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dezembro 31, 2004

CONTAGEM DECRESCENTE

59, 58, 57, 56, 55, 54, 53, 52, 51, 50, 49, 48, 47, 46, 45, 44, 43, 42, 41, 40, 39, 38, 37, 36, 35, 34, 33, 32, 31, 30, 29, 28, 27, 26, 25, 24, 23, 22, 21, 20, 19, 18, 17, 16, 15, 14, 13, 12, 11, 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1...

BOM 2005

[sou razoável: não peço excelente, peço bom; sabendo que melhor do que 2004 não vai ser difícil]

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (3)

MENSAGENS DE TELEMÓVEL E AUTO-REFERENCIALIDADE

Eu sou 1 frase k é 1 desejo sincero de bom 2005 pk tou a ser lida por ti.

Publicado por José Luís Peixoto às 08:25 PM | Comentários (1)

MAIS QUATRO HORITAS E PRONTO

Para simplificar o que é simples, sem tretas de "dar voltas ao texto" e pretensões de originalidade, este postito serve apenas para enviar um abraço e desejo de bom ano de 2005 aos meus colegas de blog (em especial à Margarida- a menina que sobe o Chiado, ao ZM-o rapaz que lê no Metro e à Alice, ao Filipe, ao Manel, ao Luis, ao Jorge ao Francisco e ao ZéLuís), aos blogs amigos e "inimigos" que gosto de ler (em especial o Afixe, Barnabé, PalavrasdaTribo, ACausaFoiModificada, Hardblog, CrónicasdaTerra e ao João Miranda com ou sem liberdade de expressão) aos comentadores habituais do pró e do contra ( Vitorino Ramos, cachucho, zecatelhado, thirdbacus, Real, Jorge (o "outro" Jorge), o Pedro Vieira, Viana, a minha amiga Ibidem e claro, o grande e inimitável Leonardo Ralha), e aos amigos "cá de fora" que lêem ocasionalmente o blog e me fazem em directo os seus comentários a começar na dupla formada por um certo empresário da construção civil e por um gestor de pêlo na venta e veia do pescoço latejante, até à famosa Mo Sparks, ocasional colaboradora na pesquisa de links.
Àqueles de quem não me lembrei neste bocadinho tirado à pressa, quando gritos ameaçadores vindos do outro lado da casa me colocam no dilema de voltar a partir nozes para não ter a minha cabeça partida, peço desculpa e envio-lhes os mesmos votos.

Publicado por tchernignobyl às 08:10 PM | Comentários (8)

PRIMAVERA/VERÃO 2005


O João Pedro da Costa, impecável como sempre, já fez a sua parte (muito obrigado, pá, a t-shirt ficou linda). Agora falta o resto: mandar o desenho para a fábrica e produzir em larga escala. Mas onde? Vale do Ave ou China? Avançamos agora ou esperamos pela liberalização mundial dos têxteis (já no próximo domingo)? Tenho dúvidas. Merchandising de esquerda soa-me sempre a oxímoro.

Publicado por José Mário Silva às 05:38 PM | Comentários (7)

dezembro 30, 2004

TOP DO ANO

Parece que esta altura é propícia a tops, melhores de, nãoseiquantos do ano, etc., dentro da lógica do balanço do ano antes que este dê "com os ossos na cova" (nas imorredoiras palavras de JCN). Estejam, porém, descansados, que não vos vou "chatear com as minhas piedades" (idem), porque tenho uma memória temporal péssima e não consigo distinguir os filmes que vi em 2004 dos que vi em 2003, não me lembro dos CDs que comprei a semana passada e nem consigo dizer com certeza que blogs li hoje.
E, para mais, como o Google já nos informa que o mais importante para a população cibernética mundial em 2004 foi a Britney Spears, o Orlando Bloom, a Britney Spears outra vez, os Simpsons, o wallpaper, o E-bay, a França, o David Beckham, o George W. Bush, a CNN, a SCO, o Nicholas Berg, a Ferrari, os Simpsons outra vez, a Britney Spears a passar das marcas, o Orlando Bloom, o iPod, o biquini, o Tablet PC, os chips de poker, o Louis Vuitton e a Ugg Boots, não vejo a necessidade de ainda mais listas.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:30 PM | Comentários (9)

HOMENAGENS

Pablo Neruda:

Mulheres chilenas despem-se em homenagem a Pablo Neruda

Graham Greene:

"As larvas reproduzem-se e um belo homem de faíscantes olhos azuis torna-se o antro de milhares de criaturinhas rastejantes e lascivas, que nos devoram a carne e lentamente nos transformam em geleia humana."
Passagem da biografia sobre o autor

Será muito arriscado pensar que toda a gente sensata acha o primeiro tipo de homenagem infinitamente preferível ao segundo?

Publicado por Jorge Palinhos às 02:25 PM | Comentários (2)

MANGAS CURTAS

No próximo verão, gostava de vestir uma t-shirt do BdE, desenhada pelo João Pedro da Costa.

Publicado por José Mário Silva às 12:22 PM | Comentários (3)

dezembro 29, 2004

E AINDA HÁ QUEM DUVIDE QUE A BD EDUCA!

Tira da autoria de Angeli, dedicada ao RAP:

Publicado por Filipe Moura às 09:07 PM | Comentários (3)

A NOSSA EVOLUÇÃO

Considerando os reality shows como espelho da realidade de um povo (infelizmente, creio que tal é verdade em muitos aspectos), o progresso do povo português com os governos da coligação de direita pode ser assim sumarizado: passou-se do José Maria para o José Castelo Branco.

Publicado por Filipe Moura às 07:07 PM | Comentários (10)

AUXÍLIO ÀS VÍTIMAS DO SISMO

AMI
UNICEF
Médicos Sem Fronteiras
Cruz Vermelha
Amazon
Outros listados pela CNN

Publicado por Jorge Palinhos às 06:31 PM | Comentários (5)

ESTE TIPO É BRILHANTE! BRILHANTE! BRILHANTE!

(Via Gato)

Conto de Natal

João César das Neves
Professor universitário

A Maria assim que chegou, antes mesmo de tirar a mochila, disse «Estive a pensar e descobri uma coisa: vocês ficam muito melhor se eu tiver razão do que se a vossa opinião for a verdadeira.»

Sentados à mesa, os três amigos olharam-na com espanto, enquanto ela puxava uma cadeira e tirava o cachecol a sorrir.

Estes quatro universitários costumavam juntar-se todas as tardes para estudar na cantina da faculdade. Bons amigos, tinham posições religiosas muito diferentes e por isso o tema acabava por ocupar as conversas.

Perante os olhares interrogativos, Maria explicou. «Descobri hoje de manhã, no duche, que os infiéis, mesmo sendo infiéis, são muito mais felizes no reino de Cristo do que julgam vir a ser nas suas crenças.»

Os três continuaram calados e ela prosseguiu «Olha, Fernando, tu, como dizes que não crês em nada, nem em Deus nem na vida eterna, não tens de te espantar com a minha afirmação. Não é difícil ter uma sorte melhor do que a que nos destinas, uma cova e o nada. Tu, Cláudia, acreditas que vamos todos regressar pela transmigração e reencarnação, até chegarmos, talvez, ao Nirvana, que é também o nada. Quanto a ti, Ibrahim, és o que mais se aproxima de mim, acreditando num paraíso de delícias corporais no seio de Alá, mas...»

O Fernando interrompeu-a dizendo. «Pois, mas se tu tens razão e o teu Jesus é mesmo Deus, então nós, como ímpios, vamos todos dar com os ossos no Inferno. E isso é muito pior até do que a minha cova.»

«Não, Fernando», respondeu ela. «Se os cristãos têm razão, tu és recebido pelo Deus amoroso, Aquele que te ama a ti mais que tu mesmo. Até se fez homem, viveu aqui 33 anos, só para te salvar pessoalmente. Esse Deus, depois disto tudo, não te quer castigar, mas que vivas com Ele para sempre. Ele aproveitará todo o amor de que tu foste capaz, para assim conseguir que entres no reino do Amor.»

O Ibrahim disse com desconfiança. «Estás a dizer que não há o Inferno, que não há castigo para os maus. Deus, o Clemente, o Misericordioso, é também justo e retribui a cada um segundo as suas obras.»

Maria respondeu. «É verdade. Mas Deus é amor e quer sempre só o nosso bem. Até nos castigos. Quer isso até ao extremo da Sua eterna bondade. O nosso mal é que nos afasta d'Ele. Cristo quer só que todos vamos para o Céu, que é viver na contemplação da Sua bondade sem passagem de tempo. Mas não nos força ao Céu. O Inferno está ocupado por aqueles que lá querem estar, que rejeitam tanto o Bem e o Amor que o recusam de forma definitiva e total. Isto é horrível, mas acontece.»

«Mas se é assim», disse a Cláudia, «porque é que tu nos chateias com essas piedades? Como eu não quero o Inferno, quando morrer Deus me salvará!»

«Porque isto é verdade, não apenas depois da morte, mas já agora. Viver acreditando em Jesus é sentir, já aqui, um bocadinho do Céu. É tão triste passar os dias acreditando apenas num cinismo seco, em fantasias tolas ou seguindo códigos duros. Essas coisas podem levar ao desespero, egoísmo ou orgulho, três das portas do Inferno. Viver as alegrias e dificuldades da vida sob o olhar amoroso de Deus é já o início do Céu. É este o espírito do Natal, a salvação do Menino que sorri na miséria do Presépio.»

«E se a gente se deixasse de conversas e se agarrasse à Matemática?» disse o Ibrahim. «Os testes são logo a seguir ao Ano Novo e, se não marrarmos agora, não há espírito de Natal que nos salve.»

P.S. - Vejam isto como uma homenagem ao primeiro ensaio da Susan Sontag.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:41 PM | Comentários (6)

DEPOIS DA GRANDE VAGA

Informações sobre o tsunami e as suas consequências, aqui.

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (5)

FORMAS POÉTICAS

Já tínhamos os sonetos, as odes, as éclogas. Um dia teremos, em pequenos volumes de encadernação simples e distribuição restrita, os alexandrinos anúncios de gato perdido.

Publicado por José Mário Silva às 12:03 PM | Comentários (2)

DE NOVO O PLÁGIO MADE IN "SEMIRAMIS"

O povo tem razão. É mesmo mais fácil apanhar uma mentirosa do que um coxo. Quando acusei a autora do blogue "Semiramis" de plágio, logo ela me chamou caluniador, afirmando que apenas se tinha socorrido de calhamaços de bons historiadores, nunca de materiais duvidosos como os que se encontram na net (esses ficariam reservados para ignorantes como eu, um mero "invejoso primata"). E fez-se de vítima – acolitada por um grupo de fiéis - negando a evidência de ter copiado literalmente pelo menos oito passagens dos dois sites que apontei então. Literalmente: palavra por palavra. Mas não: ela tinha mesmo escrito aquilo tudo "num fim de semana", "tão rapidamente", e eu é que estava a inventar "estultices" quando se tratava apenas de um caso de legítima reprodução de fontes medievais (!).
A menina Joana devia ter ficado caladinha. É que me conseguiu irritar com a sua pesporrência. Assim, dei-me ao trabalho de investigar outro "Tomo" da sua "Obra sobre o Código da Vinci", como ela chama às suas cópias de colegial cábula. E não foi difícil apanhá-la de novo com a boca na feia botija do plágio.
A aldrabice começa logo nos prolegómenos do post "Descodificando o Código da Vinci 2". Desta vez, a vítima foi encontrada cá em Portugal; sempre se poupou o trabalho da tradução... No ano passado, o matemático António Machiavelo proferiu uma palestra, intitulada "O Número de Ouro: Factos e Mitos". Esta está assim resumida no site da Faculdade de Ciências do Porto:
"O número de ouro também chamado Divina Proporção desde que Fra Luca Paccioli, sob a influência de Piero de La Francesca, escreve um livro de treze capítulos só sobre este número com desenhos de Leonardo da Vinci (o primeiro a utilizar a expressão sectia aurea), é talvez, de todos os números, o mais famoso e ubíquo."
Agora, eis a versão da Joana: "O número de ouro também chamado Divina Proporção desde que Fra Luca Paccioli, sob a influência de Piero de La Francesca, escreveu um livro sobre este número com desenhos de Leonardo da Vinci (o primeiro a utilizar a expressão sectia aurea), é talvez, de todos os números, o mais famoso e ubíquo."
Chama-se a isto fidelidade canina ao original, ou, em bom Português, uma lata monumental. Julgaria a "autora" que ninguém a apanharia?
Adiante. Uma vez que a palestra assim apresentada não está online, impunha-se procurar outras "fontes". Onde foi a Joana desaguar? No site da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde encontrou um interessante trabalho escolar, da autoria de três alunas da licenciatura de Ensino de Matemática, que se veio a revelar bastante útil. Vejamos como:
"Se desenharmos um rectângulo cuja razão entre os comprimentos dos lados maior e menor é igual ao número de ouro obtemos um rectângulo de ouro. O rectângulo de ouro é um objecto matemático que marca forte presença no domínio das artes, nomeadamente na arquitectura, na pintura, e até na publicidade. Este facto não é uma simples coincidência já que muitos testes psicológicos demonstraram que o rectângulo de ouro é de todos os rectângulos o mais agradável à vista."
Aqui fica a inovadora e original versão da Joana:
"Portanto, se desenharmos um rectângulo cuja razão, entre os comprimentos dos lados maior e menor, é igual ao número de ouro, obtemos um rectângulo de ouro. O rectângulo de ouro é uma entidade matemática que marca forte presença no domínio das artes, nomeadamente na arquitectura, na pintura, e até na publicidade. Este facto não é uma simples coincidência já que muitos testes psicológicos demonstraram que o rectângulo de ouro é de todos os rectângulos o mais agradável à vista."
Sempre sem aspas ou qualquer menção ao facto de se tratarem de citações de trabalho alheio. Mas querem mais, muito mais?

Faculdade de Ciências:
"Ou seja, dado um segmento de recta AB, um ponto C divide este segmento de uma forma mais harmoniosa se existir a proporção de ouro AB/CB = CB/AC (sendo CB o segmento maior). O número de ouro é exactamente o valor da razão AB/CB, a chamada razão de ouro."
Joana:
"Ou seja, dado um segmento de recta AB, um ponto C divide este segmento de uma forma mais harmoniosa se existir a proporção de ouro AB/CB = CB/AC (sendo CB o segmento maior). O número de ouro é exactamente o valor da razão AB/CB, a chamada razão de ouro."

Faculdade de Ciências:
"A divisão de um segmento feita segundo essa proporção denomina-se divisão áurea, a que Euclides chamou divisão em média e extrema razão, também conhecida por secção divina pelo matemático Luca Pacioli ou secção áurea segundo Leonardo da Vinci."
Joana:
"A divisão de um segmento de recta feita segundo essa proporção, denomina-se divisão áurea, a que Euclides chamou divisão em média e extrema razão, também conhecida por secção divina ou secção áurea, segundo Leonardo da Vinci, como escrevi acima." ("como escrevi acima"... Há que lhe fazer justiça: esta plagiadora dispõe de um fino sentido da ironia!)

Faculdade de Ciências:
"Até hoje não se conseguiu descobrir a razão de ser dessa beleza, mas a verdade é que existem inúmeros exemplos onde o rectângulo de ouro aparece. Até mesmo nas situações mais práticas do nosso quotidiano, encontramos aproximações do rectângulo de ouro, é por exemplo o caso dos cartões de crédito, bilhetes de identidade, o novo modelo da carta de condução, assim como a forma rectangular da maior parte dos nossos livros."
Joana:
"Até hoje não se conseguiu descobrir a razão de ser dessa beleza, mas a verdade é que existem inúmeros exemplos onde o rectângulo de ouro aparece. Até mesmo nas situações mais práticas do nosso quotidiano, encontramos aproximações do rectângulo de ouro, é por exemplo o caso dos cartões de crédito e outros documentos do género, assim como a forma rectangular de muitos dos nossos livros". (Aqui, ainda se deu ao luxo de alterar umas palavritas.)

Julgo que isto basta para dar um bom retrato da "erudição" da criatura: ela atribui escassa credibilidade a coisas que o povo ignaro lê na net, mas limita-se exercícios de corta & cola de material online quando quer impressionar o palonço com a sua vasta "cultura".
No texto que ela apresentou como seu ainda surgiam algumas referências a Le Corbusier e ao seu Modulor. Estou certo que, com um pouco de trabalho, acabaria por dar com os respectivos originais. Mas não é preciso, pois não?
Como se irá ela agora desculpar? Com "fontes" medievais? Com efeitos alucinatórios do best-seller de Dan Brown? A ver vamos. Certo é que a lata desta senhora parece não conhecer limites. Irra!

Publicado por Luis Rainha às 01:42 AM | Comentários (44)

dezembro 28, 2004

QUEM PRECISA DA REALIDADE?

Recordo-me bem do espanto com que vi, pela primeira vez, um jogo electrónico. Era um ingénuo simulacro de ténis de mesa: dois traços luminosos, um ponto quadrado a fazer de bola, números mais que rústicos a afixar o avanço do marcador. Foi há 24 anos.
Hoje, passei longos minutos imerso no mundo de "Jak 3", um viciante jogo para a PlayStation. "Jogo" talvez seja minimizar a coisa. Aquilo é mais um desenho animado em que controlamos duas personagens irrequietas, balizadas apenas por umas vagas missões que têm de cumprir. A liberdade de movimentos de que desfrutam no seu mundo hiper-colorido é quase ilimitada. E já vi animação de autor com muito menos apuro formal. Comandar aquela narrativa é um entretém hipnótico, quase alienante.
Depois, o meu filho apresentou-me o "Burnout 2". Uma escola de delinquentes automobilizados, em que se ganha pontos por causar vistosas colisões. Mas, acima de tudo, trata-se de uma simulação do mundo real assustadoramente eficaz: os cenários, os reflexos, a cinética dos bólides desvairados... tudo está a um curto passo de um realismo convincente.
Será que, daqui a 24 anos, teremos "jogos" que combinem, sem costuras à mostra, estes dois vectores, a ilusão de liberdade e a ilusão de verdade? Será que poderemos a qualquer momento emigrar para longe das nossas vidas unidimensionais e tão aborrecidas, mergulhando em fantasias verosímeis, imaculadas, irresistíveis? Convivendo com personagens digitais muito mais interessantes do que as prosaicas criaturas de carne e pele que nos rodeiam. Tudo sem limites, moral, leis ou peias de qualquer ordem.
Nessa altura, alguém quererá saber do mundo "real" para alguma coisa? E haverá mesmo alguma distinção importante entre realidade e ilusão?

Publicado por Luis Rainha às 11:55 PM | Comentários (7)

SUSAN SONTAG (1933-2004)

Ao princípio da tarde (hora de Lisboa) morreu Susan Sontag, 71 anos, uma das vozes mais lúcidas da intelectualidade americana. A certidão de óbito fala em leucemia. Mas também podia dizer: «excesso de ver o mundo tal como ele é».

Publicado por José Mário Silva às 07:38 PM | Comentários (3)

O HOMEM DAS CATACUMBAS

Desculpem a insistência, mas tenho que repetir um apelo que já fiz há alguns dias. Blogonautas do meu país: ponham os olhos no que se está passar nos subterrâneos deste blogue. Pela calada, quase sem se dar por isso, há um debate histórico em curso. Um verdadeiro festim de ideias, altas teorizações e controvérsia. Exemplo perfeito daquilo a que os anglo-saxónicos chamam «food for the mind».
Para os mais distraídos, aqui fica um sumário da coisa:

- Tudo começou no dia 19 de Dezembro, às 20:06, quando o Manel (regressado de um longo silêncio) assinou um pequeno post sobre a anunciada apresentação da «Carmina Burana», de Carl Orff, no Pavilhão Atlântico: «O triunfo da amnésia».

- De então para cá, os comentários sucederam-se a um ritmo alucinante. No momento em que escrevo, são 62.

- O post original tinha pouco mais de 1.500 caracteres. A discussão subsequente já vai em 60.000 (metade dos quais da lavra do Manel, que deve ter escrito mais nesta caixa de comentários do que em todos os posts que publicou até hoje).

- Nomes dos principais intervenientes na polémica: Fernando Venâncio, João Pedro Costa, Zangalamanga, Bernardo Motta, JotaVê e Valupi (nos últimos dias).

- Nível da discussão: altíssimo.

- Pergunta inocente: em que outro lugar (fora da blogosfera) poderíamos assistir a uma troca de argumentos intelectuais tão livre?

- Conclusão provisória: são fenómenos como este — autónomos, imprevisíveis, auto-organizados e fora do nosso controlo — que dão sentido a esta aventura espantosamente gratificante (falo por mim) que é o BdE.

- E agora espreitem o link, que o Manel pode já ter escrito mais uma das suas quilométricas respostas. Ide, ide; e deleitai-vos.

Publicado por José Mário Silva às 06:54 PM | Comentários (7)

APROXIMAI-VOS, GENTE, QUE VAMOS TER UMA DISCUSSÃO TEOLÓGICA

Lamento muito, Luís, mas este teu post falha totalmente o alvo.
Para já, a argumentação que usas é extraordinariamente superficial: seria como se me pusesse agora a dizer: "Olhem, vou provar que Deus não existe. Se ele existir que me fulmine agora com um raio... Vêem, vêem, estou vivinho da silva, logo Deus não existe!"

Primeiro, porque qualquer cristão de meia tijela seria capaz de arranjar uma dúzia de razões bacocas para te contrariar. Alguns exemplos sacados do bolso da camisa:

- Deus queria punir o crescente materialismo do mundo;
- Na zona afectada predominam muçulmanos e hindus, logo, porque haveria Deus de poupar os incréus?
- É um sinal que o armagedão está próximo;
- Deus está a pôr à prova a nossa capacidade para a solidariedade;
- A omnisciência de Deus fá-lo ver coisas que nos escapam;
- Etc.

Segundo, acho que te escapa a natureza das religiões. A religião é a ciência do paradoxo. Não assenta na lógica, mas sim no irracional, no que não pode ser compreendido racionalmente. Repara que todas as religiões assentam nas contradições insolúveis, como a vida e a morte, o natural e o sobrenatural, o banal e o misterioso, o divino e o humano. Todos os elementos marcadamente religiosos têm subjacente um paradoxo: os milagres são paradoxos da realidade, o cristianismo assenta no paradoxo de um deus humano de omnipotência impotente, o judaísmo é a religião do povo eleito vítima de todas as desgraças, o islamismo uma manifestação da mais activa submissão e belicosa paz, dos guerreiros mártires e das guerras humanitárias e da divindade que infecta todo o quotidiano mas não pode ser representada. (Sou demasiado ignorante quanto às religiões não-mediterrânicas para me pronunciar.) Repara que até a credibilidade dos evangelhos é justificada pelo facto de se contradizerem enormemente.

Por isso, para um crente, mais rapidamente um sismo no dia a seguir a uma celebração religiosa é prova da existência da sua divindade que o contrário.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:37 PM | Comentários (18)

O QUE ELE QUER SABEMOS NÓS


Cartoon de Stephane Peray

Publicado por José Mário Silva às 04:32 PM | Comentários (0)

COISAS QUE SE APRENDEM NO NATAL (V)

Nos últimos dias as revistas noticiosas falavam de pessoas que tentam combater o consumismo natalício não dando presentes. Parvos. A forma mais cómoda, prática e brutal de denunciar o espírito da época é oferecendo cheques bancários. E pedir recibo para meter no IRS.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:30 PM | Comentários (2)

COISAS QUE SE APRENDEM NO NATAL (IV)

O desejo secreto da maioria da população portuguesa é ser delegado comercial de uma grande superfície. Só assim se explica que tanta gente perca horas à espera que alguém lhe embrulhe os presentes com papel decorado com o logotipo da grande superfície. Desse modo só podem esperar secretamente que o destinatário da oferta mais tarde se lembre que a bugiganga foi comprada na FNAC/Worten/Sporzone, etc., mas não faça a mínima ideia de quem a ofereceu.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:26 PM | Comentários (3)

FOTO DO DIA

A mesma imagem, diferentes enquadramentos:



De primeira página em primeira página, um zoom que tende para o fulcro do sofrimento, o punctum do horror: a mão do filho morto que o pai já não pode resgatar.

Publicado por José Mário Silva às 01:20 PM | Comentários (11)

COISAS QUE SE APRENDEM NO NATAL (III)

Só se queixa da legendagem dos filmes quem nunca teve de ler a versão "portuguesa" do manual de instruções de um brinquedo espanhol.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:16 AM | Comentários (0)

COISAS QUE SE APRENDEM NO NATAL (II)

A chatice de dar prendas a conservadores genuínos e encartados:

"Ah, obrigado. Mas não era preciso. Até porque já tenho uma coisa destas há 34 anos. Sim, não tem estas vinte funcionalidades, design moderno, qualidade melhorada e maior versatilidade, mas isso também não me parece assim tão importante. O essencial é que o antigo funcione. E se não funcionar pode sempre mandar-se consertar. Ah, mas obrigado na mesma, gostei muito..." (coloca cuidadosamente o aparelho na caixa para ser arrumado a um canto da garagem.)

Publicado por Jorge Palinhos às 11:09 AM | Comentários (3)

COISAS QUE SE APRENDEM NO NATAL (I)

"O Mafarrico é mau. Uma vez tentou roubar o carro do Noddy, que só conseguiu ficar com ele outra vez com a ajuda do Guarda Apito."

Nada disso, o Mafarrico pretendia apenas implementar um programa de redistribuição mais justa do capital, colectivizando o veículo motorizado (injustamente herdado pelo Noddy e livre de impostos) a fim que pudesse ser cumprido o protocolo de Kyoto.

Mas toda a gente sabe que a literatura infantil está povoada de fachos.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:17 AM | Comentários (0)

FOUND IN TRANSLATION

Na porta da carrinha branca, o logótipo de uma conhecida casa de diversão nocturna lisboeta (fica ali para os lados do Jardim Constantino). Por baixo do logótipo, a letras negras, uma espécie de definição do ramo empresarial. Primeiro na nossa língua: «Emoções na Cidade». Depois, em "tradução" directa para o inglês: «Lisbon Strip Club». Assim mesmo. Muito lusitano, este falso pudor, esta vergonha envergonhada.

Publicado por José Mário Silva às 10:11 AM | Comentários (2)

E A RONDA PELAS TASQUINHAS, QUANDO É?

O PSD quer fazer campanha em moldes menos tradicionais e está a estudar a forma de introduzir algumas novidades, que podem passar por deslocações a aldeias ou locais recônditos para passar a ideia que é preciso ir colher votos a todo o lado.

Outra iniciativa que pode estar em preparação e que também já foi sugerida pelo próprio Santana é a pernoita numa república de Coimbra.


Publicado por Jorge Palinhos às 10:02 AM | Comentários (4)

SURPRESA

Isto, para um blog canhoto, até escreve sobre o Natal que se farta (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7)!

Publicado por Jorge Palinhos às 09:40 AM | Comentários (1)

dezembro 27, 2004

O MEU NATAL COMUNISTA


Desde que vivo com uma militante comunista, tudo mudou na minha vida. Em nossa casa, respira-se ideologia, come-se dialéctica, bebe-se dedicação à Causa. Mas não é por isso que deixamos de ter Natal. Apenas recusamos a celebração consumista e burguesa que só serve para encher o bolso ao explorador Belmiro. Sim: o nosso Natal é ideologicamente puro e decididamente Socialista!
Começando pelo presépio. Rodeado por um carpinteiro de ar humilde (símbolo, é bom de ver, das heróicas virtudes do Proletariado) e por uma robusta e azougada camponesa (representando a gloriosa Revolução que todos adivinhamos para breve) está o menino camarada Jesus, de punho direito bem erguido (a bem da verdade, tinha um dedo esticado até ao dia em que caiu da prateleira). Ao lado, lá estão dois animais de ar estúpido: as bestas do capitalismo e do imperialismo. À porta da caverna de musgo artificial, três homens sábios a camelo. Os bonecos são um bocadito mal-acabadões, mas as suas fisionomias dignas e corajosas não enganam: trata-se dos camaradas Engels, Marx e Lenine (este com um belo bronzeado). Só ainda não percebi uma coisa: que prendas trarão eles? Ouro, incenso e mirra não será por certo; para que quereria um recém-nascido essa tralha burguesa?
Mesmo ao lado, brilha gloriosa a nossa árvore de Natal. A minha companheira e os miúdos decoraram-na sozinhos: recortando fotografias do jornal, fizeram uns bonecos com as caras do Santana, do Bagão, do Portas e do meu patrão. Depois, penduraram-nos a todos pelos pescoços. Mas eu também contribuí: comprei 3 conjuntos de luzinhas e juntei todas as lâmpadas vermelhas numa só fiada. Nem nos tempos áureos da saudosa União Soviética houve Natal mais Vermelho. Ficou linda de morrer, a nossa árvore!
Claro está que, aqui em casa, as crianças também têm direito a listas com pedidos de prendas. Mas elas renegam o materialismo interesseiro desta sociedade caduca e assumem uma pureza ideológica total - e um altruísmo de louvar; sempre que leio os seus pedidos ingénuos, quase me vêm as lágrimas aos olhos. Então, que pediram este ano os nossos pequenos Pioneiros? Simples sonhos de crianças politicamente activas: o Socialismo, a Paz no Mundo, o impeachment de George Bush.
Os presentes chegam a nossa casa através dos bons ofícios do Pequeno Ancião Vermelho; um velhinho barbudo, alquebrado por anos e anos de exploração, que se desloca num veículo ecológico, a reboque de um colectivo de renas. Mas, como seria de esperar de uma sociedade imperfeita (e do bafo a rum do velhote), o que recebemos nunca é bem aquilo que pedimos. Por exemplo, eu, que queria tanto um significativo reforço de votação da CDU, acabei por receber um conjunto de fondue de loja dos 300. Enfim, melhores dias virão: todos sabem que a chegada do Socialismo é inevitável. Até lá, só vos digo uma coisa: viva o Natal, camaradas!

Publicado por Luis Rainha às 05:11 PM | Comentários (29)

24.837 MORTOS

É o último balanço da tragédia de ontem: 12.029 mortos no Sri Lanka; 6.800 na Índia; 4.725 na Indonésia; 1.157 na Tailândia; 51 na Malásia; 43 nas Maldivas; 30 na Birmânia; 2 no Bangladesh. E isto são estimativas provisórias. Os números finais prometem ser muito piores. Terrível, terrível, terrível, esta contagem crescente.

Publicado por José Mário Silva às 01:19 PM | Comentários (5)

A VANTAGEM CULTURAL (III)

A vantagem anterior aplica-se também a Lisboa em relação a Nova Iorque. Em relação a Paris é que eu ainda não consegui decidir qual é a grande vantagem cultural de Lisboa. Talvez seja o bolo-rei, mas isso é sazonal. Aceitam-se sugestões.

