junho 24, 2005

3 dias e 3 noites, a "meditar" sobre a Crise...

Blog de "papo para o ar", a 2 milhas da costa, onde "arrastão" não entra.
Para qualquer assunto, mandar pombo correio, ou mensagem na garrafa.

Publicado por cotadaembolsa em 09:45 AM | Comentários (7)

junho 23, 2005

Pobre em bens, Rico em estilo

- «Anda, vem».
Senti que me apertavas a mão com decisão.
Caminhamos por ali lentamente, guiavas os meus passos, como há já muito guiavas a minha vida. Sempre foi estranha a forma como acedia a todos os teus pedidos, também hoje estava disposta a fazê-lo sem perguntas, tranquilamente, confiante, como se fosses apenas uma parte de mim e as tuas vontades fossem alguns dos meus implusos. 
Paraste de repente, quase tropecei em ti e disseste:
- «Um dia, tudo isto em redor será teu.»
A tua boca aflorou levemente o meu rosto. Senti o teu cheiro. Uma leve brisa afagou-me os cabelos.
Talvez não soubesses que, para além do teu amor, nada do que me desses importava mas mantive um silêncio de quem entende tudo.
Voltaste a pegar-me na mão e de novo conduziste os meus passos.
Quando finalmente me trouxeste a Casa, envolta num turbilhão de
sentimentos, queria dizer-te tanto... as mão tremiam, não conseguia abrir a porta...
Balbuciei:
- «Olha meu amor, foi uma tarde linda mas... para conseguir ver o buraco da fechadura, agora vais ter mesmo que me tirar a merda da venda dos olhos...

Publicado por cotadaembolsa em 12:57 PM | Comentários (0)

... mais «Causas» e «Cousas» que defendo:

APOIADO !

Publicado por cotadaembolsa em 11:07 AM

junho 22, 2005

Amar em Portugal...

Sonhara este momento há muito tempo.
Com grande esforço, havia construído aquela Casa, no meio de tantas outras construcções ilegais. 
Ficara magnífica...
Erguiam-se agora no morro, para que nada os disturbasse, os altos muros que imaginara. 
Não tinha sido fácil. 
Tempos de trabalho árduo, a roubar «tesos» nas praias de Carcavelos e nos comboios da linha de Sintra. Mas tudo isso culminava aqui, na sua melhor janela, com vista para as torres de Alfragide.
Ela tinha-lhe prometido que aparecia hoje.
E era bom que não tardasse. A ânsia, já lhe escoara  as «ganzas» que tinha para fumar nesse dia. Espreitava, entre as fendas do muro, na esperança de ouvir o sinal.
Lá fora, a confusão era grande. Sampaio, batia incessantemente ao seu portão, acordara nesse dia com vontade de passear por ali a democracia, distraindo a atenção dos pretos para uma manifestação contra a violência.

- «Já não bastava não ter podido dar umas navalhadas nos cabeças rapadas, ainda tinha que me aparecer o palerma do ruivo», pensou.

Tinham combinado tudo. Ele abriria a porta quando ouvisse aqueles dois tiros para o ar.

Era ela...

Linda, linda... com a Walter de 9mm na mão, bronzeado homogéneo, dentes, palmas das mão e pés alvos, cabelo entrançado em mil cores. Era, sem dúvida, o "Arco-Íris" da sua Vida. Só a certeza de que era única, o mantivera à espera por tanto tempo.

Puxou-a pela mão. Não poderia mais conter o desejo sufocado de a possuir como fez àquela bolsa na estação do Metro, não aguentava mais o martírio desse dia. 
Beijaram-se, uma, outra e outra vez...
A noite, perdida em preliminares, deixara-o perto da loucura.
Entrava já lentamente a madrugada quando decidiram fazer o que deveria ser feito.
Decidiram. Finalmente ela seria sua.
Decidiram. Acabaria ali a dor por não ser um só.
Decidiram. Reduzir o mundo àquele quarto.
Decidiram. Não contribuir para mais fogos no País.
Decidiram. Dividir por dois bom e mau, síflis e gonorreia.
Decidiram...

Decidiram. Mas a «Equipa de Demolição de Barracas» da Câmara, não lhes deu tempo.

