março 30, 2010

Este Blog Termina Aqui

Após sete anos (2003-2010) de actualizações quase diárias, e com o surgimento da página de fãs do Citador no Facebook, que conta com milhares de participantes, a existência deste Blog, em termos de actualização constante, deixou de fazer sentido. Este é portanto o último post, mantendo-se a existência deste Blog como arquivo de consulta.

Claro que o Citador continua vivo e bem vivo! Não só através do site principal e secção de reflexões que contém todo o conteúdo deste Blog, em Citador - Reflexões e Pensamentos, como na página de fãs de Facebook indicada em cima, além dos livros que têm sido publicados e cuja colecção se prevê aumentada com mais títulos a breve prazo.

A todos os utilizadores deste Blog, o nosso muito obrigado, e esperamos encontrá-los nos sítios indicados.

Publicado por pns em 08:00 AM | Comentários (120) | Secção Citações

março 28, 2010

A Falácia da Comparação

Os homens não se conhecem uns aos outros com facilidade, ainda que ponham nisso o melhor da sua vontade e das suas intenções. Porque há que contar sempre com a má vontade que tudo distorce.
Conhecer-nos-íamos melhor uns aos outros se não estivéssemos sempre a querer comparar-nos uns com os outros. Decorre daí que as pessoas fora do vulgar ficam em pior situação, porque, como as outras não chegam a poder comparar-se com elas, tornam-se alvo de demasiada atenção.

Johann Wolfgang von Goethe, in 'Máximas e Reflexões'

Publicado por pns em 12:27 PM | Comentários (1) | Secção Goethe, Johann

março 27, 2010

As Amizades Comuns

O que habitualmente chamamos amigos e amizades não são senão conhecimentos e familiaridades contraídos quer por alguma circunstância fortuita quer por um qualquer interesse, por meio dos quais as nossas almas se mantêm em contacto. Na amizade de que falo, as almas mesclam-se e fundem-se uma na noutra em união tão absoluta que elas apagam a sutura que as juntou, de sorte a não mais a encontrarem. Se me intimam a dizer porque o amava, sinto que só o posso exprimir respondendo: «Porque era ele; porque era eu».
(...) Não me venham meter ao mesmo nível essoutras amizades comuns! Conheço-as tão bem como qualquer outro, e até algumas das mais perfeitas do género, mas não aconselho ninguém a confundir as suas regras: laboraria num erro. Em tais amizades deve-se andar de rédeas na mão, com prudência e cautela - o nó não está atado de maneira que, acerca dele, não se tenha de nutrir alguma desconfiança. «Amai o vosso amigo», dizia Quílon, «como se algum dia tiverdes que o odiar; odiai-o como se tiverdes que o amar.» Este preceito, tão abominável se aplicada à soberana e superna amizade, é salutar a respeito das amizades comuns e habituais, em relação às quais se deve empregar este dito tão ao gosto de Aristóteles: «Ó amigos meus, não há nenhum amigo!»

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

Publicado por pns em 05:38 PM | Comentários (0) | Secção Montaigne, Michel de

março 26, 2010

A Criação de Deus como Travão aos Instintos

Uma obrigação para com Deus: esta ideia foi porém o instrumento de tortura. Imaginou-se Deus como um contraste dos seus próprios instintos animais (do homem) e irresistíveis e deste modo transformou estes instintos em faltas para com Deus, hostilidade, rebelião contra o «Senhor», «Pai» e «Princípio do mundo», e colocando-se galantemente entre «Deus» e o «Diabo» negou a Natureza para afirmar o real, o vivo, overdadeiro Deus, Deus santo, Deus justo, Deus castigador, Deus sobrenatural, suplício infinito, inferno, grandeza incomensurável do castigo e da falta. Há uma espécie de demência da vontade nesta crueldade psíquica. Esta vontade de se achar culpado e réprobo até ao infinito; esta vontade de ver-se castigado eternamente; esta vontade de tornar funesto o profundo sentimento de todas as coisas e de fechar a saída deste labirinto de ideias fixas; esta vontade de erigir um ideal, o ideal de «Deus santo, santo, santo», para dar-se meçhor conta da própria indignidade absoluta... Oh, triste e louca besta humana!

