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outubro 31, 2005

UPGRADE

Depois do Mega-Cavaco, eis o Hiper-Cavaco (mas atenção, parece que este novo site está com alguns problemas técnicos).

Publicado por José Mário Silva às 01:01 PM | Comentários (13)

outubro 30, 2005

O MEU CANDIDATO

gromit.jpg

Infelizmente, ele não cumpre alguns requisitos fundamentais (fazer parte da espécie humana, ser português, ter mais de 35 anos e um desígnio para Portugal). Se cumprisse, estaria agora a escrever, com a verve que a pré-campanha acicata, no blogue não-oficial de apoio à candidatura de Gromit à Presidência da República. Vão por mim: quem consegue pôr na linha um inventor-maluco-devorador-de-queijo como Wallace, consegue tudo. Até ajudar José Sócrates na sua difícil legislatura e devolver a esperança, como sói dizer-se, a dez milhões de portugas que andam para aqui de monco caído.

Publicado por José Mário Silva às 11:48 PM | Comentários (1)

JET LAG

Gosto destas mudanças de hora. Dão-me o risível prazer de passar pelo menos um dia ligeiramente fora de compasso com o resto do mundo. Refeições, noticiários, mil pequenas rotinas; tudo acontece de forma algo oblíqua, fazendo “tic” quando a ordem normal suspira “tac”. Dias assim recordam-me com saudade a desorientação excitada das grandes viagens transcontinentais, após as quais nem o tempo se conforma às nossas expectativas e hábitos.
Por mim, podiam fazer mais manobras destas; mas, de preferência, com maior amplitude. Julgo que seis horas bastariam.

PS: tenho olhado para o céu com expectativa, depois de ouvir na SIC Notícias que, no Norte da Europa, esta mudança implicava grande alterações no tamanho dos dias e das noites. Mas, até ver, o Sol ainda não desatou a correr mais depressa ou a fazer inopinadas marchas-atrás. Pena.

Publicado por Luis Rainha às 09:02 PM | Comentários (5)

outubro 29, 2005

2005

Houve um tempo em que ao olhar para as outras pessoas, no metro, tentávamos adivinhar aquilo em que estariam a pensar. Agora, diante da multiplicação de fiozinhos brancos a sair dos casacos, imaginamos que músicas transportam elas no iPod.

Publicado por José Mário Silva às 11:05 PM | Comentários (0)

TRÊS HISTÓRIAS MODELARES

Na semana passada, uma conhecida modelo/apresentadora, ao responder a um inquérito de uma revista, teve um momento particularmente inspirado:
"— Qual o artista plástico que a faria gastar fortunas?
— Ai, eu estou muito satisfeita com o meu médico, o dr. xxxx. Não quero mudar!"

Outra das nossas musas televisivas saiu-se com esta:
"— Gosta muito de animais. Qual o seu preferido?
— Olhe, eu adoro golfinhos. Sobretudo aqueles que vivem no fundo do mar e nem vêm à superfície respirar…"

Por seu lado, a nossa top-top-model deixou-se convencer a participar num jantar com o seu clube de fãs. À hora aprazada, já lá estavam emissários das revistas do costume, mas... nem um dos supostos fiéis da estrela. Antes que a função descambasse em público enxovalho, alguém tratou de arregimentar por telefone todos os amigos que morassem num raio de 5 quilómetros daquele restaurante. Foi o jantar à borla mais surpreendente das vidas de uns quantos afortunados. Com o bónus de assistirem depois a uma conferência de imprensa inédita e monotemática: abundantes declarações da diva sobre a duvidosa naturalidade dos atributos físicos das mais conhecidas concorrentes.
Raios. A mim é que ninguém convida para estas cerimónias Dadá...

Publicado por Luis Rainha às 08:09 PM | Comentários (9)

outubro 28, 2005

O VALOR DESTE BLOGUE (EM DÓLARES)


My blog is worth $226,945.08.
How much is your blog worth?

Ainda bem que não somos capitalistas e neo-liberais.

Publicado por José Mário Silva às 05:33 PM | Comentários (8)

PRESIDENCIAIS: TUDO OU NADA?

Para o Ivan, e para muita gente à esquerda, estas eleições presidenciais jogam-se num terrível e definitivo tudo-ou-nada. "Perder na 2ª volta não adianta nada; como Soares tem enfatizado, o propósito é ganhar". Se isto fosse assim, deveríamos talvez assumir desde já a derrota e poupar esforços para batalhas mais úteis. Ou, como também sugere o Ivan, transformar esta batalha numa escaramuça menor em busca de pequenos ganhos partidários.
(Estranha-se, antes do mais, que um tal pensamento, quando ilumina meninges de esquerda, não leve logo à conclusão lógica: vamos então reunir em torno de Alegre, que as sondagens continuam a dar como o melhor colocado para dar luta a Cavaco. Na prosa do Super-Mário, a defesa da aposta em Soares fica apenas a cargo de um tíbio e inconsequente "até a direita sabe que o combate de Soares nunca se resumirá a uma intenção «de poeta»"; o que significará isto, além de mais um chocarreiro ataque a Manuel Alegre?)
Mas isto está longe de ser o mais importante agora. Para Ivan, "o prémio de consolação é irrelevante". Ou se ganha ou se perde.
Será mesmo assim?
É certo que, se as tendências hoje em dia cartografadas pelas sondagens se confirmarem, Cavaco só de propósito poderá perder estas eleições. Pode ser que consigamos, todos juntos, alterar este panorama nos próximos meses; mas, até lá, fechar os olhos a isto é fazer campanha no País das Maravilhas. (O que também é uma opção legítima, claro está...)
Afinal, o que se está a passar? A intenção/ameaça de votar no candidato da direita parece provir de muita gente que costuma votar em partidos de esquerda; só assim se explicam os números avassaladores, sempre a ameaçar uma vitória logo à primeira volta. E aqui está um excelente argumento para a multiplicação de candidaturas à esquerda. Alegre, Jerónimo e Louçã: cada um deles, à sua medida, ajuda a fixar na esquerda, e longe do homem de Boliqueime, votos preciosos. Os quatro candidatos de esquerda são, por certo — e as sondagens parecem confirmá-lo —, muito mais eficazes a ancorar os respectivos eleitorados do que o patriarca socialista por si só, sempre condenado a arrastar a sua pesada bagagem de anticorpos e recordações embaraçosas (se duvidam que a Emaudio, por exemplo, ainda vai dar muito que falar nesta campanha, ponham os olhos do "Independente" de hoje).
E porque será importante chegar a uma segunda volta? Apenas para agarrar o tal "prémio de consolação"? Nada disso.
Importa evitar a todo o custo uma hiper-validação do mandato de Cavaco. Quando a revoada de convertidos ao presidencialismo já está a afiar as unhas, adivinhando Cavaco a presidir a conselhos de ministros enquanto dita as suas políticas, urge cortar-lhes as asas, fazendo com que a vitória do seu candidato tenha proporções esforçadas e normais, não de "avalanche" que exige uma espécie de revolução em torno de mais um homem providencial.
Obrigar Cavaco Silva a uma segunda volta (que até poderá perder, quem sabe) é um imperativo para a esquerda. Ele tem de ser um presidente como os outros, não um iluminado com a sagrada missão — outorgada por 60%, ou mais, do bom povo português — de salvar a Pátria e a Democracia. Aí, os arautos deste verdadeiro golpe de estado à socapa, como Morais Sarmento, surgiriam de imediato investidos do cargo de sumos-sacerdotes do novo Salvador.
Vamos mas é tratar de nos salvar deste fado.

Publicado por Luis Rainha às 03:32 PM | Comentários (86)

outubro 27, 2005

A LUZ É UMA COISA QUE SE AGARRA

Aconteceu há umas semanas.
Estava a Alice em cima da nossa cama, brincando com as rugosidades da manta verde, quando de repente um raio de sol entrou pela janela, filtrado pelas persianas parcialmente descidas. A luz muito dourada (era o fim da tarde) desenhou um rectângulo sobre os almofadões e a Alice, dentro da sombra, olhou para aquele prodígio com o ar fascinado dos bebés diante das primeiras coisas. Muito a medo, chegou-se ao caudal de luz, onde pairavam minúsculas partículas de poeira, e tocou-lhe com os dedos. O espanto adensou-se. Aparentemente sólida, a luz deixava que a pequena mão estendida da Alice a atravessasse. E ela, perplexa, insistia. Os seus dedos abriram-se e fecharam-se várias vezes, quase tão etéreos como as partículas de poeira.
Ao fim de um tempo, como é óbvio, desistiu. Recolheu-se à zona de sombra, olhando desconfiada para aquele bizarro e enganador foco luminoso, cada vez mais ténue com o aproximar da noite. Ficou na sombra, de novo obcecada com as rugosidades da manta verde. E sou capaz de jurar que os seus dedos brilhavam. Como se a luz, afinal, neles tivesse ficado presa.

Publicado por José Mário Silva às 02:37 PM | Comentários (19)

TORRE DE PAPEL

Ontem à noite, entretive-me a contar os andares da torre de livros que me cresceu de mansinho na mesinha-de-cabeceira. Uma pilha fúnebre de ilustres náufragos literários à espera de noites menos ocupadas com trabalho, revisões de trabalho alheio, campanhas eleitorais, etc. Entre os que comecei a ler, os que tentei reler e aqueles que ali coloquei apenas na esperança de absorver por osmose alguma coisa durante o sono, são já 22. Há de tudo: obras mastodônticas, coisas ligeiras cheias de imagens, clássicos, modernos, o diabo a sete.
Preocupante mesmo (ou talvez não) é o facto de o último andar do arranha-céus de papel, o do inquilino mais solicitado nestes últimos dias, ser uma reedição da obra do mestre Carl Barks. Presumo que isto não diz coisas muito simpáticas acerca dos meus critérios. Nem da minha maturidade.

Publicado por Luis Rainha às 01:53 PM | Comentários (4)

É QUE ESTES SENHORES SÃO MESMO MUITO IMPORTANTES, SABIAM?

A trupe do Super Mário continua em grande. Depois de mais uma chalaça muito bem apanhada — anunciaram um link para o site oficial da campanha de Alegre, na realidade dirigido para a SPA — já só podemos esperar o pior.
Como este belo post, onde alguém escreve, "antes que seja tarde para discorrer sobre questões marginais", algumas considerações oportunistas e distorcidas a propósito de um texto do Daniel Oliveira. O tema deste era a última candidatura presidencial de Ralph Nader, que muitos então receavam poder dar mais uma vez um contributo decisivo à vitória do monkey boy em estados-chave.
Numa óbvia pirueta sofista, o postador tenta transplantar o raciocínio para Portugal e contra a candidatura de Louçã. Esquecendo que: não é por haver mais candidatos à esquerda que Cavaco ganhará mais facilmente à primeira volta, antes pelo contrário; que estamos longe de uma situação em que a coisa se decida entre Soares e Cavaco logo nessa primeira volta; que o sistema eleitoral português nada tem em comum com o dos EUA, consumando-se ali tudo logo ao primeiro escrutínio; que nem sequer é líquido que Soares seja o mais bem posicionado para obrigar o professor de Boliqueime a um segundo round; etc.
O que este senhor não esqueceu foi a sua própria importância, com aquele pormenor delicioso do "antes que seja tarde para discorrer sobre questões marginais". Ou seja, ele digna-se a falar de alguém tão obviamente insignificante como o Daniel apenas enquanto assuntos sérios não lhe ocuparem a augusta atenção.
A isto chama-se uma bebedeira de HTML. Maravilhados com as muitas menções (a que fazem abundantes referências) do seu blogue em jornais, na TV, noutros blogues e sabe lá Deus mais aonde, convenceram-se de que o que lá escrevem tem mesmo alguma consequência no mundo real.
Fazem-me lembrar aquelas figurinhas patéticas do putativo jet set luso: sempre deslumbradas com as suas aparições na "Nova Gente", sempre convencidas da sua incontornável relevância, sempre em bicos de pés para aparecer na próxima fotografia.

Mas o que fará Vital Moreira em tão insalubre estaminé?

Publicado por Luis Rainha às 12:46 PM | Comentários (10)

outubro 26, 2005

CONTRIÇÃO

Olhando para o último post que escrevi, acerca de publicidade, vêm-me à memória, não sei bem porquê, ecos de uma desopilante canção de Momus: "I Was A Maoist Intellectual"

"How did I pass my time on earth? Now it can be revealed:
I was a Maoist intellectual in the entertainment field"

"The rich despised the songs I wrote which told the poor their worth
Told the shy to speak and told the meek to take the earth
But my downfall came from being three things the working classes hated:
Agitated, organised and over-educated"

Podem ouvir aqui um excerto da obra, originalmente editada no excelente álbum "Tender Pervert". E meditem na triste conclusão a que o protagonista chega:

"But if I could live my life again the last thing that I'd be
Is a Maoist intellectual in the music industry
No, if I could live my life again I think I'd like to be
The man whose job is to stop the men who think like me"

Publicado por Luis Rainha às 06:19 PM | Comentários (9)

POST-IT

Não esquecer: «É a Cultura, Estúpido!», às 18h30, no São Luiz.

[E a falta que faz, num dia assim, um gajo ter o dom da ubiquidade.]

Publicado por José Mário Silva às 04:36 PM | Comentários (1)

CONFORMEM-SE LÁ COM A VIDA COMO ELA É, SE FAZEM FAVOR

As grande empresas em que o estado português ainda vai conseguindo mandar parecem ter um papel muito importante, embora oculto, a desempenhar. Não falo do seu providencial estatuto de cash cows, nem do cómodo que é ter sempre à mão armazéns onde depositar adereços políticos embaraçosos e fora de moda.
Há mais. A colossos como a Galp ou o grupo PT parece ter cabido em sorte o relevante estatuto de reguladores do estado de espírito do povão.
Primeiro, a Galp aproveitou o europeu de futebol para galvanizar o combalido amor-próprio da alma lusa, com o horrendo hino do "Menos ais, menos ais, menos ais!", aposto a spots carregados de majorettes emplumadas, entusiasmo a rodos e sorrisos vitoriosos. "No fim, só ganha um… e temos que ser nós" urrava-se então. No fim, foi o que se viu.
Agora, passada que está a ressaca do europeu, toca à TMN a vez de usar os blocos publicitários à laia de Prozac colectivo. Ao que parece, já se desistiu de animar a malta. Os objectivos presentes são bem mais modestos: tentar reconciliar-nos com a vida cinzenta, medíocre, apagada, fruste, amarfanhada e mansa a que nos dizem condenados. Assim, a nova campanha da TMN não almeja pôr-nos aos pulos rumo à vitória; contenta-se em afirmar que "gostamos da vida como ela é". Com "pneus", fotos desfocadas, gente triste, diarreias (é um clássico automático aquele belo MUPI com alguém de calças em baixo devido à "comida indiana"...) e toda uma catrefa de temas deprimentes.
Se calhar, é pelo melhor; quem nutre expectativas rasteiras tem menos hipóteses de contrair neuroses quando der de caras com a realidade.

PS: saindo da psicanálise caseira para a publicidade propriamente dita, gostaria de saber uma coisa: para que servirá a TMN, se tudo já se toma por perfeito assim como está? O que nos oferece ou promete este posicionamento, afinal? Alguém precisa de uma marca que já nem deseja melhorar a vida de ninguém?

Publicado por Luis Rainha às 01:18 PM | Comentários (14)

SUPERBACANA!

Toda essa gente se engana ou então finge que não vê.

Publicado por Filipe Moura às 09:16 AM | Comentários (5)

SUPER QUÊ?

Ao contrário do que o seu cabeçalho proclama, o Super Mário não é um blogue de apoio à candidatura de Mário Soares. Tampouco será, embora a hipótese seja sedutora e aderente à praxis da coisa, uma artimanha de “submarinos” apostados em demolir a nova aventura soarista a partir do seu interior.
Não. Aquilo é um blogue contra. Contra Cavaco, o que ainda se entende. Contra o PCP. Contra o Bloco. Contra Pacheco Pereira (por lá já citado em meia-dúzia de posts). Contra quem quer que se declare obtuso ao ponto de não ver as miríficas vantagens de um novo ascenso de Mário Soares ao Olimpo de Belém. E contra Manuel Alegre, claro está.
Bem pode pregar o sempre avisado Vital Moreira que “nada aconselha um clima de animosidade entre as candidaturas de Mário Soares e de Manuel Alegre (que só beneficiaria terceiros...), e que, a havê-la, ela não deve ser gerada nem alimentada pelo primeiro nem pelos seus apoiantes”. Os impetuosos soarettes que animam o blogue não prestam grande atenção ao que de prudente por ali se escreve. É vê-los desancar Alegre, a propósito das suas “diatribes diárias contra esse saco de pancada em que se transformaram os aparelhos partidários”; do seu “importante contributo (para o ‘populismo mais desbragado’ — ai este amor aos lugares-comuns!), ao insistir na ideia da candidatura ‘livre dos aparelhos’ e dos partidos”; por ser apoiado por 20 ou 52 intelectuais; porque “a sua candidatura faz lembrar a clássica caixa de sabão em Speaker's Corner” onde até se pode gritar “eu sou Napoleão”. Tudo mimos elegantes.
Cavaco é bombardeado por todos os lados; por insultar a memória de Sá Carneiro ao ter Eanes numa sua comissão (as coisas com que esta malta se preocupa), por ter deixado um apartamento qualquer vazio enquanto foi primeiro-ministro (idem); por ter “ar de santinho de pau carunchoso”; porque um tal Natalino Viveiros se quer candidatar à liderança do PSD-Açores; por não fazer “a mínima ideia da história da Eslovénia” (ao que nos garante um Zandinga de ocasião); porque tem “escrito mais no Expresso do que em periódicos de ciência económica”; enfim, e acima de tudo o mais, porque, “manifestamente”, “não sabe comer de boca fechada”.
O PCP leva na cabeça por causa do seu cartaz com a exortação "resista e lute", que só pode implicar que anda atrás de “moinhos de vento”. O Bloco de Esquerda é por duas vezes acusado de cultivar o tal “populismo mais desbragado” (mas está a sair alguma colecção de chavões no “24 Horas”?), talvez por ousar ter na rua um cartaz acerca da sua proposta parlamentar de criação de um imposto sobre as grandes fortunas. O que pode significar esta sinistra manobra senão uma tentativa de “sacar uns votos aos reformados e pensionistas”? A bem da verdade, o que fazia mesmo falta às finanças deste país era um imposto sobre a tontice.

