novembro 25, 2005

THE END

Abro a porta da rua, olho para trás e apago a luz.

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (36)

FOI BONITA A FESTA, PÁ

Clique aqui para ouvir Tanto Mar - versão 2, de Chico Buarque.

Publicado por Filipe Moura às 11:58 PM | Comentários (1)

AGRADECIMENTOS (MESMO) FINAIS

Muito obrigado ao Filipe Moura, Francisco Frazão, Jorge Palinhos, José Luís Peixoto, Luis Rainha, Margarida Ferra e tchernignobyl (mais ao Frederico Ágoas e à Marta Lança) por tudo o que trouxeram ao BdE durante os últimos dois anos.
Muito obrigado ao Paulo Querido, que nos acolheu, aconselhou, instruiu, aturou (e mais não sei quantos verbos do género), para além de nos ter dado acesso a uma das melhores plataformas de publicação da actualidade.
Muito obrigado às dezenas de itálicos que nos enviaram textos, imagens ou sugestões, com partes iguais de entusiasmo e generosidade.
Muito obrigado aos bloggers ou blogues que se dispuseram a toda sorte de diálogos e duelos.
Muito obrigado às centenas de comentadores que nos acompanharam dia a dia: aos regulares e aos episódicos, aos calorosos e aos encalorados, aos amigos e aos inimigos, aos tranquilos e aos coléricos, aos simpáticos e aos odiosos. Muito do melhor e do pior que se viveu neste blogue passou sempre pelas caixas de comentários.
Muito obrigado a quem nos escreveu mails e a quem não disse nada.
Muito obrigado a todos os leitores.
Muito obrigado.

José Mário Silva e Manuel Deniz Silva

Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (6)

ALTERAÇÃO DE DOMICÍLIO

«Agora o que é que fazemos?», pergunta, lá em baixo, o Jorge Palinhos — após uma análise muito lúcida do que é a condição bloguista. Parte do que eu pretendia dizer como justificação final do fecho do BdE, ele disse-o com palavras mais certeiras do que as minhas seriam. Está lá tudo.
O BdE foi um projecto tão importante para mim (e para nós todos) que não podíamos correr o risco de o ver declinar aos poucos, ingloriamente, até àquele estado de decadência que arruina tantas vezes a história bela de uma ideia ou de um grupo. Ao extinguir-se nesta altura, ainda por cima com uma ponta final a fazer lembrar os melhores tempos, o BdE (II) fecha como abriu: cheio de empenho, garra e ímpeto de comunicar. Era esta a imagem com que gostávamos de ser recordados por quem nos leu ao longo de quase três anos. É esta a imagem que guardarei de uma das mais estimulantes aventuras colectivas em que tive a honra de participar.
Voltando à pergunta leninista do Palinhos, que fazer agora?
Não posso falar por todos, evidentemente.
Mas posso falar por mim e pelo Luis Rainha.
A partir de hoje, podem continuar a ler-nos aqui:

aspirina.jpg
(clicar na imagem)

E a mim, podem também acompanhar-me neste projecto a solo:

bocklin.jpg
(clicar na imagem)

Até já.

Publicado por José Mário Silva às 11:47 PM | Comentários (5)

ÚLTIMO DIA, ÚLTIMO TEXTO

Andei todo o dia à procura da música O Último Dia, do Paulinho Moska, para pôr no blogue. Não a encontrei; só esta versão pelo Ney Matogrosso. Quem viu O Fim do Mundo, uma das últimas telenovelas do dramaturgo brasileiro Dias Gomes, talvez se recorde: a versão original, de Moska, era o tema da novela. A certa altura cantava assim:

O que você faria
se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?

Toda a música (e toda a novela) anda à volta deste tema: o que fazer quando a morte é certa, está anunciada. Há quem faça as coisas mais loucas, que não faria se soubesse que sobreviveria mais tempo. Era para me despedir com o texto anterior mas, dado que a morte do BdE está prestes a ser consumada, decidi há pouco avançar para o texto que sempre me apeteceu escrever, mas que nunca consumei. (Estou a falar em texto; a célebre fotografia minha de corpo inteiro ainda espera um convite da Playgirl.) Espero não estar a quebrar, no meu último texto, a confiança que o Zé Mário e o Manuel depositaram em mim; de qualquer das formas, estou a escrever ainda a tempo de eles discordarem, se for caso disso.
O que eu quero fazer é, simplesmente, uma homenagem ao Rubem Fonseca, de quem sou fã. Como qualquer leitor do Rubem Fonseca sabe, a melhor homenagem que se lhe pode fazer, ao seu cinismo, às suas ideias políticas apesar de tudo sempre presentes e ao seu estilo de escrita, é querer simplesmente que a direita se foda. Assim mesmo, com estas palavras. Com todas as letras. Que pratique sexo, acompanhada ou consigo própria. Nada mais do que isto.
Neste momento (e na minha idade) este slogan, ou versões mais suaves como a direita que se lixe ou a direita que pague a crise, é o único radicalismo que me resta. E tenho que o afirmar aqui: para consumar este desiderato, estou cada vez mais céptico relativamente ao papel da esquerda não-socialista. Creio que esta esquerda tem um papel importante a desempenhar, se o quiser. Mas só se primeiro esta esquerda, seja a antiga, seja a moderna, se desembaraçar do seu histórico sectarismo.
E é tudo. Bacanos e bacanas, fiquem bem. Eu vou jantar, que estou com uma fome do caraças.

Publicado por Filipe Moura às 11:45 PM | Comentários (3)

JÁ COM AS CHAVES NA MÃO

caillebotte.jpg

Foi com esta imagem de um quadro de Gustave Caillebotte (Les raboteurs de parquet) que fechámos o primeiro BdE e abrimos o segundo. A metáfora do novo apartamento, que viemos habitar no prédio do Paulo Querido, foi amplamente glosada na altura e volta a fazer sentido, agora que os homens da empresa de mudanças já começaram a levar, escada abaixo, o nosso mobiliário feito do melhor HTML.
Enquanto corro as persianas, aqui ficam os números do BdE (II):

Posts - 5710
Comentários - mais de 30.800
Trackbacks - 485
Visitas - cerca de 540.000 (Sitemeter); cerca de 1.500.000 (weblog.com.pt)
Pageviews - cerca de 1.000.000 (Sitemeter); cerca de 2.700.000 (weblog.com.pt)

Mas não são os números, obviamente, o que mais importa. É tudo o resto.

Publicado por José Mário Silva às 11:40 PM | Comentários (1)

ANTES TARDE DO QUE NUNCA

A lista dos links na coluna direita, que sofreu de desleixo extremo durante muitos meses, foi finalmente actualizada. É um guia para os leitores que continuem a chegar aqui no nosso post-mortem.

Publicado por José Mário Silva às 11:38 PM | Comentários (0)

RESULTADO DO CONCURSO DE ITÁLICOS

Os cinco vencedores do concurso que lançámos nestes últimos dias do BdE foram: Fernando Venâncio, João André, José Luís Tavares, Sara Figueiredo Costa e BOS.
Cada um deles receberá um exemplar do último livro de contos do Alexandre Andrade:

Para o receberem, solicita-se o envio dos respectivos endereços postais para o mail (ainda activo) do blogue.

Publicado por José Mário Silva às 11:22 PM | Comentários (0)

AGRADECIMENTOS ANTES DA DESPEDIDA

O primeiro texto na blogosfera escrito por mim (uma contribuição itálica no BdE I que o Zé Mário e o Manuel tiveram a gentileza de publicar) foi uma indicação para uma crónica de Mário Vargas Llosa sobre a situação em Israel, algo que voltámos a ter esta semana.
Comecei como colaborador residente com Rubem Fonseca; tinha de voltar a Rubem Fonseca.
Como canta o Cazuza, eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.
É com uma certa emoção que recordo como foi, em Janeiro de 2003, na véspera de partir para os EUA, ler no DNa um Escrita Automática onde o Zé Mário contava como ficara retido no Aeroporto Charles de Gaulle devido à neve, e como se entretinha a mandar bolas de neve ao Manel. Não fazia a mínima ideia (e nem ele dizia) do que tinha ido o Zé Mário fazer a Paris (para além de passar o ano). Vim a descobrir mais tarde, através da Coluna Infame, a que cheguei através de um artigo do Pedro Mexia no DN. Da Coluna cheguei rapidamente ao Blogue de Esquerda, e o segredo da viagem a Paris estava descoberto. Logo mandei um email ao Zé Mário (algo que há anos queria poder fazer) e ainda me recordo da emoção de, pouco depois, receber a resposta e ver os meus textos publicados.
Poder ler e, logo depois, graças à generosidade do Zé Mário e do Manuel, escrever e debater com estes "cromos dê-ene-jotas", que tanto gostava de ler anos antes, foi para mim uma bênção do destino. Algo que nem nos meus sonhos julgava possível.
Quero assim afirmar que participar no Blogue de Esquerda foi para mim uma experiência inesquecível e extremamente enriquecedora em muitos aspectos. Venho desta forma agradecer a todos aqueles que me leram ao longo destes quase três anos, e agradecer uma vez mais (nunca será demais) ao Zé Mário e ao Manuel pela generosidade e pela confiança que depositaram em mim.