Publicado por cotadaembolsa em 12:09 PM | Comentários (3)

... Porque «o prometido é de "Vidro"». Cotada responde:

1. Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
”O que fazem Mulheres” de Camilo Castelo Branco.
... caem-me sempre bem considerações ironicamente benévolas sobre o adultério feminino...

2. Já alguma vez ficaste apanhado por uma personagem de ficção?
Sempre...
Só me apanham os personagens de ficção e a coisa dura até eu "acordar".

3. Qual foi o último livro que compraste?
Não me lembro. Quando vou pagar ele nunca deixa. Empurramo-nos em frente à caixa para ver quem tira primeiro o cartão e saímos a protestar.
... entretanto eu esqueço o livro.
O último que quis comprar foi o “Leah e Outras Histórias” de José Rodrigues Migueis...


4. Qual o último que leste?
Um mês com Montalbano” de Andrea Camilleri.
...Bom, é simplesmente delicioso, ok?

5. Que livros estás a ler?
O Extracto de uma Conta Corrente no pós-Paris”  
... este foi todo escritinho por mim, ao ritmo de um colapso por parágrafo.
Desta vez, excedi-me literalmente. 
... Desculpem, literariamente.

6- Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?
”Como encontrar um Sexta-Feira” de Robinson Crusoe;
“Manual de Caça e Pesca para principiantes”;
“Como lançar um «Very Light»”;
“Saiba se esta prevista a construcção de um Shopping na sua àrea de residência”;
“Faça você mesmo”.

7 - A que 3 pessoas vais passar este testemunho?
Oh pá, eu sou uma gaja porreira, não mando destas «secas» a ninguém, meu. Se quisesse chatear 3 manfios, mandava-lhes um cigano meu amigo.

Publicado por cotadaembolsa em 09:19 AM | Comentários (2)

junho 20, 2005

5 milhões de enganados provam «Toque Rectal»



«Eu sempre fui Sofista!!

Eles é que não me entenderam!!

E agora, passa p'ra cá a taça dos impostos porque este dedo que aqui vedes, é p'ra meter no cu dos portugueses!!»


(Sócrates)


(... ao menos lubrifica a luva, pá...)

Publicado por cotadaembolsa em 10:14 AM | Comentários (7)

«Poema que Aconteceu»

 


(Carlos Drummond de Andrade)



Nenhum desejo neste Domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

 

Publicado por cotadaembolsa em 09:09 AM

junho 17, 2005

De olhos no «Futuro»...

Quando chegamos a adultos, passamos a dizer que a "esperança" está nas crianças e nos tempos que hão-de vir.
Há algum tempo aprendi que a podemos encontrar no passado, olhando apenas os "resistentes" à Vida.

... não sei porquê mas acho que cresci...


Publicado por cotadaembolsa em 10:26 PM | Comentários (2)

junho 15, 2005

... já nem a Fé nos salva...

«Os portugueses estão entre os europeus que menos se interessam pela política e mais acreditam em Deus.»

... parece-me lógico, com as políticas que temos, toda a gente sabe que só teremos safa por intersecção divina.

... mas agora aqui entre nós caro Anjo-da-Guarda:


Da próxima vez que uma portuguesa o chamar, para vir em sua protecção, tenha o cuidado de se fazer ouvir e venha de fato!
È claro que, nessa figura despojada, de tudo o que me disse ontem, só ficou uma nuvem branca...


Como raio tem coragem de me vir com essa conversa: «Vai e não tornes a pecar», hem??!! 

É preciso ter lata!!! Não há condições!!

 

Publicado por cotadaembolsa em 03:22 PM | Comentários (2)

junho 14, 2005

«BuonGiorno»