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Publicado por pns em 09:31 PM | Comentários (3) | Secção Nietzsche, Friedrich

março 25, 2010

A Cólera dos Bondosos e a Cólera das Almas Fracas

Podemos distinguir duas espécies de cólera: uma que é muito súbita e se manifesta muito no exterior, mas mesmo assim tem pouco efeito e pode facilmente ser apaziguada; e outra que inicialmente não aparece tanto, porém corrói mais o coração e tem efeitos mais perigosos. Os que têm muita bondade e muito amor são mais sujeitos à primeira. Pois ela não provém de um ódio profundo, e sim de uma súbita aversão que os surpreende, porque, sendo levados a imaginar que as coisas devem desenrolar-se da forma como julgam ser a melhor, tão logo acontece de forma diferente; eles ficam admirados e frequentemente se ofendem com isso, mesmo que a coisa não os atinja pessoalmente, porque, tendo muita afeição, interessam-se por aqueles a quem amam, da mesma forma que por si mesmos. Assim, o que para outra pessoa seria apenas motivo de indignação é para eles um motivo de cólera. E como a inclinação que têm para amar faz que tenham muito calor e muito sangue no coração, a aversão que os surpreende não pode impelir para este tão pouca bile que isso não cause inicialmente uma grande emoção no sangue. Mas tal emoção pouco dura, porque a força da surpresa não se prolonga e porque, tão logo percebem que o motivo que os contrariou não devia emocioná-los tanto, arrependem-se disso.

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Publicado por pns em 09:39 PM | Comentários (2) | Secção Descartes, René

março 24, 2010

Gosto Relevante

Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
Há perfeições como sóis e há perfeições como luzes. Galanteia a águia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela elevação do gosto. Tê-lo bom é já algo, tê-lo relevante muito é. Ligam-se os gostos à comunicação, e só por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
É qualidade um gosto crítico, um paladar difícil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfeições receiam-no. É a avaliação preciosíssima, e regateá-la é próprio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso é fidalga e, ao contrário, os desperdícios de estima merecem castigo de desprezo.
A admiração é vulgarmente um manifesto da ignorância; não nasce tanto da perfeição dos objectos, quanto da imperfeição dos conceitos. São únicas as perfeições de primeira grandeza: seja, pois, raro o apreço.

Baltasar Gracián y Morales, in "O Herói"

Publicado por pns em 09:18 PM | Comentários (1) | Secção Gracián y Morales, Baltasar

março 23, 2010

Os Amigos dos Outros

Faz grandes elogios de alguém na presença de um terceiro. Se este se mantém calado, é porque não é amigo do primeiro. O mesmo poderás adivinhar se ele desviar a conversa para outro assunto, se mal responde, se se esforça por moderar os teus elogios, se se diz mal informado acerca da pessoa em causa ou ainda se se lança no elogio de pessoas que nada têm que ver.
Podes igualmente mencionar um acto admirável praticado por essa pessoa - um acto acerca do qual sabes que o teu interlocutor está perfeitamente ao corrente - para veres se aproveita ou não para o valorizar. Reagirá, talvez, dizendo que, nesse caso, foi uma questão de sorte ou que a Divina Providência é, por vezes, muito pródiga. Ou então aproveitará para gabar proezas ainda mais notáveis de outros. Pode ainda afirmar que essa tua pessoa se limitou a seguir um bom conselho.