E que dizem então os bravos acólitos acerca de Mário Soares? Gastarão tantas palavras a gabar os seus méritos como a acusar os adversários e os indiferentes das maiores patifarias?
Não. O melhor que se arranja nunca se eleva muito acima do resignado e bisonho “já todos sabemos como é Mário Soares na Presidência da República. Em contrapartida, se Cavaco for eleito, ninguém sabe com o que poderá contar”.
Não abundam por ali esperanças fundamentadas em torno de um hipotético terceiro mandato de Soares. Talvez porque não haja mesmo nenhuma a apontar.

Publicado por Luis Rainha às 02:44 AM | Comentários (54)

outubro 25, 2005

POLÍTICA MARVELL

supermario.bmp
megacavaco.bmp

É o combate do milénio: Super Mário contra Mega Cavaco.

[Nota: um dos blogues é opinativo e assinado por colaboradores conhecidos na blogosfera, enquanto o outro não passa de uma anónima colecção de recortes de imprensa. Pelo menos neste campo de batalha, o Mega Cavaco (tal como o seu irmão Super Cavaco) não passaria sequer à segunda volta.]

Publicado por José Mário Silva às 06:13 PM | Comentários (18)

AVISOS IMPRESCINDÍVEIS À SAÚDE PÚBLICA

Joana Amaral Dias aproveita hoje a sua crónica no DN para alertar os portugueses para uma epidemia que por aí grassa, fatal e sem vacina à vista: a cavaquite. Ao que parece, esta maleita tem como primeiro sintoma a amnésia; a vítima esquece todas as malfeitorias cometidas por Cavaco Silva quando foi primeiro-ministro (e olhem que foram muitas, incluindo ter colocado a Cultura nas desastradas manápulas de Santana Lopes).
Não entrem em pânico, que a colunista/mandatária tem a receita indicada para uma cura miraculosa: "a terapêutica deverá começar, naturalmente, por exercitar a memória. Dispensa-se óleo de fígado de bacalhau, mas aconselha-se leitura."
Parece-me conselho salutar. Seria boa ideia, aliás, repeti-lo às sofredoras e incautas vítimas da doença simétrica: aquela malta de esquerda que perde o juízo e as estribeiras mal vê uma ínfima oportunidade de, afinal, não deixar Belém entregue ao inimigo. E que não hesita em apoiar um "animal político" que continua, como sempre, a pensar apenas na sua glorificação — e na humilhação do outro, o "gajo". Aqui, optaria por um tratamento alternativo, baseado na hipnose: bastará meditar um pouco numa só palavra, soletrada com cautela e bem devagar: Em - au - dio.

Publicado por Luis Rainha às 05:27 PM | Comentários (11)

O ÓBVIO QUE FAZ FALTA

Por vezes, é preciso reafirmar o evidente. Mesmo que a oposição ao recente prémio Booker também tenha argumentos fora da aritmética das vendas...

Publicado por Luis Rainha às 02:22 PM | Comentários (7)

DURANGO KID SÓ EXISTE NO GIBI

Amanhã, dia 26, às 18h30, na FNAC Chiado, terá lugar o lançamento de "O Pequeno Livro do Grande Terramoto" [edições Tinta da China], um ensaio sobre o terramoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 da autoria deste maluco-beleza que, para além de ser o magnífico blogger que todos conhecemos, é também um especialista no assunto. A apresentação estará a cargo do Professor António Hespanha e de Pedro Mexia. Não que eu não ache interessante a proposta do Zé Mário (à mesma hora...), mas estivesse eu em Lisboa e não perderia esta apresentação. E viva a sociedade alternativa.

Publicado por Filipe Moura às 08:31 AM | Comentários (7)

O FUTURO DA TELEVISÃO

É o que se vai debater, amanhã, à hora e no sítio do costume (18h30, Jardim de Inverno do Teatro São Luiz), na sessão inaugural da terceira temporada do «É a Cultura, Estúpido!». Na mesa, estarão Nuno Artur Silva e Daniel Oliveira, à conversa com o crítico João Lopes e com um dos inventores da televisão privada em Portugal, Emídio Rangel.
Apareçam.

[Quem quiser sugerir temas de conversa e perguntas pode fazê-lo através do blogue do projecto, aqui.]

Publicado por José Mário Silva às 01:34 AM | Comentários (4)

outubro 24, 2005

SEPARADOS À NASCENÇA, REUNIDOS AOS 50?

herman.jpg

Já me é penoso assistir aos programas de Herman José. Então quando ele se senta ao piano e começa a assassinar standards com aquele sotaque grotesco, ou quando tenta entrevistar alguém mas só consegue falar de si mesmo... vem-me à ideia o fantasma do Liberace. E desligo a TV. Acabrunhado.

Publicado por Luis Rainha às 08:28 PM | Comentários (6)

AS MÁS NOTÍCIAS VOAM

birds.jpg

Vi ontem um noticiário de TV que abriu com a morte de um papagaio em Inglaterra, cisnes fenecidos na Croácia, o passamento de um pato na Suécia e a necropsia de um perú já não sei bem aonde. Agora, estou a ouvir alarmantes notícias que envolvem cadáveres de gansos patolas e de gaivotas em Peniche…
Que pensaria alguém acabado de despertar de uma longa hibernação — logo totalmente a leste da ameaça da gripe aviária — ao dar de caras com semelhantes parangonas? Que tinha acordado em Patópolis?

Publicado por Luis Rainha às 08:09 PM | Comentários (7)

O VERDADEIRO PAI DO GOOGLE

Um libanês que vive na Suécia decidiu chamar Google ao filho. Há nomes piores, convenhamos. Mas o puto não se vai livrar de ouvir muitas bocas, ao longo da vida, sobre pesquisas avançadas e resultados de 1 a 10.

Publicado por José Mário Silva às 01:12 PM | Comentários (6)

THE NEXT ILLUSION WILL BE TELEVISED

quijote.bmp

Cartoon de Boligán

Publicado por José Mário Silva às 01:01 PM | Comentários (4)

COITADO DO GEORGE

Eis a brutal queda do presidente dos EUA, só recomendável a anti-americanos primários ou a bushistas com espírito de missão (podem usar o rato para minimizar os tratos de polé).

Publicado por José Mário Silva às 12:52 PM | Comentários (21)

outubro 23, 2005

MAIS DOIS POEMAS DE CAMÕES TRADUZIDOS PARA CABOVERDEANO (POR JOSÉ LUÍS TAVARES)

Que me quereis perpétuas saudades?
Com que esperanças ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos!, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos para um gosto são iguais,
Nem sempre são conforme as vontades.

Aquilo que já quis é tão mudado
Que quase é outra cousa; porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a fortuna e o tempo errado,
Que do contentamento são espias.

---

Kusé ki nhos kre-m perpetu sodadi?
Nhos ta ngana-m inda ku ki speransa?
Tenpu ki dja bai, ka ta torna pasa,
Y se boita, ka ta boita kes idadi.

Razon ten kes anu ki ta bai ku idadi,
Pamodi es ki ton lijeru ta troka rostu,
Nen tudu ka igual pa tudu gostu,
Nen senpri es ka ta konforma tudu vontadi.

Akilu ki n kreba un bes dja sta ton mudadu
Ki dja e kuazi otu kusa; pamodi dia
Si prumeru gostu dja sta stragadu.

Speransa di nobus alegria
Ka ta pirmiti-m furtuna ku tenpu eradu,
Es ki kontentamentu es ta poi na spia.

***

Oh, como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda aparece,
Da vista se me perde, e da esperança.

---

Ó, modi ki ta prulunga di anu pa anu
es nha kansadu pirigrinason di me!
Modi ke ta nkurta, y modi ke ta mexe pé,
dipos, es nha kurtu y von izistensia umanu.

Idadi ta ba ta gasta y ta omenta danu;
ta perde-m kel ramedi ki inda n tinha;
si pur spiriensia pode dibinha-
du, kualker grandi speransa é grandi enganu.

N ta kore trás des ben ki ka ta alkansa-
du. Na meiu di kaminhu e ta falise-
-m; mil ves n ta kai y n ta perde kunfiansa.

Ora ke fuxi, mi n ta tarda; y na tardansa,
si n labanta odju pa n odja si inda e ta parse,
e ta disparse-m di vista, y di speransa.

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (3)

O SPAM TEM UM DEDO QUE ADIVINHA

A última mensagem de e-mail que recebemos foi enviada por uma instituição de Psicoterapia Individual e Familiar.

Publicado por José Mário Silva às 11:36 PM | Comentários (1)

DE NOVO, OS LIMITES DO HUMOR

Há largos meses, teve origem num post do BdE uma interessante discussão, com o João Pedro da Costa por eixo, acerca das vedações que devemos (ou não) erigir em torno da nossa suposta veia piadética. Na altura, dei razão ao JPC; hoje, dou-lhe ainda mais.
Escrevi no outro dia uma pequena farsa que pretendia inventar a primeira reunião entre o PM Sócrates e Sua Majestade, Soares III. Certo como estou de que este sempre foi um político autocrático, implacável e amoral, cuja noção de ética acaba mal perde de vista o seu umbigo, claro que imaginei o pior.
Às tantas, atrevi-me a conjecturar que Mário Soares seria até bem capaz de ameaçar alguém com o reavivar de um boato calunioso. E saiu-me a passagem:
“ — (...) Ou queres que eu ponha aí a minha malta a soprar coisas aos jornais sobre a tua bichice?
— A minha quê??”
Tanto bastou para siderar muita gente. Que tinha dado exposição escusada a uma canalhice, sei lá.
Eu continuo convencido de que são coisas bem diferentes propalar a mentira ou afirmar que alguém seria capaz de o fazer para alcançar uma vantagem política. Quanto à essência do boato — a tal acusação de “bichice” — julguei eu que todos os leitores deste blogue já a conheceriam e saberiam bem do crédito que merece. Se calhar, enganei-me. Mas não me parece.
Se aceitarmos que há interditos absolutos, assuntos tabu de que nem podemos citar o nome, realmente a minha graçola terá sido infeliz. Se encararmos de forma um pouco menos hierática e pomposa esta coisa de escrever em blogues, a ideia de voluntariamente nos rodearmos de baias parece mesmo algo aberrante. Mas, ao fim e ao cabo e como diz um amigo meu, tudo isto é apenas HTML.

Publicado por Luis Rainha às 01:12 AM | Comentários (110)

outubro 22, 2005

METÁFORA

saturno.jpg

Francisco Goya, Saturno devorando um dos seus filhos (1819-1823)

Publicado por José Mário Silva às 11:58 PM | Comentários (1)

UM RELATO FUTEBOLÍSTICO


O extremo direito persegue a bola, conseguindo evitar que ela saia pela linha de fundo. Sem sequer levantar a cabeça, saca um centro a pingar para o coração da pequena área. Ali, o guarda-redes e um defesa hesitam antes de intervir. Um segundo de hesitação que basta ao atacante adversário para se intrometer com um pequeno toque de cabeça. A bola descreve um arco letal e entra na baliza, mesmo junto ao canto. É golo.

E lá corre o extremo esquerdo, braços esticados como se a sua alegria bastasse para o arrancar às leis da gravidade. Enquanto aquele miúdo corre, ele não é deste mundo; arde de uma febre sem remissão, é o centro do universo, voa bem alto — acima mesmo dos aplausos da bancada cheia.
Assim marcou hoje o meu filho o primeiro golo da época oficial. Nada de grandes ou urgentes consequências. Nada de que reste registo daqui a alguns dias.
Mas dei por mim no minuto de celebração a pensar que talvez nunca na minha vida tenha experimentado uma alegria menos egoísta do que aquela. Não sentia orgulho nem cumplicidade no triunfo; estava feliz apenas porque o meu filho estava feliz.
Mesmo o júbilo esmagador de o ter visto pela primeira vez, a espernear ainda incerto do peso deste mundo, mesmo esse teve muito de grito dos meus genes, proclamando a vitória da propagação. Mesmo aí comecei logo a calcular as aventuras, partilhas e destinos que iriam unir pai e filho. Não; nem então me consegui saber feliz apenas por ele.
Mas hoje sim. Hoje fui feliz só porque o vi meu filho iluminado por dentro, brilhando de uma alegria sem fim.
Estranho mesmo foi ter precisado do mais bruto e rasteiro dos jogos para me ter sentido tão puro, tão longe de mim.

Publicado por Luis Rainha às 11:55 PM | Comentários (8)

DEVOÇÃO

Desde o dia 29 de Setembro, o "Bigornas" já colocou cerca de 300 comentários neste blog.
E se calhar ainda lhe sobra tempo para ir à missa.
Coisa bonita, espírito de missão verdadeiro e desinteressado, considerando que este blog nem é o único beneficiário desta actividade febril.

Publicado por tchernignobyl às 08:37 PM | Comentários (10)

D. QUIXOTE DE LA PAMPA

Outra alternativa possível para a criação de Reservas Naturais...
Enriquecer, comprar vastas extensões de terreno e "devolvê-lo" à natureza.
Qual será o processo mais "natural"?

Publicado por tchernignobyl às 11:26 AM | Comentários (16)

TURISMO NUKLEAR

O imprescindível Bruce Sterling ajudou-me involuntariamente a concluir um post em que eu já pensava há muitos meses mas faltavam-me os links adequados.

Tem a ver com ressonâncias sonoras e precipitações radioactivas que me inspiraram a compôr a la minuta, quando comecei a comentar na blogosfera, o nick que tenho tido preguiça de abandonar.

A história é conhecida: O reactor nuclear de Chernobyl, explodiu no dia 25 de Abril 1986.
Um espectro, na forma de uma nuvem radioactiva, pairou sobre a Europa e abalou de tal forma a confiança no nuclear que só passados muitos anos, perante o presente cenário de crise energética de grandes proporções, se volta a propô-lo com alguma insistência como solução alternativa aos combustíveis fósseis.

Se a população pôde abandonar o local, as plantas e os animais permaneceram no cenário do que foi um atentado ambiental de primeira grandeza.
O tempo passou e Chernobyl foi mais ou menos esquecido.
Os animais e as plantas continuaram a reproduzir-se livremente ao abrigo do predador humano.
Apesar das mutações, mantiveram caracteristicas próximas das respectivas espécies e a excessiva radioactividade que lhes habita os corpos não parece incomodá-los.
Abandonado pelo homem, aquele território tornou-se uma vasta região selvagem onde raríssimos são os que se aventuram.
Ainda por cima razoavelmente servida por infra-estruturas rodoviárias!

Nasceu assim, graças à ausência de qualquer tipo de planeamento, sem lobbys privados a construirem casas de férias para moradores abastados, sem especulações imobiliárias, sem lobbys do betão, sem intrépidos amantes da natureza montados em poderosos SUV, Moto4 ou Motos de todo o terreno, a fabulosa RESERVA NATURAL DE CHERNOBYL, um verdadeiro modelo de turismo sustentável para aqueles que lá se aventuram.

Fica à consideração dos ecologistas o processo expedito para a criação de reservas realmente naturais que poderia ser adoptado para preservar muitas outras zonas ameaçadas do planeta .


Publicado por tchernignobyl às 10:34 AM | Comentários (3)

outubro 21, 2005

PROFISSÕES DE DESGASTE RÁPIDO

- Mineiros
- Pescadores de atum no alto mar
- Montanhistas reincidentes na escalada a cumes acima dos 8.000 metros
- Apanhadores de esponjas em apneia
- Ministros das Finanças em Portugal
- Operários de plataformas petrolíferas
- "Administradores" de blogues colectivos

Publicado por José Mário Silva às 04:32 PM | Comentários (16)

AS CARRAÇAS

O que representa a candidatura do Cavaco já o sabemos.
Se houver apoiantes habituais do PS, da CDU ou do Bloco que votem nele ( são as sondagens que o dizem), arrastados pelo mito que tem vindo a ser propagandeado do homem providencial, não venham esses idiotas depois choramingar-se de que foram "traídos", sobretudo depois de lerem as intenções que Morais Sarmento teve o mérito de explicitar de forma que não podia ser mais clara, dizendo alto e bom som o que os outros evitam dizer publicamente.
Não se trata pois de eleger uma figura decorativa, ou "uma pessoa que nos represente", trata-se de eleger um político com um programa. E com Poder.
Nem sei como alguém no seu perfeito juízo, pode imaginar que um Soares ou um Cavaco quererão o cargo "só porque sim", para satisfazer o ego.

Do outro lado, a candidatura de Mário Soares:
A idade de Soares não me incomoda particularmente por muito que a direita gema com essa questão como se o Cavaco não estivesse já acima da idade da reforma dos funcionários públicos.
O que incomoda bastante é a forma como a candidatura de Soares, onde parecem pontificar pessoas como Lello e Coelho, depois das cenas tristes com o PS e Alegre, continua a tratar adversários da mesma área política, pessoas do mesmo partido.
Uma arrogância inacreditável.
Parece que ainda não perceberam que a maioria dos portugueses vota à esquerda mas começa a apresentar um número muito saudável de anticorpos contra este tipo de actuação.
Em resumo... estes gajos começam a meter nojo, e o que é grave, é que não é visível qualquer espécie de renovação na esquerda do PS, nenhum dirigente jovem que não corresponda ao protótipo do engravatadinho pronto a fazer os degrauzinhos da carreira.
Desaparecem os laços com a sociedade, subsistem como lianas as ligações aos grandes escritórios de advogados e às grandes empresas multinacionais.
A geração que há várias gerações controla o partido e hoje visivelmente o asfixia, não parece sequer dar mostras de passar a pasta a outro, e "o outro" parece invisível se exceptuarmos fenómenos extremos como o Tino de Rans e o José Manuel Seguro.
A única hipótese de renovação do PS será possivelmente a entrada do Bloco de Esquerda, hoje um partido plenamente social democrata ao estilo dos anos sessenta, em força, seguindo a tendência já desenhada pela mandatária da juventude de Soares.
Por mim, se não soubesse que a alternativa são 10 anos de Cavaco, (lembrem-se bem do que são 10-anos-10 de Cavaco, um esforçozinho de memória não faria mal - e nem me venham com histórias que antes era PM e agora seria PR...) dizia-vos já o que é que eu iria votar.