Publicado por Filipe Moura às 10:47 AM | Comentários (8)

A VANTAGEM CULTURAL (II)

A grande vantagem cultural de Paris relativamente a Nova Iorque é que se encontram maçãs reinetas no supermercado.

Publicado por Filipe Moura às 10:45 AM | Comentários (4)

dezembro 26, 2004

DEUS ESCREVE DIREITO?

Pelo segundo ano consecutivo, a comemoração da vinda ao mundo do filho do nosso Deus é seguida por um sismo apocalíptico. Mais uma vez, milhares e milhares de homens, mulheres e crianças morrem a 26 de Dezembro, por razão nenhuma; tiveram simplesmente o azar de viver no local errado, na pior das alturas.
Para um ateu, esta ironia é apenas mais um reflexo da ausência de qualquer espécie de desígnio nos destinos humanos, mais um acaso cego da natureza que nos devolve ao nosso lugar de coisas arrogantes mas minúsculas e tão frágeis.
Para quem acredita numa divindade carregada de bondade, omnipotência e outros predicados intangíveis, aqui está mais um belo quebra-cabeças: onde caberá a noção de justiça divina na imagem insuportável – e que não larga os nossos televisores – do pai que atravessa uma rua inundada carregando o corpo rígido do seu filho? Uma criança que ainda ontem brincava, indiferente ao nascimento de um Jesus de que nunca ouviu falar, acordou hoje para ser engolida por um oceano tresloucado. O que poderão conter estas "linhas tortas", para lá de "a tale, told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing"?

Publicado por Luis Rainha às 11:56 PM | Comentários (27)

IDEOLOGIA «CARAS»

«Na política também pode haver Natal, (...) a política também pode ser bonita.» — Pedro Santana Lopes (na sua primeira e única mensagem natalícia enquanto primeiro-ministro, junto à lareira acesa)

Publicado por José Mário Silva às 06:49 PM | Comentários (1)

É POR ISSO QUE VOLTÁMOS A "INVENTAR" RECEITAS EXTRAORDINÁRIAS PARA MANTER O DÉFICE ABAIXO DOS 3%

«Os problemas do país não se resolvem com um passe de mágica» — Pedro Santana Lopes (na sua primeira e única mensagem natalícia enquanto primeiro-ministro, junto à lareira acesa)

Publicado por José Mário Silva às 06:48 PM | Comentários (1)

E ENTÃO PEDRO, APÓS UM MOMENTO DE INTROSPECÇÃO, VIROU-SE PARA JORGE

«O Natal deve ser, sobretudo, um momento em que nos viremos para dentro de nós próprios e para aqueles que, porventura, pior nos tenham feito.» — Pedro Santana Lopes (na sua primeira e única mensagem natalícia enquanto primeiro-ministro, junto à lareira acesa)

Publicado por José Mário Silva às 06:47 PM | Comentários (2)

A POLÍTICA EM VERSÃO INEM

Depois da célebre metáfora da incubadora e das não menos ridículas "cicatrizes de facadas nas costas", Santana Lopes voltou às imagens clínicas. Num jantar partidário, comparou o governo a uma ambulância que levaria o país lá dentro e sobre a qual a oposição dispara sem clemência. Depois da obsessão com o défice, estaremos diante da obsessão com o Serviço Nacional de Saúde?

Publicado por José Mário Silva às 06:40 PM | Comentários (1)

BODO AOS POBRES

Num acto de generosidade sem precendentes, Pedro Santana Lopes anunciou quinta-feira uma plataforma pré-eleitoral com o Partido Popular Monárquico (PPM) e o Movimento Partido da Terra (MPT). Cada um destes micro-partidos terá dois nomes nas listas às próximas legislativas do PSD, com estatuto de independentes e em lugar elegível. Com iniciativas destas, o primeiro-ministro demissionário nem precisa de se vestir de Pai Natal. Os «pobrezinhos» do centro-direita agradecem (as bases laranja é que talvez não).

Publicado por José Mário Silva às 06:35 PM | Comentários (4)

dezembro 25, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

De Carlos Drummond de Andrade, deixo-vos este poema sobre uma divertida inversão do espírito de Natal, publicado no primeiro livro do escritor brasileiro («Alguma Poesia», Editora Pindorama, 1930):

PAPAI NOEL ÀS AVESSAS

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente da república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Publicado por José Mário Silva às 02:33 PM | Comentários (3)

MENSAGENS DE NATAL

Como muitos de vós, tenho o telemóvel atulhado de simpáticas mensagens natalícias. Umas em prosa, algumas em poesia, com bonecos, letras de cantorias mais ou menos espirituais, sei lá.
Estranho é que não consigo reconhecer, por mais que tente, os números de onde provém meia-dúzia delas. Terei amigos que não conheço?
Ou será este um programa caritativo das operadoras de telecomunicações, para alegrar o Natal dos seus clientes? Assim, mesmo a alma mais solitária deste mundo receberia algumas mensagens de boas-festas. E ficaria confortado com a ideia de que ainda lhe restariam alguns amigos. Sei que não é verdade. Mas seria bonito, não?

Publicado por Luis Rainha às 01:30 PM | Comentários (11)

dezembro 24, 2004

COMO O GOVERNO ME AJUDOU A TER UM BELO BOLO-REI NESTE NATAL

Há escassas horas, tive ocasião de ver que um dos grandes mitos do Natal português ainda se mantém forte, contra ventos e marés, contra todas as evidências da realidade. Não, não é a crença que o Benfica ainda vai ser campeão. Trata-se da Fé ilimitada que centenas de pessoas ainda colocam nos bolos-rei da pastelaria Garrett, no Estoril. Estavam lá todos, aos magotes, numa bicha imóvel e quilométrica, desperdiçando horas... para levarem consigo um pedaço de massa desenxabida que é um pálido vestígio da glória passada da famosa casa. Indiferente a isto, lá tiritava de frio a turba esfomeada, centenas de sapatinhos de vela passeio acima como uma centopeia de marca, uma pacífica manada de tios e tias, perfilados em boa ordem, indiferentes às expressões intrigadas dos automobilistas.
Eu, bem informado como sempre, fui buscar a minha encomenda natalícia a um estabelecimento da mesma rua, onde o bolo-rei é confeccionado por um pasteleiro que emigrou da Garrett. Ou seja, ali a guloseima é bem superior à sua celebrada mas decadente vizinha, tendo um preço bastante mais em conta.
Eis que, quando me aprestava a sair, entra no estabelecimento o sorridente professor Marcelo, também em busca da sua encomenda. Após a recolher, despede-se de todos com um sonoro "Feliz Natal" e corre rua fora com o seu trote feliz de gnomo que acabou de fazer mais uma maldadezita.
Quer isto dizer que o homem, depois de ter aproveitado o último programa de 2003 na TVI para propagandear a Garrett, também já descobriu onde mora hoje o grande bolo-rei do distrito.
Ainda bem que correram com ele da TV. Senão, lá teria o homem aproveitado o seu tempo de antena para gabar as delícias da pastelaria do Marias Café. E lá teria estado a maldita bicha umas portas acima, a dificultar-me a vidinha.

Pronto. Foi a minha história de Natal para este ano. Não é bem Dickens, mas é o que se arranja. Como diz o meu – agora – conhecido, o professor Marcelo, Feliz Natal a todas as pobres almas que por aqui apareçam! Até amanhã!

Publicado por Luis Rainha às 06:56 PM | Comentários (8)

A VANTAGEM CULTURAL

I don't want to live in a city where the only cultural advantage is that you can make a right turn on a red light. A vantagem cultural de Los Angeles relativamente a Nova Iorque.

Que rica prenda o Canal Hollywood nos deixou no sapatinho (hoje às 21:00)! Não deixa de ser irónico - o menos hollywoodesco dos cineastas (e se calhar dos filmes) americanos afinal dá no Canal Hollywood e não na RTP2 como previsto.

Publicado por Filipe Moura às 05:39 PM | Comentários (3)

CONTRA O VELHO DAS BARBAS QUE DESCE PELAS CHAMINÉS

«Não gosto do Pai Natal. Quando era miúda ele entrava nos meus pesadelos e raptava os meus pais. Nunca lhe perdoei a vilania.» (cf. o resto num belíssimo novo blogue de inspiração beckettiana, onde os heróis têm todos o rosto de Robert Walser)

Publicado por José Mário Silva às 04:25 PM | Comentários (3)

SIMPLES MAS SINCERO

...o meu voto de Feliz Natal a quem o quiser aceitar.

Publicado por Filipe Moura às 09:10 AM | Comentários (6)

FAST FOOD (2)

Na FNAC, alguém acabara de pedir ajuda a um funcionário na escolha de um livro. Resposta pronta do solícito rapaz: "Olhe, aquele ali – sim, esse mesmo – é estilo ‘Código da Vinci’. Tem saído muito bem."
Parece-me critério válido. Quanto mais depressa a Literatura "sair", melhor deve "entrar". Digo eu.

Publicado por Luis Rainha às 12:20 AM | Comentários (5)

dezembro 23, 2004

FAST FOOD (1)

Há bem pouco, ouvi no noticiário da RFI um senhor de um Observatoire qualquer apresentar um relatório fascinante sobre o comportamento dos franceses face à Informação. Que eles usam cada vez mais termos e metáforas culinárias e gastronómicas quando se referem à procura e usufruto da dita cuja. Que passam a vida a "papar", "provar", "devorar" pedaços de informação.
Só que, no meio de tanta gulodice, esquecem-se de se alimentar como deve ser. Mordiscando aqui e ali, saltitando de snack em snack ao longo do dia, apenas conseguem empanturrar-se de informação mal digerida e nada entendida: comprovadamente, lêem cada vez mais títulos de jornal e sabem cada vez menos do que se passa pelo Mundo.
Claro que este é um espelho que reflecte toda uma cultura; não só a França. Hoje, a Europa parece um continente de subnutridos sempre ocupados a mastigar e digerir lixo; abdómenes gigantescos mas satisfeitos arrastando-se pelas auto-estradas da informação sem prestar atenção aos perigos do trânsito incessante.

Publicado por Luis Rainha às 11:55 PM | Comentários (2)

A PESSOA DO ANO (DIZEM ELES)

O que me choca não é a escolha (pouco original mas compreensível) da Time. No fim de contas, o título de «person of the year» é suposto premiar a figura que mais se destacou no ano que finda, «para o bem ou para o mal».
O que me choca é outra coisa. É a legenda da imagem de capa: «American Revolutionary».
Revolucionário porquê? Porque espezinhou o direito internacional? Porque fez da mentira um casus belli? Porque afundou as tropas americanas no pântano caótico que é, hoje, o Iraque? Porque não quis saber da ética no tratamento de prisioneiros, substituindo a Convenção de Genebra pelos infernos de Abu Ghraib e Guantánamo? Porque descontrolou o défice dos EUA, desvalorizou o dólar e ameaça agora privatizar a Segurança Social? Porque se rodeou de falcões e promoveu a estratégia do medo como caminho mais fácil para a reeleição? Porque anda a criar, com afinco e persistência, uma nova desordem mundial, à custa de uma cada vez mais ineficaz guerra contra o terrorismo?
«American Revolutionary», escreve a Time, categórica. E a campa de George Washington, lá em Mount Vernon, deve ter estremecido de raiva.

Publicado por José Mário Silva às 06:42 PM | Comentários (15)

TOMO A LIBERDADE DE RECOMENDAR QUE A PRÁTICA SE TORNE OBRIGATÓRIA E FREQUENTE PARA TODOS OS MILITANTES

Dois austríacos fizeram um duelo para limpar a honra do seu líder partidário, Jorg Haider.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:07 PM | Comentários (2)

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DE NADA

O Governo aprovou esta quinta-feira em Conselho de Ministros a transferência, como receita geral do Estado para este ano, de 85% do saldos de gerência (tesouraria) de 31 de Dezembro de 2003, da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Anacom, ERSE e Instituto de Seguros de Portugal (ISP) e Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Publicado por Jorge Palinhos às 04:21 PM | Comentários (0)

LAMENTAMOS INFORMAR MAS HOUVE UMA FALHA TÉCNICA NO MILAGRE

Bagão Félix adia para as 17 horas o directo televisivo do milagre da multiplicação dos euros.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:19 PM | Comentários (2)

CATÁLOGO ANTI-COMPRAS DO BDE (IV)

O QUÊ:

A QUEM: Qualquer pessoa.

PORQUÊ: Se não sabem mesmo porquê o caso é grave. Mas aqui vai: é peludo, cornudo, fedorento, comilão, pouco higiénico, pouco educativo, dá marradelas, não cabe na prateleira de cima do armário, tem conotações satânicas, suscita anedotas brejeiras e é mais útil morto que vivo.
Excepção feita se nos estiverem a ler do Quénia.

P.S. - Estarei muito errado em achar que esta é a primeira foto de um bode alguma vez afixada por um blog português?

Publicado por Jorge Palinhos às 04:06 PM | Comentários (4)

MOMENTO DE CULTURA MUSICAL

Graças ao já célebre texto do Manuel, mais precisamente graças a um comentário do Luís, fiquei a saber o que é afinal a Carmina Burana: é a música do Old Spice!
Isto fez-me lembrar uma vez, em que a minha família coleccionava uns 20 CDs de uma Enciclopédia de Música Clássica, que vinham com o DN. Na altura ainda nem tínhamos leitor de CDs, mas viríamos a tê-lo daí a pouco. Quando experimentei ouvir uma coisa chamada "Quebra Nozes", de um compositor cujo nome agora não recordo, identifiquei rapidamente: era a música do "Sozinho em Casa!"

Publicado por Filipe Moura às 10:21 AM | Comentários (8)

dezembro 22, 2004

JAQUIM ACREDITA NOS ILUMINATTI

Pelos vistos, o sempre divertido jcd resolveu dar crédito às histerias racistas de que teriam sido os palestinianos a matar o rapaz palestiniano de 12 anos, Mohammed al-Durra (mais precisamente há duas teorias da conspiração: que os palestinianos mataram o miúdo e deitaram as culpas no IDF, ou que se limitaram a encenar a morte, estando o miúdo ainda vivo e a viver em Portimão onde vende tapetes com um bigode postiço).
Como provas, o jcd alega que viu um documentário "que quase ninguém viu" (provavelmente nem mesmo os documentaristas) e cita fontes fidedignas como a Frontpage Magazine (que diz que os palestinianos não existem), a Gamla (uma agência de propaganda dos colonos ortodoxos judeus), a WorldNetDaily (uma agência de propaganda republicana que não hesitou em espalhar boatos que Arafat morreu de Sida) e a Menapress (outra "agência noticiosa" a emitir de um colonato judeu).
Infelizmente, nenhum outro media israelita ou pró-israelita lhe deu crédito. E parece que nem mesmo o exército israelita viu o mesmo documentário que tu, pois continua a admitir culpas na morte do rapazinho.
Mas cá para nós, tal como tu dizes no final do teu post, cada um acredita naquilo que lhe convém. E é bem provável que o exército israelita seja pró-palestiniano...

Publicado por Jorge Palinhos às 04:21 PM | Comentários (13)

O SÍTIO DA BOCA

Visto que ontem gozámos com eles, é justo que hoje destaquemos o facto de que um quarto do Gato Fedorento (aquele quarto que faz propaganda ao capitalismo cristão) tem agora uma coluna na Visão. Imediatamente antes do professor Boaventura.

Publicado por Jorge Palinhos às 03:14 PM | Comentários (3)

A TURBO-LEITURA

Leio no New York Times que agora estão na berra os livros sobre a leitura. Ou seja, livros em que escritores nos contam o que leram recentemente, porquê e o que é que acharam (em suma: um inquérito do Mil Folhas com tratamento hormonal).
Faz todo o sentido. É muito mais prático e eficiente ler este tipo de livro e depois poder dizer: "O escritor XPTO disse assim e assado sobre o estilo do livro Tal, mas é preciso ver que o autor do Tal foi muito influenciado por Sicrano, a propósito de quem se conta que..." do que: "Ando a ler o Monte dos Vendavais. É fixe."

Acho que é altura propícia para lançar uma coisa destas em Portugal. Afinal, não podemos despediçar os escassos leitores hiperactivos e desocupados que o país tem.

Publicado por Jorge Palinhos às 02:46 PM | Comentários (1)

POLÍTICA PÉ-DE-GALO

Num inacreditável exercício de espiritismo bacoco, Vasco Graça Moura põe-se a imaginar o que faria hoje Sá Carneiro no lugar de Santana Lopes. Muito gosta a direita de trazer à baila, a propósito e a despropósito, os seus fantasmas.

Publicado por José Mário Silva às 12:23 PM | Comentários (4)

PESCADINHA DE RABO NA BOCA

Hoje foi distribuído, com os principais jornais portugueses, uma brochura sobre o Orçamento do Estado 2005, paga pelo Governo, em papel couché e vistosa quadricromia. Será esta mais uma extravagância de quem está de saída e já nem se preocupa em poupar os últimos tostões (até porque o défice não tem salvação)? Nada disso. Nem esbanjamento nem acto de pré-campanha. Segundo Morais Sarmento, o luxuoso opúsculo corresponde apenas à «necessidade de informar os portugueses sobre o destino dos seus impostos». Missão cumprida. Uma pessoa folheia o caríssimo suplemento e percebe imediatamente qual é o destino dos seus impostos. Ai não que não percebe.

Publicado por José Mário Silva às 11:27 AM | Comentários (2)

FAZER AS MALAS

Para a generalidade das pessoas, fazer a mala é uma coisa muito simples. Para mim, sempre que vou a Portugal, não. Estou sempre com a preocupação de levar tudo aquilo de que já não venha a precisar, para evitar excessos de bagagem quando a partida for definitiva. Para uma simples viagem, fazer a mala, assim, torna-se num passar em revista todos os meus haveres aqui. Na prática, trata-se de arrumar a casa. Cheguei à conclusão que só quando viajo arrumo a casa a sério. Só quando viajo deito fora a papelada desnecessária, tento pôr um mínimo de organização na minha secretária, acho objectos que sabia que estavam perdidos, e alguns que eu nem sabia que estavam perdidos.
É isso que me ocupa. A despachar-me a fazer a mala, sou pior do que uma super-Tia indecisa: "mas o que é que eu vou levar?". E vou deitando tralha fora. Vai ser uma longa noite.

Publicado por Filipe Moura às 02:16 AM | Comentários (6)

QUANDO A "ERUDIÇÃO" É TRADUÇÃO

Começa esta história pouco edificante quando hoje leio um post no Afixe, ainda a propósito do "Código da Vinci". Nele, gabava-se, em termos entusiásticos, uma série de textos bloguísticos sobre os Templários, sobre Le Corbusier, enfim, prometia-se um verdadeiro festim para o intelecto: "a Joana revela uma destreza fenomenal no tratamento de temas históricos tão díspares como os Templários, a sucessão de Fibonacci e o Número de Ouro, a complexa história das Cruzadas (...) e tantos outros temas menos conhecidos da História da Europa Ocidental e do Médio Oriente. Ela domina as fontes, ela conhece os autores, ela sabe o que diz!"
Não é grande segredo que já andei "à pega" com a autora do blogue em questão, o Semiramis, numa ou noutra ocasião. Mas, mesmo assim, lá fui confirmar a presença rutilante de tanta erudição, ainda para mais ligada a temas que até me interessam.
Bem, numa coisa estamos de acordo: ela domina mesmo "as fontes". Acontece que, à medida que ia lendo um dos textos assim elogiados, instalava-se um murmúrio no meu cérebro: "mas eu já li isto algures!"
Está visto. Trata-se não de erudição mas sim de um muito mais rasteiro descaramento absoluto a copiar, traduzindo sem qualquer pudor ou referência o trabalho de Gilles C H Nullens.
Tratei de afixar por ali um comentário dando conta da minha indignação. Resposta da senhora "autora"? Acreditem ou não, ela não só negou como ainda classifica a minha denúncia como "calúnias desse comentador"! Vejam até onde chega a lata humana: "em primeiro lugar pretendia pedir desculpas pelo facto, alheio à minha vontade, de não ter assistido pessoalmente ao processo dos Templários. Por isso, e dado não possuir a máquina do tempo, tive que me socorrer de diversas fontes. Nenhuma delas foi a fonte citada. Aliás, o manifesto real de 14 de Outubro de 1307 é público. Logo, esse tal Gilles C H Nullens, que eu desconhecia, assim como centenas de historiadores não passariam, assim, de infames plagiadores ao citá-lo."
Ora vamos lá a tirar a prova dos nove. De seguida, podem ler meia dúzia (!) de passagens que, numa primeira inspecção, detectei no texto da "Joana" e no livro de Nullens. Digam lá depois se vos parece remotamente possível que a senhora não conheça mesmo as frases que traduz literalmente. Será mais um fenómeno místico associado aos Templários?

"This operation had been carefully prepared in advance. The order had been given to the Bailiffs and Seneschals one month in advance -on September 14 1307- in sealed envelopes to be opened the day of the arrests. The written instructions mentioned the accusations against the Templars" passa, depois de roubado, a "era necessário, para que surtisse efeito, que aquela operação tivesse sido minuciosamente preparada. Na realidade, a ordem de prisão fora enviada um mês antes, em 14 de Setembro de 1307, sob a forma de cartas fechadas, dirigidas aos bailios e senescais, com indicação de as abrirem numa determinada data. O texto dessas instruções continha acusações contra a Ordem do Templo".
"A Royal Manifesto is distributed in Paris to explain the accusations against the Templars. The Templars are accused of apostasy, of insult to Christ, of obscene rites, of sodomy and idolatry. It is said, specifically, that they obliged the new recruits to abjure three times the Christ and to spit on the cross. After that their clothes were taken off and they were kissed on the lower back, on the navel and on the mouth by the Brother who received the recruits. They were also ordered to submit to sodomy if required to do so. Finally they were required to worship a small statue called Baphomet and to wear a piece of string that has been first put on this statue" é traduzido, com canina fidelidade, por "um manifesto real é espalhado por Paris, tornando públicas as acusações contidas na ordem de detenção: os Templários seriam culpados de apostasia, de ultrajes à pessoa de Cristo, de ritos obscenos, de sodomia e, por fim, de idolatria. As suas infâmias manifestam-se, especialmente, aquando da admissão dos freires: obrigam-nos a renegar Cristo, três vezes, e a escarrar sobre o crucifixo; em seguida, despojados das suas vestes, são beijados na ponta inferior da coluna vertebral, no umbigo e na boca por aquele que os recebe; depois, obrigam-nos a prometer entregar-se à sodomia, se isso lhes for pedido; finalmente, adoram uma estatueta a que chamam Baphomet e trazem consigo um cordãozinho que foi, precedentemente, deposto sobre essa estátua." Tudo traduzido tintim por tintim, com todas as frases na sua rigorosa ordem original.
Querem mais ainda? Há muitos exemplos deste esbulho que se faz passar por erudição: "publica em 22 de Novembro a bula Pastoralis preminentiaie, onde ordena a todos os príncipes da cristandade que prendam os Templários que se encontram nos seus Estados. Explica que se vira obrigado a tomar essa medida pelas confissões dos templários de França e que certos templários em serviço na cúria romana lhe teriam confirmado o bem fundado dessas confissões; seria efectuado um processo eclesiástico, em seguida ao qual, se a Ordem fosse reconhecida inocente, todos os seus bens lhe seriam devolvidos; caso contrário, esses bens seriam consagrados à defesa da Terra Santa." é tradução simples de "Clement V's Bull of 22 November 1307, "Pastoralis praeeminentiae", gives the order to all the Christian Princes to arrest all the Templars present on their lands. He changed his mind on the base of the admissions made by the French Templars as well as from what some Templars working for the Curia told him. An ecclesiastic trial should ascertain their guilt and if found not guilty, their properties would go back to them. If found guilty, the proceed of their sale would be used to defend the Holy Land.", com a calinada óbvia de a tal Joana se ter enganado a transcrever o nome da bula... na mesma onda de disparate, "Agnani" passa a "Anagni".
"One hundred and thirty-eight prisoners were interrogated in the Paris Temple between the 19 October and the 24 November 1307 by the Inquisitor Guillaume de Paris. Before that they had been detained by the King's Officers that were authorised to use torture, if required. Thirty-six of them died as a result of these preliminary interrogations. In front of the Inquisitors only three denied the crimes of which they were accused" é vertido para "No mês seguinte, cento e trinta e oito prisioneiros são interrogados em Paris, na sala baixa do Templo, peto inquisidor de Paris, depois de terem passado pelas mãos dos oficiais do rei, que, de conformidade com as instruções contidas nas cartas fechadas, empregaram «a tortura, em caso de necessidade». De facto, trinta e seis dos presos deveriam morrer em consequência dessas torturas. Perante o inquisidor, apenas três deles negaram ter cometido os crimes de que os acusavam".
"They also underlined the fact that no Templars out of France accused the Order" é mais ou menos igual a "fazem notar que, fora de França, não se encontrou nenhum freire do Templo que dissesse ou apoiasse as «mentiras» proferidas contra a Ordem."
"Jacques de Molay and Geoffrey de Charnay declared that their confessions were false and made only to save their life. They also declared that the Order and the rules of the Templars were sane, just and Catholic. They said there were not guilty of heresy and did not commit the sins they were accused to have committed. (...) They died courageously for their beliefs" passa a "Nessa mesma tarde Jacques de Molay, o mestre da Ordem, e Geoffroy de Charnay (...) clamaram mais uma vez a sua inocência, declarando que o único crime que haviam cometido fora o de se terem prestado a fazer falsas confissões para salvarem a vida. A Ordem era santa, a Norma do Templo era santa, justa e católica. Não haviam cometido as heresias e os pecados que lhes atribuíam. E diante da multidão paralisada de espanto, morreram com a mais tranquila coragem."
Isto, só por si, já representa grande parte do texto em apreço. Agora, que gente mais dada a estas tarefas detectivescas procure as outras "fontes" empregues. A mim, isto já me está a causar algum nojo.

Publicado por Luis Rainha às 12:01 AM | Comentários (27)

dezembro 21, 2004

ADAPTAÇÃO AO MEIO

O taximetro marcava 5 euros e 15 cêntimos.
Peguei numa nota de 10 euros, entreguei-a ao descomunal taxista moldavo que ocupava metade do taxi e disse:
"faça a conta a seis euros por favor".
"Já estou fodido", respondeu-me em português fluente enquanto procurava moedas de euro numa caixinha, "você já me deixou sem trocos".

Publicado por tchernignobyl às 09:20 PM | Comentários (10)

CARGA BRUTA

Como já aqui escreveu o Jorge, o nosso primeiro-demissionário perdeu a ocasião de aparecer em mais uns minutos de noticiário, condecorando a equipa do FCP. Tudo por causa de um percalço no voo para o Porto.
Conta-nos a TAP que "houve um volume não identificado que motivou o accionamento dos mecanismos de segurança normais e indispensáveis." Felizmente, "o objecto encontrado acabou por se revelar inofensivo".
O que seria afinal esse incómodo "volume", sem identificação mas no fim de contas inócuo? Quanto a mim, só podia mesmo ser o ego de Santana, seguindo viagem no porão, local lógico para o transporte de trastes de grandes dimensões.

Publicado por Luis Rainha às 06:48 PM | Comentários (1)

CARMINA E OUTRAS HISTÓRIAS

No seu regresso feliz ao BdE, o Manel escreveu «com pinças» (na expressão de Fernando Venâncio) um texto sobre Carl Orff e o problema da colaboração estética de alguns artistas com o regime hitleriano. A polémica não se fez esperar. Vale a pena segui-la, nos seus ziguezagues e derivações, aqui.

[Nota: é justamente por sabermos que uma parte importantíssima da vida deste blogue decorre «lá em baixo», prolongando-se em debates interessantes e civilizados como este, que nunca colocaremos a hipótese de fechar as caixas de comentários.]

Publicado por José Mário Silva às 06:20 PM | Comentários (4)

BARNABÉ E SÓCRATES: O MESMO COMBATE?

Nos últimos dias, o Barnabé tem andado à procura da melhor forma de resolver o problema dos lixos tóxicos que tranformam, vezes demais, os seus espaços de comentários em aterros insalubres. A migração para a plataforma Movable Type 3.11 foi um primeiro e necessário passo (que também nós tivemos que dar, há uns meses, pela mesmíssima razão).
Agora, só comenta quem tiver um registo typekey. É chato, mas tem que ser. As provocações neo-fascistas e as difamações anónimas merecem nada menos do que tolerância zero. E se for preciso co-incinerá-las, pois co-incinere-se.

Publicado por José Mário Silva às 05:39 PM | Comentários (3)

DOS RISCOS DA TENDINITE AGUDA (2)


Cartoon de M. e. Cohen

Publicado por José Mário Silva às 05:19 PM | Comentários (0)

NOTÍCIAS DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Na Índia, um rapaz de 17 anos foi preso por ter disseminado um vídeo de uma cena de sexo oral com a sua namorada. De caminho, o director do site de leilões envolvido também foi dentro. Em Inglaterra, uma peça de teatro acaba de ser retirada de cena após uma multidão de sikhs ter protestado violentamente contra a sua estreia. Nos EUA, um palonço do Alabama quer dificultar a vida aos produtores de lixo que "retratem de forma positiva a homossexualidade enquanto estilo de vida alternativo"; crápulas como Tenessee Williams estão tramados. Mas o congressista Gary Taylor é magnânimo: Shakespeare e o seu "Hammet" (sic) até poderão ser deixados em paz.
Entre achaques de puritanos, ataques de fanáticos e disparates de fundamentalistas, lá vamos conseguindo dar cabo da nossa liberdade.

Publicado por Luis Rainha às 04:30 PM | Comentários (6)

DOS RISCOS DA MEDIATIZAÇÃO EXCESSIVA (II)

Ó Zé Mário, será que também leste esta coluna onde o Gato Fedorento é descrito como o "presente ideal de Natal", que pode ser visto em família, pois não recorre "às ofensas gratuitas, nem às palavras obscenas", fala de "banalidades, que representam e preenchem o quotidiano", além de cumprir "o Pacto de Estabilidade" e ser "um verdadeiro exemplo de empreendedorismo"?
Enfim, fala do "Gato Fedorento" como se fosse uma coisa, assim, estilo "Nico d'Obra"?

Publicado por Jorge Palinhos às 03:44 PM | Comentários (4)

QUANTO TEMPO CONSEGUE UM PERU CORRER SEM CABEÇA?

