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novembro 30, 2004

OS ABUTRES JÁ DESCOLARAM

Luís Filipe Menezes já veio afirmar que "compreende" a decisão de Sampaio. E dizer que o problema de Santana foi não ter aproveitado o congresso do PSD para criar uma "maioria" - que o albergasse, presumo eu. Há gajos incríveis neste mundo.

Publicado por Luis Rainha às 08:05 PM | Comentários (13)

OBRIGADO, DR. SANTANA

Nos últimos 60 minutos, entre as 19h00 e as 20h00, acederam a este blogue 141 internautas (segundo o Sitemeter)! Um record absoluto. E ainda nos queixamos nós do calhau com gel...

Publicado por José Mário Silva às 08:02 PM | Comentários (2)

OLHANDO PARA O CALENDÁRIO

Tendo em conta os prazos constitucionais para a marcação de eleições, o mais provável é que Sampaio agende as próximas legislativas para meados de Fevereiro de 2005. Quer isto dizer que a minha filha ainda pode nascer, afinal, num país liberto da sombra de Santana. Vá lá: menos um foco de preocupação paterna.

Publicado por José Mário Silva às 07:51 PM | Comentários (3)

VAMOS TER DE PEDIR DESCULPA A SAMPAIO?

Afinal, e contra as previsões que se generalizaram nesta manhã, Jorge Sampaio escolheu evitar o arrastamento da agonia do governo e de Portugal.
Será que só agora viu o óbvio?
Ou será que eu até tive um lampejo de lucidez, quando aqui inquiri, há dois meses "e se o PR já há muito calculava que Ferro Rodrigues sairia da liderança do PS à primeira curva apertada, dando por fim lugar ao muito mais ‘marketizável’ Sócrates? E se ele já sabia que Santana Lopes é incapaz de se comportar de forma minimamente decente enquanto primeiro-ministro? E se ele agora só está à espera da próxima grande bronca para correr com aquela corja e convocar eleições, entregando o poder de mão beijada ao PS?"
Se calhar, vamos ter de esperar pelas memórias de Sampaio para saber toda a verdade sobre estes meses negros da nossa História.

Publicado por Luis Rainha às 07:43 PM | Comentários (12)

QUE FUTURO PARA SANTANA LOPES?

Das muitas actividades pós-governativas que se oferecem a Santana Lopes, sugiro-lhe a de escritor (se encontrar alguém que lhe retoque o português). Até já estou a ver a capa de um provável best-seller: imagem sugestiva do terramoto de 1755 e o título — «Como pôr um país de pantanas em apenas quatro meses» — a letras douradas, com relevo.

Publicado por José Mário Silva às 07:38 PM | Comentários (2)

JUSTIÇA POÉTICA

E lá acabou por ser Jorge Sampaio, o moderado, a deitar fora o bebé com a água do banho. Se assim se pode dizer.

Publicado por José Mário Silva às 07:27 PM | Comentários (1)

A PARTE MÁ

(Eu sei, mas se posso fazer uma lista dos aspectos positivos da eleição do George W. Bush, também posso lembrar o negativo da destituição Santana.)

Neste momento centenas de bloguistas facholas estão a dar um profundo suspiro de alívio atrás dos respectivos ecrãs. Mas o chato mesmo é ter de aturar, pelo menos, três meses de choradinho sobre a "cabala", o "conluio", o "compadrio partidário", a "manipulação informativa", etc., e provavelmente mais um mês seria o suficiente para que o próximo Santana Lopes implorasse a sua própria destituição.
Mas até o Carnaval dura só três dias.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:18 PM | Comentários (2)

ESCAPÁMOS DE BOA

O governo em adiantado estado de decomposição de Santana Lopes preparava-se para receber adição de peso: Miguel Sousa, um dos vices da corte de Jardim, já fizera as malitas para ocupar o escritório de Henrique Chaves. Trata-se do oligarca que, de acordo com a má-língua local, fora posto em hibernação pelo ogre do Funchal por ter "exagerado" (o que isto quererá dizer, deixo à vossa imaginação). Cumulativamente, é primo dos fundadores de um dos grupos económicos madeirenses com crescimento mais meteórico da última década, o "Grupo Sousa". Semelhante figura era, de acordo com o calhau com gel, a "prova que o Governo tinha soluções" para colmatar a presente crise. Revelador.
Por acaso, Miguel Sousa afirmara há um ano ao "DN da Madeira" que Portugal "precisa de grande vassourada em vez de serenidade". Aposto que nunca esperou ter tanta razão.

Publicado por Luis Rainha às 07:12 PM | Comentários (4)

ADEUS, ADEUS

1 DE DEZEMBRO


30 DE NOVEMBRO

Publicado por Jorge Palinhos às 07:11 PM | Comentários (2)

É O QUE SE CHAMA "FARO POLÍTICO"

Esta e a próxima semana serão incaracterísticas, com dois feriados pelo meio, e entre as férias de Natal e Ano Novo e o encerramento da AR, tirando tudo o que é sempre inesperado, como agora a demissão de Henrique Chaves, o país vai descansar e preparar-se para um dos anos mais agitados dos últimos anos: teremos eleições, com campanha pura e dura, um Governo que sabe que viverá momentos críticos de afirmação, e «tiros» permanentes de todos os lados, contra isto e aquilo.
Luís Delgado

Publicado por Jorge Palinhos às 07:05 PM | Comentários (8)

É MESMO VERDADE

À saída da reunião com Jorge Sampaio, em Belém, Santana Lopes anunciou que o Presidente da República resolveu dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas. A decisão de Sampaio foi transmitida ao primeiro-ministro logo no início do encontro e o nome que Santana levava para substituir Henrique Chaves nem sequer chegou a ser posto em cima da mesa.
Não vale a pena beliscarem-se. É mesmo verdade.

Publicado por José Mário Silva às 06:51 PM | Comentários (5)

FINALMENTE

Jorge Sampaio acaba de fazer o que tinha de ser feito. Despediu o incapaz que ocupava o lugar de primeiro-ministro, dissolvendo a AR. Neste momento, o calhau com gel está na TV, confirmando que é o único a não perceber muito bem o que se passa neste país.
Afinal, a desgraça total ainda pode ser evitada.

Publicado por Luis Rainha às 06:50 PM | Comentários (4)

IMPORTA-SE DE REPETIR???

Sampaio deverá dissolver AR e convocar eleições

O Presidente da República, Jorge Sampaio, deverá dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas.

Sampaio vai ouvir o Conselho de Estado e os partidos com assento parlamentar, refere um comunicado emitido por Belém após a reunião com o primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes.

Not again...

Publicado por Jorge Palinhos às 06:46 PM | Comentários (0)

OLHA, OLHA, SAMPAIO ACORDOU!

Já é público. Jorge Sampaio acaba de convocar o Conselho de Estado e todos os partidos com representação parlamentar. Ou seja, tudo indica que o Presidente, num rasgo de lucidez, vai acabar com a instabilidade política do actual Governo e convocar eleições antecipadas.
Aleluia. Já não era sem tempo.

Publicado por José Mário Silva às 06:34 PM | Comentários (3)

EUFORISMO

Àquele blogger de direita, os cirurgiões decidiram extirpar o apêndice. Era opinião unânime que lhe faltava — ao apêndice — «lealdade orgânica».

Publicado por José Mário Silva às 06:21 PM | Comentários (0)

OUTRAS METÁFORAS SOBRE O GOVERNO (III)

Os flagelantes foram um movimento cristão dos séc.XIII e XIV que percorriam as cidades e vilas chicoteando-se a si próprios e aplicando outros métodos de auto-punição como forma de arrependimento dos seus pecados. Inicialmente as cidades recebiam-nos muito bem, porque esperavam protecção divina da peste negra.
Mais tarde especulou-se que eles próprios levavam a peste de cidade em cidade e estas passaram a recusar-lhes entrada. O movimento claudicou e acabaram declarados hereges pelo papa.
Os seus princípios ainda hoje subsistem em países como as Filipinas e entre a Opus Dei.

da Igreja Católica

Publicado por Jorge Palinhos às 06:19 PM | Comentários (0)

CENAS DE UM CASAMENTO (2)

Numa boda tradicional, pior do que os fotógrafos canibais que exploram até à náusea o catálogo completo dos enquadramentos kitsch, só mesmo a homilia na igreja, quando o padre é da velha guarda ultra-conservadora. Aquele tipo de padre que prefere sempre as cartas de São Paulo ao «Cântico dos Cânticos», estão a ver o estilo?
Pois o do último sábado juntava, à beatice bacoca, uma deselegância retórica que muito envergonha uma Igreja que já contou, nas suas fileiras, com a verve sublime do Padre António Vieira. Por entre comentários mais do que irrelevantes sobre a sua vida e o seu percurso de professor em Macau, o pároco lá se dignou a falar aos noivos sobre a grande união que ali se celebrava.
E o que lhes transmitiu foi, nem mais nem menos, que o casamento é um «cozinhado» (sic), na confecção do qual há três «temperos» (sic) essenciais: a tolerância, o perdão e o amor (sobretudo o espiritual). Mas a justificação para o segundo dos «temperos» é que me pareceu de antologia. Qualquer coisa como isto: «Imaginemos que a X [noiva] está na cozinha, a preparar o jantar para o Y [noivo]. De repente, vai à sala limpar o pó e esquece-se da comida ao lume. Regressada à cozinha, apercebe-se que o arroz esturricou. Como é que o Y deve reagir, num caso destes? Pois deve perdoar, porque a X não fez de propósito, errou mas não foi com o coração.»
Para além de tudo o resto, parece-me óbvio que o padre não leu a imprensa da semana passada e muito menos esta crónica (certeira) da Ana Sá Lopes.

Publicado por José Mário Silva às 06:07 PM | Comentários (0)

O MESTRE

O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado.
Pediu aos alunos para copiarem o seu desenho.
Eles copiaram, mas por erro desenharam uma circunferência.

Gonçalo M. Tavares (in «O Senhor Brecht», Caminho)

Publicado por José Mário Silva às 06:00 PM | Comentários (1)

SERÁ ESTE O FUTURO?

Eduardo Prado Coelho escreveu um texto não muito abonatório sobre os cinemas Alvaláxia. António Dias da Cunha pensou entregar o caso ao departamento jurídico do Sporting, mas lembrando-se de que Prado Coelho se diz sportinguista... convidou-o para almoçar. Aguardam-se desenvolvimentos.
(Vale a pena ler o comentário do Resistente Existencial sobre o texto de Eduardo Prado Coelho.)

Publicado por Filipe Moura às 05:38 PM | Comentários (5)

UM HOMEM

Num certo país apareceu um homem com duas cabeças. Foi considerado um monstro, e não um homem.
Noutro país apareceu um homem que estava sempre feliz. Foi considerado um monstro, e não um homem.

Gonçalo M. Tavares (in «O Senhor Brecht», Caminho)

Publicado por José Mário Silva às 05:36 PM | Comentários (0)

CONSELHO DE MINISTROS

Publicado por José Mário Silva às 05:33 PM | Comentários (0)

UM BLOGUE LITERÁRIO

Vale a pena espreitar os escritos blogosféricos de Pierre Assouline, escritor e crítico literário, ex-director da revista «Lire». Na secção de blogues do «Le Monde», aqui.

Publicado por José Mário Silva às 05:26 PM | Comentários (0)

O LABIRINTO

A cidade investiu tudo na construção de uma imponente catedral. Ouro, pedras trabalhadas, tectos pintados pelos grandes pintores do século.
Para a valorizar ainda mais decidiu-se dificultar o acesso. O que se atinge com facilidade deixa de ter valor, filosofava com esforço um determinado político.
Construiu-se então um labirinto que era o único meio de chegar à catedral. O labirinto foi tão bem feito que nunca ninguém conseguiu encontrar a passagem para a catedral.
O labirinto transformou-se na grande atracção da cidade.

Gonçalo M. Tavares (in «O Senhor Brecht», Caminho)

Publicado por José Mário Silva às 05:22 PM | Comentários (0)

OUTRAS METÁFORAS SOBRE O GOVERNO (II)

A auto-mutilação é uma condição psíquica, mais frequente entre os adolescentes, que consiste em aplicar incisões ou queimaduras com lâminas, vidros, fósforos ou cigarros de forma a provocar dores ou hemorragias. Em seguida o auto-mutilador terá tendência para coçar e mexer na ferida de forma a impedir a cicatrização.
Normalmente, os praticantes da auto-mutilação usam-na para aliviar o stress, a dor, o medo e a ansiedade perante responsabilidades em relação às quais não se sentem capazes.

A partir do Dicionário Médico

Publicado por Jorge Palinhos às 11:52 AM | Comentários (1)

A BELEZA

Numa certa cidade o arco-íris um dia apareceu e nunca mais se foi embora. Durante um ano permaneceu no mesmo sítio do céu. Tornou-se aborrecido.
Um dia, finalmente, o arco-íris desapareceu e o céu ficou cinzento escuro por completo. As crianças dessa cidade, excitadas, apontavam para o céu cinzento e gritavam umas para as outras: olha, que bonito!

Gonçalo M. Tavares (in «O Senhor Brecht», Caminho)

Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (0)

CONFISSÕES DE UM ASMÁTICO PONTUAL

O melhor amigo do homem não é o cão. É o Ventilan.

Publicado por José Mário Silva às 12:04 AM | Comentários (9)

novembro 29, 2004

DIAGNÓSTICO: DEPRESSÃO

Desemprego, corrupção, imigração, saúde e consumo são factores apontados como obstáculos para a segurança humana em Portugal, de acordo com dados do relatório de 2004 do Observatório da Cidadania-Social Watch.

O relatório afirma que "cresce a impressão de que na democracia portuguesa reina uma cultura de irresponsabilidade e impunidade" e aborda o problema do endividamento das famílias e do aumento do desemprego em Portugal.

Segundo dados do Banco de Espanha e da Associação Portuguesa de Consumidores, 96,6 por cento das famílias portuguesas estavam endividadas em 2001.

Apesar de indicadores sócio-económicos, como educação, informação, ciência e tecnologia, colocarem Portugal entre os países em melhor situação ou acima da média, o Social Watch alerta para o problema da corrupção no país. Os casos de corrupção incluem subornos, grandes delitos económico-financeiros, tráfico de influências, fraudes em licitações e encobrimento de responsabilidades penais.

Na área da saúde, "o sistema público não oferece respostas a tempo e está constantemente à beira do colapso", refere o texto, citando organismos internacionais que atribuem esta situação à "má administração".

O Comércio do Porto

Publicado por Jorge Palinhos às 07:36 PM | Comentários (4)

FORMULÁRIO DE EMPREGO PARA TERRORISTAS

Nome:
Morada:
Idade:
Número de contribuinte:
Filiação:
Naturalidade:
Habilitações:

Grau de ódio aos judeus:

a) muito grande b) incomensurável c)total d) até não sobrar nem um

Indique o grau de culpa que atribui aos americanos pelo estado do mundo árabe:

a) São os principais culpados b) São os únicos culpados c) São satanás na terra

Indique a sua preferência profissional:

a) morrer num glorioso ataque suicida aos invasores americanos no Iraque
b) morrer num glorioso ataque suicida contra os judeus
c) morrer num glorioso ataque suicida contra o blasfemo Salman Rushdie

Por último, indique a pessoa a contactar em caso de bom desempenho profissional:

Não, isto não é um sketch do Gato Fedorento.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:22 PM | Comentários (3)

OUTRAS METÁFORAS SOBRE O GOVERNO

O supliciado era preso nu na circunferência de uma roda, com os membros seguramente presos. Em seguida o carrasco batia-lhe metodicamente com uma barra de ferro em cada um dos membros, tendo o cuidado de não acertar em nenhum ponto vital, até não haver senão ossos partidos e o corpo do condenado estar reduzido a um massa de carne sangrenta.
Depois, os membros eram "atados" em redor da roda e o corpo elevado nos ares para os abutres e os corvos lhe arrancarem os olhos e o devoraram aos poucos, por vezes estando o executado ainda consciente.

Este era um dos métodos de tortura mais apreciados pela população.

A partir do Museu de Tortura Medieval

Publicado por Jorge Palinhos às 06:58 PM | Comentários (3)

A VERDADE CIBERNÉTICA II

Outras experiências curiosas com a linha de endereços:

"dor"
"se"
"verdade" (ai!)
"ai" (já agora...)
"aldrabice"
"badalhoco"
"idiota"
"estapafúrdio" (Hã? O que fizeste tu, Luís?)

e

"durão"

Publicado por Jorge Palinhos às 06:49 PM | Comentários (1)

A VERDADE CIBERNÉTICA

Ao tamborilar os dedos pelo teclado surgiu-me a palavra "texto" na linha de endereços do Firefox. Só assim, sem https, coms ou wwws. Meio aturdido acabei por premir o enter e fui parar aqui. Abri o ficheiro. Estava vazio.
As verdades que se descobrem.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:44 PM | Comentários (0)

ONDE É QUE EU JÁ VI ESTA IDEIA?

O Defense Science Board americano acaba de propor a criação de uma "estrutura de comunicação estratégica" para remendar um défice de comunicação que anda a contribuir para a má imagem dos EUA no mundo islâmico. Mas as semelhanças com as elucubrações dos nossos santanicos são apenas superficiais: o relatório (PDF aqui) não esconde a existência de problemas menos virtuais, afirmando que "no public relations campaign can defend America from flawed policies"; "Muslims do not 'hate our freedom,' but rather they hate our policies". Preconiza-se depois a criação de um "canal de comunicação" com o mundo do Islão, tendo em vista a conquista de alguma "credibilidade".
Podem ver aqui uma antecipação do trabalho desta estrutura.

Publicado por Luis Rainha às 05:28 PM | Comentários (2)

SERÁ QUE UM LIVRO AINDA CONSEGUE MUDAR O MUNDO?

Amanhã, vai ser lançada, por Kofi Annan, uma colecção de contos muito especial. Telling Tales contém short stories de Salman Rushdie, Margaret Atwood, Gabriel García Márquez, Amos Oz, Günter Grass, Woody Allen, Hanif Kureishi, John Updike e outras 13 estrelas literárias e solidárias. Os proventos da obra serão aplicados na melhoria das condições de vida dos doentes com SIDA em África. Este projecto da sul-africana Nadine Gordimer surge, portanto, como uma espécie de Live Aid dos escribas. Bela ideia. Agora, vamos lá a encomendar a coisa.

PS: claro que meti água. A falta de menção nos artigos que li levou-me a cometer indesculpável falta: não referi que o nosso Saramago também participa neste livro com um conto. Desculpem lá e obrigado ao Diogo, que deu pela coisa.

Publicado por Luis Rainha às 04:53 PM | Comentários (1)

DO BIDONVILLE PARA BELÉM

Augusta Regina Alves Gato de Moura Guedes, "Guta" para os amigos bem, foi no início do mês confirmada como administradora do Centro Cultural de Belém, com o inevitável pelouro da "Cultura". Uma instituição com um orçamento global de milhões de contos fica assim parcialmente entregue a alguém que tem como único mérito visível a organização da ExperimentaDesign - contemplada, no ano passado, com um alto patrocíno da CML no valor de meio milhão de euros, vendo-se promovida a "Bienal de Lisboa" - e a famosa instalação dos bidons no Terreiro do Paço. Por sinal, o autarca que assinou este generoso protocolo foi Santana Lopes e o então CEO da Galp, que apoiou a "obra" da foto (via Crítico), é agora ministro.
Claro que não dou qualquer crédito aos boatos indecentes que por aí andam, ou a bocas como esta. Afinal, segundo as palavras da própria, esta designer "que desenha metodologias de trabalho" é uma figura de cariz "muito renascentista", não uma mera santanette. E não julguem vocês que ela calcorreou caminho fácil nesta escalada. Olhem que até militou no "Compromisso Portugal"! Ali, viu-se mesmo forçada a escrevinhar lérias destas: "temos de ultrapassar esta inércia entorpecedora, temos de acordar. Temos de passar da palavra à acção. Os tempos que correm parecem ser novos – pelo menos queremos agora acreditar nisso. O desafio que temos entre mãos é grande, entusiasmante, merecedor de todo o nosso empenho." O verdadeiro tamanho do tal "desafio" está agora bem visível. Falta ver é se o pobre CCB resiste a tanto "empenho".
Pode Rui Vieira Nery bradar à vontade contra esta promoção de uma peso-pluma a regedora cultural do regime, afirmando que Guta "não tem o perfil adequado para a função". Talvez não tenha perfil; mas, há que dizê-lo em abono da verdade, tem outros ângulos mui favoráveis...

Publicado por Luis Rainha às 03:29 PM | Comentários (17)

MAS NÃO VOS DÁ MESMO VONTADE DE LHE DAR UNS ESTALOS?

Depois da estrepitosa deserção do ministro que passava por ser um dos seus grandes amigos, veio Santana Lopes comparar o governo a um "bebé numa incubadora". Um pobre desvalido a quem os marotos dos irmãos mais velhos dão "uns estalos e uns pontapés"; quando o que ele precisava mesmo era de carinho, coitado.
Desta forma singela, o calhau com gel confessa ser verdade aquilo que muitos já desconfiavam: o governo que nos aflige é um nado semi-morto, incapaz de sobreviver sem ajuda e, hoje em dia, aguarda apenas que mão misericordiosa desligue os dispositivos que prolongam a sua agonia. É que a anencefalia tem por norma ser fatal.
Diz ainda a criatura: "tem sido difícil para quem está na incubadora, ver passar a família e, em vez de acarinhar, haver membros da família que dão uns estalos no bebé." Acrescentaria eu: tem sido penoso, para quem está do lado de fora, lembrar-se do nome do clínico incompetente que resolveu levar a termo a gravidez que deu origem a este mostrengo inviável: Jorge Sampaio.

Aviso à atenção das almas mais sensíveis: nenhum bebé prematuro foi magoado durante a execução deste post; trata-se de um modelo do Science Museum...

Publicado por Luis Rainha às 12:05 PM | Comentários (13)

UMA DISCUSSÃO DAS ANTIGAS

Vale a pena ler até ao fim os muitos comentários a este post.

Publicado por José Mário Silva às 12:01 PM | Comentários (2)

O VÍRUS VINGADOR

Um hacker introduziu-se no sistema informático do Senado italiano e bloqueou os computadores dos parlamentares com uma imagem de sexo explícito entre dois homens. O ex-candidato a comissário europeu, Rocco Buttiglione, deve ter-se benzido três vezes ao ouvir a notícia, enquanto murmurava a versão italiana do «não habia nexexidade...»

Publicado por José Mário Silva às 10:35 AM | Comentários (1)

THE CRUCIFIXION WILL NOT BE TELEVISED


Cartoon de Boligán

Publicado por José Mário Silva às 10:32 AM | Comentários (1)

O FILHO DOS HOMENS QUE NUNCA FORAM MENINOS

«Ninguém pergunta de onde essa gente vem...», assim canta Chico Buarque em Brejo da Cruz.
Uma questão séria, e sem nenhuma outra intenção que não seja a de aumentar a clareza: alguém do Bloco de Esquerda tem ou alguma vez teve contacto com um meio como o de Pirescoxe? Algum dos seus dirigentes, pelo menos um, não foi "menino"?

Publicado por Filipe Moura às 09:04 AM | Comentários (5)

A CORRIDA DA AMIZADE

Com a demissão de Henrique Chaves, Santana assume pasta do Desporto. Primeira medida: organizar a "1ª Grande Meia Maratona da Amizade S. Bento-Belém", onde o Governo, em peso, vai correr lado a lado com o Presidente, numa manifestação popular de vitalidade e bom funcionamento democrático das instituições.
Auscultado Belém, a resposta não podia ser mais clara:
- Sim, o Presidente vai correr com o Governo.
Hoje, às 9H30, Santana vai a Belém acertar pormenores: dorsais, patrocínios, lugares na fotografia...
(Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 08:57 AM | Comentários (0)

O PCP E O FUTURO DA ESQUERDA

Houve claramente uma "separação das águas", uma clarificação no rumo do PCP. Já há muito que tal se previa; agora, de todo, só não vê quem não quer.
Não é nada óbvio que tal signifique o "enterro" do partido, como nos querem fazer crer. Comparado com as tibiezas e hesitações de Carvalhas, à partida creio que o perfil "duro" de Jerónimo se encaixa muito melhor nos critérios de "clareza e simplicidade" (aplicáveis a qualquer partido em geral) que referi atrás. Esta "clareza e simplicidade" pode mobilizar ainda mais o eleitorado base do PCP e, quem sabe, alguns desiludidos... Estou a lembrar-me, por exemplo, daquela personagem de Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto, um senhor que "guiava" desastradamente um Bentley enquanto bramava que tinha rompido com o partido por este "ter renunciado à ditadura do proletariado", pois "do que este país precisava era de uma puta de uma ditadura do proletariado!" (E ia guiando o Bentley...)
Mas no balanço geral mentiria se não dissesse que creio que esta opção se traduzirá em ainda mais perdas de influência para o PCP, que será um partido com um eleitorado cada vez mais confinado. Foi uma opção que se traduz, como já referi, em mais clareza e simplicidade. À esquerda, as coisas ficam mais bem definidas. Para a clareza ser maior, creio que agora se exige uma definição semelhante por parte dos actuais e antigos membros do partido que, pelas posições que vêm assumindo, claramente não se revêem no rumo que o PCP decidiu tomar. Nem falo por agora de Octávio Teixeira ou António Filipe ou grande parte dos autarcas. Falo mesmo da auto-intitulada Renovação: e agora?
No mesmo dia do encerramento do congresso do PCP, o entrevistado no Diário de Notícias, o jornal instrumental do governo e da direita portuguesa, era Francisco Louçã. Nessa mesma entrevista, Louçã reafirma que não deseja ser o Joschka Fischer de José Sócrates (outra opção legítima e outra definição clara de posição embora, a meu ver, seja mais outra manifestação de uma doença infantil). Quando do que a esquerda em Portugal mais precisa é de um Joschka Fisher, quem vai assumir esse papel? Ou na prática vai ficar tudo na mesma? Clareza e simplicidade, camaradas.

Publicado por Filipe Moura às 08:46 AM | Comentários (3)

novembro 28, 2004

NA DANÇA DAS CADEIRAS, ALGUNS NEM CHEGAM A AQUECER O LUGAR

Henrique Chaves, o ex-ministro-adjunto do primeiro-ministro que passou esta semana a ministro do Desporto, Juventude e Reabilitação (só para que Santana Lopes pudesse esconder, no seu antigo cargo, o cada vez mais incómodo Rui Gomes da Silva), demitiu-se esta tarde. Num comunicado invulgarmente explícito e violento, diz-se enganado pessoalmente pelo primeiro-ministro e assume que «perante tão grave inversão dos valores de lealdade e verdade, não tive qualquer dúvida em apresentar a minha demissão» (as declarações completas podem ser lidas aqui).
Convém recordar que Chaves era, até agora, um dos elementos mais destacados da ala santanista do PSD. Ou muito me engano, caros leitores, ou isto é o princípio do fim da coligação que nos (des)governa.

Publicado por José Mário Silva às 07:15 PM | Comentários (0)

BABY FEIRA MIX

Até às 22 horas de hoje, vale a pena passar pela Casa d’Os Dias da Água (R. da Estefânia, Lisboa) e espreitar o BABY FEIRA MIX. Para além de dezenas de expositores, áreas de brincadeira para os miúdos, conferências, workshops e sessões de música para bebés, os bloggers podem conhecer em carne e osso a fabulosa craftswoman Rosa Pomar, bem como algumas das suas preciosas criações. Postais, roupas e, claro está, as belíssimas bonecas. Como esta:

Publicado por José Mário Silva às 05:41 PM | Comentários (2)

CENAS DE UM CASAMENTO

- Eu conheço-o, não conheço?
- Não sei, mas creio que não.
- Ai conheço, conheço. A sua cara não me é nada estranha.
- Pois, se calhar cruzámo-nos algures.
- Hmmmm, já sei. Deve ter sido num aniversário da Sara, não?
- Impossível, eu só conheci a Sara hoje.
- Então, deixe cá ver... Será que estivemos juntos nalgum trabalho?
- Nunca se sabe. O que é que faz?
- Sou electricista. E você?
- Jornalista.
- Então não me parece.
- Pois não.
- ...
- ...
- Só se for do tiro com arco.

Eu fiz que não com a cabeça, imaginando maçãs em cima de cabeças infantis e flechas certeiras de Guilherme Tell. O senhor olhou para mim com mais atenção, ponderou os meus braços pouco musculados, desistiu da conversa que não ia a lado nenhum, encolheu os ombros e lançou-se, cheio de ímpeto mandibular, à mesa densamente povoada de rissóis, nacos de frango assado, pães de leite com queijo e fiambre, tacinhas de arroz-doce e miniaturas de pastéis de nata.

Publicado por José Mário Silva às 02:28 PM | Comentários (1)

O VERSO ACTUALIZADO

Publicado por José Mário Silva às 12:58 PM | Comentários (0)

QUATRO BRAÇOS NO AR

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, foi eleito sem votos contra, com apenas quatro abstenções, na primeira reunião do novo Comité Central (CC) comunista, anunciou hoje Luísa Araújo, da mesa do XVII Congresso partidário.

Publicado por José Mário Silva às 12:54 PM | Comentários (3)

DA CERA E DOS RUINS DEFUNTOS

O comunista Lopes Guerreiro atreveu-se a abrir a boca no congresso do seu partido para criticar a "falta de respeito entre camaradas" e inventar umas supostas "dificuldades internas". Levou logo o merecido correctivo: vaias em barda. Mais tarde, o inefável Domingos Abrantes veio explicar que achou mal a pateada, pois todos os “camaradas” têm direito a exprimir as suas ideias, “por mais abstrusas e absurdas que sejam”.
Note-se que até num congresso do PSD, organizado para entronizar Santana Lopes, uma voz crítica como a de Marques Mendes se conseguiu fazer ouvir sem se sujeitar a estes enxovalhos e insultos.
Recorde-se que o PCP é aquele partido que anda sempre de boca cheia com as lindas palavras “camarada”, “solidariedade” e “fraternidade”.

Publicado por Luis Rainha às 01:52 AM | Comentários (1)

COMICHÃO CENTRAL

Passar os olhos pela lista de nomes do novo Comité Central do PCP na companhia de quem conhece aquilo por dentro é uma delícia. Ir descortinando como os funcionários do partido se dividem entre “operários” (como o Domingos Abrantes!), “empregados” (esta é boa) e “intelectuais” (a malta que não apresenta mesmo nada que os recomende no currículo) é garantia de umas boas gargalhadas. Mas ver a filha do Octávio Pato (que factor insondável a terá levado ao CC?) dizer à SIC que a opinião dela “não interessa”, que o importante é “o colectivo” do partido que “é o mais importante de Portugal”, só se compara mesmo, em termos de comicidade involuntária, ao discurso em que Jerónimo de Sousa tentou várias vezes bater o recorde do mundo da oração mais comprida e retorcida. Mesmo assim, não consigo deixar de pensar nisto tudo com muita tristeza.

Publicado por Luis Rainha às 01:32 AM | Comentários (0)

novembro 27, 2004

ÀS ALMAS MAIS DISTRAÍDAS:

Façam, para vosso bem, o melhor uso deste aviso: já anda por aí o livro de contos do Alexandre Andrade. Sim, esse do blogue mais irritantemente bem urdido da nossa e-praça.
“As Não Metamorfoses” já tiveram antestreia aqui no BdE. Se, depois de lerem isto, não ficaram a saber o que oferecer a cada um dos vossos amigos com uns átomos de bom gosto, não sei o que vos diga. Podia dizer-vos que se trata de prosa quase hipnótica na sua elaborada clareza; de histórias onde a invenção se cola tão intimamente à realidade que deixa de fazer sentido tentar nomear uma ou outra. Podia dizer-vos que um dos contos – “O Rapto das Sabinas” – bastaria, caso algum acidente de tipografia esborratasse as restantes letras deste livro, para dar corpo a uma das melhores colecções de short stories alguma vez inventadas neste triste país.
Podia, podia. Mas é mais proveitoso incitar-vos a correr à livraria mais próxima.

Publicado por Luis Rainha às 08:12 PM | Comentários (5)

ANTES ASSIM

Resolução parlamentar admite existência de fraudes durante o escrutínio
Parlamento ucraniano declara inválida segunda volta das eleições presidenciais

Publicado por Filipe Moura às 05:59 PM | Comentários (1)

APANHE A CARREIRA 46

Li o artigo de Helena Matos com interesse. E fiquei interessado em saber: será que Helena Matos anda de autocarro?

Publicado por Filipe Moura às 05:56 PM | Comentários (2)

ACORDAI!

E não esqueçais: o «Requiem Pelas Vítimas do Fascismo em Portugal», de Fernando Lopes Graça, é hoje à noite (21h30) na Aula Magna. Com o Coro e o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa; o Coral de Letras da Universidade do Porto; a Orquestra Nacional do Porto, dirigida por Marc Tardue; Ana Paula Russo, soprano; Liliana Bizineche, meio-soprano; Rui Taveira, tenor; Armando Possante, barítono; e João Miranda, baixo.

