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agosto 31, 2005

O PRESIDENTE MÁRIO SOARES

Embora não possa (nem deva, nem queira) passar ao lado de todo o papel de Mário Soares na história do Portugal moderno, o que mais conta para mim neste momento é o Mário Soares presidente. O presidente da altura da contestação estudantil ao aumento das propinas e a repressão sangrenta que se lhe seguiu, patrocinada pelo cavaquismo - um dos episódios mais negros da democracia portuguesa. Mário Soares recordou que também ele fora um aluno contestatário e vetou a lei, exigindo para a sua aprovação um maior consenso num assunto daquele melindre.
Procurei sempre nunca me deixar influenciar pelas opiniões de outros nos assuntos mais polémicos, e formar sempre as minhas próprias. Nem por Mário Soares nem por ninguém. Depois de ter saído da Presidência, Mário Soares foi contra a regionalização (um "erro colossal" que de vez em quando o PCP tenta, irresponsavelmente, desenterrar). Foi favorável ao derrube do regime talibã no Afeganistão, mas não mais do que isso, tendo sido das primeiras pessoas a pedir o fim dos bombardeamentos, uma vez concretizado esse objectivo. Logicamente foi contra a guerra no Iraque. Finalmente foi - e é - a favor da Constituição Europeia.
Sou novo para evocar os episódios que referi no início. O que me interessa é que, desde que tenho direito a voto, não me lembro de alguma vez ter estado em desacordo, nos assuntos essenciais, com Mário Soares. Se se confirmar a sua candidatura à Presidência da República, o meu voto nele será normalíssimo. Para mim, sempre foi o presidente Mário Soares.

Publicado por Filipe Moura às 07:52 PM | Comentários (97)

A MONA DE CARMONA

carmona.bmp

Depois de dar sangue, o candidato do PSD à principal autarquia do País promete dar a cara por Lisboa, naquela que é provavelmente a mais arrojada campanha eleitoral de sempre. Ou seja, quebrando todos os princípios do marketing político e da estética, Carmona Rodrigues, em vez de atrair os votantes (coisa fácil e banal), prefere assustá-los.
É de homem.

Publicado por José Mário Silva às 02:29 PM | Comentários (9)

A FRAGATA NO VÃO DE ESCADA

O PPM ficou muito excitado com uma notícia da Lusa que reportava que as pílulas abortivas das Women on Waves seriam potencialmente prejudiciais à saúde.
Fiquei deveras comovido com a preocupação de PPM pela saúde das mulheres portuguesas. De facto, se nos últimos 5 anos morreram 5 mulheres americanas, num total de 460 000 que tomaram a dita pílula abortiva, então esta terá uma taxa média de risco de 0,001%. Estatisticamente, torna-se então bem provável que uma da meia dúzia de mulheres portuguesas que se candidataram para receber a pílula da WOW sofresse o grave efeito secundário de sentir uma leve comichão nas virilhas durante alguns segundos. É ou não admirável a preocupação do PPM?
Tão admirável de facto que, se o PPM aprovou entusiasticamente o recurso às fragatas para bloquear tão grave perigo que ameaçava as mulheres portuguesas, até tremo pelo que aquele não faria contra o aborto clandestino em território pátrio, onde a percentagem de complicações ronda os 50 a 60%. Será que ainda veremos um dos novos submarinos nacionais a atravessar Setúbal à caça de parteiras ou os americanos a lançar uma bomba atómica sobre a vizinha enfermeira do PPM que faz uns "favorzinhos" por fora?


P.S. - Confesso que originalmente ainda pensei duvidar do estudo, mas tendo sido realizado por um professor anti-aborto e anti-eutanásia, idolatrado pelos fundamentalistas anti-aborto, coloquei logo de parte a hipótese de enviesamento ideológico.


Publicado por Jorge Palinhos às 01:40 PM | Comentários (4)

PARA NÃO ACABAR COM AS DÚVIDAS

Era um sítio onde se podiam esclarecer irritantes dúvidas do português.
Era. Porque apesar de as queixas da iliteracia nacional serem um desporto tipicamente português, o facto é que ninguém parece disposto a assegurar a sobrevivência do Ciberdúvidas. Nem o Estado, nem os "excêntricos", nem os oprimidos empreendedores da nação.
Duvido que esta petição faça milagres, mas não custa tentar.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:03 AM | Comentários (7)

DOMINGOS & SAMURAIS

Ao ver o novo maxi-sudoku do Público, só me apeteceu fazer harakiri.

Publicado por José Mário Silva às 01:05 AM | Comentários (6)

agosto 30, 2005

UMA SINGELA PERGUNTINHA

E se na rentrée, como quem não quer a coisa, o Ponto e Vírgula voltasse ao activo?

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (4)

VERSOS QUE NOS SALVAM

A pedido do Fernando Venâncio, leitor e comentador de todas as horas, aqui fica mais um poema inédito (e sem título) de José Luís Tavares, oferecido ao BdE neste mês de Agosto quase a finar-se:

De ombro à ventania
gingavas na tarde estuarina,
pobre cego a que nenhum sobressalto
levará a dizer eureka.

Ao fingimento geral da felicidade,
aceitas o pânico de estar sozinho,
transístor colado ao ouvido,
donde uma parisiense já muito ustida
te nomeara esbelto cobridor
com escritório tão junto ao rio.

A voz débil de terror
canta na tarde fugitiva,
gasta a solicitude
com que em tempos a musa acudia.

Já nos visita o incessante inverno
pelo ar inchado de palmeiras,
e leves risos de viris negros,
recados porventura dalém-mar
soprados sobre um rossio
onde floresce a livre arte do impropério.

A felicidade foi não sabermos demasiado
a célere ciência do desengano,
os líricos axiomas mascavados num acaso
de conjuras, legenda de trazer ao bolso
para o descolorido retrato que de nós
o futuro traçará ou não.

Publicado por José Mário Silva às 11:46 PM | Comentários (33)

PEDAGOGIA

cartazes.jpg

Publicado por José Mário Silva às 11:37 PM | Comentários (0)

UM EXCELENTE REGRESSO À BLOGOSFERA

...o de Luís Osório. Aguarda-se agora um maior debate sobre a questão presidencial, no Causa Nossa e não só.

Publicado por Filipe Moura às 09:43 PM | Comentários (6)

PAULO NÃO VAI DE FÉRIAS

No seu artigo do passado domingo, a mãe Helena critica implicitamente José Sócrates e Jorge Sampaio, ao recordar que na altura do naufrágio do Prestige o filho Paulinho cancelou umas férias. Mas não deixou de ir à Galiza, o Paulinho, para a célebre tirada da "Nossa Senhora de Fátima, que protege o povo português" (ofendendo assim o católico povo galego, que não era mmerecedor da suposta protecção da santa). O virtuoso Paulinho desta forma não teria faltado ao povo português, que supostamente "precisa de palavras".
Eu julgava que, na questão dos incêndios, entre muitas outras coisas do que o povo português (neste caso, o Estado) precisava era de meios aéreos próprios (para não ter de estar sempre a pedi-los a Estados de que deles dispõem). Se o Paulinho, em vez de ter comprado uns célebres submarinos, tivesse antes investido nesses meios aéreos, talvez até tivesse podido ir de férias!

Publicado por Filipe Moura às 09:13 PM | Comentários (7)

CATÁSTROFE EPISTOLAR

Por distracção minha e mão pesada do Hotmail (parece que não visitei algumas das minhas contas durante mais de 30 dias), perdi anos e anos de e-mails, alguns deles preciosos.
Sinto de repente um vazio terrível.
Nem quero acreditar que desapareceram para sempre (em que obscuro éter?) mensagens que foram muito importantes para mim um dia: memórias dos amigos, palavras que se revelaram proféticas, pequenas histórias insignificantes, cartas de amor.
Disse que aquelas mensagens electrónicas foram importantes, mas isso não é verdade. Ainda eram importantes. Estava ali, em bruto, muito do que vivi nestes últimos anos; uma correspondência desigual que por vezes revisitava, sempre com o inevitável travo da nostalgia.
Agora, de um momento para o outro, perdi isso tudo.
Inapelavelmente.
Estupidamente.
E é como se o furacão Katrina tivesse passado, hoje mesmo, sem dó nem misericórdia, pelo meu computador.

Publicado por José Mário Silva às 06:46 PM | Comentários (11)

DUAS NOTÍCIAS

Uma má notícia: Maria do Rosário Pedreira (excelente editora, além de poeta) e Ana Pereirinha vão abandonar, já em Setembro, a Temas e Debates — onde têm feito um trabalho exemplar na revelação de novos autores portugueses.

Uma boa notícia: Maria do Rosário Pedreira e Ana Pereirinha estarão, a partir do final de Setembro, à frente de um novo projecto editorial.

[E nós ficamos à espera, claro, mortos de curiosidade.]

Publicado por José Mário Silva às 06:30 PM | Comentários (3)

NEW TAPES

O Rui Manuel Amaral, depois do luto pelo excelente Quartzo, Feldspato & Mica, está de volta à blogosfera noutro blogue de culto: este.
Aleluia.

Publicado por José Mário Silva às 06:21 PM | Comentários (1)

agosto 29, 2005

A INFECÇÃO ALASTRA

Recebemos no mail do BdE uma mensagem a anunciar-nos a inauguração de mais um blogue nacionalista.
Tal missiva encerra-se com uma passagem reveladora: "desejamos ter aqui um espaço aberto a toda a gente, desde militantes desta nobre causa a opositores ou alguns cidadãos mais sépticos".
Recorramos pois ao dicionário para relembrar a definição de "séptico":
"Do Lat. septicu < Gr. septikós
adj.,
que causa putrefacção ou contém germes patológicos."

Há lapsos mais loquazes que três parágrafos recheados de intento.

Publicado por Luis Rainha às 06:28 PM | Comentários (55)

NEW ORLEANS BLUES

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Oh Katrina, please don't you go this way.

Publicado por José Mário Silva às 08:35 AM | Comentários (3)

agosto 28, 2005

O GRANDE CIRCO DA FÍSICA: O CHUVEIRO QUE NÃO PÁRA QUIETO

Conforme escrevi atrás, coisas estranhíssimas passam-se enquanto eu tomo duche.
Tenho o hábito de pendurar o chuveiro por cima da cabeça. O primeiro facto estranho passa-se com o tubo que leva a água. Eu coloco-o direito, sem "curvas", de alto a baixo. Logo o dito tubo como que se enrola, sendo atraído por si próprio. Dois pontos desse mesmo tubo atraem-se mutuamente, formando um laço. Uma explicação baseada numa eventual electrização do tubo devida à passagem da água, tal como sucede com as roupas de lã nos dias muito secos e com vento forte não me parece de todo verosímil: o tubo é de metal, pelo que supostamente é bom condutor de corrente e não deveria electrizar-se. Não é? Como se poderá explicar tal comportamento?
Mas não é só isto que me intriga. Outra coisa que me espanta é que, assim que eu ligo a água, o chuveiro começa... a rodar no seu suporte! É um rodar em torno de um eixo vertical, ao longo da banheira. Roda só num sentido, até parar provavelmente quando não pode rodar mais.
(Este fenómeno não será reprodutível na maioria dos chuveiros, que ficam "entalados" no seu suporte. Não é o caso do meu chuveiro, que é muito estético, muito bonitinho, e livre de rodar em torno da vertical, num eixo paralelo ao fluxo de água para o exterior. É todo "último tipo", XPTO e tal e foi provavelmente desenhado por um designer francês. Os designers e arquitectos de anteriores nunca pensam nestas coisas como, por exemplo, os chuveiros que rodam. Por isso devemos fazer com eles como com certos esquerdistas: ouvir sempre a sua opinião, mas nunca a levar à letra. Na posição de mais responsabilidade deve sempre haver um engenheiro responsável que consiga fazer alguma coisa útil das suas ideias.)
Convém dizer que, quando o chuveiro era novinho em folha, eu não notava nenhum destes comportamentos bizarros (os meus duches, neste aspecto, eram bem quietinhos). Tudo era conforme o suposto, havia equilíbrio de forças, havia simetria... Só após algum tempo de uso comecei a notar estes fenómenos, e mesmo assim não é sempre. Ocorrem com uma certa frequência, mas não sempre. A que se deverão?

Estes fenómenos têm-me deixado a cabeça à roda, como o chuveiro. Para um deles tenho uma explicação possível; o outro é para mim o mistério. Para saber se a minha explicação é plausível, precisava de saber uma coisa. Um escoamento tem vorticidade quando se forma um remoinho. É o caso do escoamento dos nossos lavatórios ou banheiras, particularmente visível quando se abre um ralo. O que eu queria saber era a vorticidade da água que nos sai das torneiras, directamente dos canos. É considerável ou é negligenciável? Depende de quê? Da temperatura da água? É mais ou menos constante no tempo, ou varia? E se sim, o que a faz variar? Se algum dos nossos leitores tiver uma resposta para estas questões, agradeço que a deixe nos comentários. Receberei ainda com agrado sugestões e propostas pertinentes para estas questões nos comentários por parte dos leitores interessados, assim como questões - saiba eu respondê-las! Discuti o segundo fenómeno, do chuveiro em rotação, com o nosso leitor Pedro Gil, que tem uma explicação bem mais comezinha para o fenómeno, e a quem agradeço algumas sugestões. Mas acho que ainda há muito "pano para mangas".

Publicado por Filipe Moura às 11:13 AM | Comentários (43)

MOHAMMED GEORGE SAEED W. AL-SAHAF BUSH

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Publicado por José Mário Silva às 10:42 AM | Comentários (0)

agosto 27, 2005

ANIVERSÁRIO NO PARQUE

Os amigos giram à volta da mesa, como um sistema solar.

Publicado por José Mário Silva às 10:53 PM | Comentários (2)

ANTI-POSTAL

Não é o cristo corcovado;
embora aéreo e pesaroso.

Eu, que por horizonte
tenho apenas esse negro bairro
de barracas, invejo-lhe as pupilas
mergulhadas em calmaria,

mas, hoje, por trinta dinheiros,
só umas sandes e um pénalti,
ou amarga caneca de cerveja
aviada com a delicadeza
dos elefantes de aníbal.

[Poema inédito de José Luís Tavares, a quem muito agradeço a generosa oferta destes versos ao BdE.]

Publicado por José Mário Silva às 10:50 PM | Comentários (4)

JÁ LÁ DIZIA O OUTRO

Não havia necessidade.

Publicado por José Mário Silva às 10:46 PM | Comentários (1)

A FOTO DO DUCHE

Várias leitoras perguntaram-me por que razão não publiquei uma foto minha de corpo inteiro no duche. A razão é simples: não tenho tomates para isso. (Leia-se: os ditos não são suficientemente fotogénicos.)

Publicado por Filipe Moura às 11:11 AM | Comentários (9)

agosto 26, 2005

DEPOIS DO "MARCO HISTÓRICO"...

... it's business as usual.

Publicado por Luis Rainha às 01:58 PM | Comentários (3)

ISSO DOS MANDAMENTOS SÓ ATRAPALHA

O televangelista Pat Robertson arrependeu-se de ter pedido o assassinato de Hugo Chávez. Provavelmente, consultou o Livro que anda sempre a citar e encontrou por lá uma regra daquelas moralistas, chatas e ultrapassadas: "não matarás", ou coisa que o valha.
Mas o bom Pat não é homem para desistir assim sem mais nem menos. Vai daí, passou a vista pelos demais Mandamentos e acabou por fazer uma descoberta genial: Deus não nos proibiu de raptar o próximo!
Agora, Robertson diz que não quer a morte de Chávez; já se contentava com um raptozito. Deus nos livre de malta desta a falar em Seu nome.

Publicado por Luis Rainha às 01:24 PM | Comentários (6)

48 ANOS DE CEPA TORTA

Nas vezes em que se refere ao regime salazarista (e que eu tenha lido), Miguel Esteves Cardoso classifica-o como um "regime ultra-nacionalista". E nada mais. Embora eu não seja, de todo, um conhecedor aprofundado da obra de MEC, nunca o vi utilizar a palavra "fascista". Ora, seria bom que MEC revisse a sua classificação do salazarismo. É que "ultra-nacionalista" seria o que eu (e muitos leitores) chamaríamos... ao próprio MEC. E é bom evitar estas confusões.

Publicado por Filipe Moura às 11:23 AM | Comentários (27)

A CEPA TORTA DO MEC

Ainda o mesmo MEC, mas no DNa, há uns meses atrás escrevia uma frase que, falando em ostras, por si só é uma verdadeira pérola: «Os portugueses não comem a quantidade de ostras que deveriam comer e é uma rematada tragédia que assim seja.»
Faço daqui uma pergunta aos leitores, e aos portugueses em geral: já comeram as ostras que deveriam comer hoje?

Publicado por Filipe Moura às 11:19 AM | Comentários (7)

Ó MEC, FALE POR SI

«A "cepa torta" que os portugueses amaldiçoam até dá para produzir um vinho que, não sendo nem magnífico nem hediondo, até se deixa beber; até acompanha bem o pão nosso de todos os dias. Que nunca se saia dela é o que sinceramente desejo.» (Miguel Esteves Cardoso, DN, 21-08-05).

