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fevereiro 19, 2006

Escorre do nariz um líquido branco, ou melhor, translúcido. É o meu nariz e o líquido sai de dentro de mim, onde se forma e acumula. O rosto congestionado. Deitado, receando apagar a luz, imagino doenças fatais: conto os dias as horas e os minutos que se reduzem rapidamente até serem apenas aquele segundo terminal após o qual termina tudo. Estou na galeria imaginária; na parede do quarto, entre a estante e o armário, vejo um dois três alguns quadros, afinal sempre os mesmos no olhar contaminado que os vê. As ruas são sempre curtas com rostos que não consigo rebater. Dos seus lábios partem linhas invisíveis que lançam ancoras de aço nos tendões dos meus músculos. Assim, como um boneco de trapos, ao seu comando, salto, pulo, faço piruetas quebradas.

Publicado por sterne às 12:19 AM | Comentários (434)

ACORDAR NA RUA DO MUNDO

madrugada. passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas. no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençois na corda
abanam os prédios. pombos debicam

o azul dos azulejos. assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda o pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário

LUIZA NETO JORGE

Publicado por sterne às 12:00 AM | Comentários (378)