Publicado por José Mário Silva às 04:22 PM | Comentários (2)

novembro 26, 2004

FAZIA-NOS FALTA

Há uns dias, estive para escrever aqui umas coisas a propósito deste texto e deste. Acabei por ficar quieto, para não ser acusado de só saber dizer mal, até por interposta pessoa... Mas vejo agora que mesmo o nosso boss, das pessoas mais generosas e tolerantes que conheço, elogia a falta de subtileza do crítico-bulldozer João Pedro George. Com as costas desta forma aquecidas, posso fazer coro na recomendação: vão lá ver. E comecem, por favor, pelo post onde é reduzido a migalhas o incensado "Fazes-me Falta" (dos três títulos ali esquartejados, este é o único que comecei a ler).
Um excerto delicioso e revelador: "neste livro há de tudo. Metáforas e imagens pavorosas: ‘borro a pintura da cara que não tenho’ (sic), ‘tumores do meu entendimento’ (sic), ‘coxear da alma’ (sic), ‘cavernas do coração’ (sic), ‘fechar as portas da dor’ (sic), ‘aeróbica interior’ (sic), ‘racionar a vida como um chocolate de leite’ (sic), ‘sofá com que mobilamos o corredor ventoso da vida’ (sic). Frases de um mau gosto difícil de qualificar: ‘porque a gente olhava para ti e via essa coisa transparente e firme, esse nó de sangue, secreções e luz a pulsar como um farol’; ‘eu não consigo acreditar nas almas abstractas, bolhas de ar discretas arrotadas entre um chá e dois suspiros’."
É a primeira vez que leio algo que faça sentido sobre esta xaropada ignóbil em forma de livro. Pelo que li na obra em (des)apreço, trata-se de comentários certeiros e que não pecam por exagero. Só mesmo num país de paspalhos e de capelinhas sacrossantas é que um fulano como o EPC vê ali obra de génio e não é coberto de alcatrão e penas na manhã seguinte.
Quem faz mesmo falta é mais gente como este "Boy George" – nas elegantes palavras de Possídónio Cachapa -, capaz de olhar para alguns reizinhos da nossa praça e clamar aos sete ventos a sua óbvia falta de roupita.

Publicado por Luis Rainha às 12:50 PM | Comentários (44)

FLAGRANTE

«O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) atenuou a pena de prisão de um homicida que estrangulou a própria mulher até à morte por considerar que as atitudes desta terão contribuído para o desfecho fatal da relação.»

Sobre este caso, não me sai da cabeça a segunda parte do meu primeiro texto no BdEII, um trecho de Agosto do fabuloso escritor Rubem Fonseca sobre um flagrante. A falta que mais comissários Mattos fazem!

Publicado por Filipe Moura às 12:10 PM | Comentários (2)

COMBATE À EVASÃO FISCAL? MAS QUERIAM ESTRAGAR O NEGÓCIO AO ALBERTO JOÃO?

"O Governo vai entregar hoje, ao grupo parlamentar do PSD, diversas propostas de alteração ao Orçamento do Estado (OE) para 2005, no sentido de excluir a zona franca da Madeira (ZFM) da aplicação de medidas fiscais em sede de IRC, afirmou ontem o deputado social-democrata Hugo Velosa."

Publicado por Luis Rainha às 11:51 AM | Comentários (1)

OS MOVIMENTOS POR DETRÁS DA REVOLTA NA UCRÂNIA

Quais as semelhanças entre o movimento Khmara que em 2003 conduziu à subida ao poder de Mikhail Saakashvilli na Geórgia, e o movimento “Pora” que está por detrás da revolta da oposição na Ucrânia? Ambos derivam do movimento activista “Otpor”, fundado na Sérvia para derrubar Slobodan Milosevic. Um grupo agora com ramificações internacionais, alegadamente financiado pelos Estados Unidos, que recorre a métodos não violentos para derrubar regimes fiéis a Moscovo em antigas repúblicas soviéticas. Um “franchising” da revolução que tenta mobilizar a população com gestos simples de desobediência civil, que a médio prazo contribuem para a queda de regimes pró-russos, em nome da aproximação à União Europeia e à NATO. Uma fórmula testada agora na Ucrânia e implementada também na Bielorússia.

- Informação em estado bruto sobre este tema (artigo “Courier des Balkans”): aqui.

- Dossier completo sobre a revolta na Ucrânia: aqui. (José Miguel Sardo)

Publicado por José Mário Silva às 11:46 AM | Comentários (11)

DESFOCADO

Gilbert & George, «Text» (2004)

Como diria a Bomba, eu hoje acordei assim: no meio dos textos, em desequilíbrio, desfocado.

Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (0)

O QUE QUER, O QUE PODE ESTA LÍNGUA

A demonstração do poder da língua de que vos falo está patente neste pequeno blogue, que eu já deveria ter descoberto há muito tempo no Technorati, mas que só descobri ontem graças ao Rui. Ver este meu amigo a estrear-se assim na blogosfera de expressão portuguesa fez-me ganhar o dia, reconciliar-me com a vida e ter mais fé no futuro e na Humanidade. Caro Jonathan: tenho orgulho de ti! Um grande abraço e um feliz Thanksgiving (ou Acção de Graças, se quiseres).

(Já agora: não fiques confundido. Creio que essa ideia tem aspectos muito positivos. Falarei disso num texto em preparação.)

Publicado por Filipe Moura às 08:55 AM | Comentários (0)

ASSIM SE VÊ A FORÇA DO PC

Quando escrevo irritado, por vezes não me exprimo bem e os textos saem exagerados. Foi o caso deste texto (que o escrevi irritado parece óbvio) e da sua última frase. Não concordo de todo com os excessos do politicamente correcto, mas afinal até já fui acusado de o ser por alguns dos meus textos aqui...
Mas a minha posição face ao politicamente correcto é idêntica à do João Pedro Henriques. Polémicas pessoais com o Daniel e sportinguismos à parte, eis um texto que eu subscrevo.

Publicado por Filipe Moura às 08:48 AM | Comentários (6)

SE É UM ESCRITOR PORTUGUÊS, POR FAVOR TENHA CUIDADO

Anda um terrorista do verbo à solta na blogosfera. Um crítico literário versão bulldozer. Um anjo exterminador das livrarias. O seu nome: João Pedro George.

Publicado por José Mário Silva às 08:42 AM | Comentários (2)

novembro 25, 2004

POR FIM, SANTANA LOPES ACERTOU UMA!

Descobriu ontem o calhau com gel que "o problema é com os excessos de tempo dos não eleitos". Aplaude-se o acerto da autocrítica. E lamenta-se que continue a verificar-se, como estas declarações provam, o pernicioso fenómeno: "não eleitos terem muito mais tempo para falar do que quem é eleito".
Claro está que, de seguida, voltou a enganar-se. Portugal não anda à procura "de um clima de pluralismo"; anda sim em busca de um primeiro-ministro que não nos envergonhe de cada vez que abre a boca.

Publicado por Luis Rainha às 08:05 PM | Comentários (2)

A BELEZA DA PALAVRAS

A palavra "mother" foi eleita a palavra mais bela da língua inglesa (entre outras pieguices como "love", "passion", "eternity").
No que diz respeito ao português, sempre fui grande apreciador da palavra "pudim". Fascina-me a forma como o vocábulo principia com os lábios em forma de beijo, explode na transição do "u" para o "d" e termina a ecoar por todas as cavidades bocais e nasais.
E a coisa propriamente dita também não é má.

E os caros leitores, têm alguma palavra de estimação?

Publicado por Jorge Palinhos às 07:32 PM | Comentários (18)

VAI UM BRINDE AO 1.º DE DEZEMBRO?

Sosseguem, que não me deu para o nacionalismo militante (aliás, ainda aguardo que me convençam de que aquilo em 1640 foi mesmo boa ideia). O Primeiro de Dezembro que quero comemorar este ano é o de 1924. Nesta data, com a saída do número inaugural da revista "La Revolution Surréaliste", aterrou no nosso estranho mundo o Surrealismo.
Hoje, não estou a ver ninguém com vontade de comemorar este 80.º aniversário; aliás, até o próprio substantivo está em riscos de se atascar no linguajar comum como sinónimo de "bizarria", "maluqueira" e "esquisitice". Só por isso, vale a pena retomar aqui as definições que o próprio André Breton estabeleceu, "de uma vez por todas", no seu "Manifesto":
"SURREALISMO, subst., masc., Automatismo psíquico puro pelo qual se pretende expressar, verbalmente, por escrito, ou de qualquer outra forma, o real funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo o controlo exercido pela razão e fora de todas as preocupações morais e estéticas.
ENCICL. Filos. O Surrealismo baseia-se na crença na superior realidade de certas formas de associação até aqui negligenciadas, na omnipotência do sonho e no jogo desinteressado do pensamento. Tende a destruir permanentemente todos os outros mecanismos psíquicos, substituindo-os na resolução dos principais problemas da vida."
Bravata à parte, o essencial ficou assim enunciado: mais do que uma corrente estética, o Surrealismo sempre quis ser uma outra forma de ver o mundo. No que me diz respeito, funcionou; descobri-o nos meus 18-19 anos e posso dizer que muito do que hoje sou, sinto e penso devo-o àquela malta que, há 80 anos, decidiu que era tempo de inventar a esquiva beleza - descrita pelo tão estimado Conde de Lautréamont - do "encontro fortuito entre uma máquina de costura e um chapéu de chuva, sobre uma mesa de autópsias."

Como já tinha ameaçado, vou tentar escrever, à laia de comemoração e humilde homenagem, uma série de posts sobre alguns dos meus surrealistas preferidos. Uma vez que assim correm as minhas preferências, apenas me dedicarei aos artistas plásticos; quem quiser complementar a coisa, dar mais pistas, ou sugerir rumos alternativos, mande notícias.
Já agora, o Objecto acima chamava-se Le Dejeuner en Fourrure e foi congeminado em 1936 pela suíça Meret Oppenheim.

Publicado por Luis Rainha às 07:11 PM | Comentários (2)

PERPLEXIDADE

Alguém viu algum blog de direita, daqueles para quem o 25 de Abril é doce como um limão, a festejar os 29 anos? Eu pelo menos não vi.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:14 PM | Comentários (2)

ETC. E TAL

'It's a little girl.' Tapes reveal troops' 'kill'

Israeli television has broadcast a military tape recording suggesting that Israeli troops knowingly shot and killed a 13-year-old Palestinian girl in Rafah last month.

The tape, broadcast on Channel Two's Uvda program on Monday night, records communications between Israeli soldiers as they killed 13-year-old schoolgirl Iman al-Hams after she allegedly strayed towards their fortified positions along Gaza's border with Egypt.

The following extracts from the tape were published in Hebrew in yesterday's edition of the newspaper Yedioth Ahronoth.

06:48 The observation point identifies the girl.

Observation point: "It's a little girl. She's running defensively eastward ... a girl of about 10, she's behind the embankment, scared to death."

06:52 Iman al-Hams is hit.

Observation post: "Receive, I think that one of the positions took her out."

Operations room: "What, she fell?"

Observation post: "She's not moving right now." The company commander hears, but doesn't stop.

Company commander: "I and another soldier ... are going in a little nearer, forward, to confirm the kill ... receive a situation report - we fired and killed her ... I also confirmed the kill. Over."

The incident is over. The company commander "clarifies" procedure.

Company commander: "This is commander, anything that's mobile, that moves in the zone, even if it's a three-year-old, needs to be killed. Over."

When the incident came to light, the Israeli army's southern command said soldiers had fired at a child suicide bomber carrying explosives into an exclusion zone.

When it transpired that the explosives were in fact a schoolbag, the command said it had investigated the incident and found no wrongdoing. It later reversed its position again after soldiers in the unit, the elite Givati Brigade, told Israeli newspapers about the "confirmation of kill" - a practice officially banned in the defence forces.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:06 PM | Comentários (3)

ERA CAPAZ DE HAVER QUALQUER COISA, MAS NÃO PRESTEI ATENÇÃO

Estrutura de um checkpoint israelita.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:02 PM | Comentários (0)

OUTRO ÍNFIMO PORMENOR

Povoação palestiniana de Nehalin à esquerda e colonato israelita de Betar Ilit à direita.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:47 PM | Comentários (1)

UM ÍNFIMO PORMENOR


Publicado por Jorge Palinhos às 05:41 PM | Comentários (1)

A CONDIÇÃO PÓS-HUMANA

Uma vez que nem o Público nem o Diário de Notícias — os nossos diários de referência — se lembraram de destacar o acontecimento, aqui deixamos a informação: hoje, pelas 18h30, no Instituto Franco-Português (Av. Luís Bívar, 91, Lisboa), decorre a conferência-debate de encerramento do ciclo «A Condição Pós-Humana: Técnica, Ciência e Cultura no Século XXI». Participam José Bragança de Miranda (Professor de Teoria da Cultura e de Cibercultura do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa), Bernard Stiegler (professor na Université de Technologie de Compiègne, actual director do IRCAM e colaborador de Derrida), Gilbert Hottois (professor de Filosofia na Université Libre de Bruxelles e director do Centre de Recherches Interdisciplinaires en Bioéthique), António Coutinho (Director do Instituto Gulbenkian de Ciências) e Eduardo Prado Coelho (professor de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa).

Publicado por José Mário Silva às 03:37 PM | Comentários (3)

VERMEER REVISITED

O que mede o compasso do Geógrafo?
Latitudes no mapa ou a espessura da luz?

Publicado por José Mário Silva às 03:13 PM | Comentários (5)

REGRESSO AO JARDIM DO JARDIM

Passei ontem o dia em trabalho na ilha da Madeira. Para não variar, esta visita teve os seus momentos tragicómicos; conversas com ilhéus bem informados acabam sempre por desaguar no mesmo charco salobre: histórias de enriquecimentos súbitos, de grupos económicos que nascem do nada como cogumelos mágicos, de expropriações arbitrárias, de concursos públicos com resultados bizarros mas já por todos antecipados, de homens da Judiciária que prometem prisões espectaculares para breve e logo se vêem afastados, etc, etc. (Sem esquecer os burlescos pormenores da prisão do presidente da câmara de Ponta do Sol...)
Enfim; nada se prova, mas tudo entra pelos olhos de quem quer ver. Será este fado da Madeira inelutável? E será que todas as pequenas cidades de Portugal vivem presas em similares labirintos de corrupção e nepotismo?

Publicado por Luis Rainha às 01:31 PM | Comentários (7)

UM ANO AQUI NO BAIRRO

Foi há precisamente um ano que o BdE se mudou, de armas e bagagens, do universo Blogspot para a plataforma Weblog.com.pt. O balanço não podia ser mais positivo. Nestes 365 dias, os vários escribas deste blogue assinaram 3405 posts que mereceram um total de 16579 comentários, além de quase meio milhão de visitas (460.000).
E isto ainda é só o princípio do caminho.

Publicado por José Mário Silva às 11:17 AM | Comentários (6)

PUBLICIDADE CONTRAPRODUCENTE

Não há como uma crítica elogiosa do Eurico de Barros para me tirar a vontade de ver um filme. Especialmente quando o crítico do DN descreve o dito filme como se fosse um panfleto do PNR.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:23 AM | Comentários (17)

O BLOGUE-EQUIPA

Depois de ter visto o Beira Mar-Sporting lembrei-me de um texto antigo do Jorge (ainda no Cruzes Canhoto!, versão 1), que comparava o BdE a uma equipa de futebol e atribuía a cada membro uma função específica. Então o Jorge punha «o tchernignobyl e o Luis como pontas de lança, o Manuel Deniz e o Filipe como médios-avançados, o Francisco, o Frederico, a Margarida e Marta a constituirem a retaguarda defensiva e o Zé Mário no centro a fazer a distribuição do jogo. Mais um guarda-redes e um médio defensivo e temos uma nova equipa galáctica.»
Nessa altura ainda nem o Jorge nem o José Luís jogavam na equipa; vou tentar fazer o mesmo agora, baseando-me em jogadores do Sporting. Peço desculpa, mas não consigo pensar em futebol sem ser no Sporting.
Os dois jogadores mais fáceis de identificar são o Manel e o Francisco: são, óbvia e respectivamente, o Sá Pinto e o Niculae (no Benfica seriam o Mantorras). A partir daí, de trás para diante: eu seria o Polga ou o Rogério; o Zé Mário, o Beto ou o Rui Jorge; o tchernignobyl, o Custódio; o Luís, o Rochemback; o José Luís, o Pedro Barbosa ou o Hugo Viana; finalmente, o Jorge seria o Douala ou o Liedson. Esta é a minha perspectiva; agradeço comentários e sugestões.

Publicado por Filipe Moura às 08:52 AM | Comentários (15)

FIGURAS DE ESTILO

Durante uma repetição tardia, percebo novamente que o círculo da quadratura é, de facto, um triângulo. Três ângulos: José Magalhães e Pacheco Pereira fazem o discurso da oposição, Lobo Xavier faz o discurso da situação.
Apenas isto. Assim mesmo. Parece tão claro e, no entanto, quanto mais se interpreta, mais se constata que é como uma metáfora cheia de metáforas por dentro.

Publicado por José Luís Peixoto às 05:17 AM | Comentários (4)

novembro 24, 2004

... E QUEM NÃO PODE BRINCA COM LEGOS

Santana promove remodelação governamental surpresa

Publicado por Jorge Palinhos às 07:54 PM | Comentários (2)

C. K.

Sei que não é grande novidade, mas quando eu for grande quero ser assim.

Publicado por Filipe Moura às 05:24 PM | Comentários (1)

BATER NO FUNDO

Pronto. É oficial: batemos no fundo. ICEP "dixit". O novo slogan de promoção de Portugal no estrangeiro é: "Portugal. Go Deeper" (site em teste aqui; página oficial muito em breve aqui).
Trocando a coisa em língua de gente, o país trata de ir avisando o ilustre potencial turista do buraco em que se vem meter. "Go deeper", pois claro. Vem cá vem, ó cámone e vais ver o buraco em que te metes... Chama-se a isto apanhar moscas com vinagre o que, como toda a gente sabe, dá um resultadão. Financeiramente então, é um espectáculo.
Há um lado positivo, que é o que daqui para a frente é sempre a subir. Ou não. O país pode ficar "ad-eternum" no fundo, como o linguado. O que bem vistas as coisas, casa bem com o cherne que exportámos para Bruxelas e com o carapau de corrida que botou banca em S.Bento.
O mar é de novo o desígnio nacional, dizem. Não será antes o fundo do mar e eles não querem dizer à gente?
(Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 05:21 PM | Comentários (1)

G. P.

Quando for grande, gostava de ser assim. Com olhos esbugalhados e tudo.

Publicado por José Mário Silva às 02:35 PM | Comentários (5)

PELOS TRABALHADORES?

Julgava eu, ingenuamente, que um "secretário geral operário", como Jerónimo de Sousa tanto se orgulha, deveria ter o apoio dos representantes dos trabalhadores. Pelos vistos, não é assim. Será que Jerónimo de Sousa se importa com isso para alguma coisa?

Publicado por Filipe Moura às 02:26 PM | Comentários (1)

QUE É ISSO DE GRANDES GUERREIROS ROTOS?

(Via Aviz)

Parece que os gregos ficaram muito chateados por o novo filme de Oliver Stone descrever Alexandre Magno como sendo bissexual, um facto admitido pelos historiadores gregos e pelos actuais.

(Eu estou chateado porque o filme não parece ser grande coisa, mas isso são outras histórias.)

Descobri, entretanto, que os bravos gregos convivem muito mal com as opções sexuais dos seus heróis da antiguidade. Como será que lidarão com o Banquete de Platão? E terão ouvido falar do Batalhão Sagrado de Tebas? Humm. Será que as pessoas que menos conhecem a história da Grécia são os próprios gregos?

Claro que também me pergunto o que acontecerá no dia em que se divulgar que o nosso D. Pedro I gostava tanto de Inezes como de Martims e de Sanchos? Ou que o desejado Sebastião além de patologicamente misógino provavelmente seria também estritamente homo.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:41 PM | Comentários (12)

POST POTENCIALMENTE HERÉTICO

DESCLAMADOR: O conteúdo deste post é baseado neste artigo da revista The Economist. Se por acaso o mesmo ofender e/ou colocar em causa a sua fé no capitalismo desregulado e nos malefícios da intervenção estatal na economia, por favor dirija a sua raiva para a referida revista, queimando-a em público, escrevendo cartas a xingar a mãezinha do director, pondo bombas nas instalações da mesma. Mas não me insulte, não me chame nostálgico estalinista, não me persiga durante meses para me tentar obrigar a admitir "heresias", não ridicularize o meu nome, etc. Obrigado.

Um interessante artigo da Economist compara os resultados internacionais de produtividade dos países. Segundo este, a mesma pode ser contabilizada pela produtividade laboral, isto é: to add up the number of hours being worked (isto faz-me lembrar qualquer coisa, não sei bem o quê).
Mas há outro método que é a produtividade multi-factorial, which tries to capture the efficiency with which inputs of capital as well as labour are used, que é uma medida bastante mais precisa mas mais difícil de calcular.

No seguinte quadro apresenta-se o crescimento da produtividade de vários países na última década segundo estes dois métodos. Os países estão ordenados em cada coluna consoante o crescimento de produtividade.


The Economist

Tirem as vossas próprias conclusões.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:53 AM | Comentários (6)

SOBRE O ASSASSINATO DE THEO VAN GOGH

Vale a pena ler o Rui.

Publicado por Filipe Moura às 09:51 AM | Comentários (11)

MAIS MOUROS NAS NOSSAS COSTAS (2)

Aqui segue a segunda parte do longo texto que o Alexandre Monteiro teve a generosidade de escrever para nossa ilustração, deleite e ocasional horror. A captura de escravos europeus por piratas africanos continua a ser o surpreendente centro da prosa. Aqui, pode ler-se um artigo que nos descreve o mesmo fenómeno, mas sob o ponto de vista britânico. A conclusão é bem aplicável a Portugal: "This may require that we rethink our belief that race was fundamental to pre-modern ideas about slavery. It also requires a new awareness of the impact of slave raids on Spain and Italy - and Britain - about which we currently know rather less than we do about slaving activities at the same time in Africa." Com mais uma vénia ao Alexandre, passo-lhe a palavra:
E tudo isso aumentava ainda mais a sangria de cabedais europeus… Por exemplo, aquando do saque de 1618 a Lanzarote, resultou maior prejuízo pela venda de terras e bens para resgate dos cativos do que propriamente pelo saque em si. Só em1617, haviam mais de 7000 cativos em Argel. Para além da falta que essas pessoas faziam nos seus países de origem, havia ainda o problema do seu resgate conduzir a Argel, a Salé e a Tunis moeda forte. Se o resgate de cada menino custava 60.000 reais, imagine-se o esforço económico que a Coroa e as famílias faziam para os descativar.
Se resgatar pai ou mãe era obrigação cujo incumprimento poderia originar deserdação, como previam as Ordenações Filipinas e se resgatar um familiar era ainda um dever moral, muitas vezes não havia dinheiro disponível…
Em Julho de 1618, o rei mostrava-se preocupado com as dividas à Redenção e apelava à população para que contribuísse para a ajuda aos cativos com esmolas em dinheiro, destinando. por outro lado, metade das coimas pecuniárias à redenção. No final do ano, para se diminuir as despesas, deram-se ordens se resgatassem apenas os menores de 14 anos e pessoas em perigo de vida, bem como os muitos pilotos e marinheiros cativos em Tetouan e Ceuta, "dos quais poderiam muito bem os turcos se aproveitar em novos saques". Em resultado desse esforço, chegaram a Lisboa, a 8 de Junho de 1620, 350 cativos, dos quais 140 eram mulheres, 85 crianças, e os restantes homens do mar. Custaram todos 26.8887.580 reis, soma essa que contribui para que, em 1621, houvesse uma dívida da fazenda Real ao cofre da Redenção de cerca 87.155.883 reis.
E porquê as crianças em primeiro lugar? Porque, como dizia Valério Barbosa em 175, "os catholicos são os que mais sofrem com os Piratas, vendo-se accometidos dos torpes sectarios de Mafoma, os quais não somente os pretendem roubar, tirando-lhes as riqueza, cativar, coorctando-lhes a liberdade, mas tambem (oh astucia diabolica, e engano Luciferino!) Mas tambem intentão, que largando a nossa Santissima, e verdadeira Ley, sigão os seus absurdos, preversos e abominaveis ritos."

Com efeito, apesar de todos os todos os banhos de Argel estarem dotados de capelas cristãs (em 1731, sete padres católicos asseguravam os serviços das 3 capelas, com procissões eram autorizadas desde que a cruz não fosse transportada) e não se pressionar os escravos à conversão - já que não haveria interesse dos redentores pelos renegados, o que dava menos dinheiro – muitos dos cativos mudavam de religião. As razões invocadas para a renegação baseavam-se muitas das vezes na administração de maus tratos (embora existisse uma prerrogativa da lei islâmica que proibia expressamente tais maus tratos), na acomodação de uma situação aparentemente imutável, na procura de uma vida melhor e de uma maior liberdade de movimentos e na fuga a castigos por ocasiões do cometimento de crimes. Raramente era feita por consciência religiosa já que quer os conhecimentos do Islão quer os próprios conhecimentos da religião cristã eram muitas vezes parcos e impediam a comparação. Quando não havia esperança de se obter resgate, os cativos eram forçados a renegar, para que Alá pudesse fazer cair sobre os seus donos as bênçãos devidas pela conversão.
Os renegados eram um subproduto resultante do difícil relacionamento entre a Cristandade e o Islão, já que, após o momento em que caíam cativos, duas opções se colocavam aos cristãos: manterem-se fiéis ao Cristianismo e esperar uma ocasião propícia para regressar – através de resgate ou fuga - ou renegar, passando a integrar-se no seio do próprio inimigo (renegados ou elches) traindo a fé e o reino. Na Península Ibérica, por exemplo, a temática dos cristão novos, dos judeus, dos mouriscos, dos cativos e dos elches tinha um maior peso do que a questão dos luteranos e calvinistas.
Os arquivos da Inquisição de Lisboa, Sevilha, Maiorca, Sicília, etc. contêm vários processos do santo Ofício levados a cabo contra arrais, nascidos na religião cristã e que se encontravam ao serviço do Islão quando foram capturados (em Espanha, uma lista mencionava que cerca de 500 cristãos se tinham convertido entre 1550 e 1670 - por exemplo, Simão Gonçalves foi feito cativo dos Mouros por volta de 1550. Renegou a fé cristã e assaltou e pilhou para os seus armadores de Argel. Preso em Portugal, arrependeu-se num Auto de Fé e chegou ainda a capitanear uma galera da Mina. Outro exemplo: em 1588, as 35 galés de Argel eram comandadas por 21 renegados, 2 filhos de renegados, e por apenas 4 árabes e 8 turcos - os renegados eram de origem húngara, francesa, genovesa, espanhola, grega, veneziana, corsa, siciliana, napolitana e calabresa.)
Em Portugal, os renegados capturados tinham de se apresentar perante a Inquisição e confessar as suas culpas. As penas consistiam geralmente em abjurações, instrução, penitência e pagamento das custas. Alguns, poucos, eram condenados a penas de prisão e um ou outro a degredo ou às galés - se bem que o islamismo fosse um dos delitos mais gravosos, de um modo geral a Inquisição era bastante benevolente para com os renegados: para além de se recuperar as almas perdidas, os renegados eram pessoas ainda muito válidas para a sociedade.
Entre 1536 e 1700, 250 renegados de várias nações compareceram perante os três tribunais da Inquisição portuguesa - destes, 5 eram mulheres, cerca de 50% eram portugueses, tendo entre todos experimentado um cativeiro que terá durado entre 3 e 35 anos.
E era um cativeiro bastante cruel. Apanhados nos conflitos religiosos, os cativos de um lado e do outro sofriam as piores torturas e sevícias. Conta Frei António de Espínola, em 1688, que, aquando do cerco de Argel, a 26 de Junho desse mesmo ano por uma armada francesa de com 18 navios de guerra, 8 galés, 10 balandras incendiárias e mais embarcações auxiliares, "o cônsul francês André Piol foi levado, com mais quatro franceses, para a Ribeira e aí foram atados pelos pés em dous paos, com a cabeça para baixo, defronte da boca do tiro, logo dispararão a peça que os fazia em migalhas. Só o consul escapou. Noutro dia puseram no canhão o Padre Vigário Apostólico D. Miguel Mot-Mafour e mais quatro franceses, a quem cortaram as orelhas e os narizes, após lhes cegarem um olho com um alfange."
Em represália, os franceses das galés expuseram sete mouros mortos, pregados em tábuas, com os narizes, olhos e orelhas cortados e alguns vivos, com pedaços de toucinho na boca. Em resposta de terra, 28 franceses mais foram passados ao tiro de canhão. (No final do cerco quando as munições francesas acabaram, metade das casas argelinas estavam destruídas bem como todos os banhos, as tabernas dos cristão, a casa do rei, a fortaleza, as mesquitas, os 5 hospitais e as igrejas. Cinco navios muçulmanos e um inglês que estava no porto foram afundados).
Não admira pois que houvesse renegados. E era muito fácil renegar o Cristianismo: o cristão deveria declarar querer ser mouro, levantar a mão direita e dizer
"La ilaha illa Allah Mohammed rezul Allah", a profissão de fé. Implicava também mudar de nome. os mais comuns eram Ali, Mustafá e Mahomet.
Em seguida vinha a circuncisão, o que para além da dor física implicava também uma marca que nunca mais se apagaria e que denunciaria o renegado caso este voltasse a ser capturado na Europa.
A aparência também se alterava, com o corte do cabelo e uso de traje mouro. A oração ritual, a
"salat" era praticada muito pouco ou se o era, então era apenas dita corrompida, porque muitos dos renegados não sabiam árabe.
Depois haviam os abusos sociais. As mulheres eram violadas e tomadas como concubinas, o mesmo acontecendo a alguns homens. Migue Cervantes Saavedra, o autor do Dom Quixote, foi um deles, sofrendo um trauma que nunca conseguiu superar e que se lê bem nas entrelinhas de algumas obras que escreveu, como a da
"Viagen al Parnaso, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. Dirigido a D. Rodrigo de Tapia, caballero delhabito de Santiago: El trato de Argel" escrita em 1582, ainda recém-resgatado do cativeiro de Argel, e que tem como tema central o enamoramento entre escravos e amos, explicado por feitiços.
Se os renegados se mantiveram nas franjas sociais de dois mundos em permanente conflito, não inteiramente integrados no Islão e com problemas de índole diversa quando regressavam, constituindo um grupo dividido entre duas sociedades, duas culturas, duas religiões e duas vidas, também nesta questão de conflito de religiões e culturas as questões não são lineares nem maniqueístas.
Se muito dinheiro era sangrado à Europa, à conta dos saques de navios e das somas pagas pelos resgates, verdade era também o facto desse mesmo dinheiro regressar à Europa, sob a forma de pagamentos para a aquisição de produtos de luxo e armas produzidas na Europa Setentrional.
Com efeito, as relações comerciais entre as duas bandas do Mediterrâneo não foram interrompidas pelo corso ou pela violência – em determinados momentos, as autoridades viram-se até coagidas a proibir aos mercadores de adquirir, em Argel ou na zona do Magrebe, as mercadorias roubadas aos cristãos sob pena de confiscação das mesmas e da aplicação de castigos corporais – aos delatores capazes de apresentar prova daquele delito era reservado um terço do valor dos bens confiscados.
Muitas vezes, a coberto da chamada "pirataria amigável", davam-se autênticas operações de contrabando, enquanto que os menos escrupulosos vendiam aos infiéis as armas que os haveriam de cometer mais tarde. A Inglaterra trocava salitre, cera, peles e ouro marroquinos por armas e munições, através da companhia Henry St-John & Co. Os Países Baixos, por um tratado de 1610, forneciam a Marrocos fio de ferro, armas e munições. Os comerciantes judeus adquiriam por baixo preço as mercadorias roubadas e revendiam-nas na Itália, em Livorno e em Genes. Há canhões fundidos na Holanda, em 1619 e 1632, que têm inscrições em árabe invocando Alá…
Os próprio padres redentores utilizavam intermediários que clamavam uma percentagem do resgate, enquanto que a sua vantagem, reclamada ao sultão, era a de poderem construir capelas e igrejas em território magrebino.
Havia ainda muita corrupção no "negócio dos resgates", com intermediários europeus e judeus a afastar os religiosos das negociações, resgatando cativos por baixo preço e cobrando aos religiosos preços elevados, muitas vezes por cativos já mortos, não existentes ou mesmo já resgatados.
Ontem, como hoje, a religião andava de braço dado com o vil metal. Ontem, como hoje, quem se tramava era a arraia-miúda. Razão tinha Voltaire quando nomeava no seu Candide, a escravatura às mãos dos Muçulmanos como uma das maiores tragédias que afectavam a Humanidade do seu tempo. Ou, como diria João de Mascarenhas, em 1627, na sua "Memorável relaçam da perda da Nao Conceiçam que os Turcos queymarão à vista da barra de Lisboa": "não há pior transe do que esperar o cativo nesta hora o amo que terá, porque um homem não pode chegar a maior desgraça, nem seus pecados o podem trazer a maior miséria, que a ser escravo, mas se a sua má fortuna o trouxe a ser escravo de ruim patrão, não tem que aguardar cousa boa de sua estrela, se não ter-se por desgraçadissimo, porque não há pior inferno nesta vida".
(Alexandre Monteiro)

Publicado por Luis Rainha às 12:04 AM | Comentários (56)

novembro 23, 2004

TODOS AO REQUIEM

De um elemento do Coro de Câmara da Universidade de Lisboa, recebemos o seguinte e-mail:

«Já que os fascistas andam a rasgar os cartazes que colamos, aqui vai um em suporte digital, mais difícil de arrancar :)
Saudações Lopes-Gracistas»

O cartaz em causa é este:

As informações sobre o concerto podem ser encontradas aqui. Por outro lado, o facto de uma iniciativa como esta — a simples audição de uma obra-prima absoluta da música portuguesa do séc. XX — despertar tantas resistências, a que se soma uma ostensiva falta de apoios oficiais (cf. o que se diz neste forum), devia fazer-nos pensar. Mais do que isso: devia fazer-nos reagir.
Pela nossa parte, manifestamos desde já todo o apoio a quem levou até ao fim, contra ventos e marés, esta justíssima homenagem a Lopes-Graça. No sábado, 27, dia em que passam 10 anos sobre a morte do genial maestro e compositor, lá estaremos, na Aula Magna, para ouvir a sua música e evocar a sua memória.

Publicado por José Mário Silva às 08:10 PM | Comentários (11)

MUDANÇA (2)

Ao subir a Calçada do Poço dos Mouros, entre Campo de Ourique e a Penha de França, olhei para o espelho retrovisor e vi a camioneta que transportava, em esforço, o conteúdo inteiro da minha casa. Breve, efémera ilusão de nomadismo.