O governo demitiu-se e passou a ser um executivo de gestão. Dias depois, o mesmo governo descobre que, por isso mesmo, não pode desatar a vender tudo aquilo que tinha em mente. E chama ao impedimento "sentido ético", apesar de o próprio Santana ter falado, já demissionário, de vendas em "condições compatíveis com os interesses do Estado". De seguida, recorre ao "Plano B": ceder temporariamente imóveis estatais a bancos, passando a pagar pelos mesmos rendas mensais. Claro está que a invenção, como já se calculava, não foi abençoada pelo horrível Eurostat. Hoje, o PM e o ministro das Finanças foram à TV dizer que ainda não fazem grande ideia de como resolver o imbróglio. E atiraram as culpas – que afinal já não são bem da Banca – para as espáduas dos malditos "críticos". Num impulso desvairado, até desafiaram essas almas malévolas a apresentar soluções para a confusão em que estamos encalacrados. Tudo isto enquanto agitavam recortezinhos de jornais para mostrar umas supostas patifarias que os alemães andam a preparar.
Quem é que disse que esta malta já tinha batido no fundo, em termos de ridículo?

Publicado por Luis Rainha às 03:19 PM | Comentários (2)

E O PAI NATAL TAMBÉM NÃO É MÁ PESSOA

«Conheço o coração do secretário Rumsfeld... É um homem bom e decente. É uma pessoa que se importa com os outros.» — George W. Bush [procurando apoiar o seu Secretário da Defesa, atacado tanto por democratas como por republicanos]

Publicado por José Mário Silva às 02:33 PM | Comentários (1)

DOS RISCOS DA TENDINITE AGUDA

«As críticas a Rumsfeld têm subido de tom. A última foi a de estar a usar um carimbo para assinar as cartas de condolências às famílias dos soldados mortos no Iraque, em vez de o fazer à mão».

Publicado por José Mário Silva às 02:31 PM | Comentários (0)

DOS RISCOS DA MEDIATIZAÇÃO EXCESSIVA

Agora, vejam lá bem, até tenho saudades do tempo em que o Gato Fedorento era apenas um blogue quase secreto, conhecido por uns happy few.

Publicado por José Mário Silva às 02:24 PM | Comentários (4)

"CRISE? QUE CRISE?"

O tempo de antena do PSD que vai estrear hoje promete ser uma belíssima peça de um novo género: o fantástico político. Em poucos minutos, vão tentar convencer o incauto telespectador de que temos um grande governo, orientado por um timoneiro infalível, em vez do peru sem cabeça que continua na sua correria cega, aos encontrões contra tudo e mais alguma coisa. Mas injustiça das injustiças, logo agora que iam "abrir uma janela de esperança", o malvado Sampaio corre com eles (seria a defenestração do líder o objectivo dessa mirífica "abertura"?). "Crise? Que crise?", pergunta um PSD autista e solipsista; a única agremiação nacional que ainda finge não ver o poço de areias movediças onde nos enfiaram.
O Rock in Rio e o Euro 2004 vão ser apresentados como os "grandes eventos" que Portugal demonstrou poder encenar, a par com a fuga de Durão para Bruxelas. Mesmo as dezenas de promessas que Santana não cumpriu na CML são metamorfoseadas num exemplo de produtividade e rigor.
A encerrar a função, temos uma ameaça que vai por certo tirar o sono a muito espectador: o homem quer "dar quatro anos a Portugal de mais progresso, mais rectidão, mais seriedade, mais justiça, sempre muito amor a Portugal".
É pena, mas não me parece que a escolha de acompanhamento musical seja a "Ballad of Reading Gaol", composição de Brian Inglis que nos reafirma a apropriada sentença de Oscar Wilde: "Cada homem mata a coisa que ama". Assim, receio que esta apoteose seja sublinhada pelo "Mais e mais amor", do Marco Paulo, bela musiqueta que traduz fielmente a relação de Santana com Portugal, tal e qual o demente calhau com gel a imagina: "Eu dei-te tanto e tu dás-me tão pouco".
Mas julgarão eles que as pessoas são assim tão estúpidas?

Publicado por Luis Rainha às 12:55 PM | Comentários (5)

A DESCULPA MILAGROSA

Já sabíamos que a ironia servia de desculpa para o disparate impensado, para o insulto bacoco e para a boca reaccionária, mas agora Tom Wolfe usa-a como desculpa para a má escrita, dizendo que quando escreveu a passagem:

the fingers went under the elastic of the panties moan moan moan moan moan went Hoyt as he slithered slithered slithered slithered and caress caress caress caress went the fingers until they must be only eighths of inches from the border of her public hair - what's that! - Her panties were so wet down. . . there - the fingers had definitely reached the outer stand of the field of pubic hair and would soon plunge into the wet mess that was waiting right. . . there-there-

que lhe garantiu o prémio de pior descrição sexual do ano estava a ser irónico!

Com usos destes não tarda nada que a ironia vá pelo cano, como já aconteceu a outras figuras de estilo como a comparação e a metáfora.

(Mas confesso que pessoalmente teria dado o prémio ao tipo que escreveu:

The smell of his armpits was on her shoulders - a flower depositing pollen on a hummingbird's forehead.

Ou pelo menos a Menção Honrosa de Melhor Uso da Sovaqueira para Fins Eróticos.)

Publicado por Jorge Palinhos às 12:40 PM | Comentários (0)

SINTO MUITO, QUERIDO, MAS EU QUERO O DIVÓRCIO À MESMA

Santana Promete "Muito Amor a Portugal"
(Dizer que foi tirado ao Público? Nãããã, isto é um blog sério que não anda a fazer propaganda gratuita à imprensa burguesa.)

Publicado por Jorge Palinhos às 12:09 PM | Comentários (1)

FRASES QUE FORAM MESMO ESCRITAS NAS PAREDES (III)

Mais à frente a utopia faz o pino

(Idem)

Publicado por Jorge Palinhos às 12:07 PM | Comentários (2)

FRASES QUE FORAM MESMO ESCRITAS NAS PAREDES (II)

Maria que rebentar melhor...

(Idem)

Publicado por Jorge Palinhos às 12:06 PM | Comentários (0)

FRASES QUE FORAM MESMO ESCRITAS NAS PAREDES

Amo-te Pikatchoina!

(Vista em várias paredes da cidade do Porto)

Publicado por Jorge Palinhos às 12:04 PM | Comentários (0)

QUE TRABALHEIRA SÓ PARA NÃO DIZER QUE DÁ MAIS JEITO EM JANEIRO

O Governo adiou para 5 de Janeiro a cerimónia em que ia condecorar o FC Porto-SAD com o Grande Colar de Honra ao Mérito Desportivo e que estava marcada para ontem, às 18h30, no Estádio do Dragão.(...) Um membro do gabinete do secretário de Estado do Desporto disse ao PÚBLICO que a cerimónia foi cancelada por razões de segurança que obrigaram a anular o voo que iria levar Santana Lopes ao Porto. Segundo o gabinete de comunicação da TAP informou à agência Lusa, terá sido detectado um "volume não identificado" a bordo do avião que ia transportar o primeiro-ministro, pelo que foi decidido não descolar sem todas as medidas de segurança garantidas.(...) o avião acabou mesmo por descolar, mas apenas às 16h25, ou seja, 55 minutos depois da hora marcada, e já sem o primeiro-ministro. É que, segundo o gabinete de Santana Lopes, o chefe do Governo recebeu, entretanto, mais uma má notícia: o departamento de estatística da Comissão Europeia, o Eurostat, divulgou o chumbo à cedência temporária de edifícios.

(Hummm, podia dizer que tirei isto do Público... ou posso fazer como o Público e dizer que saiu tudo da minha própria cabeça.)

Sem querer mergulhar em guerras futebolísticas, lembrei-me que se o homenageado fosse o Benfica ou o Sporting e o governo fosse outro, este seria acusado de andar a fazer fretes clubísticos. Mas vendo a situação, parece-me que é o FCP que vai ser acusado de fazer um frete ao governo por receber a medalha.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:57 AM | Comentários (0)

PLAGIAR É PRECISO, DAR CRÉDITO NÃO É PRECISO

Aparentemente o Público é o mais forte candidato ao Prémio Clara Pinto Correia 2004.

Ver isto, isto e isto.

Via Bloguitica.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:28 AM | Comentários (4)

FRASES PARA ESCREVER NAS PAREDES (2)

O tempo, essa ave rara.

Publicado por José Mário Silva às 10:07 AM | Comentários (0)

dezembro 20, 2004

CO-INCINERAÇÃO E AUTO-IMOLAÇÃO

Um dos possíveis cenários: a população vem para a rua manifestar-se contra as promessas de um candidato a primeiro-ministro.
Uma pergunta: quando é que as palavras dos políticos profissionais se tornaram tão credíveis?

Publicado por José Luís Peixoto às 08:20 PM | Comentários (7)

O VERDADEIRO ESPÍRITO NATALÍCIO

Acabou agora mesmo o almoço de Natal da empresa: com um jogo de moedas com os empregados do restaurante para decidir quem pagaria a última rodada. Estou bastante alegre. Mas, afinal, até é bem fácil postar neste estado; pelo menos, é mais fácil do que andar de mota assim. Ou não. A ver vamos.

Publicado por Luis Rainha às 06:49 PM | Comentários (3)

PALAVRAS QUE NOS SALVAM

Na passada sexta-feira, dia 17, morreu a poeta Natércia Freire. Do seu neto, o igualmente poeta Pedro Sena-Lino, recebemos este excerto que resume, de certa forma, a sua atitude perante a escrita (e a vida):

«Porque há palavras-machado, palavras-serpentes, palavras-foices. Porque há palavras-sepulcros, palavras-prédios sobre o peito, palavras-desertos e palavras-multidão, é que apetece uma língua inocente de brisas, não maculada pela fria ou pérfida razão humana, deslizando sobre a brancura desértica de infinitos e limpos areais que, nas marés da noite, o mar lavou.»

Um abraço, Pedro, nestes dias de tristeza e despedida.

Publicado por José Mário Silva às 05:31 PM | Comentários (0)

80 ANOS DE SURREALISMO: JAMES ROSENQUIST


"Amo-te com o meu Ford", 1963

Rosenquist nunca foi um surrealista. É, aliás, famoso e reconhecido por ter sido um dos expoentes mais visíveis da Pop Art de Nova Iorque, a par com Warhol, Claes Oldenburg, Tom Wesselmann e Lichtenstein, (interessante: apenas este último não é filho de imigrantes... será preciso um ponto de vista distante para originar tanto espanto com a paisagem mediática e urbana dos EUA?).
Como muitos artistas Pop, Rosenquist começou por pintar no então omnipresente estilo do Expressionismo Abstracto. Em simultâneo, ganhava a vida como pintor de billboards, os gigantescos cartazes publicitários que tão bem decoram e definem a metrópole made in USA. Em 1960, ele concluiu que a sua profissão tinha bastante mais interesse do que a sua arte: "a Pintura é provavelmente mais excitante do que a publicidade. Porque não há-de ser feita com a mesma potência e entusiasmo, o mesmo impacto?" Afinal, e ainda segundo o artista, ser exposto às técnicas da publicidade "é como ser atingido por um martelo: você fica dormente. Mas o efeito pode levá-lo a uma outra realidade. Estas técnicas são irritantes na forma em que existem, mas quando usadas como ferramentas pelo pintor, podem tornar-se em algo de fantástico".
Assim foi. Adoptando quase sempre uma escala imensa, os trabalhos de Rosenquist dos anos 60 são espantosas colagens de elementos díspares: comida, peças de automóveis, elementos de desejo, agressão e política .
É este mecanismo de justaposição quase aleatória (apenas quase; as concordâncias visuais, os ecos de contornos, as ligações subterrâneas multiplicam-se de forma que não é por certo isenta de desígnio) que dá ao primeiro período da obra de Rosenquist o seu carácter claramente surrealizante. Que uma autora como Lucy Lippard afirme que os propósitos deste artista são bem diversos dos do Surrealismo, pois ele não está preocupado com simbolismos, limitando-se a juntar "fragmentos que não agem uns sobre os outros, mas directamente sobre o espectador", apenas revela alguma falta de entendimento das preocupações dos surrealistas, que sempre se colocaram nos antípodas do simbolismo. Basta ter em mente os "interiores metafísicos" de de Chirico ou as colagens de Max Ernst para compreender que a combinação de elementos a priori distantes entre si foi, para a pintura surrealista, uma forma de sabotar o nosso entendimento da realidade; não de "simbolizar" o que quer que seja. Sintomático é que o dispositivo de incongruência usado por Rosenquist, parece, em anos recentes, ter perdido o "gume" que o distinguia, resultando em imagens decorativas e inócuas; com a excepção da sua estranha série de bonecas envoltas em celofane, reminiscentes do erotismo cruel de Hans Bellmer.
Mas muito mais haveria a dizer, e a propósito de muitos outros artistas, da influência que o Surrealismo acabou por ter no que supostamente foi o mais "maquinal" dos movimentos artísticos do século XX; outras ocasiões surgirão para tal empresa...

Publicado por Luis Rainha às 01:10 PM | Comentários (0)

FRASES PARA ESCREVER NAS PAREDES (1)

«Não podendo falar para toda a terra/ direi um segredo a um só ouvido» (Luiza Neto Jorge)

Publicado por José Mário Silva às 12:37 PM | Comentários (0)

CO-

Afinal, se chegar ao governo, o PS vai mesmo avançar com a co-incineração. Quem o garante é Sócrates. Mas continua por esclarecer se, não obtendo os socialistas a desejada maioria absoluta, também haverá co-ligação (e com quem).

Publicado por José Mário Silva às 12:31 AM | Comentários (5)

dezembro 19, 2004

COISA FEIA, A INVEJA

Na Avenida General Roçadas, os automóveis estavam intactos num raio de 500 metros. Quer dizer, estavam todos intactos menos o meu, bombardeado durante a noite por um furtivo esquadrão de pombos (manifestamente com pontaria superior à demonstrada, no Iraque e no Afeganistão, pelos aviões «cirúrgicos» dos americanos).
Por mais que me esforce, não encontro uma justificação para este traiçoeiro ataque que na sexta-feira me arruinou a boa disposição matinal e - pior, muito pior - a pintura do carrito. Terão os pombos interpretado de forma distorcida este post? Passei porventura à frente de um columbófilo vingativo, na fila das Finanças? Será que os passarocos de penas cinzentas me confundiram com outra pessoa, uma pessoa maldosa que talvez tenha o hábito de espalhar milho envenenado no Rossio? Ou pensariam, na sua diminuta sageza de animais irracionais, que o meu Clio de 2000 não é um Clio de 2000, mas um Peugeot 307 acabadinho de sair do stand, invejável como os do anúncio?
Não sei. Só sei que encontrei o carro neste bonito estado:

pombos.jpg

pombos2.jpg

pombos3.JPG

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (4)

DIZ-SE

"Não descrevi a cena porque não me pareceu importante, mas ouvi Jorge Ritto meter conversa com o apresentador sobre blogues e fixei a réplica do ex-Senhor Televisão:«Deixei de frequentar blogues». Foram as únicas palavras que ouvi distintamente de uma voz que conheço de cor."

Pedro Castro, A Capital, 17-12-04

Publicado por José Luís Peixoto às 09:09 PM | Comentários (1)

UM FRAGMENTO

Para assinalar o regresso do co-fundador deste blogue, ainda por cima com um post sobre arte e política (fadado por isso à controvérsia), deixo aqui este fragmento de um dos últimos livros de Gonçalo M. Tavares:

ADORNO

Dizer tudo numa frase, eis a coragem de quem escreve. Ameaçar dizer tudo nas frases seguintes, eis a cobardia. O tédio produz documentos.
Cada objecto tem uma filosofia, e eis o aparecimento dos gestos nos homens. O que surgiu primeiro, o objecto ou o movimento com que o seguras? Antes do verbo, as coisas ameaçavam uma linguagem que o silêncio antigo não poderia fazer. Apesar de tudo, o silêncio tem menos palavras que uma palavra.

in «Biblioteca» (Campo das Letras)

Publicado por José Mário Silva às 09:02 PM | Comentários (2)

O TRIUNFO DA AMNÉSIA


Passou mais uma vez por Lisboa, este fim-de-semana, uma das mais faraónicas produções dos célebres Carmina Burana de Carl Orff, organizada por Walter Haupt para a comemoração do centenário do compositor em 1995. Nos jornais e na rádio (na televisão não vi, mas suponho que não tenha sido muito diferente), a coisa foi anunciada como “monumental”, “espectacular”, “grandiosa” e outros superlativos do mesmo género. Tudo aliás é superlativo nesta produção alemã (quatro palcos, 250 participantes e técnicos, 300 figurinos diferentes, 16 camiões TIR de material, 1 milhão de espectadores em todo o mundo). Na agenda cultural da Antena 2 e em alguns jornais foi mesmo dito que os Carmina nunca tinham deixado de “empolgar” o público desde 1937, data da sua estreia. O que ninguém parece ter querido referir é que essa tal estreia se realizou na ópera de Frankfurt, em pleno Terceiro Reich. Aparentemente, as relações mais do que comprometedoras de Orff e da sua linguagem musical com o nazismo parecem continuar a não incomodar muita gente. Ao contrário do que se passou no cinema, nas artes plásticas ou na arquitectura – basta lembrar os casos de Riefenstahl, Brecker ou Speer –, a verdade é que nunca se quis tirar as necessárias consequências da colaboração estética que muitos músicos desenvolveram com o regime hitleriano. E o pior é que se vai continuando a “empolgar” o público com os restos de monumentalismo nazi que sobrevivem alegremente nos ritmos martelados e hipnóticos de Carl Orff, por entre o barulho das luzes e da pirotecnia.

Publicado por Manuel Deniz às 08:06 PM | Comentários (69)

POST SCRIPTUM

Há poucos dias, ele sonhou com a claridade febril das luzes de sódio junto à estrada. Sonhou que encontrava ali uma mulher ruiva de idade incerta: olhos famintos seguindo algo que se movia entre o arvoredo - algo que por certo ele não conseguiria ver. Pareceu-lhe bela. Mas só ao longe; aproximando-se, chocou-o o rosto marcado por mil impactos e acidentes azarados. A anatomia gasta de um anjo caído em desgraça.
No mesmo sonho, ele chegou a tentar falar com ela. Mas só o conseguia semicerrando os olhos. Não à laia de objectiva desfocada, simulando a distância. Antes como se ela fosse uma imagem digital pixelizada, carente de definição; só assim o ruído das cicatrizes, das rugas, dos dentes perdidos, desaparecia, dando lugar ao sinal claro de um rosto belo e fora do alcance do mundo. Enquanto não abrisse os olhos, até poderia imaginar que a amava.

Publicado por Luis Rainha às 02:53 AM | Comentários (6)

A ESTRADA DOS FANTASMAS (2)

A estrada transforma-se num túnel verde; rodeada por árvores e arbustos, passadiço a custo erguido sobre ondas de vegetação selvagem que lentamente devoram algumas ruínas indecifráveis. Até sei que anda por ali naufragada uma ermida antiga e famosa, já aberta a cultos ignotos bem antes de Cristo ter nascido, hoje entregue às mezinhas e velas de patéticas missas negras. Sem aviso, abre-se uma clareira no arvoredo cerrado. Ali, desafiando a beleza mal domada da Serra, irrompe um conjunto peculiar de edifícios: uma capela, alguns casebres mais ou menos intactos, um grande bloco de quatro andares. Amarelo e branco, brilhante de alumínio e vidro, um carcinoma de betão com arcadas rítmicas a sublinhar o peso esmagador, quase insuportável, da sua arquitectura sem desperdício. Não que emita uma qualquer "aura" maléfica de casa assombrada de fancaria. Não; este edifício resplandece com a clareza de desígnio que anima os grandes hospitais, os pequenos crematórios, as estações ferroviárias há muito esquecidas. Não é mau nem bom. Ignora essas taxinomias menores. As suas grandes janelas apenas denunciam sinais de vida pelas luzes que se deixam adivinhar mal o Sol se põe. Da estrada, nunca consegui distinguir silhuetas ou actividades humanas; mas tudo ali deve fervilhar de agitação subterrânea, a ajuizar pelo parque de estacionamento sempre meio cheio.
Depois de muitas viagens por aquela estrada, depois de tantos encontros de raspão com os seus transeuntes, dei com a tabuleta de madeira, li as letras gravadas a fogo: "Centro de Apoio Social". Ainda não percebi se todo o aglomerado de edifícios é esse "Centro" ou se se trata de uma aldeia de que esta por certo meritória instituição é apenas parte. Quando ali passo à noite, com a estrada finalmente deserta, invejo a tranquilidade asséptica daquelas janelas iluminadas. As agulhas que sossegam os pesadelos hiperactivos de cérebros corroídos por aguardentes sem marca. Calmantes fora de prazo circulando em veias endurecidas por excessos já só em sonhos recordados. Invejo o fim das paixões, o fim de toda a convulsão. Mas aquele é por certo o lar dos fantasmas que assombram as redondezas. É dali que eles partem para as suas excursões a parte alguma, é dali que eles levam os seus sacos de plástico, talvez carregados com o entulho de memórias de outras vidas mais felizes. Onde o despejarão é que eu não sei.
Ontem, vi um deles no supermercado. Os mesmos olhos a fugir aos meus, a mesma inércia invencível a tolher-lhe os braços, o mesmo indiferente desespero em cada passo. Atravessava a secção de brinquedos, arrastando os pés sob os olhares reprovadores de fileiras de Action Men e elefantes de peluche. Hoje, já encontrei um outro, num elevador onde ia entrar. Recuei e esperei que as portas automáticas o escondessem. Ou que me escondessem a mim. Não sei onde vou encontrar o próximo. Mas seria estúpido começar a sentir receio de olhar para o espelho.

Publicado por Luis Rainha às 02:00 AM | Comentários (1)

dezembro 18, 2004

AFINAL NÃO SOMOS SÓ NÓS QUE ACHAMOS ISTO


Cartoon de Cam Cardow, «The Ottawa Citizen»

Publicado por José Mário Silva às 07:27 PM | Comentários (2)

A ESTRADA DOS FANTASMAS (1)

Por vezes, para fugir ao trânsito, uso uma estrada esconsa, entre os bosques da Serra de Sintra; um pedaço contorcido de asfalto a pedir conserto e cuidado na condução. Talvez tenha começado a usar a estrada por motivos utilitários. Sim. Mas agora já antecipo com prazer a saída da auto-estrada para por lá passar. E alongo os meus trajectos quotidianos, perco tempo, retardo o regresso a casa, apenas para anuir quase sem culpa aos chamamentos que a estrada me lança à distância. Ali, para lá das curvas cegas, do trânsito apressado e dos calhaus caídos da encosta, há um outro desafio constante aos reflexos do condutor: os fantasmas.
Quando neles primeiro reparei, eram escassos e esparsos: veria um hoje, amanhã dois ou três. Não que o pequeno calafrio que viaja nestas visões seja daqueles fenómenos correntes que se deixam atenuar por uma cadência previsível. Nos dias que correm, eles propagam-se, multiplicam-se de semana para semana; e se antes os seus passeios hesitantes pareciam eleger os domingos como destino predilecto, agora estão sempre ali, de dia, ao entardecer e presumo mas será certo? que também nos momentos em que não estou lá para anotar a espantosa demografia de tais almas penadas. Ou talvez eles se mantenham, pacientes e imunes aos elementos, de tocaia atrás de troncos cobertos de musgo, aguardando apenas a minha - haverá mesmo mais quem neles repare? - passagem.
Como são? Traços em comum, consigo sem embaraço enumerar bastantes; difícil é dar-lhes individualidade, feições ou sinais que os distingam entre si. Vejamos. Retinas vagas que brilham à luz dos faróis como se sinalizassem a presença imóvel de coelhos em pânico. Passos regulares deslizam sobre invisíveis passadeiras rolantes, passageiros aborrecidos para sempre em busca de mais um voo de ligação. Ombros vencidos pela gravidade ali por certo bem forte, braços caídos, não, abandonados à sua sorte de membros débeis e pouco úteis. Camisas aos quadrados, cobertas por casacos que até os poderiam proteger do frio, se ao menos alguém os fechasse. Sacos de plástico quase vazios adejam-lhes nas mãos. E eles caminham sós: mesmo que acompanhados de perto pela solidão de outro, nunca seguem juntos, nunca os vi partilhar o mais pequeno murmúrio ou sorriso. Insisto em dar-lhes o nexo da caminhada, o propósito de um rumo. Mas muitas vezes estão ali apenas imóveis, sentados num marco quilométrico, pasmados num baldio, entre lixo e silvas. E há os olhos, claro: nem quando abrando, nem quando estaco a poucos metros e retiro os óculos escuros mas porquê esta vontade de importunar o que parece uma solidão pacientemente conquistada, diligentemente merecida? eles me deixam ver os seus olhos; viram o rosto para baixo, para as árvores, para dentro. Talvez nem haja olhos por ali; somente o negrume de pequenos buracos sem nenhum significado especial, órbitas corroídas pelos corriqueiros dramas de vidas apenas embotadas e perras.

Publicado por Luis Rainha às 12:26 AM | Comentários (8)

dezembro 17, 2004

NA CONSULTA DE OBSTETRÍCIA

«Ora bem» — disse o médico, apontando para o ecrã ecográfico — «já dá para ver que ela não é braquicéfala, mas dolicocéfala». Uffff, suspirei, antes isso que delicodoce.

Publicado por José Mário Silva às 07:46 PM | Comentários (7)

O FASCISMO DA PEDRA

Hoje, passei horas encerrado numa sala enorme, assoalhada a tábuas velhas e pontuada por feias colunas neoclássicas. Uma sala onde, lembrei-me de repente, já estivera quando não tinha mais de 10 anos. Com esta anamnese, toda a sala cresceu por segundos, adaptando-se a uma nova escala, a um outro diálogo com o meu corpo (ou talvez tenha sido eu a regressar às minhas dimensões de então). Infelizes segundos em que soube, mas soube mesmo, que aquelas paredes a pedir lavagem já ali estavam quando eu nasci e ali vão continuar, talvez abrigando as festas de Natal dos meus bisnetos, muito depois da minha morte (estranho: já passeei por edifícios com milhares de anos sem ser agredido por este sentimento opressivo). Como é que a pedra e a alvenaria podem ser tão insensíveis à nossa finidade? Como é que se atrevem a ignorar a nossa degenerescência, mantendo-se frias e inalteráveis enquanto envelhecemos e mirramos?

Publicado por Luis Rainha às 06:24 PM | Comentários (5)

CATÁLOGO ANTI-COMPRAS DO BDE (III)

O item agora mencionado não é necessariamente mau, muito pelo contrário. Mas como tem uma delegação comercial em Portugal notavelmente eficiente e agressiva, parece-me necessário destacar alguns pontos fracos do produto.

O QUÊ:

A QUEM: Ao vosso tio quarentão, solteiro, desempregado, indigente, monocórdico, sem amigos, sem assunto, alcóolico, fedorento, maltrapilho, papa-jantares, com uma verruga gigantesca no nariz e olhar desesperado pois levou uma tampa da única namorada que teve na vida.

PORQUÊ: Pelos motivos óbvios. Mais vale organizar uma colecta na família para pagar a operação à verruga. Isto, claro, se nutrirem algum tipo de compaixão humana para com o vosso tio. Caso contrário dêem o livro à vontade.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:34 PM | Comentários (1)

TROPISMOS

Vi-me hoje de manhã sequestrado no teatro da escola do meu filho mais velho. A inevitável festa de Natal, está bom de ver. Lá dentro, o ambiente expectante, sobrepovoado e húmido do costume. Moles de pais ansiosos pelo momento de glória do rebento, hordas de mães com tiques rezando para que a menina não caia num entrechat mais audaz.
Como fiquei em pé, nas traseiras da sala, pude observar um side show fascinante: a dança das câmaras. Quando a luz ambiente diminuía, tornavam-se visíveis os monitores coloridos de dezenas de câmaras de vídeo, todas apontadas à sua criança. A cada novo quadro musicado, lá se erguia mais uma leva de ecrãs hiperactivos, antenas parabólicas sugando com precisão infalível sinais de um satélite longínquo, girassóis em busca do seu pequeno astro lá no palco.

Publicado por Luis Rainha às 04:30 PM | Comentários (3)

TÊM PROBLEMAS COM VIZINHOS RUIDOSOS?

Se for esse o caso, não vejam este filme.

Publicado por Luis Rainha às 03:24 PM | Comentários (1)

80 ANOS DE SURREALISMO: HANS BELLMER


"Boneca", 1935

Há precisamente 70 anos, surgiu no número seis da revista surrealista "Minotaure" um conjunto de fotografias que apresentou o mundo erótico de Hans Bellmer aos leitores franceses. Este trabalho intitulava-se "Boneca: Variações na Montagem de uma Menor Articulada". O seu modelo, por certo impossível de explorar com tal liberdade nos dias que correm, era uma boneca em tamanho humano com peças e juntas intermutáveis. Um meccano para adultos perturbados. Esta ninfa desarticulada, aquiescente e vulnerável, surgiu como o alvo perfeito para o amour fou dos surrealistas: a mulher-criança perversa e sempre disponível para os jogos eróticos mais extremos.
O alemão Hans Bellmer estudara desenho com Georg Grosz e foi ilustrador publicitário até abandonar a Alemanha. Em Paris, foi adoptado pelos surrealistas, que deliraram com os jogos de posturas das suas "Bonecas" e encontraram nos seus desenhos a clareza de traço necessária para ilustrar com detalhe os universos paróxisticos de Sade e Bataille. Estes eram encontros inevitáveis, claro está. Postulando que a morte é sempre um adereço indispensável às estratégias do desejo, Bellmer foi lapidar: "em cada corpo consciente da sua mortalidade, é a morte que, em última análise, fascina aquele que o possui".
A par com gravuras e desenhos bastante radicais no seu fetichismo de pendor sádico, Bellmer foi um produtor de objectos e pinturas em que o erotismo alcançou por fim a "beleza convulsiva" que o Surrealismo sempre perseguiu.

Publicado por Luis Rainha às 03:10 PM | Comentários (2)

ENCONTRO "INOVAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA"

Não me encontrando ainda neste fim de semana em Portugal, não me é possível, com grande pena minha, participar no Encontro "Inovação, ciência e tecnologia: condições para o desenvolvimento científico e tecnológico do País - bloqueios, estratégias e soluções", a realizar este sábado, dia 18, às 14:30 no ISCTE, em Lisboa. No entanto, enviei um pequeno contributo para o mesmo, que divulgo aqui.