Jules Mazarin, in 'Breviário dos Políticos'

Publicado por pns em 09:15 PM | Comentários (2) | Secção Mazarin, Jules

março 21, 2010

A Culpa é Sentirmo-nos Culpados

A culpa é sentirmo-nos culpados, e não um resultado dos crimes cometidos; o ser inocente é alegre, feliz, e não deixa, seja em que caso for, que os acontecimentos perturbem a sua calma e a sua paz. É por isso que considero que a justiça erra quando executa os menos em vez dos mais culpados, quer dizer quando executa os criminosos e não aqueles que sentem que têm no coração a culpa do mundo. Isso equivale a executar crianças por acções que cometeram no escuro quando ignoravam tudo acerca do escuro e das reacções que provoca no funcionamento dos corpos. Uma vez que são culpados apenas os que se sentem culpados, seria necessário suprimir a justiça distribuitiva de castigos e substituí-la por uma justiça executora, porque ao fim de algum tempo aquele que a culpa mortifica já só aspira a morrer, a morrer pelas faltas do mundo como pelas suas próprias faltas, e pode sem a mínima hesitação, sim, sem a menor angústia de morte, uma vez que nada tem a esperar agora que tocou finalmente o fundo do mundo, pedir à justiça a sua pena de morte - e nunca outra cabeça se curvará mais graciosamente do que a sua por baixo da guilhotina, nunca colar algum terá acariciado a garganta de uma mulher com tanta delicadeza como a da corda ao aflorar-lhe o pescoço.

Stig Dagerman, in "A Ilha dos Condenados"

Publicado por pns em 02:51 PM | Comentários (0) | Secção Dagerman, Stig

março 20, 2010

O Perigo da Leitura Excessiva

Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: repetimos apenas o seu processo mental. Ocorre algo semelhante quando o estudante que está a aprender a escrever refaz com a pena as linhas traçadas a lápis pelo professor. Sendo assim, na leitura, o trabalho de pensar é-nos subtraído em grande parte. Isso explica o sensível alívio que experimentamos quando deixamos de nos ocupar com os nossos pensamentos para passar à leitura. Porém, enquanto lemos, a nossa cabeça, na realidade, não passa de uma arena dos pensamentos alheios. E quando estes se vão, o que resta? Essa é a razão pela qual quem lê muito e durante quase o dia inteiro, mas repousa nos intervalos, passando o tempo sem pensar, pouco a pouco perde a capacidade de pensar por si mesmo - como alguém que sempre cavalga e acaba por desaprender a caminhar. Tal é a situação de muitos eruditos: à força de ler, estupidificaram-se. Pois ler constantemente, retomando a leitura a cada instante livre, paralisa o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, visto que, na execução deste último, é possível entregar-se aos seus próprios pensamentos.

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Publicado por pns em 12:24 PM | Comentários (10) | Secção Schopenhauer, Arthur

março 19, 2010

Entender os Outros

Nós combatemos a nossa superficialidade, a nossa mesquinhez, para tentarmos chegar aos outros sem esperanças utópicas, sem uma carga de preconceitos ou de expectativas ou de arrogância, o mais desarmados possível, sem canhões, sem metralhadoras, sem armaduras de aço com dez centímetros de espessura; aproximamo-nos deles de peito aberto, na ponta dos dez dedos dos pés, em vez de estraçalhar tudo com as nossas pás de catterpillar, aceitamo-los de mente aberta, como iguais, de homem para homem, como se costuma dizer, e, contudo, nunca os percebemos, percebemos tudo ao contrário.
Mais vale ter um cérebro de tanque de guerra. Percebemos tudo ao contrário, antes mesmo de estarmos com eles, no momento em que antecipamos o nosso encontro com eles; percebemos tudo ao contrário quando estamos com eles; e, depois, vamos para casa e contamos a outros o nosso encontro e continuamos a perceber tudo ao contrário.

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Publicado por pns em 09:59 PM | Comentários (2) | Secção Roth, Philip