Publicado por José Mário Silva às 08:01 PM | Comentários (9)

MUDANÇA

Se Homero vivesse em Lisboa, neste ano de 2004, não precisaria de inventar para o seu herói os terrores de Cila e Caribdis. Bastava a EPAL e a Lisboagás.

Publicado por José Mário Silva às 07:59 PM | Comentários (4)

MAIS MOUROS NAS NOSSAS COSTAS (1)

Sobre um post de há uns dias, escreveu o Alexandre Monteiro um extenso e esclarecedor comentário sobre o tema dos piratas africanos que escravizaram mais de um milhão de europeus, entre 1500 e 1800. Ora o Alexandre acedeu a escrever mais um pouco sobre estes fascinantes (e sofridos) anos da nossa História. Por mim, agradeço o esforço e as revelações. Fica aqui a primeira parte:

Sem deixar de poder simpatizar com os cristãos aprisionados ou martirizados - como Cervantes, violado anos a fio no seu cativeiro em Tunis pelo seu amo e senhor, Hassan Bajah - "o Sodomita", como também era conhecido inter pares, com os tripulantes da nau portuguesa "Nossa Senhora da Conceição", abrasada pelos mouros ao largo da Ericeira, e com a população das ilhas de Porto Santo, Corvo e Canárias, que sofreram razias, com mais de 90% dos seus habitantes cativos - há que referir também os milhares e milhares de "mouros" aprisionados pelos cristãos para servir como escravos da Ordem de Malta ou como remadores nas galés venezianas, espanholas e francesas.
Era o temor, nos tempos das piratarias magrebinas, de que houvessem espiões ou denunciantes dos piratas que os informassem sobre a partida e a natureza da carga dos navios, que fazia com que os mercadores observassem cautelosamente: "há mouro na costa".
"Haver mouros na costa" passou assim, a ser a afirmação que se faz quando estão presentes pessoas que não devem de conhecer determinados assuntos, ou nas quais não se pode confiar, ou ainda pessoas que nos andam a rondar, animadas das piores intenções.
Mas essa expressão não é a única que sobrevive desses tempos de terror: "trabalhar como um mouro" (ou o verbo "mourejar") vem dos tempos em os escravos ainda só eram muçulmanos – depois, com a descoberta das vias marítimas esclavagistas, passou-se a dizer "trabalhar que nem um preto"….
Ainda hoje, nas terras mais castigadas, como a Madeira e os Açores, se diz a quem se quer mal ou nos apoquenta, "vai-te p'ra Argel" enquanto as mães invectivam os filhos mal comportados e irrequietos de "cossairo" ou "corsário".
A história é longa e antiga. Com efeito, data de 1260 - ano em que a vila de Salé foi saqueada pelos espanhóis, que levaram também todas as mulheres para a Península Ibérica – a altura em que quase todo o mar Mediterrâneo se tornou palco de acções de pirataria e corso, tanto de muçulmanos como de cristãos, numa dinâmica que atingiu o seu zénite nos finais do século XVI.
Com efeito, foi a partir dessa data que ocorreram três factores cruciais para esta nossa história. Em primeiro lugar, o Estreito de Gibraltar pôs em comunicação uma tradição marítima, de cariz mediterrânico e milenar, com a história recente, animada pelas economias oceânicas e pelo afluxo dos metais preciosos oriundos das Américas. O encontro das rotas clássicas com as modernas vias transatlânticas do comércio, em razão da nova riqueza em circulação da disputa dos mercados ultramarinos, veio assim alterar dramaticamente o perfil e alcance das diferentes formas de violência marítima.
A área nevrálgica onde se cruzavam essas rotas, que ligavam o mundo mediterrânico à Europa atlântica – e por onde circulavam as mercadorias em direcção ou provenientes das possessões e mercados coloniais – era a definida pelo espaço compreendido ente o Estreito de Gibraltar, Cadiz, o Cabo de São Vicente, Lisboa e arquipélagos das Canárias, Madeira e Açores.
O segundo factor foi a expulsão por Filipe II dos mouriscos de Espanha, iniciada em 1609, e que levou à fixação de muitos dos refugiados – mais de 40.000 - em Tetouan, nas proximidades das praças fortificadas de Melila e Tanger. Ora, esta população europeizada e exímia nas técnicas marítimas dos Europeus – a artilharia marítima, o domínio dos navios de pano redondo – levou consigo, para Marrocos, todo o seu
know-how e todo o seu ódio a quem a expulsara. Sendo pobre e espoliada, normal era, como foi, que aplicasse o que sabia fazer – andar no mar – a atacar cristãos.

O abade Pierre Dan, na sua obra de 1649, intitulada "Histoire de Barbarie et de ses Corsaires des royaumes, et des villes d'Alger, de Tunis, de Salé, & de Tripoly. Divisée en six livres. Ou il est traité de leur gouvernment; de leur Moeur, de leur Cruautez, de leurs Brigandages, de leurs Sortileges, & de plusieurs autres particularitez remarquables.", é de opinião, que os mouriscos de Espanha, em vez de terem sido expulsos, deveriam ou ter sido todos mortos ou todos convertidos, já que todos tinham dado em corsários – "ils ont causé depuis une infinité de maux à la Chrestienté, pour avoir apris aux infidéles, l'usage et la fabrique des armes, ensemble plusieurs mestiers, et pareillement la situation et la langue du païs, oú ils avoient trafiqué".
O terceiro e último factor foi o aparecimento do Império Turco Otomano no panorama europeu. O corso foi, para os otomanos do século XVII, uma resposta ao descalabro monetário da sua economia, face ao afluxo dos metais precioso da América. Relata o redentor Frei António da Cruz, que os turcos "sendo tão enemigos" da cruz "por ser de Christo" são muito amigos dos reais cunhados com a mesma "por ser de prata fina e de lei". É desse modo que as surtidas em terra ou as tomadias no mar se desenrolavam também no quadro da oposição do Império Otomano às economias marítimas dos países ibéricos, rivais no Mediterrâneo e no Índico – no caso do Magrebe, apesar de os marroquinos não estarem na dependência do Império Otomano, operavam sob a sua protecção e funcionavam como intermediários nas transacções dos cativos.
A pirataria, de um fenómeno tradicional, passava a actividade industrial, como único recurso de toda uma comunidade. Como diria um autor anónimo, em 1757, não era "possível ao valor de todos os Catholicos o poder conseguir, que os Mouros não infestem os mares, não perturbem o comércio, e não se atrevão a nos hostilizar", já que, se do lado espanhol estava "o valor, e a razão", do outro estava o "ódio e a superioridade das forças".
Um bom exemplo de "razão" e de "valor" cristão era o dado pela Ordem de Malta. Com sede, primeiro na ilha de Rodes, que perdeu para os Turcos em 1523, e depois em Malta, a Ordem constituía um estado independente, com exército e marinha para quem a guerra de corso representava um meio de fazer aos seus Cavaleiros cumprir os estatutos da ordem, em combatendo pela sua glória.
Para a Ordem de Malta, o mar era o único meio onde podiam defrontar os infiéis, atacando não só as galeras de guerra barbarescas, mas também os navios mercantes de Alger, Tripoli e Tunis, que forneciam o trigo, o gado, os legumes, os tapetes e os escravos para as galeras.
As galeras de Malta estavam num estado de guerra permanente com o Islão e viam os pertences dos infiéis como passíveis de serem tomados legalmente, - mesmo que seguissem a bordo de navios pertences a nações cristãs (nas capturas, 20% do saque ia para os Cavaleiros, 15% seguiam para os soldados profissionais e para os marinheiros e o resto destinava-se ao cofre da Ordem).
Por vezes, nem era preciso aos cristão ir para a guerra para arranjar alguns escravos: alguns mercadores venezianos usavam como estratagema o organizar de mercados a bordo de navios ancorados ao largo de alguns portos da África do Norte; depois de terem o navio cheio de pessoas, largavam amarras e lá iam eles, para os mercados de escravos de Veneza…
Se a luta contra o Infiel era dever primordial de todo o cristão – haviam perdões régios a homicidas, como os que foram passados aos participantes na armada portuguesa que fora contra os Turcos que se tinham apossado de Otranto, na Itália, em 1481, armada essa comandada pelo Bispo de Évora, Dom Garcia de Meneses – tal nem sempre acontecia.
Por vezes, razões de ordem diplomática sobrepunham-se aos interesses religiosos. Com efeito, apesar do princípio jurídico
pacta cum infidebilus estar em vigor na republica christiana de Carlos V, este não impedia o estabelecimento de tratados, convenções e mesmo acordos de paz. Mesmo o imperador espanhol, alicerçado em razões de segurança de Estado e de comércio, por vezes intensificava as suas relações com os príncipes mouros de religião muçulmana.
Quanto a Portugal, quase que se pode afirmar que a expansão para Marrocos foi, fundamentalmente, motivada pela pirataria e pelo corso. Com efeito, datam de 1415 os primeiros contactos dos portugueses com a cidade de Ceuta, através de acções de resgate de cativos. A sua posterior conquista foi também devida ao perigo constante que os ataques de mouros faziam às terras do sul da Península Ibérica, havendo mesmo pilhagens frequentes nas costas do Algarve.
E a História é confirmada pelos factos. Afim de proteger os moradores do Algarve das incursões berberescas, desenvolveu-se um cordão de atalaias e fortificações, edificadas no fim do período medieval e mais tarde reforçadas, por D. João III e D. Sebastião, com uma linha de fortalezas, atalaias e baluartes que iam desde o cabo de São Vicente até à foz do Guadiana. Como o corso levava a grandes quebras nas pescarias e conduzia a uma diminuição da actividade comercial do Algarve, os monarcas asseguravam-se que os mareantes portuguesestinham a função de guarda à costa, especialmente os que formavam as almadravas, as armações do atum.
Mas os ataques sucediam-se. Em 1517, o próprio Rei D. Manuel pensou em fixar-se no Algarve para melhor enfrentar a ameaça berberesca. Em 1550, os "turcos" destruíram completamente a fortaleza de Alcantarilha. Oito anos depois, 35 a 40 piratas desembarcaram na praia da Galé e cativaram 5 pessoas. Em 1549, uma "armada de Turcos" desembarcou mil corsários perto de Porches-o-Velho.
Nas cortes de 1562 pediu-se a construção de fortalezas na costa algarvia e a proibição de lá morarem mouriscos, para não darem avisos, como se presumia. Em 1573, o próprio Rei D. Sebastião embarcou para dar luta a 13 galés turcas que vogavam ao largo de Sagres, antes de embarcar para a sua perda e o consequente aumento exponencial do número de cativos portugueses no Norte de África em finais do século XVI, a partir do desastre de Alcácer Kibir.
Nem a assinatura de tréguas entre a Espanha e a Sublime Porta afectou a continuidade do corso berberesco, que não só se manteve activo como ganhou autonomia, tornando-se os seus objectivos económicos prioritários. Assim, na década de 80, um ataque de mouros a Vila Nova de Milfontes provocou a debandada da população, o que despovoara a zona.
Os ataques faziam-se igualmente às ilhas cristãs. Em 1585 Murat Arrais levou 400 cativos de Lanzarote. Em 1586 e 1593, outras duas incursões muçulmanas nas Canárias fizeram mais 400 cativos.
Como ficou já dito acima, foi a partir da expulsão dos mouriscos que o corso muçulmano se espalhou para fora da zona do Magrebe. Em 1616, Sir Francis Cottington, embaixador de Inglaterra em Espanha, escrevia ao Conde de Buckingham notificando-o de que, entre 1609 e 1616, a frota turco-argelina tinha capturado 466 navios ingleses e vendido as suas tripulações como escravos.
Portugal e Espanha eram os mais castigados. Em 1615, alguns corsários argelinos invadiram o Porto Santo, mas foram expulsos de lá pela expedição de Manuel Dias de Andrade. Em Julho de 1616, 500 mouros saíram num navio e dois patachos de Argel para o Atlântico para apresar as naus que regressavam da Índia - como não o conseguiram, assaltaram a ilha de Santa Maria. Em 1617, fizeram o mesmo ao Porto Santo.
Tabac Arrais e Suleiman atacaram Lanzarote em 1618, com 37 navios,4000 soldados e marinheiros. Saíram de Argel a 6 de Abril e avistaram as Canárias a 30 do mesmo mês. Desembarcaram 3 mil homens perto do porto de Arrecife a 1 de Maio. A capital, Teguise, foi saqueada e incendiada, as imagens religiosas foram quebradas. Os habitantes fugiram para os montes, alguns para Fuerteventura de barco e cerca de mil refugiaram-se dentro da gruta de Los Verdes. A gruta, a que se acedia apenas de gatas, era abastecida por uma outra entrada secreta, entrada essa que foi dada a revelar aos "turcos" pelo escrivão Francisco Amado, sendo feitos 900 cativos.
E o corso prosseguia, para territórios nunca dantes imaginados pelos Europeus. Entre 1616 e 1617, os argelinos chegaram até à Galiza e Astúrias. Em 1627, três navios de Alger, comandados pelo alemão renegado Cure Morat navegaram até à Dinamarca e cativaram 400 pessoas na Islândia. Um pouco antes da meia-noite do dia 19 de Junho de 1631, dois navios de Alger, comandados pelo renegado holandês Morat, ancoraram na baía de Baltimore, a sudoeste de Cork, na Irlanda. Às 2 da manhã, barcos provindos dos dois navios desembarcaram tropas a uma milha a sul da povoação principal e cativaram 109 pessoas. Roubaram ainda alguns bens e incendiaram as casas dos pescadores. O raid causou tal escândalo na corte inglesa, que Carlos I pediu explicações à sua guarda-costeira e exigiu forte acção diplomática (o que é compreensível já que cabia ao Rei da Inglaterra que cabia o resgate dos protestantes ingleses, escoceses, holandeses, escandinavos e alemães).
(Alexandre Monteiro)

Publicado por Luis Rainha às 05:36 PM | Comentários (2)

O PROBLEMA DOS HOMÓNIMOS

No outro dia, em casa de amigos com acesso aos canais de cinema da TVCabo, dei comigo diante de «Interceptor Force», um daqueles filmes tão maus que não cabem sequer no conceito de série B (ou mesmo Z). O genérico cruza os nomes dos actores, escritos num tipo de letra pirosíssimo, com supostas imagens reais de discos voadores, tudo ao som de uma insuportável música pseudo-techno.
Quando já estávamos para mudar de canal, apareceu por fim o nome do realizador da coisa: Phillip Roth. Assim mesmo: Phillip Roth. Primeiro, fiquei de boca aberta. Mas, depois, à incredulidade seguiu-se o alívio. Havia ali, naquele nome que pronuncio sempre que se discute quem será o melhor escritor vivo, uma letra a mais. Um «l» a mais.
Como é óbvio, o realizador manhoso de um filme de nona categoria, esse obscuro Phillip Roth que fundou a UFO Films, nada tem a ver com este distinto senhor.

Publicado por José Mário Silva às 05:11 PM | Comentários (2)

PORQUE MORRE O PCP?

O PCP não vai morrer por teimosa fidelidade a ideais que já há muito pedem revisão profunda. Não falecerá por medo de se transformar numa coisa outra que mete o medo do desconhecido. Não é o idealismo nem sequer a saudade que tolhe qualquer ímpeto de mudança. Se fosse alguma destas a "causa provável" que irá ser inscrita na certidão de óbito do PCP, a agonia que agora testemunhamos ainda mereceria o nosso respeito. Ou, pelo menos, alguma pena.
Não. Trata-se apenas de vontade de poder. De uma clique minúscula, entrincheirada nas caves da Soeiro Pereira Gomes, que não imagina um mundo onde não possua aquele pequenino poder de indicar gente para o Comité Central, de decidir quem é ou não "de confiança". Gente como o "operário" Domingos Abrantes prefere por certo mandar em quase nada do que nada mandar. Os outros, os mil cúmplices neste enterro prematuro, são gente ainda mais pequena: os "camaradas" que não podem mesmo perder o emprego no partido, na câmara ou nos SMAS. Ou então malta que só sabe viver em bicos dos pés, aproveitado ínfimas tribunas – como a defunta marioneta que é o CPPC – mesmo que tal implique a cumplicidade com os zombies da Soeiro.
Não julguem que se trata de questões que apenas afectam os dirigentes. A infâmia derrama-se das cúpulas para as bases: sei de militantes anónimos que aguardam há anos que lhes indiquem o organismo onde poderão exercer a obrigatória "militância", apenas porque anda no ar a suspeita de não serem "de confiança". E pouco importa que os votantes do partido procurem outros amanhãs cantantes; enquanto houver militantes, enquanto houver património e Festa para gerir, eles vão continuar, resistentes e sempre "firmes", a dar cabo do partido.
Não, não é mesmo uma questão de "ortodoxia"; trata-se apenas de um reles apego ao tacho. E Jerónimo Sousa é só o rosto supostamente operário desta camarilha. Só mais uma humilde e sempre útil arma do crime; não o verdadeiro culpado.

PS: acabo de saber que António Filipe assinou a sua sentença de ostracismo, ao votar contra o documento a ser aclamado no próximo congresso. Conheço-o apenas de raspão. Mas, mesmo assim, já me interrogava sobre o que faria ali uma pessoa assim.

Publicado por Luis Rainha às 03:47 PM | Comentários (15)

JRS JÁ NÃO MORA AQUI

Nas primeiras páginas do seu último romance, acabadinho de lançar pela Gradiva, escreve José Rodrigues dos Santos a seguinte nota:

«Se desejar entrar em contacto com o autor para comentar o romance A Filha do Capitão, escreva para o e-mail jrs@rtp.pt»

Hmmmm, e agora? Faz-se uma errata? Emenda-se com esferográfica? Espera-se pela segunda edição?

Publicado por José Mário Silva às 03:44 PM | Comentários (3)

UMA QUESTÃO DE CASTANHOLAS

Há quem justifique as suas acções com uma depressão, uma espondilose, tensão baixa, TPM, azia, falta de oportunidades em pequenino ou maldade pura. O pretexto do correspondente em Madrid é que nunca me tinha ocorrido. A imaginação não tem fronteiras para certos e determinados senhores com certas e determinadas funções governativas e tal. (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 02:39 PM | Comentários (0)

NO ABORTO, AFINAL O QUE É MAIS IMPORTANTE?

É raro, mas acontece: discordo profundamente da opinião do Daniel Oliveira sobre a proposta do PCP que pretende "congelar" a aplicação da nossa infeliz lei do aborto.
Sim; é varrer o lixo para longe da vista, sem cuidar do verdadeiro problema. Sim; impede o avanço mais importante, que seria a criação de estruturas clínicas legais. Sim; facilita a vida ao PSD.
Mas também facilia a vida às mulheres (e miúdas) que se vêem em tribunal graças à legislação aberrante, a denúncias nojentas e a autoridades com tempo livre a mais.
E será que não é isto o mais importante? Ou será preferível sacrificar, num gambito político, a paz de mais umas quantas vidas, tendo em vista apenas o objectivo de manter a pressão sobre o PSD? Queremos mesmo lutar pelas mulheres ou pelas nossas estratégias de afirmação política?
Quanto a mim, qualquer alívio, por remendado que seja, é bem-vindo. E não me distrai do objectivo real, que é trazer este país para o século XXI e para a companhia de quase todas as nações civilizadas do Mundo.

PS: olhando para esta notícia, talvez a coisa nem seja assim tão cómoda para o partido do calhau com gel e muito menos ainda para a sua coligação com os interesseiros ratos de sacristia do PP.

Publicado por Luis Rainha às 01:11 PM | Comentários (6)

A DERIVA DIREITISTA DE WASHINGTON


Cartoon de Monte Wolverton

Publicado por José Mário Silva às 12:01 PM | Comentários (0)

«ISRAEL É UM MILAGRE E ESTAMOS A DESPERDIÇÁ-LO»

A mais sensata perspectiva sobre o conflito do Médio Oriente que li nos últimos tempos é a de David Grossmann, romancista e ensaísta israelita, apoiante da Iniciativa de Genebra de 2003, em entrevista ao Público. Que os seus desejos se concretizem!
(Segue também um recado para o Nuno Guerreiro: não basta pedir e propor a paz; para alcançar um efectivo acordo de paz, é preciso apresentar propostas e fazer concessões. É isso que Grossman faz; talvez esteja a ser injusto mas não costumo ver isso no teu blogue.)

«[Arafat] fez algo realmente grande pelos palestinianos ao pô-los na agenda internacional. Dedicou-se totalmente a essa causa e foi assimilado como um símbolo da Palestina. É daquelas coisas que acontecem raramente: um líder ser capaz de personalizar toda uma nação. Este é o seu maior sucesso, que depois se sobreporá a todas as tragédias e erros. Por que os palestinianos vão acabar por ter o seu Estado, e isso não aconteceria sem ele, ou não da mesma forma.

O problema é que o podia ter conseguido mais cedo. Fez um enorme erro quando em 2000 [o então primeiro-ministro israelita] Ehud Barak lhe ofereceu concessões, em Camp David. A oferta de Barak não era das melhores, foi um erro de ambos. São precisos dois para este tango de erros. Acredito que se não estivessem tão condicionados pelo conflito, se não fossem homens de poder tentando quebrar o braço um do outro, hoje os palestinianos teriam o Estado soberano que merecem. Se Barak tivesse sido mais generoso, talvez fosse mais fácil para Arafat.

Arafat sempre combinou política e terrorismo de maneira muito eficiente. E no momento crucial voltou-se novamente para o terrorismo, depois de rejeitar a oferta de Barak.

Oslo, em 1993, não tinha sido o acordo ideal para os palestinianos, e desde Oslo o número de colonatos duplicou. O que fez de Camp David um momento de desconfiança em relação ao verdadeiro empenhamento dos israelitas na paz.

Sou tão crítico em relação à nossa liderança como à deles. Se um deles tivesse sido mais visionário, este conflito da segunda Intifada poderia ter sido evitado. Quase cinco mil pessoas foram mortas, mil israelitas e quase quatro mil palestinianos, 40 mil feridos. Quando falo da forma como Arafat incitou o seu povo à violência, digo o mesmo de Barak. (...)

Quando Barak foi [para Camp David], realmente queria alcançar a paz. Depois, quando falhou, começou a rever a sua versão. Disse que tinha ido para expor a verdadeira face de Arafat. Mas ele foi lá oferecer 96 por cento da Cisjordânia a Arafat, e sabia que teria de dar mais, 100 por cento. Os territórios que ofereceria não permitiriam aos palestinianos uma sequência territorial. (...)

Ele dizia que não poderia haver um evacuamento de colonatos sem negociações sérias. Tal como Arafat disse: eu não posso desistir do direito de retorno [dos refugiados palestinianos noutros países], a não ser que leve conquistas concretas ao meu povo. Este problema é uma tragédia, porque ambos os povos têm coisas em que estão certos e coisas em que estão errados. Aqui não há o bom e o mau. São dois tipos miseráveis que todo o tempo fazem erros e espelham os erros um do outro. Somos como gémeos. Quando digo que Arafat infligiu tragédias ao seu povo, penso que Barak também o fez, a nós e aos palestinianos. (...)

Não há [simetria]. Somos os mais fortes, os ocupantes, temos muito mais margem de manobra. Somos mais estáveis do que os palestinianos, que apenas agora começaram a amadurecer politicamente. Dito isto, há simetria numa coisa: na capacidade de cada lado tornar a vida do outro amarga. Israel é um superpoder, temos uma centena de bombas atómicas algures, e no entanto, ficamos aterrorizados quando os nossos filhos vão para a rua. Portanto, de certa forma o sentimento de estar cercado é comum. Acredito que a vida deles é muito mais horrível, que devíamos ser mais generosos, gostaria de ver o meu primeiro-ministro a ir amanhã oferecer algo e pedir desculpa aos palestinianos pela injustiça que Israel lhes infligiu. E esperaria, em retorno, ouvi-los pedir desculpa pelo que fizeram. Porque não se tratou sempre da gloriosa luta pela liberdade. Foi também terrorismo. (...)

Depois de umas eleições nos EUA, o primeiro-ministro israelita vem sempre dizer: temos um grande, grande amigo na Casa Branca... E eu desejo sempre que tivéssemos um amigo menos grande, alguém que (...) forçasse Israel a fazer o que é preciso para conseguir alguma normalidade aqui, alguma vida, e não apenas esta sobrevivência de catástrofe em catástrofe. (...)

[Sharon] finalmente - talvez demasiado tarde - chegou à conclusão inevitável de que não podemos ocupar Gaza. Há algo tão distorcido na ideia de que Israel pode controlar, dar trabalho, comida ao milhão e meio de pessoas em Gaza... E na ideia de 8000 colonos terem três vezes mais água do que o milhão e meio de palestinianos. É inumano... (...)

Se o meu tribunal o definiu [Barghouti] como um assassino, é dessa forma que o vejo. Mas, tendo dito isto, digo que no contexto de uma luta nacional pela liberdade não há regras absolutas sobre o que é certo e o que é errado. Se fosse julgar os meus líderes pelos mesmos critérios, diria que quase todos, em relação aos palestinianos, institucionalizaram o terrorismo de Estado, torturaram populações inocentes, indivíduos, causaram a morte de milhares de inocentes. Usamo-los como líderes, e quero usar o senhor Barghouti como líder do seu povo.»

Publicado por Filipe Moura às 08:20 AM | Comentários (2)

QUEM FAZ A HISTÓRIA

Li hoje no Courrier International que, na Rússia, o feriado nacional que lembra o aniversário da revolução de Outubro, tradicionalmente celebrado a 7 de Novembro, corre o risco de ser suprimido. O partido maioritário, Rússia Unida, e os nacionalistas de Jirinovski apresentaram um projecto de lei que sugere que se suprima o feriado que em 1992 tomou a designação de "Dia da concórdia e da reconciliação".
Depois de ler isto, encostei-me na cadeira, baixei o jornal e passaram-me imagens nítidas pela cabeça. Lembrei-me de várias revoluções. Imaginei o futuro.

Publicado por José Luís Peixoto às 05:09 AM | Comentários (9)

novembro 22, 2004

O EIXO DO MEL

De repente, ninguém os larga. Quer dizer, aos desgraçados comentadores do programa «Eixo do Mal» [passa na SIC Notícias, aos sábados, à meia-noite]. Se há uma moda, hoje, na comunicação social escrita (onde incluo a blogosfera), é dizer cobras e lagartos do programa, salientando ao extremo os seus defeitos e não querendo ver as suas virtudes.
Ainda hoje, no Público, João Pedro Henriques o apelidou de «frango cozido com couve-flor» (por não ser carne nem peixe) e mesmo Eduardo Cintra Torres, no texto citado no post anterior, está longe de ser meigo com o Nuno Artur Silva, o Pedro Mexia, o Daniel Oliveira e companhia.
Não querendo ser advogado de causas alheias, parece-me que há nestes ataques demolidores não só um manifesto exagero (por muito que algumas das críticas tenham razão de ser) como uma vontade, nada subtil, de enterrar à partida um espaço de debate que me parece necessário.
Afundados como andamos em tele-lixo, será que devemos dar-nos ao luxo de matar assim, à nascença, um projecto que tem matéria-prima de sobra para escapar, uma vez afinada a máquina, ao pântano da mediocridade televisiva nacional? Não me parece.

Publicado por José Mário Silva às 11:56 PM | Comentários (7)

OLHO VIVO

O Governo de Santana Lopes é o «mais brutal e perigoso» que a democracia portuguesa conheceu nos últimos 30 anos. Quem o diz é Eduardo Cintra Torres, no Público. E diz bem.
«Este Governo é opaco (...). Precisa de esconder os actos dessa opacidade. Precisa de enxotar ou condicionar os jornalistas sérios, livres e independentes. Precisa de confundir a opinião pública. Precisa de fazer as suas coisas lá no Governo o mais depressa possível, antes que se descubram. Por isso, este Governo está pronto a pagar os custos da brutalidade da intervenção mediática se isso distrair e se o mantiver lá mais uns meses.»
Faço minhas as suas palavras.

Publicado por José Mário Silva às 11:47 PM | Comentários (0)

GENTE DE CAUSAS

O Zé Mário, certa vez, ainda nos primórdios da blogosfera, definiu o bloguista típico como tendo à volta de trinta anos, urbano, e com uma profissão que requeresse prática corrente de escrita. Eu obedeço a este perfil, bem como a maioria dos pioneiros da blogosfera portuguesa. Isto criou uma certa informalidade entre bloguistas; toda a gente se tratava por "tu". Mas era natural (e desejável) a diversificação deste perfil; um dos blogues que contribuiu para tal foi o Causa Nossa, constituído fundamentalmente por cidadãos conhecidos, de créditos firmados na política e no jornalismo, e de um modo geral mais velhos. Quando surgiu o Causa Nossa, julguei que era o blogue dos cotas cromos. É com prazer que reconheço, um ano depois, que tal não é o caso. Com excepção de um certo paternalismo em questões relacionadas com a universidade (que era bom que discutíssemos), e com essa outra excepção que é Vicente Jorge Silva (um caso perdido de rabugice e mau feitio cota, mas isto pode ser um preconceito meu ainda dos tempos da geração rasca), o Causa Nossa é um blogue jovem, feito por gente com espírito jovem, dos quais é da mais elementar justiça destacar Vital Moreira, a grande alma da Causa. Acima de tudo, é merecidamente hoje uma referência incontornável da blogosfera portuguesa. Um ano depois, damos-lhes os parabéns e desejamos que continuem o bom trabalho.

Publicado por Filipe Moura às 11:36 PM | Comentários (2)

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES

dismantle.jpg

Foi hoje lançado em Portugal o álbum de recordações da última reunião
do Conselho de Ministros, «How to dismantle an atonic nation», cuja
sessão fotográfica teve lugar nas piscinas da Praia das Maçãs. A banda
sonora já roda nas rádios há alguns dias.

«Uno, dos, tres, catorce
Tan taram
taran
taran t...

Hello, Hello
Hola! I'm at a place called vertigo (Donde está?)
It's everything I wish I didn't know»

(Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 10:02 PM | Comentários (0)

QUEM NÃO TEM VEADOS, CAÇA GENTE

Não, não é uma "boca" ao Renas e Veados; trata-se sim de uma estranha e sangrenta notícia vinda dos EUA: cinco caçadores morreram e três outros ficaram feridos depois de um tiroteio no Wisconsin. Tudo começou com um desaguisado acerca de um local para caçar. E tudo acabou com um maluco a perseguir e abater outros caçadores, com uma espingarda semi-automática de 7,62mm. Amanhã a esta hora, deve estar a sair o comunicado da NRA a reafirmar que este tipo de armas é perfeitamente inofensivo.

Publicado por Luis Rainha às 07:08 PM | Comentários (15)

BAYREUTH EM FLOR

Na primeira página do DN, equivoco-me com uma das chamadas de capa. Leio «Wagner abre ciclo das grandes orquídeas» onde está escrito «Wagner abre ciclo das grandes orquestras».
Inesperada figura de estilo: a dislexia.

Publicado por José Mário Silva às 05:58 PM | Comentários (1)

PEQUENOS PRODÍGIOS

Há uns dias, durante uma ecografia, vi a Alice a dançar. Acreditem que não exagero: era uma dança aquele frenesi de pernas e braços a mexer (lá dentro) e também, tão levemente, à flor da pele do ventre materno. Era uma dança pura, anterior à própria ideia do gesto. Uma dança belíssima. A mais bela das danças.

Publicado por José Mário Silva às 02:30 PM | Comentários (6)

JÁ NÃO HÁ REVOLUCIONÁRIOS MAOÍSTAS COMO ANTIGAMENTE

Um amigo meu acaba de regressar de um "passeio" pelas montanhas Annapurna, na zona oeste dos Himalaias nepaleses. Uma daquelas excursões agónicas a escarpas geladas e desprovidas de oxigénio com que os executivos ricos expiam o seu pecado maior: sugar o sangue ao operariado. E onde eles se sentem "mais perto da unidade do Cosmos" (pelo menos, dizem coisas assim quando o frio começa a congelar-lhes o cerebelo).
Como é sabido, o Nepal tem uma guerrilha maoísta bastante activa, que controla hoje cerca de 40% do território (aqui, podem ler uma colorida descrição da coisa). A monarquia reinante, mesmo depois do massacre que o tresloucado príncipe Dipendra levou a cabo no palácio real, vai resistindo. Ainda durante a última semana tiveram por lá lugar ferozes combates, com centenas de mortos e feridos. Foi com um emissário da Magarat National Liberation Front que o grupo do meu amigo teve este bizarro encontro:
"No penúltimo dia da viagem, perto de um lugarejo chamado Tatopani – 'Água Quente' – lá apareceu um camarada maoísta – equipado a rigor com uma fotogénica bandolete vermelha – a exigir 1.200 rupias (cerca de 15 Euros) de imposto revolucionário. Disse-nos que normalmente cobrava 1.500 mas que, como estávamos nas festividades de Diwali, havia 20% de desconto de ocasião. Nem mais. Havíamos sido aconselhados a pagar e não piar, pelo que saquei do dinheiro e entreguei-o sem delongas ao rapaz.
E o que é que então aconteceu? O camarada passa um recibo (!) da quantia recebida, que assina e carimba (em certos países um funcionário sem carimbo é como um jardim sem flores). Pede-me para assinar o canhoto que ficou com ele – não fosse alguém do comité local desconfiar que ele ficava com a massa (é o que se chama a ética do saco azul) – e diz-nos para conservar o recibo, não vá outro camarada interceptar-nos mais adiante. Tudo entre os maiores sorrisos e a mais civilizada cordialidade! Por fim, cumprimentou-nos ao modo nepalês – mãos juntas junto à cabeça – e desejou-nos felicidades revolucionárias.
Não sei se ele vai utilizar aquilo na sua declaração de rendimentos."

Recibo? Mas o que é isto, camaradas? Que se passa convosco? Já não se lembram dos gloriosos dias da Revolução Cultural, em que bastava saber ler para ganhar uma estada num campo de reeducação? O que é feito da pureza ideológica da vossa organização? Não tarda nada, ainda me dizem que têm contabilidade organizada e os impostos em dia...