Publicado por Filipe Moura às 11:18 AM | Comentários (3)

AUTORETRATO

autoretrato.jpg

Publicado por José Mário Silva às 10:22 AM | Comentários (9)

agosto 25, 2005

ATÉ ONDE CHEGARÁ ESTE HOMEM?

Ainda o mesmo artigo de António Ribeiro Ferreira. Lá é escrito o seguinte sobre Ariel Sharon: «o tal que a esquerda e a direita pró-palestinana europeias apelidaram de falcão, inimigo da paz, responsável por fantasiosos massacres e outros insultos do género...» Referir-se, nos termos que António Ribeiro Ferreira o faz, aos massacres de refugiados palestinianos no Líbano em 1982 é moralmente equivalente a pôr em causa a existência de campos de concentração nazis. E tenho dito.

Publicado por Filipe Moura às 11:12 PM | Comentários (17)

DUAS PERSPECTIVAS SOBRE O DESMANTELAMENTO DOS COLONATOS EM GAZA

Uma perspectiva vista de Israel:

«O sonho dos colonos é criar um "Grande Israel" com colonatos judaicos colados uns aos outros. Nesses colonatos só os judeus podem viver e os palestinianos só lá podem trabalhar, empregos modestos com salários baixos. Num Estado assim, a democracia teria de se submeter aos rabis. O Knesset [Parlamento], o Governo, o Supremo Tribunal só seriam autorizados a existir se os rabis aprovassem as suas decisões. Os colonos acreditam que, logo que o Grande Israel se torne numa entidade religiosa e numa "Nação Sagrada", o Messias virá e a total redenção do povo judeu se materializará.
Nesta fantasia dos colonos não há lugar para o povo palestiniano excepto como humildes servos e trabalhadores agradecidos. Mais, na fantasia dos colonos não há lugar para mim, não há lugar para um Israel secular, moderno. Eu e os meus amigos estamos "fora" a não ser que nos arrependamos. Pelo menos não devemos ser obstáculo à construção de mais colonatos nem à expansão dos que já existem. Se nós, israelitas laicos, apagarmos a nossa própria existência, os colonos farão cair sobre nós o seu amor fraterno. Mas se insistirmos que temos uma visão diferente para Israel, imediatamente nos tornaremos traidores, amigos dos árabes, ou até nazis.
No entanto, também nós temos um sonho para Israel, totalmente diferente da fantasia religiosa dos colonos. Queremos viver em paz e em liberdade, mas não sob o poder dos rabis, nem sequer sob o poder do Messias, mas sujeitos a um governo eleito por nós.
Temos um sonho de nos libertarmos da longa ocupação dos territórios palestinianos. Israel e Palestina são, há quase 40 anos, como um carcereiro e um prisioneiro, algemados um ao outro. Depois de tantos anos já quase não há diferença - o carcereiro não é livre e o prisioneiro não é livre. Israel só será uma nação livre quando acabarem a ocupação e os colonatos e a Palestina se tornar um país vizinho independente.
Há 30 anos que os colonos controlam Israel através de vários governos. Eles impuseram a sua visão e esmagaram os nossos sonhos. Eles eram os senhores do país.» (Amos Oz, Público, 24-08-05)

Uma perspectiva vista da Av. da Liberdade:

«O último recuo de Israel
(...)
Os terroristas, os anti-semitas disfarçados de pacifistas, os frouxos de todo o mundo sonham com a derrota e destruição de Israel. Mas a retirada de Gaza não é, nunca foi, uma prova de fraqueza. É, antes do mais, um sinal de coragem e de inteligência estratégica. E um enorme aviso aos líderes palestinianos e à comunidade internacional.
A partir de agora não há lugar para mais recuos. Israel fica na Cisjordânia e na sua capital, Jerusalém. A partir de agora, mais do que nunca, Israel é terra de paz. E a partir de agora, mais do que nunca, Israel tratará o terrorismo de forma implacável. Em nome da vida.» (António Ribeiro Ferreira, DN, 23-08-05)

Publicado por Filipe Moura às 11:07 PM | Comentários (3)

UM MARCO HISTÓRICO

O desmantelamento dos colonatos israelitas em Gaza representa o primeiro passo de um processo irreversível e inevitável: o do regresso do (legítimo) estado de Israel às suas (legítimas) fronteiras, as de 1967. Podem chamar-me idealista ou ingénuo; não o sou. Não desconheço o passado de Ariel Sharon. Não me esqueço da Cisjordânia e nem do seu muro. A desmantelação destes colonatos provavelmente não ocorrerá com Ariel Sharon. Mas ocorrerá.
Podemos questionar-nos sobre as intenções de Sharon, sobre o que vai fazer a seguir. Mas não mais do que isso. Até lá, resta regozijarmo-nos com o desmantelamento dos colonatos da Gaza que representam, até pela sua enorme carga simbólica, um marco histórico.

Publicado por Filipe Moura às 11:02 PM | Comentários (1)

RAPARIGA: ISSO DAS DANÇAS É COISA DO DEMO!

A freira Johanne Vertommen, talvez transportada pela proximidade do novo Papa, lançou-se em públicos e arriscados passos de dança com um missionário, no recente encontro de jovens católicos em Colónia.
Agora, foi repreendida pela sua superiora. Os assuntos de Deus são coisa séria e discreta; as piruetas que fiquem para o remanso do convento.

Publicado por Luis Rainha às 05:34 PM | Comentários (12)

Ó TEMPO, VOLTA PRA TRÁS!

Mão amiga apontou-me o caminho para esta bela notícia: "a Assembleia Municipal da cidade de Jeleznogorsk (região de Krasnoiarsk, Sibéria) decidiu, na segunda-feira, dia 15, «satisfazer parcialmente o pedido de antigos combatentes, de comunistas e de ultranacionalistas», instalando um monumento a Stáline". A ideia, claro está, é obstar à "calúnia e falsificação da História".
Como não podia deixar de ser, esta importante novidade é-nos trazida pelos bons ofícios do "Avante!", seguindo na senda de outros celebrados clássicos do jornalismo saudosista que nos asseveravam que "Gorbatchov teve o papel principal na derrota do socialismo, acompanhado apenas por arrivistas e traidores de que se rodeou para torpedear a mais brilhante conquista da história da humanidade". O autor de semelhante alucinação, Leandro Martins, também aproveitou para exultar ao ver que "voltam a aparecer cidades em que se dá o nome de Stáline a ruas". Ah; este senhor, chefe de redacção do "Avante!" é ainda membro do comité central do partido mais autista da Europa Ocidental. Que continua a aguardar, em jubilosa esperança, a chegada desta "vaga de fundo" a Portugal.

Publicado por Luis Rainha às 01:12 PM | Comentários (10)

A MÃO INVISÍVEL EM ACÇÃO

Reza o evangelho do liberalismo que os mercados, quando entregues a si mesmos, são levados por uma espécie de gravidade benigna, a famosa "mão invisível", a trabalhar para o bem de toda a sociedade.
Querem saber como é que este mecanismo maravilhoso opera os seus milagres? Inteirem-se do último escândalo revelado pelo "Canard Enchaîné": as três principais operadoras de redes de comunicações móveis em França reuniam-se periodicamente para ajustar entre si a partição do respectivo mercado, no que um dos implicados descreveu como a "Ialta das quotas de mercado". A manigância chegava ao requinte de os dois maiores operadores combinarem ajudar o menor a aumentar a sua fatia, impedindo as suas próprias quotas de atingir os 50%, coisa que os proibiria de gerir à vontade as suas carteiras de preços. E lá se foi a livre concorrência.
Se isto é o que se passa num mercado regulado, imagine-se o que aconteceria na ausência total de regras… Sim, é lindo o sonho liberal.

Publicado por Luis Rainha às 11:39 AM | Comentários (33)

agosto 24, 2005

MATEM-NO, EM NOME DE DEUS!

O influente telepregador Pat Robertson, fundador da Christian Coalition of America, advogou publicamente o assassínio do presidente venezuelano, Hugo Chávez.
"You know, I don't know about this doctrine of assassination, but if he thinks we're trying to assassinate him, I think that we really ought to go ahead and do it"; "It's a whole lot cheaper than starting a war ... and I don't think any oil shipments will stop."
Não vá o Mafarrico venezuelano continuar a servir de "rampa de lançamento da infiltração comunista e do extremismo muçulmano". Ou antes que se acabe o bendito petróleo. No estilo da caridade cristã, deve ser difícil achar melhor. Leiam, senão não acreditam.

Publicado por Luis Rainha às 02:53 PM | Comentários (37)

"POR FIM LIVRES"

No "Público" de hoje, surge uma interessante análise do que pode verdadeiramente estar em jogo na retirada da Margem Ocidental, escrita por Amos Oz. Uma vez que não há ligação ao artigo, deixo-vos aqui o caminho para um outro texto de Oz, bastante similar.
Sugere o autor de "O Mesmo Mar" que a retirada de Gaza foi a primeira batalha numa guerra para definir a identidade de Israel. Este conflito decidir-se-á entre um país secular, moderno e aberto à mudança, e os sonhos do Grande Israel que povoam as mentes de muitos colonos. Este último é um país onde apenas os israelitas desfrutarão de direitos cívicos, onde tudo será sujeito à aprovação dos rabis, mesmo a actividade do parlamento. Só assim terá o Messias condições para descer à Terra Prometida; e ai do israelita secular que se atrever a atrapalhar este divino desígnio: será logo "promovido" a nazi - coisa que bem pudemos testemunhar nestes dias.
Mas o Israel secular e inteligente também tem os seus sonhos. Por exemplo, "reconhecer que não estamos sozinhos nesta terra e exigir aos palestinianos que façam o mesmo". Este Israel admira "os jovens de uniforme que escolhem, apesar da pressão e da violência, apesar das maldições e dos falsos abraços e da manipulação emocional, erguer-se e proteger com os seus corpos o sonho de serem um povo livre – não o de governar os palestinianos e não o de serem governados pelos rabis". É difícil recusar solidariedade à nação tolerante e justa que Oz nos descreve.

A primeira batalha parece ter corrido bem. Os soldados não responderam ao ódio com que muitos os receberam e foram os colonos a ficar mal na fotografia da retirada: Israel não tolera faltas de respeito aos seus guerreiros. Sobraram poucas desculpas para no futuro não estender o processo à Cisjordânia: o caos foi evitado e a maioria dos colonos viu a tempo de onde sopravam os ventos da História. Assim pode mesmo ser que Israel se consiga "libertar da ocupação" que o continua a corromper. Tenha Oz razão.

Publicado por Luis Rainha às 02:35 PM | Comentários (20)

O QUARTO F

fogos.bmp

Foto de Paulo Cunha/Lusa

Publicado por José Mário Silva às 12:01 PM | Comentários (2)

SILLY SEASON II: HISTERIA NACIONAL

O Nuno Markl arranjou uma versão completa e original do mítico, do lendário, do culturalmente definitivo clip publicitário do Restaurador Olex.
Por favor, não provoquem nenhum motim que a cor primitiva do cabelo dá para todos.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:12 AM | Comentários (0)

GRAFFITI NÃO OFICIAL DA CAMPANHA DE MANUEL MARIA CARRILHO

graffiti.jpg

Publicado por José Mário Silva às 09:02 AM | Comentários (2)

180.000 HECTARES

Em 2005, como em 2003, Portugal demonstra ser exímio na velha política da terra queimada.

Publicado por José Mário Silva às 08:23 AM | Comentários (1)

AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT

O candidato do PCP à Presidência da República é... ora deixa cá ver, preparem-se para uma grande surpresa, será uma mulher como foi prometido?, não, não, não, talvez um jovem, também não, também não, o candidato é... o candidato é... Jerónimo de Sousa. Ah.

Publicado por José Mário Silva às 08:20 AM | Comentários (7)

AS VERDADEIRAS FARSAS

pianoman.jpg

Piano Man

Ricardo.bmp

Frango Man

Publicado por José Mário Silva às 01:12 AM | Comentários (11)

agosto 23, 2005

ABENÇOADOS

Há pouco mais de uma semana, um leitor católico devidamente identificado escreveu-nos (com algum atraso, é certo) a expressar a sua indignação pela forma como tratámos o Cardeal Ratzinger, aquando do seu upgrade na hierarquia da ICAR. Além de nos puxar as orelhas, lembrava que a vida, «no fundo, é um dom e por isso um privilégio, para o qual devemos olhar com alegria, verdade e optimismo, nunca com rancor, odio ou vingança».
Hoje, regressado de Colónia, esse mesmo leitor garante que nesse momento tão importante para ele (o encontro com o novo Papa), não se esqueceu de rezar por nós.
Não sei se outros blogues de esquerda mereceram a honra de uma oração, assim tão pertinho de Bento XVI, mas pela nossa parte agradecemos tamanho empenhamento na remissão dos pecados e sacrilégios que por aqui vamos prodigalizando.
Como já assinalou o Luis Rainha, hoje é mesmo o dia dos prodígios.

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (2)

COISAS ESTRANHÍSSIMAS QUE ME OCORREM

Surpresas que já tive hoje: o Piano Man é um farsante. Lance Armstrong dopava-se à força toda. A bem dizer, não existe um "Prémio Nobel de Economia". Paulo Pinto Mascarenhas até já se imagina a votar em Mário Soares.

Publicado por Luis Rainha às 05:39 PM | Comentários (1)

COISAS ESTRANHÍSSIMAS OCORREM DURANTE AS FESTAS

O que fazemos quando o país arde.

Publicado por Margarida Ferra às 04:32 PM | Comentários (10)

COISAS ESTRANHÍSSIMAS OCORREM ENQUANTO EU TOMO BANHO

Banho.jpg

Publicado por Filipe Moura às 12:13 PM | Comentários (8)

AINDA EM DIRECTO DA MARGEM OCIDENTAL

Há uns dias, o Zé Mário atreveu-se a escrever por aqui que o disengagement de Gaza, observado via TV, lhe parecia "muito light, muito televisivo, heróico q.b. e ideal para mostrar no próximo bloco informativo". E lançou o "desabafo provocatório" fatal: "serei só eu a ver, neste processo todo, os contornos de uma bem ensaiada farsa?"
Caiu o Carmo e a Trindade. A turba do costume logo compareceu en masse ao linchamento, armada das acusações habituais de anti-semitismo, temperadas com uns pedacitos de "estupidez", "presunção" e sei lá mais o quê.
O problema, o problema, meus caros, é que não foi apenas o Zé Mário a topar os tais "sinais". Por exemplo, o jornalista e historiador Tom Segev, ao ser entrevistado pelo "Público" (sem link), concordou: "Foi uma guerra psicológica. Tratou-se de um reality show: uma parte verdadeira, outra encenada. É muito difícil perceber o que é genuíno ou não."
Há coisas difíceis de perceber, isso há. Mas tal nunca impediu que os ignorantes se sentissem donos da verdade. Felizmente, temos por aqui malta capaz de explicar a estes israelitas com a mania que tudo sabem que "comparações com idades médias e reality shows são completamente descabidas". Que sorte a nossa.

Publicado por Luis Rainha às 11:25 AM | Comentários (22)

O FIM DO COLONIALISMO NA ALMIRANTE REIS

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Publicado por José Mário Silva às 08:45 AM | Comentários (3)

agosto 22, 2005

LAPSUS LINGUAE

Tropeçou numa palavra e caiu.

Publicado por José Mário Silva às 06:44 PM | Comentários (0)

agosto 21, 2005

A13

Como vocês, malta dos blogues, me parecem gente informada e civicamente empenhada, lembrei-me de lhes perguntar se saberão responder a uma recente perplexidade minha: quem teve a peregrina ideia de construir a A13, que liga Almeirim à Marateca? Com que fins? Lembro-me vagamente de uma polémica com sobreiros em Benavente e mais nada. Mas aquela autoestrada que percorri nos dois sentidos neste Agosto não me parece ter sentido nenhum. A Brisa publicitou que serviria para os que vêm do Norte pouparem tempo quando vão para o Algarve, saindo em Santarém e evitando a Vasco da Gama. Gastar milhares de milhões em 100 Km de betão para poupar... 30 minutos? Tanto para Sul como para Norte, percorri uma A13 quase deserta... Quando se tem falado tanto em OTAs e TGVs, talvez não fosse mau reflectir sobre este exemplo.
Já agora: para quando a autoestrada entre a minha casa e a casa dos meus pais?
(António José Teixeira)

Publicado por José Mário Silva às 07:16 PM | Comentários (56)

agosto 20, 2005

RESCALDO DE UMA POLÉMICA

Circunscrito o incêndio que lavrou nas últimas 48 horas nesta floresta, há alguns pontos que gostaria de esclarecer:

1) Escrevi este post enquanto via as imagens nele descritas, em directo, na CNN. Primeiro erro: nunca se deve escrever em cima do acontecimento, sem o mínimo de recuo e reflexão. A rapidez e a simultaneidade com o que se passa no mundo é um dos maiores fascínios da blogosfera. Um dos maiores riscos, também.

