novembro 06, 2003

Propinas

Tava-me a apetecer fazer a 20ª entrada cá no blog.
Não há fome que não dê em fartura.

PROPINAS

Já vi escrito e com bom estilo o seguinte argumento:
"O problema não é a propina em si, mas sim os aumentos brutais".

Ok, então se o problema não é a propina em si, será de certeza quanto é que do custo real é suportado pelo Orçamento do Estado, isto é, por todos nós.
E, da maneira como anda a evasão fiscal e só pagam os trabalhadores por conta de outrém, a questão é saber quanto do salário de um operário que ganha 100 contos vai servir para pagar os estudos do futuro engenheiro que vai ganhar 500 ou mil e a seguir o vai despedir para racionalizar custos.

A lógica das contas do Estado nunca foi grande, e a principal perversidade é que as despesas são "rígidas", "inflexíveis", etc. A única preocupação é ir sacar mais dinheiro ao indivíduo ou à economia para alimentar a máquina que já lá está e precisa de combustível.

Isso eu percebo, e há muita perversidade, estupidez e incompetência nesta equação em que uma "variável" é fixa.

Mas o que não percebo é como é que podemos justificar eternamente, em nome de um suposto "socialismo" que já se percebeu vazio, a perpetuar a injustiça de fazer todos pagar pelo investimento em alguns poucos.

É verdade que a igualdade de acesso ao ensino superior é algo "socialmente moral". Até aqui tudo bem.

O problema é quando se percebe que não há de facto igualdade de direitos, uma vez que quem tiver o azar de ter nascido no interior numa família de "salários mínimos" tem que alugar um quarto em Lisboa, Porto ou Coimbra se quiser estudar aquilo para que por azar tem vocação. E gasta nisso muito mais do que gasta nas propinas. E o total disso tudo é metado do rendimento da sua família.

A igualdade de direitos é um mito.
Podem-se pôr paliativos nisto, mas que sejam pelo menos criteriosos. É o mínmo que se exige.

Acho muito bem que subam as propinas até um valor próximo do custo real (se as Universidades são bem ou mal geridas, são outros 500...).
E acho muito bem que se monte como deve ser um efectivo apoio social, com os subsídios razoáveis em função dos rendimentos reais do agregado familiar, e condicionado a aproveitamento escolar efectivo.

Ou, então, que "inventem" algo que funciona na Suécia há pelo menos 20 anos: um sistema de empréstimo. Enquanto estuda, a pessoa contrai um empréstimo escolar que mais tarde, com os rendimentos do trabalho, pagará.

Assim ao menos não me arrepiaria quando o descapotável ao entrar na Universidade pública buzinasse ao varredor de ruas que lhe paga o bem-estar futuro.

Publicado por sergio em novembro 6, 2003 01:27 PM
Comentários

Se não concordasse já consigo antes de ler o seu texto, passaria concerteza a concordar depois de o ler.

Afixado por: xupacabras em novembro 6, 2003 02:20 PM