Publicado por tchernignobyl às 03:28 PM | Comentários (24)

O OUTRO TEXTO DO LUÍS

Espero que quem me lê seja suficientemente maduro para não ir em jogadas de vitimização. Eu não tive nenhum problema com os textos anteriores. Achei graça aos "Soarettes" - era o Luís no seu melhor. Concordei, inclusive, com o texto do "Lello e os parasitas", e tive ocasião de o manifestar nos comentários. Não me revi no "Não o escondam, não..." por ele revelar simplesmente uma embirração pessoal do Luís, quiçá mesmo uma raiva ou um ódio. E nada mais do que isso. Mas, enfim, esses sentimentos ficam com quem os manifesta.
Aproveito para esclarecer que nunca me revejo em textos cujo único fito seja o achincalhamento. É possível que ao manifestar esta minha posição agora eu esteja a ser parcial, pois já houve outras ocasiões em que se assistiu ao achincalhamento de outras pessoas (nomeadamente de Pedro Santana Lopes). Embora ache que, independentemente das respectivas ideologias, há uma diferença abissal, enquanto políticos e estadistas, entre Mário Soares e Pedro Santana Lopes, nunca apreciei que se achincalhasse ninguém. Tive ocasião de o manifestar diversas vezes nas caixas de comentários. Da mesma forma, nunca aceitei que as mesmas caixas de comentários servissem de veículo de propagação dos boatos mais mesquinhos. Foi por estas razões - pelo achincalhamento, pela ofensa, pelo boato - que sempre fomos (aqui falo no plural) apagando os comentários que sistematicamente os continham, nomeadamente os da RIAPA.
Dito tudo isto, reafirmo que o único texto que efectivamente constitui para mim um problema é o que eu linkei - "A PRIMEIRA QUINTA-FEIRA COM SOARES EM BELÉM". Nenhum dos outros. E, coerentemente, reafirmo o que escrevi acerca deste texto: não é para isto que eu ando todos os dias a apagar comentários da RIAPA. É tudo o que tenho a dizer.

Publicado por Filipe Moura às 02:19 PM | Comentários (10)

OS TEXTOS DO LUÍS (REESCRITO)

Luís, sabes perfeitamente que eu nunca quis que tu apagasses os teus textos. Acho-os eloquentes. Não foi com certeza por aquela minha observação que os apagaste.

Publicado por Filipe Moura às 02:16 PM | Comentários (1)

PAUSA

Vou ali resolver uma crise e já volto.

Publicado por José Mário Silva às 01:30 PM | Comentários (0)

outubro 20, 2005

SÓ UMA PERGUNTINHA

Ando eu todos os dias a apagar comentários da RIAPA... para isto?

Publicado por Filipe Moura às 09:05 PM | Comentários (17)

E LÁ ARRANCOU A CORRIDA!

Filipe: desculpa lá ter inadvertidamente tocado na tua Vaca Sagrada. Como vês, já te poupei tempo e trabalho de limpeza.

Publicado por Luis Rainha às 08:31 PM | Comentários (6)

NUMEROLOGIA

No austero cenário do CCB, alinhavam-se dez bandeiras nacionais, sedosas e brilhantes. Uma por cada ano em que Cavaco Silva se manteve à margem da vida política portuguesa. Uma por cada ano que passou desde a derrota eleitoral que lhe foi infligida, na corrida a Belém, por Jorge Sampaio.

Publicado por José Mário Silva às 08:20 PM | Comentários (3)

FALTAM DEZ MINUTOS

Na SIC Notícias, uma moto acompanha o percurso feito de carro, por Cavaco Silva, através de Lisboa até Belém (até ao CCB, entenda-se). Era certamente a este tipo de coisas que o Luís Delgado se referia quando escreveu hoje, no DN, que «está tudo montado, e preparado, ao ínfimo pormenor».

Publicado por José Mário Silva às 07:50 PM | Comentários (0)

A PRIMEIRA QUINTA-FEIRA COM SOARES EM BELÉM

Filipe: desculpa lá ter inadvertidamente tocado na tua Vaca Sagrada. Como vês, já te poupei tempo e trabalho de limpeza.

Publicado por Luis Rainha às 06:17 PM | Comentários (7)

NÃO O ESCONDAM, NÃO…

Filipe: desculpa lá ter inadvertidamente tocado na tua Vaca Sagrada. Como vês, já te poupei tempo e trabalho de limpeza.

Publicado por Luis Rainha às 06:01 PM | Comentários (1)

EXPOSIÇÕES

Dentro de duas horas, falará Cavaco Silva. Em directo nos vários telejornais, diante da pátria sincronizada.
Antes disso, daqui a meia hora, no Pavilhão Chinês (perto do Jardim do Príncipe Real), será lançado o livro Contrabando, uma antologia poética do poeta neerlandês Gerrit Komrij (de que ainda ontem falámos aqui), traduzida por Fernando Venâncio.
Entre os dois acontecimentos está aquilo que este poema traduz:


ANTÍPODA

Poupem-me a transparência das coisas,
Roupa lavada, sol, danças de roda.
Prefiro reflexos, recordações,
Disfarces mortiços de camaleão.

Não estou. Nenhuma veia em mim murmura.
Vivo nas sombras, nome não conheço.
Deixem-me ressequir na invernia,
Longe das fortes bátegas do verão.

Os temporais de luz, não os suporto.
Não me olhem. Evitem-me essa dor.
Ó câmara. Imagem do bem-estar.
Quero-me antípoda desta exposição.

[A quem estiver no lançamento será dado testemunhar uma cena talvez inédita, com alguns contornos de embaraço para este que vos escreve. Lá mais para a noite explicarei porquê.]

Publicado por José Mário Silva às 06:00 PM | Comentários (4)

O «É A CULTURA, ESTÚPIDO!» REGRESSA AO SÃO LUIZ NO PRÓXIMO DIA 26

Entretanto, o blogue oficial dos encontros já está on-line, aberto a comentários e sugestões, quer dos habitués quer dos futuros espectadores. Vão passando por lá.

Publicado por José Mário Silva às 01:11 AM | Comentários (0)

outubro 19, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM


Fotografia de Chris van Houts


Ele é, talvez, o mais importante dos poetas neerlandeses vivos. Gerrit Komrij, o provocador. Gerrit Komrij, o crítico impiedoso. Gerrit Komrij, o cronista desbocado e politicamente incorrecto. Mas também Gerrit Komrij, o tradutor de Shakespeare e o eremita que escolheu Portugal para escapar às mundanidades holandesas. Gerrit Komrij, o poeta que sempre escreveu versos sobre o vazio, sobre o abismo, versos que se auto-destroem ou crescem em terreno precário, peças ínfimas de um jogo muito irónico e muito lúdico com a morte. É este Gerrit Komrij poeta (ainda inédito por cá, ao contrário do Gerrit Komrij romancista) que uma antologia da Assírio & Alvim vem dar agora a conhecer aos leitores portugueses. O livro intitula-se Contrabando, o tradutor é o nosso Fernando Venâncio e o lançamento terá lugar amanhã, no Pavilhão Chinês (junto ao Príncipe Real), pelas 18h30.
Eis um dos poemas de Komrij:


A CAMA DE FERRO

Olham uma menina e um gato
Num espelho qual buraco de fechadura,
Vendo outra menina e outro gato.

Coisa alguma o fardo alivia
Do espelho e do armário de gavetas.
A eles se agarrou muita poesia.

Poemas como caixas, dentro nada.
Ou, se algo houver, será apenas isto:
Triste cama em marquise envidraçada.

Publicado por José Mário Silva às 07:02 PM | Comentários (10)

CHOVE, CHOVE

«Será que chove? Vou ver à internet.»

Eduardo Prado Coelho, a propósito da desvitalização da realidade, na sua crónica de hoje no Público (sem link disponível)

Publicado por José Mário Silva às 06:55 PM | Comentários (1)

AS QUINTAS-FEIRAS COM CAVACO EM BELÉM

A chave política escolhida por António Brotas para analisar os candidatos à Presidência da República parte de um curioso exercício de especulação: «imaginar os futuros encontros de José Sócrates com o futuro PR». O candidato que gera mais expectativas neste jogo virtual, até porque ainda não se apresentou nem lhe conhecemos as linhas programáticas, é evidentemente Cavaco Silva. Sobre Cavaco já se disse tudo e mais alguma coisa, com realce para as várias direitas (salivantes com a perspectiva de roubarem à esquerda, finalmente, o Palácio de Belém), mas falta saber de que forma Cavaco pretende realmente exercer os seus poderes constitucionais. Apostará o ex-primeiro-ministro num mandato tranquilo e pouco intrometido nas matérias governativas, embora vigiando de perto eventuais excessos de um PS com mãos livres no Parlamento e cada vez mais dono e senhor da máquina pública? Ou será um PR interventivo, em irónica luta contra a "ditadura da maioria" e impondo-se no cenário político como um contra-poder, sempre com a ameaça da dissolução da Assembleia a pairar sobre a cabeça de Sócrates?
Ávido de vingança, depois do imaginário "golpe de estado constitucional" que o teria afastado da governação, Morais Sarmento já veio deixar claro, em entrevista ao Diário Económico, o que espera de Cavaco e dos encontros semanais com o primeiro-ministro:

«— Na situação em que o país se encontra, o Presidente da República é talvez o mais forte ponto de arranque de um processo de reformas. Aquilo que eu acho que o prof. Cavaco Silva é capaz de concretizar é o projecto e a tarefa mais difíceis desde 1976. Mas isto apenas se ele aparecer já dizendo ao país quais são os pontos de bloqueio, sem receio de afirmar objectivamente quais são os receios e os tabus que o país conhece. E estou a falar, por exemplo, da dimensão do sector público, da dimensão do Estado, do número de funcionários públicos; estou a falar da gratuitidade das prestações sociais, da inflexibilidade da prestação social em matéria de despedimento, etc.. Estas reformas não são uma questão de esquerda ou direita, de partidos ou de governo. São balizas para a actuação de um governo e ele deve dizer já o que pensa destas matérias.
Mas o Presidente entraria na esfera do Governo…
— Apresentando-se desta forma ao país, o Presidente deixa de estar às quintas-feiras a receber o primeiro-ministro para comentar a situação do país e passa a estar às quintas-feiras a receber o PM para julgar em que medida o Governo está ou não a cumprir as directrizes. Enquanto estes pontos forem respeitados na livre decisão do Governo, tudo bem. Quando qualquer destes pontos for tocado, o Governo terminou nesse dia. Com ou sem maioria.»

Será também por aqui, pela definição clara da esfera em que o PR pode e deve agir, que a discussão em torno das próximas eleições passará. E, ou muito me engano, ou vamos deparar com mais focos de presidencialismo agudo em sociais-democratas que andam perdidos no deserto ou a gerir a ressaca da sua súbita expulsão do aparelho estatal.

Publicado por José Mário Silva às 05:53 PM | Comentários (11)

DECLARAÇÃO DE AMOR POLÍTICO COM MÉTRICA ABSTRUSA

«Quem não estiver [informado sobre as qualidades e características pessoais de Cavaco Silva], basta-lhe ler um dos inúmeros textos que sobre ele escreveu e certamente continuará a escrever Vasco Graça Moura», alertou António Brotas mais abaixo. Pois nem de propósito. Hoje mesmo, no DN, VGM assina o panegírico da praxe.
Eis o apoteótico final da prosa:

«(...) Cavaco Silva reúne assim honesto estudo, longa experiência e engenho, "cousas que juntas se acham raramente". Combina os ensinamentos da mais ilustre tradição humanista europeia com as preocupações modernas de uma democracia estruturada, inovadora e qualificada à escala do ser humano.
Outros defendem uma nebulosa tradição panfletária e retórica que não é humanista e que não passa de um vago humanitarismo aliteratado. Filiam-se numa matriz de ideias gerais, jacobinas e inconsistentes, e cultivam uma demagogia manobrista, variável ao sabor de teias de intrigas e de jogos de poder à imagem da Primeira República.
Cavaco Silva aposta numa recuperação da confiança e da plena capacidade de trabalho dos portugueses. Surge como o sinal mais forte de esperança a iluminar transversalmente todos os quadrantes. Os portugueses acreditam que só ele poderá ajudá-los.
As outras candidaturas de que se fala não são portadoras de esperança, mas sim do bafio e do desânimo, da insuficiência e do ódio político, das vias da pauperização e da continuação da crise. Toda a gente sabe que se limitam a propor "mais do mesmo".
Os portugueses conhecem Cavaco Silva. Sabem que só ele trará "mais do melhor".»

Publicado por José Mário Silva às 05:11 PM | Comentários (15)

HAVERIA NECESSIDADE?

Dias da Cunha deixa a Presidência do Sporting.

Publicado por Filipe Moura às 03:01 PM | Comentários (8)

A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL: OS CANDIDATOS

Estamos numa legislatura que normalmente deverá durar mais três anos e meio e temos um governo com maioria absoluta na Assembleia que tem tido a sua actuação muito contestada nos últimos tempos e que desceu francamente nas sondagens. É neste contexto que vamos ter eleição presidencial, havendo já cinco candidatos anunciados.

Como irá decorrer a campanha ? Que papel irão ter e qual é a motivação dos diferentes candidatos? Que impacto terá esta eleição no futuro do País?

Para escrever sobre estes assuntos há que analisar em primeiro lugar o papel do Presidente da Républica na prática política portuguesa. Como nota lateral, desejo dizer que considero a nossa Constituição estruturalmente bastante boa. É provável, por exemplo, que a Constituição francesa evolua no sentido de se aproximar da nossa. Mas, dito isto, a minha opinião é a de que a função mais importante do PR na nossa prática política é a de se encontrar uma vez por semana com o Primeiro-Ministro.

Para analisar a próxima campanha eleitoral a minha chave política é, assim, a de imaginar os futuros (e nalguns casos com probabilidade nula) encontros de José Sócrates com o futuro PR. Vou-me permitir caracterizar com duas palavras a campanha e a hipotética actuação dos diferentes candidatos.

Comecemos por Mário Soares: "Apoio crítico". Se a sua actuação futura for só a de dar apoio ao governo PS não tem interesse nenhum. Mas, se este apoio for acompanhado por conselhos e críticas ditadas pela experiência e, sobretudo, por uma capacidade de mobilização que leve o País a debruçar-se e a debater os modos de fazer política em Portugal, ou seja, o futuro da nossa Democracia, a eleição de Mário Soares poderá ser extraordinariamente importante. Ele poderá, por exemplo, fazer algo que se assemelhe ao congresso "Portugal que futuro?", que foi uma coisa muito bem feita. Em particular, ele pode influenciar o PS para que se revele capaz de contribuir para o renovamento e reinvenção da Democracia portuguesa, em vez de se reduzir a uma mera estrutura de apoio ao Governo.

Cavaco Silva: "Controlo e rigor". O País está suficientemente bem informado sobre as qualidades e características pessoais de Cavaco Silva. Quem não estiver, basta-lhe ler um dos inúmeros textos que sobre ele escreveu e certamente continuará a escrever Vasco Graça Moura. Mas, o que nem VGM nem ninguém ainda foi capaz de dizer é o que fará Cavaco Silva se o controlo e a simples insistência no rigor não chegarem para fazer funcionar o governo a seu contento. Parece-me que é um assunto sobre o qual o próprio se terá de pronunciar durante a campanha. Terá, também, interesse ver se Cavaco Silva, mais maduro e sabedor, é capaz de revelar alguma capacidade crítica relativamente à sua actuação de há 10 anos atrás.

Francisco Louçã: "Moralidade e crítica". Imaginar Louçã Presidente da República a encontrar-se com o Primeiro-Ministro José Sócrates é um exercício puramente académico. Não deixa, no entanto, de ter algum interesse. A dúvida é se Louçã revelaria maturidade para dar mais importância aos problemas de fundo do País do que às questões meramente "fracturantes".

Jerónimo de Sousa: "Crítica construtiva". A hipótese de Jerónimo de Sousa ser PR é igualmente académica. Não posso, no entanto, deixar de pensar que, se a nossa Presidência fosse rotativa e quase simbólica, como na Suíça, ele poderia ser um dos Presidentes transitórios. Serviria, pelo menos, para lembrar que no País ainda há operários.