2) Quando escrevi a última frase, intui que seria polémica e que ia suscitar interpretações abusivas. Não suspeitei que fosse um pretexto para tão vigorosos e despropositados ataques. Segundo erro: em matérias sensíveis, toda a clareza é pouca e eu não soube ser claro. A pergunta final é ambígua e nessa ambiguidade coube tudo e mais alguma coisa, até sugestões de anti-semitismo. Sabendo o que sei agora, formularia a pergunta de outra maneira. Se tantas pessoas leram ali coisas que lá não quis colocar (mesmo pessoas que respeito e me respeitam), então o problema só pode estar na sua deficiente formulação. Mea culpa.

3) Assumidos os erros formais, concentremo-nos no conteúdo. O que quis eu dizer, aparentemente sem sucesso, com este post? Duas coisas. Em primeiro lugar, que há uma retórica visual que pode carregar de simbolismo um facto transmitido pelas televisões. No caso da retirada dos colonatos, aquela imagem de resistência dos colonos no topo da sinagoga, com os soldados superando de forma "humana" os obstáculos, lançava para o espaço mediático global dois sinais: por um lado, uma certa nobreza da parte dos militares que se vêem forçados a desalojar os seus compatriotas e o fazem com rigor mas decência; por outro, um sentido épico dos resistentes, esperneando até ao último segundo, imagem viva do sacrifício que Sharon lhes impôs. Na conjugação destes dois sinais havia um sub-texto implícito: o de que a retirada de Gaza é histórica e a cedência unilateral de Sharon enorme (pelo menos do ponto de vista simbólico). Ou seja, para os planos de Sharon, que só mais tarde perceberemos quais são realmente, estas imagens são preciosas. Não estou a negar que aquilo aconteceu espontaneamente, mas se fosse "construído", seria esta a melhor forma de maximizar os seus efeitos mediáticos. Aliás, esta maximização deu-se noutros casos (propositadamente ou não): da Intifada, para usar um exemplo que agradará aos comentadores que me acusam de maniqueísmo, à queda do Muro de Berlim. E não estou obviamente a querer dizer que a Intifada ou a queda do Muro de Berlim foram encenações ou farsas.

4) A propósito, e para esclarecer de uma vez por todas o sentido que atribui à palavra farsa, na cena que descrevi no post eu encontrei os "contornos" do que poderia ser uma bem ensaiada farsa, ao serviço da verdadeira farsa (ou manobra de diversão, se preferirem o termo), que é esta decisão táctica de Sharon. Em nenhum momento quis insinuar que a CNN estava a transmitir uma encenação. Quis só dizer que parecia uma encenação.

5) Como já expliquei num dos comentários, este post não era um texto sobre a questão israelo-árabe. Era um desabafo, apenas um desabafo que provavelmente não teria sido escrito cinco minutos depois. Um desabafo provocatório, a ver que reacções desencadeava (daí o tom instigador: «Serei só eu...»). Um desabafo menor, que não era para ser levado demasiado a sério. Mas infelizmente, como lá no fundo eu temia, foi.

Publicado por José Mário Silva às 06:44 PM | Comentários (22)

agosto 19, 2005

FARSA? QUE FARSA?

Não é preciso salientar a candura pueril de gente que lê nesta retirada um simples e louvável "acto de um povo que, unilateralmente, retira as suas tropas para deste modo conseguir a PAZ"; talvez se trate da mesma malta que há uns meses tinha como absolutamente claro e provado que o Iraque estava infestado de apocalípticas armas proibidas. Nem vale a pena perorar considerações estratégicas sobre falta de água, pressão demográfica e os custos gargantuescos associados aos colonatos de Gaza. Relembrar que Israel desrespeita há décadas várias resoluções das Nações Unidas, como a 446 (de 1979!), também não vai comover ninguém.
Para entender, de forma transparente e clara, o que significa mesmo esta retirada para o governo de Ariel Sharon, só temos de recuar até Outubro do ano passado e passar em revista as palavras de Dov Weissglas, o assessor principal do primeiro-ministro israelita.
"O significado do plano de disengagement é o congelamento do processo de paz"; "Ao congelar esse processo, evita-se o estabelecimento de um estado palestiniano e previne-se a discussão dos refugiados, das fronteiras e de Jerusalém. Com efeito, todo o pacote chamado estado palestiniano, com tudo o que envolve, foi indefinidamente removido da nossa agenda. E tudo isto com autoridade e permissão. Tudo com uma bênção presidencial e a ratificação de ambas as câmaras do Congresso"; "o disengagement é, na realidade, formol; dá a quantidade de formol que é necessária para que não haja um processo político com os palestinianos."
E porque terá então surgido este plano? Simples: "porque no fim de 2003 compreendemos que tudo estava emperrado. E apesar de os americanos lerem a situação de forma a que a culpa recaía sobre os palestinianos, não em nós, o Arik [Sharon] viu que este estado de coisas não poderia durar, que eles não nos iam deixar em paz. O tempo não estava do nosso lado. Havia erosão internacional, erosão nacional".
Solução? "O processo de paz é o estabelecimento de um estado palestiniano, com todos os riscos envolvidos. O processo de paz é a evacuação dos colonatos, o regresso dos refugiados, a partição de Jerusalém. E tudo isso foi agora congelado. O que efectivamente acordámos com os americanos é que parte dos colonatos não será de todo alterada, e que o resto não será tratado até que os palestinianos se transformem em finlandeses. Este é o significado do que fizemos."

Tudo, claro está, com custos humanos aceitáveis: "de 240.000 colonos, 190.000 não serão removidos."
Este cinismo, assim revelado de forma transparente por um dos homens mais poderosos de Israel, é difícil de superar. E olhem que o mesmo Dov Weissglas escrevera pouco antes uma carta a Condoleezza Rice, em que garantia, de forma solene, várias cedências de Israel, como a implementação de restrições sérias ao crescimento dos colonatos nos territórios ocupados e a remoção dos postos avançados ilegais.
Hoje, o que organizações israelitas verificam é que "o número de fogos em construção activa no final de Março de 2005 (3.981) é muito similar ao número registado no mesmo mês do ano passado (3.925)". Os famosos "postos avançados" (colonatos mais ou menos selvagens) continuam a florescer, apesar das 2.500 ordens judiciais de demolição que continuam a aguardar a boa vontade do Tsahal.
Mais: segundo o Haaretz, Israel vai receber dos EUA 2.100 milhões de dólares, à laia de compensação por esta retirada. Se se trata de uma farsa, é pelo menos uma farsa bem paga.

PS: antes tarde que nunca. Por fim, lá dei com entrevista original.

Publicado por Luis Rainha às 06:01 PM | Comentários (24)

EX-SUPERLIGA

Está instalada a polémica em torno do novo patrocinador da Liga Portuguesa de Futebol. Por mim, era muito mais lógico escolher a Betadine do que a Betandwin, mas eles lá sabem.

Publicado por José Mário Silva às 08:51 AM | Comentários (10)

PREVISÕES DE INÍCIO DE ÉPOCA

Com os actuais plantéis e, sobretudo, treinadores dos "três grandes", prevejo que o Benfica vai revalidar o título sem grandes dificuldades. Mesmo sem precisar do auxílio dos árbitros.

Publicado por Filipe Moura às 02:17 AM | Comentários (5)

agosto 18, 2005

O ALGARVE QUE NOS RESTAVA E QUE ESTÁ AGORA EM RISCO

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Ria do Alvor, perto da Meia-Praia (Lagos)

Publicado por José Mário Silva às 05:27 PM | Comentários (2)

A IDADE MÉDIA EM DIRECTO NA CNN

Cá em baixo, soldados israelitas com canhões de água, escadas e tenazes para arrancar o arame farpado.
Lá em cima, colonos furiosos que atiram tudo o que têm à mão para cima do inimigo (sobretudo tinta; nada de azeite a ferver).
São cenas da descolonização sharonesca, em Gaza, num edifício pejado de radicais que agitam, freneticamente, uma bandeira de Israel. Balanço final: fardas pintalgadas, resistentes que esperneiam à saída, agitação, câmaras que tremem, mas nem uma sombra da brutalidade de que o exército israelita soube dar mostras noutras circunstâncias. Tudo muito light, muito televisivo, heróico q.b. e ideal para mostrar no próximo bloco informativo.
Serei só eu a ver, neste processo todo, os contornos de uma bem ensaiada farsa?

Publicado por José Mário Silva às 05:08 PM | Comentários (87)

OSCILAÇÕES TÉRMICAS

Hoje, as coisas aquecem em Gaza. Seguir-se-á mesmo o anunciado "congelamento"?

Publicado por Luis Rainha às 03:58 PM | Comentários (5)

LAMENTO

Eu sei que a retirada dos colonos israelitas da Faixa de Gaza é mais importante, que Portugal está a arder enquanto Sócrates volta fresquinho das suas férias africanas, que o Algarve está prestes a ser varrido por mais um tsunami de betão, que ainda ninguém sabe muito bem o que se passou com aquele avião cipriota, que há tragédias reais a merecer da nossa parte protestos indignados, choradeiras e jeremíadas, mas tudo isso não impede que fique um bocado perplexo, para não dizer desiludido, com mais uma morte súbita de um blogue essencial: o Fora do Mundo.
Ninguém ignora que o FdM era para ser a casa de um triunvirato (Pedro Mexia, Pedro Lomba, Francisco José Viegas) e que as ilusões de grandeza cedo se desfizeram, ficando o Mexia a morar ali sozinho, meses a fio, garantindo estoicamente uma produção assinalável (em volume e qualidade) mas sujeita a cada vez mais duradouras intermitências. Ainda assim, caramba, aquilo era das melhores coisas que podíamos ler na blogosfera portuguesa: um blogue ultrapessoal, umbiguista até mais não, cheio de petites histoires com um sub-texto às vezes infinito, um maná de referências pop sabiamente cruzadas com piscadelas de olho eruditas, um quarto apertado onde dormiam na mesma cama o sublime e o trivial; enfim, um blogue no verdadeiro sentido da palavra, o blogue por antonomásia, work in progress de um dos dois melhores bloggers portugueses (o outro, para que conste, é o ex-barnabita Rui Tavares).
Agora, o FdM vai ficar fora da blogosfera, que é outra forma, radical, de ficar fora do mundo. Depois do Barnabé, do Bombyx Mori (que entretanto voltou atrás, felizmente) e do Quartzo, Feldspato & Mica, esta é mais uma baixa de peso a contribuir para a depressiva atmosfera estival de 2005.
Resta esperar que o PM volte a ser atingido pela síndrome de Lázaro. Depois da Coluna Infame, do Dicionário do Diabo e do Fora do Mundo, como é que se chamará o seu próximo blogue?

PS- Sublinhando a tristeza da despedida, os três autores do FdM (o autor real e os dois fantasmas) decidiram posar lado a lado no Centro Comercial Colombo, naquela que considero a pior fotografia alguma vez publicada na internet. Talvez seja uma metáfora da decadência. Talvez. Aquelas luzes devorando os rostos do PM e do FJV, convenientemente apocalípticas. Mas não creio que precisássemos de ficar com uma imagem tão perturbadora a pairar na memória.

Publicado por José Mário Silva às 01:58 PM | Comentários (12)

COMO NASCE O TERRORISMO

Os israelitas estão agora a descobrir como também os seus podem sucumbir à raiva e ao desespero depois de se verem expulsos de terras que consideram suas. Ontem, um segundo atacante israelita alvejou palestinianos desarmados. Morreram quatro. De acordo com a polícia, estes ataques já eram esperados.
Agora, talvez os israelitas comecem a entender melhor como é que a expulsão de milhares e milhares de famílias palestinianas na década de 40 e atrocidades como Deir Yassin geraram multidões de fanáticos dispostos a matar e morrer como vingança.

Publicado por Luis Rainha às 11:56 AM | Comentários (11)

A PARTIDA

A evacuação israelita da Faixa de Gaza está cheia de imagens comoventes, como a deste homem que toca pela última vez o solo da sua casa.
Segundo tenho seguido pelas notícias, a retirada tem-se processado admiravelmente, com sofrimento e resignação, mas sem violência excessiva de parte a parte.
Sharon merece elogios pela medida impopular, mas também não nos podemos esquecer que o mesmo Sharon foi o responsável pela instalação de muitos dos colonatos que agora estão a ser desmantelados.
E, apesar da empatia que merecem estas pessoas que vêem as suas casas ser destruídas, é difícil não ter em mente que são indivíduos que escolheram vir para estas terras sabendo que não era garantido que eram definitivas, muitos por razões ideológicas ou para ocupar terras que sabiam pertencer a outros.
Também não é fácil evitar paralelismos com o povo palestiniano, uma parte do qual se viu também expulso das suas casas, as viu arrasadas, bombardeadas, ocupadas e roubadas.
Se a evacuação gera do lado israelita reacções destas, será assim tão difícil perceber as razões da popularidade do Hamas no outro lado?

A 54-year-old woman set herself on fire at a police roadblock in southern Israel on Wednesday in an act of protest.

Also on Wednesday, a Jewish settler killed four Palestinians in the West Bank - an act condemned by Israeli Prime Minister Ariel Sharon and Palestinian leader Mahmoud Abbas.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:18 AM | Comentários (3)

OLHA, MÃE, AGORA TENHO PRAIAS (TOC TOC) DE BETÃO!

É um novo assalto do betão ao Algarve. Há mais de cem mil apartamentos e moradias que já têm projectos aprovados e que devem ser construídos nos próximos três a cinco anos, confirmou ao DN fonte do turismo da região. Isto apesar de, neste momento, agentes do sector da construção civil garantirem que há mais de 30 mil apartamentos por vender e que os preços já começaram a baixar.
(...)
A zona da Meia Praia, em Lagos - que até há pouco tempo era considerada por investidores, autarcas e governantes como uma das áreas preservadas - deverá ver duplicada a sua população nos próximos dez anos, tendo em conta o que está estipulado no Plano de Pormenor da região. De acordo com o presidente da Câmara de Lagos, Júlio Barroso, estão previstos pelo menos seis hotéis de quatro e cinco estrelas com quatro pisos, que deverão situar-se na área mais baixa da-quela zona, enquanto a mais alta incluirá construções com dois pisos. Mas ainda haverá lugar para habitações com características de baixa densidade, além de um centro de saúde, equipamentos sociais, espaços verdes e para o aumento do campo de golfe de Palmares.
"Claro que gostava de ver a Meia Praia numa zona verde. Mas não sou dono daquilo", admitiu ao DN o autarca. "Também não podemos cair em fundamentalismos ambientais que impeçam um de-senvolvimento adequado".

Não há antídoto para o "fundamentalismo ambiental" como o fundamentalismo betonal.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:11 AM | Comentários (4)

agosto 17, 2005

ANATOMIA DE UM CRIME

E a verdade lá vai pingando aos poucos. Afinal, Jean Charles de Menezes não estava vestido com um sobretudo, entrou calmamente na estação de metro, não tentou fugir, não foi identificado pelos agentes e já fora dominado quando surgiram os disparos policiais.
Bem que Nietzsche nos avisou: "aquele que luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar também num monstro".

Publicado por Luis Rainha às 07:03 PM | Comentários (8)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Do livro Prufrock e outras observações, recentemente editado pela Assírio & Alvim (trad. de João Almeida Flor), um poema conservador de um poeta conservador (T. S. Eliot), mas nem por isso menos bom:


À JANELA DE MANHÃ

Vai tinindo a louça do pequeno-almoço na cozinha das caves,
Ao longo do lancil espezinhado desta rua
Descubro a alma humedecida das criadas de servir
Que germina, melancólica, à porta dos pátios.

Pardas de névoa as vagas arremessam
Do fundo da rua rostos distorcidos
E, a uma transeunte de saia enlameada,
Arrancam um sorriso casual que nos ares paira
E se dissipa, ao nível dos telhados.

Publicado por José Mário Silva às 10:33 AM | Comentários (5)

agosto 16, 2005

OPERAÇÃO-STOP

flordomar.bmp

Numa destas noites, revi em DVD um dos mais belos filmes do cinema português: À Flor do Mar, de João César Monteiro. Intacto, quase tudo o que recordava: a luz do Algarve; o espantoso plano inicial (com as portas abrindo-se para um pátio com uma árvore ao fundo); o rosto seráfico de Laura Morante; a paisagem quase selvagem de Cacela-a-Velha; o romantismo do homem misterioso que chega de barco, ferido, com nome de personagem de Hemingway; a confusão babélica dos diálogos (em português, italiano e inglês); a trama que introduz o espectro do terrorismo na vida de uma pacata família, naqueles dias agitados que se seguiram ao assassínio de Issam Sartawi; a música sublime de J. S. Bach (sonata para cravo e violino, BWV 1016); a Teresa Villaverde adolescente e desencaminhadora; o César Monteiro a deitar livros para o chão; o travelling que justifica toda uma cinematografia (é junto ao poço, quando o míudo passa a correr e leva com ele a câmara, num movimento de uma leveza quase impossível); além de muitos outros pequenos detalhes que dificilmente se dizem, assim, por palavras.
Do que não me lembrava era deste diálogo magnífico, de uma ironia que contrasta com o tom geral do filme. Depois de apanhar Robert Jordan na praia, Laura (Laura Morante) regressa a casa de madrugada e depara, pela segunda vez naquela noite, com uma operação-STOP da GNR. Talvez para que não a questionem sobre o acompanhante de perfil suspeito, decide-se por uma manobra de diversão. E quando o agente se aproxima da janela, pergunta-lhe:

Laura: Por favor... Sabe dizer-me onde posso encontrar, a esta hora, uma «Divina Comédia»?
Guarda: Quando chegar a Portimão, há-de ver uma ponte. Não atravessa, vira logo à direita. Anda aí uns cem metros, há-de encontrar uma mercearia. Os D. Rodrigos são bons, sobretudo quando são encomendados na véspera. E, logo ao lado, há uma livraria onde poderá encontrar a «Divina Comédia». (Olha para dentro do carro.) Até hoje, não recebemos instruções para pormos os tradutores a ferros, e é pena. Eu tenho um filho chamado Dante.
Laura: Eu também tenho um filho. Chama-se Roberto. Mas é muito pequeno para ler a «Divina Comédia».
Guarda: Boa viagem.
Laura: Obrigada e boa noite.
Guarda: Boa leitura.