Publicado por Luis Rainha às 12:18 PM | Comentários (3)

HÁ IMAGENS QUE NÃO NOS SAEM DA CABEÇA (NUNCA MAIS)


Cartoon de Steve Bell, «The Guardian»

Publicado por José Mário Silva às 12:16 PM | Comentários (5)

SÓ NA AMÉRICA

Depois da mais recente remodelação da edição electrónica do DN, deixaram de estar disponíveis as crónicas do Manhattan Connection, de Lúcia Guimarães e Caio Blinder. E é uma pena.
As crónicas de Blinder, moderadas sem serem moles, eram bastante originais. Valia a pena lê-las, pois eram bastante diferentes (na perspectiva e no estilo) de tudo o que se publica na imprensa portuguesa. Versavam sobre política americana ou internacional, vista de Nova Iorque, e por isso mesmo interessavam a qualquer leitor do DN, ao contrário das crónicas estritamente italianas e sobre política italiana (não que sejam mal escritas!) de Antonio Tabucchi. Blinder é, ainda, um judeu que não tem por isso nenhum tipo de complexo de perseguição, e que é capaz de pensar e tomar uma opinião independente sem que tal facto lhe tolha o raciocínio (um exemplo para Esther Mucznik).
Já as crónicas de Lúcia, escritas num estilo muito mais intimista, ou contam pequenas histórias, ou contêm informações e críticas sobre a ardente vida cultural nova-iorquina, que cedo ou tarde terão repercussão noutros países.
As crónicas eram complementadas por pequenos apontamentos que permitiam ao leitor ter uma perspectiva mais completa, recolhida na fonte, do que se passava na altura na Grande Maçã. Compreensivelmente é com pena que não as leio mais.
Em complemento o Público propõe-nos as crónicas do Pedro Ribeiro. Nem sempre são tão regulares na frequência, mas são muito bem escritas. Veja-se por exemplo o relato da reabertura do MoMA (aqui, aqui). Depois de ter escrito o Blogue das Presidenciais Americanas, espero que o Pedro continue com este tipo de crónicas com maior frequência. Pedro: és rapaz para isso!

Publicado por Filipe Moura às 09:13 AM | Comentários (1)

REGRESSO A CASA

Mas a notícia do fim de semana, pelo menos para mim, foi mesmo a reabertura do MoMA (assim, com o "o" minúsculo, como bem escreve o Público, que deu bastante destaque a este acontecimento). O MoMA faz 75 anos e regressa à sua localização na Rua 53, em Manhattan, deixando as instalações temporárias em Long Island City, em Queens (o MoMA-QNS).
Deve ser de ser português, mas tenho sempre tendência a olhar o passado em vez do futuro, e a sentir saudades. É evidente que sabia que o MoMA haveria de voltar a Manhattan. A nova sede, alargada, deve ser impressionante. Mas eu vou ter saudades do MoMA-QNS. "Obrigar" o público do MoMA, "mais habituado a passear em Paris do que em Queens", como escreveu a New Yorker, a deslocar-se a Long Island city, o bairro mais proletário de Queens, debaixo da Ponte Williamsborough, com o seu metro "elevado", cheio de garagens, bombas de gasolina, com uma arquitectura de mau gosto dominada pelo feio edifício do Citibank (que fica ali a matar - um edifício bonito não combinava), "obrigá-los" a comer nos restaurantes peruanos e orientais (muito melhores e mais baratos que em Midtown Manhattan), a apanharem a linha 7 do metro ou, se levarem o carro, a perderem-se e a terem de pedir indicações aos imigrantes, é mais um exemplo daquela mobilidade social, daqueles contrastes que são justamente o que eu mais gosto em Nova Iorque.
Há ainda outras razões. Adaptando o que escreveu o José Luís Peixoto, as últimas imagens contam sempre mais. E as últimas imagens que eu tive do MoMA foram em Queens; foi lá que eu me "despedi" do MoMA (até lá voltar um dia). Para além disso, contam também as exposições que por lá se viram. E eu vi muito boa arte no MoMA, mas o melhor que alguma vez lá vi foi a exposição Matisse-Picasso, em 2003. No MoMA-QNS. (Sobre as exposições temporárias do MoMA, para além da sua excelente colecção permanente, recomendo este editorial de José Manuel Fernandes.)
Finalmente, há que considerar (não sei se foi claro) que, desde que sejam urbanizados e de acessibilidade fácil (é o caso), eu adoro subúrbios. Adoro tudo o que descrevi. E não creio que se possa dizer que o "lugar" do MoMA tenha de ser em Manhattan (não há nada menos americano do que um "lugar" estático e imutável, seja no que for). Por tudo isto afirmo que o MoMA fazia muito mais falta em Long Island City do que em Midtown Manhattan. Espero que ao menos tenha deixado lá boas sementes.

Queens.jpg


Publicado por Filipe Moura às 09:07 AM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM (SE AINDA ESTIVERMOS A TEMPO)

Poema de Izet Sarajlic, poeta bósnio, nascido em 1930 e falecido em 2002. Traduzido por mim com toda a ajuda de Juan Vicente Piqueras, excelente poeta e tradutor espanhol de Izet Saraljic.


NECROLOGIA DO VERBO AMAR

Amo –
lançando-se contra moinhos de vento gritava dom Quixote.
Amo –
envenenado de céus gritava Otelo.
Amo –
recostado em Ossian soluçava Werther.
Amo –
tremendo nas carruagens de Jasvin repetia Vronski.
Amo –
separando-se de Grusenka sonhava Dimitri Karamazov.
Amo –
brandindo a espada recitava Cyrano.
Amo –
regressando do comício sussurrava Jacques Thibault.
Amo –
gritaria também o herói de um romance contemporâneo,
mas o autor não lho permite.

Não está na moda.
O amor já não é contemporâneo.

Publicado por José Luís Peixoto às 03:01 AM | Comentários (4)

novembro 21, 2004

CAPITAL DO SAMBA

Os meus dois clubes favoritos empataram ontem à noite. Embora o resultado não me entristeça de todo, preferia uma vitória do Sporting. Estive a ver o jogo até ao fim, para o Heitor pregar aquela partida já nos descontos. Vindo de quem vem, como disse, confesso que nem me incomoda muito. O pior foi que, para ficar a ver o jogo, cheguei à festa da Casa do Brasil já passava da meia noite, e tive de esperar ao frio e debaixo de chuviscos para entrar. Não sou só eu; pelos vistos, muitos estudantes gostam dos sons brasileiros para animar uma festa, conforme se via pela enorme fila para entrar e juntar-me ao resto do pessoal. Lá consegui e foi bom ouvir forrós e, pelo meio, sambas de Paulinho da Viola, Caetano Veloso e o Apesar de Você, de Chico Buarque (o momento alto da noite - a única música que foi cantada em coro)! Em Long Island, apesar da enorme diversidade cultural e de nacionalidades presente (ou talvez por isso), só num serão privado se conseguia uma maioria de lusófonos (ou em convívios de emigrantes, que eu dispensava). Para acontecer uma escolha musical como a de ontem, tinha de ser eu o DJ.

Publicado por Filipe Moura às 11:42 PM | Comentários (2)

MISTÉRIOS DO JORNALISMO CULTURAL

«Escrita entre 1911-1912 a “Sonata Concord” para piano é obra de peso na exigência musical, sendo que a questão se põe ao nível de um “virtuosismo” na linha de Beethoven, no que se refere a problematização da matéria musical sem concessão a limitações no quadro de uma tradição de técnica e gramática instrumental, mas sim o compromisso com a ética de criação (questão demasiado vasta e apenas enunciada). Está em causa afinal um “modernismo” (“avant ou après la lettre”) que surge não por investidura mas sim por compromisso com a liberdade e a fidelidade individual, e é certo que Beethoven se constitui como desafio estrutural.»
Este alucinado naco de prosa abre a crítica a um disco, no “Expresso” de ontem. Está lá escarrapachado, assim mesmo, sem mais vírgulas, acentos ou sentido. Poupo-vos à transcrição do resto; mas certo é que esta leitura me deixou com algumas interrogações urgentes:
1. Que quererá com isto dizer a senhora Vanda de Sá?
2. Não há ninguém naquele jornal com autoridade e tino para fazer a pergunta anterior?
3. Será que só pode angariar reputação nesta área do jornalismo quem escreve coisas incompreensíveis?
4. O que será “uma proeza, certeira onde se põem dúvidas”?
5. Que culpa de tudo isto tem o pobre Charles Ives?

Publicado por Luis Rainha às 10:58 PM | Comentários (5)

SEM CONTRADITÓRIO!

Como se vê a televisão portuguesa via internet?
Da SIC não se vê nada. O acesso está reservado aos clientes do SAPO. Se compreendo essa decisão quanto aos canais pagos, não a percebo relativamente ao canal de sinal aberto.
Na RTP não está a emissão em directo. É suposto estarem vídeos de uma série de programas, mas na prática só estão o Jornal da Tarde e o Telejornal, da RTP1. E mesmo estes programas nem sempre são actualizados com regularidade, ao fim de semana ou sempre que há algum evento que provoque a mudança do seu horário. Em fins de semana prolongados, por exemplo, facilmente se fica sem ver a informação da RTP durante dois dias. E os resumos dos jogos de futebol... É este o conceito de "serviço público" reinante em Portugal: não há funcionários disponíveis para colocar programas na rede no fim de semana, não se coloca! Quem se rala é o utente.
A RTP tem ainda o inconveniente de pôr todo o programa, tal como foi emitido em directo. Ora é bem sabido que a informação na televisão portuguesa está repleta de todo o tipo de lixo. Está certo que, como o vídeo está gravado, o espectador pode sempre passar à frente do que não lhe interessa. Mas esse não é um procedimento nada cómodo, tendo em conta que se tem de procurar e as ligações da internet, mesmo com banda larga, por vezes não serem as melhores.
Finalmente, há a TVI. Em lugar de pôr os telejornais completos, a TVI tomou uma opção muito melhor: coloca as notícias, uma a uma, em separado. Tornam-se assim mais fáceis de ver. Para começar, são muito mais fáceis de descarregar. E depois, cada espectador assim só vê as notícias que lhe interessam. Quem quer ver o lixo, vê o lixo. Quem quer ver as notícias importantes, vê as notícias importantes. Quem quiser os comentários de António Perez Metello e Miguel Sousa Tavares, vê os comentários. E tudo isto, curiosamente, no canal cuja informação contém mais lixo. Tal não se traduz para a internet.
Finalmente, a TVI tem a sua emissão em sinal aberto disponível para toda a gente na internet. Ainda ontem estive a ver em directo o Beira Mar-Sporting.
Nas emissões via internet da televisão portuguesa, quem faz verdadeiro serviço público é a TVI. Obrigado, José Eduardo Moniz e Pais do Amaral.

Publicado por Filipe Moura às 07:33 PM | Comentários (3)

O EIXO MOLE (2)

Provavelmente, o trepidante programa "O Eixo do Mal" justifica aqui os derradeiros caracteres derramados pela blogosfera. Palpita-me que até o canal Gigashopping – que, em simultâneo, estava a vender uma belíssima árvore de Natal cantante - deve ter atraído mais freguesia. E eu nem tinha programado ver de novo tal coisa; mas os cyborgs e zombies dos "Limites do Terror" deixaram-me sem sono. E com vontade de observar mais criaturas estranhas.
Começando pelo apresentador. O homem parecia a Maya com uma overdose de soporíferos: despertava de quando em vez de um transe profundo para dizer umas coisas supostamente assombrosas mas apenas inanes. Começou por me irritar e acabou a fazer dó; mesmo a apresentadora do Gigashopping parecia bastante mais vocacionada para a função. O Pedro Mexia acordou apenas no final do programa, talvez por ter receado que não lhe bastasse franzir o cenho ocasionalmente para justificar o cachet. Ainda teve tempo para apresentar a sua versão da "langue de bois": uma tal "língua de trapos" em má hora inventada. O Daniel Oliveira parecia simplesmente contente de estar por fim ali, na TV, e não descolava os olhos dos seus gémeos em contraplacado que assombravam o cenário. A CFA estava com a corda toda; e isto está muito longe de ser um elogio. Disparando graçolas e apartes a propósito de tudo e de nada, chutando convicções profundas para todo o lado. Se o Batatinha fosse convidado de emergência para substituir o Nuno Rogeiro, o resultado não seria muito diferente. Por fim, o Júdice lá ia tentando dizer umas coisas com sentido, nos intervalos da oxigenada verborreia. Não teve grande oportunidade.
Em suma: uma "Noite da Má Língua" em que os participantes caem na asneira de se levar demasiado a sério. Se trocarem de compère, o programa talvez tenha futuro: no Gigashopping, andam sempre à procura de novos talentos.

Publicado por Luis Rainha às 01:20 AM | Comentários (12)

novembro 20, 2004

QUANDO ANDAVAM (MESMO) MOUROS NA COSTA

Por vezes, até se aprendem coisas a ver TV. Há uns dias, percebi por fim a razão de ser da nossa expressão "anda mouro na costa". Isto depois de um documentário sobre um naufrágio já não sei bem aonde.
Para meu grande espanto, fiquei a saber que, entre os séculos XVI e XVIII, grandes extensões das costas europeias permaneceram indefesas face aos ataques de piratas. E não apenas de corsários europeus; falo dos piratas magrebinos que, nesse período, raptaram mais de um milhão de europeus. Homens, mulheres e crianças que foram assim reduzidos à condição de escravos, em cidades espalhadas pelo norte de África - de Tanger a Tripoli, mas sobretudo em Argel. O destino desta gente era sempre igual: ou a morte na viagem ou uma vida de sofrimento incalculável. Casos como o de uma irlandesa que se casou com um califa de Marraquexe são a ínfima fuga à regra da servidão e da morte.
A Calábria, a Andaluzia e a Sicília foram as mais castigadas. Mas aldeias costeiras inglesas, e mesmo mais a norte, nunca estiveram longe do perigo. O nosso Alentejo também sofreu estas agruras; e consta que, numa só noite de 1617, mais de 1.200 madeirenses foram levados para infiéis masmorras de onde nunca voltaram.
Os cálculos de historiadores britânicos consultados pela BBC apontam para um total de 1.250.000 europeus assim escravizados. É apenas um décimo dos africanos vendidos entre 1500 e 1800; mas, mesmo assim, é um número assombroso. E a prova que, nestes pecados mais sombrios e infames, há sempre mais culpados do que à primeira vista se calcula.

Publicado por Luis Rainha às 11:51 PM | Comentários (11)

O SANGUE MAIS MEDIÁTICO

Se a guerra civil na Costa do Marfim evoluir para um caos semelhante ao que varreu os seus vizinhos da Libéria e da Serra Leoa, não haverá uma onda de debates apaixonados na nossa comunicação social. O nome do país será repetido nos telejornais em notícias que serão sempre lidas no mesmo tom. Muita gente saberá que existem problemas graves na Costa do Marfim mas, nos debates, nas colunas de opinião, nos blogues, ninguém levantará o assunto para defender nenhum dos lados ou para se "envolver" naquilo que estiver em jogo nas ruas de Abidjan. Todos os comentadores políticos de médio porte terão aprendido duas ou três frases sobre o assunto. Depois de as dizerem, talvez baixem o olhar em silêncios onde se poderá adivinhar o pesar, ou a indignação, ou aquilo que cada um quiser adivinhar porque, na verdade, serão apenas silêncios, feitos de silêncio e a dizerem silêncio. Ninguém defenderá uma posição com os olhos a brilhar, ninguém tentará levantar a voz para sobrepor as suas ideias às de outro, ninguém tentará interromper ninguém. Se o assunto surgir, o máximo que iremos ouvir será duas ou três frases aprendidas por um que as aprendeu com outro que as aprendeu com outro. Os diferentes sítios onde cada um deles vai aprender as suas frases, bem como os retoques pessoais de linguagem, determinarão um número razoável de frases que, no entanto, todas juntas, dirão pouco. Com sorte, poderemos assistir também a descrições vagas da situação da África ao sul do Sahara ou a pequenos discursos sobre o colonialismo que, obviamente, serão acertado pelos moldes de sempre: liberal, conservador, esquerda, direita. Enquanto isso, nesse dia, como hoje, nas ruas e nas estradas de terra e pó da Costa do Marfim, haverá sangue. Sangue. Vermelho, limpo, humano.

Publicado por José Luís Peixoto às 03:03 PM | Comentários (16)

novembro 19, 2004

OS NOVOS RUMOS DA ADMINISTRAÇÃO BUSH


Cartoon de Pat Oliphant, "NY Times"

Publicado por Luis Rainha às 08:08 PM | Comentários (4)

PALESTINA: UM PAÍS "CONGELADO"

Se querem perceber o que se esconde atrás da anunciada retirada israelita da Faixa de Gaza, leiam isto: o principal assessor de Sharon, Dov Weissglas, revelou candidamente que "o significado do plano de disengagement é o congelamento do processo de paz". E, ainda nas suas palavras, "ao congelar esse processo, evita-se o estabelecimento de um estado palestiniano e previne-se a discussão dos refugiados, das fronteiras e de Jerusalém. Com efeito, todo o pacote chamado estado palestiniano, com tudo o que envolve, foi indefinidamente removido da nossa agenda". Assim, com este descaramento, preto-no-branco.
Se a tal adicionarmos o imparável crescimento dos colonatos na Margem Ocidental, vemos bem qual é o único alvo da retirada unilateral e não-negociada da Faixa de Gaza: deixar aquela zona entregue ao caos mais absoluto, para que depois Sharon possa surgir com a conclusão "natural": "estão a ver como são os palestinianos? Não conseguem manter a ordem ou uma sociedade estável. Como podemos negociar a criação de um verdadeiro estado com malta assim?"
Objectivo final: fazer da Palestina uma manta de retalhos sem ligação entre si, um território ingovernável, um país inviável.

Publicado por Luis Rainha às 06:16 PM | Comentários (4)

PARA QUE SERVE ESTE REFERENDO?

A pergunta já aí está. Nem sei se é mesmo ridícula ou se a sua complexidade é inevitável. Vital Moreira acha-a excelente e decreta que as gentes devem ir ler o Tratado. Pois. E deviam ler o Moby Dick, ou, no mínimo, o Livro do Eclesiastes. Mas nada disto acontece. Nada disto vai acontecer.
O que irá por certo acontecer é um referendo com uma participação ridícula e nada vinculativa; seguido do conhecido cântico "ai que a democracia está em perigo" e fornecendo amplo tempo de antena a uns quantos profetas de ocasião com terapias para reconciliar a populaça e a "vida cívica". Eu, por mim, não sairei de casa para responder a questões que não compreendo por inteiro. Sim, sigam com a "maioria qualificada" e até com os tais "termos constantes". Aliás, cada bocadito da nossa soberania que passa para as mãos de Bruxelas parece-me bem entregue, tendo em vista as figuras que por cá temos a cuidar dela...
Mas vamos acabar todos contentes: mesmo que ninguém queira ou saiba responder, o que importa é perguntar. Sobretudo se a pergunta for arquitectada de modo a só poder ter a resposta que dá jeito.

Publicado por Luis Rainha às 03:52 PM | Comentários (9)

O VERSO DOS VERSOS

Começou por ser apenas um projecto de imprensa, publicado no suplemento DNA do «Diário de Notícias». Partindo sempre de um poema escolhido a dedo, o José Miguel Soares fotografa e eu escrevo uma pequena ficção. «O que se pretende não é explicar o poema, muito menos interpretá-lo, antes criar algo que "nasça" do poema e ao mesmo tempo esteja para lá da sua matéria original. Nuns casos talvez sobreviva uma mesma atmosfera; noutros casos apenas um ou outro eco, um fio de luz, uma sombra (ou coisas ainda mais impalpáveis).»
Agora, o work in progress estende-se à blogosfera. Textos e imagens podem ser encontrados aqui (actualização semanal). Esperemos que gostem. Comentários e outras formas de feed-back são bem-vindos.

Publicado por José Mário Silva às 01:15 PM | Comentários (14)

E DEPOIS ADMIRAM-SE DAS CONSEQUÊNCIAS

Notícia do Público de hoje: «Afeganistão em Perigo de Ser Um "Narco-Estado"».
«Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão a treinar pequenas unidades paramilitares para poderem atacar laboratórios e deter suspeitos de tráfico de droga.»
Que maravilha. Ensinam-nos a lutar e depois têm de lutar contra eles. Que mania americana esta de armar tipos que já demonstraram ser muito pacíficos. Limpar o sebo a terroristas em acções que passam na CNN tudo bem, já estas coisas, contra tipos que não conseguem cultivar mais nada, bom, isso os outros que façam.
«Os EUA queriam lançar, através de meios aéreos, pesticidas que fizessem definhar as papoilas. O Governo de Cabul já rejeitou a ideia por medo de consequências para a saúde dos habitantes das áreas visadas.»
Claro, isto também já é hábito. Lançam-se uns pesticidas, uns agentes laranjas (e não é o Santana Lopes, mas poderia ser) e depois nega-se de forma veemente que tenham alguma coisa a ver com os surtos de cancro e afins que surgem nos países. Eles até foram tão bonzinhos e ajudaram tanto...
(João Sousa André)

Publicado por José Mário Silva às 01:11 PM | Comentários (0)

AMÉRICA, ELITES, ARROGÂNCIA...

Recebi esta semana um email significativo de como a América é um país dividido. Está escrito numa linguagem raivosa, própria de um americano urbano e educado confrontado com a reeleição de Bush. Para quem acusa os democratas de elitismo, não é uma linguagem muito elitista...
Embora eu não concorde com este caminho (de "diabolizar" quem não vota em nós, e sobretudo de pôr em causa a coesão nacional), registo-o como um desabafo interessante e em muitos aspectos informativo. Gostei em particular da parte em que se refere a "arrogância" como uma característica intrinsecamente americana. Muitas vezes, as acusações de "arrogância" não passam de manifestações de inveja e pequenez. Também neste caso creio ser disso que se trata.

A bit understated, but, nevertheless, quite to the point.
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Fuck the South. Fuck 'em. We should have let them go when they wanted to leave.
But no, we had to kill half a million people so they'd stay part of our special Union. Fighting for the right to keep slaves - yeah, those are states we want to keep.

And now what do we get? We're the fucking Arrogant Northeast Liberal Elite? How about this for arrogant: the South is the Real America? The Authentic America. Really?

Cause we fucking founded this country, assholes. Those Founding Fathers you keep going on and on about? All that bullshit about what you think they meant by the Second Amendment giving you the right to keep your assault weapons in the glove compartment because you didn't bother to read the first half of the fucking sentence? Who do you think those wig-wearing lacy-shirt sporting revolutionaries were? They were fucking blue-staters, dickhead. Boston? Philadelphia? New York? Hello? Think there might be a reason all the fucking monuments are up here in our backyard?

No, No. Get the fuck out. We're not letting you visit the Liberty Bell and fucking Plymouth Rock anymore until you get over your real American selves and start respecting those other nine amendments. Who do you think those fucking stripes on the flag are for? Nine are for fucking blue states. And it would be 10 if those Vermonters had gotten their fucking Subarus together and broken off from New York a little earlier. Get it? We started this shit, so don't get all uppity about how real you are you Johnny-come-lately "Oooooh I've been a state for almost a hundred years" dickheads. Fuck off.

Arrogant? You wanna talk about us Northeasterners being fucking arrogant? What's more American than arrogance? Hmmm? Maybe horsies? I don't think so. Arrogance is the fucking cornerstone of what it means to be American. And I wouldn't be so fucking arrogant if I wasn't paying for your fucking bridges, bitch.

All those Federal taxes you love to hate? It all comes from us and goes to you, so shut up and enjoy your fucking Tennessee Valley Authority electricity and your fancy highways that we paid for. And the next time Florida gets hit by a hurricane you can come crying to us if you want to, but you're the ones who built on a fucking swamp. "Let the Spanish keep it, it's a shithole," we said,
but you had to have your fucking orange juice.

The next dickwad who says, "It's your money, not the government's money" is gonna get their ass kicked. Nine of the ten states that get the most federal fucking dollars and pay the least... can you guess? Go on, guess. That's right, motherfucker, they're red states. And eight of the ten states that receive the least and pay the most? It's too easy, asshole, they're blue states. It's not your money, assholes, it's fucking our money. What was that Real American Value you were spouting a minute ago? Self reliance? Try this for self reliance: buy your own fucking stop signs, assholes.

Let's talk about those values for a fucking minute. You and your Southern values can bite my ass because the blue states got the values over you fucking Real Americans every day of the goddamn week. Which state do you think has the lowest divorce rate you marriage-hyping dickwads? Well? Can you guess? It's fucking Massachusetts, the fucking center of the gay marriage universe. Yes, that's right, the state you love to tie around the neck of anyone to the left of Strom Thurmond has the lowest divorce rate in the fucking nation. Think that's just some aberration? How about this: 9 of the 10 lowest divorce rates are fucking blue states, asshole, and most are in the Northeast, where our values suck so bad. And where are the highest divorce rates? Care to fucking guess? 10 of the top 10 are fucking red-ass we're-so-fucking-moral states. And while Nevada is the worst, the Bible Belt is doing its fucking part.

But two guys making out is going to fucking ruin marriage for you? Yeah? Seems like you're ruining it pretty well on your own, you little bastards. Oh, but that's ok because you go to church, right? I mean you do, right? Cause we fucking get to hear about it every goddamn year at election time. Yes, we're fascinated by how you get up every Sunday morning and sing, and then you're fucking towers of moral superiority. Yeah, that's a workable formula. Maybe us fucking Northerners don't talk about religion as much as you because we're not
so busy sinning, hmmm? Ever think of that, you self-righteous assholes? No, you're too busy erecting giant stone tablets of the Ten Commandments in buildings paid for by the fucking Northeast Liberal Elite. And who has the highest murder rates in the nation? It ain't us up here in the North, assholes.

Well this gravy train is fucking over. Take your liberal-bashing, federal-tax-leaching, confederate-flag-waving, holier-than-thou, hypocritical bullshit and shove it up your ass.

And no, you can't have your fucking convention in New York next time. Fuck off.

Publicado por Filipe Moura às 08:49 AM | Comentários (5)

UM STONEHENGE PARA O FUTURO

Imaginem um relógio feito para durar 10.000 anos. Um relógio que gasta um ano inteiro a ir do "tic" ao "tac"; em que o ponteiro avança apenas uma vez por século e o "cuco" só dá um recital canoro por milénio.
Assim é o "Relógio dos 10.000 Anos", um projecto da "Long Now Foundation". O seu objectivo é ajudar a fornecer à Humanidade um novo ponto de vista sobre o tempo; uma perspectiva em que o Futuro não continue a ser devorado pelo Agora. Concretizando: lembram-se quando o ano 2.000 se anunciava como uma era mágica e plenipotente, em que todos os sonhos iam por fim descer à Terra, trazendo viagens a Marte, o fim das guerras, desenlaces felizes para todos os nossos dramas?
Que temos nós hoje para substituir esse horizonte do desejo? Muito pouco. Nas palavras da Fundação, urge "dar um contraponto ao estado de espírito actual do ‘mais depressa/mais barato’ e promover um pensamento ‘mais lento/melhor’". Este é o devir que o Relógio apregoa.
Os cinco princípios-base do projecto são simples (mas alguma coisa poderá ser mesmo simples numa máquina concebida para durar mais do que as Pirâmides?): Longevidade; Facilidade de manutenção, mesmo sem tecnologia moderna; Transparência – o funcionamento do sistema deve ser determinável por observação externa; Capacidade de evolução futura; "Scalability" – poderão existir modelos de secretária igualmente precisos e fiáveis.
Este Stonehenge moderno deverá receber as primeiras multidões ansiosas no dia 31 de Dezembro de 02099 (nada de bug 10K por estes lados...), aguardando o momento em que qualquer coisa irá, pela primeira vez, mexer no mostrador do Relógio.
Isto se ele chegar mesmo a ser exposto ao público... Segundo Daniel Hillis, o projectista original, só há duas formas de algo sobreviver a tão longo prazo: ser feito de materiais sem qualquer valor, ou ser perdido. Aliás, ele recebeu de um mágico profissional um belo conselho: "não o construam mesmo. Se for encontrado, estraga-se o mito." O facto é que já foram executados vários modelos do relógio e o local onde o mesmo será instalado já foi adquirido: um enorme terreno montanhoso no Nevada.
Soube desta ideia megalómana mas fascinante há uns anos, através do diário de Brian Eno, "A Year With Swollen Appendices". Confesso que nunca imaginei que alguma vez voltasse a ouvir falar de tal devaneio. Enganei-me: hoje, até podemos contribuir para a obra, comprando um CD desse músico, precisamente com sonoridades que os sinos do Relógio poderão vir a ter. Assim, daqui a 5.000 anos, os vossos descendentes irão afirmar, impantes de orgulho: "tive um antepassado, num sítio que se chamava Portugal, que ajudou a construir isto".
Julgo ser este o tipo de pensamento que o Relógio quer inspirar.

Publicado por Luis Rainha às 12:08 AM | Comentários (4)

novembro 18, 2004

AS PRIMEIRAS PALAVRAS

Por algum motivo que permanece misterioso para mim, a história costuma valorizar as últimas palavras. No entanto, parafraseando o outro, não há segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão. Posto isto, aquilo que tenho para dizer é:
- Olá.
- Venho em paz.
- É muito bom estar aqui.
Parece pouco. Nos dias que correm, não se pode exigir mais.
O resto vem todo a seguir.

Publicado por José Luís Peixoto às 09:59 PM | Comentários (30)

ELE AGORA É UM DOS NOSSOS

Senhoras e senhores, é com enorme prazer e orgulho que vos apresentamos mais um reforço de peso que conseguimos aliciar para o nosso muito amado BdE. A partir de hoje, José Luís Peixoto (o próprio) junta-se à equipa.
Está dito, está feito.
E agora, se me permitem, vou ali celebrar a boa nova.

[Uns entram, outros saem. É a lei das compensações. Se por um lado ganhamos o Zé Luís, por outro lado "perdemos" a Marta Lança, que está neste momento a viver em Cabo Verde, envolvida em projectos culturais intensos e com pouca disposição para escrever (ao que se soma a dificuldade das ligações à internet). A seu pedido, deixará nos próximos tempos a equipa fixa deste blogue, não pondo de parte a colaboração ocasional enquanto itálica. Pela nossa parte, agradecemos-lhe tudo o que foi publicando aqui e deixamos, como não poderia deixar de ser, a porta aberta para o seu regresso.]

Publicado por José Mário Silva às 08:26 PM | Comentários (7)

A MERDA DAS ELITES (II)

Teve hoje lugar a inauguração da Biblioteca Presidencial de Bill Clinton (William J. Clinton Presidential Center), em Little Rock, no Arkansas. Eis parte da descrição de Pedro Ribeiro, no Público.

«A cerimónia reflecte bem o estilo Clinton, partes iguais Washington e Hollywood. Entre os convidados estarão o Presidente Bush, o seu pai e outras figuras políticas importantes, mas também estrelas do mundo do espectáculo, como o "rocker" Bono, dos U2.

Ao contrário de outras bibliotecas presidenciais, o monumento a Clinton tem um cariz mais populista que elitista. Um dos objectivos de Bill Clinton é criar uma atracção turística na cidade em que viveu durante quase duas décadas, no estado que governou antes de ser eleito para a Casa Branca. "Sinto que devia algo ao meu estado-natal", justificou Clinton esta semana em Little Rock.

Para os democratas, é uma recordação dos tempos em que o partido comandava a Casa Branca, de oito anos de prosperidade económica ímpar na história dos EUA, de um partido unificado por um político hábil e inovador.

A revista inglesa "Economist" comparou o estilo arquitectural da biblioteca Clinton a uma "roulotte' glorificada" - uma referência ao tipo de habitação preferida pelas pessoas mais pobres do Sul dos EUA, uma mistura da sofisticação associado ao mundo político com a estética "kitsch" do Sul rural. Bill Clinton não se importou: "Isso sou eu."»

Publicado por Filipe Moura às 08:25 PM | Comentários (3)

A INVOLUÇÃO DA ESPÉCIE


Cartoon de Schrank, "Sunday Business Post"

Publicado por Luis Rainha às 06:54 PM | Comentários (1)

VÊ LÁ SE FALAS É DO QUE EU QUERO, PÁ!

Depois da AACS, chega a vez de Miguel Cadilhe levar no toutiço por não venerar devidamente a tribo do calhau com gel.
A propósito de declarações do presidente da API sobre a falta que a regionalização nos está a fazer, veio o simulacro de ministro Arnault decretar que "ouço-o sempre com muito gosto, mas confesso que, como cidadão, preferia ouvi-lo falar dos investimentos que, como representante da API, trouxesse para Portugal".
Eu, por mim, preferia ouvir o ex-namorado da Sónia Brazão declarar que acabara de fugir para o Sri Lanka.

Publicado por Luis Rainha às 04:04 PM | Comentários (6)

O CLIENTE QUE SE SEGUE: O IRÃO

Karl Marx é que os topava bem: "a História repete-se sempre; como tragédia na primeira vez, como farsa na segunda". Quem conseguiu esquecer os lindos slides com que Colin Powell ilustrou a mentira mais sangrenta deste século? Incluindo os terríveis tubos de alumínio que deram a Condoleezza Rice visões de "nuvens em forma de cogumelo" e que já eram, na altura, consabidamente inofensivos?
Pois o bom Colin está de novo ao ataque. Agora, é o Irão que acalentará sinistros sonhos radioactivos, estando, de acordo com um grupo iraniano dissidente, a adaptar mísseis para o efeito. "I have seen intelligence which would corroborate what this dissident group is saying". Este senhor não aprendeu nada com as tristes figuras a que se prestou no passado recente, também então baseado em "informações" de "grupos dissidentes". Mas claro que nem em sonhos podemos deixar que Israel perca o seu monopólio nuclear na região, pois não?

Publicado por Luis Rainha às 02:36 PM | Comentários (2)

O AMOR QUE ESTA MALTA TEM AO TAL "CONTRADITÓRIO"...