Publicado por Filipe Moura às 10:56 PM | Comentários (2)

OUTROS COMO NÓS

periferica.jpg

A fotografia da Pietà, na capa do número 13 da Periférica, era um prenúncio. Tal como o BdE, a malta de Vilarelho decidiu «acabar com isto». E deixou uma nota de despedida no seu blogue:

«Não adianta carpir, porque é decisão madura, colectiva, irreversível. E é também a decisão certa. Permitam-nos o nosso momento de humildade: o patamar que a revista atingiu, a visibilidade, o grau de exigência juntam-se num perfil para o qual já só com muito esforço estamos à altura. Fazer uma boa Periférica exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino — uma redacção em forma e altamente disponível. De todos requisitos apenas nos sobra o talento. Mas é, cada vez mais, um talento destreinado, com um quotidiano avesso, a olhar noutras direcções. De resto, desde o início dissemos que não ficaríamos para sempre, que faríamos o que nos apetecesse. E o que nos apetece é acabar com a revista. Sem mágoa, nem nostalgia. Sem lamentos, nem acusações. Ninguém tem culpa do fim da Periférica — apenas nós e a nossa vontade de voltar a mudar de vida. A Periférica é só o nosso segundo projecto. O número catorze será o último número. Sairá em Janeiro, para não estragar o Natal (o nosso). Não queremos que a última edição seja um presente do bonacheirão Pai Natal. Preferimos vê-la como uma prenda de sábios, de reis. Mesmo que saia um pouco depois do dia deles (a distribuição não seria mais lenta se fosse feita em camelos). Não será um número revivalista, carregado de epitáfios laudatórios (tirando, talvez, o necessário editorial de autocomprazimento). Se for um número invulgar, será por alguma súbita inspiração de génio que nos acometa. Mas estamos disponíveis para propostas de colaboração de última hora — assim como assim, já rejeitámos tanto entulho nestes três anos que nem daremos pela diferença. Vamos lá fazer história.»

É pena que uma revista tão boa, original e bem escrita desapareça do mapa dos nossos vícios. Mas a vida é assim mesmo e nós, melhor que ninguém, compreendemos tudo o que está escrito nestas linhas (e nestas entrelinhas).
Acabem em grande, rapazes. Cá estaremos para vos ler, no último número e nos projectos que vierem depois.

Publicado por José Mário Silva às 10:21 PM | Comentários (0)

DESÇO AQUI

Obrigado a todos os que comigo aqui escreveram e me acompanharam.
Obrigado ao Zé Mário e ao Manuel pelo convite para aqui escrever e por terem sido anfitriões generosos, acolhedores e hospitaleiros.
Obrigado a todos os que me leram, corrigiram, comigo concordaram, de mim discordaram ou me insultaram.
Obrigado a todos os blogs que li, a que critiquei, com que concordei, que linkei e que me leram, me criticaram, que comigo concordaram, me elogiaram e me ignoraram.

Foi bom.

Até qualquer dia, num sítio qualquer.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:09 PM | Comentários (1)

O GRANDE CIRCO DA FÍSICA - O CADÁVER QUE NÃO GRUDAVA

Acham que faz diferença para o grudar ser contra uma parede ou uma porta? Pensem nisso.

Publicado por Filipe Moura às 09:48 PM | Comentários (0)

REGRESSO A RUBEM

Comecei como colaborador residente com um texto de Rubem Fonseca, cuja leitura recomendo especialmente no dia de hoje (contra a violência doméstica).
Voltemos a Rubem, um dos maiores escritores vivos de língua portuguesa. Em Maio deste ano Rubem completou 80 anos; lamentavelmente, deixei passar esta efeméride. Fiquemos então com esta passagem de Feliz Ano Novo:

Podem comer e beber à vontade, ele disse.
Filho da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. .Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.
Como é seu nome?
Maurício, ele disse.
Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?
Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.
Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros que estavam quietos, apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.
Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede?
Ele se encostou na parede.
Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.
Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, disse Zequinha.

Publicado por Filipe Moura às 09:47 PM | Comentários (0)

ERA UMA VEZ UM BLOGUE DE ESQUERDA

«Lenin and Giacometti», Leonid Sokov, 1990


Foi neste computador onde escrevo que, no dia 1 de Janeiro de 2003, em Paris, num inverno que prometia neve, eu e o meu irmão criámos o primeiro BdE. Foi no tempo dos primeiros entusiasmos com a blogosfera, em despique intenso com a Coluna Infame, a guerra do Iraque em fundo. Não posso por isso deixar de sentir uma certa estranheza ao escrever este derradeiro post. Mas não é nostalgia. A verdade é que, pela parte que me toca, o entusiasmo inicial se foi tornando, com o tempo, cada vez mais moderado, à medida que a blogosfera política portuguesa se transformava, com raras excepções, em arena de populismo opinativo, demasiadas vezes confundida com democratização da informação. Mais e mais opiniões, sempre opiniões, neste nosso espaço público português já de si tão saturado de comentário (basta ver as colunas do jornais e os convidados das televisões).
Foi por isso que tentámos, com o BdE II, fazer uma coisa diferente, que o modelo inicial não permitia. Um blogue colectivo que partisse do que se passa lá fora. Que não fosse apenas um blogue reactivo, mas também reflexivo. Onde se aprofundassem questões. Onde se traduzissem e partilhassem experiências (de luta, de leituras, de discussões). Mais fácil de dizer do que fazer. Alguns dos primeiros amigos e cúmplices desapareceram rapidamente do cabeçalho, como o Frederico Ágoas ou a Marta Lança. Outros foram ficando, apesar de apenas postarem episodicamente (o Zé Luís, o Frazão, a Margarida). Quanto a mim, primeiro vieram as limitações de tempo, chamado por afazeres mais académicos. A preguiça, depois (“Ai que prazer de ter um post para escrever, e não o fazer”). No fim, uma certa forma de cepticismo. Com o tempo, como vários outros colaboradores, fui-me distanciando do blogue, da sua dinâmica própria, dos seus hábitos, da identidade que ele ia construindo.

Nada disto impediu que o BdE II tenha sido um excelente blogue. Quem cá ficou foi mantendo uma visão alerta e comprometida do que se foi passando neste últimos dois anos. Mesmo se muitas vezes me não reconheci no que se dizia por aqui, mesmo se li demasiadas vezes este blogue como se dele não fizesse parte (mas isso é problema meu, não do blogue), nunca deixei de cá passar todos os dias com prazer.
Em todo o caso, o projecto inicial foi ficando sucessivamente adiado. E de tanto adiar, esgotou-se. Ficou esquecido. Os colaboradores mais “activos” do BdE II foram criando estilos individuais que ganharam leitores e adeptos. Alguns estão aliás a avançar com outros projectos, o que confirma que o fim do BdE não vai deixar a blogosfera “à direita”. Estranho fantasma esse, por sinal. Primeiro porque exagera a importância deste espaço, depois porque nunca é demais lembrar que a blogosfera é um mundo pequeno e limitado. A tendência para essencializar a blogosfera, como se se tratasse de um terreno que não admitisse «hors-champ», parece-me uma curiosa forma de miopia política. Como se a política se jogasse e se decidisse apenas nestes virtuais blocos de notas.

Os últimos dias pareceram dar razão aos muitos leitores e comentadores que não percebem porque decidimos acabar agora. Avalanches de textos, boas discussões, vários colaboradores “regressados”. Foi quase o “adeus eufórico” que o Zé Mário pediu. Mas isso não muda o essencial. A questão é que não queríamos manter a casa apenas por ela ser antiga e respeitada. Acabaríamos excelentíssimos dinossáurios, a cheirar a naftalina. Estava no tempo de cada um seguir o seu caminho e é preferível deixá-la assim. Viva. Cheia de promessas. E partir para outra.