Tal como muitos meus colegas da minha geração, frutos do investimento do anterior governo socialista na formação de recursos humanos, sou investigador de pós-doutoramento e procuro uma colocação permanente. Essa colocação é muito difícil de obter, e é voz corrente entre os meus colegas e o meio académico que para muitos de nós, jovens doutores, vai ser impossível obtê-la. A emigração ou uma mudança de ramo, para o qual não se estaria especialmente habilitado mas que tivesse maior oferta de emprego, parecem ser as hipóteses mais viáveis. Há ainda a hipótese, que deve ser considerada e fomentada, de muitos de nós irem trabalhar na indústria, preferencialmente a desenvolver trabalho de investigação em tecnologias de ponta.
Mas tal solução não é porém válida para investigadores de áreas mais puras do conhecimento, como a minha (física matemática). Para esses investigadores, manterem-se enquanto tal só é possível com uma carreira académica. Ora, a carreira universitária encontra-se estrangulada em Portugal, e urge reparar esta situação. Tal não é impossível, uma vez que há bastante oferta e deveria haver bastante procura. As minhas propostas são:
- revisão dos critérios de contratação de pessoa docente por parte de universidades e institutos politécnicos. Estatisticamente está demonstrado que a percentagem de docentes portugueses contratados pela universidade onde se doutoraram é altíssima. As universidades e politécnicos portugueses continuam, numa mentalidade de "preservar a escola", a preferir contratar exactamente o que já têm, o que já conhecem, a apostarem na inovação. Mesmo que essa inovação seja a investigação de ponta que se faz nos países mais desenvolvidos, e que o candidato que a propõe tenha muito melhor currículo do que o que acaba por ser escolhido. Por isso proponho, para cada contratação, um júri estrangeiro, ou com grande parte dos elementos estrangeiros;
- igualmente ainda hoje é frequente encontrarem-se "assistentes", sem doutoramento, já instalados como pertencentes ao quadro docente de universidades, uma característica em flagrante oposição ao que se pratica nos países mais desenvolvidos, nas melhores universidades. Tal procedimento nem estimula a investigação, nem permite seleccionar os melhores elementos a recrutar. Só depois do doutoramento, e quiçá de um pós-doutoramento, se pode averiguar a qualidade de um investigador. Um doutoramento deve ser visto como o início de uma carreira de investigação e não, como tradicionalmente em Portugal, como o seu topo. Por isto, proponho que se proíba desde já qualquer universidade ou politécnico de juntar aos seus quadros docentes permanentes indivíduos não doutorados. Os actuais "assistentes" devem ter exactamente o mesmo estatuto e regalias que os bolseiros, e devem concorrer com estes em pé de igualdade;
- finalmente, os rácios aluno/professor em Portugal ainda são muito altos. O tempo dispendido por um docente universitário português em actividades burocráticas, e mesmo em actividade docente, é mais alto do que o correspondente nos países mais desenvolvidos, em prejuízo das actividades de investigação. A única solução para este problema parece-me ser a contratação de mais docentes por parte das universidades. Para tal ser possível, tem de se abandonar o critério do número de alunos como único determinante do financiamento das universidades (embora, claramente, este critério nunca possa ser abandonado totalmente). Tal como os centros de investigação, a qualidade das universidades deve ser também importante no seu financiamento por parte do estado.
Recentemente vieram a público notícias de que, na sequência do Processo de Bolonha, as Universidades portuguesas poderiam deixar de ministrar os mestrados, ficando somente limitadas ao primeiro ciclo do ensino superior. Embora seja desejável o intercâmbio de estudantes, tal possibilidade traduzir-se-ia numa subalternização da universidade portuguesa que urge evitar. Para tal há que revitalizar as universidades portuguesas, quer renovando os corpos docentes (e aumentando a respectiva qualidade), quer introduzindo estímulos à investigação, premiando os melhores investigadores e facilitando a sua progressão na carreira. Tudo isto é possível no presente e no futuro próximo. Basta que haja vontade política.

Publicado por Filipe Moura às 11:30 AM | Comentários (7)

ESPÍRITO DE NATAL (2)


Cartoon de Boligan

Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (2)

MAPAS ANTROPONÍMICOS

Neste blog dedicaram-se a associar blogs mediante os nomes dos políticos mais mencionados.
Eu fiquei bastante impressionado por o MacGuffin ser o nosso gémeo perdido ou, pelo menos, a segunda pessoa a melhor cumprir a sua regra n.º 5 de bom bloguista de esquerda, depois de nós.
Por outro lado intrigou-me a associação entre o Aviz, o Barnabé e o Gato Fedorento. Ou melhor, não tanto a associação em si, mas o facto de estes serem justamente alguns dos blogs mais lidos. Será que o sucesso no Sitemeter assenta numa correcta combinação de políticos mencionados?

Publicado por Jorge Palinhos às 09:41 AM | Comentários (1)

dezembro 16, 2004

VOX POPULI (3)

Pelo que me contaram, os jornalistas da TSF que filtram as inscrições para participação no seu "Fórum" matinal usam desde há uns tempos uma maquineta deveras útil: esta é capaz de memorizar vários números telefónicos, identificando automaticamente a sua origem. Assim, passaram a dar nas vistas as inúmeras chamadas oriundas de sedes partidárias espalhadas pelo país. Mas nem assim desapareceu um peculiar hábito das máquinas de alguns partidos: destacar gente para ali botar faladura nas mais diversas ocasiões.
Nos dias que correm, nota-se bem a forma insistente como inúmeros ouvintes proclamam alto e bom som a necessidade de "substituir a alternância por alternativa", votando "em massa no PCP" nas próximas eleições. O timbre do falante varia, assim como as minudências gramaticais, mas o fundamental permanece inalterado, seja qual for o tema do dia. Se amanhã se discutir por lá a iminente extinção da Cegonha Preta, não irá por certo faltar um camarada a defender a tese de que "só com uma votação reforçada na CDU terão estes problemas solução".

Publicado por Luis Rainha às 07:22 PM | Comentários (3)

QUEREM ROUBAR-NOS O NATAL!

Lembram-se do Alberto João, há uns anos, denunciar a escassez de luzes natalícias pelas ruas de Lisboa como sinal de uma sinistra maquinação da Maçonaria para "descaracterizar o Natal dos portugueses"?
Não se riam, que a teoria tinha tantas pernas para andar que até saltou para o outro lado do Atlântico: o colunista conservador Bill O'Reilly juntou pistas importantes como a falta de símbolos religiosos nas escolas para concluir que o Natal está sob ataque cerrado de uma "anti-Christmas jihad". Claro que não é o Grinch quem está por detrás desta cruzada demoníaca; a culpa, naturalmente, é dos "secular progressives", essa praga que não deixa de assombrar os sonhos natalícios das boas almas direitistas de todo o mundo, do nosso Espada a este bizarro O’Reilly...

Publicado por Luis Rainha às 07:16 PM | Comentários (3)

VOX POPULI (2)

A "Bancada Central", da TSF, é talvez o programa de rádio mais estranho que conheço. Ali, todas as noites, comparecem sem falta os viciados do futebol, sequiosos de uns segundos de tempo de antena, famintos de eco para as suas alucinações. Na realidade, mais parecem habitantes de um qualquer universo paralelo, invariavelmente lar de uma tribo perseguida mas carregada de razão – o seu clube -, sempre liderada por indivíduos impolutos e quase sobre-humanos nas suas virtudes. Do outro lado das mil barricadas que se eriçam por estes mundos solipsistas afora, aguarda paciente e peçonhento "o inimigo", seja ele o Benfica, o FCP ou o Sporting.
Aquilo só ouvido. Começam sempre com uns agradecimentos melífluos ao moderador. Depois, vêm os elogios ao desempenho da sua equipa no último jogo. Por fim, chegam em bando os insultos aos participantes que ousaram declarar pontos de vista diversos, aos adeptos do "outro", aos árbitros, aos "sistemas" e a muitas outras entidades fantásticas. Um penalty incontroverso encontra sempre magotes de fanáticos capazes de o desmentir; o golo mais limpo descobrirá por certo hordas de detractores fundamentalistas. A paixão com que esta malta defende as suas cores não tem igual. Só imagino que se o nosso povo dedicasse uma fracção desta energia belicosa a coisas com pés e cabeça, por certo Portugal não estaria hoje a cair da tripeça.
Mas há uma melopeia hipnótica naqueles vozeares irados, quotidianamente às avessas com o mundo. Dou por mim, noite após noite, a remendar a solidão da viagem para casa com a toada monótona mas reconfortante dos zumbidos desincarnados que discutem sobre mais um jogo irrelevante, mais uma contratação ineficaz.
Reparem: não me parece coisa a proibir, esta catarse radiofónica tão animada quanto inútil. Quem serei eu para decidir que estas causas pequeninas são coisa má, só por distraírem os seus fiéis de outras? Serei melhor por poder vir para aqui escrever sobre o destino último de todas as coisas?
Não. Tenho até uma certa inveja deles. Gostaria de conseguir mudar-me para os seus mundos; onde as subtilezas são meias-tintas proscritas e tudo é claro e evidente. Sinto-me mesmo um pouco diminuído por não conseguir partilhar as alegrias, as fúrias e as leis rígidas que os governam: triste sou eu que não consigo aceder aos continentes, imunes a sismos, do clubismo futebolístico. Ali, a vida é mais tranquila e feliz. Ouço provas disso todas as noites.

Publicado por Luis Rainha às 05:12 PM | Comentários (13)

VOX POPULI (1)

Ouvido hoje no "Fórum TSF", a propósito das contorções de Paulo Portas: "esse senhor quer comer o coelho e ficar com ele no congelador!"

Publicado por Luis Rainha às 04:06 PM | Comentários (5)

PIADA EM TERCEIRA MÃO

«As telenovelas mexicanas parecem filmes pornográficos mas sem sexo.»

Publicado por José Mário Silva às 01:07 PM | Comentários (4)

ESPÍRITO DE NATAL

Publicado por José Mário Silva às 10:35 AM | Comentários (10)

AGUENTEM UM BOCADINHO QUE ESTÃO QUASE A CHEGAR AS TARTES...

Se fosse a primeira vez que o DN furava um embargo, não falaríamos de escrúpulos ou falta deles. Mas não era. Era - é - recorrente.

Depreende-se do exposto a perplexidade com que ontem deparei com o dito parecer nas páginas do Público, numa notícia de Catarina Gomes e que refere mesmo que o documento «foi suscitado por um questionário de uma jornalista do DN».

Publicado por Jorge Palinhos às 10:03 AM | Comentários (1)

"COMIGO NÃO, PASSARÃO!"

Umas ideias sobre a questão dos comentários no Barnabé.
Mesmo que isto não agrade muito à tutela (afinal, creio que foi o Zé Mário o autor da ideia), sempre achei essa história de que "um blogue com comentários é de esquerda; um sem comentários é de direita" uma refinada treta. Para o confirmar, temos o Blasfémias, o Jaquinzinhos, o Observador, de um lado, a Praia e a Causa Nossa do outro. Faz-me lembrar outra refinada treta: que quem tem preconceitos é a direita, e que a esquerda nunca tem preconceitos nenhuns.
Como eu adoro estereótipos, o meu estereótipo é outro. Os blogues de pessoas conhecidas, de "celebridades", os blogues de cromos (ou de candidatos a cromos), se quiserem, esses sim, nunca têm comentários. You name it: para além dos atrás citados, o Abrupto, o Aviz, o Terras do Nunca, a Glória Fácil, o Gato Fedorento, o Fora do Mundo... Algo que me parece perfeitamente aceitável: um cidadão conhecido será com certeza muito mais facilmente alvo de ataques pessoais, e é natural que, querendo ter um blogue, se queira resguardar.
A associação comentários/esquerda e vice-versa parece-me assente em duas premissas: a superioridade moral da esquerda e a superioridade moral dos blogues com comentários. Não vamos discutir agora a primeira ou não sairíamos daqui (embora seja chão que já deu mais uvas). Não aceito, pelo menos na totalidade, a segunda premissa, a segunda "superioridade moral". Um blogue é o que o seu autor quiser fazer dele. Ter ou não comentários, apagar ou não comentários, são decisões pessoais que só ao autor competem. Quanto muito pode chamar-se ao bloguista que não aceita comentários "cromo" ou "candidato a cromo". "De direita" parece-me exagerado e se calhar descabido.
Os Barnabés, em particular, tornaram-se, com todo o mérito, cromos (mais o Daniel que os outros, para dizer a verdade). São, em conjunto com o Pedro Mexia, os primeiros casos em que bloguistas se tornam cromos... graças à blogosfera. E merecidamente, repito. O Pedro sempre se precaviu, nunca aceitando comentários. Já os Barnabés estão ainda em fase de "cromagem"; vão conseguir, no futuro, estou certo, transpor o Rubicão: serem cromos e manterem os comentários.
Dito isto, já o fiz em privado a um deles e venho fazê-lo em público: solidarizo-me com a decisão do André e do Pedro suspenderem (espero que temporariamente) os comentários aos seus textos. Só quem não tem blogue ou tem um blogue muito pouco polémico, só quem nunca passou pela experiência de apagar comentários com o Movable Type 2.6 pode criticá-los. Aqui no BdE já passámos por essa experiência, às vezes numa luta em tempo real com o sabotador (que é o mesmo - a célebre RIAPA). E garanto-vos: com os passos que se tem que dar com o Movable Type 2.6, enquanto o autor apaga um comentário o sabotador já pôs outro, e mais quatro ou cinco cópias noutros textos. É uma luta desigual e extremamente ingrata e cansativa. É uma guerra de nervos.
Por isso, deixo esta sugestão aos Barnabés: evoluam para uma versão mais recente do Movable Type, muito mais poderosa para este tipo de tarefas e onde apagar comentários é muitíssimo mais cómodo. Entretanto, recomendo doses elevadas de serenidade e de Rui Tavares, que "homenageio" no título deste texto.

Publicado por Filipe Moura às 08:45 AM | Comentários (13)

dezembro 15, 2004

SUGESTÕES DE PRESENTES PARA SOGRAS E TAXIDERMISTAS ENFADADOS

Andava eu em busca de imagem apropriada para o meu post anterior quando dei com este maravilhoso site. Eles têm tudo para fazer do Natal uma ocasião mesmo inesquecível, dando a cada presente aquele toque pessoal que distingue as grandes almas.
Aqui, vendem-se réplicas de cabeças de pássaros e até peças avulsas como olhos, línguas, etc. É coisa em conta: a cabeça de perú que escolhi custa uns módicos 49 dólares, já pintada e tudo! Nesta outra secção, o entusiasta pode encomendar o réptil artificial de sua preferência, seja ele uma decorativa salamandra, um crocodilo ou um sempre útil sapo.
Mas como é que uma coisa destas não é anunciada na TV?

Publicado por Luis Rainha às 07:38 PM | Comentários (5)

CATÁLOGO ANTI-COMPRAS DO BDE (II)

Continuando:

O QUÊ:

A QUEM: Àquela vossa prima adolescente que sofre de anorexia/bulimia e é capaz de andar de decote e umbigo à mostra com temperaturas negativas.

PORQUÊ: Duas razões, fundamentalmente. A primeira é alimentar. Afinal uma dieta com base em peixe, pão, carneiro e tintol só pode dar mau resultado e ainda acabam com uma porteira do Frágil na família. A segunda é religiosa. É que se arriscam que a vossa inocente prima leve o livro demasiado a sério e passe de adolescente apática e hedonista a cristã fundamentalista cujo sonho é casar virgem. E a virgindade até ao casamento, meus amigos, foi a pior invenção da humanidade até à descoberta da bomba atómica.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:32 PM | Comentários (1)

E DE REPENTE SURGE UM BLOGUE DAQUELES QUE APETECE VISITAR VÁRIAS VEZES AO DIA

É o Red Series. É do wuz (um dos mais recentes comentadores do BdE). E é bom, muito bom, excepcionalmente bom, estupidamente bom.

Publicado por José Mário Silva às 07:31 PM | Comentários (2)

UM GOVERNO SEMPRE EM GRANDE FORMA

Mesmo moribundo e com o cadafalso bem à vista, este governo continua a cirandar por aí, fazendo o que sempre fez melhor: disparates. Agora, foi a secretária de Estado Sofia Galvão a vir emendar à pressa a sua declaração de que os jipes iriam passar a pagar menores portagens de auto-estrada. Afinal, não passou de mais um mal-entendido: a medida só se aplicará a monovolumes.
Ora digam lá se tudo isto não vos faz pensar num perú decapitado que persiste em correr pela casa fora, aos tropeções e encontrões à mobília, sem perceber muito bem o que lhe aconteceu.
E ainda vamos ter de levar com este espectáculo deprimente por mais uns meses.

Publicado por Luis Rainha às 06:53 PM | Comentários (3)

O INVERNO DO DESCONTENTAMENTO

Atrás de mim no expresso uma rapariga discute ao telemóvel com o namorado.
Na viagem de regresso, outra rapariga à minha frente, com rosto gelado, parece pôr fim a uma relação.
Nesta alturas lembro-me como vai longe a Primavera.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:27 PM | Comentários (0)

SEI QUE DANÇAS MAL; MAS AO MENOS VÊ SE NÃO ME PISAS!

Foi estranho ver uma separação ser comemorada face às câmaras da TV; mas ainda mais esquisita é a própria "declaração de intenções" que o par da foto assinou ontem. É tal a confiança que reina entre os dois partidos que se torna necessária uma garantia mútua de não embarcar em coligações com terceiros... denotando uma não muito pujante confiança na vitória.
Por outro lado, vai ser entretém hilariante observar as contorções que um PP ameaçado de morte vai ter de fazer para sobreviver sem pisar os calos ao PSD. Aliás, o espectáculo cómico já começou ontem, com um dos apaniguados de Portas – Pires de Lima - a garantir, na SIC Notícias, que grande parte do eleitorado que o PP se prepara para seduzir costuma votar à esquerda e até à extrema-esquerda. Julgam portanto eles que basta ciciar umas promessas aos reformados e urrar umas acusações aos "interesses económicos" para convencer alguém de que esta nova pele de cordeiro não é apenas um disfarce mal enjorcado e pronto a ir para o lixo à primeira oportunidade...

Publicado por Luis Rainha às 06:18 PM | Comentários (0)

O OBJECTO DE ARTE ÚNICO

Foi através de um artigo do Orwell que descobri a existência de livrarias que alugavam livros. Pensando bem, estes estabelecimentos faziam todo o sentido no início do século XX. Os livros eram caros e as bibliotecas públicas eram raras, concentram-se nos catrapácios esotéricos e científicos. Fazia mais que sentido alugar um livro num estabelecimento por uma pequena quantia, para o devolver dentro de um certo prazo.
Foi com os paperbacks, as novelas pulp e os Estados Providência que alugar livros deixou de fazer sentido.
Agora a Blockbuster anuncia que a partir de 2005 vai deixar de cobrar multas por entregas atrasadas, preferindo incentivar o cliente a comprar o filme. Isto, mais o preço descendente dos DVDs, faz-me pensar que dentro em pouco os nossos descendentes ficarão surpreendidos ao saberem que costumava haver estabelecimentos onde se alugavam filmes.

Mas a mim o que verdadeiramente me confunde é que quanto mais fácil e barato é reproduzir alguma coisa, maior parece ser a necessidade de possuir um exemplar próprio dessa mesma coisa.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:11 PM | Comentários (2)

O PIPI DOS INGLESES

A Belle de Jour, um blog anónimo inglês sobre a vida de uma "profissional", elogiado pela sua excelente escrita, vai ser convertido em livro. E:

"The moment we did the deal" for Belle de Jour's book, said Patrick Walsh, a literary agent who sold Belle's book in Britain, "I got calls from a Portuguese publisher - they were big fans of her blog in Portugal," and wanted the rights.
NYT

Pelo menos por uma vez ficámos à frente dos ingleses.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:03 PM | Comentários (0)

UM DOS GRANDES BILTRES DA HISTÓRIA REGRESSA HOJE À NOSSA TV

Quem acompanhou a sua "carreira" nunca esquecerá as facadas nas costas, as manobras sub-reptícias, o contínuo chorrilho de aldrabices, o vale-tudo-mas-mesmo-tudo para salvar o couro, a bajulação untuosa. Tudo isto é a marca de uma personagem ímpar, que tanto nos indigna pela absoluta falta de escrúpulos como diverte pela imaginação das aleivosias e patifarias várias. Hoje, os telespectadores lusos poderão reencontrar esta figurinha, recapitulando os episódios mais significativos de uma vida dedicada à infâmia. A partir das 22.30h, na RTP 1, Paulo Portas vai ser entrevistado.

Publicado por Luis Rainha às 11:33 AM | Comentários (6)

UM DOS GRANDES BILTRES DA HISTÓRIA REGRESSA HOJE À NOSSA TV

Quem acompanhou a sua "carreira" nunca esquecerá as facadas nas costas, as manobras sub-reptícias, o contínuo chorrilho de aldrabices, o vale-tudo-mas-mesmo-tudo para salvar o couro, a bajulação untuosa. Tudo isto é a marca de uma personagem ímpar, que tanto nos indigna pela absoluta falta de escrúpulos como diverte pela imaginação das aleivosias e patifarias várias. Hoje, os telespectadores lusos poderão reencontrar esta figurinha, recapitulando os episódios mais significativos de uma vida dedicada à infâmia. A partir das 23h, na SIC Comédia, Black Adder está de volta!

Publicado por Luis Rainha às 11:30 AM | Comentários (5)

A MELANCOLIA DO ORNITÓLOGO

Vai continuar sempre de olhos virados para o céu. À espera. Mesmo no dia em que eles já não voltarem, como voltavam.


Fotografia de Eadweard Muybridge

Publicado por José Mário Silva às 10:27 AM | Comentários (2)

ILUSÃO DE ÓPTICA

Ontem, no zapping nocturno, parei por momentos num jogo de futebol de beneficência, daqueles em que os craques se reúnem para jogar a passo, quase em jeito de brincadeira, e que terminam sempre empatados 4-4. De um lado, estavam os amigos de Ronaldo, vestidos de branco; do outro os amigos de Zidane, com um equipamento azul. O jogo, comentado enfaticamente por Gabriel Alves (igual a si próprio, alternando entre as exclamações — «Oooooooooooh, mas que perigo!» — e os CV’s completos dos «artistas da bola»), era mais entorpecedor do que cinco caixas de Lorenin engolidas de um trago. Foi então, entre dois bocejos, que reparei no que diziam as camisolas. Mas reparei mal: onde estava escrito «Match against poverty», eu li «Match against poetry». O que não deixava, aliás, de ser verdade.

Publicado por José Mário Silva às 10:09 AM | Comentários (1)

A HERANÇA

«Irresponsáveis são os que fogem. Incompetentes são os que fugindo deixam o país à beira do pântano.» — Santana Lopes, referindo-se aparentemente a António Guterres (ou seria a Durão Barroso?)

Publicado por José Mário Silva às 09:59 AM | Comentários (4)

PRIMEIRO-MINISTRO "CALIMERO" VS PRESIDENTE "CAUDILHO"

«Contra a injustiça que foi feita, os portugueses vão fazer justiça.» — Santana Lopes, na conferência de imprensa conjunta com Paulo Portas

Publicado por José Mário Silva às 09:45 AM | Comentários (0)

VAMOS DAR UM TEMPO À RELAÇÃO E DEPOIS, SE AS COISAS CORREREM BEM, REPETIMOS A LUA-DE-MEL, OK?

PSD e CDS concorrem em listas separadas, com um acordo pós-eleitoral.

Publicado por José Mário Silva às 09:18 AM | Comentários (0)

dezembro 14, 2004

CATÁLOGO ANTI-COMPRAS DO BDE (I)

E assim entrámos na Saturnália, com as suas grandes comezainas, bebezainas, consumo desenfreado e sexo sem fim.
Nesta época é frequente os meios de comunicação darem-nos as suas recomendações natalícias para nos ajudar a descobrir aquela prenda especial.
Aqui no BdE, como somos contra o consumo e a favor do consumidor, vamos, pelo contrário, dar dicas do que NÃO devem oferecer e a QUEM não o devem oferecer, explicando, obviamente, as razões da recomendação. Deste modo, pretendemos tentar minorar os conflitos, zangas familiares, cortes de relações, depressões e suicídios tão frequentes nesta época.
Para começar:

O QUÊ:

A QUEM: Ao vosso sobrinho/primo/filho de seis anos.

PORQUÊ: Todos sabemos que os berbequins são prendas utilíssimas, práticas para furar a parede e a canalização, rachar madeira e bifes congelados e provocarem discussões com os vizinhos. Para os petizes têm ainda os encantos de se parecerem extraordinariamente com pistolas laser, serem montáveis e desmontáveis e criarem a música ambiente ideal para acolher os pais recém-chegados do trabalho.
Apesar destas múltiplas qualidades, os berbequins apresentam um grave defeito: não cumprem as normas ISO 50:2002 de segurança infantil. Ora, é muito importante obedecer às normas ISO 50:2002 de segurança infantil. Caso contrário, sujeitamo-nos a que nos ponham a fazer a "Viagem Mágica pelo fenómeno das normas ISO 9000 e ISO 14000".


Publicado por Jorge Palinhos às 07:21 PM | Comentários (5)

11 DE SETEMBRO DOS CHULOS

Suspeita-se que um entregador de pizzas marroquino queria fazer um atentado bombista à "red light district" de Amsterdão.
Pronto, isto foi o que bastou para me convencer da necessidade de combater o terrorismo e eliminar as suas causas para ter um mundo mais seguro, alterando assim radicalmente a minha anterior opinião de que era necessário combater o terrorismo e eliminar as suas causas para ter um mundo mais seguro.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:11 PM | Comentários (1)

TRATAR DA SAÚDE

No restaurante, enquanto almoço, o televisor debita uma daquelas intermináveis pepineiras em que a TVI se especializou nos últimos anos. Desta vez, a mega-xaropada tem como singelo título «Há Festa no Hospital», é transmitida em directo a partir do D. Estefânia e apresentada pela parelha Carlos Ribeiro (quem mais poderia ser?) e Marisa Cruz.
No palco, sucedem-se os pimbas: uma morena com o barrete do Pai Natal, toda sorrisos, cheia de «amor para dar ao mundo»; uma loira histérica a gritar «Gu-gu-dá-dá, gu-gu-dá-dá, gu-gu-dá-dá, gu-gu-dá-dá» sobre uma batida techno daquelas que já vêm programadas nos sintetizadores manhosos; e o inoxidável Quim Barreiros, com o acordeão em riste, trauteando uma extraordinária cançoneta que tem como ideia central o verso «Eu cá gosto é de chuchar nas tetas da cabrinha». A assistir a tudo, impávidas mas pouco serenas, as crianças internadas: umas doentes, outras em convalescença.
Diante desta emanação do terror audiovisual, pergunto-me: é assim que tratam da saúde aos nossos infantes, nos hospitais públicos? Como se os problemas clínicos não bastassem, ainda há quem force os pequenos a torturas psicológicas (aturar a bonomia plastificada de Carlos Ribeiro) e a sessões contínuas de radioterapia (entendida aqui como a versão ao vivo de um transístor fanhoso, sintonizado em estações com playlist da Espacial)? Que médicos é que permitem semelhante barbaridade? Onde é que param as comissões para a protecção de menores quando precisamos delas?
Responda quem souber.

Publicado por José Mário Silva às 05:41 PM | Comentários (10)

"TOCA QUALQUER COISA TRISTE"

Dia 25 de Novembro, a foto da esquerda saiu na primeira página do Haaretz. Wissam Tayem, um palestiniano que se dirigia para uma aula de violino, foi, ao que tudo indica, forçado a tocar "qualquer coisa triste" pelos soldados israelitas de um checkpoint perto de Nablus. O rápido inquérito da IDF concluiu que fora o violinista a oferecer-se para tocar, no que foi desmentido pelo próprio e pela activista (israelita) da Machsom Watch que filmou o incidente.
Tal bastou para inflamar a opinião pública israelita; muito mais até do que recentes notícias sobre a morte de uma miúda de 13 anos ou sobre a exibição de restos humanos como troféus de guerra por parte de soldados ultra-ortodoxos. O comentador de direita Uri Orbach foi o primeiro a denunciar o óbvio paralelo entre aquela cena deplorável e os judeus que foram forçados a tocar, até em orquestras, para deleite dos guardas dos campos de concentração alemães (a imagem da direita foi colhida em Westerbork). Yoram Kaniuk, autor de um romance sobre a vida de um palhaço judeu obrigado a divertir os condenados a caminho das câmaras de gás, afirmou que os soldados responsáveis deviam ser julgados "não por ofensas aos árabes mas sim por desgraçar o Holocausto". Mais: se eles não forem julgados, "não teremos direito moral de falar de nós como um estado que se ergueu do Holocausto", pois "a nossa existência nesta região árabe foi justificada, e ainda é, pelo nosso sofrimento; pelos violinistas judeus nos Campos".
O editorialista do Haaretz bem avisou que, afinal, uma imagem não vale mais do que mil palavras; precisa sempre de um porta-voz. Neste caso, foi a mais estrutural e sombria memória da nação judaica que tratou de interpretar a imagem de Wissam Tayem agarrado ao seu triste violino. Assim, é esta ofensa à tragédia fundadora de Israel, não um sem-fim de atrocidades e crimes, que pode enfim levar todo um povo a dar atenção à advertência de Nietzsche: "aquele que luta com monstros deve acautelar-se, para não se tornar também num monstro".

Publicado por Luis Rainha às 02:39 PM | Comentários (4)

A FANTÁSTICA TIA DOS 300

Certeira e brilhante, esta crónica de Miguel Gaspar, no DN.

Publicado por José Mário Silva às 02:14 PM | Comentários (2)

UMA MÁ IMAGEM PODE SER FATAL; E NÃO SÓ PARA OS POLÍTICOS

Um júri californiano acaba de condenar um homem à morte sobretudo porque "ele não mostrou emoções, nada", durante as audiências. Para os jurados, "isso falou mil palavras"; loquacidade bastante para ultrapassar a falta de provas materiais da culpa do condenado, ao que parece. Lá fora, como mostra a foto, a turba aplaudiu esta decisão em delírio.

Publicado por Luis Rainha às 11:55 AM | Comentários (26)

SURREALISMO DO INBOX

Alguns títulos na minha caixa de mensagens:

Re: Re: Message
Network Associates Webshield - e-mail Content Alert
Ïîäàðè êóáèíñêèå ñèãàðû
87 de A.rbil, i.ndice de c.ontenidos c.ompleto
Íå Ïðîïóñòèòå!
EL PP SIEMPRE CULPABLE
Re: Your picture
gutted
Hello
Re: original
Cinzeiros de aluminio
We have all the meds you want and need, come look here
here, the introduction
Re: Document
Banned file: my_details.pif in mail from you
A CENTRAL DO GADO PROCURA PÁRCEIROS NO GADO


Fotos minhas, documentos, introduções, drogas, cinzeiros de alumínio, originalidade e gado... Que mais pode um tipo desejar?

P.S. - Solicitava ao autor da mensagem "Ïîäàðè êóáèíñêèå ñèãàðû!" que me contactasse com urgência para possível negócio chorudo e de futuro.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:14 AM | Comentários (4)

O ATAQUE DOS "ÁCAROS"

Ontem, durante quase três horas (17h30-20h15), o universo weblog.com.pt esteve off-line. Ainda julguei que a quebra se devesse a uma qualquer réplica do terramoto, capaz de danificar os servidores do Paulo Querido, mas afinal o que se passou foi bem pior: um ataque de hackers. Mas quem é que se dá ao trabalho de sabotar o direito de expressão livre, na internet, de 1271 blogues? A quem é que pode interessar o silêncio forçado de tantas vozes? Temo que as respostas sejam ainda mais preocupantes do que as perguntas.