Há uns bons 4 ou 5 anos conheci o N.
Tempos de "Chat", IRC puro e duro, em que a malta se lança na arena e quase ninguém se safa sem umas nódoas negras ou uma cana do nariz partida.
Lembro-me, perfeitamente de ter sido eu a abrir um "olá"  e quem me conhece, bem sabe que eu nunca me lembro de nada destas porcarias e por isso mesmo deve estar assustado ao ler este parágrafo. Mas dizia que, recordo com clareza ter-me metido com este senhor, apenas pelo facto de que o seu nick era «BuonGiorno».
Dava eu, na altura, os primeiros passos no italiano. Primeiros e lentos.
Acontece que, a esses tempos, jurava a pés juntos não me apaixonar por nenhum, com a segurança que me traz o medo do exagero afectivo em que os referidos latinos são pródigos. Homens prolixos, também nunca me agradaram portanto, sem a ajuda do «Milagre do Amor» para a multiplicação das Línguas, seria difícil papaguear mais do que meia dúzia de frases que me impediam de morrer à fome para lá dos Alpes.
O N. já se entendia muito bem com a Língua e sem entrar em grandes diálogos, nem invadir privacidade, falávamos de "temps en temps", sobretudo deste gosto comum pela Itália. Por vezes não falávamos sequer, eu apenas recebia um «buon giorno» e íamos, cada qual, esgrimir os seus pvt's.
O meu gosto pelo Chat, foi-se tão depressa como chegou e há mais de 2 anos que não tinha notícias do N.
Há tempos, recebi um e-mail seu em que me apresentava o seu blog, fiquei boquiaberta com a coragem e destreza com que escreve em alemão e italiano e na resposta, enviei-lhe o link desta “página de tretas”, com a miserável vergonha de lhe mostrar isto completamente abandonado, qual mata à espera de fogos de Verão.
O N. tem tido a bondade de visitar o "vazio" desta página com alguma frequência e ontem deu-se uma interessantíssima coincidência: Sem trocar uma palavra e ainda sem que tivesse visto o meu post, resolveu publicar o mesmo poema de Eugénio de Andrade em italiano. Após tê-lo traduzido e publicado, visitou a minha página e deu de caras com ele. E não é que o poeta tivesse só este poema...
Nos próximos tempos, cederei a um pedido seu para algumas parcerias no
Divagare, é claro, desde que ele entenda que o meu italiano não está ao seu nível e que nesta fase da minha vida a produção far-se-à "divagar", "divagarinho" e às vezes parada.

Ti voglio bene anch'io N. ... e, a meus olhos, está brilhantemente traduzido...

ADDIO

Abbiamo spento per strada le parole, amore mio,
e ciò che ci è rimasto non basta
ad allontanare il freddo di quattro pareti.
Abbiamo spento tutto tranne il silenzio.
Abbiamo spento gli occhi con il sale delle lacrime,
abbiamo spento le mani a furia di stringerle,
abbiamo spento l'orologio e le pietre dagli angoli
in attese inutili.

Frugo con le mani le tasche e non ci trovo nulla.
Prima avevamo tanto da darci;
era come se tutte le cose fossero mie:
più ti davo e più ne avevo per darti.
Talvolta dicevi: i tuoi occhi sono pesci verdi.
E io credevo.
Credevo,
perché accanto a te
tutto diventava possibile.

Era così ai tempi dei segreti,
quando il tuo corpo era un acquario,
quando i miei occhi
erano veramente pesci verdi.
Oggi sono soltanto i miei occhi.
Poco ma vero,
occhi come tutti gli altri.

Abbiamo spento le parole.
Se dico adesso: amore mio,
non succede più nulla.
Eppure, prima che le parole fossero spente,
sono sicuro
che tutte le cose tremavano
soltanto al mormorare il tuo nome
nel silenzio del mio cuore.

Non abbiamo più niente da dare.
Dentro te
non c'è niente che mi chieda acqua.
Il passato è inutile come uno straccio.
E ti ho già detto: Le parole sono spente.

Addio

Eugénio de Andrade (poeta portoghese)
1923 - 2005

Publicado por cotadaembolsa em 07:19 PM | Comentários (1)

Ontem...

Ontem foi dia de Stº António.
Morreu Cunhal.
Morreu Eugénio de Andrade.
Vasco Gonçalves foi a sepultar.

... mas ontem ela fez nove anos e eu, ainda que no pior dos Infernos, sempre pude ver o Céu nos seus olhos azuis...

Publicado por cotadaembolsa em 10:44 AM | Comentários (5)

junho 13, 2005

Adeus

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

(Eugénio de Andrade)

Publicado por cotadaembolsa em 02:46 PM