novembro 22, 2003

televisão de merda

Falei eu de infelicidade na última entrada... Vejam televisão se quiserem intensificar a amargura! Num dia qualquer desta semana que passou, percorria eu as propostas de todos os canais, num processo ridiculamente apelidado de zapping, para invariavelmente descobrir que a melhor coisa a fazer é ler um livro. Mas façamos justiça a quem a merece, nesse mesmo dia e cerca de uma hora antes da minha infrutífera busca, pude exercitar a imaginação com uma série que aconselho "Mentes Assassinas"; procurem o dia no teletexto, com a televisão que temos, ainda é o melhor canal. O problema veio depois. Na putrefacta TVI, estava então a dar o compacto, ou especial, ou o raio que parta do Big Brother. Aquilo de facto é ridículo, e agora ridículo elevado à quarta. Pobre George Orwell, se soubesse como lhe deturparam o conceito. Mas retive-me um pouco, porque, imagine-se, iam falar de figuras americanas proeminentes. E pela primeira vez deu para rir às gargalhadas. Mas é um riso entristecido, de inevitável conformação. O que dizer quando vejo meia dúzia de jovens da minha idade, ou mais novos, a catalogar o maior jogador de beisebol de todos os tempos, Babe Ruth, como manequim? Entre muitos outros dislates. Mas com a continuação do programa descobri que estava tudo no lugar certo: é gentalha da pior espécia a concorrer e a promover o concurso. Então não é que o canalha que teve a ideia desta prova resolveu chamar ao grande Martin Scorsese, "Martin Scorcese"... Façam como eu, se não os compreendem, deixem-nos entender sozinhos, sem sequer espreitar. Só desepera!....

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novembro 18, 2003

complicações...

A vida não parece, à primeira vista, muito complicada. Mas é. No fundo não é preciso muito para se ser feliz. Não vou definir aquilo que entendo ser necessário para esse objectivo, até porque, aquilo que me faria feliz a mim, não fará obrigatoriamente feliz outro qualquer ser humano. Mas porque será então difícil conseguir essa mão cheia de pequenos nadas?! O que fará de nós amargurados seres constantemente infelizes?! Será que projectamos em demasia? Será que o nosso conhecimento atingiu níveis incompatíveis com a felicidade? Sim, porque na infância, a verdadeira idade da inocência, até conseguimos ser felizes. Porém se conhecimento e felicidade são inversamente proporcionais, porque raio sentiremos tanto prazer em aprender? Será porque tudo quanto dá prazer é prejuducial? Não me parece possível tirar conclusões exactas. Parece-me isso sim que a maioria das pessoas são infelizes. Numa vida plena de felicidade, não seria lógico que dormir fosse considerado uma perda de tempo? E porque é que há tanta gente que só na infelicidade dos outros parece encontrar o seu próprio contentamento? Talvez porque invariavelmente encontram também na felicidade dos outros o seu maior descontentamento.

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novembro 11, 2003

a queda de um homem...

Correndo o risco de me tornar odiado por grande parte do povo luso, zombeteiro e amigo do dislate, (veja-se um presidente que diz que determinado clube vai ser o "númaro um", não bastasse a deprimente estupidez que existe à volta da afirmação, ainda a enfeita com a grosseira falha gramatical, e é apoiado...), tenho que demonstrar aqui a minha repulsa pela decadente forma de actuar de um popularucho comediante. Tenho que admitir que no início tinha graça, era como ver o Saramago a escrever filho da puta no seu Memorial, mas agora enfastia, torna-se desenchabido é um desconsolo. Ainda mais por ser explorado a torto e a direito, atente-se nas deprimentes sequelas do "Ou Bai ou Rocha". Mas ele lá continua, com o povo ululante a escaralhar-se como gente grande, provavelmente extravasando a raiva que lhes vai na alma, sempre que o rapazito entra em palco. Mas o riso, a gutural gargalhada, já não é tão natural, as pessoas parecem mais desbragar-se porque pensam:"é pá, é o Fernando Rocha, este gajo é de partir o côco!". Mas não é. Foi. O que vale o tempo passado em frente à televisão é ver o Bruno Nogueira ou o Ricardo Araújo Pereira. E mesmo estes acabarão por enfastiar. Há-de chegar um ponto em que já não não parece tão engraçado olhar para o Bruno sempre a afagar a mão ou o Ricardo a imitar vozes de puto. Até o afamado MeuPipi (e não interpretem isto como inveja, porque nem sequer pertenço ao camponeato dele, uma vez que há pessoas que lêem o que ele escreve) se vai desgastar. Mas espero que esse dia ainda venha longe, porque no caso dele existe uma manifesta cultura, espelhada pela forma e pelo conteúdo do que escreve. O tempo ditará o seu vaticínio, seja como for, o Pipi saberá reinventar-se. O seu talento permite-lho.