Publicado por Manuel Deniz às 08:03 PM | Comentários (6)

O ÚLTIMO LIVRO DO PAULO

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É um livro para o grande público e para leitores menos familiarizados com os fenómenos da comunicação contemporânea (sejam eles instantâneos, diferidos ou assistidos). Há, por isso, em Amizades virtuais, paixões reais – a sedução pela escrita, de Paulo Querido (edição CentroAtlântico), um tom necessariamente explicativo e limitado aos aspectos mais básicos de cada tema que saberá talvez «a pouco» aos já iniciados nestas diversas facetas da internet.
Enquanto livro de iniciação, porém, parece-me exemplar. Quer em termos de linguagem, precisa mas coloquial; quer em termos de grafismo: limpo, cuidado e com uma impressão policromática bastante razoável.
Em pouco mais de 130 páginas, Paulo Querido vai a todas: IRC, Messenger, SMS, blogues, photoblogs, vblogs, podcasting, Orkut e LinkedIn. O estilo é o dele, muito directo, terra-a-terra, sem merdas. Abundam imagens de ecrãs, exemplos práticos, endereços onde se pode aprender mais. Em suma, quem quiser conhecer algum destes mundos, tem aqui uma excelente porta de entrada.
E depois há o capítulo sete. Mas do capítulo sete não posso falar.

Publicado por José Mário Silva às 07:53 PM | Comentários (0)

BLOGS, MODO DE USAR

Ando nos blogs vai para mais de dois anos e, depois de todo este tempo, o acto de blogar continua a ser para mim um alvo de perplexidade.
Diz-se frequentemente que os blogs são um espaço de auto-expressão, de intervenção cívica e liberdade.
De acordo quanto aos dois primeiros, mas a liberdade já me causa mais hesitação.
Liberdade, liberdade é escrever para si, livre de toda a contingência ou perscrutação social.
Quando alguém arrisca escrever nos blogs está desde logo a restringir a sua liberdade de expressão. Porque a exposição pública implica ter de prestar contas, dar a cara pelo que se escreve e ter de pensar para quem se escreve. E isso implica restringir a liberdade, em troca de aceitação social.
Porque, sem eufemismos, blogar implica aceitação social, mesmo nos blogs mais umbiguistas. Para quê escrever em público, arriscando ostracismo ou indiferença, se não é para se ser lido? Mais vale continuar a rabiscar o diário em papel...
E da aceitação passa-se à tentativa de agradar. Começa-se a escrever com regularidade para satisfazer "os leitores", pede-se desculpa por não se ter tempo, avisa-se que se vai deixar de escrever temporariamente, procura-se assunto para se escrever, fazem-se "esboços de posts", fala-se de assuntos que não nos interessam ou sobre os quais não se tem nada de novo a dizer porque tememos ser acusados de "assobiar para o lado" por motivos indizíveis. Porque a palavra passa a ser um acto, que se faz quer se use a palavra ou não, blogar começa a tornar-se um fardo, as ideias acumuladas que vinham naturalmente esgotam-se e é preciso procurar novas, é preciso descobrir palavras inéditas para dizer e novas formas de o fazer.

E, de repente, quando no início blogar parecia tão fácil como sermos nós próprios, descobrimos afinal que é um casamento com um cônjuge exigente, que quer atenção, mimos, carinho, afecto, novidades, surpresas, prendinhas, jantares íntimos e sexo tórrido todos os dias, no meio da rotina mais banal e ínsipida.
E então uma pessoa começa a pensar se lhe interessa mesmo manter essa relação, se não prefere procurar amantes novos, sair com os amigos, ler livros interessantes, ir a cinemas e teatros, voltar ao diário rabiscado.

E depois vem a hesitação de abandonar os filhos-posts, o receio de ficar só, a angústia de não se voltar a encontrar um cônjuge tão devoto, tão carinhoso, tão amante.

E então é preciso escolher. Às vezes persiste-se, escolhendo a segurança dos episódios felizes e dos momentos inesperados. Outras vezes divorciamo-nos, só para regressar de imediato ao conforto dos mesmos braços. Outras ainda procuramos novos braços que nos acolham. E alguns desaparecem, no sossego da vida sem compromissos.

No fim de contas, blogar talvez nos fascine e prenda porque é tão parecido com amar.

Só que, agora, o que é que fazemos?

Publicado por Jorge Palinhos às 07:41 PM | Comentários (10)

A COMUNICAÇÃO DOS CANDIDATOS

Analisemos de seguida a forma como os principais candidatos às eleições presidenciais comunicam as suas ideias.
Cavaco Silva evita a todo o custo usar a palavra. Quando tem mesmo que a usar, come bolo-rei ou refugia-se no Pulo do Lobo.
Francisco Louçã é um homem de prosa. E ele fala, e ele fala, e ele fala...
Manuel Alegre é essencialmente um homem de poesia. De lirismo.
Jerónimo de Sousa e Mário Soares não precisam de recorrer tanto às palavras. A Jerónimo, basta um passinho de dança; a Soares, um sorriso.


Publicado por Filipe Moura às 07:10 PM | Comentários (2)

OS ANOS DE CHUMBO DO CAVAQUISMO

Faz agora em Novembro doze anos e parece que já ninguém se lembra. Em frente à Assembleia da República, uns milhares de estudantes do Ensino Superior manifestavam-se contra o aumento de propinas. Era uma manifestação legítima e, para 99% dos presentes, era totalmente pacífica. Ao menor pretexto, porém, a GNR efectuou uma descarga de bastonadas. Não se restringiu ao núcleo de potenciais agitadores - note-se que estava presente um número de agentes mais do que suficiente para isso - e, mesmo para esses potenciais agitadores - nunca ficou provado que o fossem -, não havia necessidade nenhuma de recorrer a bastonadas. Mas a partir do momento que a descarga começou foi esse o "tratamento" que levaram todos os estudantes que tiveram o azar de estar à frente dos agentes nessa altura, ou que não conseguiram fugir suficientemente depressa.
Tive a sorte de não ser um dos estudantes feridos. Mas uma amiga minha de infância, estudante de Medicina, não pôde dizer o mesmo. Era uma rapariga magra, quase franzina. Uma miúda então com dezoito anos. Ficou com o corpo cheio de pisaduras. Sangue pisado. Pisado pelo cavaquismo.
Dois colegas meus, do meu curso, do meu ano, da minha turma, foram presos. Passaram a noite numa esquadra de polícia. Não estavam a trancar nenhuma Universidade à chave e nem a ter comportamentos indignos. Limitavam-se a exercer o legítimo direito à manifestação (legal, autorizada) que qualquer cidadão tem.
Felizmente houve testemunhas e documentos do ocorrido - registos fotográficos e em vídeo. Dos estudantes em fuga a tentar despistar a polícia pelas pequenas travessas perpendiculares à Rua de São Bento. Das bastonadas. Dos corpos feridos. As televisões e os jornais mostraram as imagens, e o país todo pôde julgar - e julgou da mesma maneira: o que estava em causa não era a manifestação ser ou não pacífica; o que estava em causa era o tamanho dessa mesma manifestação, e a má imagem que tal daria do governo. Ao menor pretexto, a manifestação tinha de ser dispersada, fosse de que maneira fosse. Foi o que sucedeu.
A GNR está na dependência directa do Ministério da Administração Interna. Não houve por parte do Ministério nenhum inquérito aberto para averiguar a razão de tal procedimento por parte dos agentes. Não houve, por parte de nenhum membro do Governo, nenhuma condenação ou, sequer, lamento pelo sucedido. Tudo foi considerado perfeitamente natural, com o total apoio do Governo. A polícia tinha procedido como devia, de acordo com as ordens que lhe haviam sido dadas.
O único responsável político que condenou o sucedido e censurou o procedimento da polícia foi o então Presidente da República, Mário Soares.
O que se seguiu então foram greves académicas, universidades fechadas, e uma enorme sensação de que o país tinha regredido mais de vinte anos. Que as lutas que foram da geração dos meus pais estavam a ser as da minha geração. Só com uma diferença importante: a geração dos meus pais vivia em ditadura; a minha, supostamente, vivia em democracia. Foi graças a essa democracia que havia uma comunicação social livre (mesmo se, em parte, escandalosamente controlada pelo Governo - como nenhum outro a controlou) que soube documentar o que se passava. Foi graças a essa democracia que se organizaram exposições com registos fotográficos da brutalidade policial. E foi graças a essa democracia que mais tarde, em Janeiro de 1996, o país decidiu acordar deste pesadelo. Exorcizar este mal. Julgou-se que para sempre. Pelos vistos, ainda não.
O líder do Governo de então era o mesmo homem que hoje se apresenta como candidato "acima dos partidos" à Presidência da República: Aníbal Cavaco Silva. Se já vimos como é ter a Guarda Nacional Repúblicana sob a tutela (mesmo que indirecta) deste homem, nem quero imaginar como seria tê-lo como Chefe de Estado. Um Chefe de Estado é uma garantia, e para tal este homem, digo eu, simplesmente não é digno da minha confiança.

