março 08, 2005

Tarde Demais

Por JOSÉ MANUEL LOPES CORDEIRO
Domingo, 9 de Abril de 2000

Há cinquenta anos, completados na passada quarta-feira, a lancha a motor "Foz do Sousa", que efectuava regularmente a ligação entre o Cais das Padeiras, próximo da Ponte Luís I, e as povoações de Avintes, Atães e Foz do Sousa, dos arredores do Porto, afundou-se repleta de trabalhadores de regresso a casa, tendo perdido a vida cerca de trinta pessoas. O sinistro ocorreu por volta das 18h30, quando a lancha navegava em frente a Oliveira do Douro, muito próximo da margem daquela freguesia de Vila Nova de Gaia.
Apesar do bom tempo que se fazia sentir naquele fim de tarde, permitindo uma excelente visibilidade, e da experiência do mestre da embarcação - que contava 28 anos de vida fluvial -, por motivos inexplicáveis, este não viu uma lingueta de pedra da Quinta da Vinha, então propriedade do conhecido industrial têxtil portuense Sebastião Ferreira Mendes, tendo a lancha, que navegava demasiadamente encostada a terra, embatido violentamente, a meia nau, com a referida lingueta, o que lhe provocou um rombo junto à proa numa extensão de três metros. O mestre da lancha, que não se terá apercebido da proximidade do obstáculo por este se apresentar parcialmente submerso, quando se deu conta da iminência do embate ainda o tentou evitar, mas após a colisão com a lingueta o motor foi abaixo e em pouco tempo a embarcação - construída apenas dois anos antes - começou a meter água, ficando incontrolável e deslizando ao sabor da corrente, dado que a maré estava a vazar, ao mesmo tempo que começava a afundar-se.
Com o pânico instalado a bordo e a lancha a afundar-se rapidamente, estabeleceu-se uma situação de grande confusão e descontrolo, que impossibilitou o salvamento de uma parte dos passageiros, muitos dos quais não sabiam nadar, não obstante a margem do rio se encontrar muito próxima. O facto de a lancha transportar um número de passageiros muito superior ao da sua lotação agravou ainda mais o trágico desastre, pois os socorros prestados por algumas pessoas que se encontravam na margem do rio eram insuficientes para responder a tão elevado número de sinistrados. Apesar da lotação da lancha ter sido definida pela Capitania em oitenta lugares, era prática corrente a mesma transportar um número de passageiros em muito superior. Foi o que aconteceu naquela tarde, pois, após o desastre, nem o proprietário nem os tripulantes da lancha sabiam ao certo quantas pessoas transportavam. Aliás, nem sequer havia venda de bilhetes. O passageiro entrava, pagava, e tentava acomodar-se da melhor maneira possível.
Ao presenciarem o acidente, alguns transeuntes e pescadores que se encontravam na margem do Douro acorreram a salvar os náufragos, enquanto o feitor da Quinta das Carvalheiras, contígua à Quinta da Vinha, correu para o telefone, a fim de chamar os Bombeiros Voluntários de Avintes, assim como os Municipais, tendo-se estes encarregado de convocar outras corporações do concelho. Até à sua chegada, os circunstantes e as tripulações de outras embarcações que passavam nas proximidades empenharam-se em tentar salvar os náufragos - entre os quais se encontravam inúmeras mulheres e crianças -, tendo ainda conseguido evitar o afogamento de algumas pessoas. Mas, quando começaram a chegar as corporações de bombeiros, aptas a prestar os indispensáveis socorros, era tarde de mais. Estas limitaram-se, então, a montar as macas para transporte dos cadáveres, e a iniciar as operações para trazer a malograda lancha à superfície, ao mesmo tempo que, num esforço que se prolongou durante a noite, mergulhadores tentavam encontrar os corpos dos passageiros que tinham perecido no acidente e que ainda não tinham sido encontrados. De facto, no rescaldo do naufrágio, confirmaram-se dezasseis óbitos e mais de uma dezena de desaparecidos, que nunca chegaram a ser encontrados, apesar de todos os esforços empreendidos nesse sentido.
O terrível sinistro causou uma profunda comoção junto dos familiares e amigos das vítimas, e uma imensa consternação nos habitantes das povoações ribeirinhas de que as mesmas eram originárias. A comunicação social noticiou com grande destaque, durante dias, a tragédia da barca "Foz do Sousa", a qual emocionou profundamente o País, tendo o Presidente da República, Óscar Carmona, e o presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, apresentado as condolências aos familiares das vítimas e às populações das freguesias em que as mesmas residiam.

Publicado por marinheiro às 12:39 PM | Comentários (0)