Publicado por José Mário Silva às 05:48 PM | Comentários (9)

ESTE SUSPENSE MATA-ME

Soares anuncia que há-de anunciar se é candidato ou não.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:37 PM | Comentários (6)

JOGGING PARA BLOGGERS

Psst, e já ouviram que o Zé Mário blá, blá, blá blá? Pois é? E para já não falar do Pedro Mexia que bs bs bs bs bs bs...
Enfim, uma vergonha!

Publicado por Jorge Palinhos às 05:28 PM | Comentários (2)

CORREIO EDUCACIONAL, PARTE 2 E ÚLTIMA

Este tipo de posts é um bocado entediante pelo que vou tentar resumir ao máximo e colocar os comentários que me parecem mais interessantes e fundamentado no topo. Não vou abandonar a discussão mas vou optar por um formato mais digerível.

Só um pormenor. De estilo, novamente. Da próxima vez que responder, em vez de dar uma desculpa duvidosa como a que deu (do responder com calma), sugiro que responda nesta secção (dos comentários), pois é algo desonesto intelectualmente colocar um post com partes dos comentários, pois (algumas das) pessoas que o vão ler não estão dentro do assunto. Sabe; é para ninguém começar com pontos de avanço :).

random

É uma observação válida. Mas o facto é que já estou muito escaldado com longas respostas a comentários que desaparecem inesperadamente, é muita gente a quem responder e o assunto parece-me suficientemente importante para ser tratado aqui. Para tentar dar alguma equidade à discussão faço o link para a caixa de comentários e vou pôr a maior parte deles na entrada extendida.
Adicionalmente, quem quiser a sua resposta publicada num post, basta enviar-me o texto para o e-mail do BdE.

Palinhos, cheguei a suspeitar que tivesses ido para banhos e deixado metade do professorado suspenso das tuas soluções para o Sistema de Ensino. Mas não. Estavas a preparar o mais mastodôntico dos posts que já vi nesta casa. Well done.

Ah, a fina ironia valupiana! Note-se como num único parágrafo critica o tamanho do post e o tempo que demorei a escrevê-lo e insinua que serei algum messias da educação portuguesa.
Mil perdões por não viver dos blogs, não ter desenvolvido nenhum sofisticado sistema de ligação directa do cérebro ao Movable Type e por ter uma humilde opinião sobre a educação portuguesa.

[já agora, enganaste-te por 30 na técnica que eu usei.;)]

Ora, Valupi, achas mesmo que referi o teu comentário em primeiro lugar por ele me ter feito zangar? Tss, tss, tinha mais em conta a tua argúcia retórica.

Ora, vejamos. Reduzes ao conceito de "ideologia" uma questão que é do foro das ciências educativas, das ciências cognitivas, da sociologia, da psicologia e da antropologia: a matéria. A matéria, lembro, é distinta dos conteúdos do programa, embora neles contida. A matéria é aquilo com que o aluno contacta e que lhe permite um certo tipo de experiências.

Não discordo da tua definição de matéria. Mas lembro que aquilo que é dado ao aluno para ele contactar é já uma selecção muito restrita da vastidão de conhecimento científico e cultural existente. Essa selecção tem, obrigatoriamente, de assentar numa visão da sociedade e do papel do ensino nessa sociedade. O que é essa visão senão ideologia?

Não estou certo do que entendas pelo conceito de ideologia, mas não deve ser coisa boa.

Não estás mesmo certo. Nunca chamaria ideologia de "tanga". O que eu quis foi separar as águas e demonstrar a falácia que tem corrido nos debates educativos de que de um lado está a "ideologia educativa" (invariavelmente atribuída à esquerda) e do outro lado está o "bom senso" e a razoabilidade (quase sempre de direita e conservadora).

Os adultos, portanto, definem-se por serem ignorantes da cultura portuguesa anterior ao aparecimento das telenovelas da TVI, na tua grande visão. E os factos dão-te razão.
Qual seria, afinal, o problema de só usarmos o Harry Potter, os jornais desportivos e a revista Caras para ensinar a ler e a escrever, posto que é este o universo futuro de um adulto a trabalhar num escritório de advogados, tal como tu imaginas os escritórios de advogados?(...)
Se, na tua ideologia, o ensino deve formar indivíduos para lidar com as tarefas básicas do quotidiano e a mais não serem obrigados, ganhaste já a discussão – pois nada mais há a discutir contigo. Mas se tiver sobrevivido em ti um ideal de ensino em que se forme cidadãos que sejam pessoas autónomas, vais ter de engolir o que escreveste.
A autonomia é o resultado do desenvolvimento intelectual e da assunção de uma identidade. A autonomia não é só, nem principalmente, um conteúdo informativo, é uma disposição interior disciplinada e disciplinadora. A autonomia é o corolário de experiências limite, onde se herda a vanguarda do saber humano. E a escola é um dos locais onde esta transmissão se faz por imposição colectiva e ao serviço do colectivo. É uma necessidade política, garantia de sobrevivência da cultura.

Valupi

Pasme-se! Estou de acordo com quase tudo o que dizes.
O problema é que não vejo como educar os alunos sobre a contemporaneidade seja o oposto de formar para a cidadania. Pelo contrário, parece-me essencial ensinar os adolescentes a "olhar" para essa contemporaneidade com uma visão crítica e não a deixarem-se submergir inconscientemente por ela.
Por exemplo, pegando num caso real, tenho a impressão que os alunos ficarão com uma visão mais informada e crítica sobre os reality shows através do estudo do regulamento do Big Brother que através da análise da métrica da lírica camoniana. Discordas?
Eu não questiono a importância de ensinar e pôr os alunos em contacto com a cultura e literatura portuguesa, passada e presente, longe disso! Mas não vejo porque é que isso terá de ser o princípio e fim de tudo em educação. Veja-se que há décadas que se ensina Camões e Camilo nas escolas portuguesas e que avaliação fazes da participação e responsabilidade cívica da sociedade portuguesa? Muito má, imagino.
A dicotomia história e literatura portuguesas vs. cultura contemporânea é uma aberração que o Vasco Graça Moura usou na sua patética campanha contra a reestruturação dos programas de língua portuguesa e que importa enterrar quanto antes.

Post do Filipe:

Estou de acordo com as observações sobre a desresponsabilização dos professores e algumas atitudes muito más dos sindicatos. Discordo no que diz respeito à preparação "mais deficiente" nas disciplinas nucleares (mas sim, sempre foi "deficientíssima", embora me pareça que tem vindo a melhorar aos poucos.)
Mas não vejo qual é o problema de os alunos "gostarem da escola" e não sei o que é que "uma escola deve ser", mas hei-de escrever sobre o assunto.

Em primeiro lugar as coisas pouco ou muitas que estes professores aprenderam não foram somente as de 10 anos atrás. Em geral foram aprendendo ao longo dos anos até agora... Se o ensino foi piorando, eles sofreram essa pioria.

Mas eu discordo dessa alegada "pioria" e o meu comentário destinou-se justamente a desmontar as teorias da "pioria", no sentido de mostrar que normalmente não passam de uma versão educativa de "no meu tempo é que era bom".

Um ensino secundário exigente é compatível com a democratização do ensino tal como um ensino não exigente o é. E além de analfabetos oficiais existem os não oficiais como uma rapariga que conheci que pouco antes de entrar na Universidade não sabia quem era Hitler ou Stalin. Isto não deveria acontecer.

Bem, a primeira frase parece-me um pouco a quadratura do círculo, mas como estamos no campo das hipóteses, vamos fazer de conta que sim.

Quanto aos analfabetos não oficiais, bem, há uns largos anos conheci uma rapariga do 2.º ano da licenciatura de Geografia que não sabia em que parte do país ficava o rio Guadiana. E note-se que a rapariga tinha acabado o Secundário há muito mais de dez anos e veio a concluir a licenciatura com boas notas.
Estes analfabetismos anedóticos, tal como os dos concursos, são muito divertidos de contar, mas dizem pouco sobre a qualidade do sistema de ensino.

Quisemos alcançar de forma apenas aparente e num imensamente curto espaço tempo o ranking estatístico europeu de educação. Negar que isto exigiu e levou a degradação da qualidade do ensino em Portugal é coisa de cegos militantes.

Como citei no post anterior, há estudos internacionais credíveis que revelam uma ligeira melhoria dos resultados escolares portugueses em anos recentes. Para trás não há dados objectivos e todas as opiniões sobre a degradação do ensino assentam em interpretações subjectivas. A estas é que eu chamaria "cegueira militante".

Caetera


Argumento à F. Louça, isso é um elogio? Ou está a dizer que F. Louça não é capaz de bons argumentos?

Era uma referência irónica ao "você não pode falar porque nunca produziu vida", que Louçã usou contra Paulo Portas a propósito do aborto.

A mim parece-me uma boa evolução, mas, lá está: ideologia.”
não faz qualquer ideia do que é o Ensino e não é por ser hábil em pesquisas de estatísticas (que pouco querem dizer) que tem mais crédito! J. Palinhos é uma questão de bom senso, como já havia referido, não falar do que não se sabe.

É a primeira vez que vejo alguém ligado à Matemática dizer que as estatísticas "pouco dizem". Especialmente quando essas estatísticas vêm de um organismo tão credível e respeitado como a OCDE. Mas imagino que o bom senso seja mais importante que as estatísticas. Se calhar nas escolas o programa de Matemática devia eliminar a estatística e passar a ensinar o "bom senso".

Mas, mais uma vez, isso nada quer dizer, pois quem garante que a qualidade do ensino se manteve (ou aumentou) nos referidos anos? Percebe os vários factores em causa neste problema? Relativamente a estatísticas, sempre desconfiei delas. Bem como qualquer pessoa com dois dedos de testa. As ciências subiram? Maravilhoso! Olhe que eu pelo menos em 2000, juntamente com os meus colegas sabíamos o que era a «massa volúmica» (ver comentário de jpt). O Português também? Deve ser do Big-Brother, pois as pessoas que lá vão são muito instruídas (regra geral, claro) e acabam por ensinar as pessoas, por contágio televisivo.

Simplesmente, não havia estudos internacionais credíveis antes de 2000 e dizer que o ensino era melhor ou pior somente com base na experiência pessoal é puro egocentrismo. Se os resultados médios dos alunos portugueses subiram entre 2000 e 2003, então é razoável pensar que têm vindo a melhorar gradualmente.

Isto está cada vez melhor!!! É o espetáculo no BdE!

Note-se que ele me chama demagógico.

“basta que os adolescentes tenham famílias educadas, com elevadas expectativas em relação ao seu sucesso escolar, que os ponham em explicações, para que aqueles tenham forte pressão para estudar”

Então o senhor que escreve no BdE tem como argumento que os adolescentes acabam por conseguir vingar na Escola porque as famílias os metem nas explicações?

Nope. Digo que se tiverem famílias que os incentivem a estudar, os alunos estudarão. Com ou sem reprovações. Lê o que está escrito, por favor.

“Na minha vida escolar tive disciplinas em que aprendi imenso, outras que não aprendi nada, outras que variou de ano para ano, tudo consoante o entusiasmo e saber do respectivo professor. E o sistema era sempre o mesmo... ”
A primeira parte é uma banalidade verdadeira. Pois será sempre assim. Uns professores são melhores que outros. A segunda parte é uma banalidade falsa. O sistema era o mesmo? Bem, isso realmente depende do que entende por “sistema”. Se o seu nível de abstracção o fizer imaginar sistema como infra-estruturas apenas, é capaz de ter razão (infelizmente). Se for um pouco mais além e incluir tudo o resto (o que podemos chamar sistema, se quisermos), verá que é falso o que diz. O sistema não é o mesmo. Basta ver o papel diferente do professor hoje em dia e as mutações que o papel das Didácticas sofreram...

Como acho que é perfeitamente óbvio para toda a gente (menos para o random), eu referia-me ao sistema que perdurava quando eu andava na escola e onde se inseriam todos os meus bons e maus professores, que o eram (bons ao maus), independentemente da qualidade desse sistema. Não estava a comparar o sistema de então com o sistema actual.

Eu escrevi:
"Professores a debitar teses?" Meu caro Palinhos, quem escreve teses dignas desse nome é responsável por cadeiras de ramo científico e não cadeiras do ramo educacional.

Você escreveu:
“Sobre isto não me pronuncio, pois guerrinhas académicas é algo que não me interessa minimamente.”
LOL
Que DISPARATE! Quem falou em guerras entre científico e educacional? Você, tão cego está, pois inteligência não lhe falta, nem percebeu que essa minha frase quer dizer; não é pelos professores investigadores andarem a fazerem teses que o Ensino Secundário está como está visto que essa não é sua responsabilidade.

random

Lamento informar mas o conteúdo implícito da citação original era: "Bons professores universitário que fazem teses relevante dão cadeiras do ramo científico. Maus professores universitários que fazem teses inúteis dão aulas no ramo pedagógico." Se não sabes o que escreves, começo a ter grandes suspeitas da qualidade das aulas de Português que tiveste no Secundário.

O resto do comentário do random é a chamar-me esquizofrénico, demagógico e a exigir desculpas por não concordar com ele.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:33 AM | Comentários (8)

agosto 15, 2005

MOTORISTAS DE AUTOCARRO

«Esta é a história de um motorista de autocarro que recusava abrir a porta do autocarro às pessoas atrasadas. Não abria a porta a ninguém. Nem aos alunos apressados que corriam ao longo do carro com olhos tristes, muito menos aos tipos nervosos de anoraque que davam murros na porta como se tivessem chegado a tempo e ele é que estivesse em falta, e nem sequer às velhinhas com sacos de papel craft carregados de provisões, que lhe faziam sinal com a mão a tremer. Não era por maldade que ele não abria a porta, porque não havia nele sombra de maldade, mas por ideologia. De acordo com esta ideologia, mesmo que a demora causada pela espera de um passageiro atrasado mal chegasse a meio minuto, e o passageiro que ficava em terra perdesse por isso um quarto de hora da sua vida, continuava a ser mais justo para com a sociedade não lhe abrir a porta, porque esse meio minuto era perdido por cada um dos passageiros do autocarro. E, se houvesse no autocarro sessenta pessoas que tinham chegado à paragem a tempo, perdiam em conjunto meia hora, que é o dobro de um quarto. Era esse o único motivo pelo qual ele nunca abria a porta. Estava consciente de que os passageiros não faziam a menor ideia deste motivo, nem mesmo os que corriam atrás dele a fazer sinais para ele abrir. Sabia igualmente que a maioria pensava que ele era tarado, e que seria muito mais fácil ele deixá-los subir e receber em troca agradecimentos e sorrisos. Mas, entre os agradecimentos e os sorrisos e o bem da sociedade, ele não hesitava um minuto em escolher o bem da sociedade.»

Excerto do primeiro conto do livro O motorista de autocarro que queria ser Deus, do escritor israelita Etgar Keret, tradução de Lúcia Liba Mucznik, Ambar

[Nos anos 80, havia um motorista parecido com este a conduzir os autocarros da Rodoviária Nacional que iam de Almada para o Pragal. Mas não me parece que o motivo fosse «o bem da sociedade». Desconfio que ele era mesmo «tarado», para não dizer sádico: o desespero dos pobres estudantes que não queriam chegar à primeira aula depois do segundo toque era o seu napalm in the morning.]