Publicado por Filipe Moura às 07:02 PM | Comentários (3)

OS MENCKENS DO CHIADO

Em Portugal abundam indivíduos de ambos os sexos, semiliteratos, semiviajados, cujo desporto intelectual é deitar abaixo o país e a sociedade portuguesa. Criticar a "choldra", na sua intertextualidade favorita. Excitar-se em indignações convulsas, vociferar contra os burgessos locais, deitar mãos ao alto diante do compadrio, espumar da boca perante o atraso, a incultura, a indigência, a hipocrisia, etc., etc.

Portugal não é um paraíso e há muito que criticar e mudar. Mas também não é o pior dos mundos e, mais absurdo ainda, muitos dos defeitos que estes xenófilos mais gostam de apontar são também abundantes lá fora e, infelizmente, frequentes na maioria das sociedades humanas.

E para Portugal evoluir é preciso todo um programa de mudança, ideias sobre o que é preciso mudar, o que é preciso conservar, como mudar e quando. Só dentro de um programa destes - e há muitos programas possíveis - se pode criticar com coerência, convicção e consequência.

Porque criticar sem ideias ou convicções ou acções, pelo simples fundamento de que Portugal não é a França e Lisboa não é Paris, não é colocar-se acima dos burgessos ou apresentar-se como uma elite aristocrática.

É apenas ser um burgesso que cita Eça.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:25 PM | Comentários (3)

UM ADEUS IGNOBYL

ignobyl.jpg

Publicado por tchernignobyl às 05:10 PM | Comentários (8)

O SUMIÇO

Fico eu sem expressões que pelo menos suspirem por reproduzir no espírito do bondoso leitor o meu desgosto com este momento: o nosso BdE finou-se. De modo bruto e definitivo, no more posts, no more comments; em frente, somente o zero onde se reduzem em pó os frutos de gloriosos e longos meses. Infindos esforços, minutos em multitude: primeiro gloriosos, hoje só devolutos.
E fico eu mudo por virtude de dispositivo conhecido: o homem submerge-se em criteriosos desígnios e Deus, no fim, impõe o seu definitivo direito de dispor desses pobres sonhos de poder. O efeito? Micróbios teimosos, clientes infelizes, HTML rebelde… todos unidos num monte de escolhos no percurso do meu Norte predilecto.
Dos mil e um posts previstos e queridos, o que pode resistir? Elejo o difícil repto do nosso ZM: um momento de preito pelo glorioso OuLiPo. Efemérides existem que impõem respeito e honesto suor de esforço.
Júbilo sim; o desespero é que é proibido. Deste termo, muito promete sobreviver: de novo nos veremos por esses novelos de blogues e outros sorvedouros do nosso tempo livre. Disso fico certo.

Publicado por Luis Rainha às 05:01 PM | Comentários (9)

ALTOS E BAIXOS

blogpulse.bmp

Eis como oscilaram as referências ao BdE na blogosfera durante os últimos seis meses [cortesia BlogPulse].

Publicado por José Mário Silva às 04:49 PM | Comentários (0)

O CONSUMISMO CULTURAL

Sabe-se: vivemos na era do consumo. E para muitos, à esquerda e à direita, o consumo desenfreado é mau. Porque desperdiça recursos, destrói o ambiente, fomenta o capitalismo selvagem, promove a superficialidade e o materialismo...

Com uma invisível excepção: toda a gente é a favor do consumismo cultural.

Clicando pelos blogs, vê-se muita gente a qualificar livros, CDs, DVDs de "imprescindíveis", a ufanarem-se de "já tenho o meu exemplar", a lamentarem-se da falta de dinheiro para comprar mais livros, CDs, DVDs ou de espaço para os guardarem em casa, a referirem repetidas visitas a lojas ou megastores do ramo, a confessarem-se "bibliófilos", "cinéfilos", "melómanos". E há blogs exclusivamente sobre livros, sobre música, sobre cinema. E isto aos milhares por semana.

Inversamente, quantos posts há elogiando o bacalhau demolhado da Noruega? Quantos blogs há sobre cervejas ou carros? Quantos confessam perderem a cabeça no Pingo Doce? Quem foi a última pessoa que ouviram dizer com orgulho que era "atunófila"?

Não que eu queira negar aqui o prazer de ler um bom livro, ouvir boa música, ver bons filmes, mas porque é que o consumo desenfreado de livros (muitos dos quais, provavelmente, nunca serão lidos) é motivo de vaidade e o consumo desenfreado de toalhas de banho é um embaraço?

E, no meio de tantas preocupações ecológicas, porque é que não se ouve falar do consumo de recursos naturais que estas indústrias implicam? Alguma vez alguém deixou de comprar um livro pelas árvores e água que destrói e os químicos que contém? E, no entanto, a indústria do papel é a quinta maior consumidora de energia do mundo, a maior consumidora de água e usa numerosos químicos poluentes para branquear e tornar mais macio o papel.

Pois é, parece que o prestígio cultural e civilizacional, a "elevação espiritual" legitima alguns "consumismos desenfreados". No entanto, muitos livros não passam de ideias e palavras recauchutadas de outros livros, muitos filmes servem apenas para acompanhar com pipocas ou satisfazer egos e há músicas que estão ao nível de trauteios de duche.

Porque, por muito que gostemos da arte, isso não pode servir para desculpar ou fingir que por trás não existe uma indústria.

Publicado por Jorge Palinhos às 03:12 PM | Comentários (2)

PRÉMIO MAGNANIMIDADE E RIGOR NOTICIOSO

As duas alunas da escola António Sérgio, em Gaia, cujo namoro e respectiva expressão de afecto terá gerado uma reacção discriminatória dos funcionários e do conselho executivo, poderão ver as suas faltas às aulas "perdoadas" pelo ministério.

Mas gostei desta parte:

Apostada em "que se debata esta questão", Elisa Moreira disponibiliza-se para falar com as associações. E manifesta a sua preocupação com as duas jovens, de 16 e 19 anos, responsabilizando os media pelo excesso de exposição de que elas e a escola foram alvo. "Uma parte do que lhes aconteceu deve-se a essa exposição. Podia-se ter noticiado o caso sem identificar a escola, não aumentarndo o sofrimento em nome da notícia."

Imagino que para a senhora a notícia ideal seria:

"Algures este ano, um número indeterminado de pessoas de um estabelecimento público de carácter desconhecido foram alvo de uma punição não-especificada devido a um acto cuja natureza não pode ser aqui referida."

Assim, no entender da D. Elisa Moreira, poupar-se-ia às alunas - as vítimas deste caso - o facto de terem a opinião pública do seu lado e sofreriam apenas por serem humilhadas, maltratadas, ostracizadas, marginalizadas, ridicularizadas, prejudicadas no seu percurso escolar e na sua vida familiar e social sem qualquer tipo de apoio ou auxílio.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:36 PM | Comentários (6)

PARA SAIR NO DIA 5 DE DEZEMBRO

Centenário do nascimento de Ruy Luís Gomes, notável matemático e antifascista português.

Publicado por Filipe Moura às 11:30 AM | Comentários (2)

PARA SAIR NO DIA 1 DE DEZEMBRO

Woody Allen completa 70 anos.

(Ouviste, André?)

Publicado por Filipe Moura às 11:06 AM | Comentários (2)

POST DE DESPEDIDA DA ALICE [PARA O JOÃO ANDRÉ]

Dá-dá-dá-dá-dá. Dá-dá. Dá-dá-dá.
(Grito de excitação.)
Mon-mon-mon, mon-mon-mon-mon, mon-mon.
MON-MON-MON.
Dá-dá, dá-dá-dá-dá-dá. Dá-dá-dá. DÁ-DÁ.
(Silêncio.)
Dá-dá-dá.
Mon-mon-mon-mon.
Dá-dá.
Dá.

