de Lisboa. Na gema da Floresta, dilata-se o olho soberano do Grande Pajé Aritana, chefe das tribos Kamayurá, conduzindo as celebrações.

Toda a multidão é, sim, uma expressão de crença: um acontecimento político.







Foto: Ritual Kuarup [autor: Ana Tropicana com António Scorza]




Mavutsinim: O primeiro Kuarup ou a festa dos mortos
(Lenda Kamayurá, extraída da obra Xingu: os índios, seus mitos, de Orlando Villas Bôas e Cláudio Villas Bôas - Ed. Kuarup)


Mavutsinim (o primeiro homem no mundo) queria que os seus mortos voltassem à vida. Foi para o mato, cortou três toros da madeira de kuarup, levou para a aldeia e os pintou. Depois de pintar, adornou os paus com penachos, colares, fios de algodão e braçadeiras de penas de arara.

Feito isso, Mavutsinim mandou que fincassem os paus na praça da aldeia, chamando em seguida o sapo cururu e a cutia (dois de cada), para cantar junto dos kuarup. Na mesma ocasião levou para o meio da aldeia, peixes e beijus para serem distribuídos entre o seu pessoal. Os maracá-êp (cantadores), sacudindo os chocalhos na mão direita, cantavam sem cessar em frente dos kuarup, chamando-os à vida.

Os homens da aldeia perguntavam a Mavutsinim se os paus iam mesmo se tranformar em gente, ou se continuariam sempre de madeira como eram. Mavutsinim respondia que não, que os paus de kuarup iam se transformar em gente, andar como gente e viver como gente vive.

Depois de comer os peixes, o pessoal começou a se pintar, e a dar gritos, enquanto fazia isso. Todos gritavam. Só os maracá-êp é que cantavam. No meio do dia terminaram os cantos, o pessoal, então, quis chorar os kuarup, que representvam seus mortos, mas Mavutsinim não permitiu, dizendo que eles, os kuarup, iam virar gente, por isso não podiam ser chorados.

Na manhã do segundo dia Mavutsinim não deixou qie o pessoal visse os kuarup. "Ninguém pode ver" - dizia ele. A todo momento Mavutsinim repetia isso. O pessoal tinha que esperar. No meio da noite desse segundo dia os toros de pau começaram a se mexer um pouco. Os cintos de fios de algodão e as braçadeiras de penas tremiam também. As penas mexiam como se estivessem sacudidas pelo vento. Os paus estavam querendo transformar-se em gente.

Mavutsinim continuava recomendando ao pessoal para que não olhasse. Era preciso esperar.

Os cantadores - os cururus e as cutias - quando os kuarup começaram a dar sinal de vida cantaram para que se fossem banhar logo que vivessem. Os troncos se mexiam para sair dos buracos onde estavam plantados, queriam sair para fora. Quando o dia principiou a clarear, os kuarup do meio para cima já estavam tomando forma de gente, aparecendo os braços, o peito e a cabeça. A metade de baixo continuava pau ainda.

Mavutsinim continuava pedindo que esperassem, que não fossem ver. "Espera...espera...espera" - dizia sem parar. O sol começava a nascer. Os cantadores não paravam de cantar. Os braços do kuarup estavam crescendo. Uma das pernas já tinha criado carne. A outra continuava pau ainda. No meio do dia os paus começavam a virar gente de verdade. Todos se mexiam dentro dos buracos, já mais gente do que madeira.

Mavutsinim mandou fechar todas as portas. Só ele ficou de fora, junto com os kuarup. Só ele podia vê-los, ninguém mais. Quando estava quase completa a transformação de pau para gente, Mavutsinim mandou que o pessoal saísse das casas para gritar, fazer barulho, promover alegria, rir alto junto dos kuarup. O pessoal, então, começou a sair de dentro das casas.

Mavutsinim recomendava que não saíssem aqueles que durante a noite tiveram relação sexual com as mulheres. Um, apenas, tinha tido relações. Este ficou dentro da casa. Mas não agüentando a curiosidade, saiu depois. No mesmo instante, os kuarup pararam de se mexer e voltaram a ser pau outra vez.

Mavutsinim ficou bravo com o moço que não atendeu à sua ordem. Zangou muito, dizendo: - O que eu queria era fazer os mortos viverem de novo. Se o que deitou com mulher não tivesse saído de casa, os kuarup teriam virado gente, os mortos voltariam a viver toda vez que se fizesse kuarup. Mavutsinim, depois de zangar, sentenciou:

- Está bem. Agora vai ser sempre assim. Os mortos não reviverão mais quanto se fizer kuarup. Agora vai ser só festa.

Mavutsinim depois mandou que retirassem os buracos os toros de kuarup. O pessoal quis tirar os enfeites, mas Mavutsinim não deixou. "Tem que ficar assim mesmo", disse. E em seguida mandou que os lançassem na água ou no interior da mata. Não se sabe onde foram largados, mas estão lá até hoje lá, no Morená.




Kuarup, a cerimónia dos mortos
(extraído da obra A Marcha para o Oeste, por Orlando e Cláudio Villas Bôas)

Na hora do almoço chegou o motor da aldeia. A festa havia terminado. Chamamos de festa por causa da luta e das flautas na fase final, mas em verdade o que assistimos foi o mais importante cerimonial dos índios desta região.