março 18, 2010

O Cansaço da Literatura

Entre os sinais que me avisam de que a juventude terminou, o principal é aperceber-me de que a literatura já não me interessa verdadeiramente. Quero dizer que já não abro os livros com aquela viva e ansiosa esperança de coisas espirituais que, apesar de tudo, outrora sentia. Leio e quereria ler cada vez mais, mas já não recebo as várias experiências com entusiasmo, já não as fundo num sereno tumulto pré-poético. A mesma coisa acontece-me ao passear por Turim; já não sinto a cidade como um incentivo sentimental e simbólico para a criação. Já está feito, dá-me vontade de responder de cada vez.
Tomadas em justa conta as minhas várias equimoses, obsessões, fadigas e terrenos estéreis, resulta claro que já não sinto a vida como uma descoberta e, muito menos, então, como poesia - mas, antes, como um frio material para especulações, análises e deveres. Aqui encalha, agora, a minha vida: a política, a prática, tudo coisas que se aprendem nos livros, mas os livros não alimentam como o faz, pelo contrário, a esperança de criação.
Ora, quando novo, procurava um sistema ético: descoberta a posição do impassível explorador, vivia-a e desfrutava-a sob a forma de criação. Agora, que deixei definitivamente de a desfrutar sob a forma de criação, apercebo-me de que não serve, sequer, para viver.
Eis um grave dilema: perdi tempo, até agora, ao escolher a poesia, ou o estado actual é premissa de mais profunda e vital criação?

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

Publicado por pns em 09:01 PM | Comentários (0) | Secção Pavese, Cesare

março 17, 2010

A um Amigo não se Empresta nem se Compra

Nada peças emprestado a um amigo: pode ser que não possua aquilo que faz crer a toda a gente que tem e, assim desmascarado, odiar-te-ia. De igual modo, se consentir contra a sua vontade ou se não recuperar o que lhe pertence em perfeito estado, guardar-te-á rancor. Tão-pouco compres a um amigo o que quer que seja: se te pedir um preço demasiado elevado, serás defraudado, se o preço for demasiado baixo, ficará ele a perder. Em ambos os casos, a vossa amizade ressentir-se-á.

Jules Mazarin, in "Breviário dos Políticos"

Publicado por pns em 09:22 PM | Comentários (1) | Secção Mazarin, Jules

março 16, 2010

Liberdade com Limites

Há muitas espécies de liberdade. Umas tem o mundo de menos, outras tem o mundo de mais. Mas ao dizer que pode haver «de mais» de uma certa espécie de liberdade devo apressar-me a acrescentar que a única espécie de liberdade que considero indesejável é aquela que permite diminuir a liberdade de outrem, por exemplo, a liberdade de fazer escravos.
O mundo não pode garantir-se a maior quantidade possível de liberdade instituindo, pura e simplesmente, a anarquia, pois nesse caso os mais fortes seriam capazes de privar da liberdade os mais fracos. Duvido de que qualquer instituição social seja justificável se contribui para diminuir o quantitativo total de liberdade existente no mundo, mas certas instituições sociais são justificáveis apesar do facto de coarctarem a liberdade de um certo indivíduo ou grupo de indivíduos.
No seu sentido mais elementar, liberdade significa a ausência de controles externos sobre os actos de indivíduos ou grupos. Trata-se, portanto, de um conceito negativo, e a liberdade, por si só, não confere a uma comunidade qualquer alta valia.

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Publicado por pns em 09:28 PM | Comentários (1) | Secção Russell, Bertrand

março 15, 2010

A Inveja é a Espada que Mais Corta

Lançar a melhor carta na baralha talvez é treta de jogador; esconder com indústria o com que melhor se pode ganhar, nunca foi consequência de perder. Que importa que no jogo seja o rei a melhor carta, se talvez porque as espadas são trunfo, não faz a figura vaza? A inveja é a espada que mais corta, e está esta carta de espadas levantada, desde que no jogo da fortuna se levantaram sujeitos. Esconder, pois, a melhor figura, será a melhor prudência para que ganhe a seu tempo. (...) Encobrindo a terra seus metais e ocultando o mar suas pérolas, granjeia em nossa estimação maiores admirações. O mesmo coral, que por baixo da água é buscado pelo seu valor, quando já descoberto, parece que, de corrido, se torna vermelho. É melhor que luzir em todo o tempo, o luzir somente a tempo; assim se enganam os olhos da inveja, e assim se concilia nos ânimos a estimação. Destes temperilhos necessita a fortuna, para se conservar sempre próspera, e de tal maneira que, como o seu curso é em roda, e no esférico não há primeiro nem último lugar, pode o último vir a ser o primeiro, e o primeiro vir a ser o último.