Depois de recusar ouvir Marcelo Rebelo de Sousa na AR, com o argumento que tal caberia à AACS, a maioria que finge governar-nos reagiu da melhor forma às conclusões a que ela chegou. Guilherme Silva, esse fino pensador formado na escola do Alberto João, veio pedir pressa na substituição da AACS por outra coisa qualquer, uma vez que "está totalmente desacreditada". Já o seu homólogo centrista, Nuno Melo, prefere concluir que "parece mais do que confirmado" que tudo se pode resumir a um ínfimo diferendo laboral entre "uma entidade patronal e um comentador contratado". Pois. Estavam à espera que nada de conclusivo saísse do semi-comatoso regulador da Comunicação Social e o tiro saiu-lhes pela culatra.
Pelo menos, o bom Guilherme Silva continua a praticar afanosamente o contraditório, desta vez... consigo mesmo. Há uns dias, ele achava que a AACS era mesmo o órgão "competente" para estudar este caso.

Publicado por Luis Rainha às 11:58 AM | Comentários (0)

GRANDE SURPRESA!


Ao que parece, andam por aí marcas de tabaco com... ingredientes cancerígenos!
O que irão descobrir a seguir? Que o chumbo das balas pode causar saturnismo?

Publicado por Luis Rainha às 11:33 AM | Comentários (2)

HEIN?

Posso estar um bocado desinformado ou fora de prazo, mas alguém me explica porque é que no Orçamento de Estado o escalão entre 37.528 e 54.388 euros tem a mesma diminuição de IRS que os escalões mais baixos? Qual é a lógica tributária disto:

Descidas do IRS
Até 4.351 euros --> baixa 1.5%
4.351 e 6.581 euros --> baixa 1.0%
6.581 e 16.317 euros --> baixa 0.5%
16.317 e 37.528 euros --> 0%
37.528 e 54.388 euros --> baixa 1.5%
Mais de 54.388 euros --> 0%

Publicado por Jorge Palinhos às 10:39 AM | Comentários (4)

UM DIA QUERO SER ASSIM

Um inquérito entre os estudantes ingleses revela que estes já preferem ter posters de Ricky Gervais no quarto, no seu papel de chefe da série The Office, que posters de Che Guevara.
A série é excelente, mas não deixo de pensar que esta preferência é um tanto deprimente.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:34 AM | Comentários (3)

CONVOCATÓRIA

Convocam-se todos os camaradas para uma reunião intra-bloguística do BdE para tratar dos assuntos que constam da seguinte ordem de trabalhos.

1. Cantar a Internacional (Quem desafinar é fuzilado.)
2. Aprovar as actas da reunião anterior. (É rápido porque não existem e se existissem seriam automaticamente aprovadas visto que foram elaboradas pela Comissão da Verdade. Quem discordar da Comissão da Verdade é automaticamente fuzilado.)
3. Aprovar por unanimidade uma moção de louvor ao Barnabé pelo seu milhão de visitas (Quem não unanimizar é fuzilado.)
4. Votar uma moção de protesto por o Barnabé falar em "um milhão de portugueses". Se um milhão de portugueses visitasse o Barnabé com regularidade o Santana Lopes não era primeiro-ministro. (Aqui pode-se discordar, mas com jeitinho.)
5. Votar uma moção de censura ao Barnabé por ser tão bairrista que não contempla a possibilidade de uma parte dos seus leitores serem brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, luso-descendentes ou mesmo membros da comunidade portuguesa de Kuala Lumpur. (Também se pode discordar, mas quem discordar duas vezes seguidas é fuzilado.)
6. Aprovar por unanimidade o apoio à nomeação, digo, à proposta do camarada Jerónimo de Sousa para secretário-geral do PCP, louvando este partido por continuar a seguir as palavras do seu grande timoneiro, Álvaro Cunhal, de que a "realidade se enganou". (Quem votar contra é obrigado a assistir a todas as revistas à portuguesa em que entrar a camarada Odete, sem possibilidade de a pena ser comutada para fuzilamento.)
7. Outros assuntos. (Previamente aprovados pela Comissão da Verdade.)
8. Enterrar os eventuais mortos e informar as famílias que estes se sentiram indignos de continuar a apoiar a gloriosa revolução pelo que resolveram suicidar-se com rajadas de metralhadora.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:46 AM | Comentários (4)

novembro 17, 2004

LISTA DE PESSOAS QUE ACHAM QUE O GOVERNO NÃO TEM NADA A VER COM A DEMISSÃO DE JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS













P.S. Eu sei, eu sei, isto está a ficar repetitivo, mas convenhamos que é diferente do normal! Estejam descansados (ou não) que os meus desertos criativos são breves.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:23 PM | Comentários (7)

NA CASA BRANCA, A ALA DIREITA NÃO PÁRA DE CRESCER


Cartoon de M. e. Cohen

Quem é que disse que o segundo mandato de George W. Bush ia ser mais macio, mais conciliador, mais moderado?

Publicado por José Mário Silva às 12:20 PM | Comentários (0)

DE PEQUENINO...

Alunos ingleses passam a ter "dias de empreendedorismo" para assimilarem cultura capitalista. Reaças portugueses contentam-se em continuar a exigir que as crianças decorem os Lusíadas e sejam testadas a torto e a direito para só haver um caloiro por ano nas universidades.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:46 AM | Comentários (1)

O SOUSA TAVARES TEM RAZÃO

Conservative Christian groups, including the American Family Association, are also rallying against the new film Kinsey, released this weekend to critical acclaim, and starring Liam Neeson and Laura Linney.
Kinsey is a gripping and “brutally honest, uncompromising and non-judgemental” look at the controversial university researcher who revolutionised cultural attitudes towards sex in the 1940s and 1950s, said a CNN reviewer.
Robert Knight, of the curiously named Concerned Women for America, told Associated Press recently that Kinsey was akin to the notorious Nazi pseudo- scientist Dr Josef Mengele.
(...)

The American Family Association also calls for a general boycott of Disney, because the company has encouraged gays to visit its theme parks, and of food giant Procter & Gamble for hiring gays.

Tom Coburn, a senator from Oklahoma (...) he attacked NBC in 1997 for encouraging “irresponsible sexual behaviour” and for taking “network TV to an all-time low with full-frontal nudity, violence and profanity”. His anger was prompted by the prime-time airing of another Spielberg film, Schindler’s List, about the Holocaust.
Pois é.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:31 AM | Comentários (0)

A SENHORA QUE SE SEGUE NA DIPLOMACIA AMERICANA

Sai Colin, entra Condi. A falcoaria de Washington rejubila. Bush mostra-se embevecido com a fidelíssima donzela que nunca saiu da sua sombra. E o resto do mundo, mais uma vez, teme o pior.

Publicado por José Mário Silva às 11:28 AM | Comentários (4)

PETA DEFENDE AMIZADE E COMPREENSÃO PARA COM OS BACALHAUS

Fish are so misunderstood because they're so far removed from our daily lives," said Karin Robertson, 24, the Empathy Project manager and daughter of an Indiana fisheries biologist. "They're such interesting, fascinating individuals, yet they're so incredibly abused."

Publicado por Jorge Palinhos às 11:26 AM | Comentários (0)

ALLAH IST GROSSS!

Alemanha pondera obrigar o uso do alemão nas mesquitas como forma de integração.
O que vale é que a Igreja Católica foi previdente.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:13 AM | Comentários (2)

UM POST NÃO EM BRANCO

Obrigado pelos comentários. A experiência em não-conteúdo continua quotidianamente aqui. Por estes lados retoma-se o serviço normal.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:05 AM | Comentários (0)

novembro 16, 2004

A POLÍCIA JUDICIÁRIA SOLICITA-NOS QUE DIVULGUEMOS O SEGUINTE APELO: DESAPARECEU DO SEU POST UM TEXTO DE DOZE LINHAS COM DEFICIÊNCIAS CONTEUDÍSTICAS. NA ALTURA DO DESAPARECIMENTO O TEXTO USAVA VÍRGULAS, PONTOS E UM TRAVESSÃO, ALÉM DE UMA GRALHA ACIDENTAL.













Publicado por Jorge Palinhos às 08:15 PM | Comentários (13)

SE OLHAR DEZ MINUTOS PARA ESTE POST VAI COMEÇAR A FORMAR-SE UMA IMAGEM NA SUA CABEÇA
















Publicado por Jorge Palinhos às 08:12 PM | Comentários (2)

PROCURA-SE TEXTO PARA ESTE POST. CONTACTAR GERÊNCIA













Publicado por Jorge Palinhos às 08:07 PM | Comentários (0)

ESTE POST É PATROCINADO PELA OMO















Publicado por Jorge Palinhos às 08:04 PM | Comentários (1)

OFERTA DO BdE: O POST EM BRANCO




















Publicado por Jorge Palinhos às 07:57 PM | Comentários (1)

OUTRAS FORMAS DE ENGANAR A PRODUTIVIDADE













[Este espaço foi intencionalmente deixado em branco.]










Publicado por Jorge Palinhos às 07:51 PM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Dada a boa nova, não posso deixar os leitores à míngua. Aqui vai então um dos poemas de Ruy Belo, originalmente publicado no volume «Homem de Palavra[s]» e recolhido mais tarde na antologia pessoal «País Possível»:


O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

[Hoje o vento valeria quarenta cêntimos, se os vidros grandes ainda custassem o que custavam em 1970]

Publicado por José Mário Silva às 05:43 PM | Comentários (1)

UMA BOA NOTÍCIA

A Assírio & Alvim acaba de lançar, em três volumes, a poesia integral de Ruy Belo («Todos os Poemas»). Com os textos definitivamente fixados por Gastão Cruz e Teresa Belo, esta é a muito esperada edição de referência (com ortografia actualizada) que vem prestar justiça a um dos poetas maiores do século XX português.
Haja olhos onde caiba a beleza rebelde destes versos.

Publicado por José Mário Silva às 05:12 PM | Comentários (2)

NÃO HÁ MESMO ALMOÇOS GRÁTIS

O meu almoço de ontem – um belo arroz de peixe devorado num pequeno restaurante semi-tascoso sobre o mar – foi-me oferecido por um bom cliente, para celebrar mais um sucesso conjunto. Estava eu todo contente – com a prosperidade do cliente, com o almoço, com o dia em geral – quando chega a hora de pagar a "conta": uma tremenda constipação/gripe, por certo devida às horas que ali passei ao sol e ao vento. Entre as dores de garganta, a má-disposição geral e a moleza causada pelo Actifed, a desgraça é total. Assim sendo, além de descrente na eventual bondade do universo, declaro-me de baixa bloguística. Alguém que se encarregue dos próximos posts, por favor.

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (6)

GANHAR MENTES, ESTRAÇALHANDO CORAÇÕES

Há pouco, fui surpreendido por um noticiário que nos garantia que "o exército dos EUA está a investigar a morte de um insurrecto ferido e desarmado, em Falluja". Achei estranho que, no meio de tanta mortandade, fosse apenas um. Mas a reacção imediata foi de agrado: "olha, afinal até pode ser que já não andem por lá em roda livre, a matar tudo o que lhes aparece pela frente" (não esqueçamos o estudo do New England Journal of Medicine que nos revelou como 14% dos soldados do exército e 28% dos marines ali colocados assumem ter sido responsáveis pela morte de não-combatentes). Este alívio durou pouco; logo soube que tal inquérito foi desencadeado apenas porque o crime foi filmado por uma câmara da NBC.
As imagens, duríssimas, mostram-nos um ferido já idoso, que se tenta amparar contra a parede de uma mesquita. Um dos marines berra que ele está "a fazer-se de morto". De seguinda, dispara à queima-roupa sobre o coração do homem. Comentário risonho de um camarada de armas: "Well, he's dead now."
Ainda por cima, o ferido já estaria ali há dias, esvaindo-se em sangue. Agora, lá segue a investigação, para descobrir se ele foi mesmo executado ilegalmente e como é que os feridos inimigos ficam ali às moscas, sem socorro nem cuidados médicos. Mas, com o respeito que minudências como a Convenção de Genebra inspiram aos falcões americanos, a coisa não promete.
Na mesma NBC, pode ler-se um interessante artigo de Fareed Zakaria, com o revelador título: "Hearts, Minds and Fallujah". Expressando receios que, por acaso, até já aqui tínhamos postado.

Publicado por Luis Rainha às 01:14 PM | Comentários (5)

UMA PEQUENA CONSPIRAÇÃO CRÍPTICA


Já deixei passar em claro o aniversário "redondo" da publicação do manifesto. Esqueci-me que a coisa saiu em Outubro, a reboque de um famoso peixe solúvel. Mas ainda vamos bem a tempo de festejar condignamente a data do início oficial do movimento, a 1 de Dezembro. A todos com informações pertinentes sobre o assunto, o meu pedido de ajuda. Malta – estás a ler isto, Zé Mário? – que conheça bem a obra dos poetas que deram letras a esta Revolução fica assim convocada para dar uma ajuda nos festejos. Eu posso encarregar-me de relembrar aqui os tipos dos bonecos...

Publicado por Luis Rainha às 01:08 PM | Comentários (0)

A VERDADEIRA QUESTÃO

Que Santana Lopes iria sobreviver ao Congresso já era esperado. A verdadeira questão está em saber se o PSD vai sobreviver a Santana Lopes. (Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 01:01 PM | Comentários (0)

UMA "SIMPLES DISCORDÂNCIA"

Imaginem-se no lugar do José Rodrigues dos Santos. Vão a caminhar pelos corredores da RTP quando dão por um alvoroço inopinado. Aproximam-se e vêem um grupo de jornalistas bem jovens, todos com ar de feliz comemoração. "Que se passa aqui?", perguntam vocês a uma das vossas subordinadas. Resposta: "então não sabes? A Rosa Veloso vai para Madrid." "Para Madrid? Fazer o quê?" "Então... vai ser a correspondente da RTP! Mas não sabias mesmo?"
Aqui chegados, o que fariam? Iriam por certo arrumar os vossos tarecos e sair dali o mais depressa possível. Isto, claro está, depois de bater em alguém com responsabilidades neste enxovalho.
Para o Conselho de Administração, tudo foi "fundamentado numa simples discordância com a nomeação de um correspondente da empresa no estrangeiro". Eu diria que a "simples discordância" terá sido mais no domínio do que é o mínimo de consideração que se deve a um quadro de chefia, seja de que empresa for.
Mas isto não acontece assim sem mais nem menos. O ministro do costume já avisara os jornalistas, "por doutorados que sejam": ponham-se a pau, que temos muitos Luíses Delgados na bicha, à espera dos vossos lugares.

Publicado por Luis Rainha às 12:04 PM | Comentários (2)

novembro 15, 2004

ACIDENTES QUE A VERDADE SOFRE

Reparei agora que, ao resumir o ensaio "Partículas Elementares", do nosso estimado Luciano, acabei por não fazer grande esforço para contrariar os argumentos ali presentes. Em grande parte porque o que não existe não pode ser desmontado; e também porque a falta de solidez de tais "ideias" era evidente. Afirmações genéricas, sem apoio de números ou fontes fiáveis valem o que valem: muito pouco.
Mas como não quero que fiquem com a suspeita de que andam por ali grandes e inegáveis "factos", e também para vosso divertimento, repesco agora alguns dos pontos em que a verdade sofre alguns maus-tratos às mãos do acidental escriba:
"À sombra do multiculturalismo, discute-se seriamente hoje em dia em França a possibilidade de ser introduzida no ordenamento jurídico nacional a lapidação para certos crimes, embora restrita à comunidade muçulmana."
Naturalmente, trata-se de uma alucinação. Que passe pela cabeça dos mesmos legisladores que proibiram o uso de véus nas escolas autorizar a comunidade islâmica a matar por apedrejamento, nem ao "Inimigo Público" lembraria. A palavra "multiculturalismo" lança no coração do Luciano um tal pânico que o leva a fugir para longe do mundo real...
Relembremos que, aquando do caso Amina Lawal, a nigeriana condenada à morte pela "justiça" do seu país, Jean-Pierre Raffarin deixou claras as suas opiniões sobre a lapidação: "Vous pouvez compter sur l'action de la France pour les droits de l'Homme, pour la place de la femme dans notre société et pour notre conscience universelle". No ano passado, num debate com Tariq Ramadan, o super-ministro Nicolas Sarkozy afirmou que a lapidação é "uma monstruosidade que apenas pode ser praticada por desiquilibrados." Quando o seu interlocutor retorquiu que tinha proposto uma moratória sobre a lapidação de adúlteras, Sarkozy riu-se: "Ah bon ? donc il y a des gens qui vont se réunir pour réfléchir si c'est bien de lapider des femmes?" De onde terá vindo, em nome de Alá, a noção de que a França pondera legalizar estas execuções bárbaras?
"Em França 10% da população são hoje muçulmanos".
Está quase certo. Com efeito, à míngua de estatísticas oficiais, há quem lhes atribua entre 5 e 10%, mas este relatório fica-se por uns medianos 7% a 8%.
"Quadro semelhante ocorre na Alemanha e na Holanda."
Na Alemanha, os muçulmanos são apenas 3.7% da população. Na Holanda, 4,4%. "Semelhante" a quê, poder-se-ia perguntar...

"Já hoje em Berlim são mais os muçulmanos do que os católicos."
Apocalíptico, não parece? Falta é introduzir dois pequenos pormenores:
A- É, pura e simplesmente, mentira que os muçulmanos tenham ultrapassado os católicos. Os dados do Presse-und Informationsamt des Landes Berlin indicam que os muçulmanos representam 6% dos berlinenses e os católicos 9,3%.
B- Os católicos são relativamente poucos em Berlim, face aos protestantes, que contam com 24% de fiéis. Mas dá um ar mais assustador pegar logo na "nossa" variedade do Cristianismo, e sem revelar o seu carácter minoritário...
"Os europeus recusam-se a entrar em certas profissões desqualificadas, a isso preferindo o desemprego e o subsídio que ele garante".
A Europa dos 15 - a que existia quando o artigo em apreço foi escrito – conta com um desemprego de 8%. Mesmo admitindo que metade representa desemprego de longa duração, ficamos apenas com 4% de europeus que podem conformar-se ao perfil de preguiçosos crónicos traçado pelo Luciano. Um pouco curto para tão vastas e penetrantes generalizações, há que convir...

Resumindo e concluindo: que tristeza.

Publicado por Luis Rainha às 08:45 PM | Comentários (18)

ARAFAT MORREU, DESCULPEM O INCÓMODO

O que mais me impressiona, nesta história, nem é o despedimento em si, para vos ser franco. O regulamento era claro, e ao tomar a decisão que tomou sem consultar os seus superiores o produtor deveria saber aquilo em que se metia. Por outro lado, na "conjuntura", dado que era uma morte esperada, o anúncio em nota de rodapé parece-me suficiente. E há que ver que, ao contrário de Portugal, nos EUA a pontualidade nas emissões de televisão (e em tudo o resto) é levada a sério, por uma questão de respeito pelo espectador. O que mais me impressiona são dois aspectos.
Primeiro, a suspeita de que tal procedimento nunca se verificaria com um dirigente israelita na mesma situação. Mesmo que fosse uma morte anunciada. Provavelmente não haveria despedimento, e abrir-se-ia uma excepção ao regulamento interno. Poderão dizer-me: "lá estás tu com as tuas cabalas!" Não é cabala nenhuma. É uma suspeita minha e ninguém ma tira.
O segundo aspecto, e que ainda me chocou mais, foi a CBS, depois de tudo resolvido, o facto consumado e despedido o produtor, ainda ter vindo pedir desculpa aos seus espectadores. A CBS pede desculpa por ter anunciado a morte de um homem. Serei só eu a ver aqui uma inqualificável falta de respeito? Uma humilhação a todo um povo e ao seu dirigente? Serei só eu a suspeitar, uma vez mais, que tal nunca se passaria se o defunto fosse um dirigente israelita?
E faço notar que isto passou-se na CBS, uma emissora nacional, captada por antena e não por cabo, que entra gratuitamente em todos os lares americanos com televisão. Desta vez não foi a Fox News.

Publicado por Filipe Moura às 08:00 PM | Comentários (3)

QUEREM PASSAR AO ATTAC?

De 19 a 21 de Novembro, decorre em Lisboa o 2º Curso d'ATTAC. Só os títulos das conferências bastariam para dar um ataque de azia ao Vasco Rato: "A Esquerda face ao Anti-Americanismo" e "Controlo de Capitais e Taxa Tobin" são apenas exemplos. De Guilherme de Oliveira Martins a Viriato Soromenho-Marques, não faltarão perspectivas diversas sobre tudo e mais alguma coisa. Ainda por cima há debates, passa o documentário “The Revolution will not be televised” e a coisa cuminará numa grandiosa jantarada. Tudo isto por 5 ou 10 euricos, para sócios ou "civis". Querem mais informações? Vão ao Attac!

Publicado por Luis Rainha às 06:50 PM | Comentários (0)

FALLUJAH É NOME DE VESPEIRO


Cartoon de Mike Lane, «The Baltimore Sun»

Publicado por José Mário Silva às 06:34 PM | Comentários (0)

DIA DAS DEMISSÕES

Depois de Colin Powell, José Rodrigues dos Santos.

Publicado por José Mário Silva às 06:28 PM | Comentários (3)

CHOQUE LATERAL

Mais do que os patrões que dizem, sem se engasgar, «não lhe renovo o contrato porque vai ser mãe e elas são sempre mais sacrificadas» ou «não gosto de trabalhar com grávidas», impressionam-me as pessoas (às vezes tão próximas) que encolhem os ombros e comentam assim a minha desilusão: «é natural».

Publicado por Margarida Ferra às 06:18 PM | Comentários (10)

novembro 14, 2004

CONVICÇÕES

É esta a principal mensagem dos Diários de Motocicleta: convicção naquilo que se defende. E para isso, nada como o contacto com a realidade. O principal problema de uma grande parte da esquerda hoje é este: ou acredita e defende ideias que não têm a ver com a realidade, ou não acredita mais e tornou-se cínica. Em ambos os casos, sugiro uns passeios de motocicleta pelo país fora.

Publicado por Filipe Moura às 11:12 PM | Comentários (10)

A CANÇONETA DO COSTUME, AGORA EM LP (MAS CABIA NUM SINGLE)

O Acidental acaba de inaugurar um espaço para delírios mais alongados, de seu nome "Acidental LP" (claro que nem o nome nem o conceito têm a ver com o "Barnabé XL"). Uma das primeiras peças a desaguar nesta linda galeria do longo pensamento acidental tem por poética denominação "Partículas Elementares"; assim um título intelectual, a dar para o científico, coisa com ar de obra do Eduardo Prado Coelho.
O link ficou aí na linha de cima. Mas posso poupar-vos o trabalho e a maçada de lerem a prosa do Luciano Amaral, esparramada em 8.455 caracteres. É que a coisa é bem fácil de resumir. Vamos lá então, mesmo desrespeitando o aviso solene do autor, que, esmagado pela seriedade do rebento intelectual, decreta: "é para pensar e não para disparatar, como é tão frequente na blogosfera e fora dela". O tema é a imigração. E quais são os problemas que o bom do Luciano logo identifica aqui?
1- anda a esvoaçar sobre este tema uma "perspectiva genericamente beata", que não se pode atacar, sob pena de receber "alcunhas desagradáveis". A culpa, digo eu, será desses marotos da esquerda.
2- a imigração pode empobrecer as nações que a recebem. Vejam bem o caso dos "muitos países europeus" onde entram à socapa "hábitos de discriminação sexual" que nem na "Idade Média" se viam por este continente (acho que não é do machismo latino que ele fala).
3- a presente "vaga de imigração" para a Europa é "anómala", pois as nossas economias andam "a passo de caracol" e antes só se emigrava para países em "acelerado crescimento económico". Claro está, por exemplo, que os nossos emigrantes da década de 60 consultavam atentamente o "Financial Times", antes de escolherem país para onde fugir da miséria que por cá tinham como destino.
4- estes imigrantes que nem lêem a imprensa económica vêm, não a fugir da pobreza ou de guerras, mas sim porque nós precisamos de "mão-de-obra para alimentar o famoso Estado Social europeu". Pois não é que os malandros dos europeus não se reproduzem devidamente?
5- esta estranha preguiça reprodutiva surge porque gostamos de vaguear por um "mundo tardo-adolescente da realização pessoal", imagine-se. E, claro, porque não deixamos, como bons sibaritas, de cair nas diabólicas tentações do "lazer, do divertimento perpétuo e da sexualidade inconsequente". Nós europeus, temos destas bizarrias: queremos ter "carreiras profissionais ambiciosas" e deixamos tarefas menos nobres para os estrangeiros.
6- o que causou esta pouca-vergonha? Adivinharam: a "libertação sexual" dos "anos 60", a busca apressada do "prazer do sexo" e a rainha de todas as anomalias morais: a "contracepção generalizada". O aborto, é sabido, vem logo atrás, à desfilada, "cada vez mais aceite e aceitável". Umas tais "identidades homossexuais" também não ajudam nada à reprodução; e, por estranho que vos possa parecer, nenhum "opróbrio (antes pelo contrário)" as castiga devidamente. A maldita "extravagância" é que reina; ainda por cima, de forma "brutal". (Isto não vos soa um pouco a discurso do Archie Bunker?)
7- Houellebecque, de onde veio o título deste "ensaio LP", descreveu bem a maleita: não há "repressão e dever", pais e mães andam muito "ausentes", distraídos do essencial pelos "seus sonhos pessoais". Os malandros dos egoístas tratam assim de ignorar os filhos, pois desligaram duas coisas moralmente inseparáveis: "amor e sexo".

8- a "opressão feminina" instala-se enquanto andamos distraídos a coisar sem reproduzir e ignorando os nossos escassos rebentos. É só passear um pouco por Londres e logo vemos mulheres de burca, excisadas, sujeitas talvez até a maridos polígamos! (Não sabia que havia tantos mórmones por lá.) E olhem que há uma "larga fracção" dos muçulmanos com estes comportamentos... (Revelador é que toda a converseta parece girar em torno dos muçulmanos, ignorando os países de Leste.)
9- bem pior é que essa malta procria como coelhos.
10- ainda falta a maior das perversões do "welfare state": em vez de trabalhar, os europeus preferem usufruir de subsídios de desemprego. Para garantir a perpetuação do cómodo esquema, importam os tais imigrantes, que têm de "condições de trabalho e remunerações intoleráveis", sem "direitos laborais, cívicos e políticos" A estes cabe o papel de pagar os subsídios e reformas dos madraços europeus. Claro que não há, por essa Europa fora, autoridades que protejam os imigrantes; deve ser tudo um "imenso Portugal"...
11- a descendência destes escravos é que não está pelos ajustes: também se armam em pedintes, sempre à mesa do tal "welfare state". E lá temos de importar mais uma leva de carne fresca, para alombar com o trabalho que estas cambadas todas recusam!
12- solução? Fácil: "impor a ‘assimilação’: levar os imigrantes a aprenderem a língua nacional e (quando existam) reprimir hábitos seus que sejam chocantes."
13- que acontecerá em breve à Europa, se não for seguida esta receita salvífica de mestre Luciano? Algo de terrível: "europeus brancos subsidiados na reforma e no desemprego, alimentados por europeus de cor ou imigrantes afundados em deploráveis condições de vida."

Resumindo para o formato"single", mais adaptado a tais amostras de pensamento: continuamos a chafurdar, mais a nossa velha e decadente Europa, num esgoto de permissividade, preguiça e contracepção. Os mouros entram e são logo tratados como escravos. Os seus filhos revoltam-se e também desatam a praticar a preguiça subsidiada. Mas só temos de pô-los a falar língua de gente e tratar de lhes ensinar maneiras, que a coisa vai. Senão, temos os infelizes dos fulanos "de cor" – os verdadeiros receptáculos dos cuidados do Luciano – condenados a trabalhar para nós.
De salientar, neste pequeno manual da xenofobia neoliberal e paternalista explicada às crianças, a tocante preocupação quanto aos direitos das mulheres. Não das nossas, note-se, mas sim das deles. É coisa já antiga, fiquem sabendo: um dos grandes argumentos europeus para as invasões do Egipto, no sec. XIX, foi precisamente a salvaguarda dos direitos das pobres nativas. Com os resultados que se conhecem...
Só mais uma questão: como é que também existe imigração nos pujantes e viris EUA? E como é que esses cobardes yankees se atrevem a capitular face às hordas mexicanas, adoptando cada vez mais o Castelhano em vez de seguirem o musculado ditame do nosso Luciano LP? Até o Santo Bush tinha uma versão do seu site de campanha nessa língua de trapos! Mas as almas mais alarmadas por estas invasões bárbaras podem sossegar: também por lá há uns rapazes com as ideias no sítio.

Esmagado por tanta originalidade, fico mesmo sem fazer ideia porque é que a "determinada publicação" que encomendou esta prosa acabou por não a publicar..

Publicado por Luis Rainha às 08:08 PM | Comentários (6)

AGRADECIMENTO PÚBLICO

Eu, o abaixo citado Francisco Rainha, venho por este meio agradecer a todos que me endereçaram sentidos votos de parabéns pelo meu primeiro aniversário. Tenho pena que não tenham vindo, para verem a minha última habilidade: puxar cabelos. Quanto ao Zé Mário e à Margarida, é pena que a Alice ainda não cá esteja; sabem que nunca é cedo para combinar um casamento...
A todos, nas palavras de alguém que ainda não sei quem é, "um grande bem-haja". O meu pai lamenta não poder vir aqui, mas está com as mãos cheias de louça suja.

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Publicado por Luis Rainha às 03:32 PM | Comentários (11)

novembro 13, 2004

A SITUAÇÃO NO DN

No fim de semana passado, um depoimento que faltava, por parte de quem bem conhece a casa: Óscar Mascarenhas. Numa altura em que só se fala da administração do jornal e de Luís Delgado, esquece-se o papel do anterior director. Esquece-se que a governamentalização do DN já existia, e bem antes de Delgado como administrador (como nunca existira nos anos mais recentes, pelo menos desde que eu me lembro). Começou com Mário Bettencourt Resendes e António Ribeiro Ferreira, há-que dizê-lo (o cabeçalho laranja, os slogans de propaganda de apoio ao governo...) e continuou, de uma forma mais discreta mas sempre presente, com Fernando Lima. Tudo sob o aval de Henrique Granadeiro; não percebo, francamente, quem tanto o lamenta agora.
Também não percebo o recente violento ataque de Mário Bettencourt Resendes a Fernando Lima, referindo-se a uma óbvia incompetência. Sendo assim por que o apoiou antes, mesmo contra o parecer do conselho de redacção?
Cada vez é mais óbvio que o a actual situação do DN é um reflexo da luta pelo poder entre a direita portuguesa, e as recentes convulsões directivas reproduzem as guerras entre cavaquistas e santanistas. No meio de tudo isto, uma palavra de apreço para os jornalistas, que têm conseguido reportar esta crise nas páginas do jornal de forma transparente (como o prova a transcrição das palavras de Óscar Mascarenhas).

Publicado por Filipe Moura às 05:10 PM | Comentários (7)

ELEIÇÕES AMERICANAS - OS POBRES VOTAM PELOS RICOS

...e vice-versa. Não é disparate nenhum; a ler no The Onion.

Publicado por Filipe Moura às 01:10 PM | Comentários (6)

12 MESES, DOZE POSTS

Hoje, o meu filho mais novo faz um ano. Não sei bem porquê, cedo comecei a trazê-lo, ainda ao colo, para aqui. Com histórias de choros, chichis, tristezas, serenidades, pequenos espantos e angústias breves. Muitas noites mal dormidas depois, quando a ideia da paternidade tardia já não me aterrorizava, até me atrevi a dar palpites a um amigo e ousei explorar os continentes selvagens e perigosos do amor maternal.
Talvez devesse ter-me(nos) resguardado um pouco mais. Mas não me arrependo. Agora, sei que, quando voltar a ler estes posts, daqui a um mês ou daqui a 15 anos, vou recordar-me melhor. Não do Francisco enquanto se faz gente, com este vagar impaciente da vida a agarrar-se ao mundo; mas sim do amor que eu em cada momento sentia por ele, e que será já, como é agora, muito diferente do que foi antes. Parabéns, besnico.

Publicado por Luis Rainha às 12:15 AM | Comentários (11)

novembro 12, 2004

SERÁ DESTA QUE O APANHAM?

Acaba de ser pedida, no tribunal que julga o caso SME, uma pena de 8 anos de cadeia para Berlusconi. Clama a acusação: "mentiu ao povo italiano, não merece atenuantes". Para a defesa, trata-se, claro está, de mais uma "perseguição política".

Publicado por Luis Rainha às 07:19 PM | Comentários (1)

A FÚRIA E OS FANTASMAS

Enquanto a ofensiva de Fallujah avança, eclodem combates em Mosul, Baquba e Bagdade. Será mesmo possível ganhar uma guerra assim, quando se matam 500 inimigos num local e logo surgem mais uns milhares por todo o lado? É como tentar vedar um dique com mãos nuas; as rachas não páram de se multiplicar... e os dedos são apenas 10.

Publicado por Luis Rainha às 06:59 PM | Comentários (5)

A MORTE E O BEBÉ

Há uns dias, para abrilhantar festa de Halloween que montei lá em casa, tratei de pendurar numa porta um inocente esqueleto em plástico, com olhos a pilhas e um ar bem mais patusco do que assustador. E não é que o meu filho bebé desatava em prantos irreprimíveis a cada vez que vislumbrava o adereço?
Que insondável ditame pode levar um nico de gente que ainda nem abriu os olhos para as velas do primeiro aniversário a reagir assim ao mais esterotipado símbolo da Morte? Como conseguiu ele, habituado como está a manusear pequenos monstros em forma de brinquedo, encontrar assombro neste espantalho de pechisbeque?
Já o vira conviver com os bizarros desenhos animados que povoam as tardes dos irmãos. Nem um queixume. Cães, gatos, parentes ou estranhos deixam-no sempre mais feliz do que apreensivo. Foi a primeira vez que vi os seus olhos iluminados pelo brilho do medo; e nunca antes vira tamanho susto em criatura tão diminuta.
Lembrei-me nesse momento que o Halloween é a festa em que fazemos pouco do nosso adversário infalível; a noite em que fingimos ignorar que no fim ele vai ganhar e nós vamos perder tudo. Talvez esse sofisticado fingimento permaneça fora do alcance das almas simples dos bebés. E não só: lembrei-me também de ter lido algures que os elefantes demonstram visível perturbação sempre que deparam com ossadas dos seus. Assim, sem mais nem menos, num terror vindo do instinto sem fundo que só os poetas tentam por vezes iluminar:
"Tanto segredo no destino de uma vida...
É como a ideia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou..."