Publicado por José Mário Silva às 10:33 AM | Comentários (9)

NOTÍCIAS DA MARMELEIRA

Acaba de surgir um novo blogue que se auto-intitula «Página da Biblioteca Popular da Vila da Marmeleira». Ora sabendo muito bem qual é de facto a mais popular biblioteca daquela localidade, suspeito que o blogger por detrás deste projecto, apesar das iniciais BPVM da assinatura, é aquele em que vossas mercês estão a pensar.

Publicado por José Mário Silva às 10:29 AM | Comentários (1)

A DIFERENÇA ENTRE A DIREITA E A ESQUERDA

PSD:
O PSD manifestou-se hoje confiante numa vitória nas eleições legislativas antecipadas de 20 de Fevereiro e excluiu o CDS/PP da lista de adversários durante a campanha.

PS:
Eleições: PS pede voto útil a todos os que se opõem à coligação PSD/CDS-PP

No País Relativo, este meu homónimo, que eu geralmente gosto tanto de ler, afirma que "o que é melhor para a esquerda não é necessariamente melhor para o Bloco. Com a mobilização do «povo de direita», e tendo em conta o sistema eleitoral, a esquerda só pode votar PS".
Entretanto o suposto "líder" do Bloco de Esquerda, todo ufano, já anunciou que não está disposto a ser o Joschka Fischer português.
Quanto ao PCP, por escolha própria, por sua culpa, é um partido cada vez mais isolado e distante da sociedade. Tem "má imprensa" (sempre teve, ao contrário do Bloco), mas não é essa a razáo principal.
A esquerda portuguesa entende-se desentendendo-se.

Publicado por Filipe Moura às 08:45 AM | Comentários (9)

A TENTAÇÃO DO DISPARATE

Numa das últimas sessões do concurso "Quem quer ser milionário", foi pedida a um concorrente a identidade do autor de "A Tentação de S. Antão". Depois de muita hesitação, o homem lá chegou a uma escolha entre dois pintores: Salvador Dali e Hieronymus Bosch. Decidiu-se pelo primeiro. Bzzzz! De imediato ouviu o aziago besouro: resposta errada.
Asneira da produção, claro está. É certo que uma das duas obras que Bosch pintou com esse nome está no nosso Museu Nacional de Arte Antiga. Mas é igualmente certo que Dali também fez obra com o mesmo título e tema: as tentações a que foi sujeito o pobre S. Antão, a.k.a. S. António, o Egípcio...

Publicado por Luis Rainha às 12:05 AM | Comentários (3)

dezembro 13, 2004

O ESTRANHO MUNDO DE PAULO PORTAS

"Sem qualquer sentido", "desconexas" e "desinformadas". Assim classificou João Salgueiro as recentes declarações de Paulo Portas sobre os motivos que terão levado Jorge Sampaio a correr com Santana. Que tal decisão tenha resultado da "pressão de uma parte do sector financeiro dirigida e destinada a conseguir que permaneça um sistema fiscal injusto" é um insulto grotesco e rasteiro. Insinuar que o PR anda a reboque dos grupos económicos de onde provém grande parte do governo é, além de mal-educado, ver o mundo ao contrário. O PP e o PSD vítimas da sua revolucionária luta para obrigar os bancos a pagar mais IRC... nem no "Inimigo Público" de tal se lembrariam.

Publicado por Luis Rainha às 08:22 PM | Comentários (2)

SERÁ DESTA?

Augusto Pinochet acaba de ser considerado, pelo juiz chileno Juan Guzmán, apto a enfrentar julgamento e já recebeu ordem de prisão domiciliária. A defesa reclama que a detenção do ogre é uma "perseguição política" e um atentado aos... "direitos humanos".

Publicado por Luis Rainha às 08:21 PM | Comentários (4)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Depois de «50 Poemas para a Blogosfera» (Hugin), de Luís Carmelo, os blogues continuam a fornecer matéria de inspiração para os nossos poetas, mesmo aqueles que nunca se aventuraram por escrito nestes meandros internéticos. É o caso de Fernando Pinto do Amaral, que publicou no seu último livro («Pena Suspensa», Dom Quixote) os seguintes versos:


BLOG

Mantivera no fim da adolescência
aquilo a que chamava simplesmente
o seu diário íntimo:
páginas manuscritas onde ardiam
rastilhos de mil sonhos que rasgavam
as mordaças da angústia social,
a timidez tão própria da idade.

Nessa caligrafia cuja cor
fora ainda a do sangue
colheu a energia necessária
pra atravessar como um sonâmbulo
o ordálio daquela juventude,
o seu incandescente calendário
de amizades vorazes, tão velozes
como os amores que julgava eternos
e outras feridas mal cauterizadas.

Hoje quase não volta a essas páginas:
estamos no século XXI
e em vez do diário de outros tempos
mantém agora um blog
onde todos os dias extravasa
recados, atitudes, confissões,
coisas no fundo tão inofensivas
como o fogo que outrora lhe acendia
as frases lancinantes
— embora hoje em dia quando escreve
tenha por um momento a ilusão
de que as suas palavras continuam
a propagar ainda o mesmo vírus,
e a alimentar, quem sabe, os mesmos
sonhos
sempre que alguém desconhecido as ler
como quem só assim escutasse
um segredo na noite do mundo.

Mas, apesar de todo o entusiasmo
que o mantém acordado por noites sem fim,
ele adivinha que também virá
um dia a abandonar sem saber como
o seu actual vício solitário
e dentro de alguns anos, ao reler
as frases arquivadas no computador,
talvez tudo isso lhe pareça então
fruto de gestos tão adolescentes
como os que antigamente preenchiam
esses cadernos amarelecidos
e hoje sepultados para sempre
em esquecidas gavetas de outro século.

Publicado por José Mário Silva às 04:47 PM | Comentários (2)

AS ESCALAS DE RICHTER

Hoje senti, finalmente, o que é um verdadeiro tremor de terra, dos que agitam as agulhas dos sismómetros. Mas o outro, o que vi nascer dos dedos de Sviatoslav, há uns anos (no CCB e no Garcia de Resende, em Évora), foi muitíssimo mais intenso.

Publicado por José Mário Silva às 04:42 PM | Comentários (2)

5,4

O sismo de ainda há pouco atingiu os 5,4 na escala de Richter. Digam o que disserem, já é um abanão valente.

Publicado por José Mário Silva às 03:07 PM | Comentários (5)

CONSEQUÊNCIAS IMPREVISTAS DA QUEDA DO GOVERNO

Sim, Luis, a terra também tremeu aqui no centro de Lisboa, a dois passos do Marquês de Pombal (logo ele).
Só não sei se o epicentro do sismo esteve em Belém ou em S. Bento.
Aguardemos o parecer do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica.

Publicado por José Mário Silva às 02:27 PM | Comentários (0)

ESTE PAÍS ESTAVA MESMO A PRECISAR DE UMA SACUDIDELA

A terra também tremeu para vocês?

Publicado por Luis Rainha às 02:19 PM | Comentários (11)

MAIS UMA RESPOSTA À ANGUSTIADA QUESTÃO DE SANTANA LOPES

Perguntou o calhau com gel, quando se viu na iminência de perder o tacho: "porquê agora, quando há sinais de retoma económica e de avanços nas reformas estruturais?".
Em busca de respostas, não vou recapitular o estendal de cretinices, tiros no pé e baboseiras várias em que se pode condensar o consulado santanista. Mas vou dirigir a vossa atenção para estas previsões que a Economist Intelligence Unit, do venerando "The Economist", faz para 2005. Sabem onde nos levarão a tal "retoma" e os supostos "avanços"? À lista dos 20 países com menor crescimento económico do mundo. Tão simples quanto isto.

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (8)

AI É? ENTÃO, VOU-ME EMBORA!

Lembram-se de um político, até então famoso apenas por dar espectáculo nos congressos do PSD e nos cruzeiros da Kapital, que anunciou a sua saída da arena política por ter sido alvo de uma caricatura impiedosa num programa do João Baião? Para mal dos nossos pecados, tratou-se apenas de mais uma promessa vã; o fulano, de seu nome Pedro Santana Lopes, continuou em busca da tal glória que "estava escrita nas estrelas" - segundo previsão do próprio, num arroubo místico que lhe valeu, por parte de Durão Barroso, o célebre apodo de "misto de Zandinga com Gabriel Alves" – até que conseguiu escalar os muros mal guardados da residência oficial do primeiro-ministro.
Pode ter mudado o poleiro da criatura; ela é que continua a mesma tristeza. Agora, sabemos que se incomodou com a menção de Jorge Sampaio à sua evidente "falta de credibilidade" e ponderou seriamente abandonar o governo, deixando-o entregue à sua sorte ou, pior ainda, a Álvaro Barreto. Foi preciso que Paulo Portas e Morais Sarmento o dissuadissem do que seria uma clara deserção em combate e o início de uma crise sem precedentes nem resolução constitucional clara.
Mas como é que alguém com meio dedo de testa ainda continuará a considerar a hipótese de votar em semelhante mentecapto?

Publicado por Luis Rainha às 12:35 PM | Comentários (10)

KÁTIA AMOT TÓTIL! ÉS O MOR DA MNH VIDA.

Responsáveis da Casa de Julieta em Verona querem substituir as cartas de amor que os visitantes deixam por um ecrã gigante e SMS.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:02 PM | Comentários (2)

COMO ROUBAR UM PLANETA

Documentos recentemente revelados demonstram como a comunidade científica inglesa do séc. XIX enganou os franceses para reclamar para si o crédito de descobrir o planeta Neptuno.

Sabemos que o capitalismo chegou ao espaço quando começa a haver roubo de propriedade privada.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:34 AM | Comentários (3)

DESTAQUE NO DESTAK

Na edição de hoje do «Destak», o jornal gratuito que é oferecido a quem frequenta os transportes públicos, há uma citação de um post do BdE (este, do Luis) numa rubrica chamada «Blogosfera». Faz sentido. Eu sempre desconfiei que um dia seríamos recompensados por todos os textos que neste blogue se publicam com referências, mais ou menos explícitas, ao metropolitano e aos seus passageiros.

Publicado por José Mário Silva às 11:33 AM | Comentários (4)

UMA BOA NOTÍCIA

A obra completa de Rainer Maria Rilke vai ser publicada pelas Edições Asa, a partir do próximo ano, numa colecção dirigida por Yvette Centeno.

Publicado por José Mário Silva às 11:31 AM | Comentários (0)

DIÁLOGOS PÓS-FESTA

-Tu és de Lisboa?
-Não, sou da Covilhã. Mas já que tu és de Lisboa, explica-me lá: Lisboa é do centro ou do sul? Eu aprendi na escola que o sul era só a sul do Tejo. Lisboa deveria ser do centro, mas ouve-se constantemente que é do sul!
-O centro em Portugal não existe. É uma invenção. Em Portugal só faz sentido considerar o norte e o sul. O centro é quanto muito uma zona de transição entre o norte e o sul.
-Desculpa, eu aprendi que Portugal estava dividido em distritos, que por sua vez faziam parte ou do norte, ou do centro, ou do sul.
-Não há razão nenhuma para considerar um centro. O norte distingue-se perfeitamente do sul no clima, na relação com Lisboa, na forma como votam, e sobretudo no poder e influência que a igreja detém.
-Se só há norte e sul, se a divisão é assim tão simples, o que dirão por exemplo os parisienses? Devem referir-se ao que chamas "norte" como sul, não? E consideram-se a eles próprios "norte". Já os escandinavos dirão que os parisienses são do sul!
-A divisão norte/sul é a única divisão real, que não é artificial ou inventada. Viu-se perfeitamente os seus contornos no verão quente de 1975, por exemplo. O "centro" era só a separação entre o norte e o sul. Era uma linha que passava ali por Rio Maior. Talvez abarcasse uns concelhos, mas pouco mais. Para ver que a divisão norte-sul é suficiente, basta considerares o referendo do aborto. O norte votou de uma maneira, o sul votou de outra. Se queres arranjar uma outra categoria para além do norte e do sul, primeiro tens de arranjar uma outra resposta, para além do "sim" e do "não", ao referendo do aborto.

Publicado por Filipe Moura às 11:14 AM | Comentários (4)

HÁBITOS ANTIGOS

Tocavam os Xutos, O Homem do Leme ao vivo. Há uma altura em que o Tim canta o Atirei o Pau ao Gato. Um casal de estudantes de Coimbra, enquanto dançava, gritava: «Não pagamos! Não pagamos!»

Publicado por Filipe Moura às 11:11 AM | Comentários (0)

DIÁLOGOS DURANTE A FESTA (II)

-Estás sempre a queixar-te de que ninguém respeita os físicos teóricos! Mas repara que até o The New York Times dedica, com frequência, atenção à teoria das cordas!
-Pois, mas o The New York Times respeita o direito internacional, não respeita? Eu acho.

Publicado por Filipe Moura às 08:25 AM | Comentários (0)

dezembro 12, 2004

INVARIAVELMENTE, PELUCHES

Compreendo perfeitamente que se ofereçam peluches aos miúdos. Agora, nas festas de Natal onde é suposto adultos trocarem prendas no valor de 3€, poderia haver um pouco mais de originalidade. Para que serve um peluche para um adulto? Serve simplesmente para manter viável uma indústria de mão-de-obra barata made in China e o negócio das lojas dos 300. Mas mesmo nas lojas dos 300 encontram-se coisas muito melhores e mais originais. Só que é para isso que a troca de prendinhas nestas festas de Natal serve: para trocar peluches.

festanatal.jpg

(Inscrevi-me à última hora na festa e não me disseram nada da troca de prendas, que foi uma iniciativa à parte de alguns dos residentes, pelo que não me inscrevi. E fiquei sem peluche...)

Publicado por Filipe Moura às 06:31 PM | Comentários (6)

DIÁLOGO DURANTE A FESTA (I)

-Olá, eu chamo-me Filipe. E tu?
-Eu chamo-me C...
-Prazer em conhecer-te. Que fazes aqui em Paris?
-Eu estudo direito internacional. E tu?
-Eu faço física teórica. Já temos portanto uma coisa em comum.
-O quê? Não vejo o que possa haver em comum.
-Ambos trabalhamos em áreas muito desprezadas nos tempos que correm.

Publicado por Filipe Moura às 06:25 PM | Comentários (1)

J'HABITE À LA CITÉ

É tempo de festas de Natal, também aqui na Cité Universitaire. Por ter vários amigos na Casa de Portugal, apesar de lá não viver, fui convidado para a festa de Natal dos residentes este sábado. Na sexta feira havia ainda uma pequena festa na minha casa, organizada pelos meus vizinhos. Em qualquer caso, era suposto levar algo de comer ou beber, de preferência uma especialidade gastronómica do meu país. Tenho tido muito pouco tempo livre disponível pelo que, apesar de gostar muito de cozinhar e nem cozinhar nada mal, em ambos os casos perguntei se não poderia levar algo simples, se possível já preparado. E das duas vezes me responderam que poderia sempre trazer vinho, pois isso nunca era a mais.
Eu deveria ter adivinhado: trata-se de festas na Cité Internationale Universitaire de Paris...

Publicado por Filipe Moura às 06:21 PM | Comentários (7)

ADEUS, OVELHA NEGRA

O PSR transforma-se hoje numa associação política (APSR).

Publicado por José Mário Silva às 06:15 PM | Comentários (0)

JÁ DIZIA O EÇA

«Este governo não cairá porque não é um edifício, sairá com benzina porque é uma nódoa.» (Citação enviada pelo leitor Tiago Faro Pedroso)

Publicado por José Mário Silva às 06:12 PM | Comentários (0)

VAMOS TER SAUDADES

Agora que o governo se demitiu, depois de ter sido mais ou menos demitido, instala-se uma certa dose de nostalgia. Quando aparecerá outro primeiro-ministro assim? Quando voltará a bastar-nos apreciar o espectáculo autofágico do adversário que se agride a si mesmo, que todas as semanas inventa novos esquemas para se tramar? Quando terá de novo a Esquerda uma tão visceral certeza de que é capaz de fazer - que vai fazer - muito melhor?
Pois é. O circo está a acabar. Por um lado, certo é que cada nova palhaçada divertia a plateia mas custava a todos nós mais uns meses de atraso, mais uns centímetros de descida na areia movediça. Por outro lado, vamos ter saudades dos bufarinheiros incapazes e parlapatões que tão naturalmente inspiravam coisas como esta montagem do nosso amigo bin tex. Ora digam lá se a expressão do Mogais Sagmento não está tal e qual a carita de enterro que ostentou durante o hara kiri de ontem? Haverá melhor corporização do conceito de "amigo da onça" que aquele sorriso do Paulinho das Feiras? E o Barroso, não fica a matar no papel do herói que anda lá por fora a fazer pela vida? O Santana, claro está e como agora diz o pessoal que aparece na TV, surge igual a si próprio: canastrão, plastiquento, obsoleto.
Ainda vamos ter saudades destes dias de humor fácil. Mas não muitas.

Publicado por Luis Rainha às 12:51 AM | Comentários (13)

dezembro 11, 2004

PRIORIDADES

Uma tarde inteira a montar estantes Billy. Antes da blogosfera, é preciso arranjar espaço para a logosfera.

Publicado por José Mário Silva às 11:10 PM | Comentários (2)

À MESA COM A MINHA PERSONAGEM

Antes do 25 de Abril, isto não era nada assim. Quando a minha família chegava à casa de província, encontrava-a limpinha e quente, e nunca faltava uma bela sopa de couves a fumegar no fogão. Por vezes, éramos convidados para um jantar no domicílio dos caseiros; eram ágapes sempre pitorescos e animados. Sobretudo na fase em que as galinhas se aventuravam sala adentro.
Agora, o mundo é outro. Os galináceos perderam a parca liberdade de que desfrutavam antes da viagem para a caçarola. E as minhas excursões à Beira mudaram muito. Por exemplo, passei hoje horas na cozinha a preparar uma grandiosa dobrada com feijão... para o caseiro. Pontualmente, ele lá chegou acompanhado da mulher e de alguns litros de vinho novo, em coloridas botelhas de Sumol (descobri assim o porquê da quantidade inaudita de garrafas de sumos que juncam a propriedade; e imaginava eu que a temperança tinha conquistado os trabalhadores rurais das redondezas...). O almoço demorou para aí umas duas horas e meia, entre histórias pícaras e quadras populares em que "quartilho" rima inevitavelmente com "estorvilho"; tudo acompanhado por sonoras séries de brindes que incluem sempre o optimista "que as nossas mulheres nunca fiquem viúvas!"
Mas nem precisei de apelar à minha costela estóica para me divertir; bastou-me recordar o uso que fiz, à má fila, da figura daquele homem, numa coisa que escrevi há uns tempos. E sorria-me para dentro por estar a almoçar com uma pessoa real, tão solidamente concreta, e, ao mesmo tempo, com uma personagem de ficção - de corpo gémeo mas alma algo diversa. Ao terceiro copo, já eu esquecera a fronteira entre as duas, fingindo ignorar que uma tinha mais direito à existência do que a outra. E comecei a aguardar que os nossos diálogos se acomodassem aos inventados carris da minha narrativa. Claro que não tive sorte nenhuma; a realidade pode ocasionalmente ultrapassar a ficção, mas hoje não estava para aí virada.
Pensando bem, a trabalhosa dobrada até foi parco agradecimento para o involuntário empréstimo que o bom do Alberto me fez.

PS: eis uma amostra dos maus tratos a que sujeitei o simpático caseiro, depois de o metamorfosear em potentado campestre:
"- Seja bem-vindo à Casa do Pelourinho. – em contra-luz, postado de braços abertos à entrada da sala de jantar, estava o que quase lembrou a Carlos um pequeno urso. Só quando os seus olhos se habituaram à claridade da sala começou a distinguir as feições inchadas do homem, um verdadeiro colosso rural: entroncado, barrigudo e com um patusco blazer sobre uma camisa de flanela aos quadrados. - O meu modesto estabelecimento de Turismo de Habitação recebe-o com o maior dos prazeres.
- Boa noite... – tartamudeou Carlos, ainda a adaptar-se à escala, à estranheza desmesurada da casa.
- Alberto Crespo, um seu criado – e o urso estendeu-lhe a mão num aperto de torno mecânico."

Publicado por Luis Rainha às 07:59 PM | Comentários (2)

WWW.DÊUMTACHOAOMANEL.COM

Monteiro Não Exclui Entendimentos com o PS

Publicado por Jorge Palinhos às 12:59 PM | Comentários (11)

A MINHA VAGA DE FRIO

Aqui estou eu, sitiado em plena Beira Alta. Dentro de uma casa esburacada por gerações de térmitas, ratos, pequenos cataclismos quotidianos. Numa sala batida por minúsculas correntes de ar, penetrantes como agulhas a pingar curare. Lá ao longe, o sopé da Serra. Algures entre os novelos de chumbo que mais parecem glaciares em avanço acelerado, esconde-se o cume nu da Torre. Nada de neve; acho que deve estar frio demais para nevar. Se agora caísse água do céu, chegaria cá abaixo sob a forma de blocos de gelo do tamanho de vacas mertolengas.
Mais do que as articulações perras, do que o nariz a pingar, do que os espirros em sessão contínua, irrita-me ver o caseiro, uma montanha grisalha de 70 anos, passarinhar lá por fora como um reformado a bronzear-se ao sol lânguido da Flórida. Não é coisa humana andar a assobiar alegremente por entre árvores decoradas com o tão típico e frígido cinzelo; o homem só pode ter vendido a alma ao Demo ou o corpo ao álcool (não que esse paliativo químico me possa ajudar: eu só gosto de long drinks disparatadamente gélidas). Nem a mãe Natureza se dá bem com este frio pavoroso: nos campos nada mexe, nada cresce, nada apodrece (Deus deve ter guardado por aqui algo que quer comer mais tarde). A meio dos lameiros da casa, está há horas um pássaro congelado em pleno voo, cem metros acima dos espantalhos que tiritam em silêncio. Acreditem; bem podia ser verdade.
Nestes dias abaixo de zero, o meu cordão umbilical é o fio tão frágil que liga a casa à EDP. Ele zumbe de esforço dia e noite, penando para alimentar a bateria de aquecedores espalhada pela casa fora. De quando em vez, o esforço é demasiado e lá se vão os fusíveis e lá vou eu à rua; debaixo de uma carapaça de artigos de lã, rezando para que não haja avaria grave.
Daqui a pouco, congela a água dentro dos canos. A seguir, é o sangue nas minhas veias. Se não chegar à noite rígido de álgido, vou ter de angariar coragem para ir lá fora apanhar lenha. Amanhã à mesma hora, se isto continua assim, vou ter de ir lá fora buscar umas pazadas de ar sólido.
Quando ouvir de novo falar na ameaça que as vagas de frio representam para os idosos, não vou voltar a encolher os ombros; já sei que aquilo também é comigo.

Publicado por Luis Rainha às 12:32 AM | Comentários (10)

«ABRE AS PORTAS: LÊ A LUZ»

Publicado por José Mário Silva às 12:17 AM | Comentários (2)

dezembro 10, 2004

O MERCADO É DANADO

Hoje à tarde, andava pela TV um estilista pós-moderno de saias e ademanes bastante femininos. Comentário homofóbico de uma espectadora cá de casa: "eu não confio nada nesta gente para nos vestir. Eles têm todo o interesse em que andemos por aí ridículas e feias; é da maneira que cortam as pernas à concorrência..."

Publicado por Luis Rainha às 08:30 PM | Comentários (2)

O ÚLTIMO E MAIS BATIDO DOS ARGUMENTOS

O Rodrigo interpelou-me acerca da hipotética superioridade estética da direita sobre a esquerda.
Em termos artísticos, o argumento é tão defeituoso que devia ter aborto mandatório. Ó Rodrigo, então e os gostos artísticos dos taxistas manhosos, das beatas fedorentas, dos reformados indignados, das feirantes beijoqueiras, dos camponeses suados e das mulheres-a-dias coscuvilheiras, com a sua devoção pelo Nel Monteiro e pelos Malucos do Riso, eternos suspirantes por um novo Salazar? Que fazes da superiodade estética desta massa maioritária de direita, hein?

E nem preciso de te lembrar que a maioria dos artistas votam à esquerda e que, se falas de música clássica, Beethoven delirava com a Revolução Francesa, Mozart era mação e Wagner pertenceu ao movimento "Jovem Alemanha", inspirado por ideais revolucionários.

Quanto ao argumento da superioridade estética feminina, bem, efectivamente não é grandemente original; levantado na Coluna Infame, comentado pelo Miguel Esteves Cardoso num artigo de "Os Meus Problemas", alvo de paranóicos filmes de Hollywood sobre marcianos/aborígenes/gorilas gigantescos que querem raptar as americanas e, antes disso, muitas outras vezes, pelo menos, desde o rapto das Sabinas.

Pouco original, sim, e também incoerente: a beleza que dás como exemplo é assente em três princípios: platonismo, juvenilismo e artificialismo, princípios esses que deviam ser odiosos à direita.

Platonismo porque a beleza de que falas assenta de uma aproximação a um ideal único, de cabelo loiro, pele repuxada, cosmética, calças curtas, botas de salto pontiagudas e camisas justas. Ao exaltá-la pareces defender que cada mulher se deve parecer com um único modelo ideal - utópico - para o qual a única justificação para ser a de Santo Anselmo: se tanta gente a quer imitar é porque existe.

Juvenilismo porque assenta no princípio que existem fases da vida mais belas que outras. Neste caso, que quanto mais jovem mais belo, argumento esse que ficaria bem no Maio de 68, mas não na filosofia dos velhos jarretas em que te incluis. Põe os olhos no defunto Pipi, que não hesitou em tecer loas ao erotismo da Lurdes Norberto.

Artificialismo: são os cremes, as tintas, os apliques, as roupas, os saltos altos, o silicone, o rimel, o botox, as operações, a depilação com cera quente, o delinear das sobrancelhas e aparar das pestanas, as correcções do nariz, as injecções nos lábios, etc., etc., etc. Que chamarias a uma sociedade que se submetesse a tantas cosméticas artificiais?
Admito, porém, que esta noção de self-made woman se ajusta às mil maravilhas com a sociedade capitalista, mas talvez já não se ajuste tanto com a crença fachola que uns têm naturalmente mais mérito que outros. Afinal, a quem atribuir o mérito de uma beleza que admiras: à dama ou ao seu esteticista?

E, como escritor, que género de elevação te pode causar tal beleza? Imaginas o Camões a escrever: "Verdes são os campos da cor do limão, assim são as lentes de contacto do meu coração"; ou o vate direitolas Vasco Graça Moura, no meio de 327 citações e referências eruditas, a enternecer-se perante "umas maçãs do rosto eriçadas pelo Botox"?

E, como conclusão, pergunto: um conservador como tu, amante da tradição e da rotina, como consegue resistir às desagradáveis surpresas matinais?

Podes, por isso, arranjar os exemplos que quiseres que esses exemplos estarão sempre assentes em princípios pouco credíveis e bastante contraditórios com a restante ideologia que dizes professar.

P.S. - Pede-se desculpa às leitoras esclarecidas, independentes, auto-confiantes e de beleza originalíssima deste blog, mas era-me imprescindível responder à provocação. Caso julguem necessário polemizar comigo, informo desde já que sou feio, míope, gordo, flácido, desdentado, careca, enrugado, corcovado, de pernas tortas, orelhas esquisitas, nariz grande e toda a gente me dá, polidamente, cinquenta anos de idade.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:04 PM | Comentários (9)

SÓ PARA O CASO DE SE TEREM ESQUECIDO

alexandre.bmp

O lançamento do livro «As Não-Metamorfoses», de Alexandre Andrade (editora Errata), é já daqui a nada: 18h30, na sede do Clube Português de Artes e Ideias, no Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2.º, em Lisboa. Lá estaremos — a Alexandra Lucas Coelho e eu — para falar do mais que provável melhor livro português de 2004 (quem duvide, pode conferir o que escrevi ontem no DN).

Publicado por José Mário Silva às 05:20 PM | Comentários (4)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ela está de volta, Luis. Ela é Ana Paula Inácio, a poeta em fuga, austera, invisível como as suas personagens, pura matéria verbal. De repente abres o último número da revista «Telhados de Vidro» e ela está ali, em três poemas que desafiam o seu auto-imposto silêncio.
Um deles é este:


Ó CESAR

não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem,
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer.

Publicado por José Mário Silva às 05:08 PM | Comentários (6)

80 ANOS DE SURREALISMO: DINO VALLS


"Entre a Terra e o Céu: Per Luctam/Cripodidimo/Per Luctum" - 1998

Nascido em 1959, em Saragoça, Valls é um autodidacta que, antes de optar pela pintura, foi médico e cirurgião. Desde cedo se preocupou com os aspectos mais oficinais da Pintura, tendo estudado em profundidade os mestres renascentistas até desembocar na improvável escolha da têmpera de ovo como técnica preferida.
Segundo o próprio artista, a sua pintura pretende eliminar as divisões entre pensamento lógico e pensamento mágico; um desiderato eminentemente surreal. Como escreveu o crítico Carlo Fabrizio Carli, "Valls não é de todo um pintor realista, muito antes pelo contrário. A sua arte, imaginativa e mental, metamórfica e visionária, destaca-se ao enfrentar a Natureza, alimentando-se sempre da história da Arte".
Por vezes, ele parece resvalar para um maneirismo virtuosista e para temas não muito distantes dos de Delvaux ou de Dorothea Tanning. Mas, nos seus melhores momentos, e a partir da profunda inflexão que sofreu em 1998, a obra de Valls transfigura-se de uma forma quase religiosa, banhando o sadismo mais cruel na luz impassível das visões sagradas.
Trata-se de uma pintura difícil de enquadrar; a sua técnica imaculada e anacrónica acaba por funcionar quase como um verniz de estranheza entre as imagens e o espectador, uma membrana que desfoca expectativas e se esquiva aos pontos de fuga banais. O centro nunca anda longe do corpo humano: as suas relações nem sempre pacíficas com o tempo e com o espaço, os acidentes cruéis, a transgressão mutante de todos os seus limites, e, acima de tudo, uma obsessão ascética com a pureza da autoflagelação, com a redenção que só os ferimentos rituais podem mediar.
Valls é hoje um produtor de imagens sacras ao serviço de uma terrível religião ainda em busca da sua divindade, tendo como liturgia o credo nas possibilidades infinitas da anatomia humana.