Padre António Vieira, in "As Sete Propriedades da Alma"

Publicado por pns em 09:00 PM | Comentários (8) | Secção Vieira, (Padre) António

março 14, 2010

Rica Ignorância

A ignorância degrada as pessoas apenas quando associada à riqueza. O pobre é limitado pela sua pobreza e pela sua necessidade; as suas realizações substituem nele a instrução e ocupam os seus pensamentos. Em contrapartida, os ricos, que são ignorantes, vivem meramente para os seus prazeres e assemelham-se às bestas, como se pode ver todos os dias. Quanto a isso, acrescente-se ainda a exprobação de que a riqueza e o ócio não teriam sido desfrutados para aquilo que lhes confere o maior valor.

Arthur Schopenhauer, in 'Sobre o Ofício do Escritor'

Publicado por pns em 01:55 PM | Comentários (1) | Secção Schopenhauer, Arthur

março 13, 2010

A Má Consciência como Inibição dos Instintos

A má consciência é para mim o estado mórbido em que devia ter caído o homem quando sofreu a transformação mais radical que alguma vez houve, a que nele se produziu quando se viu acorrentado à argola da sociedade e da paz. À maneira dos peixes obrigados a adaptarem-se a viver em terra, estes semianimais, acostumados à vida selvagem, à guerra, às correrias e aventuras, viram-se obrigados de repente a renunciar a todos os seus nobres instintos. Forçavam-nos a irem pelo seu pé, a «levarem-se a si mesmos», quando até então os havia levado a água: esmagava-os um peso enorme. Sentiam-se inaptos para as funções mais simples; neste mundo novo e desconhecido não tinham os seus antigos guias estes instintos reguladores, inconscientemente falíveis; viam-se reduzidos a pensar, a deduzir, a calcular, a combinar causas e efeitos. Infelizes! Viam-se reduzidos à sua «consciência», ao seu órgão mais fraco e mais coxo! Creio que nunca houve na terra desgraça tão grande, mal-estar tão horrível!

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Publicado por pns em 09:06 PM | Comentários (0) | Secção Nietzsche, Friedrich

março 12, 2010

Afinidades Eternas

Não é possível cortar para sempre com tudo o que nos liga a pessoas que pensam verdadeiramente como nós. Acabamos sempre por voltar a estar de acordo nalgum ponto. Com os que pensam de maneira deveras contrária à nossa é baldado o esforço para manter algum acordo, porque acaba sempre por se desfazer.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"

Publicado por pns em 09:54 PM | Comentários (1) | Secção Goethe, Johann

março 11, 2010

Amor e Amizade

Não podemos comparar à amizade a afeição que sentimos para com as mulheres, conquanto ela provenha da nossa escolha, nem tão-pouco podemos pô-la na mesma categoria. O seu fogo, confesso-o,

Pois não nos é desconhecida a deusa que um doce amargor junta aos cuidados de amor - Catulo, 'Epigrammata'

é mais activo, abrasador e acerbo, mas é um fogo intempestivo e volúvel, ondulante e diverso, febril, com altos e baixos e que só se prende a nós por um fio. Na amizade há um calor geral e total, de resto, temperado e igual, um calor constante e tranquilo, todo doçura e suavidade e sem nada de áspero ou de pungente. E o que mais é, no amor não há senão um desejo louco furioso do que nos foge:

Tal como à lebre segue o caçador, / Por montes e vales, ao frio e ao calor / E mal a vê presa mais não lhe liga, / Só o passo estuga desde que a persiga - Ariosto, 'Orlando Furioso'