Publicado por José Mário Silva às 10:48 AM | Comentários (3)

EÇA É QUE É EÇA

Eca.jpg

Particularmente adequada a situação deste busto de Eça de Queirós na localidade francesa de Neully, mesmo à saída de Paris, perto do Bosque de Bolonha, onde o escritor português viveu os últimos anos da sua vida. Alinhado no eixo entre os Arcos do Triunfo e de La Défense. De costas voltadas para as caturrices parisienses. De olhos postos no futuro.

José Maria Eça de Queirós nasceu faz hoje 160 anos.

Publicado por Filipe Moura às 10:37 AM | Comentários (1)

O TEMPO NÃO PÁRA

há mais de dois anos esta canção do Cazuza era uma das minhas favoritas. E é natural: se eu tivesse que escolher uma "banda sonora da minha vida", este seria com certeza um dos temas escolhidos. No último dia do BdE é uma boa ideia ouvi-la. O BdE acaba mas o tempo não pára, camaradas.

Publicado por Filipe Moura às 08:59 AM | Comentários (5)

O MELHOR DA BOMBA

Um dos comentários mais antológicos do blogue, dedicado ao Fernando Venâncio. E serve para recordar que este blogue também não teria sido a mesma coisa sem a presença do Fernando.

Senhor Fernando,
You are forgiven. I also make many of those mistakes myself and perhaps even more inexcusable since I normally commit them to paper or feed them to the internet wolves at normal hours of the day, when my brain activity is at its peak. While believing that ideas are what really matters (fuck the rest), I cannot deny it felt mildly good catching you unaware, while remembering my life as a twelve year-old being paid the equivalent of three loaves of bread a day at the local factory - a thing you probably only heard about in books by S.P. Gomes or Redol given to you by your proud daddy to prepare you for a life in academia.

Publicado por Filipe Moura às 08:44 AM | Comentários (5)

ANTOLOGIA DA BOMBA

Um aspecto que tornou este blogue diferente foram os comentadores "muito especiais". Não falo destes; os que eu me refiro agora não eram maçadores, mesmo que a intenção inicial deles fosse essa. Primeiro foi o Afixe, que ficou por aqui algum tempo mas cedo virou blogue. Mais recentemente, o Bomba. O Bomba tentou escrever um blogue, mas sentiu-se mais à vontade para criticar as ludovinas politicamente fanáticas aqui. Creio que todos os escribas e comentadores mais frequentes foram uma ou outra vez vítimas da língua mais viperina das nossas caixas de comentários. Dado que permaneceu aqui tanto tempo (e mais permaneceria, não fosse o blogue acabar) mudou algumas vezes de nome: de Germano Filipe a Madalena, passando por Bombatómica. No meu caso, por alguma razão, ele raramente falava directamente comigo: mais frequentemente mandava-me recados por terceiros ("diz ao Filipe Moura que...", "vejam o caso do Filipe Moura...") e, quando me interpelava directamente, era mais frequente ser em inglês ou mesmo francês!
Na altura em que a produtividade deste blogue esteve mais em baixa, devemos ao Bomba a motivação para virmos sempre aqui. É que, se não houvesse entradas novas, pelo menos haveria de certeza novos comentários do Bomba. Fica aqui um pequeno apanhado aleatório.

Continue a ler "ANTOLOGIA DA BOMBA"

Publicado por Filipe Moura às 08:13 AM | Comentários (7)

POEMA A METRO

Um dos exercícios oulipianos consiste em escrever poemas a metro, que é como quem diz no metro. A coisa funciona assim:

- cada poema é composto durante um trajecto efectuado no metropolitano
- o número de versos corresponde ao número de estações do percurso menos um
- o primeiro verso é escrito mentalmente entre as duas primeiras estações
- o segundo verso é escrito mentalmente entre a segunda e a terceira estações
- o processo repete-se até ao fim do percurso
- cada verso deve ser transcrito para o papel apenas quando a carruagem se imobiliza
- não é suposto transcrever para o papel em movimento nem escrever mentalmente quando a carruagem pára
- o último verso do poema é transcrito na plataforma da última estação
- se houver mudança de linha, essa mudança corresponderá no poema a uma mudança de estrofe

Pois bem. O poema a metro que escrevi ontem de manhã (dia em que se completavam 45 anos sobre a fundação do OuLiPo), aconteceu durante o seguinte percurso:

1) Linha Verde: Anjos/Intendente/Martim Moniz/Rossio/Baixa-Chiado (ou seja: quatro versos)

2) Linha Azul: Baixa-Chiado/Restauradores/Avenida/Marquês do Pombal (ou seja: três versos)

Eis como evoluiu o poema:

1.ª estrofe:

Anjos/Intendente - Rude e secreta, a melancolia
Intendente/Martim Moniz - deste avanço subterrâneo
Martim Moniz/Rossio - sob o esplendor da manhã clara
Rossio/Baixa-Chiado - igual a tantas manhãs que não vi.

2.ª estrofe:

Baixa-Chiado/Restauradores - Outra carruagem, outros rostos.
Restauradores/Avenida - No ínvio percurso da rotina,
Avenida-Marquês do Pombal - falta o gesto que nos descarrile.

E agora o poema em versão final, sem os andaimes:

ANJOS/MARQUÊS

Rude e secreta, a melancolia
deste avanço subterrâneo
sob o esplendor da manhã clara
igual a tantas manhãs que não vi.

Outra carruagem, outros rostos.
No ínvio percurso da rotina,
falta o gesto que nos descarrile.

Publicado por José Mário Silva às 12:58 AM | Comentários (4)

ALICE DIZ ADEUS AO BDE

adeus.jpg

Publicado por José Mário Silva às 12:40 AM | Comentários (7)

SAIBAMOS SER IRÓNICOS

Não há data mais propícia para colocar o ponto final num projecto de esquerda do que o 25 de Novembro.

Publicado por José Mário Silva às 12:02 AM | Comentários (0)

DUAS ESTROFES DO OUTRO ZÉ MÁRIO

Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

Publicado por José Mário Silva às 12:01 AM | Comentários (0)

novembro 24, 2005

RETRATO DE UMA REUNIÃO OULIPIANA

oulipo.gif

À esquerda, sentado, de gravata e a sorrir, Italo Calvino. Em pé, desgrenhado e de barba mefistofélica, com uma mala a tiracolo, Georges Perec. Os outros, excluindo a rapariga e o fotógrafo, são todos oulipianos ilustres, alguns deles presentes apenas sob a forma de tosca éfigie, denunciadora da época claramente pré-Photoshop em que a fotografia foi trabalhada.

Publicado por José Mário Silva às 10:53 PM | Comentários (0)

EFEMÉRIDE

A 24 de Novembro de 1960, no restaurante Le Vrai Gascon (n.º 82 da rue du Bac, Paris), em torno dessas figuras majestáticas que eram Raymond Queneau e François Le Lionnais, nasceu uma das mais heterodoxas correntes literárias do século XX. Desafio intelectual e brincadeira de literatos apaixonados pela sua língua, explosiva mistura de cérebros moldados pelas leis da gramática e mentes científicas habituadas a todo o tipo de operações lógicas, o OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentiel) veio libertar a literatura da forma mais radical: acorrentando-a. Isto é, inventando um sem número de constrangimentos que estimulam a imaginação e a perícia verbal de quem escreve.
Na definição sucinta de Queneau, um autor oulipiano é um «rato que constrói o labirinto do qual se propõe sair». Um labirinto de palavras, claro; um labirinto textual. E se grande parte da produção destes autores auto-espartilhados não sobrevive fora do contexto em que surgiu, enquanto mecanismo lúdico ou exercício de estilo, o certo é que os processos do OuLiPo estão inscritos na estrutura de algumas obras-primas de autores como Italo Calvino (Se Numa Noite de Inverno um Viajante) ou Georges Perec (A Vida Modo de Usar; La Disparition; etc). Quanto mais não fosse por isso, já valeria a pena celebrar os 45 anos de um movimento que continua activo e em expansão (investigar aqui).

[Amanhã, dia final do BdE, prestaremos a nossa homenagem ao OuLiPo com textos que exploram alguns dos seus mais conhecidos constrangimentos.]