Os mortos são representados por toras de madeira (madeira especial, de origem lendária) plantados no centro da aldeia. Cada família enfeita o seu "morto" com os melhores e mais caprichosos enfeites que possuem, e a seu pé choram um dia e uma noite. Para trás, dois contadores, com o corpo um pouco curvado, seguram com a mão esquerda um arco que serve como Cordão, enquanto com a direita sacodem o maracá, que marca o ritmo do canto que entoam. A madrugada inteira, sempre os mesmos contadores, cantam chorando, sempre agitando o maracá. Ao pé de cada tora de madeira um pequeno fogo é ativado a noite toda pela família, que dele não se desgarra um só minuto. A essa tora de madeira dão o nome de Kuarup. O velho Karatsipá foi um dos contadores deste Kuarup. É uma cena sem dúvida impressionante ver um velho de quase 90 anos, já sem voz, chorar toda a madrugada batendo um maracá, instrumento mágico feito de cabaça.

O Kuarup é a encenação da lenda da criação. Só se justifica a cerimônia quando morre um índio de linhagem que outro não é senão aquele que foi criado pelo herói Criador, Mavotsinin. A tora de madeira que representa o morto tem mais ou menos um metro e sessenta de altura, sendo que os trinta a quarenta centímetros do topo são de uma madeira que os índios chamam de mavunhá - a mesma usada pelo Criador.

Passado o Kuarup, os índios que lá estavam, antes de regressar às suas aldeias, resolveram vir até aqui. Assim é que chegaram seis canoas com quarenta índios cuicuros, duas outras com quinze inalapitis e algumas dezenas de índios camaiurás. Karatsipá veio com o motor, acompanhado pelo juruna Tamacu.




Deixo algumas notas que, entretanto, tudo somado, fui tirando.




O Kuarup - Ritual dos grupos indígenas do Parque do Xingu para homenagear os mortos. Os troncos feitos da madeira “kuarup” são a representação concreta do espírito dos mortos ilustres. Corresponderia a cerimônia de finados dos brancos, entretanto, o Kuarup é uma festa alegre, afirmadora, exuberante, onde cada um coloca a sua melhor vestimenta na pele. Na visão dos índios, os mortos não querem ver os vivos tristes ou feios. (1)

Descrição do Kuarup da tribo Kuikuro – Região do Rio Kuluene
Uma cerimônia de mais profundo sentimento humano realizam os Kuikuro no mês de maio de cada ano e sempre em uma noite de lua cheia. Num cenário fantástico os índios desta tribo, convidam as tribos amigas para evocarem juntas, as almas dos mortos ilustres. Ainda noite, trazem da floresta vários toros de madeira, conforme o número dos que desapareceram, que vão ficando em linha reta no centro do terreiro em frente às malocas onde são recortados na forma humana de cada um e pintam neles as respectivas insígnias que em vida os fazia distinguir pajés, guerreiros, caçadores ou até mesmo aqueles que maior descendentes legaram à comunidade. Enquanto são executados estes trabalhos. Alguns homens com arco e flechas entoam hinos aos mortos.

Preparação do tronco ou o kuarup - Tudo pronto, aos gritos de há-ha, vão os homens às malocas e de lá voltam acompanhados das mulheres e crianças. As mulheres, de cabelos soltos, trazendo algumas frutas e guloseimas, em largas folhas de palmeira, outras, ricos cocares, plumagem de coloridos vivos, braceletes e colares, aproximam-se em passos harmoniosos dos kuarupes e em voz baixa como um sussurro, travam com eles um pequeno diálogo em que parecem exprimir toda a gratidão, falando-lhes das saudades que deixaram, oferecendo-lhes ao mesmo tempo os frutos e guloseimas, e enfeitando-os com os ricos cocares, as plumas, os braceletes.
Vai-se fazendo noite, não tarda a escuridão, os homens trazem da floresta archotes de palha incendiados, cuja luz violenta faz luzir os corpos untados de urucum em reflexos metálicos que desenham toda a beleza dos seus músculos.
Começa a dança do fogo, fantástica visão em volta dos kuarupes.
Primeiro em passos cadenciados depois em um crescendo cada vez maior, ao ritmo do chocalhar dos maracás e das canções místicas, até se fazer ouvir a voz do pajé, numa evocação a Tupã, implorando fazer voltar à vida aqueles mortos ilustres. Neste exato momento a lua cheia se encontra em seu máximo esplendor. Terminando a evocação os homens se dispersam pelo terreno em pequenos grupos, enquanto só o pajé continua a entoar as suas loas até o alvorecer. De novo voltam as mulheres para ouvirem os cânticos que lhes anunciam ter o sol feito voltar à vida os mortos ilustres. Então começa a dança da vida e é executada pelos atletas da tribo, cada um trazendo ao ombro uma longa vara verdejante, símbolo dos últimos nascidos na comunidade.
Os atletas formam um grande círculo correndo em volta dos kuarupes ao mesmo tempo que em gestos e curvaturas os reverenciam. Depois o grande círculo se divide em dois e logo cada qual se dissolve em vários grupos representando a sua respectiva tribo.

Huca-huca - É um momento de intenso silêncio, homenagem a estes últimos nascidos. Finda a homenagem, as diversas tribos executam uma luta que denominam “Uka-uka*” uma espécie de luta romana.
Encerram a cerimônia em que os Kuarupes são, em festiva procissão, levados para o rio, e lá, entregues às suas águas.(2)

* Outras grafias: "huca-huca" e "huku-huka".
(1). Índios – Suplemento Especial. Encarte do Jornal Radical, produzido em parceria com a FUNAI – Fundação Nacional do Índio. Abril de 1997.
(2). Danças do Brasil / Felícitas. - Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint Ltdda., sem/data

Publicado por Ana Tropicana às agosto 15, 2005 10:34 AM

Comentários

ciúme por saber vc assistindo aos GRANDES........!! muito ciúme, viu?! ;) Beijos, Garota

Publicado por: Samuel às agosto 15, 2005 04:02 PM

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