Publicado por Luis Rainha às 06:33 PM | Comentários (6)

A PÁTRIA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO (2)

Querem saber porque é que "homossexuais lésbicas e bissexuais, enquanto grupo, são mais susceptíveis a comportamentos auto-destrutivos como a depressão, uso ilegal de drogas e suicídio"? Perguntem à "Texas Taliban" Terri Leo, a grande obreira do esforço educativo aqui descrito pelo Jorge.

Publicado por Luis Rainha às 05:38 PM | Comentários (0)

POST QUASE CANHOTO

Após uma batalha legal de 26 anos, a Nova Zelândia ganha o direito de exportar sémen de zangão para os EUA. Conservadores americanos preocupados com a moralidade das abelhas-rainhas solteiras. Adicionalmente, este blog não atende perguntas difíceis sobre técnicas reprodutivas de apicultura.

Já é possível transplantar ovários para os braços. Milhares de comentários jocosos mas de gosto duvidoso vão ser pudicamente evitados por este post.

Australiano torna-se recordista mundial de passar a ferro debaixo de água. Curling finalmente tem rival à altura.

Publicado por Jorge Palinhos às 05:33 PM | Comentários (0)

A GRANDE CABALA COM QUE ESTÃO A BURLAR PORTUGAL!

A suspeita começou a infiltrar-se com as primeiras gaffes. Agigantou-se com a titubeante "comunicação ao país" do outro dia. Agora, é já uma certeza inelutável: o homem que ocupa a cadeira do primeiro-ministro é um impostor. Santana Lopes foi substituído por um duplo!
É a única explicação plausível para o desaparecimento do sagaz animal político, do tribuno temido, do lutador incansável que tanto terror infundia no coração dos adversários. O ás da política que entusiasmava congressos e electrizava multidões, fosse na Kapital ou na Esplanada da Figueira da Foz, está ausente em parte incerta. No seu lugar, os sinistros oligarcas do PSD e do PP instalaram um pálido fac simile, um títere que se embaralha com as palavras, não exibe qualquer poder de raciocínio e se revela quotidianamente incapaz de articular uma frase completa em público.
Após aturadas investigações, estou apto a desmascarar todo o complot, revelando até o nome do actor contratado para a macabra tarefa: Victor Espadinha! Observem bem a imagem acima. Confiram estas duas fotografias. O embuste é claro. (A certo ponto, os cabecilhas do logro camuflaram o duplo com óculos; mas nem assim a fraude deixou de ser evidente.) Comecem a prestar mais atenção às aparições televisivas do suposto primeiro-minstro: verão que são sempre planos tomados de longe, imagens desfocadas e mal-iluminadas. Analisem esta fotografia do encontro com o Papa (será?). Claro: também é minúscula e tremida!
O truque infame que eu agora desmascarei, com grande risco da minha segurança pessoal, já tem ancestrais célebres. Toda a gente sabe, por exemplo, que Paul mcCartney morreu há um ror de anos; e não é segredo para ninguém que o Papa Paulo VI foi da mesma forma substituído.
Precisam ainda de mais provas? Então respondam lá a esta: porque é que nunca se vêem os dois – o actor e o suposto PM – no mesmo local, ao mesmo tempo? Q.E.D.

Publicado por Luis Rainha às 04:05 PM | Comentários (6)

A PÁTRIA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

(Via Pharyngula)

Aparentemente, no estado de George W. Bush os manuais escolares são antecipadamente supervisionados por grupos de extrema-direita para confirmar que não contêm referências a "poluição", "aquecimento global", "explosão demográfica", métodos anti-concepcionais, entre outras realidades pouco cristãs.
Além de que as televisões já nem passam um filme tão patriótico como "O Resgate do Soldado Ryan" com medo de um organismo chamado FCC, composto por elementos nomeados por George W. Bush.

Mas, claro, nada disto é comparável ao "totalitarismo do politicamente correcto".

Publicado por Jorge Palinhos às 01:25 PM | Comentários (17)

100 000 SIM

Já andam a tentar "demolir" o estudo da Lancet que estima em 100 mil os mortos iraquianos, "desmontando-o definitivamente".

Antes que os apressados coveiros destes incómodos cadáveres façam a sua tarefa, recomendo que leiam atentamente este excelente artigo, informado e científico, sobre a validade dos métodos usados para o dito estudo.
Afinal, estou certo que aquilo que mais vos interessa é a honestidade intelectual e a salvaguarda dos direitos do povo iraquiano.

Publicado por Jorge Palinhos às 01:12 PM | Comentários (4)

UM SANTANETE POR DIA...

PSL é a prova viva desta «tese». Os defeitos que lhe apontam são precisamente as suas virtudes, uma vez que a inteligência emocional é, muitas vezes, mais importante para a vida das pessoas que a inteligência cognitiva.

A sua mais-valia é ser um entre iguais, ser humano; é o cidadão comum rever-se nele, nas virtudes e nos defeitos. É não ser convencional, nem consensual. Estas são as características que fazem dele um líder carismático, com efeitos fulminantes.

É por isso que PSL, neste momento decisivo para o País e para o partido, tem de seguir os seus sentimentos e emoções. PSL tem de aproveitar a sua paixão pela vida, a sua intuição única para tomar as medidas que entender necessárias para colocar Portugal de novo no pelotão da frente.
José Francisco Gandarez

(Admito que está para além das minhas capacidades ridicularizar este texto. É a primeira vez que vejo um político ser elogiado por pertencer à espécie humana.)

Publicado por Jorge Palinhos às 09:44 AM | Comentários (2)

ARAFAT NA ONU

The difference between the revolutionary and the terrorist lies in the reason for which each fights. For whoever stands by a just cause and fights for the freedom and liberation of his land from the invaders, the settlers and the colonialists, cannot possibly be called terrorist, otherwise the American people in their struggle for liberation from. the British colonialists would have been terrorists; the European resistance against the Nazis would be terrorism, the struggle of the Asian, African and Latin American peoples would also be terrorism, and many of you who are in this Assembly hall were considered terrorists. This is actually a just and proper struggle consecrated by the United Nations Charter and by the Universal Declaration of Human Rights. As to those who fight against the just causes, those who wage war to occupy, colonize and oppress other people, those are the terrorists. Those are the people whose actions should be condemned, who should be called war criminals: for the justice of the cause determines the right to struggle.

Extracto do primeiro discurso de Yasser Arafat na Assembleia Geral das Nações Unidas. O original pode ser lido aqui. Vale a pena, mesmo contendo o discurso exageros e radicalismos que o próprio Arafat haveria de recusar mais tarde, ao assinar os acordos de Oslo. Passam amanhã trinta anos.

Publicado por Filipe Moura às 08:45 AM | Comentários (1)

ARAFAT NO THE NEW YORK TIMES

Deixo aqui o obituário de Yasser Arafat no The New York Times. Embora seja gratuito, exige registo, pelo que o copiei para comodidade dos leitores. É uma boa lição de história sobre a vida do líder palestiniano. Os sublinhados são da minha responsabilidade.

November 11, 2004
OBITUARY
Yasir Arafat, Father and Leader of Palestinian Nationalism, Is Dead
By JUDITH MILLER

Yasir Arafat, who died this morning in Paris, was the wily and enigmatic father of Palestinian nationalism who for almost 40 years symbolized his people's longing for a distinct political identity and independent state. He was 75.

No other individual so embodied the Palestinians' plight: their dispersal, their statelessness, their hunger for a return to a homeland lost to Israel. Mr. Arafat was once seen as a romantic hero and praised as a statesman, but his luster and reputation faded over time. A brilliant navigator of political currents in opposition, once in power he proved more tactician than strategist, and a leader who rejected crucial opportunities to achieve his declared goal.

At the end of his life, Mr. Arafat governed Palestinians from an almost three-year confinement by Israel to his Ramallah headquarters. While many Palestinians continued to revere him, others came to see him as undemocratic and his administration as corrupt, as they faced growing poverty, lawlessness and despair over prospects for statehood.

A co-winner of the Nobel Prize for Peace in 1994 for his agreement to work toward peaceful coexistence with Israel, Mr. Arafat began his long political career with high-profile acts of anti-Israel terrorism.

In the 1960's, he pioneered what became known as "television terrorism" - air piracy and innovative forms of mayhem staged for maximum propaganda value. Among the more spectacular deeds he ordered was the massacre of Israeli athletes at the 1972 Munich Olympics. In 1986, a group linked to Mr. Arafat but apparently acting independently seized the Achille Lauro cruise ship and threw overboard an elderly American Jew in a wheelchair.

In 2000, after rejecting a land-for-peace deal from Israel that he considered insufficient, Mr. Arafat presided over the Palestinians as they waged a mix of guerrilla warfare and terror against Israeli troops and civilians that has lasted more than four years.

Indeed, shifting between peace talks and acts of violence was the defining feature of his political life. In his emotional appeal for a Palestinian state at the United Nations General Assembly in 1974, he wore a holster while waving an olive branch. After his pledge of peace with Israel in 1993, Palestinians associated with him carried out suicide bombings in Jerusalem and Tel Aviv. He officially condemned such violence but called for "martyrs by the millions" to rise for the Palestinian cause.

Mr. Arafat assumed many poses. But the image that endures - and the one he clearly relished - was that of the Arab fighter, the grizzled, scruffy-bearded guerrilla in olive-green military fatigues and his trademark checkered head scarf, carefully folded in the elongated diamond shape of what was once Palestine.

He seemed to thrive when under siege. Surrounded in the spring of 2002 by Israeli tanks in two rooms of his compound in Ramallah, he cried out, "Oh God, grant me a martyr's death."

Until 1988, he repeatedly rejected recognition of Israel, insisting on armed struggle and terror campaigns. He opted for diplomacy only after his embrace of President Saddam Hussein of Iraq during the Persian Gulf war in 1991 - and the collapse of the Soviet Union - left his movement politically disgraced and financially bankrupt, with neither power nor leverage.

In September 1993, he achieved world acclaim by signing a limited peace treaty with Israel, a declaration of principles that provided for mutual recognition and outlined a transition to Palestinian autonomy in parts of the West Bank and the Gaza Strip, territories that Israel had controlled since its decisive victory in the 1967 Arab-Israeli war. The culmination of secret negotiations in Oslo, the agreement was blessed by President Bill Clinton and sealed with a stunning handshake between Prime Minister Yitzhak Rabin of Israel and Mr. Arafat on the White House lawn.

But in 2000, he walked away from a proffered settlement based on the Oslo accords proposed by Prime Minister Ehud Barak - the biggest compromises Israel had ever offered.

The Israeli proposal appeared to meet most of his earlier demands, but Mr. Arafat held out for more. Mr. Clinton and Mr. Barak charged that Mr. Arafat had failed to respond with proposals of his own, effectively torpedoing the American-brokered talks. The Palestinians had a different interpretation, saying that despite being pushed into negotiations before they were ready, they had nonetheless responded with counterproposals but that the Barak offers kept shifting and ultimately fell short of their needs.

After the talks collapsed in 2000, Ariel Sharon, then in the opposition in Israel, visited the Jerusalem plaza outside Al Aksa Mosque in late September. Palestinians erupted in violent protest, igniting what came to be called the second intifada. That campaign has killed more than 900 Israelis and almost 3,000 Palestinians, and plunged the fragile Palestinian Authority into armed conflict.

Mr. Arafat died without achieving any of the essential goals he had espoused at various stages of his career: the destruction of Israel, the peace with the Jewish state he backed after 1988, or the creation of an independent Palestinian state with Jerusalem as its capital. Moreover, the political concessions that produced the 1993 Oslo accords - accords for which he, Mr. Rabin and Shimon Peres of Israel shared the Nobel Peace Prize - deepened both the admiration and hatred of him. Few Arabs or Israelis were neutral about Mr. Arafat or his Oslo deal with Israel.

Mr. Arafat leaves an ambiguous legacy. He succeeded in creating not only a coherent national movement, led by the Palestine Liberation Organization, but also the very consciousness that made it possible. A master of public relations, he made the world aware of Palestine as a distinct entity. And he helped persuade Palestinians, who now number five million to six million, to think of themselves as a people with a right to sovereignty. "He put the Palestinian cause on the map and mobilized behind his leadership the broadest cross section imaginable of Palestinians," said Khalil E. Jahshan, an Arab-American political activist who knew him well for more than a decade.

His detractors, however, grew more numerous over time. Mr. Arafat, those critics contended, betrayed the Palestinian and Arab cause to maintain his own power. They called him a traitor for having accepted what Hisham Sharabi, the Palestinian scholar and former supporter, called an Arab Bantustan, an entity that was neither politically coherent nor economically viable. Critics noted that while "President Arafat" toured the globe being welcomed by world leaders, Israel doubled the size of its settlements on what was envisioned as soil for a future Palestinian state.

Other detractors argued that he had waited too long to accept political reality. His reluctance to recognize Israel's existence and renounce the violence that claimed hundreds of Israeli and other lives prolonged the pain of the Palestinians and left a new generation stateless, ill treated under Israeli occupation and by most Arab governments. Palestinians in many Arab countries, including Syria and Lebanon, were restricted to camps and denied citizenship, while their host governments spoke in heartfelt tones of the Palestinian cause.

Both admirers and enemies agreed that like King Hussein of Jordan, his late longtime rival and eventual partner in peace with Israel, Mr. Arafat was a survivor. Having experienced perhaps 40 attempts on his life by Israelis and Arabs, he was strengthened as a revolutionary leader by single-mindedness in pursuit of his dream and uncanny energy. Yet after Oslo, his enemies said he continued living mainly because Israel permitted him to do so.

Until 1991, when he wed Suha Tawil, his Palestinian secretary, and had a daughter, Zahwa, he was married only to his cause. He slept and ate little, took no vacations and neither drank nor smoked. People viewed his role in various ways - terrorist, statesman, dreamer, pragmatist, his people's warrior, his people's peacemaker. Even admirers described him as a chameleon. Virtually all the biographies about him express bewilderment about his actions and character, about what an Israeli author, Danny Rubinstein, in his book "The Mystery of Arafat," called "this strange phenomenon."

Many Palestinians compared him to David Ben-Gurion, Israel's founder and first leader, seeing Mr. Arafat as an Arab pioneer who struggled to lead his people back to their promised land. Many Israelis, by contrast, regarded him as an archterrorist, an opportunist who endorsed peace merely as a tactic to destroy Israel - "a beast on two legs," as the late Israeli leader Menachem Begin once called him.

After the Oslo accords, Mr. Arafat became as controversial among Arabs, especially Palestinians: revered by many as the father of their country, reviled by others as an autocrat, a divisive and sometimes indecisive buffoon, a traitor. Even many Arab supporters of his 1993 agreements with Israel eventually came to loathe him for what they saw as his political duplicity, his administration's endemic corruption and his dictatorial tendencies.

An exasperating and mercurial man, Mr. Arafat, with his ever-present silver-plated .357 Magnum, was one of the most recognizable of world figures. He was known by many names: Abu Ammar, his nom de guerre; the "chairman," after he became leader of the P.L.O. in 1969; and the "old man," the name he once said he preferred because in Arabic it conjures an image of a beloved uncle. At the end of his life, he referred to himself as "general," often speaking of himself in the third person.

Over the years, "old man" became apt. His once-taut stomach gave way with age to paunch despite his frequent walks and the treadmill behind his office. What remained of his hair, almost always hidden by his trademark head scarf, turned gray. The face, with its three-day stubble, became visibly lined, his eyes weary.

The Young Guerrilla

The mystery surrounding Mr. Arafat starts early, as accounts of his origins vary. The man who became "Mr. Palestine" was probably not born there. He has claimed to have been born on Aug. 4, 1929, in Jerusalem, or alternatively in Gaza. What seems certain is that this son of a lower-middle-class merchant spent much of his childhood being shuttled among relatives in Cairo, Gaza and Jerusalem after his mother, who came from a prominent Jerusalem family, died when he was 4.

In 1949, he began studying engineering at Cairo University, where he was prominent in Palestinian student affairs. When Israel, Britain and France invaded Egypt in 1956, Mr. Arafat, as an Egyptian military reservist, is said to have taken a course in which he learned how to use mines and explosives, skills that proved useful. That same year, he also began wearing his trademark kaffiyeh, which impressed both Arabs and Westerners when he first traveled to Europe in a Palestinian student delegation.

After graduating, he worked as an engineer in Egypt and moved first to Saudi Arabia, then to Kuwait in 1957, where he plunged into clandestine Palestinian nationalist activities.

In October 1959, he and four other Palestinians founded Al Fatah, "the Conquest," which later became the core of the Palestine Liberation Organization.

From the beginning, Mr. Arafat was intent on building a revolutionary organization with three hallmarks: unity, independence and relevance. He knew that all three were essential to prevent the Arab nations, torn by bitter rivalries, from exploiting the Palestinian cause for their own purposes. He spent brief stints in prison in Egypt, Lebanon and Syria.

In May 1964, Egypt created the P.L.O. under Arab League auspices, but only as a front for the Arab nations. Ahmed Shukairy, an Egyptian bureaucrat who headed the P.L.O. and had never held a gun, resented Mr. Arafat and Al Fatah, denouncing them as "enemies" of the liberation movement.

The 1967 Arab-Israeli war, which brought humiliating defeat to the Arabs' conventional armies, gave Mr. Arafat's group a chance to become heroes to Arabs desperately in need of some. But it still took Mr. Arafat two years to wrest control of the P.L.O. from the lower-key Palestinians to whom the Arab states had entrusted it.

His genius for attracting media attention became evident in the spring of 1968, when he made his first appearance on the cover of Time magazine.

That March, the Israeli Army attacked Karameh, the Jordanian town east of the Jordan River where Al Fatah had set up headquarters. Mr. Arafat insisted that his commandos not retreat. After the Israelis withdrew, he staged a victory celebration around several destroyed Israeli tanks that was attended by representatives from many Arab countries and, of course, the news media.

Calling Karameh "the first victory of the Arabs against the state of Israel," Mr. Arafat, with his kaffiyeh and Kalashnikov, became an instant sensation and a leading spokesman for the Palestinian cause. Money and volunteers poured in. Guerrilla training camps sprang up in Lebanon, Jordan and Iraq, and Al Fatah became paramount among Palestinian guerrilla groups.

At the same time, wrote Abu Iyad, a late top aide to Mr. Arafat, the Palestinian National Council, the P.L.O.'s parliamentary body, adopted Al Fatah's goal: "Creating a democratic society in Palestine where Muslims, Christians and Jews would live together in complete equality."

Though such a state would have meant the destruction of Israel, Mr. Arafat and other Palestinians kept openly advocating it until the early 1980's.

The Evicted Guest

The guerrillas' power grew steadily in Jordan, to which 380,000 Palestinians had fled after Israel occupied the West Bank in 1967, joining others who had arrived in 1948 when Israel was founded. By 1970, thousands of guerrillas were there, many of them adherents of Al Fatah.

Spurred on by Palestinian radicals, Mr. Arafat committed what was to be the first of several blunders: he countenanced an attempt to wrest power from King Hussein, whose grandfather, a religious and tribal leader from Saudi Arabia, had been placed in charge of the country when Britain recognized its independence in 1923.

Palestinian guerrillas began interfering with highway traffic, controlling Palestinian refugee camps, clashing with the Jordanian Army and systematically defying the Jordanian government. In September 1970 - later known to Palestinians as Black September - King Hussein sent troops and armor into Amman, his capital, to suppress the P.L.O. After days of shelling refugee camps where some 60,000 Palestinians lived, the army drove the would-be usurpers out of Jordan into Lebanon.

Conservative estimates put Palestinian losses at 2,000. Mr. Arafat, who made his way unharmed to Cairo, later claimed that Jordan's Army had killed 25,000. By the following summer, the Jordanian Army had nullified the P.L.O. as a military power in the country. Sapped and shaken, the guerrilla movement drifted into Lebanon.

In Lebanon's atmosphere of banking secrecy, duty-free trade and political freedom, Al Fatah expanded its political and military institutions as never before. Working among some 400,000 Palestinians in the country, the P.L.O. built its own police force, clinics and hospitals, a research center and a network of business interests that made it a "virtual state within a state."

Moreover, it set about developing a formidable military arsenal.

By 1974, the P.L.O. became, in effect, the sole representative of the Palestinian people, and that November, Mr. Arafat became the first Palestinian leader to plead his people's cause before the General Assembly.

Mr. Arafat and his P.L.O. seemed at their peak, but as he had done in Jordan, he soon overplayed his hand. In 1975, tensions between Palestinians and Lebanese helped set off the Lebanese civil war. Despite some antagonism, he maintained his headquarters in Beirut for several years, and during this period armed Palestinians based in southern Lebanon harassed northern Israel.

Sensing an opportunity to rid itself of Mr. Arafat and his movement, Israel invaded Lebanon and laid siege to Beirut in 1982. General Sharon, who later complained that he should have killed Mr. Arafat in Lebanon when he had the chance, dealt the Palestinians heavy blows before an agreement sponsored by Washington led to the withdrawal of thousands of P.L.O. guerrillas in August 1982. The guerrillas scattered to eight Arab cities, with their leaders fleeing to Tunis, the new Palestinian headquarters.

Mr. Arafat ventured back to Lebanon in 1983. But rebel Palestinian guerrillas backed by Syria challenged and besieged him and his commandos in northern Lebanon. After a six-week siege in December, the anti-Arafat Palestinians drove him out.

Thus Mr. Arafat and the Palestine Liberation Organization lost a base of military operations near Israel, as well as a sense of unity. And in moving to Tunis, a political backwater, he also jeopardized his organization's relevance in any peace talks.

The Pragmatic Survivor

Mr. Arafat still managed to stage a limited revival. Traveling incessantly in Arab countries, he refilled his organization's depleted coffers and commanded world attention, especially when he escaped death in 1985 in an Israeli attack on his compound.

But weakened and increasingly on the margins of Arab politics, he and the P.L.O. leaders gradually became convinced that political survival demanded a shift in both propaganda and tactical courses.

The man who had vowed in 1969 to ignite "armed revolution in all parts of our Palestinian territory" in order "to make of it a war of liberation" against Israel, realized that while he had exhorted and overseen many armed actions against Israel, the terrorism had never amounted to a war of liberation. He and his advisers became increasingly convinced that Israel could not be vanquished by force.

Moreover, the cold war was ending; the Soviet Union, a crucial patron, was broke and uninterested in his cause. The only Arab nation that had succeeded in reclaiming land lost to Israel was Egypt, whose president, Anwar el-Sadat, had been denounced by Mr. Arafat as an American "stooge." Increasingly, however, the United States seemed like the only power that could press Israel to make political concessions.

The outbreak of the intifada, the Palestinian uprising that erupted without the P.L.O.'s approval or encouragement in the Israeli-occupied territories in late 1987, also pushed Mr. Arafat toward greater pragmatism, if not moderation.

In November 1988, after considerable American prodding, the P.L.O. accepted the United Nations resolution that called for recognition of Israel and a renunciation of terrorism.

Yet this achievement was soon eclipsed by yet another miscalculation: Mr. Arafat's support for President Hussein in the Persian Gulf war enraged his remaining wealthy Arab patrons. The Persian Gulf states and other backers cut off at least $100 million in annual support, and the P.L.O. became even more isolated.

Mr. Arafat, however, did not see it that way, and later claimed that he had not sided with the Iraqi dictator. In an interview in Tunis soon after the gulf war, he insisted that the P.L.O. was at its "peak" and that he was "more popular than ever before" with the "Arab masses, the Muslim nation, the third world."

But with his coffers bare and Palestinians increasingly calling for his ouster, he had little choice but to grab the lifeline of peace talks that Israel had thrown him. Though Prime Minister Rabin was initially reluctant to engage the P.L.O. in secret peace talks, his fear of the growing power of Hamas, the militant Palestinian Islamic movement that had taken hold under Israeli occupation in the West Bank and Gaza, was stronger than his disdain for Mr. Arafat and his bedraggled guerrillas.

Mr. Arafat endorsed the Arab-Israeli peace talks that began in Madrid in October 1991, with Palestinians (but not the P.L.O.) taking part. The Arab participants sought a settlement under which Israel would yield land it occupied. Concurrently, in early 1992, secret contacts between representatives of the P.L.O. and Israel got under way in Tel Aviv. The talks continued, at Oslo and other sites, and by early September 1993, the essence of the proposed pact was generally known: mutual recognition and the creation of self-rule areas in Gaza and Jericho, with that autonomy envisioned as the beginning of a larger transfer of authority to the Palestinians in the occupied lands.

The Oslo peace accords of 1993 were the first between Israeli officials and the P.L.O., and many Palestinians and Israelis argue that with the organization and even his own Fatah so divided about the accords, only Mr. Arafat could have secured their approval.

But many diplomats and scholars say he could have secured a better deal for the Palestinians much earlier had he not placed priority on his organization's survival and unity rather than on establishing autonomy and a state on any sliver of his people's original land that he could secure.

In 1978, Mr. Arafat joined most Arab nations in rejecting Mr. Sadat's peace with Israel under the Camp David accords. But unlike the others, Jordan and the P.L.O. had something to gain by taking part. The accords provided for an end to Israeli occupation of vast sections of the West Bank and Gaza and for "autonomy" for the Palestinians there, the possibility of eventually establishing the kind of national autonomy the P.L.O. had been seeking since 1974.

William B. Quandt, a scholar and former American official who was intimately involved in Israeli-Arab diplomacy for years, said even the Camp David accords would probably have provided a better deal than the one Mr. Arafat ultimately accepted in 1993. "In 1975 there were only 10,000 Israelis on the West Bank," he said. Today, there are 225,000 in the West Bank and 200,000 more Jews in East Jerusalem.

Some of Mr. Arafat's most euphoric and frustrating moments occurred after the 1993 Oslo accords. Among the highlights was his triumphal return to Gaza in July 1994. Welcomed by tens of thousands of cheering Palestinians and a city bedecked with the red, green, black and white colors of the Palestinian flag, he established the first Palestinian government.

The assassination of Mr. Rabin by a Jewish hard-liner in November 1995 was a personal and political blow to Mr. Arafat, according to several associates, including Edward G. Abington, the American consul general in Jerusalem until mid-1997. Mr. Abington said Mr. Arafat "broke down and sobbed over the phone" after learning that Mr. Rabin had been assassinated.

But in January 1996, the Palestinian leader presided over one of the freest elections ever held among Arabs. Some 85 percent of the Palestinian electorate chose from a bewildering array of 700 candidates for an 88-member Palestinian Council.

With 88 percent of the vote for him as president, Mr. Arafat became the undisputed leader of his people - no longer (or so it seemed) dismissible by Israelis as a terrorist who derived his authority from the gun, or by Islamic nationalists who had assailed him as the hand-picked collaborator of Israel and the United States. "This is a new era," he said after the 1996 elections. "This is the foundation of our Palestinian state."

The Criticized Symbol

Such optimism proved short-lived. The Palestinian Authority was soon locked in increasingly bitter struggles with Hamas, which insisted on the continuing need to stage terrorist attacks not only against Israeli soldiers and settlers in their midst, but also on civilians inside Israel.

Opposition to Mr. Arafat and his Oslo accords also increased among secular Palestinians. Some of the most rabid critics accused him of having betrayed the Palestinian cause.

Palestinians grew ever more critical of his autocratic style and what they called his inept stewardship, the brutal, arrogant methods of his 14 security services, his crackdown on dissenters and the corruption among the "outsiders" who had accompanied him from Tunis.

In Israel, opposition was also building to what Mr. Arafat had once called the "peace of the brave." After Mr. Rabin's assassination, a series of lethal suicide attacks by Hamas helped elect the hawkish government of Benjamin Netanyahu in May 1996.

Palestinian hopes for economic development were also repeatedly dashed, partly by punitive Israeli actions that denied Palestinians jobs in Israel and work at home. In 1996, the border with Gaza was sealed by Israel for 3 days of every 10. By 1997, three years after Mr. Arafat's triumphal return to Gaza, the Palestinian economy was stagnant and per-capita annual income in Gaza had declined by $100, to $1,050. Refugee camps remained mired in squalor.

Mr. Arafat's penchant for trying - once more - to satisfy all constituencies further undermined confidence in his leadership. Successive Palestinian crackdowns on Hamas and other militants invariably gave way to deals, pledges of forgiveness and rounds of kisses.

Still, Mr. Arafat presided over an autonomous Palestinian sector that was, relative to most Arab states, tolerant and politically free-wheeling. And his popularity prevailed relative to challengers.

Ever the careful balancer, he insisted on making decisions alone and in private. Indeed, he found himself increasingly isolated in his final years, with almost all his former close aides having been killed over the years by Israeli or Arab assassins.

Plagued by a neurological illness that doctors said stemmed from an airplane crash in the Libyan desert that nearly killed him in 1992, Mr. Arafat slowed down. No longer able to work his legendary 18-hour days, he was forced to delegate some power, if not real authority, as he grew ever more frail. His trembling lower lip and shaking hands increased Palestinian concerns about the future. He had not appointed or groomed an obvious successor.

Some Americans and Israelis involved in the Oslo peace negotiations continued to view him as the only Palestinian leader willing and able to make the compromises needed to end the bitter conflict. They disagreed with the growing number of Israelis who suspected that he secretly sought Israel's destruction while negotiating for peace.

This upbeat assessment, however, was challenged in Israeli and American eyes by the collapse of the Oslo talks at Camp David in July 2000 and a last ditch round of negotiations that continued despite growing violence until January 2001. The talks with Mr. Barak's Labor government failed despite the intervention of President Clinton, who offered Mr. Arafat an 11th-hour peace package to secure a final settlement before the end of his term in office and before Mr. Barak faced elections in February 2001.

The package would have given the Palestinians all of Gaza and more than 94 percent of the West Bank, much closer to Mr. Arafat's goal of securing the return of all the territories lost in 1967 than he had ever come before. The Israelis also agreed to give Palestinians full sovereignty over Arab neighborhoods in Jerusalem and air rights over Israel. But Mr. Arafat, who had already blessed the uprising and was facing growing Palestinian criticism of his stewardship, still insisted, among other things, on the right of return of refugees into Israel. Henry Siegman, a senior fellow at the Council on Foreign Relations, called Mr. Arafat's rejection of the American-brokered peace package a "disastrous mistake.'' But, he added, "based on my 14 years of dealings with Arafat, I reject the notion that he was bent on Israel's destruction." Rather, he said, Mr. Arafat's decision reflected his political weakness, a result partly of Israel's acceleration of settlement expansion and Mr. Barak's lack of interest in peace with the Palestinians until his own government began collapsing.

But Dennis B. Ross, who spent 12 years trying to negotiate an Arab-Israeli peace settlement in Republican and Democratic administrations, ultimately concluded that while Mr. Arafat might have been prepared to die with Israel in existence, he was not prepared to have history regard him as the man who betrayed the vision of a single Palestinian state. "In the end, he was not prepared to give up Palestinian claims and declare that the conflict is over," Mr. Ross said in an interview.

Even worse, Mr. Ross wrote in his book documenting the collapse of the American-brokered peace effort, "he continued to promote hostility toward Israel.'' To avoid potential opposition, he remained a "decision-avoider, not a decision-maker," Mr. Ross wrote, "all tactics and no strategy."

In the February 2001 elections, Mr. Barak lost to Mr. Sharon, the candidate of the conservative Likud Party and a figure hated by Palestinians for his invasion of Lebanon, his settlements policy and his September 2000 visit to the Jerusalem plaza outside Al Aksa Mosque, an act intended to demonstrate Israeli sovereignty over what Jews call the Temple Mount and Muslims call the Noble Sanctuary.

After Mr. Sharon's election, the newly elected Bush administration refused to help broker a serious peace effort similar to that of Oslo or the Madrid conference staged by the first President Bush. As a result, Palestinians argue, Mr. Arafat and others who ostensibly favored a diplomatic option lacked the political leverage they required.

Mr. Arafat's critics, by contrast, maintain that it was he who set off the violent Palestinian protests in September 2000, using the weapons and terrorist infrastructure he had secretly built alongside Israel while he negotiated for peace.

After almost 60 suicide bombings in 17 months, Mr. Sharon surrounded Mr. Arafat's compound in Ramallah in late March 2001 and later confined him there, leaving the Palestinian leader to rail against Jewish "extremists" as his cellphone battery died and his entourage ran short of food.

Pressure by Saudi Arabia and other Arab allies prompted the Bush administration to re-engage in an American-sponsored peace effort in the summer of 2001. Although Mr. Bush had been tentatively scheduled to meet Mr. Arafat on the periphery of the United Nations General Assembly in the fall of 2001, the session was canceled after the attacks of Sept. 11. Mr. Bush never met with Mr. Arafat.

The White House's hostility to the Palestinian leader hardened over time as American intelligence officials informed the White House that he was lying about his opposition to violence against Israelis. Officials said Mr. Bush came increasingly to equate Palestinian attacks on Israeli civilians with militant Islamic attacks on Americans.

Mr. Ross, the longtime negotiator, said a low point came in January 2002, when Israelis interdicted in the Red Sea the Karine A, a ship carrying Iranian arms for use against Israelis. In a letter to Mr. Bush, Mr. Arafat disavowed any connection to the ship, though it turned out that the shipment had been arranged by a crucial Arafat aide, and the pilot was a Palestinian navy officer. Mr. Bush angrily dismissed the letter, insisting that Mr. Arafat must have known about the weapons. Though Mr. Arafat finally acknowledged responsibility for the arms, the diplomatic damage was done.