Publicado por José Mário Silva às 11:56 PM | Comentários (2)

SONS PARA ESTE VERÃO

Publicado por Manuel Deniz às 11:48 PM | Comentários (0)

...COMO FRUTO QUEIMADO POR SOL ARDENTE


A efeméride passou quase despercebida. Há cerca de um mês e meio passaram dez anos sobre a morte inesperada, fulminante, do compositor Jorge Peixinho. Na altura, no final de Agosto de 1995, o Jornal de Letras publicou um número especial de homenagem e, por entre a colagem de depoimentos diversos, ficou-me gravada na memória a mensagem enviada pelo poeta Eugénio de Andrade. Um retrato claro e sóbrio, de quem soube encontrar as palavras justas para evocar o que há de trágico num desaparecimento assim. Quem teve a sorte de conhecer ou ouvir Jorge Peixinho, de assistir aos seus concertos, reconhecerá a exactidão do traço:

(...) Eu creio que nunca conheci ninguém tão empenhado no seu ofício, e no que era da sua lavra, como Jorge Peixinho. Não pensava noutra coisa – a música, a que fazia ou fizeram os outros, era nele uma obsessão. Junto dele não era possível falar ou fazer senão música. Não que Jorge Peixinho fosse um desses homens a quem Debussy censurava o facto de saberem música. Não era isso, mas como era muito escasso naqueles anos o interesse pela música contemporânea, o Jorge tinha de deitar mão a tudo: compor, procurar intérpretes, ensaiar, descobrir o lugar onde executar a peça, até possivelmente telefonar aos amigos a lembrar-lhes a data do concerto. Para tudo isso ele encontrava energia, entusiasmo, um ardor que vinha da fé no que fazia, que impressionavam, sobretudo a mim, que sou um homem tranquilo, com um ritmo que nada tinha de comum com o seu. Tanta energia gasta, tanta paixão desbordante, tal capacidade de indignação só podiam levá-lo ao fim que teve – rebentou como fruto queimado por sol ardente. Que melhor fim, para quem viveu tão apaixonadamente a sua arte, a sua vida?

(Jornal de Letras, 30/08/1995)

Publicado por Manuel Deniz às 11:40 PM | Comentários (3)

agosto 14, 2005

UM ACENTO A MAIS

Depois de terem prometido craques mundiais que deixariam os adeptos de boca aberta, Luís Filipe Vieira e José Veiga continuam sem trazer para o SLB os tão necessários ponta-de-lança e número 10. Era para vir Tomasson, mas não veio. Era para vir Nonda, mas não veio. Era para vir Kalou, mas não veio. Era para vir Nilmar, mas não veio. Etc, etc, etc.
«Ninguém pára o Benfica», gritam ainda os benfiquistas, cheios de fé. Só que o tempo escasseia e o slogan está prestes a perder um dos acentos: «Ninguém para o Benfica».
A SuperLiga, essa, começa já no próximo fim-de-semana.

Publicado por José Mário Silva às 11:38 PM | Comentários (3)

PORFIAI

Mas agora estou supostamente de "férias", mas com dois seminários para preparar, que têm de estar prontos, juntamente com dois artigos, impreterivelmente no fim das ditas "férias". Digamos que estou em "refúgio". Por isso, tal como diria o nosso comentador Bombatómica, "discutam, filhos, discutam!" Da minha parte, como se diz na cidade do Random e do Jorge, boa continuação. Porfiai.

Publicado por Filipe Moura às 03:03 AM | Comentários (3)

UMA POLÉMICA EDUCATIVA

Gerou-se um grande sururu com o texto que o Random teve a simpatia de me enviar. Um sururu, a meu ver, perfeitamente exagerado.
Responde-lhe o Jorge num texto "profes versus criancinhas", como se o Random tivesse acusado as "criancinhas" de alguma coisa. Nunca acusou, em lugar nenhum, e por isso o tom da resposta do Jorge parece-me exagerado e frequentemente despropositado. O Random nem defende sequer uma escola elitista: defende uma escola democrática de qualidade, e afirma, sustentando-o, que a escola pública portuguesa não tem actualmente essa qualidade. Não percebo de onde vem a indignação do Jorge.
As perspectivas do Random e do Jorge não são incompatíveis, são complementares e eu estou de acordo em grande parte com elas. E ambos só falham quando tentam concluir através dos seus exemplos que o outro está errado.
O problema da educação (e não só...) é uma generalizada desresponsabilização, e ambos os textos focam perspectivas diferentes dessa desresponsabilização.
É evidente que, se há algum fracasso na nossa educação, os responsáveis serão os agentes do sistema educativo: os professores e os seus superiores hierárquicos, quem os forma, quem os contrata, quem decide os programas.
Uma das facetas mais evidentes da desresponsabilização que refiro é a reacção corporativa que se segue imediatamente a alguém acusar "os professores" de alguma coisa. Ora, é evidente que há bons e maus professores. Os bons professores são os primeiros a terem interesse em defenderem a sua profissão. Mas os sindicatos tratam de igual modo todos os professores, não se importando se são maus ou bons profissionais. Se dão as aulas, ou se apresentam atestado médico atrás de atestado, ou se estão há anos "destacados" a fazer não se sabe o quê. A única coisa que importa aos sindicatos é se têm a quota em dia. Se o Jorge e o Random aceitam que há alguma responsabilidade dos professores no estado da educação, recordem-no aos sindicatos na próxima vez que estes marcarem uma greve na altura dos exames.
O objecto principal do texto do Random - e aí, a meu ver, ele acerta - é a cultura de facilitismo instalada no sistema educativo português. O Random teve contacto recente com um sistema educativo diferente, o francês. Eu não tenho tido grande contacto com este sistema - o pouco que tenho tido é através do que posso observar em alunos como o Random foi. Tive, porém, um contacto próximo com o sistema norte americano. Em ambos os casos pude verificar que o nível do conhecimentos (o "standard" académico, como se diz em inglês) variava bastante, do mais avançado ao mais básico, de universidade para universidade e, por vezes, mesmo dentro da mesma universidade. (A situação é a mesma nas escolas.) O que não variava era o grau de exigência académica: em ambos os países, qualquer que fosse o nível, cada grau, cada objectivo, cada cadeira, só era alcançado à custa de muito trabalho da parte do estudante. Em Portugal a situação é mais ou menos a oposta: o nível de conhecimentos que é desejado os alunos atingirem é quase uniforme dentro de cada área (algo sobre o qual eu não tenho opinião bem formada e que por si só daria um bom tópico de discussão), e o trabalho exigido é muito menor. Quando é exigido algum trabalho, geralmente só na Universidade, são tarefas repetitivas e com objectivos obsoletos, na linha do que o Jorge chamava "os professores que só sabem ensinar a sua tese de doutoramento" - e que entendem que os alunos devem fazer num semestre o mesmo trabalho que eles fizeram num doutoramento inteiro. Isto, repito, nas universidades.
Nas escolas secundárias o nível parece-me, de facto, cada vez mais baixo. Apesar de terem sido instaurados os exames nacionais, algo necessário não só para aumentar o nível de exigência mas também para uniformizar os critérios de avaliação, e de anteriormente ter sido estabelecida uma nota mínima para se entrar na universidade - algo que, quando eu entrei para a universidade, não havia... Parece-me que a preparação dos alunos, essencialmente nas disciplinas nucleares, essenciais - o Português e a Matemática - é cada vez mais deficiente. Se não é mais deficiente, continua deficiente - e sempre foi deficientíssima, como comprovam todos os estudos realizados sobre literacia e preparação matemática da população.
Mas o mais grave nem é isso. O mais grave é a crença - eu chamar-lhe-ia a "ideologia" que se tem instalado na elaboração de programas do secundário, e segundo a qual deve sempre e acima de tudo fazer com que os alunos gostem da escola (algo necessário), mas nem que para isso se tenha de adulterar completamente o que uma escola deve ser. Nem que para isso se deva eliminar tudo o que, por requerer esforço, por não ser fácil, possa fazer a escola parecer desagradável. Nem que para isso não se prepare os jovens para o mais importante - para que há coisas que só se conseguem com dedicação, esforço, trabalho e não somente "jeito", improvisação, "desenrascanço". Uma escola assim está a falhar no que devem ser os seus objectivos fundamentais: a preparação dos jovens não só para a universidade mas para a vida activa profissional num país que se quer desenvolvido. Mas que não o pode ser com uma educação destas. O assunto merece mais atenção, e tê-la-á, da minha parte, no futuro, de certeza.

Publicado por Filipe Moura às 02:59 AM | Comentários (11)

THE UNFORGETTABLE FIRE

A recente dissolução do Parlamento e convocação de eleições, qualquer Presidente teria feito. Há dois momentos históricos que, esses sim, marcam e distinguem o mandato presidencial de Jorge Sampaio e fazem com que, por isso, deva ser recordado no futuro (no meio de tantos actos irrelevantes e sobretudo de tantas condecorações irrelevantes). Refiro-me (sem ironias) às condecorações, primeiro dos Xutos & Pontapés, e agora dos U2.

Publicado por Filipe Moura às 02:47 AM | Comentários (3)

agosto 13, 2005

CESARE

pavese.jpg

Publicado por José Mário Silva às 07:25 PM | Comentários (2)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Da obra reunida este ano, na Quasi, por Isabel de Sá (Repetir o Poema 1979-1999), estes versos sobre poetas que não aguentam o peso das próprias palavras:


POETAS SUICIDAS

A partir de hoje
vou guardar numa pasta
os recortes sobre os poetas
suicidas, como este que fala
de Cesare Pavese. A morte num hotel,
assim provocada, parece-me frívola.
Bem sei que o cadáver
não fica esquecido.
E isto lembra-me uma personagem
de Peter Handke que diz
encontrar-se com uma senhora
para quando morrer não ficar muito tempo
sem darem por isso.

Depois do almoço, depois do café,
olho o teu corpo perfeito e pequeno,
o rosto, o sorriso.
E ao espelho vejo as palavras
do suicida:
"De resto, nos rostos, toda a gente já começou a morrer".

Publicado por José Mário Silva às 07:17 PM | Comentários (0)

agosto 12, 2005

O MASSACRE JUSTIFICADO, MAIS UMA VEZ

Há pontos de vista e opiniões que, independentemente do seu acerto, se vêem promovidos ao inabalável pedestal dos "Factos Históricos" apenas por via da repetição encarniçada.
Como agora. Passou há dias mais um aniversário da nossa infeliz entrada, em 1945, na Idade Atómica. Ao que parece, já se viu por cá decidida uma polémica que tem mobilizado legiões de historiadores em vários países: para os esclarecidos produtores de opinião da Lusitânia, é um facto mais que certo que os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki foram inevitáveis e ditados apenas pela necessidade de evitar mortes de soldados americanos num sangrento ataque ao Japão.
E olhem que a adoração ao simplismo confortável deste quasi-facto não medra exclusivamente à Direita. Ontem, Miguel Portas, com a solene ligeireza do costume, veio apoiar a solidificação do mito: "Os soldados japoneses não desejavam sobreviver à derrota do seu país. E queriam levar os vencedores consigo. Aquele fim de guerra era diferente de todos os outros. Sê-lo-ia até ao último dia, que a insanidade é doença que se pega nos confins da razão. O Estado-Maior norte-americano tinha, desde 1944, a arma que podia pôr um ponto final na guerra."
Hoje, João Miguel Tavares acrescenta o seu indispensável contributo: "Ainda assim, Miguel Portas acha incompreensível que um Presidente dos EUA, na posse da bomba nuclear (sic), continuasse a deixar alegremente 1200 soldados americanos morrer por dia nas praias do país responsável por Pearl Harbor. Ser pacifista é lindo. Até ao dia em que uma bomba nos cai no quintal. A partir daí, o pacifismo é apenas mais uma forma de inacção e de hipocrisia" (no DN, sem link).

No meio de tanta e tão esclarecida certeza, não sei se vale a pena relembrar que é ainda motivo de muita discussão se os bombardeamentos atómicos foram mesmo imprescindíveis para alcançar a rendição nipónica sem recorrer à invasão.
Acho que o melhor será imitar o estratagema dos arautos das tais "verdades que toda a gente sabe": vou simplesmente repetir o que já aqui deixei escrito, há um ano…

Nesta data, em 1945, era obliterada a cidade de Hiroshima. Não foi o bombardeamento que mais vítimas causou durante a II Guerra Mundial: Dresden, Hamburgo e Tóquio, arrasadas com a técnica denominada firebombing, sofreram ainda mais. Mas começou assim, com o primeiro tiro da Guerra Fria, uma nova era para todos nós.
Quase dois meses antes, a 7 de Maio, Masutaro Inoue, um diplomata japonês sediado em Lisboa, fez chegar a Truman uma oferta de paz, com a única exigência de que o Imperador nipónico não visse o seu estatuto alterado. Este foi apenas um dos contactos similares levados a cabo pelos japoneses. Sempre com o mesmo resultado: os EUA exigiam a rendição incondicional. (Claro está que, depois desta, acabaram mesmo por não incomodar Hirohito.)
A meio de Junho, o almirante William D. Leahy concluía que "a surrender of Japan can be arranged with terms that can be accepted by Japan and that will make fully satisfactory provision for America’s defense against future trans-Pacific aggression".
A 20 de Janeiro, mesmo antes da cimeira de Yalta, Roosevelt recebeu um memorando de 40 páginas do general Douglas MacArthur, em que este resumia cinco aproximações separadas que as autoridades japonesas tinham tentado. Todas debalde.
O resto é História: para acalmar os ímpetos expansionistas de Estaline, os americanos acenaram-lhe com o seu brinquedo novo e mortífero. Que tal fosse feito à custa de milhares e milhares de civis indefesos, parece hoje em dia coisa de somenos.
Ao ver imagens da destruição total de Dresden, Churchill fez a pergunta terrível: "Are we beasts?" Pouco depois, Hiroshima e Nagasaki trataram de responder afirmativamente ao estadista inglês.

E algumas citações de gente que até talvez estivesse um pouco mais dentro do assunto do que Miguel Portas ou João Miguel Tavares:

"Nevertheless, it seems clear that, even without the atomic bombing attacks, air supremacy over Japan could have exerted sufficient pressure to bring about unconditional surrender and obviate the need for invasion.
Based on a detailed investigation of all the facts, and supported by the testimony of the surviving Japanese leaders involved, it is the Survey's opinion that certainly prior to 31 December 1945, and in all probability prior to 1 November 1945, Japan would have surrendered even if the atomic bombs had not been dropped, even if Russia had not entered the war, and even if no invasion had been planned or contemplated."
United States Strategic Bombing Survey Summary Report
(1946)

"My staff was unanimous in believing that Japan was on the point of collapse and surrender."
General Douglas MacArthur, Comandante das forças armadas americanas no Pacífico

"Neither the atomic bombing nor the entry of the Soviet Union into the war forced Japan's unconditional surrender. She was defeated before either these events took place."
Brigadeiro General Bonnie Fellers, num memorando para o General MacArthur

"It is my opinion that the use of the barbarous weapon at Hiroshima and Nagasaki was of no material assistance in our war against Japan ... The Japanese were already defeated and ready to surrender because of the effective sea blockade and the successful bombing with conventional weapons ... My own feeling was that in being the first to use it, we had adopted an ethical standard common to the barbarians of the Dark Ages. I was not taught to make war in that fashion, and wars cannot be won by destroying women and children."
Almirante William D. Leahy, Chefe do Estado-Maior americano durante a Segunda Guerra Mundial

"The atomic bomb had nothing to do with the end of the war."
General Curtis LeMay, estratega dos bombardeamentos aliados na Europa

"The Japanese were ready to surrender and it wasn't necessary to hit them with that awful thing ... I hated to see our country be the first to use such a weapon."
Dwight Eisenhower

"It was the ruthless firebombing, and Hirohito's realization that if necessary the Allies would completely destroy Japan and kill every Japanese to achieve "unconditional surrender" that persuaded him to the decision to end the war. The atomic bomb is indeed a fearsome weapon, but it was not the cause of Japan's surrender, even though the myth persists even to this day."
Edwin P. Hoyt, historiador, em "Japan's War: The Great Pacific Conflict" (p. 420)


De forma expectável, outras opiniões de peso disseram precisamente o contrário. A verdade? Só estou a ver uma bem clara: a História é por vezes bem menos simples e cristalina do que gostaríamos…

Publicado por Luis Rainha às 06:04 PM | Comentários (28)

CORREIO EDUCACIONAL

O meu último post provocou alguma oposição nos comentários. Vou passá-los cá para cima para lhes responder com calma:

Este teu texto, Palinhos, é bestial. Literalmente.
Valupi

À falta de outros argumentos começa-se pela técnica 38 da Dialéctica Erística de Schopenhauer.


1) Hoje menos dez anos é 1995. Em 1995 havia as provas específicas para acesso ao ensino superior e a prova de aferição que se bem me lembro era Matemática para a via de ensino Ciências.

Certo, então foi há 11 ou 12 anos que a PGA foi finalmente engavetada. É pá, isso põe o meu argumento de rastos!


2) Eu não concordo que se leia o regulamento do Big Brother em aulas de português. A escola é não só para ensinar, mas para mostrar, alargar os horizontes dos alunos. Big Brother e novelas e Harry Potter já eles sabem. Se não for a escola a mostrar outros mundos, caso os alunos não tenham pais que conheçam, estarão ignorantes do que é um bom texto de português, um poema, uma peça de Gil Vicente, não saberão de Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Eça de Queiroz... Eu nunca me deparei com a Sophia de Mello Breyner Andersen na minha vida profissional, mas digo-lhe, estou satisfeita de a ter um dia encontrado. O primeiro encontro foi na escola. Foi fixe.