Manuel Alegre: "O Verbo e o vazio". Creio que todos aceitam o "Verbo". Procurei uma segunda palavra e não encontrei. O "vazio" resultou deste não encontrar. Se algum apoiante de Manuel Alegre sugerir alguma palavra que julgue adequada estou disposto a ponderá-la. Mas não abdico da minha opinião. Acho que Manuel Alegre falhou completamente a oportunidade que teve de contribuir para o renovamento do PS quando apresentou a sua candidatura a Secretário-Geral por ocasião do último Congresso. Falhou na organização da campanha, particularmente inoperante e centralizada, na incapacidade de fazer um diagnóstico dos problemas do PS e de propor soluções para eles, na falta de diálogo com os apoiantes, no modo muito fechado como a sua candidatura organizou a lista para a Comissão Nacional. De facto, limitou-se a construir um quadrado que reproduziu, alguns agravados, os defeitos do aparelho existente. O XIV Congresso do PS ainda não acabou: as moções sectoriais subscritas pelos delegados, que dada a impossibilidade de serem apreciadas em Guimarães transitaram para a Comissão Nacional para serem apreciadas e votadas, ainda não o foram. Os elementos da CN eleitos pela candidatura de MA ainda não deram, até hoje, nenhuma atenção ao assunto. Não vejo, assim, qualquer interesse em hipotéticos encontros de Manuel Alegre Presidente da República com José Sócrates Primeiro-Ministro. (António Brotas)

Publicado por Filipe Moura às 02:36 PM | Comentários (17)

H5N1

Por uma vez, sem exemplo, espero que se cumpra esta profecia do João Miranda, o ultra-liberal anarco-capitalista do Blasfémias.

Publicado por José Mário Silva às 02:33 PM | Comentários (2)

Ó LELLO, OLHÓS PARASITAS!

Filipe: desculpa lá ter inadvertidamente tocado na tua Vaca Sagrada. Como vês, já te poupei tempo e trabalho de limpeza.

Publicado por Luis Rainha às 02:22 PM | Comentários (5)

OS SOARETTES

Filipe: desculpa lá ter inadvertidamente tocado na tua Vaca Sagrada. Como vês, já te poupei tempo e trabalho de limpeza.

Publicado por Luis Rainha às 01:42 PM | Comentários (4)

outubro 18, 2005

DOIS SONETOS DE CAMÕES EM CRIOULO

No dia do nascimento de Eugénio Tavares (1867-1930), um dos maiores escritores de Cabo Verde, o BdE acolhe a tradução para crioulo que José Luís Tavares, nosso leitor, comentador e itálico, fez de dois célebres sonetos de Luiz Vaz de Camões:


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

---

Ta muda tenpu, ta muda vontadi,
Ta muda ser, ta muda konfiansa;
Tudu mundu é fetu di mudansa,
Ta toma senpri nobus kolidadi.

Sen nunka pára nu ta odja nobidadi,
Diferenti na tudu di speransa;
Máguas di mal ta fika na lenbransa,
Y di ben, si izisti algun, ta fika sodadi.

Tenpu ta kubri txon di berdi manta,
Ki di nebi friu dja steve kubertu,
Y, na mi, ta bira txoru u-ki n kantaba

Ku dosura. Y, trandu es muda sen konta,
Otu mudansa ta kontise ku más spantu,
Ki dja ka ta mudadu sima kustumaba.


***


No mundo poucos anos, e cansados,
Vivi, cheios de vil miséria dura:
Foi-me tão cedo a luz do dia escura,
Que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
Buscando à vida algum remédio ou cura;
Mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
Não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
Pátria minha Alenquer; mas, ar corruto,
Que neste meu terreno vaso tinha,

Me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates na Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa pátria minha!

---

Na mundu anus poku, y kansadu,
n vive, na mizéria más porka y duru:
lus di dia ton sedu bira-m sukuru,
ki n ka odja vinti y sinku anu fitxadu.

N kore teras ku mar ka li sin au ladu,
ta buska pa bida algun ramedi o kura;
mas, akilu ki, enfin, ka kre ventura,
ka ta konsigi-l trabadju ariskadu.

Kria-m portugal na nha berdi y amadu
pátria di meu, alenker; mas, ar molestu,
ki n tenba nes korpu ki ka ta ba pa séu,

fase-m kumida di pexi na bo, matxikadu
mar, ki bu ta sota na abásia txipi sen prestu,
ton lonji di kel ditozu pátria di meu!

Publicado por José Mário Silva às 10:02 PM | Comentários (1)

ESTÁTUAS PERDIDAS, CACA DE POMBOS E BLOGUES

Foto de Marc Babsin

Não há lisboeta que nunca tenha ouvido esta historieta: a estátua de D. Pedro IV, no Rossio, representa na realidade o imperador Maximiliano do México. O escultor ter-se-ia enganado no envio das duas estátuas em que trabalhava em simultâneo, trocando os endereços. Desta forma, estaria agora D. Pedro IV numa praça algures no México. Acreditem ou não, até um prestigiado jornal espanhol já deu crédito a tão fraca patranha.
Uma outra versão, mais elaborada, garante-nos que a estátua aportou a Lisboa no seu périplo para o México; eis senão quando chega a notícia da morte de Maximiliano. E que tal vender o mono agora inútil a uma cidade sequiosa de glória mas não muito abonada? E lá teria sido rebaptizado o aventuroso Habsburgo com o nome de um parente deste recanto longínquo e pelintra.
Não achando nenhuma destas versões muito verosímil, tentei encontrar dados de confiança na Internet. Por estranho que vos possa parecer, a empreitada revelou-se dura. Encontrei alguns ecos da fábula e pouco mais. A única fonte com ar de coisa credível acabou por ser… um blogue. Assim sendo, agradeço ao Paulo Gama o texto esclarecedor.
Mas a minha costela obsessiva não me dava sossego; gastei ainda mais uns largos minutos em busca de provas que me descansassem quanto à identidade da veneranda estátua. Acabei por encontrar um rasto da presença do escultor em questão, Louis Valentin Elias Robert, em Lisboa, quando o monumento devia estar a ser executado. Assim sendo, dou-me por satisfeito; mas se algum leitor puder complementar a minha educação neste tema, agradeço.
E qual a razão de tanto tempo desperdiçado? Nem sei bem. Hoje, pela primeira vez, aproximei-me da peanha do Imperador. E descobri que anda por ali em acção um misterioso e por certo letal "mecanismo electrostático de afastamento de pombos", segundo atestam alguns avisos gravados em latão. Os pombos, aparentemente, não lêem o suficiente para saber que correm perigo. E eu, pensando no esforço que a CML faz para manter limpa a obra, decidi-me a tirar a limpo a verdade. Há maneiras bizarras de perder tempo, sim senhora.

Publicado por Luis Rainha às 07:08 PM | Comentários (5)

1 LIVRO, 1 AUTOR

Vida Oculta, de Pedro Mexia. Às 18h45, no Centro Nacional de Cultura (Chiado).

Publicado por José Mário Silva às 05:29 PM | Comentários (0)

AVENTURAS DA MÃO INVISÍVEL EM PORTUGAL

Os liberais são umas criaturas pertinazmente religiosas. O seu credo tem como artigo de fé central que, num mercado livre, cada indivíduo é levado por uma espécie de "mão invisível" a tomar as decisões mais propícias ao bem comum. Isto quando deixado a agir por conta própria, em resposta apenas ao que ele julga serem os seus interesses egoístas.
Assim deixou escrito o Profeta Adam Smith; assim o repetem pelo menos 12 vezes ao dia os seus discípulos mais assanhados. Para dar um ar mais sério e científico à superstição, invocam sempre uma misteriosa parecença entre este arremedo de "lei" e as descobertas de Isaac Newton. A conclusão desejada é óbvia: a gravidade e a bondade intrínseca do mercado são dois fenómenos igualmente reais, comprovados e credíveis. Os fiéis mais sofisticados e com mais tempo livre nas mãos ainda conseguem inventar umas pícaras divagações sobre matéria e economia "autoorganizadas" para compor o ramalhete teológico.
Não sei o que achar mais desconcertante: se a fé cega num princípio inverificável, infalsificável e improvável, ou se tão generosa confiança depositada nessa mítica e brava figura: o Empresário.
Olhem que, a fazer fé na minha experiência profissional, que inclui contactos com várias dezenas de empresários cá do burgo, imaginar esta malta dedicada, mesmo que de modo involuntário, ao bem da sociedade é voo de imaginação capaz de causar vertigens ao espírito mais aventureiro (pronto, está bem: claro que existirão uns quantos cidadãos bem formados, altruístas e menos sociopatas no grupo).
Mas, como sabe qualquer um que já estudou o fenómeno de Fátima, não adianta argumentar de forma racional com gente que se julga infundida desse exótico sopro divino, a Fé; mesmo a propósito do que parecem ser imposturas flagrantes. Adiante.
Os problemas desta famosa "Mão Invisível" começam quando se dá o choque frontal com a realidade. Quando temos ocasião de verificar como se comportam empresas e empresários mal se julgam ao abrigo de qualquer fiscalização. E que vemos? A erupção imparável da mais sã concorrência, promovendo melhores produtos, preços reduzidos, mais felicidade para a populaça?
Ná. A resposta, como os menos dados à busca de teofanias já adivinharão, aparenta ser outra: o que vemos medrar são cartéis; associações de malfeitores que manipulam em seu favor os preços, distorcendo os mercados e roubando o consumidor. O tal bem comum parece ser misteriosamente preterido em favor da cupidez, da ambição desbragada e do egoísmo mais atroz.
Há uns meses, a triste história dos telemóveis franceses já tinha dado que falar. Agora, em Portugal, as autoridades também começam a perder o medo: a seguir ao conhecido escândalo das farmacêuticas, vem já aí a pouca-vergonha dos preços do pão.
Não podia mesmo ser pior: nem os doentes escapam. No primeiro caso, empresas de grande e pequeno porte juntaram-se numa quadrilha multinacional que combinava preços a apresentar em concursos hospitalares; o nosso depauperado sistema de saúde perdeu assim, só à conta dos testes de diabetes, mais de 10 milhões de euros. As empresas de moagens de farinhas, por seu lado, vêem-se agora envolvidas num processo similar, tendo sido multados gigantes do sector, empresas de média dimensão, quase todo o mercado, em suma: "as multas abrangem praticamente todas as companhias representativas do sector."
Concorrência? Para quê, se podemos maximizar a nossa margem de lucro sem fazer qualquer investimento? A Mão Invisível? Só se for a que nos põe mais dinheiro no bolso…

Talvez fosse boa ideia regressar à Obra do Profeta e descobrir o que andou Adam Smith a fazer com grande parte da sua vida: estudar uma coisa fora de moda, incómoda e pouco propagandeada: a ética dos negócios. Mas isso seria bem mais trabalhoso do que repetir o santo mantra dos mercados, da liberdade, do bem comum, etc. Mais vale fazer de conta que estas feias realidades dos mercados, quando metem gente de carne, ossos e grandes bolsos, não existem de todo.

Publicado por Luis Rainha às 04:41 PM | Comentários (22)

outubro 17, 2005

PECHINCHA À SAÍDA DO METRO

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As memórias pouco fiáveis do truculento escritor australiano Clive James (talvez se lembrem dele a apresentar um genial programa de viagens, transmitido pelo People & Arts), compradas em 14.ª mão ou perto disso, num alfarrabista manhoso do Chiado, por 1,5 euros.

Publicado por José Mário Silva às 11:44 PM | Comentários (1)

CONTRASTE

Se por um lado lamento o inferno em que o Sporting mergulhou, muito por culpa própria e autismo dos dirigentes (entre outras coisas, é imperdoável que a decisão de afastar Peseiro não tenha acontecido após o jogo em Paços de Ferreira, o que teria permitido "arrumar a casa" durante a interrupção do campeonato e minimizar os danos), por outro lado sinto-me orgulhoso do percurso que o meu Vitória de Setúbal está a fazer nesta edição da Liga. Apesar da crise financeira sem fim à vista que compromete o futuro imediato do clube, a equipa de futebol, depois de uma presença honrosa na Taça UEFA (eliminação pela Sampdória, pela margem mínima), está neste momento em quinto lugar, com os mesmos pontos do Benfica (13) e mais um do que o Sporting. A vitória de ontem em Penafiel, numa altura em que a maioria dos jogadores não recebe o seu salário há mais de dois meses e a direcção falhou sistematicamente os vários ultimatos para a resolução do problema, tem contornos quase heróicos e é uma lição de humildade e brio profissional. Tomara que os jogadores do Sporting que se arrastaram em campo contra a Académica, pagos a horas e nalguns casos a peso de ouro, tivessem um décimo da dignidade e do tão famoso "amor à camisola" que os seus companheiros setubalenses demonstraram.

Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (1)

O INSURGENTE, A CULTURA E A CIÊNCIA

Os (muitos) textos publicados n'O Insurgente sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Harold Pinter devem ser recordados da próxima vez que se discutir o tema "A Direita e a Cultura.
Ainda no mesmo blogue, os textos do Brainstormz devem ser recordados quando se discutir "A Direita e a Ciência".
Finalmente gostaria de recordar ao HFerreira e ao AAA que (no referencial da Terra) obviamente o Sol gira à volta desta.

Publicado por Filipe Moura às 07:33 PM | Comentários (23)

CARO DOUTOR DIAS DA CUNHA

Se o seu objectivo é a eleição de Mário Soares para a Presidência da República, venho por este meio pedir-lhe um favor. Pelo menos enquanto José Peseiro for treinador do Sporting, por favor abstenha-se de participar em acções de campanha. É contraproducente, compreende? Se calhar, dada a sua popularidade actual, o melhor será que não participe de todo.
Atenciosamente,
um sportinguista apoiante de Mário Soares.

Publicado por Filipe Moura às 06:22 PM | Comentários (5)

A GRANDE COLIGAÇÃO

Sem querer ser exaustivo: eu, o Zé Mário, o Leonardo Ralha, o jcd, o João H. Jesus, o Costa Pereira, o Rui Branco e, por vezes, até o circunspecto Vital Moreira.
Terá alguma vez havido para os sportinguistas treinador mais unânime do que José Peseiro? Creio que não.

Publicado por Filipe Moura às 02:06 PM | Comentários (10)

MAIS UM ARGUMENTO CONTRA O PODER LOCAL

Depois de Felgueiras, Valentim, Isaltino e Avelino: Coruche com Peseiro.

Publicado por Filipe Moura às 01:36 PM | Comentários (1)

ENQUANTO EU VOU ALMOÇAR...

...José Peseiro está reunido com Dias da Cunha. Quando eu regressar, espero que já não seja treinador do Sporting. Terei essa notícia a adoçar-me o café vespertino?

Publicado por Filipe Moura às 11:37 AM | Comentários (12)

outubro 16, 2005

AURORA NO NIMAS

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Um filme perfeito de F. W. Murnau. E uma belíssima canção de dois humanos (sublinhar a palavra canção).

Publicado por José Mário Silva às 11:41 PM | Comentários (0)

DEPOIS DE MAIS UM NAUFRÁGIO EM ALVALADE

Já não são lenços brancos. São lençóis. Um estádio inteiro em autofagia, fúria e repulsa. O impensável acontece, repete-se, eterniza-se. A equipa desagrega-se, despedaça-se, despenha-se, estatela-se no chão como se tivesse sido roída pelas térmitas. E Peseiro continua - altivo, autista, apatetado - a assobiar para cima e a dizer que «não estamos fortes» e «não conseguimos lidar com o stress».
Ou seja, não se demite. Pior: ninguém lhe pede para se demitir. Pior ainda: ninguém o demite de uma vez, para evitar o colapso total que se avizinha.
Entretanto, o Sporting afunda-se mais e mais.
Acordem-me quando o pesadelo tiver chegado ao fim, s.f.f.

Publicado por José Mário Silva às 11:06 PM | Comentários (14)

EM QUATRO PALAVRAS APENAS

«Perfeita encarnação da vacuidade.»

Vasco Pulido Valente sobre José António Saraiva, na edição de hoje do Público

Publicado por José Mário Silva às 10:47 AM | Comentários (1)

UM DIA EM ÁFRICA

28 de Fevereiro de 2002: várias latitudes e longitudes, 53 países, 100 fotógrafos.

Publicado por José Mário Silva às 10:43 AM | Comentários (0)

outubro 15, 2005

SÍMBOLOS E MEMÓRIA

«Portugal, claro, também não escapa à erosão da sua história recente. O salazarismo é simplesmente ignorado ou então é mantido nas versões estereotipadas dos que militaram contra ele. Os desfiles anuais do 25 de Abril, reproduzindo uma retórica gasta, expressam precisamente esse distanciamento. Assumindo a ritualização do contrato social, a domesticação da data revolucionária tende a transformar-se numa comemoração de si própria. Deste modo, as práticas cerimoniais assumem o paradoxo de fomentar o esquecimento: são fábricas do homogéneo, dirigidas para os seus símbolos. O acto de revivescência institucionaliza os produtos cívicos resultantes do fim da ditadura, mas não os problematiza nem os faz perdurar criticamente. Porque há uma luta pela hegemonia da memória, sempre numa lógica de consenso. Quando sabemos que o edifício da antiga sede da polícia política salazarista nunca será um museu porque ali foi projectado um condomínio de luxo, traduzimos plenamente a dimensão selvagem deste recalcamento simbólico-ideológico do nosso passado.»

Tiago Barbosa Ribeiro, n' a estrada

Publicado por José Mário Silva às 07:11 PM | Comentários (1)

MINISCÊNCIAS

Depois de ter sido publicado em livro (2001), O Trevo de Abel transforma-se agora em mais um folhetim blogosférico de Luis Carmelo.

Publicado por José Mário Silva às 07:07 PM | Comentários (0)

COISAS QUE DEIXAM UM GAJO APREENSIVO

Fazer autogoogling no Google Images e descobrir qual é o primeiro resultado que o célebre motor de busca nos oferece.

