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junho 14, 2005

A Escrita dos Outros


Álvaro Cunhal foto de Acácio Franco

Leio no Editorial de hoje de A Capital, um apontamento sublime, saído da pena de Rogério Rodrigues, que me impressiona pela simplicidade com que - num breve traço - se talha com tamanha precisão o esboço de um homem:

«Os outros para Cunhal, com algum afecto e alguma familiaridade eram apenas os camaradas. O seu espaço afectivo era controlado e subordinado ao seu espaço ideológico.(...) Os outros são para Cunhal aqueles que sempre lutam e resistem sempre. Todos os que abandonaram o Partido foram abandonados ou esquecidos por Cunhal, mesmo aqueles de quem, enquanto camaradas, muito gostou

Editorial de 14 de Junho de 2005 (Terça-Feira)

«Costuma citar-se um poeta latino que escreveu levarem os deuses mais cedo aqueles que mais amam. Com Cunhal passou--se o contrário: amado pelos deuses, foi levado quando já passava dos 91 anos. Hoje, chegou a hora da tolerância que não se pode confundir com a hipocrisia. Os outros para Cunhal, com algum afecto e alguma familiaridade eram apenas os camaradas. O seu espaço afectivo era controlado e subordinado ao seu espaço ideológico. Não se conhece nenhum amigo de Cunhal que não seja comunista. Duvido mesmo de que o conceito de amizade de Cunhal não fosse na sua essência uma manifestação de fraternidade, um empenho na partilha dos mesmos ideais, da mesma luta e do mesmo sofrimento. Porque Cunhal nunca quis ser um homem feliz ainda que a sua luta fosse pela felicidade. Tinha um conceito tão extremo da Justiça, que não suportava a felicidade como manifestação quotidiana e burguesa, suportada no egoísmo de classe. Desde sempre se assumiu como um «filho adoptivo do proletariado», convicção pela primeira vez publicamente expressa num dos seus julgamentos, frente aos juízes do plenário, na década de 50. Os outros são para Cunhal aqueles que sempre lutam e resistem sempre. Todos os que abandonaram o Partido foram abandonados ou esquecidos por Cunhal, mesmo aqueles de quem, enquanto camaradas, muito gostou. A tudo resistiu Cunhal, excepto à erosão do Tempo, do seu e do outro, o que destruiu impérios, perturbou consciências e relativizou qualquer sonho. Às vezes, sobretudo nesta hora, imagino Cunhal como o rei Lear, já cego, mas lúcido, a assistir, entre a amargura e a impotência, a lutas de pequenos poderes, ele que do Poder tinha uma visão que ultrapassava os limites da realidade para se aproximar do Absoluto. Cunhal marcou o século XX português, não pelo pensamento, antes pela doutrina. Foi o mais hábil manejador da fórmula, tinha a sensibilidade do artista escondido no político (por uma causa subordinou a arte à revolução, mesmo que a arte pudesse ser revolucionária) e uma capacidade de sedução aliada a uma rigidez na recusa da informalidade e da confidência. Mantendo a distância, aproximou-se do mito. Podia ter sido um grande escritor, podia ter sido um grande pintor, podia ter sido um grande advogado. Preferiu ser revolucionário. Tudo podia ter sido e tudo o que quis ser não foi: um homem com o Poder. Ficará para a História como o último paladino português de um país que teimou em mudar e que se recusa a mudar. Valha-nos a sua luta. Mesmo os seus erros.»

Por Rogério Rodrigues (Jornalista)
Pode ler-se AQUI.

Publicado por Ana Tropicana às junho 14, 2005 09:32 AM