Publicado por Luis Rainha às 02:01 AM | Comentários (4)

FOTOGRAFIA POLÍTICA

Um Primeiro-Ministro que, despudoradamente, faz campanha eleitoral. Um grande partido que vota num líder em que não acredita. O mesmo partido a tentar coligações que sirvam para desculpar estrondosas derrotas que se avizinham. Um pequeno partido que vampiriza o grande, tentando garantir o seu futuro através do gabinete e não nas urnas. Admissão de erros, reflexão? Nada. Ideias, projectos para o país? Nulas. Houvesse alguma política (na conotação honrosa da palavra) nestes dirigentes partidários e nas suas "bases" e o país não estaria como está, empobrecido e inculto. Num país de política a sério, não reduzida à luta suja pelo poder, Santana Lopes teria apresentado a sua demissão de líder do PSD, facilitando ao partido um momento de recuperação e de limpeza de "impurezas". Na ausência de valores, o actual comportamento oposto é tudo menos imprevisto. (Nuno Pinho)

Publicado por José Mário Silva às 12:54 AM | Comentários (1)

DESMENTIDOS

Morais Sarmento desmente ter dito o que toda a gente pensava que ele disse de Jorge Sampaio. A Bombardier desmente a revelação triunfal de Paulo Portas sobre a iminente produção de blindados na Amadora. Durão Barroso, ao votar contra a compra da Galp Gás pela EDP, desmente ter sido o primeiro-ministro que iniciou tal processo. Santana Lopes, por ter ponderado a demissão aquando da fuga de Henrique Chaves, desmente aqueles que garantem sempre ter estado tudo no mais normal dos mundos, não se justificando portanto qualquer intervenção presidencial.

Publicado por Luis Rainha às 12:02 AM | Comentários (2)

dezembro 09, 2004

E SE?

No meio da utilitária verborreia do santanóptero Francisco Gandarez, até acaba por surgir uma boa pergunta: "qual o comportamento dos principais ‘fazedores’ de opinião e grandes instigadores do clima ficcional de instabilidade se Santana Lopes ganhar as eleições?" Passe o imaginativo endosso de responsabilidades pelo desvario que se apossou da quadrilha do calhau com gel nestes meses, a questão é mesmo angustiante: que faremos se o Santana ganhar as próximas eleições?
Emigrar em massa? Concluir que a Democracia, afinal, até nem é coisa tão boa quanto parecia? Criar um grandioso movimento cívico que implore a Espanha que venha tomar conta dos pobres hermanos atrasaditos?

Publicado por Luis Rainha às 08:45 PM | Comentários (7)

COLUNISTA SANTANISTA, SÓ MESMO SE FOR AUTISTA

O nosso conhecido José Francisco Gandarez continua a fazer pela vidita. Este esforçado trabalhador do escritório de Rui Gomes da Silva tem hoje direito a mais uma desvairada catarse no DN. 799 palavras empregues para nos convencer de que ele não percebe porque é que Jorge Sampaio anunciou a dissolução do Parlamento. O homem não vislumbra razão nem lobriga causa provável para tão estranho acontecimento. "Quais os fundamentos que levaram o PR, abruptamente, a utilizar a bomba atómica da dissolução? Ninguém sabe, mas todos aguardam ansiosamente a ‘justificação’ do PR."
Ninguém sabe, excepto todos aqueles que até leram um ou dois jornais nos últimos meses; excepto perigosos esquerdistas como Cavaco Silva; excepto os ex-comparsas do "Compromisso Portugal"; excepto os analistas internacionais que avaliaram o OE para 2005.
Onde estaria este visionário cegueta quando o governo entrou em decomposição? Quando a cada dia surgia uma trapalhada nova? Quando Santana, no meio da crise, resolve adiar uma tomada de posse de secretários de Estado para ir a um casamento?
Não sei o que será mais triste; se o patético espectáculo da figurinha a fazer de conta que não percebe o que se passa à sua volta, se a ideia do DN de continuar a oferecer tempo de antena este desconhecido alienado.
No entanto, o atónito Francisco, a bem dizer, até imagina uma razão para o súbito despertar do Presidente: "é que o mesmo não conseguiu despir a camisola socialista. Aliás, só esta ‘fidelidade’ ao partido justifica a cambalhota presidencial". Mesmo o Luís Delgado teria vergonha de fazer tal figura. Mas este santanico presta-se a urrar o que o PSD tem vergonha – por enquanto – de insinuar; lançando desde já os argumentos da próxima campanha laranja.
Como já aqui escrevi há 9 meses, sorte pior que ser "santanista" só mesmo ser prostituta em Bombaim.

Publicado por Luis Rainha às 08:43 PM | Comentários (4)

DESINSPIRAÇÃO

O recentemente passado William Manchester escreveu na introdução do seu livro "A World lit only by fire", que tinha começado a escrevê-lo sem investigar qualquer facto nem ter qualquer plano, apenas pela necessidade de escrever qualquer coisa.
Eu tenho um problema um bocadinho diferente. Ando há dias para responder a uma interpelação do Rodrigo Moita de Deus e sei perfeitamente o que quero dizer, mas não sei como o fazer. É como se estivesse perante uma mão de Scrabble que sou incapaz de ordenar.
A coisa há-de resolver-se, com um bocadinho de inspiração e muito matraqueio de teclas, mas enquanto me falta o roteiro da argumentação, apeteceu-me escrever sem assunto, ao deus-dará, estrada fora.
Não é que me apeteça escrever sobre a falta de assunto, que é o prostíbulo de colunistas e blogeadores desesperados, mas mais do que escrever sobre o nada em concreto apetecia-me escrever sobre nada em concreto.
Mas é mais fácil querer do que poder. O Joseph Conrad quis escrever uma história onde não acontecesse nada e assim nasceu o "Coração das Trevas", uma das melhores narrativas breves de sempre. Pela mesma ordem de ideias, no dia em que alguém conseguir escrever o completo vácuo - um post totalmente desprovido de ideias, referências, factos, opiniões, clichés, citações, plágios, significações, interrogações, dúvidas, links, confidências, elogios, críticas, pastiches, histórias ou o mínimo conceito que signifique alguma coisa para alguém -, bem, nesse dia mais vale mudarmo-nos todos para as artes florais.

(Como devem reparar estou a começar a falar sobre o vácuo, pelo que vou dar uma guinadela súbita. Agarrem-se!)

Um meu ex-colega de quarto gabava-se de que "As viagens da minha terra" tinha sido o único livro que ele quase lera e quase gostara. A afirmação era-me triplamente estranha: como é que alguém lê menos de um livro em vinte anos, como é que alguém gosta de um livro tão auto-complacente, ziguezagueante, contemplativo, de humor ultrapassado, narrativamente trôpego, emocionalmente exacerbado e realisticamente inverosímil como o "Viagens na minha terra" (eu sei, mas na altura em que pensava isto era novo e estúpido; agora sou ligeiramente menos novo) e como é que alguém parece ter orgulho nisso.
Alguns anos depois, pergunto-me antes porque é que não-ler não deverá ser motivo de orgulho. O Enrique Villa-Matas escreveu um livro sobre os não-escritores - óptimo para citar em jantares formais e outros eventos sociais quando cai aquela embaraçosa cortina de silêncio em que toda a gente pensa furiosamente no que dizer a seguir - defendendo-os como a forma mais refinada de escrita. Então porque não ver a não-leitura como a suprema arte de ler? Afinal, o que é que se aprender nos livros que não se pode aprender com a experiência e com os outros? E quanto se aprende lá fora, na "vida real", que não se pode aprender nos livros?
Poderá ser que os livros não passam de antigos blogs fenícios, úteis apenas para nos fecharmos nos nossos quartos a fingir que estamos juntos?

(Atenção: curva e contra-curva!)

Há uns anos, quando via alguém falar sozinho na rua pensava que seria um génio ou um louco. Agora, quando vejo alguém falar sozinho, sei que é um auricular sem fios.
Não sei é se as conversas serão mais interessantes.

(De volta à recta. Mas uma recta diferente.)

Nas catacumbas cristãs de Roma há uma imagem de Jesus Cristo - mas um Jesus efebo, bem proporcionado, com cabelo encaracolado e o corpo proporcionado de um jovem grego. Agora temos um Jesus Cristo barbudo, com uma tez pálida e traços finos, inusitados para o clima, época e profissão que teve. Dizem-me ainda que algumas igrejas evangélicas africanas veneram um Jesus negro.
Por isso, qual é o problema de a época actual ter uma Virgem Maria à imagem da Posh Spice?

(Não vomitem ainda que estou quase a acabar.)

Queria escrever de "nada em concreto" e acabei por escrever sobre tudo. O que é perfeitamente ideal porque, enquanto aproveitava para violar uma das Três Regras do Post, me apetecia justamente escrever sobretudo.
Logo, a blogosfera pode continuar.

P.S. - Agora vou tratar da saúde ao Rodrigo.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:45 PM | Comentários (1)

EUCARISTIA

Mão amiga fez-nos chegar um texto fortíssimo (e previsivelmente polémico) de Celso Álvarez Cáccamo, destacado intelectual e publicista galego, professor de linguística na Universidade da Corunha e activista da reintegração do Galego na esfera da língua portuguesa. Como certamente repararão, surgem aqui e ali algumas particularidades galegas ao nível da linguagem, mas nada que impeça a compreensão do texto por parte dos nossos leitores.
Resta agradecer ao autor (que deu luz verde) e à discreta mão amiga.
E venha a prosa, com data de 16 de Novembro de 2004:

EUCARISTIA
Celso Alvarez Cáccamo

O fedor dos corpos apodrecendo começou a fazer-se insuportável quando não havia ninguém para os enterrar. Nos pequenos jardins dos pátios interiores, os débeis sobreviventes cavaram fossas orientadas para Meca até que nem os seus braços aguentavam o trabalho. Por fim, a última pessoa viva da família aguardava num canto escuro da casa a entrada dos soldados estrangeiros com enormes botas, berros e palavrões de salvação cristã. Meninhos magros bebiam água suja dos esgotos, comiam farinha crua, descompunham os seus ventres em qualquer lugar enquanto enxames de helicópteros sobrevoavam as ruínas da cidade. Extramuros da cidade, polindo fuzis e tanques, grupos de cruzados entoavam canções ao Salvador, oravam força para o combate. Dentro dos muros, abraçados a fuzis e lança-granadas, mujahedins entoavam canções ao Salvador, oravam força para o combate. Alá era grande e Deus era grande, e polo Leste, polo Oeste, exércitos de esfarrapados que comiam farinha nas ruas furadas da cidade deixavam as famílias para se unirem aos exércitos de suicidas. Porque não havia nada que perder. Nem que ganhar.
Fallujah é apenas um dos nomes actuais que compõem o rosário de massacres em que consiste o latrocínio. Fallujah são três sílabas metafóricas. Anos mais tarde, quando continuemos a redigir estas crónicas desde a velhice que se impõe como uma cobra (depois de décadas de perceber o fracasso, depois de décadas de não querer termos nascido aqui para, simplesmente, ficarmos em frente do ecrã e gritarmos contra todo tipo de mortes), Fallujah lembrará-se clandestinamente entre as poucas pessoas videntes que ainda existam. Mas Fallujah já nunca se poderá conjurar. Como tantos outros lugares na Palestina, nas Américas, no Camboja. Em Mauthausen. Em Cabul. Em Burundi. No Kosovo. Em Sarajevo. No colapso das torres de Nova Iorque. Num comboio de Madrid ou Moscovo. Numa escola da Ossétia. Em todo Nagasáqui. Não há possível comparação para estes nomes. Não se trata dum cômputo de cadáveres: nego-me a justificar rios de sangue com oceanos de sangue, ou o contrário. A quem agora esteja a fazer o cômputo das mortes de um e outro lado, que são o mesmo lado, lembro-lhes o procedimento da metralha nas entranhas: entra tão feroz e tão ardente que a dor não se nota. Em poucos segundos o sangue detém-se nas artérias, e o coração pára. Alguém pode contar o que é sentir o próprio coração parado? Provavelmente nuns instantes transcorre toda a vida desgraçada de uma pessoa perante a olhada agonizante. Nesse momento a mente pensará no porquê de tudo isso. Verão-se mitologias salvadoras, túneis de luz ou paraísos. Verá-se um outro inferno, tão semelhante ao quotidiano. E depois mais nada: só uma outra cavidade na consciência dos restantes. Multipliquemos a morte, e multipliquemos assim a vesânia. Mas cada cadáver é idêntico: a maior aberração de que a espécie humana pode ser agente. Cada cadáver morre exactamente no último segundo. E depois absolutamente nada.

Porque os cadáveres de um lado e os cadáveres do outro lado apodrecem exactamente no mesmo lado: no lado escuro da História. São os assassinados por Deus, o carrasco intraduzível. O cadáver de Fallujah é produto do deus imperial que o mundo leva dentro. Acabar com deus consiste em recuperar, íntima e definitivamente, o lugar da espécie humana no planeta. Não um destino transcendente, não um alvo pré-escrito: sim uma utopia contingente mas de todo necessária, a revolta quotidiana que só pode ser fruto do mais elementar raciocínio. E Fallujah é um pesadelo. Ainda um outro pesadelo. Ou acordamos, ou os próximos cadáveres cairão cada vez mais perto, nos portais das nossas casas esfregados por umas moedas com semanal lixívia, dentro dos frigoríficos onde coabitam os nomes de alheias beberagens, nas nossas estantes rescendentes a madeira onde repousam as veneradas sentenças dos poetas. E os mortos baterão à nossa porta e colunas de sangue salpicarão o nosso limpo ecrã e não poderemos nem escrever esta raiva. E então, de joelhos, prepararemos água de esgoto para beber e farinha crua para comer, sangue e corpo de profeta armado, em obscena eucaristia.

Publicado por José Mário Silva às 07:03 PM | Comentários (7)

O MENINO BEM COMPORTADO


Cartoon de Vince O'Farrell

Publicado por José Mário Silva às 06:40 PM | Comentários (0)

DO PAPEL DA BLOGOSFERA À BLOGOSFERA DE PAPEL

Na carruagem do metro, vou relendo o Barnabé — agora em livro. Por cima do meu ombro, um passageiro espreita uma determinada página e só a custo contém o riso diante de uma das boutades cáusticas do Daniel Oliveira. Grande sorte, a do cavalheiro: ler a blogosfera debaixo da terra, à borla, sem precisar de Netcabo nem de ADSL.

Publicado por José Mário Silva às 06:30 PM | Comentários (1)

ACHTUNG BABY

Em francês, faz-se atenção. Em português, presta-se atenção. Em inglês, paga-se atenção.

Publicado por Filipe Moura às 05:55 PM | Comentários (2)

80 ANOS DE SURREALISMO: JOSEPH CORNELL


"L'Egypte de Mlle Cleo de Merode - Cours Elementaire d'Histoire Naturelle", 1940

Joseph Cornell nasceu em 1903 e passou grande parte da sua vida na sua casa de Queens, acompanhado pela mãe e pelo irmão. Ávido coleccionador de quinquilharia, aproveitava as suas andanças como vendedor para bater todas as dime stores de NY, em busca de tralha diversa que acumulava e catalogava como se de memórias queridas se tratasse. Ao organizar e recombinar esses rastos de vidas alheias, fazia surgir do lixo obras únicas: as suas caixas.
Estas peças, embora formalmente quase invariáveis e minimais (alguns objectos encerrados numa caixa, por vezes com um fundo decorado e tampa de vidro), pegaram na mecânica dos ready-mades de Duchamp e trasladaram-na para uma dimensão profundamente original e evocativa. A imaginação de Cornell pode mostrar-se enigmática, pícara, teatral, sonhadora e intrincada ou até romântica; mas carrega sempre uma intensidade poética gentil e inconfundível.
Reconhecido pelos surrealistas como um irmão, Cornell nunca conseguiu abraçar o "lado negro" do Surrealismo; a fantasia nostálgica interessava-lhe muito mais do que os profundos estremecimentos psíquicos que Breton anunciava. As suas caixas são como microcosmos melancólicos, encapsulados pela segurança dos seus vidros; oásis em que o tempo se suspende, longe de ameaças, tensões eróticas ou urgências políticas.
Nos anos finais da sua carreira, Cornell enfrentou dificuldades quase tragicómicas: faltou-lhe a matéria-prima. A sua arte nutria-se de um subtil mas decisivo divórcio das suas circunstâncias geográficas (notável é o carácter apaixonadamente francófilo de tantas obras de um artista que nunca colocou um pé em França...) e do seu tempo; ao ver esgotar-se a quinquilharia "antiga", impregnada de saudades de locais e dias distantes, o artista viu-se privado de memórias com que trabalhar...
Depois de morrer, em 1972, Joseph Cornell foi, claro está, cremado e enterrado dentro de uma pequena caixa.

Publicado por Luis Rainha às 02:41 AM | Comentários (0)

SONHOS

O caseiro aqui do pobre arremedo de solar reformou-se. Com 70 anos, depois de uma vida marcada por anos gastos no estrangeiro, infortúnios laborais, turnos nocturnos incessantes, um acidente de motorizada causado pelo sono a caminho do trabalho.
Neste dias, ele sonha quase todas as noites com o forno da padaria onde trabalhou até há pouco. E, como diz a sua mulher, ele "sonha alto". Ontem, levantou-se às duas da manhã e vestiu-se, porque "estava atrasado". Atrasado para um emprego de onde sempre quis fugir, mas a que não consegue mesmo escapar.

Publicado por Luis Rainha às 01:19 AM | Comentários (1)

dezembro 08, 2004

TOMEMOS NOTA

Ao inventariar mentalmente as habilidades inaugurais do meu filho bebé, sinto uma certa pena de não ter à mão um daqueles patuscos álbuns onde se caligrafam com esmero datas festivas, em entradas como "Dei o meu primeiro passinho no dia..." ou "Hoje, a minha primeira palavra foi Mamã/Papá/Cão (riscar o que não interessa)".
Mas, pensando bem, esses diários não conseguem capturar os momentos realmente decisivos da transformação dos nossos infantes em gente (além de que não costumam ser previdentes q.b. para reservar espaço para o "Primeiro assobio", façanha mais notável do meu rebento). Os pais deviam preferir canhenhos pardos e sérios onde anotariam os marcos mesmo fulcrais das infâncias dos seus filhos. Coisas ponderosas, marcantes, decisivas. Momentos como o da primeira erupção do sentido de humor. O primeiro estremecimento estético. A primeira recusa inexplicável e inamovível. O primeiro assombro metafísico. O primeiro acto gratuito. Etc. Assim se cartografaria uma vida, passo a passo, dos dias cegos, guiados pelo instinto, às liberdades e maldades que nas nossas fantasias tomam o lugar do livre arbítrio.
Vá, senhores da Papelaria Fernandes: podem usar a ideia à vontade, que hoje sinto-me generoso.

Publicado por Luis Rainha às 11:54 PM | Comentários (4)

FALTAM DOIS DIAS

alexandre.bmp

Onde:
sede do Clube Português de Artes e Ideias (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2.º, Lisboa). Quando: sexta-feira, dia 10, 18h30. O quê: apresentação de «As Não-Metamorfoses», por Alexandra Lucas Coelho e moi même.

Excerto:
«Mostravam-me o meu próprio reflexo no tanque e depois agitavam a água com uma vara de vedor, inventavam cadeias de nomes aliterativos que me soavam a impropérios, citavam-me fora do contexto com uma desfaçatez que se tornou lendária, escondiam um cadáver de pássaro sob o meu travesseiro. Perdoei-lhes a todos, perdoei-lhes com eloquência, deliberadamente, com as mãos e com a boca, com braçadas de gladíolos, em latim e em vulgar, prosa e aforismo. Humilhei-os com a minha generosidade. A fama assentava-me com o aparato de uma dama da corte.»
in «Notícias do Segundo Círculo»

Publicado por José Mário Silva às 07:46 PM | Comentários (0)

PLÁTANO

Ao ver cair a última folha, perguntei-me se as árvores também sentem pudor.

Publicado por José Mário Silva às 07:43 PM | Comentários (3)

UM BIOBLOGUE

Conta-corrente. Contra-natura. Contra a corrente. Conta-natura. É este o título de um blogue de biólogos, que tem vindo a discutir temas relacionados com esta ciência e a sua relação com a sociedade. São igualmente abordados assuntos do interesse dos cientistas portugueses em geral, sendo discutido o sistema científico nacional. Outro aspecto que torna este blogue extremamente recomendável é a presença regular de textos escritos directamente de Long Island...
(Aproveito para dizer ao autor do texto, o Vítor, que o ambiente no laboratório onde trabalho é muito semelhante ao de Cold Spring Harbor, e o planalto de Saclay é incomparavelmente menos pitoresco.)
A organizar o movimento está o nosso bem conhecido companheiro Vasco Barreto, que tem conseguido cativar e mobilizar um conjunto interessante de autores, todos jovens investigadores portugueses (ou lusófonos) na área da biologia.
Vale a pena destacar esta recensão que o Vasco começou recentemente e que promete dar que falar. Eu aguardo por mais desenvolvimentos.
Uma das autoras (na verdade a única - deveria dizer "uma dos autores"?), a Sofia Araújo, escreveu entretanto um texto muito interessante sobre como falar de ciência para um público não especializado. Ela pede reacções e espera que o blogue não seja lido somente por cientistas. Dêem-lhe a vossa opinião (que também a mim interessa, eu que também escrevo por vezes sobre assuntos científicos). E vão passando por lá, que vale a pena.

Publicado por Filipe Moura às 06:23 PM | Comentários (0)

ULULANTE

Na conferência "A Língua Portuguesa: Presente e Futuro", conclui-se que "O futuro da língua portuguesa como língua transnacional depende do Brasil". Eu não sou de todo especialista na matéria mas, já que fazem um congresso sobre este assunto, em lugar de discutirem como poderá o futuro da língua portuguesa depender de Portugal e dos PALOPs preferem concluir o óbvio?

Publicado por Filipe Moura às 03:15 PM | Comentários (11)

LONGA É A ARTE, TÃO BREVE A VIDA

O maestro soberano deixou-nos há dez anos. Muito mais pobres.

Publicado por Filipe Moura às 11:11 AM | Comentários (10)

A NOITE DE TODAS AS CONSPIRAÇÕES

Meia classe politica portuguesa afogada nos resultados de mega intoxicação alimentar provocada por excesso de viagra na sopa dos oitenta anos da democracia portuguesa.

Publicado por tchernignobyl às 12:16 AM | Comentários (4)

dezembro 07, 2004

A CRISE GOVERNAMENTAL NA IMPRENSA DO DIA

Vital Moreira analisa e explica a decisão de Jorge Sampaio dissolver o parlamento, à luz da constituição. A ler aqui e no Causa Nossa, especialmente por quem insiste em confundir dissolver o parlamento com demitir o governo. Luís Delgado, por exemplo, vai insistir nessa confusão durante toda a campanha. Faz parte da sua estratégia de vitimização.
O João Miguel Tavares, sumarizando, arrasa Pedro Santana Lopes. Creio que se pode falar em arrasar. Sintomático é que fosse o João Miguel ideologicamente um pouco mais à esquerda e não escreveria um texto tão duro: seria provavelmente mais calculista.

Publicado por Filipe Moura às 09:05 PM | Comentários (5)

LÁ EM BAIXO

Por estes dias, nas estações de Metro, os altifalantes estão sintonizados numa espécie de Rádio Nostalgia. Chega a parecer que não atravessamos subterraneamente a cidade de Lisboa, mas os anos 80.

Publicado por José Mário Silva às 09:02 PM | Comentários (0)

PORQUE É QUE OS LUTADORES DE SUMO SÃO GORDOS (DESENVOLVIMENTO)

(Desenvolvimento de um post do João Miranda.)

O socialismo favorece os medíocres.

medíocre - (segundo Dicionário da Academia) mediania, o que não se distingue dos demais.

Logo:

O socialismo favorece os medíocres.

=

O socialismo favorece a maioria da população do mundo.

Adicionalmente:

O desporto mais popular do mundo é futebol, cujos jogadores não necessitam de dotes físicos excepcionais, não precisando nem de ser altos (como no basquetebol), corpulentos (como no futebol americano) ou gordos (como no sumo), mas bastando-lhes o trabalho e a técnica para se poderem destacar, podendo ser mesmo baixos (Maradona) ou ter problemas físicos (Garrincha).

Conclusão: A maioria da população do mundo gosta de igualitarismo.

Post Scriptum:

Não existe no mundo desporto profissional que permita a competição indiscriminada entre atletas de capacidades díspares, antes agrupando os competidores segundo o sexo (atletismo), faixa etária (futebol), peso (boxe) e competência (judo).

Conclusão: Não existe ninguém no mundo que goste de capitalismo desenfreado.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:20 PM | Comentários (2)

80 ANOS DE SURREALISMO: EDWARD KIENHOLZ


"O Hospital Estatal", 1966

Este artista californiano entrou para o imaginário popular depois de morto. Ou melhor, depois de morto e enterrado ao volante do seu Packard, com os sucessos de Glenn Miller por banda sonora. No entanto, as quase quatro décadas da sua obra, sempre em colaboração com a mulher, Nancy Reddin, revelam-nos muito mais do que um artista excêntrico. Em paralelo com gente como Kaprow ou Rauschenberg, Kienholz sempre quis fazer Arte a partir dos detritos da nossa sociedade de consumo. Mas o génio da West Coast funk art acrescentou a este programa uma dose fortíssima de crítica social e política. O seu sentido de humor corrosivo e uma paixão sem freio pela incongruência fizeram o resto. A intensidade quase insuportável das suas melhores obras é bem visível na imagem que encima este post: um retrato cru do sofrimento humano, a que o "balão" de BD confere uma carga insólita, por reduzir o doente de cima a um sonho solipsista do seu vizinho de beliche.
Tipicamente, as suas esculturas/assemblages possuíam grandes dimensões, incluindo ruídos, cheiros e até elementos vivos, como os peixes que habitam as cabeças dos doentes de "O Hospital Estatal". Disto exemplo é o seu trabalho mais conhecido, "The Beanery", um restaurante manhoso povoado por estranhos comensais com cabeças de relógio e executados à escala humana. Mas as peças mais pequenas não perdiam a agressividade que sempre distinguiu o seu trabalho. E os temas de Kienholz nunca foram cómodos: da violência racista ao aborto, passando pelo comércio da Arte - com os seus Conceptual Tableaux que se resumiam a placas com a descrição do trabalho a ser executado e da soma dispensada pelo mecenas que adquirira cada placa.
Não deixa de ser irónico que o Surrealismo, apesar de todo o seu empenhamento político, tenha tido de esperar por um artista americano para concretizar a sua promessa de uma Arte socialmente engajada e esteticamente perturbadora. A Edward Kienholz, que nunca teve qualquer vínculo com o Movimento, coube essa honra.

Publicado por Luis Rainha às 12:15 PM | Comentários (6)

EM TEMPOS DE CRISE (II)

Aos canadianos que interessar: Portugal está com falta de obstetras e ginecologistas.
Têm é de dizer que gostam muito do Figo.

Moral da história: cada país tem a falta de profissionais que merece.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:31 AM | Comentários (0)

EM TEMPOS DE CRISE...

A quem esteja interessado: o Canadá está com falta de strippers.
Têm é de dizer que vão trabalhar na apanha do morango.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:19 AM | Comentários (0)

PROCUREM ABRIGO...

vem lá mais uma série do Moita Flores!

Publicado por Jorge Palinhos às 11:18 AM | Comentários (0)

OS INIMPUTÁVEIS EM PORTUGAL SÃO:

os indivíduos com perturbações mentais, os menores de idade, praxistas...

Publicado por Jorge Palinhos às 11:14 AM | Comentários (0)

É FIXE

Recordamos aqui um trecho, bastante esclarecedor e representativo, de um depoimento de Mário Soares ao DN a propósito de Yasser Arafat (sublinhado meu):

«Conheci Arafat em 1979, quando ele veio a Portugal a convite do Presidente [Ramalho Eanes]. Na altura, os jornais pró-comunistas diziam que não tínhamos direito a sermos recebidos, pelo que resolvemos pedir-lhe uma audiência. E o Sá Carneiro [presidente do PPD] também pediu, sem combinarmos nada entre nós. Pareceu-me uma pessoa extremamente culta, muito calorosa e julgo que ele também ficou satisfeito por ter falado connosco.
Até aí, sabia que ele era o homem da OLP, conhecia mais ou menos o seu passado, mas pouco mais. Nessa altura, Arafat ainda era visto como um terrorista de facto. Mas quis logo dar-me a ideia do contrário: tinha sido obrigado a agir de forma bruta, violenta, mas era um homem com uma visão política para o seu país. Fiquei bem impressionado com a conversa. Depois disso, vi-o mais duas ou três vezes. Em vários sítios. Até que, em 1982, estava eu na oposição ao Governo Balsemão, Willy Brandt [presidente da Internacional Socialista] pediu-me para liderar uma missão da IS ao Médio Oriente.
Perguntei-lhe: «Mas porquê eu? Pode ser outro qualquer, não percebo nada do Médio Oriente, dos árabes...» Ao que ele me respondeu: «Precisamente por isso, porque não sabes nada dos árabes e porque não és suspeito. Os outros são.»
Lá telefonei para um jornalista especializado na matéria, a pedir-lhe uns briefings sobre o assunto. Foi duas ou três vezes a minha casa e explicou-me tudo: uma coisa bastante complexa.
Depois, comprei uns livros, na comissão deram-me um dossier, e fiz uma reunião com os meus amigos da missão.»

Aqui temos o optimismo; a confiança nos próprios recursos; as convicções; a capacidade de distinguir o essencial do acessório; a clareza; a simplicidade. Tudo isto está patente neste delicioso trecho. A falta que hoje nos fazem mais políticos assim.
Parabéns, Mário Soares.

Publicado por Filipe Moura às 11:08 AM | Comentários (23)

É HOJE

Não se esqueçam.

Publicado por José Mário Silva às 10:47 AM | Comentários (7)

80 ANOS: O SOARES CONTINUA FIXE


Publicado por Jorge Palinhos às 09:03 AM | Comentários (4)

dezembro 06, 2004

FREDERICO?

Aparentemente, já houve oito investigações ao caso Camarate!

Publicado por Jorge Palinhos às 08:01 PM | Comentários (6)

OS POEMAS E OS ESTUDOS SOCIOLÓGICOS

Quando eu for um perito internacionalmente reconhecido em constipações, gripes e pneumonias bronco-pulmonares (ahem) e um qualquer delegado da propaganda médica entender escrever um longo artigo a denunciar-me como um embuste, recorrendo à análise dos desenhos que faço para as minhas sobrinhas (não vou reproduzir para não mergulhar o contador de visitas no abismo), exijo que o dito artigo seja reproduzido em nada menos que na secção de vinhos & gastronomia da Visão.
Nem mais!