Logo que entra nos domínios da amizade, onde as vontades vão ao encontro uma da outra, o amor esvai-se e enlanguesce. A fruição perde-o, uma vez que o seu objectivo é corporal e está sujeito à saciedade. A amizade, ao invés, é fruída à medida que é desejada, e só desponta, se desenvolve e cresce na fruição, já que é espiritual, e a alma se aperfeiçoa pela prática. Durante essa perfeita amizade, tais afeições passageiras também encontraram lugar para mim, para já não falar de La Boétie, que por de mais o revela nestes seus versos. Assim, os dois tipos de afeição coexistiram em mim, cientes um do outro, mas sem nunca se poderem equiparar: o primeiro, mantendo a sua rota em voo altaneiro e majéstico, e vendo com desdém o outro a fazer piruetas a um nível muito inferior ao seu.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

Publicado por pns em 09:56 PM | Comentários (2) | Secção Montaigne, Michel de

março 10, 2010

Da Conversa

Há quem, na conversa, prefira mostrar espírito brilhante, e ser capaz de sustentar todos os argumentos, a exercer o juízo no discernimento da verdade, como se houvesse maior mérito em saber o que pode ser dito, do que em conhecer o que deve ser pensado, alguns têm certos lugares comuns e certos temas em que se mostram bons conversadores, mas são falhos na variedade; esta espécie de indigência é quase sempre aborrecida, e de vez em quando ridícula; a parte mais honrosa do colóquio consiste em dar ocasião a novo tema, e também em moderar ou acelerar a transição para assunto diferente; é bom variar, mesclando o assunto de que se está a conversar com argumentos, narrativas com discussões, perguntas com respostas, jocosidades com seriedades; há, porém, assuntos que não permitem brincadeira, nomeadamente a religião, os negócios do Estado, as altas personalidades, todas as questões de importância para as pessoas presentes, enfim, todos os casos dignos de dó.

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Publicado por pns em 09:13 PM | Comentários (1) | Secção Bacon, Francis

março 09, 2010

A Vaidade como Base da Sociedade

logb5.jpgNada contribui tanto para a sociedade dos homens, como a mesma vaidade deles: os Impérios, e Repúblicas, não tiveram outra origem, ou ao menos não tiveram outro princípio, em que mais seguramente se fundassem: na repartição da terra, não só fez ajuntar os homens os mesmos géneros de interesses, mas também os mesmos géneros de vaidades, e nisto se vê dois efeitos contrários; porque sendo próprio na vaidade o separar os homens, também serve muitas vezes de os unir. Há vaidades, que são universais, e compreendem Vilas, Cidades, e Nações Inteiras; as outras são particulares, e próprias de cada um de nós; das primeiras resulta a sociedade, das segundas a divisão.

Matias Aires, Filósofo, 1705-1764, in "Reflexões Sobre a Vaidade dos Homens e Carta Sobre a Fortuna"

Publicado por pns em 07:33 PM | Comentários (1) | Secção Aires, Matias

março 08, 2010

Prudência é o Saber Acomodar

Espaçosa esfera é a do entendimento para discorrer por todos os objectos, e contudo tem seus intervalos em que acha comodidades o corpo: não descansa este no silêncio da noite, sem que aquele se esconda no mais interior da alma. Ainda o discorrer demasiado, dando voltas ao entendimento, é arriscar a que dê o entendimento uma volta; e como é arriscado o discorrer sem termo, não é o menos perigoso o luzir sem pausa. Seus intervalos hão-de ter os luzimentos grandes, e nem por isso deixarão de ser lúcidos intervalos, quando o saber acomodar é para melhor luzir; por isso o Sol é o melhor dos planetas, porque sabe acomodar suas luzes à dureza do diamante, como à brandura da cera; e os mesmos raios que infundem a dureza no bronze, se acomodam aos melindres de uma flor. Prudência é o saber acomodar, para melhor luzir e viver.
Brilhar com demasiado luzimento nas acções, mais estorva os aplausos do que os granjeia; porque, na opinião de Séneca, não sabem os homens aplaudir senão aquilo que só podem imitar. Com ser a luz do Sol o mais agradável objecto à vista, contudo, se é grande o excesso de seus ardores, o mesmo que é agrado da vista, chega a ser perturbação dos olhos.

Padre António Vieira, in "As Sete Propriedades da Alma"

Publicado por pns em 07:05 PM | Comentários (2) | Secção Vieira, (Padre) António