Publicado por José Mário Silva às 10:41 PM | Comentários (1)

THANKSGIVING COM MINE DE RIEN

Na noite de Acção de Graças apresento-vos um blogue escrito dos EUA, da cidade onde eu várias vezes passei este feriado. Evidentemente, é mais um blogue de um LEFTista (embora neste caso não vá insistir muito no aspecto LEFT porque o rapaz nem é muito disso...). O autor, para além de um velho amigo - conheço-o desde caloiro -, é uma pessoa interessantíssima, e tem com certeza uma perspectiva muito sua a acrescentar ao assunto para mim fascinante das relações entre a Europa e a América, o Velho e o Novo Continente. Antes de eu ir para os EUA falava-me entusiasmadíssimo do american way of life e de como era boa a comida nas universidades americanas - a escolha de pizzas! os hot-dogs! os hamburgers! - sem se aperceber de como me estava a deixar horrorizado. Depois da LEFT o Pedro veio para Paris fazer Teoria de Cordas. Na Cité Universitaire arranjou maneira de não ficar muito tempo na Residência André de Gouveia, indo antes para uma casa que era a cara dele - a Deutsche de la Meurthe, a mais antiga, a mais clássica, aquela onde Simone de Beauvoir ia visitar o estudante Jean-Paul Sartre. Quando eu cheguei, deu-me a conhecer a área de Montparnasse e do Port Royal. Nessa altura era um parisiense com uma costela americana, português q.b. e vagamente judeu. Agora é um americano parisiense, um verdadeiro mangeur de fromage. Pôs a Europa e a Teoria das Cordas de parte e foi para a melhor cidade da América do Norte mostrar que um físico matemático é pau para toda a obra - nem que seja para mostrar que a Biologia Celular é só "quebra de simetria" e que não há nada como o outono na Nova Inglaterra. Que rica prenda de Thanksgiving. Bem vindo, Pedro.

Publicado por Filipe Moura às 10:24 PM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Há cada vez mais poemas de autores portugueses que referem explicitamente a blogosfera. Este foi publicado por Jorge Gomes Miranda no livro Pontos Luminosos, de 2004 (edição da Averno).


UM TRABALHADOR LETRADO INTERROGA-SE:

Depois da ágora de Sócrates a academia de Aristóteles.
Depois do fórum de Séneca as tendas de Marco Aurélio.
Depois da igreja de Sto. Agostinho os caminhos de S. Francisco de Assis.
Depois da universidade de S. Tomás de Aquino a torre de Montaigne.
Depois da choupana de Kirkegaard as ruas de Marx.
Depois dos quartos alugados de Nietzsche o divã de Freud.
Depois da floresta negra de Heidegger o blog de ?

Publicado por José Mário Silva às 09:33 PM | Comentários (0)

DIA 25, FECHA O BDE. MAS NÃO QUEREMOS QUE FIQUEM SEM PROGRAMA (III)

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Publicado por Margarida Ferra às 07:26 PM | Comentários (1)

DIA 25, FECHA O BDE. MAS NÃO QUEREMOS QUE FIQUEM SEM PROGRAMA (II)

Quem quiser afogar as mágoas provocadas pelo fim deste nosso BdE, e não tiver vontade de ir à anunciada “missa negriana” na FCSH, pode sempre ir amanhã ao Museu de História Natural, na Rua da Escola Politécnica, onde a Abril em Maio – que também anda em tempo de balanços – organiza mais um fim-de-semana de “confronto com o que temos e o que queremos” (é o segundo de três, como se pode ver aqui). Amanhã está prevista a projecção de O Çul Verão, montagem inédita de imagens do processo revolucionário que deixou de estar em curso há trinta anos e o lançamento do número zero da revista PREC (Põe, Rapa, Empurra, Cai). Mais à noite há debate sobre “O que é isso de Democracia?”, com intervenções de Fernando Catroga, Francisco Martins Rodrigues e de Jean-Pierre Garnier. Este último, sociólogo do CNRS, é especialista em questões de violência urbana e abordará certamente os últimos acontecimentos em França. Pela noite dentro haverá textos e música dos “no mínimo 4000”, numa performance meio improvisada que intitularam “As orelhas do martelo”. Querem melhor programa para um 25 de Novembro?

Publicado por Manuel Deniz às 06:32 PM | Comentários (1)

O PROMETIDO É DEVIDO


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Eu bem tento ensaiar a coreografia, mas creio que nunca chegarei a um nível tão avançado. Talvez se eu tivesse o video completo, o original, de há dez anos atrás... Se ouvisse a música. Mas isto é melhor do que nada.

Publicado por Filipe Moura às 06:07 PM | Comentários (6)

CONJUGAÇÃO DE IDEIAS

Recebi há pouco uma mensagem indignada da mulher do José Mário Silva, acusando-me de plagiar o seu amantissimo esposo no meu último (e quase derradeiro) post, ao recorrer ao mesmo tipo de enumeração que o excelso jornalista utilizou num dos últimos programas da série televisiva Portugalmente.
Apresento desde já as minhas desculpas a quem se sentir lesado pelas coincidências.

Publicado por Margarida Ferra às 05:46 PM | Comentários (1)

LISTA DE POSTS A PUBLICAR NO BDE:

- uma série de posts sobre a arrumação dos livros. Não sobre os volumes que encontramos em lugares enganados, como O Problema da Habitação do Ruy Belo no urbanismo, ou a lombada de Raduan Nassar ao lado da de VS Naipul. Um poste sobre o nome que se dá às prateleiras: o que pensa da literatura quem gere uma loja que opõe o “romance português” ao “romance estrangeiro” e porque é que as biografias podem ter uma secção própria e o teatro não. Talvez ilustrado com exemplos retirados da vida real.

- um post (curto) sobre os textos que o Mário Crespo lê durante as previsões meteorológicas da SIC Notícias. Parte da dúvida sobre quem selecciona a efeméride de que fala (comemora-se sempre no dia seguinte e cinco em cada dez vezes está relacionada com as invasões napoleónicas) e pode conter referências a Anthímio de Azevedo, bem como às primeiras (e inesquecíveis) meninas do Tempo.

- um post (com uma segunda leitura mais privada) sobre o Clube de Jornalistas. Um post muito curto onde possa lamentar a ausência do José Mário Silva neste programa.

- um post melancólico sobre o tempo em que a TSF passava reportagens fascinantes todos os sábados de manhã. Chama-se “O SOM DOS PEDAIS”, assim mesmo, entre aspas, como o nome do saudoso programa.

- um post que tenta ser sério sobre a importância dos blogues nas Presidenciais 2006. A publicar depois de Janeiro.

- uma nova rubrica no blogue: “parágrafos perdidos”, uma cópia barata e em prosa dos “versos que nos salvam”, onde possa partilhar com os leitores do blogue os sublimes trechos de Agustina Bessa-Luís em Jóia de Família e outros livros igualmente suculentos.

Continue a ler "LISTA DE POSTS A PUBLICAR NO BDE:"

Publicado por Margarida Ferra às 05:24 PM | Comentários (2)

AVENTURAS NA FRONTEIRA ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

Ontem, passei a manhã às voltas com um notário da nova geração, competentemente privatizado e moderno. À tarde, calhou-me em sorte uma prolongada excursão a um hospital público mas gerido por privados, o Amadora-Sintra.
De manhã, apanhei com um profissional altaneiro, mal disposto, impertinente e sabichão. E com duas horas de seca. À tarde, vi, por exemplo, uma idosa com Alzheimer que esperava havia oito horas por alguém que a atendesse, apenas porque a "triagem" a tinha misturado com uma fornada de queimados com destino à Pequena Cirurgia.
Sim; a "mão invisível" apresta-se para grandes feitos no nosso país.