Publicado por Jorge Palinhos às 07:54 PM | Comentários (4)

GUERRA NA LARINGE, PARTE II

A operação Saúde Duradoura começou com uns chás de aviso. Sucedeu-se a fase "Chá & Calor", com longas permanências na cama e bombardeamentos sucessivos de Griponal e Benylin, sublinhados por chás de limão com mel intensivos para demonstrar aos anti-corpos que só era inimigo da ditadura bacteriológica.
Após uma vitória retumbante, mantenho apenas um regime Vick Vapospray e Pastilhas Drill para controlar focos de terrorismo constipâmico e permitir a realização atempada de posts.
Mas até ao momento não foram reportados casos de Abu Ghraibs pulmonares.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:52 PM | Comentários (0)

O GUARDA-REDES MELÓMANO E O TREINADOR PÓS-MODERNO

Este texto do Luís recordou-me um outro do Zé Mário, sobre o mesmo assunto, a que tinha ficado de responder e não o fiz. Respondo agora aos dois e aproveito para "bater" um pouco no maior "santo de pau oco" do futebol.
De um modo geral, a arrogância em Portugal é muito mal vista. Já a simpatia é muito bem vista, e dizer umas coisas com graça ainda mais. Mas o que não é bem visto de todo é a competência.
Tomemos como exemplo José Mourinho. Mourinho ganhou, em dois anos, dois campeonatos nacionais e duas taças europeias com uma equipa de orçamento baixo a nível europeu. É reconhecidamente um dos treinadores mais competentes da actualidade. E, no entanto, a principal característica de Mourinho a ser referida é a sua "arrogância". Como se a sua competência não se sobrepusesse!
A meu ver, a arrogância (não sendo por si nenhuma virtude) é tão mais tolerável quanto maiores forem os créditos do "arrogante". Se José Mourinho diz que é "a grande cabeça do futebol da Europa", a maneira de provar que ele não está certo não é chamando-se-lhe "arrogante", como se faz em Portugal. É provando que se é melhor do que ele.
Ainda no futebol há outros casos de treinadores arrogantes, só que mais tolerados por serem mais simpáticos. Um bom exemplo é o de Jorge Valdano, antigo jogador e treinador do Real Madrid e inventor da célebre "divisão ideológica" entre futebol de "esquerda" e de "direita". Essa divisão ideológica, a meu ver, merece pertencer à mesma galeria dos textos pós-modernos caricaturados por Alan Sokal. Jorge Valdano é o exemplo de como uma certa arrogância é tolerada, desde que se digam umas coisas engraçadas pelo meio. Como treinador não tem nada de que se orgulhar, tem um currículo inferior ao de Mourinho, e no entanto tem muito melhor imprensa. Disfarça a sua incapacidade enquanto treinador com um palavreado cheio de ideias bonitas mas que não quer dizer nada. (Não é à toa que um dos seus principais fãs portugueses é Carlos Magno.) A referida divisão entre futebol "de esquerda" e "de direita" é disso um dos melhores exemplos. Evidenciando uma arrogância "de esquerda" que pode ser engraçada mas é contraproducente, ao enfrentar um Santiago Bernabéu cheio a vaiá-lo devido aos maus resultados da sua equipa respondia declarando à imprensa que era assobiado por... "ser de esquerda!" Isto, note-se, na segunda metade dos anos 90. A posteriori eu diria que a permanência de Valdano enquanto treinador do Real Madrid nesta época foi a principal razão da ascensão de Aznar ao poder...
Assentemos, então, ideias. Um treinador é pago para ganhar jogos. Um avançado, para marcar golos. Um guarda-redes, para não os sofrer. É isto. Clareza e simplicidade. Se para além disso o guarda-redes tiver alguma cultura musical, óptimo (mas tenho a certeza de que leirienses como o meu amigo Nélson se vão estar a borrifar para a sua cultura sempre que ele der um frango). Se o ponta-de-lança for um proletário, como o pequeno-grande LIEDSON, formidável, perfeito. Mas no futebol não é isso que conta. E nem na vida profissional.

(Já agora: sobre este assunto de arrogância vs. competência vale a pena ler este texto do Observador, um gajo de direita mas muito boa pessoa, e os respectivos comentários.)

Publicado por Filipe Moura às 07:25 PM | Comentários (8)

SANTANA: O PAPA-ELEIÇÕES? (2)

Navegando ainda à vista da coluna de Vasco Pulido Valente deste sábado, gostaria de tentar explanar o meu ponto de vista sobre a vitória de Santana nas eleições para a CML. Discordo de VPV quando ele afirma que se tratou de "explorar a absurda campanha ‘antifascista’ de João Soares"; não houve qualquer ênfase "antifascista" na campanha da coligação "Amar Lisboa", apenas um deslize do seu director de campanha, Vasco Lourenço, com ataques contraproducentes ao adversário. Mas é uma triste verdade que "João Soares lhe abriu a porta com erros de principiante".
Na altura, eu fazia parte do staff da coligação, pelo que até estou mais ou menos por dentro do que se passou. E a opinião que agora tenho é precisamente a mesma que então já tinha. João Soares perdeu ao adoptar uma postura majestática, quase arrogante: tomou ele por certo que lhe bastaria enumerar a (boa) obra passada e garantir continuidade para que os lisboetas corressem agradecidos ao seu regaço. Daqui surgiram aqueles antipáticos cartazes com números de barracas destruídas, quilómetros de ruas asfaltadas, urinóis públicos inaugurados, etc. Fechando os olhos a um simples facto da vida: os munícipes não sabem da maior parte do que é feito pela sua cidade e estão-se nas tintas para coisas, como a erradicação de bairros de lata, que julgam não lhes dizer directamente respeito.
João Soares perdeu, sobretudo, ao recusar fazer promessas. Embalado pela certeza de que a sua acção passada por si falava, escolheu a pior altura possível para apostar na seriedade e na contenção: uma eleição contra Santana Lopes. Este, claro está, tratou de prometer este mundo, o outro e mais ainda. Há uns meses atrás, compilei aqui nada menos que 22 promessas eleitorais da altura (sem olvidar o lindo cartaz que encima este post); dessa cornucópia de realizações miríficas, aportaram à realidade apenas duas: o malfadado túnel e o aumento de zonas pedonais. Dos fantasiosos "silos de estacionamento", "piscinas", "revisão do regime de cargas e descargas", "saída dos ministérios do Terreiro do Paço", "Mega Espaço da Juventude" e restantes alucinações eleitoraleiras, nem rasto até hoje se viu em Lisboa.
Assim se ganham, embora por margem mínima, eleições. Depois, insisto, "não importa que muitas promessas sejam irrealizáveis ou absurdas; não interessa que algumas sejam até incompatíveis entre si; é irrelevante que não haja dinheiro nem para metade. O que urge é prometer. Quatro anos depois, quem se lembrará do que devia ter sido feito entretanto?"
É isto que os resistentes contra a barbárie dos santanópteros terão de combater. Santana já começou a definir o seu discurso: Sampaio, o horrível esquerdista, impediu-o de desfrutar a segunda parte do mandato do PSD; os dois anos de prosperidade, paz na terra e felicidade que ele já prometera.
Não acredito, no entanto, que tal estratégia consiga pegar. A absoluta incompetência e impreparação de Santana estiveram em cruel exposição meses a fio. Agora, pelo sim, pelo não, há que manter fresca na memória colectiva a vergonha nacional que foi este governo. Há que lembrar às gentes que o calhau com gel já teve a sua oportunidade e que, naturalmente, a desbaratou. Será meio caminho andado para derrotar o populismo acéfalo e recidivo que volta a ameaçar o nosso pobre país.

Publicado por Luis Rainha às 04:31 PM | Comentários (5)

O IMPASSE


Cartoon de Thomas Boldt

Publicado por José Mário Silva às 04:27 PM | Comentários (1)

QUANDO A ESMOLA É GRANDE, O MISERÁVEL DESCONFIA

"Vários dirigentes do CDS não confiam em Santana Lopes e receiam que o partido entre numa coligação que possa não ir até ao fim."

Publicado por Luis Rainha às 04:06 PM | Comentários (0)

A EXACTA MEDIDA DO NOSSO ATRASO

Neste ano, já morreram 83 pessoas em acidentes na construção civil. Isto é Portugal.
A Torre Eiffel demorou dois anos a construir. Apesar da sua altura, apesar de nunca ninguém ter construído nada assim, nem um só acidente mortal (ou sequer grave) ali se deu. Isto era a França há mais de 110 anos.

Publicado por Luis Rainha às 04:02 PM | Comentários (3)

SANTANA: O PAPA-ELEIÇÕES? (1)

No "Público" de sábado, Vasco Pulido Valente desenha um quadro deprimente para os próximos actos da carreira política do calhau com gel. A conclusão é sombria: "o ‘grande ganhador’ está enfim obrigado a ganhar numa situação em que não lhe vale a pose, a fama e o espectáculo". E os antecedentes não parecem famosos: "se formos ver, Santana nunca ganhou nada de importância. Por junto e atacado ganhou a Figueira e ganhou Lisboa", "perdeu rotundamente vários congressos do PSD e nunca, fora das suas fantasias, passou de uma figura exótica na política portuguesa."
Mas como é que, afinal, Santana venceu as eleições naquelas duas cidades? Na Figueira ele triunfou, como aventa VPV, porque "parecia uma óptima publicidade turística" para "pôr a Figueira no mapa"?
Por acaso, até tive um ponto de vista privilegiado sobre esta disputa autárquica. Na altura, era autor, em parceria com o Nuno Ramos de Almeida (sem link, que a chafarica dele fechou...), de um programa na SIC que por vezes se lembrava de falar de coisas sérias. Como até nasci na Figueira da Foz, eu andava algo alarmado com a possibilidade de ter o que me parecia um pomposo saco cheio de bazófias e presunção a mandar na minha terrinha. Vai daí, lembrei-me de fazer uma peça quase-jornalística sobre aquela campanha, partindo do princípio que os eleitores iriam escolher Santana apenas porque se tratava de figura famosa. A teoria subjacente era que eles até no Pato Donald votariam, desde que lobrigassem um nome do jet-set nos boletins de voto (vê-se que não tinha grande confiança no discernimento dos meus conterrâneos).
Com esta nobre missão, o Nuno andou por lá quase uma semana; entrevistando varinas, auscultando o tal "sentir popular" que se presume influenciar estas coisas, etc. Quando voltou, o veredicto era claro: a minha teoria afundara-se sem glória nem proveito. Os figueirenses iam votar em Santana Lopes apenas porque o anterior executivo camarário era uma corja de incompetentes, madraços e apoucados. Toda a gente estava farta daquela malta que se instalara na Câmara havia anos e anos. Toda a gente ansiava que o PSD fizesse por fim uma aposta forte na Figueira. E Santana parecia ser essa aposta. O resto, como se diz, é história: ganhar as eleições acabou por ser fácil. E manter a população feliz também, dado o incrível grau de pasmaceira que antes dominara a actividade camarária. Esta é a real e singela anatomia da "surpreendente" vitória do calhau com gel na Figueira: mais demérito flagrante do adversário do que outra coisa qualquer.
Que a sua fulgurante "obra" tenha depois descambado em dívidas gargantuescas e vergonhas várias, pouco respeito veio a dizer ao peripatético autarca; ele já estava noutra.

Publicado por Luis Rainha às 12:29 PM | Comentários (2)

ARRUFO DE NAMORADOS

Queres mesmo? A sério? Queres mesmo mesmo mesmo, do fundo do coração? Tens a certeza? Olha lá, pensa bem, porque se for como da outra vez, já sabes que não quero. Se não investires na relação a tempo inteiro não dá. Percebes? Não dá. Tens que querer mesmo, mesmo. Assim completamente. Para a vida. É isso que tu queres? A sério? Mesmo, mesmo? Tens a certeza?

Publicado por José Mário Silva às 11:53 AM | Comentários (0)

TEASER

alexandre.bmp

É já na sexta-feira, dia 10, pelas 18h30. Na sede do Clube Português de Artes e Ideias (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, 29, 2.º, Lisboa) decorrerá o lançamento do melhor livro de ficção portuguesa do ano: «As Não-Metamorfoses», de Alexandre Andrade, editado (sem erros) pela errata.
Para explicar que não há qualquer exagero no epíteto «melhor livro», eu próprio darei a voz ao manifesto, se não for demasiado ofuscado pelo brilhantismo da outra apresentadora da obra, a sempre lúcida Alexandra Lucas Coelho.
Por via das dúvidas, apontem já nas agendas, s.f.f.

Publicado por José Mário Silva às 11:41 AM | Comentários (2)

BARRICADAS LINGUÍSTICAS

«Começar um movimento de resistência cujo móbil seja a defesa das vogais átonas, lutando galhardamente contra a aceleração da sílaba tónica, é de um requinte político e sofisticação revolucionária dignos do novo milénio.»
Quem o diz é o comentador Valupi, em delicioso diálogo com Fernando Venâncio. Está tudo aqui. Leiam, reflictam, passem palavra. E comecem a erguer as barricadas.

Publicado por José Mário Silva às 11:24 AM | Comentários (19)

4 MESES DE SURREALISMO: PEDRO SANTANA LOPES

Artista maldito, autor de instalações subversivas como «Palmeiras» (Figueira da Foz, 1997-2001), «Runaway Casino» e «O Semi-Túnel» (ambas do período dito «lisboeta», 2001-2004). Contrariamente ao que sugerem alguns teóricos, nunca se interessou pelo Dadaísmo, mas antes pelo Dá-cá-ismo. Em Julho deste ano, ampliou o espectro da sua obra, ao assinar o sub-avaliado fresco «PortuKaos», happening à escala de um país, para o qual convocou 10 milhões de figurantes.
A maioria dos especialistas catalogam-no naquela que é a menos estudada das correntes estéticas alternativas: a dos surrealistas involuntários.

Publicado por José Mário Silva às 12:43 AM | Comentários (6)

DESTA VEZ NÃO FALHO

Lhasa de Sela, Aula Magna, 22 horas.

Publicado por José Mário Silva às 12:38 AM | Comentários (1)

dezembro 05, 2004

80 ANOS DE SURREALISMO: SALVADOR DALI


"Construção mole com feijões: premonição da Guerra Civil", 1936

Dali nasceu na Catalunha em 1904. Após estudos pouco frutuosos nos Maristas, tratou de rumar a Madrid para estudar Pintura. Enquanto ia experimentando estilos próximos do Cubismo, conheceu Buñuel e Lorca e foi expulso da Escola de Belas-Artes. Em 27, descobriu o Surrealismo e caiu sob a atracção da obra de Yves Tanguy, coisa bastante notória em telas como "Pequenas Cinzas". Dois anos depois, surge o escândalo de "Un Chien Andalou", curta-metragem escrita em parceria com Buñuel, que chocou Paris e redundou num êxito: 8 meses de exibição ininterrupta. Neste mesmo ano, conheceu a mulher de Paul Eluard, Gala; pouco depois, já viviam juntos.
A leitura de obras como "Psychopathia Sexualis", de Krafft-Ebbing, sugere-lhe uma estratégia: inventariar fetiches e símbolos oníricos, acumulando-os em telas pintadas com paciente detalhe. O seu método "crítico-paranóico", inventado por esta altura, era "uma forma espontânea de congnição irracional baseada na interpretação crítica-associativa de fenómenos ilusórios". Isto, combinado com a mania de adormecer olhando para uma tela em branco e obrigando-se a sonhar com ela, pareceria receita certa para a variedade de kitsch que Breton chamava "Surrealismo de bazar". Mas não: até 1940, Dali produziu uma série de telas fabulosas, onde temas como a coprofagia e o incesto se combinavam em arenas alucinadas pela luz de Chirico. Obras-primas do calibre de "Prazeres Iluminados" e "A Velhice de Guilherme Tell" surgiram neste período.
Depois, veio a fuga de quase todo o Movimento para os EUA, ante o avanço das tropas alemãs. E começou a decadência de Dali, já antes alvo da fúria de Breton – que o apodou com o anagrama "Avida Dollars" – por se ter confessado admirador de Hitler e haver decidido que o abominável Meissonier, que sempre inspirara a sua técnica, era um Surrealista. A partir daqui, ele escolheu embrulhar-se em estranhos episódios místicos – incluindo visitas ao Papa – e dedicar-se à lucrativa produção de imagens para a indústria de posters e calendários... Mas, feitas bem as contas, Dali é muito mais do que o bufão histriónico que ganhou lugar na galeria das figuras pitorescas do sec. XX; o centro da sua obra até 1940 permanece um irredutível mapa das paisagens mais obscuras do espírito humano.

Publicado por Luis Rainha às 11:21 PM | Comentários (7)

EFEMÉRIDE

Passados 213 anos sobre a morte de Wolfgang Amadeus Mozart, oiçamos a ópera «Don Giovanni» dirigida por Carlo Maria Giulini, à frente da Philharmonia Orchestra, com Eberhard Wächter, Joan Sutherland, Elisabeth Schwarzkopf e Giuseppe Taddei.
Está lá tudo.

Publicado por José Mário Silva às 05:00 PM | Comentários (5)

BELA EXPERIÊNCIA, SIM SENHOR, BELO CAMINHO...

«Este livro fala-nos de uma experiência, fala-nos de um caminho.»

António Ramalho Eanes, ex-Presidente da República, durante a sessão de lançamento da autobiografia de Jorge Nuno Pinto da Costa («Largos Dias Têm 100 Anos»), ontem, no Estádio do Dragão

Publicado por José Mário Silva às 04:14 PM | Comentários (10)

DEZEMBRO DE 2004

Se Jacob sonhasse agora, os anjos continuariam a subir e a descer. Mas as escadas seriam rolantes.

Publicado por José Mário Silva às 04:11 PM | Comentários (1)

NA CAMA COM O VAMPIRO

Foi o Francisco José Viegas quem nos apresentou, faz agora um ano. Meio clandestino, trouxe-o comigo do Porto; receoso de ser visto na sua companhia, nem olhei para ele durante o voo. Quando cheguei a casa, escondi-o num armário mofento qualquer. Afinal, não queremos que as visitas vejam algo assim a passear pelo nosso lar, pois não?
Passados uns meses, o malandro foi ganhando coragem. Quando dei por ele, já se tinha infiltrado na casa-de-banho, escondendo-se entre um magote de revistas velhas. Ali, teve tempo para desafiar a minha curiosidade: valeria a pena conhecê-lo? E se eu até acabasse por gostar? Mas este fraco descendente do sedutor Conde Drácula apresentava-se gordo e feioso; quase metia dó, ali abandonado em tão rasteira companhia...
Ontem, acabei por o levar para o meu quarto. E lá comecei a mordiscá-lo.
Não me converti. “A Quinta de Blackwood” é um livro chato escrito numa prosa embrulhada e cheio de coisas como “os meus ouvidos vampíricos”. Continuo sem perceber o sucesso das infindáveis “Crónicas dos Vampiros” da senhora Anne Rice. Para fantástico de pechisbeque, mil vezes o pueril Harry Potter. Ao menos, este não se arma aos cucos.

Publicado por Luis Rainha às 02:42 AM | Comentários (1)

dezembro 04, 2004

A HARPIA

Maria Filomena Mónica aproveita uns centímetros quadrados que o Público lhe confiou hoje – no “Mil Folhas” – para escrevinhar uma feia agressão a Boaventura Sousa Santos. Não; desta vez não se trata de defender a Ciência dos ataques dos bárbaros relativistas. Trata-se... nem sei bem do quê.
Primeiro, MFM anuncia a sua magna descoberta: BSS escreveu poesia. Grosso pecado, claro está. Do alto da sua reconhecida peanha de crítica literária, a senhora é lesta a decretar: “cem anos depois de Cesário Verde ter transformado a poesia portuguesa, o sociólogo de Coimbra ousava oferecer ao público uma série de poemas primários, possidónios e indecorosos.” Depois de denunciada a ousadia, com que o autor apenas “pretende dar lustre aos entediantes trabalhos com que, por esse mundo fora, anda a ganhar o pão de cada dia”, venha o pecado maior.
Claro que MFM fica irritada por ver o sociólogo “subsidiado por organizações supostamente respeitáveis”, fazendo “dezenas de trabalhos em África”, sempre segundo investigações que “estão longe de ser neutras”. Vai daí, há que denunciar esta sinistra operação. O bombo da festa é o último livro do sociólogo; "Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique".
A seguinte citação é apresentada como prova conclusiva do enviesamento da obra em desapreço: “apesar de o paradigma normativo do Estado moderno pressupor que em cada Estado só há um direito e que a unidade do Estado pressupõe a unidade do direito, a verdade é que, sociologicamente, circulam na sociedade vários sistemas jurídicos e o sistema estatal nem sempre é, sequer, o mais importante na gestão normativa do quotidiano da grande maioria dos cidadãos.” Julgaria eu que nem é preciso conhecer bem Moçambique para calcular que a presença das instituições estatais, em sanzalas a milhares de quilómetros de Maputo, pode por vezes ser bastante ténue, dando azo à invocação de outros tipos de organização mais tradicionais.
Mas não: “pode parecer uma afirmação factual. Mas, subjacente a este olhar, está o desejo de legitimação de práticas legais ‘alternativas’, com raiz numa espécie de colonialismo invertido. Segundo esta corrente, a justiça dos brancos está manchada pelo pecado original do imperialismo; a dos nativos, porque mais genuína, é evidentemente melhor.” Então não leram esta aleivosia nas entrelinhas do parágrafo de BSS? Não? Têm mesmo a certeza? Então, vocês só podem ser como os “professores de Direito”, que ficam calados pois “temem criticar alguém que se refugiou numa disciplina por eles considerada esotérica”. Só MFM tem a coragem de expor a nudez do rei das bruxarias esotéricas.

Esta deselegante exibição de rancor e inveja não “releva de uma qualquer obsessão, causada sabe-se lá por que rasteiros motivos”. Diz a senhora. Quem em tal acreditará?

Publicado por Luis Rainha às 11:56 PM | Comentários (12)

GRANDE GOLEIRO!

Tenho pena que não esteja online a entrevista ao guarda-redes do Leiria que saiu hoje no “Público”. Comecei a ler tal texto pois o subtítulo falava da “paixão” do jogador brasileiro pela música; parti de imediato à caça de risotas fáceis, antecipando declarações de amor a Roberto Leal ou coisa que o valha. Enganei-me.
Helton sabe o que diz e exprime-se com fluência. A propósito do seu mister – “ajo por instinto, o momento é que tempera os meus reflexos” –, do racismo e, inevitavelmente, das minudências processuais da SuperLiga e quejandos. Quando lhe pedem para escolher entre Pelé e Maradona, responde com ironia certeira: “é como comparar um Picasso a um Van Gogh”. Todos conhecemos muitos políticos que nem por escrito conseguem a articulação de conceitos e palavras que este craque exibe.
Querem ver que vou ter de mudar a minha opinião dos futebolistas em geral? Bem; talvez só em relação aos guarda-redes. É que eles têm uma grande vantagem sobre os demais: não são obrigados a liquefazer o encéfalo dando cabeçadas à bola.

Publicado por Luis Rainha às 11:09 PM | Comentários (5)

ISTO ESTÁ A FICAR FEIO

Depois da incompetência, a vitimização. O PSD, em desespero, dispara para todos os lados. Até para dentro. Coisa desagradável de se ver, um hara-kiri.

Publicado por José Mário Silva às 05:26 PM | Comentários (6)

VERSOS QUE NOS SALVAM

De Eugenio Montale, um dos maiores escritores italianos do séc. XX, a Assírio & Alvim publicou recentemente uma notável antologia poética («Poesia»), seleccionada, traduzida e prefaciada por José Manuel de Vasconcelos. Um livro para todas as horas, cheio de preciosidades como esta:

Tu sabes bem: devo perder-te de novo e não posso.
Como um tiro certeiro me abala
cada acção, cada grito e mesmo o sopro
salino que se agita
nos molhes e faz a sombria primavera
de Sottoripa.

Terra de ferro velho e floresta
de mastros no pó do entardecer.
Um zunido longo vem do espaço aberto,
raspa como uma unha nos vidros. Procuro o sinal
desaparecido, o único penhor que tive como uma graça
tua.
E o inferno é certo.

Publicado por José Mário Silva às 05:18 PM | Comentários (0)

V, N, R, B, F, D, A, H, P, T, E, M, C, X

Publicado por José Mário Silva às 05:14 PM | Comentários (2)

JÁ NINGUÉM TEM MEDO DE PINTO DA COSTA

PJ e Beira-Mar, parabéns.

Publicado por José Mário Silva às 04:35 PM | Comentários (5)

ECOS DO EVANGELHO

Da outra vez, Pedro renegou três vezes. Agora, foi renegado outras tantas. Veremos quem acabará na cruz.

Publicado por José Mário Silva às 04:33 PM | Comentários (2)

dezembro 03, 2004

POR FAVOR, NÃO ME ACORDEM

Santana Lopes quase despedido; o PP prestes a eleger uma bancada parlamentar transportável numa bicicleta; Pinto da Costa com os costados no tribunal (e com o seu FCP a perder em casa com o Beira-Mar). Não tenho bem a certeza de não estar a sonhar. Pelo sim, pelo não, que ninguém me belisque.

Publicado por Luis Rainha às 11:23 PM | Comentários (7)

MEXIA, O ESQUERDISTA

Depois de tudo o que se passou na blogosfera de direita (o affaire «lealdade orgânica» e polémicas afins) não deixa de ser engraçado ver o Pedro Mexia no cabeçalho do Barnabé:

PS- Já agora, não deixem de dar um pulo à Ler Devagar na terça-feira. Os cinco magníficos (Daniel, Rui, André, Celso e Pedro) merecem.

Publicado por José Mário Silva às 07:39 PM | Comentários (2)

A CASA DO SONO

Há algumas semanas, tive a oportunidade de conhecer Jonathan Coe. Em trabalho, passámos quatro dias nos dois lados da não-fronteira entre a Bélgica Flamenga e a Holanda. Da sua obra, já tinha lido e apreciado bastante Anões da Morte, editado pela Asa, e What a Carve Up! Nem sempre é assim – aliás, quase nunca é assim –, mas, depois de conhecê-lo, tenho lido tudo o que encontrei com a sua assinatura. Hoje, de manhã, terminei de ler o recomendável, recomendável, recomendável The House of Sleep. Publicado em 97, ganhou o Médicis no ano seguinte. Aqui fica um excerto deste romance onde, para além da curiosidade de mencionar um certo Portuguese director, me parece que pode funcionar como uma micro – necessariamente imperfeita – Ars Poetica de Jonathan Coe.


A few weeks ago, Terry wrote, I found myself overhearing one of those recurrent dinner-party conversations about who is the 'greatest' film director at work today. The two participants were both critics: one of them, a member of the old school, argued for the veteran Portuguese director Manoel de Oliveira, while the other, who seemed to think of himself as some sort of Young Turk, carried the inevitable banner for Quentin Tarantino.
It was like... well, what was it like? It was like watching two teams of blind men trying to play football on a derelict pitch, when no one had the decency to tell them that the goalposts had been taken down years ago.
It was the Taranteeny I felt really sorry for. At least his opponent's position had some sort of antiquated coherence. But as for the Turk (perhaps, remembering the Young Fogeys, we should coin a neologism for this specimen: the Old Turk), he didn't seem to realize the sheer crappiness of his argument – which was that by 'revitalizing' B-movie clichés, Tarantino was actually achieving some sort of (and yes, he really did use this word) 'originality'. I think, God help him, he may even have mentioned postmodernism at some particularly desperate moment.

Publicado por José Luís Peixoto às 05:56 PM | Comentários (16)

DESABAFO

Não há pachorra — mas é que não há mesmo pachorra — para a publicidade a telemóveis com espírito de Natal.

Publicado por José Mário Silva às 05:51 PM | Comentários (4)

O LIVRO DO GRANDE JON

A Gradiva acaba de publicar, na sua colecção de humor «E agora, para algo completamente diferente», a tradução portuguesa (feita por Carla Hilário de Almeida Quevedo, aka Bomba Inteligente) de «Naked Pictures of Famous People», o primeiro livro de Jon Stewart, genial apresentador do programa «The Daily Show» (SIC Radical).
Escusado será dizer que a compra deste livrinho amarelo é obrigatória e compulsiva.

[No DN de ontem, expliquei mais detalhadamente o porquê desta obrigatoriedade compulsiva. Infelizmente, o link para esse artigo não ficou disponível. Quem ainda assim o quiser ler, pode encontrá-lo na extensão deste post. É só clickar em baixo, s.f.f.]

PARA ACABAR DE VEZ COM TUDO E MAIS ALGUMA COISA

Os espectadores portugueses do «Daily Show», um programa de culto transmitido pela SIC Radical, sabem muitíssimo bem do que Jon Stewart é capaz. Apoiado por uma equipa fabulosa de redactores e pseudo-repórteres, o humorista apresenta um impagável telejornal de notícias falsas, onde a realidade americana é satirizada impiedosamente, com uma inteligência tão aguda quanto mordaz. À conta da sua pose de pivot que desmonta as hipocrisias da política moderna, numa apoteose cómica que é para levar muito a sério, a «Columbia Journalism Review» classificou-o em quarto lugar numa lista das 20 figuras da comunicação social que melhor cobriram, este ano, a campanha eleitoral para a Presidência (ficou à frente, por exemplo, de algumas estrelas do «New York Times» ou do «Washington Post»).
Uma das grandes qualidades de Stewart, enquanto apresentador do «Daily Show», é a forma como gere o tempo e a economia do discurso. Além de recorrer a uma subtilíssima linguagem corporal (às vezes um simples movimento das suas sobrancelhas diz quase tudo), o pivot tem o sentido das pausas, sabe prolongar os silêncios e escolhe cirurgicamente a melhor altura para lançar o comentário ácido, a frase assassina ou o aparte demolidor. Muita da eficácia de Jon reside aqui: no timing sempre certo, no ritmo impecável, numa espécie de swing jazzístico.
Ao ler «Nus de Pessoas Famosas», a primeira incursão de Stewart na literatura de humor, é com grata surpresa que descobrimos, intactas, todas as qualidades que este exímio comunicador costuma exibir no ecrã. As piadas oportunas, a fluidez dos raciocínios, a respiração sem quebras – não falta nada. A prosa é ágil e abarca todo o tipo de temáticas, exploradas com a delicadeza de um bulldozer e a suavidade de um bidão de ácido sulfúrico. Stewart não é indiscreto, cruel, inconveniente, herético, cáustico e deliberadamente mauzinho só às vezes. É sempre. E ninguém no seu perfeito juízo se pode queixar. Numa palavra, Stewart é um Woody Allen em versão desbragada; ou seja, sem o peso da má consciência judia, de um super-ego tirânico ou dos sentimentos de culpa.
Nos 18 ensaios reunidos neste volume, a estrutura nunca varia muito. Basicamente, em cada um deles é levado a cabo um trabalho de desmontagem irónica de um mito do séc. XX ou de uma ideia feita do imaginário popular. Stewart recorre aos mais diversos esquemas narrativos (o diário, a troca de correspondência, a entrevista televisiva, os chats na internet, o artigo de imprensa sensacionalista, mas também a transcrição de escutas telefónicas na Casa Branca) para depois os subverter, numa lógica de pura paródia e derrisão.
Só para se ter uma ideia dos estragos que a verrina de Stewart pode provocar, vale a pena referir que nestas páginas descobrimos um JFK infantil, mimado e alegremente anti-semita; uma Princesa Diana tontinha, a tentar ser amiga à força de Madre Teresa de Calcutá; um Bill Gates ainda mais diabólico do que o próprio Diabo; uma versão iconoclasta da Última Ceia de Cristo; um pastiche brilhante dos desenhos de Leonardo Da Vinci; uma caricatura tão severa da estupidez de Gerald Ford que faz parecer George W. Bush inteligente; e uma extraordinária entrevista de Adolf Hitler a Larry King, em que o ditador, ressuscitado, justifica os seus actos hediondos com uma calma olímpica.
Nota final para a tradução, quase perfeita, de Carla Hilário de Almeida Quevedo, que conseguiu preservar em português a contundência dos desaforos de Stewart.