Gabriela

Isso é uma posição ideológica, debatível como qualquer outra. : a de se a escola serve para formar para a vida adulta ou para inculcar a cultura patriótica. Por enquanto tenho demasiadas questões para responder cabalmente, mas, para já, mas acho o comentário interessante porque revela que esta questão da qualidade de ensino não tem tanto a ver com "qualidade" mas sim com "ideologia".


Falando de Matemática, pude verificar explícitamente que alguns professores actuais desta matéria, recém licenciados, possuem deficiências de conhecimentos que já seriam graves em alunos acabados de entrar na Universidade ou mesmo em alunos secundários. Um professor que conheci não sabia e se negava a aceitar que a negação de maior é menor ou igual, e não menor... Outro não sabia fazer cálculos de matrizes. E outro não sabia que 0,999... (dízima periódica infinita) é 1. É preciso não esquecer que estes professores todos, foram alunos de Universidade, e antes disso do secundário...

Deste excerto depreende-se que os professores actuais (e que há dez anos ainda eram alunos) não devem ter aprendido muito mais do que os actuais alunos. Ou seja, estás a desdizer o Random quando ele diz que o ensino há dez anos era muito melhor que agora.


(...)A cultura recente da aprovação massiva dos alunos (que não é um mal somente português...) é em minha opinião a primeira responsável deste cancro. A segunda responsável, que em realidade é talvez apenas a outra face da moeda do mesmo problema, é o falso valor de acreditarmos em cursos universitários como bens de primeira necessidade para toda a população.(...)

E voltamos à questão ideológica. O que os críticos do actual sistema de ensino não gostam não é a "falta de qualidade", mas o facto de não se proceder desde logo a uma limpeza intelectual que barre os alunos com mais dificuldades de chegar à universidade. Sabendo-se que os alunos com mais dificuldades são invariavelmente os alunos de condições socio-económicas mais baixas, percebe-se que estamos diante da defesa de elites sócio-culturais exclusivistas.
Ora, o meu entendimento, e seguindo o que David S. Landes (um economista neo-liberal!) demonstra na "Riqueza e Pobreza das Nações", não são os paises com elites hipereducadas, mas aqueles que têm uma larga faixa da população medianamente educada, que apresentam maiores índices de desenvolvimento humano, progresso tecnológico e adaptabilidade. A História demonstra-o, na medida em que foram os países que se converteram ao protestantismo e tiveram políticas de alfabetização da população (para que esta pudesse ler a Bíblia) que se lançaram mais rapidamente na industrialização, informatização e hoje são líderes mundiais, como a Inglaterra, a Alemanha, os países escandinavos, etc.. Não foram os que só tinham duas ou três sumidades da teologia e 99% de analfabetos.


O pior de tudo é que tudo era bastante óbvio e previsível. Só quem não foi miúdo, ou pelo menos não foi normal nem conheceu quem o fosse, não sabe que a maior parte dos adolescentes sabendo que não é necessário estudar para "passar de ano" seguramente não vai estudar.

Falso! Para já os alunos têm de passar no secundário e até têm exames nacionais para o conseguir. Depois, basta que os adolescentes tenham famílias educadas, com elevadas expectativas em relação ao seu sucesso escolar, que os ponham em explicações, para que aqueles tenham forte pressão para estudar (muito mais forte que o risco de reprovação. O problema é que, até agora, em Portugal, as famílias têm investido pouco no ensino, devido ao condicionamento anti-intelectual salazarista.


Personalizam um problema que é do sistema. É a tragédia da pedagogia...

O sistema tem as costas largas, sem dúvida. Na minha vida escolar tive disciplinas em que aprendi imenso, outras que não aprendi nada, outras que variou de ano para ano, tudo consoante o entusiasmo e saber do respectivo professor. E o sistema era sempre o mesmo...


(...)Um sistema de educação suficientemente bom deve manter o seu grau de exigência independentemente do seu sucesso pedagógico. Falhar em tudo não é melhor que falhar em parte.
Caetera

É uma opinião, que me parece poder traduzir-se por "Um bom sistema é o que esmaga mais as pessoas".
A minha posição é que um sistema falha sempre em parte, visto não existirem sistemas perfeitos, e por isso um mau sistema é o que falha sempre e para toda a gente enquanto que o melhor sistema é o que consegue falhar menos para o maior número de pessoas possível.


1) os programas leccionados (?) hoje até à entrada nas universidades são absurdamente ocos e inconsequentes. falo por exemplo da matemática e do português, que são os que conheço melhor. Nem sequer se trata de facilitismo... trata-se de despojar as matérias daquilo que as enforma. Basta pegar num qualquer manual de matemática de há 10 anos e perceber que, na altura, se apostava no exagero da abstracção e na construção de um corpo consistente de conhecimento (ainda que bruto e exigente), avesso a uma apropriação imediata e longe de qualquer aproximação evidente à realidade. Hoje, limitamo-nos a replicar modelos para resolução de exercícios, sempre que possível, mascarados de aplicação em situações "terrenas".

Resumidamente: estás a dizer que antigamente se obrigava os alunos a decorar coisas que eles não compreendiam e hoje são ensinados a resolver problemas práticos.
A mim parece-me uma boa evolução, mas, lá está: ideologia.


2. essencialmente, a aposta está no ensino de estratégias de resolução de problemas (na matemática, no português e no resto) e não na análise dos problemas e busca de soluções;

Poderia responder-te que não é possível ensinar estratégias de resolução de problemas sem ensinar a analisar problemas, mas também é verdade que é impossível buscar soluções sem conhecer as estratégias de resolução de problemas. Mais simplesmente, não é possível pregar um prego sem conhecer o princípio do martelo.


3. isto é visível no tipo de matérias ensinadas mas, sobretudo, na forma como são ensinadas. Curiosamente, as orientações pedagógicas no final dos programas enviadas pelo Ministério da Educação apelam a coisas como "no final deste capítulo, o aluno deverá ser capaz de analisar, interpretar e resolver..." quando, depois, toda a estratégia de avaliação, seriação e classificação de alunos, escolas e professores é baseada na capacidade de "responder como se quer" e nada mais;

Sem brincadeiras, neste ponto estou plenamente de acordo contigo.


5. evidentemente, esta é uma resposta incompleta a um articulado incompleto... todas as questões que se prendem com a educação implicam a análise de inúmeros vectores, todos a condicionar todos... e, na dicussão, há sempre o perigo de cair em erros grosseiros que inquinam a coisa desde início: por exemplo, a tentativa de comparar métodos, programas e população escolar de épocas distintas sem atender às circunstâncias que as envolvem é uma jogada arriscada; mas também é complicado falar de uma parte do sistema de ensino sem implicar as outras ou de procurar tecer considerações sérias sobre o todo sem atender às particularidades de cada secção, grupo profissional ou sector da comunidade educativa e por aí fora;

NC

E foi exactamente isso (a bold) que eu tentei dizer.


Caro Jorge Palinhos,

Tenho imenso respeito por si, contudo não posso deixar de dizer que só diz asneiras do princípio ao fim. Apetece perguntar se trabalha na área da Educação e se tem contacto com alunos do Secundário e Universitário regularmente, como eu tenho, pois se tem ou desligou-se do mundo e se não tem mais valia não falar do que não domina.

Olha um argumento à Francisco Louçã!


(...) Pois temos mais alunos a chegar ao 12º ano (o que não é difícil pois são levados às costas) e no entanto estão cada vez menos preparados para o Ensino Superior. (...)

O que é que isso quer dizer de os alunos estarem "cada vez menos preparados para o Ensino Superior"? As notas de acesso não têm vindo sempre a subir? E se estas notas não são fiáveis as universidades não têm autonomia para criar as suas próprias provas e seleccionar os seus alunos? Porque é que não o fazem? O que é que este argumento demonstra, afinal?


Relativamente ao Ensino da Matemática, área que melhor conheço a par de outras ciências exactas, vou então explicar-lhe como é que se conclui que um aluno está menos preparado do que há uns tempos atrás;

i) escolhe num aluno de agora
ii) escolhe um aluno de "antigamente"

e compara os A) conhecimentos de i) e ii) B) compara a capacidade de resolver problemas.

Então vamos lá fazer isso. Comparando os resultados de Matemática do PISA, um estudo internacional aos alunos de 15 anos, temos que em 2000 os alunos portugueses tiveram uma classificação de 454 a Matemática e em 2003 tiveram uma classificação de 466. A Leitura subiram de 470, em 2000, para 478, em 2003, e em Ciências subiram de 459, em 2000, para 468, em 2003.Ou seja, segundo os estudos internacionais, nos últimos 3 anos os alunos portugueses têm vindo a melhorar em todas as áreas, o que contradiz completamente o que afirmas.
Ah, mas não estou à espera que estes números ponham em causa os "casos" que conheces.


Fica sabendo, caso já não saiba, que o aluno ii) sabia fazer primitivas, tinha um cálculo analítico muito mais poderoso, etc. (Consulte um livro de Matemática de 12º ano antigo e ficará espantado com as matérias que aprendiam)

Tiro para o ar. Ir aos manuais não prova nada, porque antigamente não chegavam ao 12.º ano nem metade dos alunos que agora lá andam, além de que por estar no manual não quer dizer que o soubessem (e não havia exames nacionais nem estudos internacionais, lembras-te?)
Uma coisa é o que se tenta ensinar aos alunos, outra é o que eles efectivamente aprendem e saberão usar ao longo da vida.


Então não goze, pois todas as pessoas que sabem da matemática vão se rir de chocados com o que disse.

Vão-se rir de quê? De eu ter dito que a matemática básica é ensinada através de problemas concretos? Bom, então vou ter de ser o último a rir.


"Professores a debitar teses?" Meu caro Palinhos, quem escreve teses dignas desse nome é responsável por cadeiras de ramo científico e não cadeiras do ramo educacional.

Sobre isto não me pronuncio, pois guerrinhas académicas é algo que não me interessa minimamente.


Caetera subscrevo o seu texto.

random

Caso não tenhas percebido, o Caetera escreveu o exacto oposto do que afirmaste (que agora os alunos eram muito piores do que antigamente). Vê acima.


Publicado por Jorge Palinhos às 05:00 PM | Comentários (13)

COLECCIONADOR DE NUVENS

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Há quem coleccione moedas raras com éfigies de reis assassinados a tiro, selos da Polinésia, discos em vinil de grafismo escabroso, 78 rotações com fados perdidos dos primórdios do séc. XX, borboletas nabokovianas espetadas em alfinetes, cápsulas de bebidas gasosas que já não se vendem há 30 anos, roupa com a assinatura de costureiros famosos (licitada nos leilões do eBay), búzios enormes trazidos de praias longínquas, o diabo a sete. Eu não. Eu não colecciono nada de tão concreto, de tão palpável. Eu colecciono nuvens e continuo a achar que o cúmulo da monotonia é a visão — lisa, opaca, vazia — de um céu completamente azul.
Embora não consiga precisar o momento em que terei exclamado pela primeira vez, como Baudelaire, «j’aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... les merveilleux nuages!», sei que este é um fascínio antigo, uma extravagância de todas as idades e de todas as estações. Em miúdo, tal como a pequena Amélie Poulain (ou qualquer outra criança que ainda não esteja completamente atrofiada por Nintendos e PlayStations), adorava estender-me na relva, durante as infinitas tardes de Verão, a decifrar formas naqueles prodígios de brancura suspensa. Aqui um castelo, ali uma nau de mastro partido, acolá uma espada avermelhada pelo poente.
Falar de colecção a propósito de nuvens pode parecer um disparate. Como é evidente, eu não tenho nuvens, eu nunca as guardei, nem posso vendê-las ou trocá-las. Mas elas não deixam por isso de existir, catalogadas e tudo, em dois planos: na minha memória (ainda recordo, por exemplo, o relevo de certo cumulonimbo que vi a pairar sobre o Báltico, em Julho de 1988) e na memória do computador, em pastas cheias de fotos captadas com uma máquina digital.
O que eu queria mesmo, confesso, era andar pelo mundo à caça delas. Contemplá-las por cima (avião), por baixo (barco ou automóvel), por dentro (no topo das montanhas). E fazer depois um Diário das Nuvens, como o que Goethe escreveu em 1820, só com referências sucintas ao modo como os cumulus, os stratus, os cirrus e os nimbus se distribuem na atmosfera, se avolumam ou se desfazem em chuva.
«Uma arquitectura do acaso», chamou-lhes Jorge Luis Borges. Do efémero, acrescento eu. E talvez por serem assim — breves, frágeis, provisórias — me pareçam sempre tão belas.

[Texto publicado hoje, no DN, na rubrica "Extravagâncias de Verão"]

Publicado por José Mário Silva às 02:25 PM | Comentários (3)

CERTIFICADO DE GARANTIA

«Este livro foi escrito por mim», avisa Adília Lopes nas primeiras páginas de Florbela Espanca espanca (Black Son Editores). Trata-se de uma boutade, claro, mas menos inocente do que pode parecer à primeira vista. Sobretudo nos dias que correm.

Publicado por José Mário Silva às 12:41 AM | Comentários (1)

agosto 11, 2005

PROFES VERSUS CRIANCINHAS

Estava eu todo entretido em galhofas mentais com o artigo de Gabriel Mithrá Ribeiro sobre a educação em Portugal e o seu "o problema do ensino básico em Portugal é não se darem zeros", imaginando alunos de 11 anos a pensar "Bof, tive 1. Isto não é nada! Vou mas é jogar mais PS2.", em oposição a "Ahhhhhh, tive 0!!! Isto é uma monumental catástrofe pessoal que penhora todo o meu futuro e coloca em risco a evolução económica nacional. Vou passar a estudar cinco horas por dia e a comprar regularmente a revista Atlântico para me cultivar com os artigos do professor Mithrá!"

Quando eis que deparo com um texto de um aparente discípulo do professor Mithrá no BDE!
Como, ao contrário do artigo do professor Mithrá, este texto saiu numa publicação séria, vou responder-lhe com toda a seriedade.

O texto começa com a proposição absurda de que o objectivo do ensino português é "querer alcançar os resultados europeus, nomeadamente a percentagem de alunos que terminam o ensino básico e secundário" e que "o ensino da Matemática é hoje menos exigente do que era há uma década atrás" porque se tenta passar a mensagem que «a matemática é do domínio do concreto, resolve problemas da realidade» e assim se aumenta o "facilitismo".

Ora, há uma década atrás, não havia exames nacionais no final de cada ano do secundário e nem havia sequer provas disciplinares de acesso à Universidade. Somente existia a PGA, que era um teste de cultura geral. Então como é que se pode dizer que o ensino da Matemática é agora "menos exigente"?
Adicionalmente, desde o tempo da outra senhora que se ensina Matemática às criancinhas pondo-as a substrair as maçãs do Manel às laranjas do Jaquim, e o Random queixa-se que agora o ensino está a tornar-se mais concreto???

Depois diz-se que a Português "não se dão certos textos por serem considerados de nível mais complexo do que é de esperar de um aluno de secundário", o que é um perfeito disparate. Alguns textos cairam dos programas, porque a filosofia agora é ensinar os alunos a trabalhar com tipos de textos com que se depararão na sua vida profissional e não com lindos sonetos barrocos que nunca irão ver num escritório de advogados.
A nível literário, por sua vez, o objectivo é dar aos alunos textos que eles gostem de ler e que os motivem a tornar-se leitores para o resto da vida, e não textos que empinem e vomitem no teste. Ora, eu estou perfeitamente disposto a aceitar que o Random tenha descoberto o prazer da leitura aos 6 anos quando devorou pela primeira vez as obras completas de D. Francisco Manuel de Melo, mas o facto é que a grande maioria dos leitores ao longo da vida começa com coisas mais básicas: o Sandokan, o Harry Potter, o tio Patinhas ou os livros do Álvaro Magalhães.

Parece, assim, en passant, que as soluções apontadas pelo Random para o "gravíssimo estado da educação portuguesa" são não ter "medo de reprovar os meninos" pois "não traumatiza e até faz muito bem!", o que nos leva a deduzir que os melhores alunos das nossas escolas não são os que têm explicações particulares mas antes os que acabam o 12.º ano aos 40 anos, como imagino tenha sido o caso do nosso itálico comentador.

O Random conclui, dizendo, e bem, que o "problema ataca-se de raiz". Mas será que a raiz são mesmo os alunos? Mais raiz ainda não será quem ensina os alunos: os professores? Raiz de tudo isto não será antes quem ensina os professores: os docentes universitários que se limitam a debitar a sua tese de doutoramento nas aulas, ocupados que estão a publicar sonetos e a fazer intrigas académicas, para se demorarem a pensar no que precisa de saber um futuro professor?