Publicado por Luis Rainha às 04:58 PM | Comentários (2)

LA BLAGUE DU BLOGUE OU BDE - BLOCO DE ESQUERDA (II)

Há umas semanas, o Conselho Superior do Audiovisual francês apelou aos jornalistas e profissionais de novas tecnologias para a não-utilização de palavras inglesas ou derivadas do inglês sempre que estas já existam na língua francesa. À partida a ideia parece-me boa. Eu pasmo, por exemplo, como dizem os franceses "weekend" quando poderiam dizer simplesmente "fin de semaine". Sempre que desejo ou alguém me deseja "bon week-end" sinto-me como no filme Pulp Fiction a falar em le Big Mac. Foi preciso conhecer um quebequiano para alguém enfim me desejar um bon fin de semaine.
Agora, convém não "inventar" adaptações à força, quando as palavras não existem. Uma das recomendações do referido Conselho é a substituição de "blog" por "bloc". De acordo com Ana Navarro Pedro (no Público), a explicação é a seguinte: "Blog é uma abreviação de web log e designa um diário pessoal num site Internet. Para substituir blog, aconselhamos bloc-notes (bloco-notas), abreviado para bloc".
Já pensaram se a moda pega em Portugal? Se em vez de blogue disséssemos "bloco"? Já viram qual teria sido o nome deste blogue? Livra. Está certo que vamos fechar mas, mesmo assim, por via das dúvidas, e se o senador McAAA me deixar, vou ali buscar o vídeo do Jerónimo de Sousa para pôr aqui.

Publicado por Filipe Moura às 04:35 PM | Comentários (0)

IRRESPONSABILIDADE

Ontem pela manhã, começou a Nestlé portuguesa a recolher não sei quantas centenas de milhares de embalagens de leite para bebés, líquido e em pó. Porquê este último tipo, se só as embalagens de tipo Tetra-pak é que foram afectadas pela famosa infiltração de tinta? Mui simples: porque a SIC (pelo menos) tratou de ilustrar a sua reportagem televisiva com planos de latas de leite em pó. E assim se vai fazendo "jornalismo" em Portugal.

Publicado por Luis Rainha às 04:34 PM | Comentários (0)

A MISÉRIA DA IDEOLOGIA

Leitura recomendada, no Esquerda Republicana.

Publicado por Filipe Moura às 04:10 PM | Comentários (4)

CENAS DA VIDA DE UM DOCENTE NO ENSINO SUPERIOR PÚBLICO

Leitura recomendada - no No Mundo.

Publicado por Filipe Moura às 04:07 PM | Comentários (0)

QUE FAZER QUANDO TUDO ARDE? (2)

Vale a pena ler este artigo de Esther Benbassa no Libération pelo que tem de provocatório, mesmo não concordando com algumas (se calhar, muitas) partes. Concordo com os factos (e com a forma como o artigo põe o dedo na ferida às vezes). Aproveitando a ocasião, vou finalmente falar brevemente sobre os motins em França.
No artigo é posta em causa a famosa lei da proibição dos símbolos religiosos na sala de aula. Talvez os leitores se recordem que quando entrei para o BdE defendi energicamente essa lei, e não foram os recentes acontecimentos que me fizeram mudar de opinião. Tal medida traduz a laicidade, a separação do Estado e da religião (que deve ser só do âmbito de um indivíduo ou de uma comunidade), uma conquista histórica de valor inestimável. Não vou estar aqui a repetir tudo o que disse na altura. Apenas refiro que as leis dos países de acolhimento devem ser aceites pelos imigrantes, e entre estas naturalmente as leis relativas à laicidade. O caso contrário seria um retrocesso tremendo. E tal deve evidentemente aplicar-se à Turquia, no caso de este país vir a juntar-se à União (um tema que nunca aqui discutimos).
No caso das populações muçulmanas, esta lei traduz-se na conhecida proibição do "véu islâmico". Causará essa lei um aumento do sentimento de exclusão das populações afectadas? É bem provável que sim. Mas não mais do que isto. E isto é que é importante: a exclusão já existia e não foi trazida pela "lei do véu". Suspender a "lei do véu" não vai resolver exclusão nenhuma. O sentimento de exclusão por partes dos imigrantes sente-se principalmente na segunda geração, nascida e educada em França, mas que sente que não tem as mesmas oportunidades de trabalho que os restantes franceses.
Neste aspecto, a meu ver há que considerar o que já referi aqui, aqui, aqui. Há uma série de profissões de que os franceses não gostam, por as considerarem servis, nomeadamente as que envolvem contacto directo com as pessoas (basta irmos a um restaurante para nos apercebermos disso na forma como somos servidos). Creio que mais do que em qualquer outro país que eu conheça, em França estas são profissões que ninguém quer ter (o que significa que, sendo necessárias, acabam por ficar para os imigrantes). Na prática tal passa-se igualmente noutros países. Nos EUA (o outro caso que conheço bem) também se regista uma percentagem elevada de imigrantes em profissões menos qualificadas (seguranças e vigias, caixas de supermercado, ...). Porém, o mito do "sonho americano", mesmo que não passe de um mito, tem o mérito de existir. O facto de ser originalmente um país de imigrantes faz com que culturalmente a imigração seja encarada com melhores olhos (com a habitual excepção da direita religiosa - tão bem representada na blogosfera portuguesa pelo AAA -, mas aqui creio mesmo tratar-se de uma excepção). Mesmo sendo apenas uma minoria, a contrastar com as vagas de hispânicos a trabalharem à jornada em fazendas - a mera existência de imigrantes bem sucedidos tem o condão, nos EUA, de alimentar o sonho e motivar os que não o são. Talvez este facto marque uma certa diferença dos EUA em relação a França, mas creio que no essencial este problema dos imigrantes de segunda geração, que não se sentem nem imigrantes nem integrados, é transversal.
O essencial é saber se estes cidadãos simplesmente se recusam a integrar-se, como pretende a direita, ou se não se integram porque não lhes são dadas as mesmas oportunidades. Desde que tenha uma fonte de rendimentos - um emprego - justo e adequado às suas qualificações, pessoalmente creio que ninguém recusa integrar-se. A ideia de que os portugueses em França são as porteiras e os condutores de autocarro é parcialmente verdadeira - a mulher que limpa o meu apartamento é portuguesa; os motoristas dos autocarros no meu laboratório também. Provavelmente no passado foi ainda mais verdadeira. Mas conheço muitos portugueses de segunda geração com cargos de alta responsabilidade em França. Conheço muitos que fazem doutoramentos.
Embora nada disso justifique actividades criminosas como as que vimos, em relação às quais não deve haver complacência, se se quer resolver este problema da imigração de segunda geração, há que perceber por que razão quem tem raízes árabes procura ocultá-las para garantir um emprego - por exemplo, ocultando apelidos.

Continue a ler "QUE FAZER QUANDO TUDO ARDE? (2)"

Publicado por Filipe Moura às 02:41 PM | Comentários (1)

MAIS SEIS POEMAS INÉDITOS DE JLT

O TEMPO, ESSE VERDUGO

1.

Desabriga-te agora a atroz unhada do vento,
rouca calema nas tardes de windsurf; e eu
embutido aos sedimentos, ufano e ressurrecto,
entre os vincos que um bafo extraviado coalesceu.

Mas, cuida-te, que toda a vida é um improviso
sobre a queda e não há andaime que escore
o que fareja as tempestades antes do primeiro siso
despontar. Eu aprendi que nem sempre o que corre

à menção do naufrágio, aos óxidos que o azul
pressente, escapa ao látego que alucina
as veias. Talvez despiste um pouco o carbureto

que atrai os bandos negros ao céu de mossul,
mas para o embate que o destino assina
saibas tu que a poesia é imprestável amuleto.


2.

Sagra-se na pele um império de sombras.
Mas saldar a toxicidade do tempo, requer,
poeta, surdos decibéis de alarme a crescer
por dentro de um corpo entaipado para obras.

Não é da natureza do que cai furtar-se
ao desconforto dos hematomas que tantas
vezes espigam onde a dor vem deitar-se.
Agora entendo porque o afundar sereno cantas,

e nem uma única vez cedeste ao prodígio que
ressuscitou lázaro — nada como a morte
amadurecida matinalmente entre os lençóis

da tua cama: o ignoto porvir não endossa cheque,
nem aveluda o pez que te coube em sorte —
descampa-te os mil poros ao clangor de sete sóis.

(José Luís Tavares)

Continue a ler "MAIS SEIS POEMAS INÉDITOS DE JLT"

Publicado por José Mário Silva às 12:30 PM | Comentários (4)

O RACISMO CHEGA A TODO O LADO

À saída do metro, uma pedinte idosa pousou o prato das esmolas num degrau e junto às pernas um pedaço de cartão com a palavra-chave: «Ajudem-me!». Por baixo do apelo à misericórdia alheia podia estar a explicação do infortúnio: «tenho cancro (ou sida)», «não tenho família nem dinheiro», «os meus filhos (ou netos) passam fome». Uma coisa assim. Mas a pedinte escreveu apenas: «Não sou cigana».