Publicado por José Mário Silva às 07:01 PM | Comentários (1)

RECORDAÇÃO DO DR. EMÍDIO GUERREIRO

Tive o privilégio de conhecer o Dr. Emidio Guerreiro Guerreiro durante perto de meio século.
Conheci-o no dia 31 de Janeiro de 1958, num jantar comemorativo em Paris da revolução do Porto, e depois encontrei-o sempre, até 1963, em todos os "31 de Janeiro" e "5 de Outubro" em que a emigração política, e nunca o governo, comemou estas datas nacionais.
Houve, continuamente, uma actividade política da Oposição portuguesa em Paris, que nunca baixou os braços, e teve, como seu polo principal, a casa do Dr. Guerreiro na Av. de Versailles 135. Vou-me lembrar para sempre do seu número de telefone, donde tantas vezes me chamou, ás vezes às tantas da noite. Lembro-me de uma vez que lá foi, já perto da meia noite, e encontrei um motorzinho de energia e actividade política que dava pelo nome de Manuel Serra, e que tinha vindo do Brasil preparar o que veio a ser o golpe de Beja.
Associados ao Dr Guerreiro, recordo momentos de alegria e de angústia. Entre as imagens, há uma que não esquecerei: a do Dr. Guerreiro a entrar no avião, no Aeroporto de Argel, onde tinha ido ajudar à libertação dos portugueses que tinham sido presos pela polícia argelina, a levantar ao alto o ramo de flores que os portugueses lhe tinham oferecido. Nesse dia , houve mais portugueses no Aeroporto de Argel a despedirem-se do Dr. Guerreiro, do que argelinos a receberem o Presidente Ben Bella, que seria derrubado pouco depois.
Há um outro episódio que quero aqui contar. Foi já depois do 25 de Abril, num dia em que o acompanhei à Baixa de Lisboa. Vendiam-se, na altura, no passeio do Rossio, uns jornais de extrema-direita, tipo " Barricada" , ou algo no género.
O Dr. Guerreiro olhou, e disse alto e bom som: "Gosto de ver estes jornais à venda."
Um dos vendedores acorreu logo solícito e perguntou: "Concorda com eles?"
Teve de imediato a resposta: "Não, acho um nojo, mas são a prova de que há Liberdade no meu País."
(António Brotas)

Publicado por Filipe Moura às 01:46 PM | Comentários (3)

outubro 14, 2005

IMAGENS FORTES

Gonçalo M. Tavares fala sobre «Os Emigrantes», de W. G. Sebald. É a apresentação do livro, organizada ontem ao fim da tarde pela editora (Teorema). O escritor português detém-se nos pequenos detalhes das quatro narrativas, nesses elementos que podem escapar aos leitores mais distraídos mas que de repente interrompem o fluxo do texto e lhe dão sentido, consistência, grandeza, intensidade. Pode ser o elevador apertadíssimo onde a mala do emigrante só cabe muito a custo, lugar de sufoco e chão instável. Pode ser a ideia da escrita associada à dor física, a partir de uma fotografia de Sebald em criança (ou será do narrador?), na carteira da escola, dobrado sobre o texto, sobre a escrita, como se algo lhe ardesse no peito. São «imagens fortes», como lhes chama Tavares, pouco depois de confessar que marcou as páginas do volume com guardanapos de papel. Guardanapos de papel daqueles muito finos, dos cafés, frágeis, quase transparentes, tão fáceis de rasgar, perdidos no meio das páginas densas de Sebald, páginas gradualmente mais negras, cheias de uma tristeza que se vai acumulando, como neve maldita, na memória do leitor. Gonçalo continua a falar de errâncias e comboios, mas eu já só penso nos guardanapos de papel. Para mim, eles fazem agora parte do livro (tanto quanto as fotos desfocadas que Sebald intercala no meio da prosa) e são mais uma das muitas «imagens fortes», à espera de explodir durante esse processo metamórfico que é a leitura.

Publicado por José Mário Silva às 08:23 PM | Comentários (14)

SAUDADES DA COLUNA INFAME

«O Nobel atribuído ontem a Harold Pinter premeia com justiça inatacável o maior dramaturgo vivo, o mais incansavelmente subtil no cruzamento entre violências e reticências quotidianas.»
Pedro Mexia (Ministério da Cultura, DN)
«A Academia acertou. Pinter tornou-se um radical esquerdista nos últimos anos, escreveu poemas contra a guerra do Iraque e até ameaçou deixar a literatura enquanto o mundo estiver em mãos americanas. Mas nada disto interessa e, pelos vistos, não interessou à Academia, que desta vez pôs a literatura onde ela deve estar: à frente da política.»
Pedro Lomba (Geração de 70, DN, sem link)

Publicado por José Mário Silva às 07:59 PM | Comentários (7)

TEMPESTADE NUM DESERTO DE IDEIAS

O André propõe a extinção do Ministério da Cultura, algo de que eu discordo. No entanto não vai ao ponto de propor a extinção do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, embora eu, se o André estivesse no poder, temesse pelo orçamento desse ministério.
Um colega do André, o Brainstormz (curioso nome a que se deve o título deste texto), vai mais longe e chega mesmo ao ponto de propor a tal extinção.
Eu gostaria de saber que país desenvolvido é que o BrainstormZ conhece em que tal política se pratique. Se o não pensa nisso, deveria olhar para os países mais desenvolvidos e ver como a investigação e as universidades são financiadas. Não há de ser os EUA o modelo que serviu ao para apresentar tal proposta. Se as universidades da "Ivy League" são privadas, a maioria das universidades dos EUA são públicas (estaduais). Pelo menos as universidades da Califórnia, de Nova Iorque (onde estudei), de New Jersey, do Illinois, do Texas, da Carolina do Norte e do Wisconsin - todas estaduais - situam-se entre as melhores do país e do mundo. É certo que há muito financiamento das universidades e da investigação - a mais aplicada -, mas existe uma entidade semelhante à portuguesa Fundação para a Ciência e a Tecnologia, a National Science Foundation, que financia a maioria da investigação fundamental que se faz no país, nas universidades públicas e privadas. A NSF é praticamente a única fonte de financiamento de institutos de Matemática e Física, áreas em que nos EUA se faz investigação de ponta (podem existir ainda filantopos, mas que não cobrem as despesas correntes). Finalmente existem ainda uma série de laboratórios nacionais, financiados pelo Governo Federal. Satisfeito, BrainstormZ?
Como se vê, a ciência e a investigação são assuntos demasiadamente sérios para serem tratados por liberais.

Publicado por Filipe Moura às 06:30 PM | Comentários (2)

INSURGÊNCIAS ACIDENTAIS (II)

Já o André propõe não um partido, mas medidas. Medidas drásticas que, segundo ele, deveriam ser implementadas imediatamente. Aparentemente parece algo bem mais pragmático do que o Leonardo propõe, mas o André é um idealista. Eis o que eu penso das suas medidas:

a) nem que a vaca tussa;
b) sim;
c) nem pensar;
d) concordo, embora tenha de se explicar quais seriam as medidas a tomar -as "minhas" medidas certamente não seriam nem de longe tão radicais como seriam as do André;
e) deves estar a brincar;
f) não;
g) não;
h) não;
i) não me pronuncio;
j) concordo, com reservas;
k) concordo plenamente;
l) o que é que andas a fumar, chavalo?
m) apesar de tudo, não;
n) concordo totalmente;
o) só se for para retirar a estafada "regionalização";
p) de todo, não.

Será que há aqui bases para uma plataforma de entendimento, uma "grande coligação"? Concordamos ambos mais uma vez: somos contra "grandes coligações". Talvez devêssemos formar uma coligação contra elas.

Publicado por Filipe Moura às 05:59 PM | Comentários (4)

O PINTO NOBELIZADO

Ando distraído (e ocupadíssimo) ou ainda ninguém reparou que o Pinter do Haroldo é uma deturpação de "Pinto"? É que o último Nobel da Literatura é descendente de um judeu português. O que suponho nos dá um patriótico total de dois nóbeis e meio.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:21 PM | Comentários (5)

INSURGÊNCIAS ACIDENTAIS (I)

No rescaldo das eleições autárquicas, dois dos meus reaças favoritos, o Leonardo Ralha e o André Abrantes Amaral, tecem considerações sobre política portuguesa.
O Leonardo expõe aquilo que seria o seu "partido de sonho". É curioso: o Leonardo define-se como sendo de direita. Não me revejo na estratégia política (própria de um partido de direita) que ele traça no fim do seu texto, mas na generalidade eu subscreveria o conteúdo ideológico da linha programática do seu "partido ideal" (exceptuando as dúvidas em relação à despenalização do aborto, que eu não tenho - sou sem dúvidas pelo "sim", embora não me reveja em muitos dos argumentos habituais do "sim"). Subscreveria mesmo o que é dito sobre responsabilidade do indivíduo e o estímulo para que melhore de vida, com importantes ressalvas. Não faria disso um estandarte ideológico, e sobretudo nunca utilizaria esse discurso para atacar o estado providência (algo que o Leonardo também não faz, ou pelo menos não chega a fazer explicitamente). A ideia principal do estado providência deve ser considerar que o estado tem responsabilidades perante os cidadãos, proporcionando igualdade de oportunidades às pessoas, e não desresponsabilizando-as. Não creio que algo como o subsídio de desemprego as desresponsabilize.
Já experimentaste, por acaso, Leonardo, levares esse programa ao Largo do Caldas, para ser discutido? Achas que alguma vez seria aprovado?

Publicado por Filipe Moura às 04:59 PM | Comentários (0)

BLOGUES COERENTES

Ontem, o Acidental publicou 32 posts sobre os mais variados temas. O Blasfémias publicou 13. No Acidental, Paulo Pinto Mascarenhas deu os parabéns a Margaret Thatcher no dia do seu aniversário (com a delicadeza muito conservadora de não mencionar quantos outonos cumpriu, afinal, a «baronesa»). No Blasfémias, recomenda-se com clamor de trombetas bíblicas The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature, «livro extraordinário» de Steven Pinker.
Nem um nem outro mencionaram, sequer en passant, a atribuição do Prémio Nobel da Literatura.

Publicado por José Mário Silva às 02:40 PM | Comentários (13)

À PORTA DA FNAC

Nunca ouviu falar de Harold Pinter, mas já encomendou o último Harry Potter.

Publicado por José Mário Silva às 11:49 AM | Comentários (19)

outubro 13, 2005

BOA ACÇÃO DO DIA

Contribuir com uma assinatura para que a eterna líder do POUS, Carmelinda Pereira, tenha o direito de se candidatar à Presidência da República.

Publicado por José Mário Silva às 10:18 PM | Comentários (0)

UMA PONTE ENTRE DUAS PONTES

vangogh.bmp

Ponte de Arles, pintada por Vincent Van Gogh


Ponte de Bedum, desenhada por Jorge Moura (e inaugurada ontem)

Publicado por José Mário Silva às 06:17 PM | Comentários (4)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Em Março de 2002, enquanto lutava contra um cancro no esófago, Harold Pinter escreveu este poema:

CANCER CELLS

"Cancer cells are those which have forgotten how to die."
(Nurse, Royal Marsden Hospital)


They have forgotten how to die
And so extend their killing life.

I and my tumour dearly fight.
Let's hope a double death is out.

I need to see my tumour dead
A tumour which forgets to die
But plans to murder me instead.

But I remember how to die
Though all my witnesses are dead.
But I remember what they said
Of tumours which would render them
As blind and dumb as they had been
Before the birth of that disease
Which brought the tumour into play.

The black cells will dry up and die
Or sing with joy and have their way.
They breed so quietly night and day,
You never know, they never say.

Publicado por José Mário Silva às 01:10 PM | Comentários (13)

ALGUNS LINKS SOBRE HAROLD PINTER

- Site oficial do dramaturgo
- Entrada da Wikipedia
- The Harold Pinter Community
- um artigo de opinião de H. P. sobre a administração americana e a histeria anti-terrorista
- Perfil publicado no New Statesman
- Citações avulsas de H. P.
- Transcrição de um debate organizado pelos Artistas Unidos, em 2002, «sobre os problemas que nos põe o teatro de Harold Pinter»

Publicado por José Mário Silva às 12:40 PM | Comentários (3)

HÁ MUITA GENTE EM PORTUGAL QUE DEVE ESTAR AOS PULOS COM ESTE NOBEL (E AINDA BEM)

Por exemplo: o Jorge Silva Melo e os seus Artistas Unidos.

Publicado por José Mário Silva às 12:34 PM | Comentários (0)

PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA PARA HAROLD PINTER

Uma escolha magnífica, inatacável e justíssima.

Publicado por José Mário Silva às 12:19 PM | Comentários (5)

CUIDADO COM OS GUARDA-CHUVAS

Soube-se pelo jornal Público que esta tarde, em Paris, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, Agustina Bessa-Luís e Manuel António Pina irão debater «a literatura do Porto». Óptimo, só tenho pena de viver a três horas e muitos euros de TGV. Na notícia, até aí, nada de surpreendente, menos ainda de assustador.
A surpresa e (grrrr) o susto surgem quando se lê que «o encontro faz parte do programa paralelo às jornadas de ‘Littératures Métisses’», que arrancam amanhã em Poitou-Charentes. Compreenda-se bem: trata-se de um programa «paralelo» ao das Literaturas Mestiças, não de um programa «integrado» nelas. Ainda assim pergunto-me: porque é que haverá uma bela conversa (Agustina e Pina são dois fabulosos conversadores, além de dois magníficos cronistas), porque haverá essa conversa de meter-se debaixo do guarda-chuva da mestiçagem?
Nada contra os mestiços. Mestiços somos todos, para menos ou para mais. A questão está em que os poderosos (normalmente os organizadores, neste caso franceses) se consideram uns «puros», âmbito de que os outros (neste caso, os portugueses) rapidamente se vêem excluídos. Percebo: as «littératures métisses» são aquelas de que a língua se estende por vários continentes, caso da nossa. Mas alguma vez essa língua «métisse» será a francesa? Ou será mau feitio pensar que para a língua francesa está reservada a qualificação de «intercontinentale»?
Enquanto as coisas assim se mantiverem, colaborar na nossa exclusão não será o que de melhor há para uma tarde parisiense, julgo eu. Até porque, mesmo aquilo que temos de realmente bom – do Saramago ao Pauleta –, mesmo isso depressa é nacionalizado pelos poderosos imediatamente acima. Atenção: não quero exagerar a queixa. Mais vale repararem em nós pelo exotismo do que nos esquecerem de todo. Mas convém ter cuidado com os guarda-chuvas.
(Fernando Venâncio)

Publicado por José Mário Silva às 12:12 PM | Comentários (16)

outubro 12, 2005

42

pauleta.bmp

Publicado por José Mário Silva às 11:04 PM | Comentários (2)

E ASSIM AVANÇA A IMPRENSA PORTUGUESA

Primeiro, chegou a notícia da saída de José António Saraiva da Direcção do "Expresso", quem sabe se para melhor perseguir o seu sonho de uma nova capital para Portugal.
Agora, é a vez do indescritível e imprevisível Jacques Rodrigues dar o que parece ser uma machadada fatal na sua "Focus": o despedimento de grande parte da redacção tem todo o ar de sentença de morte. Aliás, há quem garanta que só as penalidades previstas no contrato com a "Focus" alemã impedem o patusco empresário de encerrar esta revista de vez...

Publicado por Luis Rainha às 07:57 PM | Comentários (6)

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NUM MEIO LITERÁRIO MINÚSCULO

Está tudo aqui.

Publicado por José Mário Silva às 07:24 PM | Comentários (1)

WORST OF

As autárquicas já lá vão e com elas, hélas, exemplos fabulosos do melhor que o marketing político, à portuguesa, tem para nos oferecer neste ano da graça de 2005. Para os mais distraídos, deixo o link do hilariante blogue Autárquicas em Cartaz e a minha pessoalíssima selecção dos outdoors que mereceriam, de caras, um Leão de Ouro em Cannes, se houvesse Leões de Ouro em Cannes para esta categoria:

6)

jardim.jpg

Independente & bucólico


5)

bacalhau.jpg

Atente-se no génio do inventor de slogans, tão refinado quanto subtil


4)

mortos.jpg

When Marx meets Marquês de Pombal


3)

carolina.jpg

O cartaz fala por si


2)

zombies.jpg

Os zombies, o fantasma e o chaparro voador (à espera de um tempo de antena realizado por George Romero)


1)

pode.jpg

Uma obra-prima conceptual e pós-moderna (nitidamente influenciada pela escola tavirense do socialista Fialho)

Publicado por José Mário Silva às 06:26 PM | Comentários (10)

TEMOS O MESMO NOME MAS ELE É QUE É O PRESIDENTE DA JUNTA

José Mário Silva, do PS, foi reeleito este domingo para a presidência da Junta de Freguesia de Fafe, com uma maioria absoluta de 52,39% dos votos.

Publicado por José Mário Silva às 05:51 PM | Comentários (3)

PUTANIZAÇÃO

A «arrogância [de Schröder] estava a tornar-se de tal forma insuportável que até o circunspecto Frankfurter Allgemeine Zeitung começava a falar da "putanização" do líder do SPD», escreve José Manuel Fernandes no Público de hoje.
"Putanização"? "Putanização"? Evidentemente que surge a partir da tradução do alemão, mas chamar "putanização" a um processo semelhante ao de Putin? Não deveria ser "putinização"? Ou será que JMF queria transmitir alguma outra ideia?
(João André)

Publicado por José Mário Silva às 05:47 PM | Comentários (2)

ALGUMAS BOAS NOTÍCIAS DAS AUTÁRQUICAS

Para lá das notórias e já muito glosadas derrotas de Ferreira Torres, João Soares e Carrilho, que dificilmente poderão almejar uma ressurreição política nos próximos anos, há outras boas novas a exigir "hosanas!" de gratidão e alívio:
Com a vitória em Lisboa, o PSD deu um grande passo para fugir a um eventual regresso do zombie Santana Lopes. Este auto-nomeado "papa-eleições" já não poderá apontar o seu afastamento das listas como causa de uma derrota para o partido.
A cara de martírio de Luís Filipe Menezes ao perceber que o seu partido ganhara as eleições foi mais eloquente que três comunicados em papel A4.

Parece coisa escassa? Mas que querem? Nos dias que correm, um gajo tem de se refugiar nestas ínfimas alegrias...