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novembro 06, 2003

extremo ciúme

Perguntar-se-á o cortês leitor se tudo quanto aqui vou escrevendo acontece de facto. Pois bem, a verdade é que acontece. No fundo cria-se um blog para expressar opiniões mas também para compartilhar com quem quiser ver, os acontecimentos suscitadores de incredulidade que vão preenchendo o nosso quotidiano. Ora leiam lá o comentário que eu ontem ouvi: Estando em folgazona conversa num destes cogumelares (desculpem-me a ousadia de imitar o Eça criar adjectivos, mas apeteceu-me) netcafés, veio à baila a relação de aspecto demasiado próximo que determinada moçoila, podia dizer o nome mas vocês pensariam que era fictício, mantém com um amigo de longa data. Acontece que o referido amigo namora com outra pessoa que não ela. Namora e exprime o amor, pois dentro de alguns meses nascerá o fruto dessa expressão. No calor da discussão, onde se tentava expandir a inocente amizade para outros campos, eis que alguém diz: "Eu até já ouvi dizer que o filho que traz na barriga nem sequer é dela!" Confusão de géneros? Não. Apenas alguém que acredita que a vida alheia nem sempre é o melhor assunto.

Publicado por jcbio em 01:05 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 04, 2003

O que é "bourel"?

Será talvez altura de elucidar aqueles menos avisados quanto ao significado da palavra bourel. Pois bem, bourel não é nada mais nada menos que a fase anterior à consumação do acto. Será, num léxico mais acessível, um preliminar, esse processo elementar em que nos consumimos para consumar, o que é contrário a outras espécies do mundo animal, como o macho da viúva negra, que consuma para depois ser consumido. Para isto serve a riqueza de palavras da nossa adorável lusa língua, e, como se não bastasse, ainda recebemos a bom ritmo conceitos adicionais de países vizinhos. Para não falar da acrobática hermenêutica, tantas vezes aplicada tão engenhosamente, que permite usar e abusar do sarcasmo ou da multiplicidade de sentidos de cada termo. Penso nisso e chego à conclusão de que deveria ter escrito "idioma" em vez de "língua", por razões que a própria razão conhece, ainda mais quando precedida de adorável.
E assim se vai escrevendo, neste país à Beira-Mar plantado. Vá havendo pelo menos tempo para digitar 1-2 mensagens por dia...

Publicado por jcbio em 04:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 03, 2003

Expressões

Jamais pensei que tão largo período de tempo separasse as minhas duas primeiras entradas, mas a falta de tempo e os humores da Net assim o impuseram. Prometi que ia falar de coisas diferentes e assim o farei, apesar de nesta segunda-feira ser quase irrecusável falar de futebol, mas adiante.
Apeteceu-me falar de expressões, porque sou de uma terra, tal como toda a gente, que é prolífica na adopção do disparate para caracterizar esta ou aquela situação. Fiquem-se com estas:
"acordou morto" - pergunto eu, que é isto?! Porque é que toda a gente começou a dizê-lo?
"encontrou-se doente" - sem comentários;
"para mim és..." - resposta dada por mães de meninas bexigosas a ressumar gordura de todos os poros quando perguntam se são bonitas; eu pergunto, será isto convincente? Uma pessoa que tenha problemas existenciais será que os resolve com um "para mim és"? Isto cheira a favor a léguas!
O que significa "morto como um prego"? Porquê este componente particular das ferragens?!
"Ouvi dizer que se falam"; anda um casal a experimentar tudo aquilo que a imaginação lhes permite, e as pessoas dizem que eles "se falam"
"Passei pelas brasas" - mas qual é a ideia?
"Chamou-lhe um figo" - ora os figos não são fáceis de comer. O revestimento que apresentam é ameaçador até para os entrefolhos das nalgas, imagine-se o efeito drástico que não fazem nos lábios. E depois têm umas graínhas impossíveis. Perguntem a alguém com dentadura postiça o desafio que não é! Não é raro ver pessoas com o desespero estampado no rosto por não terem resistido a um figo.
"Até aquece a alma!" - mas a alma é incorpórea, não pode conduzir o calor. Estas pessoas não saberão o que é o esófago?!
"Mandar um telegrama" - o telégrafo foi difícil de inventar. Não é bonito gozar assim com estas situações. E depois carece em toda a extensão de alguma actualidade. Pelo menos, podia haver o cuidado de ser mais contemporâneo, dizer por exemplo "vou mandar um e-mail" ou "não aguento mais, tenho que ir fazer um download", parece-me até mais lógico.
E porque o dever me chama, deixem-me "por os pés ao caminho"...

Publicado por jcbio em 05:01 PM | Comentários (0) | TrackBack