Publicado por José Mário Silva às 12:09 PM | Comentários (10)

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL - VOTO ANTECIPADO NO ESTRANGEIRO

Uma notícia importante para cidadãos portugueses recenseados eleitoralmente em Portugal mas que se encontrem deslocados no estrangeiro por motivos profissionais - estudantes, professores, cientistas, investigadores e outros. Nas eleições presidenciais é possível votar antecipadamente no consulado da área de residência, sem necessidade de lá estar inscrito. A informação, que pedi ao STAPE, chegou-me por email. Escusam assim estes cidadãos de ter de pagar uma viagem de propósito para exercerem este direito. Fica a pergunta: por que é que tal só é possível para as eleições presidenciais? Deveria ser para todas!


Em resposta ao seu e-mail de 21 de Novembro de 2005, informamos V. Exa. que deve dirigir-se ao Consulado da área da sua residência, entre os dias 10 e 12 de Janeiro de 2006 e aí manifestar a vontade de votar.

Para o efeito deve apresentar os seguintes documentos:

1. O cartão de eleitor
2. O bilhete de identidade (ou outro cartão identificativo, com fotografia actualizada, como carta de condução ou passaporte)
3. Documento autenticado comprovativo da permanência no país onde se encontra deslocado, emitido pelo superior hierárquico ou entidade competente.

Com os melhores cumprimentos.
Divisão de Apoio Jurídico do STAPE

Publicado por Filipe Moura às 11:17 AM | Comentários (14)

ISABEL DE CASTRO (PARA SI)

Consultando a base de dados do Centro de Estudos de Teatro, dou-me conta de que terei visto só um espectáculo com Isabel de Castro (era do Teatro da Garagem, não me lembro de quase nada). Entrou em O Fim Ou Tende Misericórdia de Nós, dos Artistas Unidos, mas alternava com Glicínia Quartin e foi ela quem me calhou em sorte (não me queixo). E não fui ao Porto ver a Castro.
Filmes vi mais alguns, fez mais de setenta. Mas do que agora me lembro bem é qualquer coisa de intermédio: dois "filmes de teatro" feitos para televisão e baseados em espectáculos do Teatro da Cornucópia de 78/79. Vi-os aos dois na Abril em Maio, em sessões do Não É Cinema, e foram descobertas emocionantes (se eu mandasse, passavam todas as semanas na RTP Memória...). No primeiro, E Não Se Pode Exterminá-lo?, Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo (muito novos) alternam no papel de Karl Valentin, óculos e nariz postiço, a mesma subversiva desconversa nos sketches do cómico de Munique que tanto influenciaram Brecht. Há dois solos marcantes de Isabel de Castro: a carta escrita ao namorado sobre porque é que ele não lhe escreve; a maravilhosa canção em pseudo-chinês, alternando de forma hilariante entre os sons "orientais" e o português, entre a pose hierática (de mãos postas) e o burlesco (com os dedos indicadores espetados a marcar o compasso).
O outro filme é um caso mais sério: Música para Si, de Franz Xaver Kroetz, realização de Solveig Nordlund a partir da encenação de Cintra e Silva Melo. Durante uma hora (todo o filme), Isabel de Castro não diz uma palavra: está sozinha em casa, executa com precisão cansada os gestos quotidianos depois do trabalho (na cozinha, na casa-de-banho, no quarto), enquanto ouve um programa de discos pedidos na rádio (banda sonora exemplar). Não há um grito, uma lágrima - mas nunca o desespero foi tão palpável e angustiante. Trata-se além disso de uma das mais conseguidas transposições cinematográficas de um espectáculo (filmada num apartamento e não no palco), com uma planificação implacável, bressoniana, destacando as partes do corpo que trabalham, a repetição mecânica das acções. No final, ao deitar (luzes que se apagam e voltam a acender), uma saída finalmente: ao alcance da mão, a engolir com um copo de água.
Fica então este retrato (parcial e ignorante): entre a tragédia quotidiana nos comprimidos de Kroetz e a alegria pura debaixo do chapéu chinês de Valentin.

Publicado por Francisco Frazão às 03:48 AM | Comentários (7)

novembro 23, 2005

PARADOXO

Às horas em que ando de metro, nunca consigo apanhar o Metro.

Publicado por José Mário Silva às 06:44 PM | Comentários (0)

É O FERNANDO PESSOA, ESTÚPIDO!

Precisamente daqui a uma semana, a esta hora, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, o «É a Cultura, Estúpido!» vai “ressuscitar” Fernando Pessoa, no dia em que passam 70 anos sobre a morte do mais importante poeta português do século XX. Em discussão estará não apenas o futuro das edições de Pessoa (agora que vão cair no domínio público), mas também a forma como o legado pessoano será recebido pelas próximas gerações. Abordaremos ainda o futuro da própria ideia de literatura e o seu lugar na cada vez mais vasta panóplia da oferta cultural. Numa sessão moderada por mim, com o Pedro Mexia no papel de “agente provocador”, contaremos com o apoio da Casa Fernando Pessoa e com a presença de Richard Zenith (tradutor, investigador e editor de Pessoa), Fernando Cabral Martins (prof. universitário, ensaísta, pessoano e um dos responsáveis pela pós-graduação em Edição de Texto da FCSH da Universidade Nova de Lisboa), José Afonso Furtado (director da Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian, além de especialista em questões da Edição no mundo digital e novos suportes para o livro) e Manuela Parreira da Silva (professora da Universidade Nova de Lisboa e elemento da equipa que tem estudado e editado o espólio de Pessoa).

Antes da sessão, entre as 16 e as 18 horas, várias personalidades dirão poemas na mesma sala, numa iniciativa intitulada «Pessoas lêem Pessoa».
Todas as informações sobre este encontro, os seus preparativos e o relato do que por lá se passar podem ser encontrados no blogue do «É a Cultura».

Publicado por José Mário Silva às 06:30 PM | Comentários (0)

NOTA ERRADA

Portugal não precisa de Si, como sugere a campanha de Cavaco Silva. Portugal precisa de Dó.

Publicado por José Mário Silva às 05:40 PM | Comentários (2)

PARA A DESPEDIDA

Podia escrever qualquer coisa sobre o facto de um dos blogs que me acompanha diariamente ir desaparecer, mas sinceramente não me apetece fazê-lo. Acabaria por ser uma espécie de lamento, de despedida lamechas, e não acho que a boa disposição e animada agitação deste cantinho virtual o mereça. Ainda por cima, acho que vocês vão continuar por aí, noutros blogs, noutros projectos, e o mais certo é voltar-vos a ler de outros modos. Encontramo-nos por aí, portanto, e antes da despedida de dia 25 (que raio de dia para se ir embora o Blogue de Esquerda!), mando-vos a letra da segunda versão do 'Tanto Mar', do grande Chico:

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
Ainda guardo renitente
um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
n'algum canto de jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei, também, quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
algum cheirinho de alecrim

Um abraço a todos e até à vista!
(Sara Figueiredo Costa)

Publicado por José Mário Silva às 04:55 PM | Comentários (2)

CITAÇÕES

«O Presidente da República pode pedir ao Governo ou à Assembleia que legislem em determinadas matérias! Não existe essa tradição, mas pode fazê-lo.» — Cavaco Silva, em entrevista ao Público (21/11/2005)
«Por um lado, o PR devia presidir a alguns Conselhos de Ministros em que se discutem matérias essenciais (o aeroporto da Ota, por exemplo). Por outro devia poder demitir o primeiro-ministro sem ter como fundamento o risco do normal funcionamento das instituições.» — Rui Machete, membro da Comissão de Honra da candidatura de Cavaco Silva, em entrevista ao DN (22/11/2005)

E depois ainda há quem considere que a ameaça de "deriva presidencialista" é um disparate, um exagero ou uma paranóia esquerdista.

Publicado por José Mário Silva às 02:06 PM | Comentários (10)

E É GOOOOLO DO SPORTING!

Um comentário premonitório (do tempo em que ainda assinava como Madalena):

Filipe,

Que naquinho de prosa deliciosa! Parece ladainha dum corrector da bolsa meu conhecido que anda a meter os cornos à mulher com uma militante de partido dos verdes. Mas continua a mandar-nos mais desse material revelador do espírito daqueles que gostam de viver nas nuvens. Aposto que se um dia te cair uma bomba atómica na cabeça vais pensar que é um golo do Sporting. Vais, vais...

Publicado por Filipe Moura às 11:34 AM | Comentários (3)