Publicado por Luis Rainha às 02:08 PM | Comentários (7)

outubro 11, 2005

OITO MESES

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Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (4)

AINDA SOBRE OS RESULTADOS DAS AUTÁRQUICAS

Já o dissemos aqui de outras formas, mas talvez convenha repetir: as análises aos resultados das eleições de domingo, feitas pela generalidade dos comentadores políticos e aceites como uma evidência quase unânime pelos noticiários televisivos, inflacionaram ostensivamente a derrota do PS (e a vitória do PSD).
Mesmo admitindo que o PS perdeu de forma clara o sufrágio, ao falhar o objectivo de recuperar os principais centros urbanos do país, o certo é que os seus resultados estão muito longe do falhanço clamoroso que alguns lhe apontam. Para começar, o número total de votos não terá ficado muito abaixo do valor conseguido pelo PSD (considerando que cabem aos sociais-democratas para aí 80% das votações obtidas em coligação com o CDS-PP), mesmo se este indicador de nada serve em eleições locais. Depois, na dança das autarquias que mudaram de mãos, constatamos que o saldo com o PSD foi nulo (13 câmaras ganhas; 13 câmaras perdidas), foi ganha uma câmara ao CDS, uma ao Movimento Partido da Terra, enquanto perderam duas para os independentes (contra uma recuperada) e sete para a CDU (contra duas ganhas). Ou seja, o PS foi buscar à direita e perdeu à esquerda.
Além disso, temos que considerar outro aspecto: o número de câmaras perdidas por uma unha negra. No caso do PS, o partido mais azarado nas disputas renhidas, foram 13 os municípios perdidos por cerca de 100 votos ou menos (há um caso, Manteigas, em que a diferença se limitou a um único voto, motivando um pedido de recontagem que ainda pode alterar o escrutínio final). Dessas 13 derrotas por margem mínima, dez foram em favor do PSD (que só perdeu duas câmaras por tão pouco).
É evidente que tudo isto vale o que vale, porque todas as vitórias têm o mesmo peso, sejam conseguidas por um ou por 100.000 votos de diferença. Mas se nos lembrarmos que o PS perdeu apenas quatro municípios em relação a 2001, não é difícil perceber que o saldo poderia ter sido outro.
Quanto ao suposto triunfo "em toda a linha" do PSD, não deixa igualmente de ser caricato, quando a comparação com as últimas autárquicas revela que o partido de Marques Mendes perdeu, no cômputo final, uma câmara.
Verdadeiros vencedores, só vejo dois: a CDU e os independentes. Mas a imagem da "vitória esmagadora" dos sociais-democratas, essa, já passou para a opinião pública como um facto consumado.

Publicado por José Mário Silva às 11:46 PM | Comentários (12)

OUTRAS IMPRESSÕES - A CDU

Finalmente quero deixar aqui uma nota de regozijo pela subida da CDU que, sem ser espectacular - e sem regressar aos níveis de até 1997 -, é significativa. Pode, num caso ou noutro, beneficiar pontualmente do descontentamento popular com o governo, mas essencialmente este resultado deve-se ao mérito próprio dos autarcas da coligação e ao seu trabalho sério, cujo reconhecimento nunca esteve em causa. Particularmente relevantes são a conquista inédita de um total de dois municípios do distrito de Leiria e o voltar a ser a força política a governar mais câmaras na Área Metropolitana de Lisboa, algo que não sucedia desde 1997 e que provavelmente significa que voltará a ser um autarca da coligação a presidir à respectiva Junta. Fala-se para tal cargo em Maria Emília de Sousa ("votava nela nem que se candidatasse pelo CDS", dizia-me um amigo de Almada), o que constituiria um reconhecimento justo por toda uma carreira política dedicada à cidade sempre "do lado certo", tendo recusado outros cargos na política nacional. Dado que este será o seu último mandato à frente da câmara de Almada, espero que possamos contar com a "dama de ferro da margem sul" para outros voos.

Publicado por Filipe Moura às 03:30 PM | Comentários (85)

OUTRAS IMPRESSÕES - O PS

Nem a vitória do PSD é assim tão esmagadora, nem a derrota do PS é assim tão expressiva. Por outro lado, não se deve extrapolar automaticamente para um contexto nacional conclusões válidas num contexto local. A política nacional não é - felizmente - uma combinação de "políticas locais".
Ainda assim, tal resultado não deixa de constituir um sério aviso ao governo, que terá de justificar melhor as políticas que vier a adoptar - esperemos é que não deixe cair a via reformista que tem vindo recentemente a adoptar. E sobretudo que não cometa os erros que até aqui tem vindo a cometer, e que se convença de que o exemplo tem sempre de partir de cima.
Particularmente mau para o PS é continuar ausente da presidência das câmaras mais influentes. Esta é uma situação radicalmente oposta à que se vivia na década de 90, e agravou-se com as perdas de Aveiro e Santarém e o reforço de Rui Rio - agora com maioria absoluta - no Porto.

Publicado por Filipe Moura às 03:19 PM | Comentários (7)

UM MAL NUNCA VEM SÓ

Para compor o ramalhete, Angela Merkel foi confirmada como chanceler da Alemanha. Temos uma doutorada em Física a tentar ser a nova "dama de ferro" da Europa, depois da (também formada em Física) Margaret Thatcher. Será para isto que estão destinadas as físicas que se metem na política? Talvez seja também por serem mulheres, pois noutros quadrantes políticos temos os também físicos Javier Solana e Oskar Lafontaine.
Sobre a Alemanha propriamente dita: na impossibilidade de se formar uma coligação alargada de esquerda - o que seria o governo natural, dada esta composição do parlamento -, o partido social-democrata deveria ter recusado a "grande coligação" e obrigar a CDU a governar em minoria, nem que tal implicasse a convocação em breve de novas eleições clarificadoras. O SPD e a CDU defendem pontos de vista totalmente incompatíveis em assuntos como o papel do Estado na economia e na sociedade e em questões de política externa. Espero que o SPD não faça concessões em nenhum destes assuntos mas, até por isso, o governo que se vai formar parece-me inviável e contra-natura.

Publicado por Filipe Moura às 10:38 AM | Comentários (18)

CAGARÉUS INGRATOS

Nem queria crer no que via. O resultado mais inacreditável, diria mesmo chocante, desta noite eleitoral veio da minha cidade do coração, da melhor cidade portuguesa. Alberto Souto foi o melhor Presidente de Câmara que Aveiro já teve desde o 25 de Abril. Sob os seus dois mandatos a cidade modernizou-se, desenvolveu-se, abriu-se ao mundo. Porventura mais do que à periferia rural - apesar de ter sido durante este mandato que em muitos casos aí foi instalado o saneamento básico. Talvez esteja neste cosmopolitismo e na menor atenção à "província" parte da explicação para este resultado e para a eleição deste "genuinamente português". Seja como for, Alberto Souto - outro bloguista - não merecia ser "despedido" assim, pois tornou a cidade irreconhecível - para melhor.

Publicado por Filipe Moura às 10:21 AM | Comentários (9)

outubro 10, 2005

AUTÁRQUICAS NA BLOGOSFERA

E como se saiu o povo da blogosfera nestas eleições? Tanto quanto sei, nenhum candidato a presidente de câmara que tenha o pouco recomendável hábito de frequentar e alimentar blogues ganhou coisa alguma. Na Marinha Grande, em Vila Franca de Xira, em Odivelas e no Seixal, a coisa parece ter corrido mal a todos os bloggers candidatos. Alguém tem mais e melhores notícias?

Publicado por Luis Rainha às 01:45 PM | Comentários (21)

AO MENOS QUE SE PENSE UM BOCADO

Enquanto a esquerda lambe as feridas, depois de umas eleições que anunciam um perigoso resvalar para o populismo e perda de contacto dos partidos convencionais com a realidade, vale a pena ler este artigo de João de Almeida Santos, no Diário Económico, sobre temas que também têem sido abordados recentemente por intelectuais conservadores como o historiador John Lukacs em Democracy and Populism.
Esperam-se mais desenvolvimentos e as catilinárias dos nossos leitores .

Publicado por tchernignobyl às 12:40 PM | Comentários (4)

O QUE NOS ESPERA

O resultado destas eleições mostra que o país virou significativamente à direita.
Justifica-se a euforia de alguns?
Se o facto de o PSD ter tido uma percentagem de votantes de cerca de 20 por cento contra 27 do PS é uma "estrondosa vitória", tudo bem... o que se há-de fazer para contrariá-los?
E o que dizer do CDS/PP que com cerca de 3% se eclipsou perante a CDU que obteve 6%?
O líder do PP diz que o grande derrotado foi Sócrates... (diz o crocodilo do hipopótamo) tudo bem... o que se há-de fazer para contrariá-los?
Descontando o natural voluntarismo de algumas análises, ansiosas por um pouco de auto-estima, o que impressiona é que ouvindo gente da direita a falar depois de terem quase metade dos votos dos dois maiores partidos de esquerda se fica com a impressão de que já dominam o País!
E se algum dia eles obtêm mesmo uma maioria?

Publicado por tchernignobyl às 11:25 AM | Comentários (37)

APRENDAM QUALQUER COISA

A derrota do PS nestas eleições, longe de ser catastrófica, pode servir para que a direcção do partido se ponha a reflectir.
Por muito que as pessoas estejam descontentes com algumas medidas do Governo e com certos aspectos do seu estilo de actuação, factor que parece mais evidente no desgaste que o partido sofreu à esquerda (sabemos que "medidas difíceis", porventura "ainda mais difíceis" é o que reclama a oposição que aparece agora como vencedora...), não gostam de passar cheques em branco a qualquer "flamboyant" que apareça a decidir que "quer" este ou aquele cargo, um pouco à maneira de Santana Lopes.
Torna-se manifesto e preocupante que o PS, embora continue a ser à vontade o Partido mais votado, tenha dificuldade em renovar o seu quadro de dirigentes numa proporção e qualidade compatíveis com o apoio "espontâneo" que o Partido tem entre a população, e que aqueles que chegam aos cargos públicos, sejam ou quadros de topo de empresas privadas importados temporariamente ou não conseguem libertar-se da promiscuidade entre a actividade do Partido, cargos governamentais e actividade profissional como recentemente se viu no caso Eurominas.
Escaldados pela emergência de uma elite muito Bloco Central, parece que escasseiam já os militantes de base carregadores de piano indispensáveis para um bom resultado.
Por outro lado, a sua direcção não tem força e determinação políticas para propor ao partido e à população as suas melhores opções, e tem andado repetidamente a reboque do voluntarismo de "personalidades", o que, começa a tornar-se evidente, traz mais prejuízos do que benefícios.
Será que se conseguirão tomar as devidas ilações para as próximas eleições presidenciais?

Publicado por tchernignobyl às 10:07 AM | Comentários (2)

OS VENCEDORES

Fátima Felgueiras teve muito mais tempo de antena nas televisões do que Carmona Rodrigues.
Valentim Loureiro (que esbracejou, rouco e estridente, contra a "pequenez" do "zé ninguém" que lidera o seu antigo partido) teve muito mais tempo de antena nas televisões do que Rui Rio.
Se não me engano, Felgueiras é uma autarquia muito mais pequena e eleitoralmente insignificante do que Lisboa e Gondomar é uma autarquia muito mais pequena e eleitoralmente insignificante do que o Porto.
Podemos todos lamentar o populismo e o triunfo dos candidatos que avançaram para as eleições, mesmo sendo arguidos em processos judiciais em curso, mas a verdade é que o populismo é mediático, o populismo vende. E a maior parte dos órgãos de comunicação social não se coibiram, nem se coíbem agora, de o alimentar.

Publicado por José Mário Silva às 12:18 AM | Comentários (2)

outubro 09, 2005

BALANÇO PROVISÓRIO

Factos são factos:

- O PS perdeu as eleições porque não recuperou nenhuma das autarquias-chave (Lisboa, Porto, Sintra, Coimbra) que lhe fugiram na débacle de 2001. A reconquista de Faro é um magro consolo, até porque Santarém e Aveiro também passaram para o PSD. No entanto, parecem-me algo exagerados os epítetos que as televisões e os comentadores do costume atribuem a esta derrota: "histórica", "esmagadora", etc. Esperemos pelos resultados finais para termos uma imagem mais precisa da extensão dos danos.

- O PSD vence as eleições porque tem o maior número de câmaras, o maior número de mandatos e conserva as principais autarquias do país. No entanto, parece-me que o número de votos a nível nacional (mesmo contando com os resultados das coligações) não será muito superior ao obtido pelo PS. Nesta altura do ciclo político, em eleições que também servem para castigar o Governo e numa altura em que se multiplicam as resistências às reformas de Sócrates, seria de esperar um "voto de protesto" muito mais expressivo. Se os resultados se confirmarem, o PS obterá cerca de 36% de votos. Lembrem-se dos 27% conseguidos por Durão Barroso nas Europeias... A vitória de Marques Mendes é inequívoca mas magra, sobretudo se tivermos em conta que as suas apostas pessoais (Teresa Zambujo, sobretudo) perderam no confronto directo com os candidatos proscritos.

- A CDU recupera câmaras no distrito de Setúbal e Beja (os antigos redutos que tinham ficado enfraquecidos há quatro anos), volta a ganhar a Marinha Grande e "estreia-se" em Peniche, com um score nacional acima dos 10%. Um belíssimo resultado.

- O Bloco melhora a sua implantação local e mantém Salvaterra de Magos, mas fica bastante aquém das expectativas. A eleição de Sá Fernandes como vereador em Lisboa não apaga o falhanço de João Teixeira Lopes no Porto.

- Os verdadeiros vencedores da noite foram os candidatos independentes de veia populista e a contas com a justiça (Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e Isaltino Morais). E é isto que nos deve preocupar.

Publicado por José Mário Silva às 11:48 PM | Comentários (0)

CRÓNICA DE UMA VITÓRIA ANUNCIADA

Vi há poucos minutos Odete Santos exultar com a grande vitória da CDU.
Estas coisas têm de viver-se mesmo assim. Um dia de cada vez.

Publicado por tchernignobyl às 10:30 PM | Comentários (17)

RI-SE DE QUÊ?

Valentim está rouco, diz qualquer coisa "contra aqueles que..." (não interessa quem são, e o que fazem são com certeza os outros e tentaram fazer mal ao Major ), abafado pelos gritos do povo (o regresso do famoso Grito do Povo?).
Não, não foi o Marques Mendes quem ganhou as eleições.
Enquanto Meneses exalta Gaia, a Mãe (lá da) Terra, num delírio de estatisticas complicadas destinadas a mostrar a qualidade única do produto, e outros dirigentes do PSD disparam lugares-comuns sobre a forma como foi penalizado o Governo "pela sua política...", se houvesse um mínimo de bom senso, fariam sim um minuto de silêncio para meditarem sobre como as derrotas que sofreram face aos candidatos populistas em Oeiras e Gondomar (já para não falar de Felgueiras, em que são apenas co-vítimas) são bem mais significativas e graves.

Publicado por tchernignobyl às 10:04 PM | Comentários (13)

O TEXAS

O Partido Socialista foi claramente derrotado, mas o discurso de Fátima Felgueiras que acabei de ouvir na televisão, prova que o grande vencedor destas eleições autárquicas foi um personagem de Lucky Luke inspirado numa figura mítica da história do far west.

Publicado por tchernignobyl às 09:46 PM | Comentários (4)

À IMAGEM DO RESTO...

Ao que parece, existe um "site oficial das eleições autárquicas".
Não funciona.

Publicado por tchernignobyl às 09:39 PM | Comentários (0)

JÁ PERCEBO PORQUE É QUE SE CHAMAM "URNAS"

Minutos antes do encerramento das urnas, ainda me mantenho teimosamente agregado aos 30% de indecisos que as sondagens descortinam em Lisboa. Aliás, dada a qualidade dos candidatos disponíveis, admira-me que sejam apenas 30%. A coisa anda tão negra que até me imagino a fazer duas coisas impensáveis: perder a vergonha por ter colaborado com a campanha de João Soares de há quatro anos, e votar no Rúben de Carvalho, apesar da nula simpatia que ele e o seu partido me inspiram.

Publicado por Luis Rainha às 06:26 PM | Comentários (11)

O ÚLTIMO DOS MOICANOS

Ele não desarma, ele é GRANDE, ele é O ÚLTIMO DOS MOICANOS.
A ler.

Publicado por tchernignobyl às 02:27 AM | Comentários (8)

TUDO JOYA

A libertação das mulheres é hoje o motor principal do progresso civilizacional e o reflexo e a condição do desenvolvimento, não são start-ups na China ou o "nation building" à bomba.
Enquanto andamos ocupados com as pequenas feiras de vaidades e interesses das nossas anódinas eleições, (ainda hoje passei pelo largo de uma terreola ali para Mafra onde estava um cartaz em tons de azul que mostrava um sujeito de bigode sobre a frase..."com a nossa equipa (Alguidares de Baixo) continuará a sorrir..."), proferindo inanidades sobre o "esgotamento da República", e a "crise do regime", no Afeganistão, um país de novo nas mãos dos senhores feudais ou dos talibans, onde ainda se luta pela democracia arriscando a vida, houve uma pequena grande notícia.
Uma mulher foi eleita nas eleições parlamentares que tiveram ontem lugar.
Apesar de nestas eleições se ter também registado o aumento da influência de senhores da guerra e até de personagens ligados aos taliban, daqui a saúdo sem esperar resposta, esperando apenas que seja mais um passo para debilitar o terrível ascendente que quase vinte anos de guerra e a cumplicidade ocidental deram aos bandidos fundamentalistas conhecidos como senhores da guerra, e de que a administração de Hamid Karzai parece pouco mais do que impotente para se livrar.