Publicado por Jorge Palinhos às 06:01 PM | Comentários (29)

O PROBLEMA DA DIREITA

Às vezes, lendo artigos e posts de autores professadamente de direita, parece-me que a dita "direita" não passa de um modo diferente de querer resolver os mesmos problemas e atingir os mesmos objectivos, sendo que a "superioridade moral da esquerda" não existe.
Depois leio isto nas mais prestigiadas publicações desse campo ideológico:

The premise of multiculturalism is that all cultures are equally ‘valid’, but of course that’s bunk: some cultures are better, some are worse, some are successes, some are failures. I’m not being ‘Eurocentric’ here. Perish the thought: an awful lot of European cultures have proved hopeless at sustaining over any length of time representative government, property rights, the rule of law and individual liberty. Those are largely features of the Britannic world — not just of the United Kingdom, America, Australia and New Zealand but also of India, Singapore, St Lucia, as well as Quebec and Mauritius, to name but two francophone jurisdictions all the more agreeable for having spent their formative years under the British Crown. (...)
The debate led by the editor of this magazine and others over this last month about promoting ‘Britishness’ is perplexing to an offshore observer, if only because the superiority of the Britannic inheritance should be self-evident.

...who are the most persuasive and clear-headed in their public antipathy towards Islam and towards those who would, under the banner of political correctness, afford this still primitive creed some sort of equivalence with post-reformation Christianity. (...) I can no longer say, without impunity, that Islam is wicked or stupid, no matter how much evidence I marshal to support this reasonable thesis —and those who espouse its literal truths.

... E volto a acordar.

Publicado por Jorge Palinhos às 03:10 PM | Comentários (4)

RESPOSTA A UMA PERGUNTA FEITA ONTEM POR JOSÉ MANUEL FERNANDES, NO PÚBLICO

«Ainda existe espaço para políticos reformistas?»
Não, só existe espaço para políticos reformados.

Publicado por José Mário Silva às 12:23 PM | Comentários (10)

AS MAIS DELICIOSAS EXPRESSÕES PORTUGUESAS SÃO IMPOSSÍVEIS DE TRADUZIR

Exemplo: à fartazana.

Publicado por José Mário Silva às 12:21 PM | Comentários (7)

agosto 10, 2005

COISAS QUE SÓ ACONTECEM AO SPORTING

Jogar 90 minutos ao ataque contra uma equipa que joga 90 minutos à defesa, sofrer um penalty a castigar uma falta cometida fora da área, ver o árbitro ignorar ostensivamente três grandes penalidades sobre o Liedson (duas delas claríssimas), desaproveitar 523 livres directos quase frontais à baliza (logo num jogo em que o Rochemback ficou de fora), enviar uma bola ao poste, dar um banho de bola a italianos sarrafeiros mais cínicos ainda do que os gregos que nos limparam o Europeu, chegar ao fim e perder por 0-1.

Publicado por José Mário Silva às 11:53 PM | Comentários (30)

DEUS HOLDINGS REGISTA AUMENTO DE LUCROS

Os principais santuários portugueses estão a registar este ano uma afluência de peregrinos muito superior à do ano passado, crescimento que em muitos casos ultrapassa os quinze por cento.

As causas deste aumento do número de peregrinos ainda não estão apuradas, mas os responsáveis das confrarias e irmandades que gerem os santuários são unânimes em sublinhar que, sempre que a crise se agrava, cresce a afluência aos sítios religiosos.

“Quando o homem é confrontado com grandes dificuldades, económicas, de saúde ou outras, tem tendência a pedir ajuda a Deus, a Nossa Senhora e a todos os santos”, disse o cónego Melo Peixoto, dando como exemplo o “extraordinário crescimento” de visitantes registado nos fins-de-semana de Maio, Junho e Julho nos santuários do Sameiro (Braga) e de S. Bento da Porta Aberta (Terras de Bouro).

Abílio Vilaça, da Irmandade de S. Bento disse ao CM que “as instituições religiosas também têm apostado mais na promoção e na criação de condições de acolhimento aos peregrinos, no entanto, é verdade que as crises fazem aumentar as peregrinações, os pedidos e as promessas”, salientando que “este ano é o que maior afluência está a registar desde o início da década de 90”.

O padre Adelino Costa e Sousa, reitor do Santuário de S. Bento (o mais visitado em Portugal a seguir a Fátima), explicou que “a maioria dos pedidos prendem-se com problemas de saúde”, mas realçou que “ultimamente tem-se notado um acréscimo muito significativo de pedidos (e consequentes promessas) relacionados com questões económicas”.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:33 AM | Comentários (13)

agosto 09, 2005

SONS PARA ESTE VERÃO

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Publicado por José Mário Silva às 06:56 PM | Comentários (2)

PARA O CASO DE AINDA NÃO TEREM REPARADO

A melhor rubrica da imprensa portuguesa actual é «A Agência de Viagens Lemming», de José Carlos Fernandes, todos os dias na penúltima página do DN.

Publicado por José Mário Silva às 05:51 PM | Comentários (4)

SOARES NÃO É FIXE... DIGO...

Ontem, em declarações ao DN, o candidato socialista à Câmara Municipal de Lisboa (CML) revelou-se preocupado com a provável solução Soares, tendo assumido que, se dependesse de si, apostaria numa candidatura de "risco" Manuel Alegre.
Na opinião de Carrilho, a candidatura de Soares é "um mau sinal do sistema político português". Porque, segundo o ex-ministro da Cultura dos governos de António Guterres, "num sistema semipresidencialista", o PS podia e "devia ter tomado a iniciativa". Manuel Maria Carrilho acrescenta também que chegou a conversar com José Sócrates sobre a possibilidade e até a necessidade de o PS resolver o assunto pelo menos "um ano antes" das eleições presidenciais [Janeiro de 2006]. No fundo, diz ao DN, era possível que o PS "produzisse um candidato" presidencial sem ter de recorrer ao antigo presidente da República.

e

Manuel Maria Carrilho veio desmentir categoricamente a notícia avançada, esta terça-feira, pelo Diário de Notícias, em que lhe eram atribuídas críticas à eventual candidatura de Mário Soares às eleições presidenciais. Segundo aquele diário, o candidato socialista preferiria ver Manuel Alegre a ser apoiado pelo PS.
Num comunicado divulgado à imprensa, a candidatura de Carrilho afirma que as afirmações destacadas pelo Diário de Notícias «não [correspondem] ao teor das declarações prestadas aos jornalistas, pelo candidato Manuel Maria Carrilho». Esta manhã à TSF, o socialista afirmou: «Não disse isso, não tem qualquer sentido. É uma notícia falsa, infundada e especulativa. Lamento que o Diário de Notícias tenha feito esta notícia», explicou Carrilho à TSF, para de seguida afirmar: «A candidatura de Mário Soares tem todo o meu apoio».

Visto que desta vez a notícia não proveio das familiares "fontes próximas", só vejo duas explicações para este surpreendente caso:

a) O jornalista do DN foi acometido de um súbito ataque de esquizofrenia, no qual teve uma visão (e audição) de Carrilho a fazer aquelas declarações.

b) Depois do jornal ter saído alguém deve ter dado um valente "recado" a Carrilho que o obrigou a retractar-se.

Outras hipóteses, como a de má-fé do jornalista ou que Carrilho tivesse assumido que o jornalista atribuiria as declarações a "fontes próximas" ou ao "sentimento profundo socialista", não são muito credíveis pois estamos a lidar com gente séria e honesta. Certo?

Publicado por Jorge Palinhos às 01:23 PM | Comentários (18)

ALÍVIO

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O space shuttle Discovery já aterrou, são e salvo.

Publicado por José Mário Silva às 01:17 PM | Comentários (1)

agosto 08, 2005

15 DE SEGUIDA

Já tinha saudades das madrugadas heróicas do Pedro Mexia.

Publicado por José Mário Silva às 06:34 PM | Comentários (7)

agosto 07, 2005

EU QUERIA ESCREVER ISTO MAS DEPOIS VI QUE JÁ ESTAVA ESCRITO

Por isso reproduzo, com um abraço amigo, o texto do Luís:

«Às vezes penso que nunca mais vou escrever sobre a política. Que Sócrates e Vara, Santana e Guedes, o emperuado à espera de nova oportunidade, o lado esquerdo da bancada, são um problema vosso.
Mas há dias em que não se pode.
Eu sei que isto onde escrevo não é nada. Uma passagem para lado nenhum de alguns amigos que provavelmente pensam o mesmo.
Mas houve sempre demasiado silêncio neste mundo.
E escrever é refazer o mundo, fazer de conta, opor à força a resistência da reflexão.
Como a esquerda não pensa ou não tem onde, tem vergonha ou está de férias, os amigos da bomba atómica andam aí à solta. Ontem o Fernandes, hoje o Pulido Valente. Compreende-se o à vontade. Sessenta anos é muito ano. Sobretudo se não há sobreviventes. Ou se falam japonês.
Asseguro-vos: debaixo dos destroços de Hiroshima que as fotografias a sépia repetem, há corpos irreconhecíveis. São os corpos dos que tiveram a felicidade de morrer no primeiro minuto. Porque à medida que nos afastamos do epicentro, aumentam as penas de ter escapado.
O Japão era um país feudal, governado por uma oligarquia despótica e que dera provas de imensa ferocidade em todos os países ocupados. Okinawa tinha sido terrível. Mas o Japão estava sozinho quando na Europa já se tinha festejado a libertação. Hitler, Mussolini e os seus cúmplices mortos, em fuga, ou a branquearem os alinhamentos anteriores, sem iniciativa.
A arma atómica era uma coisa nova. Não se conheciam os efeitos, diz-se. Mas os cientistas que nela trabalharam- e que devem ser considerados criminosos de guerra, conjuntamente com os políticos e militares que deram a ordem da sua utilização - sabiam com que materiais trabalhavam. A radioactividade era conhecida, bem como a existência de efeitos a médio e longo prazo. O alvo e o ponto de deflagração das bombas foram escolhidos em função da maximização dos efeitos letais na população. Não apenas os objectivos eram civis como estava a ser utilizada uma arma sem paralelo nem correspondência histórica. Não que a história abunde de ética. Mas os fins não justificam os meios. E se sessenta anos não ensinaram nada aos nossos historiadores e líderes de opinião temos que tirar conclusões. Eles hoje não se opõem ao terrorismo islâmico por ser terrorista mas por ser islâmico. Fosse ele em favor dos sagrados objectivos do livre comércio e da democracia e seria justificado, pelos vistos. Os neo cons teorizaram assim quando propuseram a guerra preventiva. Os panfletos das escolas corânicas não devem dizer coisa muito diferente.
No fim da segunda guerra mundial o campo aliado lutava contra o Eixo e lutava entre si para assegurar posições no futuro. Os golpes que vibravam à Alemanha e ao Japão tinham sempre um segundo objectivo estratético. Os soviéticos entraram na Alemanha com a bandeira vermelha e na caminhada de Berlim não se distinguiram muito das hordas nazis no seu solo, uns anos antes. O bombardeamento de Dresden pela RAF foi um crime. Mas usavam as mesmas armas dos inimigos. No Japão, há sessenta anos cometeu-se a outra face do Holocausto. A incineração dos amarelos. Lamento ter mostrado as cinzas. Não é coisa que se faça. Estes debates devem ser limpos, como as acções de formação nas universidades americanas, para ex- esquerdistas convertidos ao escutismo.
Acontece que ter estado do lado vencedor não significa que deixe de se considerar a vida de Suzikura Aboe, uma rapariga de dezasseis anos que morreu no Hospital Central de Hiroshima (escolhido para o epicentro da deflagração), tão digna de apreço, tão barbaramente ceifada, como a de Anne Frank morta de exaustão e desgosto num campo perto de nós.»

Publicado por José Mário Silva às 11:07 PM | Comentários (42)

IBRAHIM FERRER (1927-2005)

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Espero que no funeral alguém se lembre de lhe levar gardénias.

Publicado por José Mário Silva às 11:04 PM | Comentários (1)

PORTUGAL DO SÉC. XXI VERSUS EUROPA DO SÉC. XX

[Parte I - A educação/Radicar nas razões do problema]

Portugal está numa situação complicada.
Só não é ainda uma situação desastrosa porque os contribuintes dos países ricos, continuam a aceitar que parte dos seus impostos sejam dirigidos para os países em vias de desenvolvimento, como Portugal ou a Grécia. O tão chamado “fundo comunitário” tem permitido a Portugal continuar as políticas irresponsáveis, enquanto o crescimento anual fica a rondar os míseros 1% do PIB. O problema é que um dia os fundos comunitários vão acabar e vamos ficar entregues a nós mesmos; e um país que não gere riqueza com valor suficiente para exportação não tem muitas hipóteses de sobreviver no mundo globalizado como o de hoje.
Os problemas em Portugal são de vária ordem e extensão. Começam pela ineficiente tributação dos impostos e acabam na ineficiente prestação de serviços dos funcionários e empresas públicas. Mas também passam por situações anómalas como, por exemplo, a existência de indivíduos, ditos “empresários”, que deixam as suas empresas ir à falência, sacando o máximo do Estado, e depois abrem noutro sítio a mesma empresa – com um nome diferente – de forma a maximizar o lucro pessoal de forma desonesta deixando os trabalhadores e o Estado lesados. É triste, mas estes sujeitos ainda persistem no Portugal do século XXI.
Neste post, vou-me focar no ensino em Portugal. Um ensino em que o objectivo não é a exigência e a qualidade da formação dos jovens portugueses, mas antes o querer alcançar os resultados europeus, nomeadamente a percentagem de alunos que terminam o ensino básico e secundário, está a degradar a qualidade de ensino em Portugal!
Em particular, o ensino da Matemática é hoje menos exigente do que era há uma década atrás. O mesmo se pode dizer do Português. A Matemática chegou ao cúmulo de querer fazer passar a mensagem – tendo em conta os programas e as abordagens dos livros das últimas reformas, bem como o contacto com os alunos - que «a matemática é do domínio do concreto, resolve problemas da realidade». Mas a matemática é a disciplina, por excelência, de índole completamente abstracto! Este discurso pretendia ser um discurso que animasse os meninos para o bicho de sete cabeças que é a Matemática.
No entanto, por ser falso, e levar ao facilitismo, acaba por ter consequências nefastas; as quais se fazem sentir nos resultados dos exames nacionais do 12º ano. Este ano o pior resultado de sempre foi obtido – a média nacional ficou-se nos 6,9 valores numa escala de 0 a 20! No Português, por exemplo, já não se dão certos textos por serem considerados de nível mais complexo do que é de esperar de um aluno de secundário – mas esses mesmos textos eram dados no passado! Foram os alunos que perderam capacidades, ou algo está de errado no ensino? A resposta é evidente.
Deseja-se uma formação sustentada. A começar pelo ensino primário e básico. Sem medo de reprovar os meninos. Fazendo-os sair de lá a saber ler, escrever e a fazer contas. Ao contrário do que dizem, não traumatiza e até faz muito bem! Só desta forma é possível reformar as pedagogias bacocas que se estão a transmitir aos alunos universitários que serão os futuros professores de secundário. O problema ataca-se de raiz e a raiz é a formação que esses alunos têm e o respectivo programa do ensino secundário. Uma reforma, de baixo a cima na pirâmide do ensino, era preciso para inverter a situação, pois não se pode exigir aos alunos no 12º ano, se não lhes se ofereceu anteriormente uma formação de qualidade!
Para terminar, vou dar o exemplo das Ciências Físico-Químicas. Nesta disciplina, os alunos aprendem um maior número de conceitos vagos que, em vez de lhes dar uma ideia melhor do que é a ciência, torna essa ideia mais obscura, com um preço a pagar: no final do seu percurso escolar, não sabem o essencial! Mais vale insistir nos pontos importantes; mais vale um aluno acabar o 12º ano e saber bem determinadas teorias e ideias que se podem ensinar numa tal disciplina, do que acabá-lo tendo ouvido falar de umas coisas vagas como “mecânica quântica”, as quais só poderão ser estudadas seriamente no ensino superior.
Em suma, os alunos chegam ao ensino superior e os professores queixam-se cada vez mais que «não sabem escrever», «não sabem coisas básicas de matemática». Para quem acredita, como eu, que a educação é um factor importante no crescimento e sucesso de um país, urge reflectir sobre este tema e, de uma vez por todas, atacar o problema pelas bases, em vez de discutir como melhorar este ou aquele ponto que, em média, nada alterarão!
E o discurso de que «há mais investigação de qualidade nas faculdades» não pode ser desculpa para «o ensino secundário está cada vez melhor». Pois como foi apontado num debate o ano passado no Klepsýdra, a investigação de qualidade é feita pelos melhores alunos e estes, sendo a excepção e não a regra, não podem ser usados para concluir coisas como o estado do ensino secundário.
Em suma, reformar o ensino primário e básico, para ser possível alterar, em diálogo com os professores universitários e os professores de secundário responsáveis pelos programas das disciplinas nucleares, as “didácticas” (disto e daquilo) irresponsáveis que estão a ser ensinadas no ensino superior, quer-me parecer ser esta a filosofia a seguir, independentemente de outros detalhes, menos importantes, mas muito discutidos hoje em dia...
(Random)

Publicado por Filipe Moura às 09:01 PM | Comentários (7)

DENTRO DA LUA

Não deixem de passar pelo recém-formado blogue do nosso leitor e comentador Random e da Lua, Tudo o que tenho cá dentro. Por agora, fiquemos com este texto que o Random nos enviou como apresentação.

Publicado por Filipe Moura às 08:56 PM | Comentários (0)

agosto 06, 2005

A FLOR DO MAL

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Publicado por José Mário Silva às 04:07 PM | Comentários (9)

ÀS VEZES O ÓBVIO DEVE SER DITO

Está um calor do caraças.