Increasingly, the United States looked on with indifference as Prime Minister Sharon took unilateral steps to protect Israelis that infuriated the Palestinians, including building walls to cut Israel off from suicide bombers and ordinary Palestinians, dividing up the West Bank into supposedly temporary zones of security and more permanent zones of settlement.

Efforts by the Bush administration to force Mr. Arafat to share power with other Palestinian leaders also failed. Because he steadfastly refused to designate a successor, a generation of lieutenants has been jockeying for power.

The International Crisis Group, an independent Brussels-based group that studies global issues, partly blamed the Palestinian leadership. "Recent power struggles, armed clashes, and demonstrations do not pit Palestinians against Israelis so much as Palestinians against each other,'' the report stated.

Under Mr. Arafat, local actors like mayors, kinship networks and armed militias competed for authority in the vacuum. One result, the report said, was growing chaos.

Nor did Mr. Arafat deliver prosperity. According to United Nations figures, 50 percent of the 2.2 million Palestinians on the West Bank live below the poverty line, compared with 22 percent in 2001; the figure is now 68 percent in teeming Gaza, with its 1.3 million residents.

Despite deteriorating political and economic conditions, many Palestinians blamed Israel and not their leader for their plight. For many, until the end, Mr. Arafat remained the symbol of Palestinian aspiration to a state, the only man who could have sold the painful compromises for peace to his people had he chosen to do so.

Publicado por Filipe Moura às 08:26 AM | Comentários (0)

A FRASE DE ARAFAT

I repeat for the records that we totally and absolutely renounce every form of terrorism.

Foi a ouvir esta frase que eu me recordo de ver pela primeira vez Yasser Arafat na televisão. Estávamos em Dezembro de 1988. Arafat discursara numa sessão especial da Assembleia Geral das Nações Unidas que decorrera em Genebra, uma vez que o governo americano de Ronald Reagan lhe recusara o visto necessário para entrar nos EUA e discursar em Nova Iorque. Nessa altura, Arafat renunciava ao terrorismo e reconhecia o direito de Israel à sua existência. Muitas vezes antes já Arafat teria aparecido na televisão, mas ou eu ainda não era nascido, como quando discursou pela primeira vez na Assembleia Geral das Nações Unidas, onde surgiu como o representante do Povo Palestiniano, ou eu não prestara atenção. Naquela vez, no entanto, pela repercussão que o seu discurso teve, pelas vezes que foi repetido, aquela figura curiosa de lenço e olhos muito abertos a repetir e a voltar a repetir, num inglês muito macarrónico, "I repeat for the records...", era impossível não prestar atenção. A partir daí, muitas vezes o voltaria a ver na televisão e nos jornais, como o representante máximo de uma causa, de um povo. Assinou os acordos de Oslo, recebeu o prémio Nobel da paz, recusou os acordos de Camp David, foi encurralado por Ariel Sharon, que várias vezes afirmou que desejaria matá-lo. Resistiu sempre. Só não resistiu a uma morte misteriosa e que continua por explicar. Sempre que o via, lembrava-me daquele momento e daquela frase.
A partir daqui, não sei mais nada. Tal como o Luís, não sei se Arafat deveria (ou poderia) ter assinado os acordos de Camp David. Não sei se era um milionário, como a direita blogosférica o afirma; sei que não há-de ter gozado muito essa sua hipotética fortuna encurralado num bunker de Ramallah, de onde só saiu para morrer. Não sei o que poderia ter feito para impedir o início da Segunda Intifada (causada por Ariel Sharon e a sua visita à Esplanada das Mesquitas). Não sei o que poderia ter feito para evitar os atentados terroristas palestinianos. Nem sei quem poderá saber. Sei que desconfio de quem diz que "sabe". Sei que, por muitos erros que possa ter cometido (e cometeu, certamente), Arafat foi o líder visível de um povo, que soube dar a conhecer ao mundo uma causa justíssima.

Publicado por Filipe Moura às 08:00 AM | Comentários (4)

novembro 11, 2004

O TACHO COMO GRANDE DESÍGNIO NACIONAL

Governo Cria Agência para a Sociedade do Conhecimento

O Governo pretende investir, no próximo ano, 380 milhões de euros em projectos ministeriais relacionados com a sociedade da informação. O anúncio foi ontem feito pelo primeiro-ministro, Santana Lopes, na mesma altura em que divulgou a estratégia governamental nesta área para os próximos dois anos e anunciou a reconversão da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC) para UMIC - Agência para a Sociedade do Conhecimento, cuja aprovação decorrerá hoje em Conselho de Ministros.

Afirmando que a sociedade do conhecimento tem "uma dedicação sem precedentes" do Governo, Santana Lopes considerou que os próximos dois anos "serão decisivos" para Portugal. A estratégia para o biénio passa por ter melhores e mais eficientes serviços públicos, reduzir a burocracia para o cidadão e empresas, ter mais inovação ou melhorar a qualificação e a produtividade. Entre alguns dos novos projectos apresentados, contam-se a intenção de simplificar o processo de criação de empresas, a marcação de consultas nos centros de saúde ou de actos civis pela Internet, o lançamento de uma Academia para o Governo Electrónico, facilitar o registo de entidades no domínio ".pt" - para duplicar o seu número até 2006 - ou a participação de queixas às polícias por via electrónica.

Quanto à UMIC, ainda dependente da Presidência de Conselho de Ministros, será dotada de orçamento próprio, quadro de pessoal e poderá candidatar-se a fundos comunitários. O actual gestor da Unidade, Diogo Vasconcelos, vai manter-se à frente da nova agência, acompanhado de três a cinco novos administradores, garantiu Morais Sarmento, ministro de Estado e da Presidência e com a tutela deste sector. Diogo Vasconcelos salientou o facto de se terem "colocado fasquias altas de propósito" nos objectivos da estratégia para os próximos dois anos e o esforço financeiro para áreas concretas de investigação e desenvolvimento, como tecnologias emergentes na banda larga, a computação em rede, software aberto, tecnologias de segurança ou de comunicação sem fios.
Público

Notas clarificadoras:
1- Sim, sou a favor do estado estratega.

2- Sim, sou a favor da aposta nas novas tecnologias.

3- Acho que estranho que uma entidade estatal seja reformulada e o seu dirigente mantido no lugar. Se foi reformulada supõe-se que não era eficaz. Se não era eficaz porque é que não correram com o seu responsável?

4- Se vai haver "3 a 5 administradores", quantos subordinados é que cada um vai ter?

5- Todas as "área concretas" mencionadas por Diogo Vasconcelos são desenvolvidas por e para privados que não precisam de "3 a 5 administradores" públicos a dizer-lhes que tecnologias de seguranças devem desenvolver.

6- O "ter melhores e mais eficientes serviços públicos, reduzir a burocracia para o cidadão e empresas, ter mais inovação ou melhorar a qualificação e a produtividade" não se consegue com agências, mas com funcionários públicos formados emotivados e autonomia e descentralização de decisão.

7- Para "simplificar o processo de criação de empresas" e "facilitar o registo de entidades no domínio ".pt"" não é preciso agências. Basta alterar os respectivos códigos processuais.

8- Já ninguém faz "marcação de consultas nos centros de saúde", pela Internet ou outra forma qualquer. As pessoas dirigem-se directamente às urgências hospitalares ou consultas de recurso, ou então vão para o Centro às 6 da manhã para estarem à frente da fila para pedinchar ao respectivo médico que os atenda.
Isto, claro, o pessoal que não tem dinheiro para subscrever um seguro de saúde ou aceder a novas tecnologias da informação.

9- A "participação de queixas às polícias por via electrónica" parece especialmente útil. Já não vai ser preciso correr para o telefone mais próximo para ligar o 112. Basta pedir ao gatuno que, já que nos está a roubar o telemóvel/portátil, nos faça o favorzinho de mandar um e-mailzito/sms à polícia a comunicar a ocorrência.

10- Primeiro era o Governo electrónico. Agora é a Academia para o Governo Electrónico. Seguir-se-á inevitavelmente a Comissão para a Academia para o Governo Electrónico, o Grupo de Trabalho para a Comissão para a Academia para o Governo Electrónico e, possivelmente, a Sociedade Recreativa e Cultural para o Grupo de Trabalho para a Comissão para a Academia para o Governo Electrónico, a Associação Paroquial para a Sociedade Recreativa e Cultural para o Grupo de Trabalho para a Comissão para a Academia para o Governo Electrónico e a Cooperativa Leiteira para a Associação Paroquial para a Sociedade Recreativa e Cultural para o Grupo de Trabalho para a Comissão para a Academia para o Governo Electrónico.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:33 PM | Comentários (1)

R.I.P.

A morte de Arafat acabou por não me comover como eu antecipara. E não só por se tratar de um drama anunciado e repetidamente diferido. Do líder palestiniano, já tinha ideia de um velho guerreiro que ultrapassara todos os prazos de validade, de um homem obstinado que se deixou transformar num símbolo fóssil, numa estátua ainda viva. Não sei se a oportunidade das negociações de Camp David foi desbaratada apenas por sua culpa (afinal, algumas das concessões que ele teria de fazer implicavam todo o mundo muçulmano). Não sei se ele se terá tirado proventos pessoais (sendo oriundo de uma familia riquíssima) da escandalosa corrupção que sempre manchou a Autoridade Palestiniana. Não sei se ele era mesmo parte da solução ou cúmplice dos problemas da sua nação. Provavelmente, nunca irei ter forma de saber se Dennis Ross, enviado de Clinton às negociações fracassadas de 2.000, estava certo ao escrever que Arafat "não conseguia viver sem uma causa, uma luta, um rancor e um conflito para o definir". O que sei é da injustiça que é resumir a vida deste homem a sentenças do estilo "durante décadas, Arafat foi o rosto do terrorismo internacional", saídas do teclado de gente que gosta de fazer de conta que nunca ouviu falar em Deir Yassin ou no Irgun.
A bem da verdade, preocupa-me bastante mais o futuro. O futuro em que Israel vai ter de procurar novo bode expiatório. Um futuro, ainda comandado por Sharon, que promete muito mais sofrimento para o povo palestiniano. E muito sangue, árabe e israelita, a correr sem motivo e sem esperança. Quanto a Arafat, espero que tenha encontrado por fim alguma paz.

Publicado por Luis Rainha às 07:18 PM | Comentários (2)

MINISTRO INSULTA SECRETÁRIO-GERAL DO PSD

Lembram-se da intimista e tocante "conversa em família" de Santana Lopes, há coisa de um mês? Ainda ecoava a palestra pelas salas deste infeliz país e já Miguel Relvas saudava as palavras do preclaro líder, que anunciavam o dealbar de um inevitável "segundo ciclo" em que "vamos baixar o IRS, aumentar as pensões e a administração pública". Pois "quem vive com dificuldades" não quer ouvir o odioso "ruído" que tanta dor de cabeça causa aos santanicos. O povo quer é "mais dinheiro, menos impostos".
Agora, atreve-se um tal de Bagão Félix, criatura por certo pouco patriótica e bem ruidosa, a berrar o insulto soez: dizer que os impostos vão diminuir em 2005 é... "mentira; objectivamente, mentira, falso!"

Publicado por Luis Rainha às 06:10 PM | Comentários (0)

O OUTRO HOMEM A QUEM ACONTECEU NÃO SEI O QUÊ

Quem viu hoje Santana Lopes na SIC a perorar sobre a morte de Arafat, teve de esperar quase um minuto inteiro, e de tentar descodificar coisas como as "convicções em que acreditam", até descobrir de que falava ele afinal.
Mas quem é que se lembrou de achar que o fulano tinha cabeça para estas coisas? Ah, é verdade, foi o Sampaio...

Publicado por Luis Rainha às 05:41 PM | Comentários (0)

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Yasser Arafat (1929-2004)

Publicado por José Mário Silva às 01:37 PM | Comentários (2)

AS GUERRAS PERDIDAS QUE NINGUÉM VÊ

A norte proclama-se a vitória pelas armas, a sul ignora-se a derrota pela cultura:

Islamist protests in Kuwait have forced the government to ban pop concerts, while at hospitals devout women surgeons are refusing to operate on men saying it is religiously forbidden for them to see their genitals.

In the past, men and women mingled and dated in Kuwait. The country had mixed beach clubs for nationals. No longer. Most now have separate swimming days for women and men.

Like other Gulf states, Kuwait is witnessing a rising tide of fanatical Islam. More and more women wear the veil and more men grow beards to display their religious fervour.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:30 PM | Comentários (0)

CONSEQUÊNCIAS DA HISTERIA

Tudo dito e acabado, esta página é embaraçosamente ridícula. Felizmente pode sempre contar-se com o outro lado para reagir de forma ainda mais palerma.
Assim de repente só me lembro de uma pessoa a quem ficaria bem ter uma página assim.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:24 PM | Comentários (1)

novembro 10, 2004

DEUS, NOT YET MADE IN THE USA

Como os mais atentos terão reparado, a última religião que aqui mencionei é inventada (graças a Deus...). Mas não se trata de obra minha: saiu das meninges febris de Gore Vidal, na sua obra de 1955, "Messiah".
A propósito deste romance fantástico, em que o embalsamador Cave inventa uma religião letal que se derrama dos States para todo o mundo, como uma poluição maldita e inescapável, a crítica Elizabeth A. Lynn escreveu "Messiah é terrivelmente convincente. Vidal vira do avesso a mitologia Cristã para criar uma religião baseada na morte; e o assustador é que ele faz-nos acreditar que a cultura ocidental, a cultura Americana, poderia aceitá-la e, pior ainda, criá-la." Como o próprio autor já assinalou, tanto o livro quanto este texto foram escritos muito antes do reverendo Jim Jones ter tatuado a sangue o nome "Jamestown" na nossa psique colectiva. E antes, diria eu, da tripulação da Heaven's Gate ter descoberto a saída deste vale de lágrimas pela porta do suicídio, rumo a divinas naves espaciais.
Atenção que os EUA não são a única fonte de bizarrias religiosas. Coisas como Fátima e o Templo Solar estão aí para testemunhar a fertilidade da Europa neste domínio. Mas creio que uma burla espampanante como a Cientologia, com a sua teologia que mais parece uma má space-opera, só podia mesmo ter medrado por ali. Sendo a América uma nação jovem mas de vitalidade imparável, tratou de engendrar a sua própria organização social, as suas próprias formas de Arte (como o expressionismo abstracto), as suas epopeias (a conquista do Wild West), as suas galerias de semideuses em technicolor, os seus mártires laicos (Marilyn, JFK etc.). Mas sempre ficou carente de uma verdadeira religião americana, capaz de colocar na alma do mundo uma nova e fulgurante mitologia, um panteão de deuses cromados, para sempre adorados no altar da Máquina, para sempre venerados por intermédio de relíquias holográficas, interactivas, sujeitas a copyright.
Ali, a miscigenação nunca teve relevância suficiente para criar divindades bastardas como Iemanjá ou Danbhalah Wédo, que tão bem se deram noutras latitudes mais tropicais. Doutrinas bastante imaginativas como o Mormonismo cedo se viram obrigadas à conformidade, reciclando até Jesus Cristo num papel de importância não prevista no script original (um pouco como o Cristianismo primitivo foi absorvendo os mitos do helenismo). As excentricidades evangélicas são interessantes e quase alucinatórias, mas não representam cabalmente o contributo para o património religioso da Humanidade de que os EUA por certo são capazes; o Mundo ainda aguarda a Grande Religião Americana.
Aliás, Edmond de Goncourt já havia diagnosticado esta carência em 1861 (como Vidal bem reparou): "Por vezes, penso que virá o dia em que todas as nações modernas adorarão uma espécie de deus Americano, um deus que terá sido um homem que viveu na Terra e acerca do qual muito terá sido escrito na imprensa popular; e imagens deste deus serão colocadas nas igrejas, não flutuando num véu de Verónica, mas estabelecidas, fixadas de uma vez por todas pela fotografia. Sim, eu prevejo um deus fotografado, usando óculos. Nesse dia, a civilização terá atingido o seu auge."

Publicado por Luis Rainha às 07:51 PM | Comentários (9)

A DOENÇA INFANTIL VOLTA A MANIFESTAR-SE

Toda a questão à volta deste texto do Jorge, e os comentários ao mesmo, são bem representativos da esquerda (portuguesa e não só, mas felizmente não toda - digamos, a herdeira do Maio de 68) e do seu modo de (não) actuar. Da sua completa incapacidade de distinguir o essencial do acessório. De como se perde em discussões intestinas sem se aperceber de que, nas questões essenciais, se calhar até estão todos de acordo.
O Luís Rainha em tempos escreveu que certa personagem o irritava, e logo vieram, pelo modo que ele escreveu, acusações de "homofobia". Se a personagem em questão fosse negra, certamente viriam acusações de "racismo"; se fosse mulher, de "machismo"; se fosse judeu, de "anti-semitismo".
É por este tipo de situações que eu, como já escrevi atrás, cada vez tenho menos paciência para "ofendidos". Ó camaradas, e se em vez do Castelo Branco discutissem o casamento homossexual? E propusessem leis de combate à discriminação e homofobia? Não estariam todos de acordo nisso?
Nenhuma lei vai decidir aquilo que o José Castelo Branco é ou deixa de ser. Pessoalmente achei graça e vi muitos pontos de interesse no texto original do Luís (espero que não venham agora apontar o dedo a mim!), mas não vejo mesmo nada de útil ou construtivo na discussão que em seguida se gerou. E como este exemplo há vários outros, relacionados com outros temas. A tabloidização da informação tem como consequência esta fulanização, e o deixar de se discutir os aspectos importantes.
Mas esta tendência para a desorientação da esquerda é bem anterior; provavelmente, sempre existiu. Quinze anos depois da queda do muro de Berlim, a esquerda precisa de um novo Lenine (em sentido figurado). Não para conduzir nenhuma revolução, mas para propor reformas. Para traçar um rumo. E saber pôr todos os progressistas a puxarem para o mesmo lado.
Que fique bem claro que eu não estou a criticar a apresentação de críticas, nem a mandar ninguém calar-se. Sempre defendi e defenderei a liberdade de expressão e opinião em qualquer circunstância. O que eu questiono é a oportunidade e a utilidade das críticas que temos visto. E isto aplica-se a ambos os lados; muitas vezes, o melhor é nem dar importância a certas críticas e nem fomentar certas discussões. No caso do Luís, porém, tendo em conta o conteúdo das críticas de que ele foi alvo, compreendo que ele não queira fingir que não as leu. É que dá-se aqui um caso curioso: quem faz essas críticas é que pretende silenciar certas opiniões e estabelecer um código de conduta, o que é "certo" e "errado" pensar-se. Chama-se a isso a ditadura do politicamente correcto.

(Uma notinha: a única imagem que arranjei de uma capa da "Doença Infantil do Comunismo" foi na capitalista Amazon.)

Publicado por Filipe Moura às 07:13 PM | Comentários (4)

DEUS, MADE IN THE USA (5)

O Caveísmo: John Cave era um modesto embalsamador numa funerária de Washington, até ao dia da sua Revelação. Esta "ateofania" visitou-o enquanto preparava um corpo que conhecera ainda vivo. Nas suas palavras: "Ele era um grande atleta, cheio de vida... e ali estava ele, comigo a maquilhar-lhe o rosto e a pentear-lhe as sobrancelhas."; "Então, senti-o. Soube que a morte é a melhor parte da vida".
A peculiar religião fundada por Cave - denominada "Cavesword" pelos fiéis - postula a superioridade da sombra sobre a luz, define a Vida como um distúrbio passageiro mas doloroso no descanso eterno que é a Morte, recomenda o suicídio assistido e indolor como o paliativo perfeito para todas as nossas atribulações. O próprio profeta afirma que "não estou cá porque quero. Primeiro, tenho de dizer aos outros. A responsabilidade é minha. Haverá depois tempo para mim".
A sua incipiente "Igreja" só ganhou importância aquando das primeiras aparições televisivas de Cave: ele possui um carisma diabólico que adora as câmaras de TV. A sua mensagem, na realidade algo simplória e muito similar aos desabafos de um deprimido em último grau, só parece "inteira" depois de viajar pelo éter ou pela fibra de vidro das emissões por cabo. Este é o verdadeiro profeta catódico, trazendo-nos a boa-nova de uma era onde Deus já viu o seu programa cancelado por falta de audiências e de anunciantes interessados.
Claro está que o constante elogio do suícidio lhe acarretou problemas com a Lei e até uma visita à cadeia. Mas a entourage de milionários aborrecidos que segue Cave para todo o lado garante-lhe meios, imunidade e oportunidades para espalhar a Cavesword. Não deve tardar muito até começarmos a ver as suas "Capelas", completas com agradáveis salas de término onde o convertido pode tomar o veneno da sua preferência em paz e total privacidade.
Se calhar, já era tempo de regressarem as grandes religiões dos deuses da Morte.

Publicado por Luis Rainha às 05:05 PM | Comentários (3)

SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ESQUERDA

Uma vez que o vencedor do Prémio PT de Literatura Brasileira era até agora um absoluto desconhecido em Portugal, aqui partilhamos mais um poema de «Macau», o seu livro premiado.


BAGATELA PARA MÃO ESQUERDA

Escrever com a mão esquerda
é tarefa bem ingrata.
Não seria empreendida
se não fosse estritamente
necessária.

A mão esquerda é mais dura,
mais austera, e desconfia
desses gestos estouvados
que a mão direita, impensada,
esbornia.

À mão esquerda é vedado
o recurso falso e fácil
de dispensar partitura,
a fraqueza (dita força)
do hábito.

Daí o jeito contido
das coisas que ela produz,
o ar desesperançado
de quem até nem precisa
vir à luz.

(No entanto, ela escreve coisas
da mais esconsa eloqüência:
atropelar o sentido
ao contrapelo da pauta
é sua ciência.)

Publicado por José Mário Silva às 03:06 PM | Comentários (0)

PRÉMIO PORTUGAL TELECOM ATRIBUÍDO, NO BRASIL, A «MACAU»

Paulo Henriques Britto, autor do livro «Macau» (Companhia das Letras), foi o grande vencedor da edição deste ano do Prémio PT de Literatura Brasileira. O poeta distinguido estreou-se em 1982 com «Liturgia da Matéria», a que se seguiram os volumes, «Mínima Lírica» (1989) e «Trovar Claro» (1997). Nascido no Rio de Janeiro, em 1951, Britto é igualmente professor e tradutor de Henry James, Elisabeth Bishop e Salman Rushdie, entre outros autores anglófonos.
Em segundo lugar, num conjunto de dez finalistas que incluía nomes como os de Chico Buarque («Budapeste») e Bernardo Carvalho («Mongólia»), ficou o livro de contos «O Voo da Madrugada», de Sérgio Sant'Anna (editado em Portugal pela Cotovia). Por fim, a medalha de bronze coube ao romance «A Margem Imóvel do Rio», de Luís António de Assis Brasil (de quem a Ambar editou «O Pintor de Retratos»).
Aqui fica o poema de abertura de «Macau», o livro vencedor:


BIODIVERSIDADE

Há maneiras mais fáceis de se expor ao ridículo,
que não requerem prática, oficina, suor.
Maneiras mais simpáticas de pagar mico
e dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor.

Porém há quem se preste a esse papel esdrúxulo,
como há quem não se vexe de ler e decifrar
essas palavras bestas estrebuchando inúteis,
cágados com as quatro patas viradas pro ar.

Então essa fala esquisita, aparentemente anárquica,
de repente é mais que isso, é uma voz, talvez,
do outro lado da linha formigando de estática,
dizendo algo mais que testando, testando, um dois três,

câmbio? Quem sabe esses cascos invertidos,
incapazes de reassumir a posição natural,
não são na verdade uma outra forma de vida,
tipo um ramo alternativo do reino animal?

Publicado por José Mário Silva às 02:36 PM | Comentários (1)

A GUARDA ABEL DO P.C.

Há um tema que quase me leva a concordar com a generalidade dos comentadores de direita: o Politicamente Correcto pode ter tido intenções bem louváveis como origem; pode ainda hoje ser bastante útil; mas a verdade é que engendra quotidianamente disparates difíceis de ultrapassar em comicidade involuntária. Desta feita, saiu-me a rifa a mim: "Em relação aos comentários do luís rainha, não retiro uma palavra (...) por causa de todos os posts tontos que este senhor escreve tantas vezes, e que quase sempre passam sem resposta. porque no final das contas, acho que é isso que me faz tanta impressão: como é que alguém tão reaccionário escreve assim. não, correcção - como é que alguém tão reaccionário escreve ali."
Primeiro, arrisco-me a presumir que a senhora em causa se toma por gente de esquerda (isto apenas pelo típico uso do vocábulo "reaccionário", pois não faço ideia de quem ela seja). Depois, gostaria de saber em relação a que acções é que eu serei "reaccionário"; o que me levará aos tais comportamentos censuráveis e nada revolucionários? À falta de indicações precisas, quedo-me convencido de que serei "reaccionário" por escrever coisas com que a senhora não concorda. Não é nova, esta bitola: ainda ontem me disseram que o facto de eu não apreciar por aí além homossexuais estridentes denuncia um sinistro "desejo inconsciente de reduzir os homossexuais e transgenders (e não só os mais estridentes) à invisibilidade", o que é, claro está, "reaccionário". (Isto não deixa de ser interessante; se eu tivesse ridicularizado o Zezé Camarinha enquanto exemplo do machismo militantemente engatatão, presumo que ninguém me viria acusar de querer reduzir os heterossexuais à "invisibilidade"... e até era capaz de fazer figura "bué de esquerda".)
Na génese de tudo isto, está o meu uso da expressão "bichona". Vi-me, logo na altura, acusado de "homofobia muito disfarçada", que, como todos sabemos, é a pior. (O facto de na própria comunidade gay também se usar semelhante "palavrão" só pode significar, para levar o raciocínio à sua conclusão lógica, que eles são igualmente culpados de albergar... "opiniões homofóbicas".)
Ou seja, esta aguerrida fiscal do Politicamente Correcto sente-se habilitada a proclamar análises políticas sobre o meu vocabulário, as minhas opiniões e até sobre a minha pessoa, tout court.
A pena sugerida para tanta tontice reaccionária é logo decretada: eu devia ser ejectado do BdE, pois causa-lhe "impressão" que eu aqui escreva. Tenho, uma vez que não quero carregar a culpa de tão comichosa "impressão", uma ideia: vou começar a mandar à senhora guarda tudo o que aqui escrever, para o competente exame prévio. Pode ser que assim ela me deixe ficar por aqui.

Publicado por Luis Rainha às 01:07 PM | Comentários (17)

O TIPO QUE ESTEVE CÁ ANTES


Cartoon de Mike Keefe, «The Denver Post»

Publicado por José Mário Silva às 10:47 AM | Comentários (0)

A AMÉRICA E O TRIÂNGULO

Irrompeu hoje pela minha reclusão "voluntária", por motivos de trabalho, este texto do Vitorino Ramos, ex-Formiga de Langton.
Depois do incandescente percurso que traçou na blogosfera, o Vitorino concentra-se agora numa carreira académica igualmente brilhante que o levará brevemente a outros continentes, mas postará como itálico no BdE à medida da disponibilidade e da inspiração.
Fica entretanto a informação de que o "formiga de langton" acabou mesmo e não tem nada a ver com o blog com o mesmo nome que vegeta no mesmo endereço, com um post de teste e os comentários de alguns incautos (entre os quais me encontro...).


"Creio que nesta re-eleição estiveram presentes os 3 vértices de um perigoso triângulo. De forma sintética: Deus, os Dólares e as Armas.
Deus, encapuçado sob a forma da moralidade ultra-conservadora do “Bible-Belt”, pela primeira vez na sua grande maioria atravessou a rua para votar, não porque para eles próprios se tratava de uma eleição presidencial pertinente (para eles, em face dos desígnios do altar, nenhuma o é), mas antes pelo simples facto que em 11 dos estados dessa mesma “Bible Belt”, o partido Republicano - porventura no que será o seu mais magistral golpe estratégico de sempre à boca das urnas - levou avante um referendo simultâneo que os punha em pulgas: o casamento “gay”. Uma vez diantes das urnas, uma cruz simbólica, manual ou digital a mais no recente convertido à fé TEX-but-not-MEX-Bush, jamais traria mal ao mundo. Sabe-se que é apenas um simples movimento de punho! Para memória futura, é interessante aliás verificar sob este mesmo prisma, como um referendo, sendo provávelmente a forma mais directa e rápida de democracia não-representativa, poder vir a pôr em causa aquela que o é, por quatro longos anos, que decorrendo noutro ritmo, mais lento, é inviolável, esta sim, a qualquer referendo. São duas velocidades de avaliar a realidade que se entrecruzam, baralhando e voltando a dar. De um lado o racional e o ponderado, imagino, para alguêm que vai votar por quatro anos para um presidente, do outro, o trans-emocional, da resposta ao toque, à flor da pele, dando vazão rápida e ejaculatória, para não dizer masturbativa, aos seus anti-corpos contra o casamento homossexual.

No segundo vértice, os dólares, ou se quiserem, para os menos ingénuos, os petro-dólares. Jamais a balança esteve tão desequilibrada. O Partido Republicano recebeu sob forma indirecta 12 vezes mais fundos que o Partido Democrata para a mesma campanha. O que significa, de modo pragmático, que a mensagem de Bush chegou 12 vezes mais rápida ou a 12 vezes mais sitios, qualquer que eles sejam, de Anchorage a Miami, de Boston a San Diego, do que a palavra de Kerry. Não me parece que seja o conteúdo e forma da mensagem, como muitos defendem - tema número um, destes dias no cerne do próprio partido Democrata-, e aliás até aqui em Portugal (dizem, “clara” e sintética em Bush; longa e complexa em Kerry), que esteja no cerne dos resultados, mas antes sim a rapidez e grau de disseminação com que esta se propagou pela “janela de atenção pessoal”, de um qualquer Americano, sentado num qualquer bar, a assistir de modo involuntário a “sound-bytes” politicos, no intervalo de um jogo de basebol local. Prova do contrário, é a vitória consecutiva de Kerry nos 3 debates nacionais, reconhecida de imediato de costa a costa. Quem realmente conhece a América, sabe que são poucos os canais de TV verdadeiramente de difusão à escala nacional -contam-se pelos dedos de uma só mão- pelo que são muitos os “spots” a serem comprados nas centenas de TV's locais em cada um dos 50 estados. O marketing politico “7-Eleven” tornou-se assim numa realidade mais forte, mais presente e mais palpável que a própria matéria de que faz marketing: a politica.
Como foi possível ter-se aqui chegado, essa é uma outra e longa discussão da qual aliás Portugal não deveria de todo em todo alienar-se; devia antes de mais, com todas as suas forças, encará-la de frente, sobretudo tendo presente tristes exemplos recentes e que remetem para uma escalada sem precedentes deste pequeno vício, quando um ex-presidente da câmara de Lisboa chegou ao ponto de criar “moopies” gigantes lembrando já em pleno mandato da obra que chegaria, para a qual antes de mais foi eleito e era suposto sem demoras concretizar. E aqui qualquer dólar faz parte da diferença. Nesta bulimia do retoque, da maquilhagem, nesta voragem da imagem, nesta espiral do incessante e egocêntrico “Já repararam que...”, os trapos e os cremes são caros. E o conteúdo, para quem o tem, torna-se um fardo, a esconder se possível, por uma cinta. Ora nada pior para quem tenha um certo peso e conteúdo, num momento de hesitação no turbilhão sempre imbecil da imagem, considerá-la um fardo. Será que os macacos, esses animais que também sabemos que teclam, terão um dia direito aos 15 minutos de fama profetizados por Warhol? Que acontecerá ainda se esse macaco tiver muito dinheiro? Teremos nós coragem para jogar bridge com ele? Quanto vale um “bluff” de quem tem as costas quentes?
Por último, o terceiro e derradeiro vértice: as armas. Ou melhor, o complexo Militar-Industrial Americano e as suas “preemptive” relações com o poder em Washington. Não me vou demorar muito com este ponto, até porque o meu comentário vai longo e muito já se escreveu sobre este mesmo assunto. De qualquer modo, gosto de relembrar sempre esse discurso verdadeiramente visionário de Dwight Eisenhower em 1961, ao despedir-se dos Americanos, a 3 dias de cessação das suas funções presidenciais. É uma leitura não só rica em “insigths” como poderosa pelo facto de ter agora quase a bonita idade de 45 anos, e continuar infinitamente pertinente, tão quanto as eleições do passado dia 2 de Novembro nos Estados Unidos, o foram para o resto do Mundo. Para quem deseja saber o que foram parte dos últimos 4 anos e parte substancial do que serão os próximos 4 por ventura em terras do Irão e da Siria, qual Indiana Jones, e não na Coreia-do-Norte (sabe-se lá porquê; ... eu tenho as minhas desconfianças), está tudo aqui:
http://coursesa.matrix.msu.edu/~hst306/documents/indust.html.
Findo o périplo pelos 3 vértices, uma coisa é certa, pelo menos para mim próprio. A América que sempre respeitei, que aprendi a amar, a América da pluralidade, a América da ciência, a América dos grandes feitos, a América dos The Doors a Frank Zappa, de Hemingway a Cassavetes, a América India, a América “Jam-session”, a América aberta, ... vai ter de esperar. Ou mover-se para o Canadá.
Vitorino Ramos, Nov. 8, 2004, ao som de Dave Matthews Band, “Dont’t Drink the Water”, Live in Chicago (12.19.98) at the United Center, Disc one."