Publicado por tchernignobyl às 01:04 AM | Comentários (8)

BAS FONDS

O texto que Clara Ferreira Alves escreveu sobre o Katrina é uma descida surpreendente, vinda de quem vem, aos bas fonds do abafado microclima mental padronizado pelos escritos de Helena Matos.
Porquê?
Ao que parece, entre as inúmeras campanhas de solidariedade com as vítimas do Katrina lançadas nos Estados Unidos, CFA apenas detectou uma, protagonizada por pretos abastados, que se equipare às campanhas lançadas por figuras destacadas do universo mediático americano branco.
Partindo do princípio que CFA tem um conhecimento exaustivo de todas as campanhas de solidariedade lançadas nos EUA e que nelas não existem pretos envolvidos mesmo anonimamente, de modo a concluir da total ausência de solidariedade dos pretos para com os seus "irmãos de raça", porque razão é que estes, e em particular os "moguls" ricos e arrogantes da musica rap, terão mais obrigação de acudir aos seus compatriotas de New Orleans do que a generalidade da população dos Estados Unidos...?
Por uma lógica sinistra:
É porque são pretos, ao que parece a cor da maioria das vítimas.
Esta teoria da especialização étnica das solidariedades, tal como outras teorias idênticas, baseadas na região, no género, na religião ou na orientação sexual, nega os fundamentos de uma sociedade democrática, plural e multirracial e apesar de aparecer no texto como uma reacção espontânea e indignada às críticas que foram feitas, desde os primeiros dias após o desastre, a Bush e à sua Administração, cheira a argumento de "dammage control" chocado à pressa num qualquer think tank republicano.
Esquece, no entanto, que os moguls e estrelas cadentes do rap, nas suas vestes espampanantes, modos e gostos apalhaçados contradizendo uma retórica muitas vezes aparentemente sulfurosa mas que nada tem também a ver com as origens e práticas dos criadores do rap e militantes dos direitos civis de outras épocas, apenas alimentam um "cluster industrial" de ponta na penetração dos valores do "american way of life", e são pura e simplesmente membros ricos e poderosos da sociedade americana a cujos princípios aderem, não havendo assim razões para uma "sensibilidade social" particular.
Acaso os brancos ricos sentem alguma compaixão particular pelos brancos pobres pelo facto de estes serem brancos, ou quando assim sucede deverão discriminar a sua solidariedade em primeiro lugar aos infortunados de idêntica cor de pele?
Não é assim preciso puxar muito pela cabeça para ver o conteúdo potencialmente racista deste tipo de análise, aliás complementar de uma outra "tese" profundamente difundida entre o "senso comum" dos portugueses e que dá um jeitão para fundamentar directa ou indirectamente os ghettos sociais e económicos para onde é empurrada grande parte da nossa população preta. A saber: "os pretos são os piores racistas para os pretos".
Mesmo que genuinamente chocada com a indiferença dos pretos ricos, talvez Clara Ferreira Alves devesse pensar um pouco nas consequências de um texto deste tipo, começando por reflectir sobre a razão da sua particular revolta perante a indiferença dos pretos ricos.

Publicado por tchernignobyl às 12:20 AM | Comentários (17)

outubro 08, 2005

O CIBERARQUEÓLOGO

Fernando Venâncio, nosso prezadíssimo itálico ocasional, escreve na edição desta semana do «Expresso» um interessante artigo sobre o Terràvista, essa aventura que prenunciou, no final da década de 90, o que viria a ser o furor blogosférico dos últimos três anos.
Eis um excerto do texto, intitulado «Testemunhos ciberarqueológicos»:

Em Março de 1997, surgia um portal português de Internet que visava um grande público. O Terràvista, de visual e arquitectura modelares, caiu no goto e entusiasmou milhares de internautas. Albergava fóruns de discussão e páginas pessoais gratuitas de 2Mg, um luxo para a época. Gente com vontade de falar criou dependências nos fóruns da «Noite», de «Gentes e Lugares» e da «Lusofonia». Neste, conversavam portugueses, brasileiros, angolanos, macaenses, galegos, outros ainda.
«A internet marcou-nos a todos», diz Francisco Napoleão, 26 anos, a fazer um mestrado em Sociologia no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em Lisboa. «Tinha um acervo de crioulos portugueses. Eram um fascínio e queria divulgá-los. Surge então o Terràvista, com um sucesso enorme. É aí que coloco os meus crioulos». Visionário, informadíssimo, não raro brilhante, Francisco incendiava o fórum, mas pagava-o caro. Moviam-no as causas de Olivença, do mirandês, do galego. Durante meses, um jovem de 18 anos lutou contra a imagem de activista fascizante, quando ele adorava a sua Lisboa crioula e advogava um regresso a África e ao Brasil, «mas desta vez em poligamia».

(...) Margarida Paredes possuía um «franchising» de decoração e mobiliário «country chic» na linha do Estoril, um casamento de 20 anos e um filho adolescente. Enquanto os homens dormiam, ela conversava com os lusófonos das sete partidas. «Todos lidávamos com rupturas históricas, culturais ou pessoais, e ali enfrentávamos os nossos fantasmas». Ao fórum eram levadas as doenças, as crises matrimoniais, as tricas burocráticas. E, como a qualquer bar do país, a candente actualidade. Eram os touros de morte de Barrancos, era a regionalização, o serviço militar, a imigração ilegal, a adopção por casais «gay». Foi, durante meses, a Expo-98. Seria, mais tarde, o Nobel de Saramago. E Timor.
(...) O Terràvista, esse projecto governamental único no mundo, ia ser, a 29 de Julho de 1998, e sem aviso prévio, encerrado pelo então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. Motivo: uma página com pornografia.
Haveria decerto algumas mais. Nada de patético entre cerca 28 mil páginas pessoais de outros tantos «marujos». A cibercomunidade indigna-se perante a reacção desproporcionada. Mais tarde se saberá que a fórmula de ouro - um portal público sem opressões comerciais - se tornara um quebra-cabeças orçamental. O abuso pornográfico era um pretexto, e nem o mais elegante. No EXPRESSO de 8-8-1998, escrevia Paulo Querido: «O que todos sabíamos, mas não importava, tornou-se subitamente crucial: o ministro da Cultura não liga à Internet, portanto não podia avaliar o alcance da medida que ia tomar. Chama-se a isto governar no escuro».
(...) «Perico», de nome Gonzalo González, é técnico informático em Vigo e animador cultural do casco histórico. Recorda essa época da Internet como de liberdade plena, ainda sem legislação. «Como técnico, eu sabia que ela iria acabar, que um dia surgiria um controlo, que seriam desenvolvidas pistas, criados filtros, concebidos para rastrear pornografia infantil, mas à disposição dos poderes. Nos fóruns actuais, a censura já foi interiorizada».
(...) O pano cairia definitivamente a 31 de Maio de 2001, cortando assim o fio à cavaqueira. «Nessa noite», recorda «Omar Salgado», «em vez de adeuses online, fomos todos jantar. À meia-noite exacta, ergueu-se o champanhe». Os actuais fóruns do Terravista (a grafia, sem acento, não é inocente) são sobretudo «placards» de anúncios grátis, onde - quem o diria - a oferta sexual é abundante. Conversa não há. Os actuais debates fazem-se nos «blogues» ou em bem estruturados «newsgroups».

[O artigo completo pode ser lido na revista «Única» do jornal «Expresso»]

Publicado por José Mário Silva às 11:19 AM | Comentários (0)

REFLEXÃO

Vale a pena ver a democracia reflectida nestes espelhos.

Publicado por José Mário Silva às 10:40 AM | Comentários (0)

A AMEAÇA SEGUINTE

gripe.bmp

Cartoon de Patrick Chappatte

Publicado por José Mário Silva às 10:22 AM | Comentários (0)

outubro 07, 2005

É COMPREENSÍVEL MAS NÃO DEIXA DE SER TRISTE

«Gosto mais da cidade e dos lisboetas do que de mim próprio»

Carmona Rodrigues, depois da sua infeliz prestação no debate a cinco na RTP

Publicado por José Mário Silva às 07:30 PM | Comentários (3)

SINOPSE DO DEBATE DE ONTEM À NOITE, NA RTP

Aspectos positivos - A cordialidade dos candidatos, a moderação correcta dos pivots, a ausência de atropelos e gritaria.

Aspectos negativos - Demasiado tempo gasto a discutir questões particulares (o túnel do Marquês, a entrada de carros em Lisboa, as questões da habitação) e pouco tempo reservado à comparação dos programas e soluções propostas por cada candidatura.

Carmona Rodrigues - Foi atacado tanto pela esquerda como pela direita, numa espécie de "quatro contra um". Talvez por isso, demonstrou nervosismo e falta de confiança, refugiando-se numa linguagem técnica de engenheiro camarário, sem carisma nem rasgo. Por muitas piruetas que dê, voltou a não conseguir libertar-se do fardo da gestão santanista e brandiu com demasiada insistência, para não dizer desespero, o seu único trunfo (a notícia de que Lisboa subiu dois lugares no ranking das melhores cidades para instalar empresas). O sorriso amarelo, entre o desdém e o enfado, também não lhe fica nada bem. E o tom de superioridade, como que a dizer "já ganhei isto de caras", ainda lhe pode trazer dissabores.

Manuel Maria Carrilho - Irritante, palavroso, abstracto e inconsequente, mas menos do que é costume. Jogou nitidamente à defesa, contando com o desgaste do principal adversário e com o efeito das sondagens que anunciam uma redução do fosso que o separava, até há poucas semanas, de Carmona. No auge da luta, optou pelo low profile, o que só lhe pode trazer dividendos.

Ruben Carvalho - O vencedor da noite. O mais articulado, o mais contundente e o que melhor soube resumir ideias, projectos e medidas concretas para a cidade.

Maria José Nogueira Pinto - Confirmou a excelente campanha que fez e não deu tréguas às inconsistências de Carmona. Clara, directa, lúcida e intelectualmente honesta. Tomara que toda a direita fosse assim.

José Sá Fernandes - O melhor candidato (na minha opinião) teve uma prestação fraca. Pouco dinâmico, lento nas respostas e mal preparado para o registo que um debate com estas características exige. O ataque final a Ruben de Carvalho, então, foi um completo despropósito, um tiro no pé. Só espero que o impacto deste desastre mediático não condene nas urnas quem já mostrou que pode ser um vereador importante para a defesa de Lisboa e dos lisboetas.

Publicado por José Mário Silva às 07:23 PM | Comentários (14)

IDÉEFIX

Nos dias que correm, não se pode enunciar a palavra "direita" que não ocorra logo uma pequena hemoptise de protestos e provocações pueris.
É "redutor" dizem uns, mais versados nas equações de Bernouilli e práticos nos problemas das canalizações do que propriamente interessados em política, quando simultaneamente dão a cada passo de barato quaisquer gargarejos acompanhados com glosas sobre a Bielorrússia à mistura, vindos dos blogs e cronistas direitistas, acerca "da esquerda".
Na realidade esta classificação é evidentemente redutora..., sabemos que existem muitas sensibilidades à direita e à esquerda do espectro político.
Mas quando se fala de direita de forma um tanto simplista, evitando detalhar que este é liberal, aquele neocon, aqueloutro meramente "con" e o outro personalista humanista, no contexto das eleições presidenciais, há que ter em conta o seguinte:
Recentemente tornou-se motivo de gáudio entre um "vasto leque" de cronistas e bloggers, a "confusão" manifesta à esquerda com o problema do candidato presidencial, das tristes figuras que foram feitas por candidatos e o primeiro-ministro, os amuos e desconsiderações entre gente que se suporia mais fraterna.
Em oposição a esta balbúrdia que precede as grandes derrocadas, prefigura-se no horizonte a força tranquila do homem que se pressupõe irá tirar à esquerda, finalmente, o monopólio da ocupação da Presidência da República, apesar de ser regra que todos os presidentes, logo que eleitos à pala do apoio da esquerdalhada, se apressem a alijar esse fardo, preferindo ser "Presidentes de todos os Portugueses".
Como seria de esperar, e contrariando a "ausência de ideias" à esquerda, o tal semi-candidato Cavaco é de antemão elogiado por variadíssimos quadrantes e isento da crítica da falta de ideias quando precisamente o que parece ser a sua vantagem competitiva é não ter ainda aberto a boca para nos revelar uma dica sobre o seu programa eleitoral.
É assim um saco sem fundo onde se vão amontoando as expectativas de muitos carentes, e a "ausência de ideias" é substituída com vantagem por "ideia nenhuma".
Vale a pena enumerar a riqueza e subtileza das diferentes perspectivas que reclamam Cavaco como seu candidato:
Cavaco é adulado pela direita que se reviu no governo Durão Barroso e Paulo Portas.
É adulado pela direita, a quem a crítica feroz à "fuga" de Guterres não impediu (ora se haveria!) de aprovar a partida de Durão para Bruxelas e a chegada de Lopes a primeiro-ministro mantendo a coligação com Portas.
É adorado por aqueles à direita que torceram o nariz quer a Lopes, a Portas ou ao tandem Lopes/Portas, em todas as suas variantes.
É venerado ainda por aqueles que ovacionaram Santana em delírio unânime e ceausesquiano no Congresso em que se legitimou a sua ascensão a primeiro-ministro e será unanimemente apoiado por todos os que defenderam a sua expulsão do PSD quando contribuiu para assassinar politicamente o ex-primeiro-ministro, e ainda por todos os que berraram (e gemem ainda) "Aqui d'el rei olha o golpe de estado constitucional", quando o Presidente da República calçou finalmente os patins ao malogrado Lopes, perante o alívio da generalidade do povo e até de muitos notáveis do PSD.
Cavaco será ainda, ao que parece, apoiado por todos os circunspectos apoiantes do PP que elegeram como secretário-geral um candidato que apareceu no congresso por acaso, numa reviravolta inaudita que foi também uma brutal bofetada na dignidade de um dos homens que mais tinha dado a cara a defender as posições do partido na anterior legislatura, apoiado entusiástica e unanimemente até poucas horas antes.
Será ainda o candidato de um PSD renovado saído de um congresso em que todos os que tinham alcandorado Lopes aos píncaros havia pouco tempo, se desfizeram dele como de um traste velho, descobrindo-lhe o deslize foleiro para o populismo apenas porque foi violentamente castigado pelo eleitorado.
Marginalmente, acrescente-se que Cavaco parece ser, segundo as sondagens, preferido também por bastos eleitores "de esquerda", mas isso nada traz de novo, apenas acrescenta à "confusão" que nessa casa se vive, detalhadamente dissecada aliás por manadas de analistas independentes dos mais variados partidos de direita.
Eis assim o panorama que nos oferece: nas direitas, têm-se registado, num curto prazo de tempo, voltas e reviravoltas, muitas "unanimidades" de uns dias, sensibilidades, diferenças, crises, zangas e birras, mas todas convergem em Cavaco. Porquê? Porque para além de todas as diferenças de ideias superficiais, eles partilham todos da mesma ideia fixa:
O Poder.
Nisso, podemos dar as voltas que quisermos, reduzir mais, reduzir menos, mas são todos iguais.

Publicado por tchernignobyl às 02:04 AM | Comentários (21)

outubro 06, 2005

COELHOS SUICIDAS EM VERSÃO SPIELBERG ULTRA-RÁPIDA

Aqui.

Publicado por José Mário Silva às 06:45 PM | Comentários (0)

O REGRESSO DO CRÍTICO-BULLDOZER

Em 15 posts avassaladores, João Pedro George atropela os oito livros de Margarida Rebelo Pinto e não deixa pedra sobre pedra na análise — minuciosa, obsessiva, picuinhas, mortal — à miséria literária da rainha portuguesa do copy & paste.

Publicado por José Mário Silva às 06:37 PM | Comentários (5)

FUGA PARA A VITÓRIA, DIZEM ELES

O Celso Martins e o Nuno Sousa, dois dos barnabitas mais discretos, decidiram voltar ao activo. Confesso que já tinha saudades dos dois (sobretudo do Celso), aplaudo de pé este regresso e fico à espera que o Daniel Oliveira e o Rui Tavares ponderem, também eles, o regresso do longo pousio.

Publicado por José Mário Silva às 04:26 PM | Comentários (1)

outubro 05, 2005

ALI VAI O SOL

À falta de textos do Alexandre Andrade na blogosfera, vale a pena ler o que a Alexandra Barreto escreveu, com devoção atenta e perspicácia, sobre o formidável sucessor de «Benoni» («Aqui vem o Sol», Quasi), injustamente ignorado — até à data — pela crítica.

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (2)

DIA DA REPÚBLICA

Um 5 de Outubro sem posts do mais republicano dos bloggers portugueses é quase tão deprimente como um 14 de Julho que não tivesse posts do mais francófilo dos bloggers portugueses.
Quando é que o maldito Silencio lynchiano deixará de pairar, como uma maldição, sobre o nosso adorado blogue verde-alface? Eis uma questão maior que afecta, à sua maneira, a estabilidade do regime democrático e sobre a qual Jorge Sampaio, no seu contundente discurso de hoje, não disse infelizmente uma única palavra.

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (2)

SABES MUITO

O Dr. Ramos, o "jovem" historiador de serviço da requentação da direita, o tal que "demonstra" o contrário do que os outros historiadores "propalam", para utilizar a pitoresca linguagem da Dra. Bonifácio, escreve mais um artiguinho na Revista Atlântico capaz de fazer babar os progenitores, desta vez sobre o papel da Presidência da República.
A coisa pasta mansamente durante umas páginas ao nível da redacção liceal esforçada, para aquecer nos últimos parágrafos em que personificando um diligente contabilista, o jovem Rui se entretém a fazer umas continhas idiotas destinadas a servir à sobremesa, semi-frio, o pratinho do "golpe de estado constitucional" que correu com o bem-amado Lopes.
Ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, porém, não se trata de um queixume, trata-se de dar uma dica ao futuro Presidente, que se dá desde já de barato que seja de direita:
independentemente do número de votos que obtenha, o futuro Presidente tem toda a legitimidade para tratar de polé e mesmo derrubar o Governo vigente, mesmo que este tenha resultado da maioria absoluta do voto dos portugueses.
Mesmo admitindo que os candidatos de esquerda são um desastre, e mesmo admitindo que o próprio Cavaco se poderá transformar num sapo difícil de engolir para a seita reaccionária que se revê nas patacoadas do Dr. Ramos (lembremos precisamente o cruel assassinato do Lopes...), fica este aviso à atenção da esquerda e das suas divisões acéfalas.