Publicado por Filipe Moura às 03:56 PM | Comentários (0)

agosto 05, 2005

RAZÃO E CORAÇÃO

Aqui está um editorial do DN que eu subscrevo totalmente:

Invocar a amizade entre 'camaradas' na questão da recandidatura de Soares é aceitar que o coração se pode sobrepor à razão em questões políticas. E não pode. Ou não deve. Alguma esquerda resiste a perceber o óbvio. (Pedro Rolo Duarte)

Publicado por Filipe Moura às 09:26 PM | Comentários (4)

JORNAL DA NOITE

Ecrã televisivo: matéria inflamável, território de labaredas.

Publicado por José Mário Silva às 08:57 PM | Comentários (4)

OS TERRENOS, OS ESTUDOS

Ah, e ainda mais isto:

O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, foi sócio de uma das empresas que está a realizar estudos de consultoria técnica para o aeroporto da Ota. De acordo com o semanário O Independente, a Consulmar foi sócia de Mário Lino na Impacte-Ambiente e Desenvolvimento, uma outra empresa de consultadoria ambiental, entre 1991 e 1996. Mário Lino tinha uma quota de 20 por cento na Impacte e ocupou os cargos de sócio-gerente e director.

Ou Portugal é um bidé, em que é impossível toda a gente não estar ligada a tudo, ou...

Publicado por Jorge Palinhos às 12:51 PM | Comentários (7)

AS NOMEAÇÕES

As recentes nomeações do governo socialista para um banco e empresas públicas não passam de uma troca de boys. Nada que nunca se tivesse visto. As nomeações em si não são o que mais me choca. O que choca é que estas demissões sejam, ao fim e ao cabo, óptimas para quem é demitido, que recebe assim a título de indemnização a totalidade dos salários até ao fim do contrato. É a lei que o diz. A lei que também autoriza os gestores públicos a estabelecerem os seus próprios salários...
A prioridade de um verdadeiro governo reformista, independentemente de fazer ou não nomeações (algo normalíssimo) deveria ser alterar estas leis, essas sim desastrosas para as finanças públicas. Sem essa alteração, mantendo-se a actual situação, não há política de austeridade - por muito necessária que seja - que convença.

Publicado por Filipe Moura às 09:49 AM | Comentários (5)

ESTÁ DE VOLTA

Dia após dia, Raul Vaz empenha-se em demonstrar por que é o sucessor de António Ribeiro Ferreira no cargo de director-adjunto do DN. Para usar uma expressão muito cara a este último, em termos de independência e isenção política este tem sido um cargo muito mal frequentado.
Sobre o editorial de quarta feira: independentemente das razões que lhe assistam sobre as nomeações do governo PS, Vaz não deveria esquecer-se de que o DN (ainda) faz - ou fez até muito recentemente, não estou agora certo - parte de um grupo controlado por uma empresa pública. Cujos gestores também são nomeados pelos governos. O grupo de que o DN faz parte - e particularmente o DN - teve recentemente na sua direcção membros saídos directamente de gabinetes de ministros, o que fez levantar suspeitas por toda a imprensa sobre influências do governo PSD/PP na orientação política do DN. Não é verdade, Raul Vaz?

Publicado por Filipe Moura às 09:45 AM | Comentários (6)

TODOS OS FOGOS, O FOGO

Quem é que nos condenou ao inferno?

Publicado por José Mário Silva às 08:48 AM | Comentários (0)

agosto 04, 2005

"NÃO HÁ MAIS NINGUÉM?"

Tinha razão o Jorge - e Pacheco Pereira: esta season não está nada silly. Recomendo, a este respeito, a leitura do último artigo de Vasco Pulido Valente no Público:

«Muita gente lamenta que a escolha para Belém esteja limitada a duas figuras, por assim dizer, "históricas" do regime. Soares já foi duas vezes primeiro-ministro (pouco tempo) e duas vezes Presidente, Cavaco já foi uma vez primeiro-ministro (uma eternidade) e uma vez candidato a Presidente. Soares tem 80 anos, Cavaco 65. Parece que depois deles falta uma geração inteira. Onde se meteu a gente dos 40 e 50 anos, que devia agora tomar conta do país, com força, com experiência e uma visão nova? (...)
O modelo português de um chefe de partido ou de governo omnipotente, que escolhe uma corte de fiéis subordinados, liquida ao seu arbítrio quem o incomoda e nem sequer responde perante um verdadeiro parlamento é fatalmente uma pequena mina de mediocridades.
Soares tinha e tem convicções. (...) Cavaco tinha e tem convicções. (...) Mas nenhum político se pode hoje permitir a extravagância da menor convicção. Para "subir", precisa de "apoiar" sempre o partido e aprovar sempre o chefe do partido. Publicamente, claro. Em privado, a mentira, a intriga e uma traiçãozinha ou outra são indispensáveis. Quem sobrevive, sobrevive assim: como no "estalinismo". Sucede infelizmente que a Presidência da República exige um homem, e um homem com carácter; exactamente o oposto de um produto publicitário, de um ministro serviçal ou de um maquiavel de saguão. E homens não há. Excepto os dois que há.»

Publicado por Filipe Moura às 09:04 PM | Comentários (3)

70 000

Segundo um recente relatório da Amnistia Internacional, os Estados Unidos mantêm 70 000 pessoas presas em diversos países do mundo, sem julgamento, sujeitas a torturas físicas e psicológicas, algumas acorrentadas, vendadas e sem direito a alimentos.
Ainda bem que os americanos é que são os bons da fita.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:48 PM | Comentários (10)

GRANDES ENIGMAS DO MUNDO: AS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS EM PORTUGAL

Avelino Ferreira Torres deixa a Câmara do Marco de Canavezes com processos judiciais de corrupção e enriquecimento ilícito em cima, um passivo de 45 milhões de euros, um estádio novo, uma avenida nova, meia dúzia de rotundas e somente 18% da população com acesso a saneamento básico e 24% a abastecimento de água.
É favorito nas eleições para Amarante.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:31 PM | Comentários (8)

A LER

Um artigo do Guardian que nos lembra que o terrorismo religioso internacional não é nada de profundamente novo, particularmente muçulmano ou especificamente multicultural. Pelos vistos, num tempo distante até Portugal já fez parte de um eixo do mal obscurantista e fanatizado.
Por dois ou três pormenores específicos suspeito que o autor do artigo andou a ler a Wikipedia.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:54 PM | Comentários (2)

VÍCIOS

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Earth Google


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Sudoku

Publicado por José Mário Silva às 01:57 PM | Comentários (5)

SERIOUS SILLY SEASON

Não sei se vale muito a pena recomendar um blog tão lido, mas gostava de chamar a atenção para este post do Abrupto. Apesar de ser um tanto vago e elíptico, acho que está sintonizado com os tempos. Por exemplo esta passagem:

Tudo isto nos devia fazer pensar que coisas muito sérias estão a acontecer em Portugal, em Agosto, no Verão, quando a classe média que pensa que nos governa (quem nos governa é uma classe mais alta, ela própria a sofrer uma usura e uma exposição que nunca previu) vai a banhos para o Algarve.

Inexplicavelmente, o post remeteu-me para esta notícia, onde um dos mais poderosos gestores portugueses parece estar convencido que Portugal é uma teocracia e ele o seu hierofante.
Ou para estes dois posts do Paulo Gorjão. Um onde se fala do novo director da CGD e este para um artigo antigo da defunta Capital.
E não queria deixar de lado esta interessante pergunta descoberta pelo Adufe:

Pergunto a mim mesmo se o aumento do IVA foi pensado para o défice ou para as obras de que certos grupos económicos desesperadamente necessitam.

Porque, não pretendendo fazer o papel de opositor partidário ou anti-desenvolvimentista, também me parece que se a ideia era continuar a alimentar os mesmos predadores, então mais valia deixar lá os anteriores que sempre tinham mais palhaçadas e santanetes.

Publicado por Jorge Palinhos às 01:18 PM | Comentários (1)

agosto 03, 2005

VERSOS QUE NOS SALVAM

No final do volume de ensaios sobre «autobiografia e imobilidade» em Al Berto («Me, Myself and I», Assírio & Alvim, Junho de 2005), Manuel de Freitas inclui, em jeito de conclusão, o seguinte poema:


Que importa? Os anos passam,
encostados ao sudário dos lamentos,
sem vagar nem nome próprio.
Amaste (e muito mal) esses corpos
que de noite voltas a não ter
no pânico inútil da memória.
Desertos, outros desertos, mais,
vão poluindo o mentido eco das canções.

Ergues-te. Ensinas a Lázaro
a gramática letal das passadeiras
e a melancolia de uma cidade sem futuro.
Já não há manhã. Um sol demasiado comum
persegue passos sem porquê, sorrisos
laborais, a criança de vidro amordaçada.
Arrumas os cinzeiros, o álcool da véspera,
a lâmina que quase repousou sobre
a veia mais azul. E é tudo.

Quase tudo. O silêncio
que alguém grita na fotografia,
sob o fedor acrílico de deus. «Eras novo
ainda.» Não voltarás a sê-lo. Foges,
continuas, parado como um cancro
— enquanto um copo te esconde
provisoriamente das sílabas do rosto.

Aprendes a morrer. É isso
(que louro canivete desenhou
a tua infância na parede?).
Dizem que não apanharás o último barco
para a «jaula de néon» onde te não esperam.

Sim, é demasiado tarde, eu sei.


Mais do que conclusão, diria eu. Um epitáfio.

Publicado por José Mário Silva às 12:27 PM | Comentários (16)

VERÃO

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Vincent Van Gogh, A Sesta (1890)

Publicado por José Mário Silva às 12:17 PM | Comentários (1)

CONTRATO COLECTIVO

As amizades deviam ser empresas. Assim, quando um amigo deixasse de nos falar, teríamos direito a uma indemnização.

Publicado por José Mário Silva às 12:12 PM | Comentários (2)

SILLY SEASON 1: AS CAPAS

Ah, a minha veia reaccionária de vez em quando dá sinal de vida para me dizer que o progresso também pode ter malefícios e fazer-nos perder coisas boas. Como é o caso das apoteóticas capas dos discos de vinil, que foram reduzidas à insignificância pelo compact disc e desapareceram completamente com o MP3.
Quando estes episódios reaças me ocorrem, tenho uma táctica infalível: ponho-me a recordar os malefícios dessas mesmas coisas boas. No caso, rever algumas das capas de álbuns mais atrozes alguma vez infligidas à humanidade.

Como esta, onde se mostram os efeitos nefastos de confundir o secador com a batedeira eléctrica.

Ou o comité escolhido para representar a humanidade em contactos com povos alienígenas.

Por muito que gostem do vosso animalzinho de estimação, por favor não o tentem usar no vosso lábio superior.

Um momento algo constrangedor do grande sucesso da SIC Mulher "Querido, mudei a decoração da casa".

Um exemplo de como a crise pode provocar uma síncope moral ao João César das Neves.

Agora com a participação especial do Voz do Deserto.

Uma antecipação do próximo filme de super-heróis a estrear em Portugal.

Se ainda não chegou, podem ver mais aqui.


Publicado por Jorge Palinhos às 12:03 PM | Comentários (6)

CREEPY

O primeiro spam que recebi no meu novo endereço de e-mail propõe os serviços de uma empresa sósia do funesto Cobrador do Fraque.

Publicado por José Mário Silva às 11:46 AM | Comentários (1)

FUTEBOLÊS

Diz José Peseiro, treinador do Sporting: «Ainda quero Wender». Ou seja, ainda quer comprar.

Publicado por José Mário Silva às 11:42 AM | Comentários (0)

agosto 02, 2005

É DO CALOR...

Eu sei que o Verão é a época das paixões passageiras, mas será que isso é razão para acabar com os respectivos blogs?
Já foi o excelente Quartzo e agora é o Jaquinzinhos.
O jcd tinha um blog demagógico, pouco sério, freneticamente liberal e cheio de histórias inverosímeis de heróicos gestores a lutar pela sobrevivência contra um Estado opressor. Era por isso uma barrigada de riso e um desafio constante.
Portanto, vê lá se voltas atrás, até porque não me parece que tenhas grande jeito para fazer um blog sobre os "poéticos olhos castanhos" dela.

Publicado por Jorge Palinhos às 03:05 PM | Comentários (8)

COMO SE FOSSE PRECISO

Hoje de manhã, a máquina de fotocópias do lugar onde trabalho queria dar-me «Instruções sobre Erros».

Publicado por José Mário Silva às 01:32 PM | Comentários (0)

EXCLUSIVO BDE/PENSABEM: O GUIA TURÍSTICO DO INFERNO

Como aqui no BdE deduzimos que os leitores que nos acompanham em Agosto só o fazem porque não podem ir de férias (e têm raiva de quem foi), apresentamos aqui, de forma completamente gratuita, um Guia Turístico do Inferno, para se poderem consolar pensando que há sítios muito piores para se estar. Palavra à nossa enviada especial, Santa Faustina:

«Hoje, conduzida por um Anjo, fui levada às profundezas do Inferno. É um cavernoso lugar de grandes suplícios ‑ e como é abissal a sua vastidão! Eis os diferentes tormentos que vi: o primeiro castigo que constitui o Inferno é a perca de Deus; o segundo, o perpétuo remorso de consciência; o terceiro, o de que essa condição nunca mudará; o quarto, é o fogo, que penetra a alma embora sem a destruir ‑ é um sofrimento terrível, um fogo puramente espiritual, aceso pela Ira de Deus; o quinto, é a contínua treva, um horrível cheiro sufocante ‑ e, embora haja escuridão, os demónios e as almas danadas vêem-se mutuamente e reconhecem todo o mal quer dos outros, quer seu; o sexto é a constante companhia de Satã; o sétimo, o tremendo desespero, ódio de Deus, maldições, pragas e blasfémias.»

Nota pessoal - Tendo eu já trabalhado num sítio parecido - sem janelas, com ar condicionado avariado, gritaria frequente e tendo por colega um adepto da IURD - compreendo porque é que uma pessoa faz sites como o Pensa Bem.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:47 AM | Comentários (6)

agosto 01, 2005

CONSELHO ÚTIL PARA ESTE VERÃO

Quando resolver problemas de Su Doku, utilize lápis e borracha.

Publicado por José Mário Silva às 09:16 PM | Comentários (1)

OTA

Reparei que no BdE tem havido um certo défice de debate sobre a grande questão do momento - a OTA e o TGV. Tenho de confessar que, pela minha parte, tal se deve a uma enorme falta de informação pertinente.
Mas há uma questão que, por ser cada vez mais recorrente, me intrigou: os terrenos. O Paulo Gorjão, dia sim dia sim, quer saber de quem são os terrenos do futuro aeroporto. Eu não sei se tal será um argumento válido ou um mero deslize para a demagogia. Afinal, os defensores da Ota há algum tempo que esgrimem a mesma pergunta contra o aeroporto em Rio Frio. Mas, sem outros meios disponíveis para ter informações mais fidedignas, atirei-me ao Google para tentar descobrir. Não demorou muito até encontrar um dossier do Diário Económico onde se afirma que a maior parte dos terrenos envolvidos no aeroporto da Ota pertencem às empresas Tiner/Renit, Turiprojecto e ESAF. Indo um pouco mais longe, concluí que a Tiner/Renit é um grupo empresarial de capitais brasileiros do imobiliário e construção civil, com ligações à aeronáutica e responsável pelos principais retail e outlet parks lusos.
A Turiprojecto é um aglomerado de empresas ligadas ao imobiliário, à engenharia e à construção civil, liderado por um tal José António Carmo, que incidentalmente é também membro da direcção da Associação Empresarial de Lisboa.
ESAF é, palpite meu, o acrónimo de Espírito Santo Activos Financeiros, uma holding de investimentos mobiliários e imobiliários do Grupo Banco Espírito Santo e, coincidência talvez, cliente do grupo Turiprojecto.
Isto foi o que descobri com uns minutos de pesquisa. Talvez alguém com mais conhecimentos dos meandros políticos e económicos que eu possa fornecer mais dados ou unir mais pontinhos.
Quanto à minha opinião sobre a Ota, ela continua pouco esclarecida, mas os posts que li que me pareceram mais informativos e equilibrados foram este e este.

Adenda: Repito que eu não estou suficientemente informado para tirar conclusões, afirmar ou insinuar nada. Só penso que se fosse ministro com uma nota de rodapé destas teria a precaução deixar tudo muito bem esclarecido. E, se fosse um grupo bancário que teve problemas com um governo recente, gostaria de garantir que era tudo muito clarinho como a proverbial água.

Publicado por Jorge Palinhos às 01:20 PM | Comentários (13)

DO PAPEL PARA A BLOGOSFERA

O Comércio do Porto resiste, à espera de voltar um dia às bancas.

Publicado por José Mário Silva às 10:31 AM | Comentários (8)

DESMINTAM-NO

Ninguém lê blogues em Agosto. [Pedro Mexia]

Publicado por José Mário Silva às 12:03 AM | Comentários (9)