PERFIL:

Nova-iorquino de gema e judeu dos quatro costados, Jonathan Stewart Leibowitz (n. 1962) deixou cair o apelido familiar porque este «soava demasiado a Hollywood». Com uma carreira muito discreta até ao final da década de 90 – após a revelação televisiva, no «The Larry Sanders Show», o máximo que conseguiu foram papéis secundários em filmes menores, como «The Faculty» ou «Big Daddy» –, Stewart só explodiu enquanto estrela mediática a partir de 1999, quando começou a apresentar «The Daily Show», um programa de notícias falsas e paródia política, produzido pela Comedy Central e vencedor de vários Emmys. Ideologicamente de esquerda (a sua alcunha é «lefty»), o humorista tornou-se mestre na arte de ridiculizar George W. Bush e a sua administração. Muita gente garante mesmo que ele é um dos mais proeminentes analistas políticos da América contemporânea. Depois do livro de estreia, o agora traduzido «Naked Pictures of Famous People», Jon lançou, há apenas dois meses, «America (The Book): A Citizen’s Guide to Democracy Inaction», uma análise crítica do sistema democrático dos EUA, escrita em conjunto com o staff do «Daily Show».

Publicado por José Mário Silva às 05:44 PM | Comentários (4)

CTRL+ALT+DEL

Se o problema é informático, sempre ouvi dizer que, depois de se tentar todas as possibilidades, se nenhuma funcionar, o melhor é sair e voltar a entrar. Ou seja, desligar e voltar a ligar o computador.
Tenho a sensação que foi exactamente o que aconteceu com o país. Quando saí, era o caos; após poucos dias, quando voltei a entrar, tudo estava finalmente a resolver-se.
Muitas vezes, as soluções mais simples são as melhores.

Publicado por José Luís Peixoto às 05:38 PM | Comentários (5)

NEM MAIS

«Recuso-me a aceitar um qualquer fenómeno de índole miraculosa capaz de libertar aquela ou aquele que age no texto, na tela ou na partitura, da sua condição de ser social, ou um qualquer parêntesis que possa isolar o gesto da criação artística dos restantes gestos da existência. E uma intervenção no Mundo nunca o deixa incólume: deforma, modula, filtra, exalta e suprime.»

Alexandre Andrade (in Nota Prévia ao livro de contos «As Não-Metamorfoses», Errata)

Publicado por José Mário Silva às 05:19 PM | Comentários (0)

NOTÍCIAS DE FAMALICÃO

Após muitos anos de trabalho em conjunto, os dois sócios fundadores da editora Quasi vão separar-se. Jorge Reis-Sá fica; valter hugo mãe sai. E despede-se com um até já: «estarei no meio dos livros – no meio dos textos sempre – (...) agora numa outra situação, num outro plano».

Publicado por José Mário Silva às 04:49 PM | Comentários (2)

ESQUECIMENTOS...

De acordo com Mota Amaral, Jorge Sampaio não lhe comunicou antecipadamente a sua intenção de dissolver a AR apenas "por esquecimento". Bem; tendo em vista que se trata da mesma pessoa que se esqueceu, há uns meses, de todas as tristes figuras que Santana Lopes foi fazendo ao longo dos 30 anos que dedicou à afanosa busca de poder, até é bem capaz de ser verdade.

Publicado por Luis Rainha às 03:54 PM | Comentários (6)

BHOPAL: 20 ANOS SEM JUSTIÇA

Logo no início do dia 3 de Dezembro de 1984, a cidade indiana de Bhopal acordou coberta por gases venenosos, vertidos por uma fábrica de pesticidas obsoleta e insegura. Não houve aviso, nenhuma sirene de alerta soou. Segundo relatos de sobreviventes, as vítimas despertavam a vomitar, tossindo sangue e sem controlo dos esfíncteres, por entre nuvens esbranquiçadas e gritos dos vizinhos. À medida que os efeitos do gás se prolongavam, dezenas de milhares de afectados perdiam a voz e a visão. O pânico era indescritível. Mortos-vivos deambulavam com cadáveres de crianças ao colo, mulheres grávidas abortavam em plena rua, os hospitais transbordavam de moribundos sem tratamento possível.
Cerca de 500.000 pessoas foram assim expostas ao gás assassino. Até hoje, mais de 20.000 morreram; e mais de 120.000 ainda sofrem de doenças contraídas naquela noite de horror ou causadas pela poluição subsequente. Hoje, a água da cidade continua contaminada por agentes cancerígenos vários, em concentrações milhões de vezes superiores ao aceite pelos padrões internacionais.
A Union Carbide, proprietária da fábrica da morte (e dos seis sistemas de segurança que se demonstraram ineficazes há 20 anos), afirma ter pago tudo o que devia e continua a recusar-se a limpar devidamente o local ou sequer a fornecer a composição exacta do gás venenoso, alegando tratar-se de um "segredo comercial" - esta informação ainda poderia ajudar a terapia dos sobreviventes afectados. A empresa que transformou Bhopal numa câmara de gás abandonou a Índia – deixando por lá toneladas de produtos químicos letais – e recusa-se a comparecer nos tribunais locais.
A petição onde podem protestar contra este crime e exigir compensações adequadas às vítimas está aqui.

Publicado por Luis Rainha às 03:04 PM | Comentários (2)

OS NOSSOS TRIBUNAIS E O SÉCULO XXI

Recebi há uns dias a visita de um senhor cheio de vontade de me penhorar alguns bens. Aparentemente, eu devia quase 400 euritos ao venerando Tribunal. Porquê? O diligente funcionário não fazia ideia.
Hoje, lá me desloquei à Domus Justitiae. E descobri de onde vinha a famosa dívida: há largos meses, vi-me obrigado a pagar, depois de muita reclamação, uma multa de trânsito. Recebi a guia de pagamento e lá me despedi do dinheiro e das dores de cabeça associadas aos labirínticos "trâmites legais" (julgava eu).
Acontece que os senhores funcionários fizeram depois as contas e concluíram que o dinheiro que me haviam pedido não bastava para saldar as custas do processo. Vai daí, lançam-me às canelas o pessoal das penhoras. Mas, bem vistas as coisas, a soma em dívida afinal não chegava a metade dos tais 400 euros. E, ó maravilhas do progresso!, até pode ser paga por Multibanco!
Mas há um problema: tenho de fazer prova do pagamento. E não posso enviar o recibo por fax pois, por alguma razão misteriosa, "os faxes não costumam chegar cá abaixo" e isso do e-mail também lá não chegou. Conclusão: vou desfrutar da moderna comodidade de pagar em qualquer caixa automática. De seguida, regresso ao séc. XIX e marcho para o tribunal, de papelinho em punho.
A auto-estrada da informação em Portugal continua igualzinha à A5: sujeita a estrangulamentos, obras sem aviso e demoras inesperadas.

Publicado por Luis Rainha às 01:37 PM | Comentários (2)

ÓRFÃOS

Ontem ao fim da tarde, por mero acaso, entrei no Picoas Plaza. Na livraria Bertrand, rodeado por holofotes, microfones e máquinas fotográficas, Cavaco Silva assistia ao lançamento de «O Meu Tempo com Cavaco Silva», livro de memórias políticas do seu ex-assessor de imprensa, Fernando Lima. Lá dentro e cá fora, lambendo feridas, os órfãos do PSD.

Publicado por José Mário Silva às 12:11 PM | Comentários (5)

DEMOCRACIA DEBAIXO DE FOGO


Cartoon de Mike Keefe, «The Denver Post»

Publicado por José Mário Silva às 10:21 AM | Comentários (7)

dezembro 02, 2004

IMPRESSÕES DE CONSTIPAÇÃO

- A inflamação na zona nasal do rosto provoca a sensação que a parte da frente do rosto inchou. Nestas alturas não tolero piadas sobre o nariz do Júlio Isidro.

- Na cavidade do nariz parece erguer-se um "muco da vergonha" que me isola do mundo. As cores e sons ficam baços e as pessoas mais distantes. Do lado de cá estou eu e os meus problemas, do lado de lá está a realidade fria e cruel.

- As dificuldades em respirar devem afectar-me o cérebro, pois aglomerados inteiros de neurónios deixam de responder eficazmente. É como se o crânio abrigasse um colégio interno a braços com uma epidemia de sarampo.

- A principal vantagem das constipações é a apreciação acrescida por bebidas quentes, sejam leite, chá, café ou água quente simples. O vapor e o líquido escaldante parecem mel à medida que abrem caminho pelas grutas cheias de entulho.

- No filme Total Recall, de Paul Verhoeven, há uma cena em que Arnold Schwarzenegger retira uma maquineta do nariz do tamanho de uma bola de ping-pong. É um filme definitivamente a evitar nestas alturas.

- É nas alturas em que me assoo que percebo o gemido de satisfação da garrafa de vinho a que se extraiu a rolha.

- A constipação é provavelmente a única altura em que expelir líquidos do organismo em público é socialmente tolerado. Socialmente tolerado, não socialmente apreciado.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:13 PM | Comentários (4)

O NOVO BLOCO DE APARTAMENTOS

A empresa mais odiada do mundo depois do MacDonalds (aquela coisa cujo relações públicas se chama George W. Bush não é bem uma empresa - é mais um cartel de empresas) acaba de chegar aos blogs.
Quem se oferece como cobaia?

Publicado por Jorge Palinhos às 06:41 PM | Comentários (2)

MAS JÁ NEM O PAPA RESPEITAM?

Parece que o "Apito Dourado" ainda se faz ouvir. Depois de prender quatro árbitros e um empresário ligado ao FCP, a Judiciária já notificou Pinto da Costa, tendo também revistado a sua casa. Este, mui adequadamente, encontra-se ausente do país. Estará na Sicília?

Publicado por Luis Rainha às 06:37 PM | Comentários (4)

A NÃO PERDER, MAIS LOGO NA TV: "HUMILHADOS E OFENDIDOS"

Depois de se reunir com o ex-parceiro, Paulo Portas tem agendada aparição televisiva para a hora dos noticiários. Imagino que seja coisa a merecer gravação: o Paulinho das Feiras de dedo em riste vociferando contra as sinistras "forças de bloqueio" (AKA Jorge Sampaio), gabando a coruscante obra dos seus comparsas no governo, e fazendo de conta que não percebe bem o que se passou. Calculo que seja adaptado o penetrante argumento já empregue em relação a Marcelo: tudo isto não passa de uma "mera questão laboral, que devia ter sido resolvida entre o ministro demissionário e a sua entidade empregadora".

Publicado por Luis Rainha às 06:25 PM | Comentários (2)

80 ANOS DE SURREALISMO: MATTHEW BARNEY


Imagem de "Cremaster 4", 1994

Com o seu famoso ciclo "Cremaster", Barney tornou-se no primeiro artista – depois das experiências de Dali e Buñuel - a trasladar para as salas de cinema a Arte Contemporânea. Depois de uma carreira vertiginosa, que o levou a ter sua primeira exposição individual, no Museu de Arte Moderna de São Francisco, aos 24 anos, ele virou-se para o Cinema. E acabou por redimir os semi-fracassos em que, por tradição, redundavam as grandes produções cinematográficas entregues a artistas de renome; das aventuras de Dali com a Disney ou com Hitchcock às incursões de Longo ou de Julian Schnabel. Cremaster – nome de um músculo responsável pelas contracções dos testículos – é um conjunto de cinco filmes que desafia qualquer ideia "clássica" de cinema. Durante os seus 400 minutos, produzidos ao longo de uma década, o espectador vê-se perdido no meio de um labirinto de ideias onde tanto pode encontrar Norman Mailer como uma série de monstros sanguinolentos; um torvelinho barroco de imagens e referências que vão dos mitos Celtas à vida de Harry Houdini, sem esquecer, claro está, o amor do artista pela vaselina, material-fetiche que toma o lugar da gordura e do feltro de Beuys.
A par com os filmes de David Lynch, esta é por certo a aparição mais notória do Surrealismo na 7.ª Arte, desde a morte de Luis Buñuel...

Publicado por Luis Rainha às 05:18 PM | Comentários (2)

O FUTURO DA PALESTINA TEM ALGEMAS NAS MÃOS

Contrariando o que fora anunciado há uma semana, Marwan Barghouti, o mais popular e carismático dos políticos da Fatah, sempre vai candidatar-se à liderança da Autoridade Palestiniana, apesar de estar fechado numa prisão israelita (onde cumpre cinco penas de prisão perpétua).

Publicado por José Mário Silva às 04:23 PM | Comentários (8)

80 ANOS DE SURREALISMO: YVES TANGUY


"Dias de lentidão", 1937

Conta a lenda que, nos idos de 1923, Yves Tanguy descia uma rua parisiense de autocarro quando viu um quadro de Giorgio de Chirico na montra da galeria de Paul Guillaume. Semi-hipnotizado, saltou para a rua, estatelando-se ao comprido. Pouco depois, este autodidacta que antes se dedicara a uma série de carreiras a eito, como marinheiro, militar na Tunísia, condutor de eléctricos, etc., começava a pintar. O seu tema pouco mudou nos 30 anos seguintes: um mundo fantástico habitado por criaturas entre o orgânico e o mineral. Era como se a pintura o levasse a emigrar para um universo paralelo, fervilhante de vida mas onde nada correspondia às nossas experiências e palavras quotidianas. No entanto, as suas imagens eram nítidas e detalhadas; sempre fustigadas pela luz crua das telas de Chirico, sempre povoadas por sombras longas e ominosas.
Para Breton, uma pintura começava por ser uma janela; o importante era saber, antes de tudo mais, para que paisagens ela se abria. Tanguy deu-lhe a mais estranha das respostas.

Publicado por Luis Rainha às 04:19 PM | Comentários (3)

«AI SE ELE CAI/ VAI-SE PARTIR...»

No quiosque, o homem que vende jornais escutava, muito a propósito, uma das últimas canções dos Xutos.

Publicado por José Mário Silva às 04:03 PM | Comentários (6)

É COISA BONITA, A CONFIANÇA ENTRE AMIGOS

Os escritórios de uma poderosa organização de lóbi pró-Israel nos Estados Unidos foram ontem sujeitos a uma busca por agentes do FBI. A suspeita é de espionagem em prol do estado judaico, e estende-se a quatro quadros superiores da AIPAC. A história já vinha de Agosto e fora primeiro noticiada pela CBS. Para Israel, é tudo uma questão de tricas internas dos serviços secretos americanos. Esta peculiar ONG agora na berlinda garante que isto não basta para os "distrair da nossa missão central de apoiar os interesses da América no Médio Oriente e advocar um forte relacionamento com Israel." É uma maneira de ver a coisa; mas, se calhar, devia ler-se "apoiar os interesses de Israel, através de um estranho relacionamento com analistas do Pentágono..."

Publicado por Luis Rainha às 02:34 PM | Comentários (2)

ILUSÃO DE OUTONO

Com tantas folhas pelo chão — tapetes dourados sobre a calçada — até parece que Lisboa é um bosque.

Publicado por José Mário Silva às 02:28 PM | Comentários (0)

ECOS DA CRISE DE TERÇA-FEIRA

Hoje, no DN, Marina Almeida analisa a forma rápida como a blogosfera reagiu ao anúncio da dissolução do parlamento, feito por Sampaio na tarde de terça-feira. Mais um passo para a credibilização dos blogues enquanto fonte de notícias, opiniões e comentários.

Publicado por José Mário Silva às 02:05 PM | Comentários (10)

CARTAS FORA DO BARALHO


Cartoon de Thomas Boldt

Em Israel, o castelo de cartas de Sharon começa a desmoronar-se.

Publicado por José Mário Silva às 02:00 PM | Comentários (0)

NÃO SÃO FAVAS CONTADAS

Previsivelmente Santana Lopes vai deixar de ser primeiro-ministro, e isso é o melhor que poderia suceder a Portugal. Há no entanto outros aspectos a ter em atenção.
Um dos grandes beneficiados com este processo é Cavaco Silva. Anteriormente Cavaco tinha (e ainda tem) uma liderança no PSD de que não gosta nem um bocadinho, mas de cujo apoio nunca poderia prescindir. Agora, para a candidatura presidencial de Cavaco, partindo do pressuposto que Santana vai a eleições legislativas e perde, tudo é perfeito: no verão de 2005, o PSD terá então, previsivelmente, uma liderança mais "cavaquista"; e acima de tudo, o povo já terá castigado a direita nas urnas nas eleições legislativas, pelo que a sua candidatura presidencial não será afectada pelo mau desempenho do governo PSD-CDS, algo que não aconteceria se esta legislatura fosse até ao fim.
Mais ainda: não é um dado adquirido que seja Santana a disputar as eleições. Nada garante que não haja um congresso extraordinário do PSD, e a partir daí tudo pode acontecer.
Não há motivo para pessimismos (logo eu que sou um optimista militante), mas há que manter os pés bem assentes na terra. Nada de embandeirar em arco antes do tempo.

Publicado por Filipe Moura às 11:11 AM | Comentários (10)

AINDA O SURREALISMO

Um grupo de 500 artistas plásticos, críticos, curadores e galeristas, convidados pelo patrocinador oficial do Prémio Turner (o gin Gordon’s), estabeleceram uma lista das obras que mais influenciaram a arte moderna. Em primeiro lugar, para surpresa de muitos, ficou a «Fonte» de Marcel Duchamp (o célebre ready made que consiste num urinol, assinado pelo artista).
O resto do top-10 ficou alinhado assim:

2- «Les Demoiselles d'Avignon», Pablo Picasso

3- «Marilyn Diptych», Andy Warhol

4- «Guernica», Pablo Picasso

5- «L' atelier rouge», Henri Matisse

6- «I Like America and America Likes Me», Joseph Beuys

7- «Endless Column», Constantin Brancusi

8- «One: n.º 31», Jackson Pollock

9- «100 untitled works in mill aluminium», Donald Judd

10- «Reclining Figure», Henry Moore

Publicado por José Mário Silva às 11:07 AM | Comentários (16)

"ESCRITO NAS ESTRELAS"

Como já aqui foi dito, o "faro" político de Luís Delgado foi definitivamente desmontado: as suas previsões são sempre um exercício de wishful thinking e não merecem grande credibilidade.
Quem ganhou uma credibilidade acrescida foi Luís Osório e o jornal "A Capital". Embora as suas previsões sejam igualmente um exercício de wishful thinking, não é para qualquer um prever o que se vai passar com uma antecedência de cinco meses.

Publicado por Filipe Moura às 09:45 AM | Comentários (6)

dezembro 01, 2004

UMA TARDE NO IKEA

Grandes sacos amarelos. Caos de pessoas ofuscadas, aos magotes, em trajectórias imprevisíveis. O consumo reduzido à elementaridade dos movimentos brownianos.

Publicado por José Mário Silva às 11:40 PM | Comentários (7)

80 ANOS DE SURREALISMO (3)

Hoje em dia, a herança do movimento não se resume a salas temáticas em museus de todos os continentes. É certo que a sua orgânica se esfarelou com a morte do "papa" Breton" – não que estivesse em grande estado antes disso – deixando numa irremediável orfandade organizações em locais, como Portugal, onde a boa-nova chegara com atraso. Mas o espírito de liberdade e a concepção de "beleza convulsiva" no coração do Surrealismo continua hoje a contaminar pintores, escritores e escultores. Gente como Robert Longo, J. G. Ballard, os Irmãos Chapman ou Antony Gormley é disso prova viva.
E mais: ramos inteiros da Arte Contemporânea descendem de experiências surrealistas. Por exemplo, o primero happening ficou documentado no n.º 8 de "La Révolution Surréaliste", com uma fotografia do "nosso colaborador Benjamin Péret a insultar um padre"...

Nos próximos dias, vou tentar lembrar-me dos meus surrealistas preferidos, dos "clássicos" a alguns menos conhecidos. Para o efeito, irei socorrer-me da excelente "Phaidon encyclopedia of Surrealism". E, claro está, da boa vontade de quem comigo quiser colaborar nesta modesta celebração...

Imagem: Robert Longo - "Tongue to the Heart", 1984

PS: No Portugal de Salazar, a vida do Surrealismo nunca poderia ser fácil. Se, de acordo com Mário Cesariny, Vieira da Silva e Arpad Szenes foram os “introdutores do surrealismo na pintura portuguesa da década de 30”, verdade é que Lisboa só conta com um Grupo Surrealista a partir de 1947, e muito como reacção contra a corrente então mais na “moda”, o Neo-Realismo. António Pedro, José Augusto França, Alexandre O´Neill e Mário Cesariny eram as figuras de proa, sem esquecer contributos de António Dacosta, Vespeira, Carlos Calvet, Cruzeiro Seixas, Mário Henrique Leiria, Jorge Vieira, Fernando Azevedo, Mário Eloy e, já desde a década de 30, de Júlio. Tudo isto é, no entanto, sol de pouca dura: no início da década de 50, as dissidências e cenas tristes bem à portuguesa agudizam-se, finando-se aí o carácter orgânico do Surrealismo luso. Claro está que o ambiente não era propício a grandes liberdades dos surrealistas; mas também parece ser verdade o que Luiz Pacheco garantiu: “eles eram muito mauzinhos uns para os outros”. Não houve sequer tempo para que estes artistas produzissem então obra plástica muito original; mesmo nos melhores casos, as influências de modelos estrangeiros nunca deixavam de ser flagrantes. Aliás, não falta quem garanta que foi na Poesia que o Surrealismo deixou sementes mais produtivas por estas bandas...

Publicado por Luis Rainha às 06:45 PM | Comentários (3)

DEUS LHES PAGUE

No meio de tanta agitação política nem reparei que estes ateus andam na blogosfera há já um ano. Parabéns e que deus os conserve.
Ainda no mesmo blogue, o Ricardo Alves dedica-se a essa nobre actividade, necessária para a nossa sanidade mental, que é refutar Boaventura de Sousa Santos (ou, pelo menos, o seu "Discurso Sobre as Ciências"). A ler com atenção.

Publicado por Filipe Moura às 05:20 PM | Comentários (10)

80 ANOS DE SURREALISMO (2)

Logo no seu início, o Surrealismo integrou vários artistas plásticos. Mais: tratou nesses primeiros dias de se apropriar de quase toda a Arte fantástica anterior, de Bosch a Gustave Doré, integrando-a na sua árvore genealógica.
No entanto, a "arrumação" da pintura no movimento não era pacífica. Cedo se percebeu que o automatismo puro delineado no Manifesto dificilmente englobaria os rumos que artistas como Ernst exploravam. Isto, claro, sem esquecer que o reverenciado patriarca Giorgio de Chirico – este deixara de pintar coisas do agrado dos surrealistas em 1919, mas participou no primeiro número de "La Révolution Surréaliste" com um "relato de um sonho" – era um descendente de românticos como Böcklin ou Fuseli, pintando com detalhe alucinante os seus panoramas de praças desertas ou interiores assombrados.
O caminho certo, afinal, acabou por se revelar tripartido. Ao automatismo de um pintor como André Masson, cedo se acrescentou o verismo de artistas como Dali, Tanguy ou Magritte. E, claro está, a investigação de processos aleatórios, através de frottages, das "decalcomanias" de Oscar Dominguez, etc, desembocou num outro território virgem.
Convém manter presente que a pintura Surrealista nunca teve por alvo "pintar sonhos". O próprio Breton tivera o cuidado de não reduzir a sua doutrina a mais uma escola literária; o habitat do Surrealismo sempre foi a vida, e a sua bússola um novo olhar sobre palavras, objectos e encontros. Estes, despidos das suas cargas corriqueiras e utilitárias, revelar-se-iam enfim em toda a sua glória mágica, integrando-se na "insurreição geral" contra os valores burgueses europeus.
O objectivo de todo o movimento era assim a abolição das barreiras entre a Consciência e o Inconsciente, acedendo a uma nova categoria existencial: a tal "sobrerrealidade". A rota usada é que poderia variar; assim se explica a diversidade de estilos e abordagens que é bem visível por estas bandas. Entre as cabriolas coloridas de Miró e o erotismo demente de Bellmer, nenhum factor formal existe em comum. Apenas a adesão ao libertador "credo" surrealista.

Imagem: Giorgio de Chirico - "Praça de Itália", 1913

Publicado por Luis Rainha às 10:39 AM | Comentários (0)

O PROBLEMA DO PÓS-SANTANISMO


Cartoon de Luís Afonso, «Público»

Publicado por José Mário Silva às 10:25 AM | Comentários (1)

ATÉ A NATUREZA FESTEJA A BOA NOVA

Hoje de manhã, sobre a Avenida da República, em Lisboa, erguia-se um deslumbrante arco-íris, como há muito tempo não via.

Publicado por José Mário Silva às 10:19 AM | Comentários (1)

DIÁLOGOS NA INCUBADORA

- Agora é que a arranjaste bonita...
- Eu? Ó Paulo, mas tu não viste que foi o desgraçado do Sampaio? E os gajos do meu partido que não paravam de dar chapadas ao puto na incubadora...
- Guarda essas cenas para os tempos de antena. Se há aqui alguma vítima, sou eu. Bem que a minha mãe me avisou para não me meter contigo.
- Já pareces a Cinha, sempre a dar-me na cabeça: que devia ler os dossiês, que devia pensar antes de abrir a boca. Ninguém me compreende!
- Vá, vá, não comeces agora a chorar. Não és assim tão mau, pronto. Mas já viste bem as broncas que os teus amigos deram?
- Broncas, mas que broncas, pá? Pareces os comunas da imprensa...
- Nem sei por onde comece: aquele tonto do Silva com a história do Marcelo, este oligofrénico que nem sei como se chama a sair do governo aos urros...
- Oh, oh! E quem é que se armou em prima da dona durante o meu lindo congresso? Não chamaste tonto ao Silva quando ele veio a Lisboa acalmar-te os achaques, pois não? E olha que aquela ideia de mandar os barcos de guerra contra as holandesas do aborto também foi do além!
- Por falar nisso, esta história do bebé prematuro... só não bato palmas porque estão aqui estes jornalistas todos à espera que nos peguemos.
- Pois, pois. Mas águias passadas não morrem velhinhas. Temos mas é de preparar o futuro!
- Tipo quê, destituir o Sampaio?
- Mas não viste as sondagens de ontem?
- Então não vi? 3% para o PP... com sorte elegemos para aí meio deputado.
- Pois é. Temos de fazer pela vidinha! Tu que tens montes de contactos, não nos arranjas uns empregos à altura dos nossos currículos?
- Para ti, só se for como espantalho...
- Hã? Estás a falar para dentro! O que é que disseste?
- Que há por aí muito bom trabalho... Olha; estou já ao telemóvel a tratar disso. Não te preocupes e deixa as coisas aqui com o Paulo. Está sim? Zé Braga Gonçalves? És tu? Oh, pá, então já sabes da desgraça... olha, eu estava aqui a pensar... não te sobrou nenhuma empresa que precise de quadros qualificados e que tenha um ou dois Jaguares a mais?

Publicado por Luis Rainha às 12:04 AM | Comentários (11)

80 ANOS DE SURREALISMO (1)

Cumprindo a minha ameaça, e mesmo sabendo que há alegrias mais recentes para comemorar hoje, aqui estou eu para celebrar este aniversário. Começo, com vossa licença, por uma pequena recapitulação histórica...
Logo a seguir ao final da I Grande Guerra, Tristan Tzara, o principal activista Dadá, chegou a Paris, levando na bagagem a agitação iconoclasta do Cabaret Voltaire e o escândalo imparável das manifestações anti-artísticas desse "movimento" anárquico. Recitais de poemas fonéticos, concertos de ruído, os ready mades de Duchamp, as colagens de Max Ernst, os amontoados de lixo de Kurt Schwitters, as mil invenções delirantes de Francis Picabia... muitos dos dispositivos do surrealismo tiveram aqui a sua estreia. Mas a natureza centrífuga e autodevoradora de Dadá impediu qualquer cristalização numa estrutura eficaz e duradoura.
André Breton foi um dos aderentes de primeira hora da filial dadaísta parisiense. Durante a guerra, dado que era estudante de medicina, prestara serviço em enfermarias psiquiátricas, tendo então ficado a par do trabalho de Charcot e de Freud. O encontro com Aragon, que lhe apresenta o primeiro dos Chants de Maldoror faz o resto. Os dois poetas deixam-se impressionar decisivamente pelos delírios dos doentes mentais e pela liberdade formal e temática da poesia do enigmático Conde de Lautréamont. Neste dias, ambos se dedicam a sondar as novas fontes de inspiração poética: os sonhos e a livre associação.
A revista "Littérature", a "base" de Dadá em Paris onde Breton publica, com Philippe Soupault, os primeiros escritos automáticos, acaba por implodir em 1921. Dos destroços, apenas um grupo se mantém coeso, resistindo a fricções políticas e a frequentes colisões de egos muito graças à personalidade dominadora de Breton. Quando, em Outubro de 1924, este inflaciona de tal forma o prólogo do "Poisson Soluble" que ele se transforma num Manifesto, a escolha de nome já é clara: a palavra "Surrealismo" surge como uma homenagem a Guillaume Apollinaire, que a usara para qualificar a sua peça de teatro "Les Mamelles de Tirésias". Dia 1 de Dezembro, faz hoje precisamente 80 anos, surge o primeiro número da revista "La Révolution Surréaliste".
Assim decorreu, em traços muito gerais, o parto do movimento artístico mais influente e polissémico do século XX.

Imagem: Max Ernst - "No encontro dos amigos", 1922. Primeira fila, da esquerda para a direita: René Crevel, Max Ernst (sentado sobre o joelho de Dostoyevsky), Theodor Fraenkel, Jean Paulhan, Benjamin Péret, Johannes Th. Baargeld, Robert Desnos. Na fila de trás: Philippe Soupault, Hans Arp, Max Morise, Raffaele Sanzio, Paul Eluard, Louis Aragon, André Breton, Giorgio de Chirico, Gala Eluard.

Publicado por Luis Rainha às 12:01 AM | Comentários (4)