Publicado por tchernignobyl às 10:27 PM | Comentários (29)

OS SUSPEITOS DO COSTUME

O atormentado Pulido, escreveu outro dia uma crónica que escapou ao Filipe Moura, em que prevê o apocalipse para a "europa socialista".
Mal por mal, uma coisa se salva:
Finalmente o grande cronista da direita em Portugal admite preto no branco aquilo que até agora passava por boato de maximalistas empenhados em reduzir a escombros a "civilização ocidental" e terá sido certamente uma dolorosa surpresa para almas virgens e nobres como a do "MacGufinho", a saber, que a nossa prosperidade se deveu em grande parte à pilhagem dos recursos materiais e humanos do terceiro mundo.
Só que, como naquela célebre fala da groupie miss Pam, "Not so fast, silly boy!", a malandragem que mais beneficiou com essa pilhagem, conclui Pulido, não foram o dono da mina ou o proprietário da roça, o banqueiro ou o traficante de armas, gentinha que se limitou a "labutar" honestamente por uma vida melhor, foi a canzoada dos beneficiários da odiada segurança social, os privilegiados dos sindicatos... quem diria?
Altura ideal para que a direita se lance também na luta pela libertação dos povos do terceiro mundo.
À bomba...
Desde que estes não falem em sindicatos.
O problema (há sempre um problema) é que os mal agradecidos, assim que apanham uma abertazinha, abusam.
E o facto é que os movimentos sindicais nos países do "milagre asiático" estão mais fortes do que nunca, e mesmo na China, os dirigentes do Partido começam a ficar preocupados com a multiplicação de "incidentes" laborais, não vá isso prejudicar o crescimento económico da grande potência emergente.

Publicado por tchernignobyl às 08:46 PM | Comentários (4)

MUDANÇA DE ESTILO

A direita está preocupada com o "descalabro" a que chegou "o sistema". É que os escândalos aparecem escarrapachados nos jornais, apesar de apenas resultarem em publicidade positiva para os prevaricadores. Mas ah! como era bom que estas coisas se passassem entre elites de perfume senatorial. Nem chegaria a haver escândalos, e tudo se resolveria numa fitinha por alturas de alguma efeméride, numa comenda... a populaça ainda ficaria agradecida.

Publicado por tchernignobyl às 08:36 PM | Comentários (8)

HAJA TENTO

A campanha eleitoral para as autarquias é um nojo.
Talvez tenha de ser assim, num mundo que deixou de estar polarizado.
Não há "grandes temas" ao nível do Poder Local, acabaram para alívio de alguns intelectuais as ideologias, todos os espertos "sabem" que "eles" estão "lá" para se "encher" e os candidatos fazem o possível para dar razão a estas convicções rascas.
Daí a alarvidade da generalidade dos cartazes de campanha, como o Zé Mário já registou ali em baixo.
Daí o relaxe moral e intelectual daquilo a que a direita designa agora como "o sistema", que começou na cobardia e(ou) oportunismo dos principais dirigentes do PS e do PSD perante o Alberto João Jardim, alastrou bem ao espírito da peculiar manifestação do merdoso "individualismo" português que é o "se aquele pode porque é que eu não posso?" e se traduz hoje na legião de candidatos claramente venais, com problemas com a justiça, perante a cobardia ou indiferença dos partidos políticos (de direita e de esquerda), das instituições, do sistema judicial e da democracia.
Daí o baixo nível das "peças" jornalísticas sobre a campanha eleitoral, nada mais do que uma lengalenga monótona, repetitiva e burocrática.
A imprensa perdeu a sua autonomia e é "obrigada" a "reportar" acontecimentos que não são notícias, anda a reboque das encenações dos diferentes candidatos e partidos.
Desse pântano burocrático apenas emerge por momentos para refocilar de novo no espírito mais canalha com as observações inevitáveis, repetitivas, incansáveis, foleiras, ordinárias, previsíveis, acerca da "mulher do Carrilho" e assuntos que tais, sobretudo nada de política.
A imprensa portuguesa está reduzida à falsa alternativa frete/reality show.
Pior é o comportamento burocrático adoptado por todos os partidos e candidatos independentes.
Quando digo todos é TODOS .
Num panfleto do Bloco de Esquerda da freguesia de Alcântara, leio esta passagem:
"
(...)
- Quantos infantários ou jardins infantis foram construídos ou criados?
- Que alternativas foram criadas para os reformados não terem que procurar as mesas dos cafés ou os bancos dos jardins para passar o seu tempo livre?
- Quantos lares convívios para os idosos foram criados ou construídos a preços reduzidos e controlados?
- Qual a solução para o estacionamento que se torna cada vez mais complicado?
- Para a criação de zonas pedonais, onde o trânsito seja condicionado de modo a que os moradores possam passear em segurança?
(...)"

e a solução:

"a experiência diz-nos que para conseguirmos mesmo aquilo a que temos direito é preciso unirmo-nos e lutar"

de onde decorre o "programa":

"Assim, lutaremos:
(...)
- pela criação de novos infantários, creches e jardins de infância
- por passagens de peões bem sinalizadas
- pela criação de um centro social de apoio à terceira idade"
(...)
"

Mas que palhaçada é esta? Tenham dó de mim, caraças...

Publicado por tchernignobyl às 07:44 PM | Comentários (16)

DOS PERIGOS DA NET, OU DE COMO A BLOGOSFERA ESTÁ AO SERVIÇO DO CAPITALISMO

Desde que saí da universidade, passei anos sem escrever uma linha.
O mais que fazia eram uns lembretes do tipo "ir ao supermercado" ou "almoço com o pessoal" naquelas agendas dos bancos, em capa de napa, que eu transportava semi-destruídas no bolso de trás das calças.
Na altura da invasão do Iraque, descobri por acaso a blogosfera e passei a embrenhar-me por noites e dias em discussões furiosas nas caixas de comentários, onde a escrita é uma transcrição quase directa da oralidade.
Um dia, no meu emprego, em vez do habitual relatório oral e sintéctico das minhas actividades, dei comigo a escrever espontâneamente um relatório.
Noutro dia fiz um outro texto sobre um assunto que eu achava que deveria ser esclarecido.
A partir daí começaram e pedir-me mais relatórios e textos sobre os mais diversos assuntos.
Acabou-se o sossego e deixei de ter tempo para surfar na blogosfera.
Tu, desgraçado que me lês... afasta-te da blogosfera, é a fonte de muita desgraça.

Publicado por tchernignobyl às 07:30 PM | Comentários (5)

ARTIGOS PARA IREM LENDO ENQUANTO A GENTE POUCO ESCREVE (III)

Na mesma edição do PÚblico, "PARA QUÊ?", por Vasco Pulido Valente.

A ausência de mictórios, cuja conveniência aliás reconheço, não me incomoda. O pior, para mim, é o facto de Lisboa ser ao mesmo tempo uma cidade muito pequena e grande demais, muito pobre e ridiculamente cara, muito provinciana e com um arzinho pedante e pindérico de capital cosmopolita. Com a "construção" a ajudar, ficou um sítio feio, incaracterístico, meio hostil, em que não sair de casa se tornou a única política razoável.
Basta descer o eixo central da cidade, da Penitenciária ao Terreiro do Paço, para ver o horror a que chegámos. Lá em cima, num pseudo-jardim de Ribeiro Teles, abriu um restaurante, em forma de caixote, desconfortável e proibitivo. As colunas triunfais, com o pénis de Cutileiro no meio podiam anunciar um bordel kitsch. Infelizmente, parece que anunciam uma glória qualquer da Pátria. O relvado, do mais puro gosto fascista (e uso aqui a palavra com cuidado) não serve para nada, excepto para exibir uma "grandeza" vácua que falta ao resto de Lisboa. Dos prédios da Rotunda, a pior arquitectura do século, ou até da história, não há nada de publicável a dizer. A Avenida e os Restauradores roçam o absurdo. Os prédios do Rossio, apesar do esforço de João Soares, não merecem o Rossio. E a Baixa morreu - sem bares, sem restaurantes, sem comércio, confrange quem se lembra dela em melhores tempos.

Publicado por Filipe Moura às 08:47 AM | Comentários (18)

ARTIGOS PARA IREM LENDO ENQUANTO A GENTE POUCO ESCREVE (II)

"O calado é o melhor", por Mário Mesquita no Público.

Teria sido mais interessante que este confronto se tivesse verificado em 1991, quando Cavaco Silva, no auge da sua força como líder do Executivo, poderia ter defrontado Mário Soares, também ele no máximo da sua
popularidade enquanto Presidente. Mas Cavaco Silva e o PSD preferiram a via segura do apoio envergonhado a Soares do que o afrontamento leal que teria clarificado a política portuguesa. A campanha converteu-se num
cortejo monárquico. Deve ser muito incómodo, para o respeitado professor de economia, verificar que lhe reaparece, de novo, pela frente, a figura de Mário Soares, com mais idade, sem dúvida, mas com inegável capacidade de combate e juventude de espírito.
Qualquer que venha a ser o resultado eleitoral, Soares, ao candidatar-se, já deu um enorme contributo no sentido de demonstrar que os portugueses não estão reduzidos à opção entre o radicalismo utópico de certa esquerda
e a tecnocracia conformista, aliada à direita, que reduz a democracia aos critérios do mercado e aceita a unipolaridade, centrada em Washington, como única (des)ordem internacional possível. Mas, em todo o caso, veremos o que diz Cavaco, quando ressurgir e for obrigado pelas circunstâncias a abandonar a expressão por monossílabos. Para já, temos estado limitados, do lado do professor da Universidade Nova, à velha táctica designada por "o calado é o melhor". Mas chegará a hora em que o culto do silêncio e dos tabus deixará de ser suficiente. Teremos de voltar a ouvi-lo, com a atenção exigível a qualquer bom cidadão... Será, simultaneamente, um prazer (a quebra do silêncio) e um suplício (para quem não o aprecie na qualidade de orador).

Publicado por Filipe Moura às 08:41 AM | Comentários (2)

ARTIGOS PARA IREM LENDO ENQUANTO A GENTE POUCO ESCREVE (I)

"Quem testemunha pela testemunha?", excelente artigo de Antonio Tabucchi no DN.

Entre Mário Soares e Cavaco Silva há uma diferença de idade, sem dúvida. Mas um homem que vai a caminho dos 70, como Cavaco Silva, quando havia o salazarismo já era bastante crescido. Será que, estudante de economia em
Inglaterra, não se apercebeu que em Portugal havia uma ditadura? E será que não se apercebeu disso por ter nascido "entre o pobre e o remediado" em Boliqueime? Conheço portugueses da idade dele que nasceram pobres,
muito pobres, e que conseguiram estudar no estrangeiro, mas com a consciência do País de onde vinham.

Cavaco Silva é um bom economista, não há dúvida. Dentro da linha da economia que pertence à sua visão do mundo, of course o neoliberalismo. Que não me parece propriamente o modelo económico mais favorável para os
"pobres e remediados". Mas não era o Salazar, também ele, um entendido em Finanças, na linha da sua visão do mundo? A economia não é uma ciência objectiva como a química ou a física, é uma ciência humana. O Portugal
salazarista era um país miserável, mas os indigentes (80% da população) tinham a satisfação de poder dizer que as moedas que mendigavam nas esquinas eram uma moeda forte. Não duvido que Cavaco Silva tenha estudado
bem na Inglaterra da sua juventude. Mas tenho a impressão de que ele viveu os seus tempos estudantis ingleses como alguém que vinha da Bélgica ou da França, e não de um país totalitário. Faltava-lhe pois o que se chama
"consciência política". O que, para um político, é uma falta grave. E quem não a teve aos 20/30 anos, quando o seu país precisava dela, não sei se a poderá ter em idade mais que madura, quando o seu país já a tem, porque
alguém se bateu para lha conquistar e continua a bater-se contra qualquer ameaça que a possa desfalcar.

Publicado por Filipe Moura às 08:40 AM | Comentários (10)

outubro 04, 2005

UM INSTANTE DA NUIT BLANCHE

Os burgueses gritavam, bebiam e riam, deixando o chão cheio de garrafas, latas e outro lixo. Ao mesmo tempo, os proletários funcionários municipais apanhavam o lixo dos burgueses. E os sem abrigo tentavam, mas não conseguiam dormir com o barulho dos burgueses.

Publicado por Filipe Moura às 08:13 PM | Comentários (3)

IMAGENS PARA IREM VENDO ENQUANTO A GENTE POUCO ESCREVE

Nuit blanche, Paris, 2005 : les Halles. Parte do itinerário "Central do Paris", evocativo do Ano do Brasil em França.

(Mais fotos aqui.)

Publicado por Filipe Moura às 08:12 PM | Comentários (2)

ALVOS POLÍTICOS

«Duzentas mil pessoas visitaram em três dias o site de uma agência de publicidade polaca que colocou na internet um jogo cujo objetivo é matar a tiro o político mais odiado. (...) Segundo a rádio pública, entre os jogadores há políticos que, para passar o tempo, se dedicam a eliminar os deputados de outros partidos.»
Em Portugal, quem é que dispararia virtualmente sobre quem?

[Dica do leitor JCV]

Publicado por José Mário Silva às 12:19 PM | Comentários (4)

EXCESSO DE CANDEEIROS

Creio que isto começou no tempo do Santana, mas já nem sei. Resolveram plantar candeeiros aqui no bairro de Santa Cruz em Benfica, para substituir os que cá estavam (e ainda cá estão). Na minha rua, no espaço de quatro candeeiros, plantaram 15! Em tempo de crise e de necessidade extrema de poupança de energia, isto é uma afronta aos pobres.
Os novos candeeiros ainda não estão ligados, ainda há obras e buracos nos passeios de várias ruas do bairro. Que fazer?
(Lena d'Água)

Publicado por José Mário Silva às 12:13 PM | Comentários (3)

outubro 03, 2005

CAMERA ERROR # E 45

Hoje de manhã saí para fotografar o eclipse mas a minha câmara digital, por funesta coincidência, eclipsou-se.

[Imagens do fenómeno astronómico podem ser encontradas no moblog do jornal Público]

Publicado por José Mário Silva às 11:49 PM | Comentários (0)

GENERATION GAP

Cruzo-me a meio da tarde com a Eduarda Dionísio, na Graça, mesmo em frente à Villa Sousa. Dois dedos de conversa e um acaso com piada: hoje é o primeiro dia da minha filha na creche e o primeiro dia da filha dela no mercado de trabalho. A Eduarda afasta-se, dizendo que qualquer dia será a Alice a estrear-se no primeiro emprego, se ainda houver empregos nesse tempo. Eu imagino as duas filhas em lados opostos da cidade, ambas a começar um caminho, provando que o tempo também se mede com coisas assim.

Publicado por José Mário Silva às 11:20 PM | Comentários (4)

outubro 02, 2005

ÚLTIMO DESABAFO DE UM SPORTINGUISTA FRUSTRADO

Espero que o próximo treinador de futebol do SCP seja um treinador de futebol.

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (21)

«REVOLTA NA BOUNTY» (EM SESSÕES CONTÍNUAS NO ALVALÁXIA)

O treinador do Sporting, depois de todos os falhanços da época passada e dos desastres recentes (ainda por cima com a agravante de ter destruído o que havia de bom no jogo da equipa), merece ser despedido com justa causa. Contra factos não há argumentos. Infelizmente, parece que esta evidência só ainda não entrou nas cabeças de José Peseiro (que continua a agarrar-se como uma lapa à liderança de uma equipa que visivelmente já não o quer) e dos dirigentes da SAD, incapazes de cortar cerce a raiz de um problema estrutural que ameaça o futuro próximo do clube, tanto desportivo como financeiro.
Mestre no suicídio táctico, Peseiro está a prolongar o seu harakiri para lá do razoável, incapaz de compreender o seu falhanço e o beco sem saída em que se meteu. Sozinho, sem pulso, sem rumo e com o famoso "crédito" completamente esbanjado, ao treinador só restava uma saída digna: a demissão. Vê-lo resistir ao fim do seu ciclo, como um general abandonado no campo de batalha que continua, teimoso, a empunhar a espada, é muito triste, além de que compromete a memória dos seus melhores momentos (os jogos contra o Feyenoord na Holanda ou a noite épica contra o Newcastle em Alvalade, por exemplo).
A derrota desta noite, num momento em que o 1.º lugar isolado na SuperLiga estava ali à mão de semear, foi só o último acto de uma tragédia que estava escrita há muito tempo. Em bloco, os jogadores do Sporting recusaram-se a jogar um décimo do que sabem e podem, entregaram escandalosamente os três pontos de bandeja ao Paços de Ferreira, colocaram a cabeça do técnico no cepo e deram o sinal para que a lâmina da guilhotina caísse.
Enfim, depois de Peseiro ter assassinado a equipa que tão diligentemente construiu no ano passado, pode dizer-se que os jogadores, num gesto de vingança, retribuiram na mesma moeda, assassinando-o na primeira oportunidade de que dispuseram (segunda, se contarmos com o colapso de quinta-feira, diante do Halmstad).
No limite, estou disposto a admitir que esta é uma rebuscada forma de justiça poética. Mas uma justiça poética de tom claramente apocalíptico. Mesmo para sofredores natos como somos nós todos (sportinguistas), não é um espectáculo bonito de se ver.

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (11)

ESTADO DOS FOGOS

Incêndios não circunscritos esta noite: Remondo (Viseu), Figueira da Foz, Silvado (Espinho), Vermoil (Pombal) e José Peseiro (Paços de Ferreira).

Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (5)

outubro 01, 2005

BLOGUES PARA IREM LENDO ENQUANTO A GENTE NÃO ESCREVE (V)

Tudo sobre as grevas & outras preciosidades.

Publicado por José Mário Silva às 12:02 AM | Comentários (4)