Publicado por tchernignobyl às 12:50 AM | Comentários (1)

novembro 09, 2004

CARNAXIDE CONNECTION

Ao contrário do Luis, do Jorge e da esmagadora maioria dos comentadores deste blogue, devo dizer que gostei do novo programa de debate da SIC Notícias («Eixo do Mal», sábados, à meia-noite). É um espaço novo, a precisar de rodagem e afinação, mas parece-me que tem condições para se tornar, em breve, uma espécie de «Manhattan Connection» cá do burgo. As importações da blogosfera (Daniel Oliveira, à esquerda; Pedro Mexia, à direita) são muito fortes e esclarecidas, só lhes faltando, talvez, um pouco do traquejo que Clara Ferreira Alves já revela.
É certo que ainda há problemas de ritmo, que Nuno Artur Silva precisa de controlar melhor a conversa e que José Júdice andou um pouco perdido, mas não há ali nada que me pareça irremediável (com excepção do cenário: um desvario cromático ultra-pop que faz lembrar, pelo ruído visual que provoca, as criações televisivas de Tomás Taveira).
Dêem tempo ao tempo, caros amigos e leitores. Que eu saiba, nenhum programa nasce perfeito. E nenhum merece o enterro precoce que muitos já quiseram fazer a este «Eixo». Lendo o que por aqui se escreveu, até parece que o resto do panorama televisivo é o paraíso, ao nível do canal Arte ou da HBO...
Por mim, dou-lhes (aos cinco) bastante mais do que o benefício da dúvida.

Publicado por José Mário Silva às 08:13 PM | Comentários (0)

E O FASCISMO VAI-SE INSTALANDO

Leiam isto e "divirtam-se". (Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 07:36 PM | Comentários (3)

DEUS, MADE IN THE USA (4)

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias: Nas primeiras décadas do século XIX, um profeta chamado Joseph Smith é visitado por Deus em pessoa, Jesus Cristo e ainda por uma espécie de anjo, chamado Moroni. Este último revela-lhe a existência de umas "Tábuas de Ouro", escondidas algures no estado de Nova Iorque. Usando a sua "pedra mágica", Smith encontra o tesouro e trata logo de traduzir as revelações nele inscritas em Egípcio. O texto assim descoberto, o Livro de Mórmon, contém as aventuras de estranhas tribos perdidas no continente americano (há quem diga que tal relato é muito similar a um romance fantástico que Smith teria visto ainda em provas tipográficas). Claro que as famosas tábuas trataram de desaparecer tão misteriosamente como tinham antes surgido...
O resto é História: depois de perseguições e outras atribulações, a Igreja estabeleceu-se firmemente no Utah e um pouco por todo o lado. Hoje, conta com mais de 10 milhões de seguidores e com um "músculo" financeiro assombroso, o que dá meios aos mórmones para abraçar alegremente uma das suas grandes paixões: a genealogia. Eles operam mais de 3.000 centros de "história familiar", espalhados pelos quatro cantos do mundo. A ideia é oferecer a todos os falecidos a rutilante oportunidade de se juntarem à "grande congregação no Céu". Assim surgiram também os "baptismos dos mortos" que ainda há bem pouco enfureceram a comunidade judaica americana, acabando 380.000 vítimas do Holocausto por ser retiradas à força das listas dos mórmones.
Hoje, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias está em pleno esforço de "normalização": aboliu o uso generalizado da poligamia entre os seus e declararou-se "cristã", apesar de algumas bizarrias na sua teologia, como o facto de considerarem Jesus um ser humano em busca de elevação ao estatuto divino e acreditarem que até Deus já foi, em tempos, humano. Aliás, se nos aplicarmos, cada um de nós ainda poderá ser nomeado divindade maior de algum planeta distante!
Caso a coisa vos parece divertida ou promissora (pelo menos no que toca à poligamia), podem procurar mais informação aqui.

Aviso: as descrições acima não foram retiradas de histórias antigas do Super-Homem. São, de facto, artigos de Fé para milhões de seres humanos. São, para muito deles, a parte mais relevante da sua existência. Não deveriam constituir motivo de troça para gente tolerante e civilizada.

Publicado por Luis Rainha às 07:09 PM | Comentários (1)

H2SO4

Tem calma, Pedro. Isso resolve-se.

Publicado por José Mário Silva às 06:39 PM | Comentários (5)

DOR DE COTOVELO

Um gajo começa a sentir-se perigosamente velho quando abre o jornal e descobre que o Goncourt foi atribuído, como quem não quer a coisa, a um tipo quatro meses mais novo (mas já com nove livros publicados). E o pior mesmo, tenho que admitir, são os nove livros publicados.

Publicado por José Mário Silva às 06:11 PM | Comentários (11)

DEUS, MADE IN THE USA (3)

Os Cristãos Sionistas: Que muitos cristãos conservadores apoiem a todo o custo o Estado de Israel parece, à primeira vista, indicador de uma aliança contranatura. Mas as crenças e atitudes dos seguidores do Dispensionalismo são ainda bastante mais estranhas do que isso. Eles acreditam que Cristo não voltará, para o seu Reino de mil anos, até que o "povo escolhido" tenha retomado a posse de todo o "Grande Israel" e reconstruído o seu Templo. Depois, seguir-se-á a batalha do Armagedão, em que cerca de dois terços de todos o povo judaico perecerão; o terço remanescente, claro está, converter-se-á ao cristianismo. Não acreditam? Então, leiam aqui provas da existência de gente que acredita sem hesitar em semelhantes patranhas e age em consonância: "the International Fellowship of Christians and Jews has raised over $60 million for Jewish immigration and relief efforts in Israel during the past eight years—most of it coming from some 250,000 evangelical Christian donors. Another group, Christians for Israel/USA, says it has raised funds to help more than 65,000 Jews from the former Soviet Union and elsewhere immigrate to Israel since 1991. In doing so, says the Rev. James M. Hutchens, the group's president and a Presbyterian minister, ‘we believe we are fulfilling a divine calling … to assist the Jewish people in their physical return and restoration of the land of Israel’."
Em resumo: ajudam judeus a emigrar para Israel "sabendo" que 2/3 deles vão em breve ser massacrados... ricos amigos.

Aviso: as descrições acima não foram retiradas de histórias antigas do Super-Homem. São, de facto, artigos de Fé para milhões de seres humanos. São, para muito deles, a parte mais relevante da sua existência. Não deveriam constituir motivo de troça para gente tolerante e civilizada.

Publicado por Luis Rainha às 04:15 PM | Comentários (9)

DEUS, MADE IN THE USA (2)

Os Cientologistas: Há 75 milhões de anos, a Confederação Galáctica era governada por uma criatura de maus-fígados chamada Xenu. Este poderoso oligarca tinha um problema bicudo para resolver: todos os planetas sob o seu domínio tinham uns biliões de habitantes a mais. Que fazer? Simples: o traiçoeiro Xenu, com o apoio de uns quantos meliantes, droga todos os incontáveis supranumerários e enfia-os em foguetes com a Terra (que então se chamava Teegeeack) por destino. Uma vez cá chegados, os infelizes foram armazenados junto a vulcões e posteriormente reduzidos a vapor por poderosas bombas nucleares.
Eventualmente, Xenu teve o fim do todos os tiranos e foi deposto, embora ainda continue vivo. O grande problema é que as almas (Thetans) de todos os massacrados continuam a assombrar o nosso planeta. Na sua configuração mais perigosa - Operating Thetans - pegam-se às nossas pobres cabeças como carraças num collie. Para os exterminar, entra em cena a Igreja da Cientologia, mais a sua doutrina da Dianética: com caros e prolongados tratamentos, os devotados sacerdotes conseguem livrar os pategos, perdão, os crentes, de tais pragas intergalácticas. Por coincidência, parece que quanto mais rico é o fiel, mais Operating Thetans carrega às cavalitas e de mais tratamentos carece...
Ridículo? Ora perguntem ao Tom Cruise, a resmas de celebridades e a hordas de tontos anónimos se a igreja fundada pelo escritor de ficção científica Ron L. Hubbard não é a resposta para todos os dilemas da Vida e da Morte...
Aqui, está uma explicação completa desta vigarice disfarçada de religião. E aqui podem encontrar o Centro de Dianética mais próximo. Tenham cuidado é a comentar tais assuntos em locais públicos: a Igreja é conhecida por ser bastante vingativa e sustentar os advogados mais ferozes dos EUA...

Aviso: as descrições acima não foram retiradas de histórias antigas do Super-Homem. São, de facto, artigos de Fé para milhões de seres humanos. São, para muito deles, a parte mais relevante da sua existência. Não deveriam constituir motivo de troça para gente tolerante e civilizada.

Publicado por Luis Rainha às 02:47 PM | Comentários (10)

DEUS, MADE IN THE USA (1)

Imagine que está num autocarro, mais ou menos confortavelmente sentado, enquanto olha para a paisagem, para o "Correio da Manhã" ou coisa que o valha. De repente, ouvem-se gritos por todo o lado. Metade dos passageiros desapareceu; no seu lugar, só se vêem pilhas de roupas, um ou outro par de óculos e até algumas próteses dentárias. Lá fora, em Lisboa e por todo o mundo, reina o pandemónio: carros seguem desembestados rua fora sem condutor, aviões privados de pilotos caem que nem tordos, etc. Ao fim do dia, chega o incrível ponto da situação: para aí uns 20% de todos os seres humanos desapareceram sem razão nem destino aparente. E nem os mortos se safaram: por tudo quanto é cemitério, abundam caixões abertos e vazios. A última morada dos bons cristãos, afinal não era bem a última.
Ah, é verdade: devia ter escrito "20% de todos os seres humanos que acreditam em Jesus Cristo". Muçulmanos, budistas, hindus, comunistas e outros incréus não foram levados para parte alguma. Isso queriam eles.
É que os que por cá ficaram são os desgraçados que não sofreram uma metamorfose gloriosa e não ascenderam até à companhia do Senhor. Os Justos, Piedosos e Crentes seguiram viagem na grandiosa excursão a que um número crescente de malucos chama "The Rapture".
Este termo, supostamente descendente do Latim "Rapare" – levar, agarrar -, tem, em Inglês, um significado corrente: "êxtase". (Em Português, proponho o vocábulo "Arrebatamento", que também pode implicar movimento ou arroubos espirituais.) E descreve o momento em que os preferidos de Deus serão levados, sem aviso, para perto Dele. Claro está que o Fim do Mundo e o Juízo Final não tardarão muito, depois de tal evento. Atenção: não se trata de profecias para um futuro distante e enevoado; estes dias terríveis já chegaram, o fim está mesmo ao virar da esquina!
Tal crendice pré-milenar baseia-se numa só passagem bíblica: "Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor" (1 Tessalonicenses 4:16-17). Mas é partilhada por um número crescente de Evangelistas mais fundamentalistas, sobretudo nos EUA, mas também em várias outras latitudes.

Olhem que esta versão muito peculiar da Parúsia não é exclusivo das alminhas mais afectadas por reposições do "Star Trek"; trata-se de uma crença firmemente arreigada no espírito de muitos milhares, talvez milhões. Já existe abundante literatura, mesmo de ficção, sobre o tema; só esta série já contém 12 títulos e todos venderam como pãezinhos quentes. Malta há que até deixou cartas a explicar o assunto aos que não terão a sorte de partir. Grandes discussões tentam averiguar se o Arrebatamento será "Pre", "Post" ou "Mid-Tribulation", ou seja, se iremos para os anjinhos (literalmente) antes, depois ou durante o período de cataclismos, pestes várias e tumultos com que Deus nos vai pela certa mimosear: a tal Tribulação. Se isto já vos parece complicado, então nem olhem para o gráfico "explicativo".
Como não podia deixar de ser, todas estas crendices têm o seu lado político. Neste curioso site por exemplo, podemos descobrir detalhadas explicações profético-teológicas para a situação no Médio-Oriente, dando especial atenção ao Iraque e a Israel.
É difícil aquilatar a representatividade de tais alienados. Mas também é disto que falamos quando falamos dos "evangelistas" que votaram em bloco no presidente Bush II. Assustador, não é?

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (11)

O ASSUSTADOR PRESENTE DA HOLANDA

Publicado por Jorge Palinhos às 11:02 AM | Comentários (4)

DICA GRATUITA

Depois da série Fonseca e da série Meireles, sugiro à malta do Gato Fedorento as seguintes séries: Antunes, Cardoso, Mendonça, Araújo, Barbosa e Fagundes. Chega?
[Não precisam de agradecer, pá. Eu contento-me com um dvdzinho, se não for pedir muito.]

Publicado por José Mário Silva às 11:00 AM | Comentários (0)

O MAU ANIVERSÁRIO ALEMÃO

Kristallnacht.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:58 AM | Comentários (0)

O BOM ANIVERSÁRIO ALEMÃO

A queda do muro de Berlim.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:52 AM | Comentários (2)

CONSEQUÊNCIAS

Uma maioria de eleitores americanos escolheu mais do mesmo. Porque teme o futuro. Porque odeia a incerteza. Porque não tolera a crítica. E por isso recusa a ciência e a racionalidade em favor do obscurantismo. A continuação do declínio dos EUA é inevitável.
Os Europeus vão definir cada vez mais o que acham importante, a sua identidade, em oposição àquilo que para eles caracteriza os EUA, consubstanciado em Bush e nas suas políticas: a ciência e a tolerância contra o obscurantismo e a exclusão; a negociação e o consenso contra o unilateralismo e a prepotência. Sai assim prejudicada a Direita Europeia, identificada com Bush e as suas políticas. Que partido de Direita conseguirá sair vencedor de eleições enquanto a Esquerda puder argumentar que elegendo a Direita torna-se muito mais provável o respectivo país ser arrastado para mais uma guerra de Bush?... Que se torna mais provável a Europa ficar como os EUA?... Blair e Berlusconi ficaram em muito pior posição com a re-eleição de Bush, tal como a oposição conservadora alemã, enquanto Chirac sorri com a perspectiva de fazer avançar a integração europeia em oposição aos EUA.
É agora ainda mais claro que a Esquerda, nomeadamente nos EUA, só conseguirá ser maioritária se construir uma visão popular, alternativa e positiva do futuro. Populista. Que proponha uma redistribuirão do poder económico e político. Apelando a mais democracia, mais participação nas decisões. O poder nas mãos do povo. Uma visão positiva, que contraste com as consequências negativas produzidas pelas política de Direita. Deve recusar o jogo da Direita e não entrar em duelos de personalidades, concentrando-se antes na crítica de políticas e das suas consequências. A Esquerda tem que passar a ter um discurso e políticas mais marcadamente populares, atacando as elites de Direita, sociais e económicas. Mas para isso as elites artísticas e científicas de Esquerda têm de aprofundar um diálogo genuíno com a maioria espoliada pelas políticas de Direita, e procurar compreender as necessidades e os medos dessa maioria.
O recente renascimento da ideologia continuará e isso só pode ser uma má notícia para o neoliberalismo anódino e tecnocrata que procura impôr como pensamento único o seu credo. O fim da História está ainda muito longe...
(viana)

Publicado por José Mário Silva às 10:50 AM | Comentários (2)

UMA NOVA DEFINIÇÃO DE "BOMBARDEAMENTO CIRÚRGICO"



Ainda antes de chegar a presente "Fúria Fantasma", os mísseis americanos trataram de arrasar um hospital novinho em folha, oferecido à cidade de Fallujah pela caridade internacional. Ou seja: primeiro pedem ajuda para reconstruir o Iraque, depois dão cabo de tudo outra vez...

Publicado por Luis Rainha às 10:47 AM | Comentários (0)

novembro 08, 2004

UM TREINADOR ÀS ESQUERDAS

Ontem, o meu Vitória de Setúbal foi goleado no Estádio da Luz pelo Benfica (4-0) e perdeu a efémera liderança da SuperLiga. Uma derrota previsível, claro, embora não da forma como aconteceu. Para resumir tudo numa frase, diria que neste jogo atípico tudo nos saiu demasiado mal; enquanto aos “encarnados” tudo saiu demasiado bem (se excluirmos a lesão de Nuno Gomes).
E assim se esfumou a minha ilusão de grandeza, sob o peso de uma derrota exagerada. Porque, digam o que disserem, o belíssimo golo de Simão Sabrosa, já nos descontos, foi um golpe de misericórdia cruel para uma equipa que ainda conseguiu mostrar, no derradeiro quarto de hora, algum do seu elegante futebol de ataque.
Devo dizer que nada disto me apoquenta por aí além. É sabido que o Vitória não luta pelo título. E o facto de mostrar um entendimento positivo do jogo, sem as tácticas defensivas habituais nos clubes medianos, já me satisfaz. Aliás, o que me alegra acima de tudo é saber que a equipa está a ser comandada por um homem com o perfil e as ideias de José Couceiro. Caso não as tenham lido, reproduzo aqui as suas declarações ao «Diário de Notícias», no passado sábado:

DN- Jorge Valdano, uma vez, distinguiu os treinadores em dois tipos. Os de esquerda, que dão liberdade aos jogadores, que apostam nos criativos e no ataque; e os de direita, mais agarrados a esquemas tácticos e defensivos. Em qual dos campos alinha?
José Couceiro - Claramente no de esquerda. A todos os níveis sou de esquerda. Não tenho dúvidas sobre isso.»

Quantos treinadores de futebol portugueses seriam capazes de dizer o mesmo?

Publicado por José Mário Silva às 10:17 PM | Comentários (0)

O FOGO DOS CÉUS JÁ CAI SOBRE OS INFIÉIS

Quem esperava moderação e bom-senso por parte de uma Administração Bush em segundo mandato vai em breve poder regressar à realidade. Já começou o "ataque final" a Fallujah. Os bravos guerreiros do Senhor – prontos para "a maior batalha desde o Vietname" – prometem alvejar sem aviso qualquer "homem dos 15 aos 45 anos" que tente fugir da cidade e da "Operação Fúria Fantasma".

Publicado por Luis Rainha às 07:04 PM | Comentários (8)

A BOCARRA QUE ATACOU DE NOVO

Eu podia defender-me disto, alegando que a morte de Arafat, independentemente da tragédia humana, é um facto político que condiciona o processo de paz e logo pode ser visto puramente nesse prisma.

Podia invocar isto, dizendo que ao menos sou apenas um zé ninguém que fez uma constatação sobre um facto político, enquanto ele foi o Língua-de-Verme do homem mais poderoso do mundo a fazer insinuações sobre a vida sexual de um homem moribundo, vida sexual essa que não se concebe que impacto possa ter sobre a política do Médio Oriente.

Podia dizer que satirizava a impaciência israelita que já andava a discutir-lhe o túmulo mal o homem deu entrada no hospital.

Podia observar que estava apenas a reproduzir ironicamente o que muitos pró-israelitas defendiam abertamente (e alguns continuam a repetir). Basta lembrar a alegria efusiva quando um idoso paraplégico foi executado sem julgamento pelas forças israelitas.

Podia ficar ofendido ou, mais provavelmente, divertido e até tentar refutar as acusações de "mau gosto", "idiotice" e boçalidade irrecuperável ("big mouth strikes again") que me são imputadas.

Mas o que me impressionou verdadeiramente foi a comparação do meu humilde post de duas linhas com a reeleição de Bush ou com a actuação do Governo Santana.
Compararem-nos com um homem odiado por mais de 200 milhões de europeus e com um governo ridicularizado por mais de 60% dos portugueses é de causar vertigens a um gajo!


Publicado por Jorge Palinhos às 05:59 PM | Comentários (46)

A GENTE DOS FOGUETÕES ENCONTRA O HOMEM DA CHUVA



A NASA prepara-se para estudar em profundidade o cérebro de Kim Peek, o "mega-savant" que inspirou o filme "Rain Man". A ideia é observar o funcionamento de um intelecto incrivelmente poderoso em inúmeras áreas – Peek, entre muitas outras proezas, recorda-se ainda de 95% dos 7.000 livros que já leu e domina pelo menos 15 campos do saber – mas incapaz de tarefas quotidianas que nós, os "normais", executamos sem dar por elas, como vestir-se sozinho.
A "síndroma do savant" tem ganho visibilidade em anos recentes, acompanhando a crescente atomização do conceito de autismo e muito graças a vidas extraordinárias como a de Peek e da prodigiosa Professora Temple Grandin. Até há quem atribua aos "mega-savants" dons para-psicológicos...
Ainda criança Kim Peek apenas escapou ao internamento graças à dedicação dos seus pais, ambos médicos. Na altura de produção do filme que o celebrizou, tinha 37 anos e conhecia apenas cerca de 20 pessoas. Acabou por ser Dustin Hoffman a "libertá-lo", fazendo com que o seu pai prometesse revelar-lhe o mundo. Hoje em dia, Kim já o compreende bem, como atesta a resposta que deu a quem lhe perguntou se gostaria de ir ao Iraque falar às tropas americanas ocupantes: "É melhor eles voltarem a casa para que eu fale com eles aqui".

Publicado por Luis Rainha às 05:26 PM | Comentários (0)

O INVISÍVEL GENOCÍDIO PORTUGUÊS

(Voz feminina jovem e cheia de graves sensuais.)

- Estou sim, bom dia?
- Estou. Era para marcar uma consulta de ortopedia.
- Um momento... Neste momento só é possível marcar consulta para a próxima semana. Qual é o seguro?
- É pela Caixa.
- Então não é aqui. Vou passar para a colega.

(Voz estridente de mulher de meia-idade)
- Estou sim?
- Estou. Era para marcar uma consulta de ortopedia.
- Não é possível marcar consultas pelo telefone. Tem de vir cá pessoalmente e trazer o P1.
- ... Muito bem. Qual é o horário.
- Das 9h30 às 17h30, com hora de almoço entre as 13 horas e as 14 horas.
- ... 14 horas. Já agora pode-me dizer para quando será possível marcar uma consulta?
- Para Julho.
- Desculpe! Para quando?
- Para Julho.
- De 2005?
- Sim. Mas não é garantido que seja logo nessa altura.
- Obrigado.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:55 PM | Comentários (1)

TRISTES TIGRES

Eu até tinha uma vaga mas positiva ideia da pintura de Júlio Pomar. A minha memória encerrava uns quantos tigres de brilho borgesiano nos olhos e alguns retratos bem apanhados. Mas não conhecia a obra em extensão ou profundidade. Decidido a remendar a lacuna, fui ontem a Sintra apanhar o derradeiro dia da exposição "Autobiografia".
A desilusão foi quase total. Ao fim da hora que durou a minha visita, o maior elogio que conseguia articular era que Portugal esteve quase a ter ali um grande pintor mas, citando Sá Carneiro, "De tudo houve um começo ... e tudo errou... / Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... "
Ao longo da extensa carreira de Pomar, várias influências são facilmente decifráveis, à medida que caminhos para nortes diversos vão sendo sondados pelo pintor. Da fase dita "neo-realista", carregada de manifestos visuais, poderosos na sua ingenuidade, como o "Almoço do Trolha", devedora de Siqueiros e outros muralistas, às varinas que comem melancias enquanto piscam o olho a Picasso; sem esquecer os péssimos, pavorosos meninos em lágrimas. Teve ainda tempo para passar pela clara sombra negra de Goya, através de cegos, estaleiros e outras desgraças belíssimas, e desaguar em campos de cor fugidos das colagens de Matisse. Depois de tanta aventura, esta "asa que se enlaçou mas não voou" acaba por se acomodar num estilo – ou numa colecção de estilos, melhor dizendo – gentil e decorativo, articulado em colagens delico-doces, cores vibrantes a berrar testemunhos de experiências exóticas e retratos simpáticos e brandos.
Não é que a exposição esteja vazia de momentos interessantes; o tratamento que Pomar concede ao movimento, seja o de um touro ou de uma equipa de râguebi, é por vezes brilhante. Mas saí dali com a impressão de ter observado apenas um conjunto de boas ilustrações; narrativas visuais demasiado empenhadas em contar pequenas histórias, demasiado gentis e auto-indulgentes para que consigam descolar rumo a céus mais significativos.
Quando, numa sala carregada de pinturas, são os elementos estranhos à exposição que dominam com esmagadora autoridade todos os olhares, algo de estranho se passa. Isto acontece com o fabuloso "Celeiro" de Paula Rego e também com uma surpreendente "Cabeça", um Pollock pré-drip, ainda sob o fascínio de André Masson; estas pinturas cilindram todas as obras de Pomar com que dividem espaço, luz e atenções em duas das salas do simpático museu sintrense (onde, por sinal, fiz o meu ciclo preparatório).
Ainda por cima, só por ali avistei dois ou três tigres. Belos, acuados e enigmáticos. Mas insuficientes para caçar o visitante mais prevenido.

Publicado por Luis Rainha às 02:28 PM | Comentários (18)

CUIDADO COM OS ADJECTIVOS

Não sei se repararam, mas alguns comentadores de direita (sobretudo aqueles que conseguem ser mais bushistas do que o próprio Bush) andaram triunfantemente a clamar aos quatro ventos que a vitória de George W. foi esmagadora. A verdade é que, mesmo com o inesperado reforço da maioria no Congresso por parte dos republicanos, a diferença entre os dois candidatos à presidência pouco passou dos 3% — uma das mais reduzidas de sempre.
Que a vitória de Bush foi claríssima, sem margem para dúvidas, limpa e indiscutível (ao contrário do que aconteceu em 2000) ninguém põe em causa, por muito que nos doa. Mas esmagadora? Esmagadora?

Publicado por José Mário Silva às 12:20 PM | Comentários (3)

PERPLEXIDADE

Porquê tanto espanto com o "moral vote" das eleições americanas? Não é isso que o PP e o BE andam a tentar captar há já algum tempo?

Publicado por Jorge Palinhos às 11:51 AM | Comentários (1)

EIXO DO TAL

Vi dez minutos do "Eixo do Mal" (dose máxima de exposição à televisão recomendada pelos médicos), logo a minha opinião é no mínimo suspeita ou mesmo altamente errónea.
Mas:

1 - Pareceu-me uma tentativa de reatar a "Noite da Má Língua".
2 - Pareceu-me que os participantes não estão muito certos disso.
3 - Pareceu-me que o programa quer agradar a gregos e a troianos, sendo ao mesmo tempo sério e cómico.
4 - Pareceu-me que nem gregos nem troianos ficaram muito convencidos.
5 - O apresentador pareceu-me titubeante.
6 - Os participantes pareceram-me demasiado preocupados em defender as suas cores para usarem eficazmente a má-língua.
7 - Pareceu-me que a Clara Ferreira Alves julgou que estava no Rosa-Choque.
8 - O cenário pareceu-me perigosamente narcisista.
9 - O espaço pareceu-me mal aproveitado.
10 - Parece-me que ainda hei-de ver outra vez para confirmar ou contrariar as primeiras impressões.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:41 AM | Comentários (1)

A VERDADE SOBRE AS ELEIÇÕES

Fonte


O mapa acima reproduz os resultados das eleições americanas ao nível dos condados, tendo em conta a população de cada condado (que se traduz em maior área) e a percentagem de votos em cada partido (vermelho=maioritariamente republicano, azul=maioritariamente democrata, púrpura=equilibrado).
Visto assim parece muito menos assustador e quase belo.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:14 AM | Comentários (6)

ALGUMAS IDEIAS SOBRE A COBRANÇA DE PORTAGENS À ENTRADA DE LISBOA

Serve também de comentário ao texto "TÍPICO" do Jorge Candeias.
A cobrança de portagens à entrada de Lisboa parece-me uma boa medida, já implementada em outras cidades como Londres.
Se o cobrar estas portagens torna a circulação de cidades reservada aos ricos (eu chamar-lhes-ia antes alegres comodistas egoístas despreocupados com o ambiente, mas é sempre bom ver a palavra "rico" usada como sendo um defeito), os ricos que lhe façam bom proveito. Eu não acho que circular de carro dentro de uma cidade seja um direito.
Cobre-se então portagens e construam-se paarques de estacionamento nos arredores da capital. O sistema de transportes públicos DENTRO da cidade nem é nada mau.
Já aqui comentei que o aumento dos combustíveis devido ao aumento do petróleo é uma história muito mal contada. O petróleo transacciona-se em dólares, uma moeda que ainda no final da semana passada atingiu o seu mínimo histórico face ao euro. D emodo que onde deveria haver aumentos no preço do combustível seria nos EUA. Apesar de esses aumentos terem vindo a ocorrer, neste país a gasolina ainda é escandalosamente barata. Dito isto, enquanto eu vir carros a circularem dentro das cidades, ninguém me pode convencer de que a gasolina está cara.

Publicado por Filipe Moura às 08:27 AM | Comentários (5)

novembro 07, 2004

O MISTÉRIO DA LUZ (2)

crepusculo.jpg

Lisboa (Penha de França), 07/11/2004

Publicado por José Mário Silva às 10:21 PM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

É um poema fortíssimo, uma longa deambulação mental por frágeis territórios (o corpo, a cidade, a memória) e um exemplo de lirismo torrencial que coloca o seu autor, desde já, no círculo dos poetas italianos a que vale a pena estar atento. Muito atento.
O poema intitula-se «a inquisição» («l'inquisizione») e foi escrito por Tiziano Fratus, surgindo agora em português, numa tradução de Pedro Marques e Letizia Russo, mercê da cooperação entre os Artistas Unidos e a Editoria & Spettacolo, de Roma.
O que tinha a dizer sobre as muitas qualidades desta obra, disse aqui. Agora limito-me a cativar-vos para a leitura, espero eu, com a transcrição completa de um dos 33 fragmentos (Picta) que compõem o livro:

PICTA XIV

em pequim está ser construída uma casa de cimento ao lado da estátua de mao tze o timoneiro
daqui em diante — gritou aos quatro elementos o diário do povo —
a propriedade privada será um direito inalienável do indivíduo
quem sabe o que terão para comentar os filhos e as viúvas da revolução cultural
quem sabe o que terão para comentar as almas dos soldados mortos à míngua ao longo do eterno inverno da longa marcha
quem sabe o que terão para comentar as chusmas desatentas de naus piratas no mar amarelo
quem sabe o que terão para comentar as famílias de lavradores iludidos durante décadas para
poderem obter os mesmos privilégios dos burgueses ocidentais
quem sabe o que terão para comentar os burocratas míopes que nunca avançaram na carreira durante o grande salto em frente
quem sabe o que terão para comentar os pandas extintos pelo seu perfil arredondado e engraçado
em tiananmen um rapaz bloqueou com o seu próprio corpo a fuselagem de um tanque
e durante a noite milhares de estudantes foram esventrados
poucos anos a seguir os adolescentes ficam durante horas nas praças a olhar fixamente para os fonómetros digitais
a coleccionar etiquetas de roupa da moda revistando os caixotes de lixo
o vício que como um beijo rapta prende e refreia inflama as horas
espalha os desejos recolhidos ao longo de uma vida inteira feita de processos e sentenças despido e desossado os membros cansados rasgados o rabo avermelhado
jazes nas margens do mar em cima das rochas mais escuras esperando uma voz que te consiga libertar da piedade por ti próprio
uma estória que obnubile a obsessão
uma carícia e um olhar que alivie o desejo do regresso (vietcong sem pistola)
gostavas de te aproximar e chupá-los aqueles lábios de fêmea
escavar em silêncio com uma colher de café um nicho
mas depois apercebes-te que na cidade só se constroem complexos desportivos
não há consideração nenhuma pelos habitantes apaixonados
da janela de casa vês um bairro que tem outros bairros atrás
prédios rectangulares demasiado próximos à ordem do cimento
pessoas que habitam e vivem para poupar dois tostões todos os dias
pagar os estudos aos filhos que quando licenciados em literatura terão de se adaptar à
força a trabalhos para certificados do décimo segundo ano porque nas faculdades já não
existem mestrados e os docentes reformam-se quando passam os setenta
e para trabalhar num jornal é preciso ter padrinho que porém não avisa que a crítica condena se
se sentir nessa obrigação porque cuidar da vida que surge das tampas de esgoto e explode nas
caves nem pensar
nas editoras amplas comités de redacções estão ocupados a alimentar as carátides
mas até é pior para além das fronteiras nos bairros que nem se vêem de longe do centro da cidade
parecem mistérios eleusinos as planícies de marte o deserto do nevada
lá condomínios inteiros acordam ao som de um único despertador apanham o mesmo
autocarro tentam não perder o equilíbrio e assinam o ponto a horários fixos por contrato
todos os dias 28 de todos os meses recebem o ordenado portanto está tudo pronto para uma
invasão colectiva dos parques dos centros comerciais onde trabalham os tios os primos os ex-
colegas de turma
uma contínua colisão de carrinhas que cintilam e redemoinham elevando-se acima da
linha dos ombros
enquanto o fluxo incondicional do dinheiro desemboca nos bolsos dos directores dos bancos e
dos conselhos de administração que pelo contrário vivem no centro
vão à estreia da lírica no teatro régio têm bilhetes à borla convites
e os trabalhadores eles é que sim têm de pagar até ao último cêntimo se é que conseguem encon-
trar um bilhete qualquer que não foi levantado
nada é tão desapiedado como os homens acostumados à beleza

Publicado por José Mário Silva às 07:23 PM | Comentários (1)

7 DE NOVEMBRO

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Passa-se hoje mais um aniversário da Revolução dos Sovietes, mais concretamente da tomada de São Petersburgo pelos bolchevistas, que viriam a estabelecer pela primeira vez na história um regime socialista. Não me importam todos os horrores que daí advieram (não necessariamente por causa disso); não me importa que o muro de Berlim tenha caído e a URSS seja uma página virada da história; não quero saber se os nostálgicos da União Soviética são hoje um gueto que se recusa a ver e a aceitar o mundo como ele é. Não me importa o que possam dizer. Sempre comemorei e hei-de comemorar esta data por toda a minha vida.

Publicado por Filipe Moura às 08:37 AM | Comentários (27)

ESTADO MENTAL CRÍTICO

Não vos venho dar novas da suposta morte cerebral de Arafat. Mas quase: o título deste post é uma ligeira corruptela do nome da coluna do famigerado "Espadinha" no "Expresso". Desta vez, ele dedicou-se a disparatar sobre o tema do aborto. O texto, chamado "Vamos ao circo", arranca em grande estilo: "uma rapariga de 21 anos é absolvida da prática de aborto. Fatalmente, os suspeitos do costume comparecem à chamada e tratam de fazer o seu número de circo com ruído, desonestidade e muito garbo". Vá lá; conseguiu escrever um parágrafo sem usar as palavras "esquerda" ou "trupe".
De seguida, mete os pés pelas mãos ao escrever "não vale a pena introduzir um módico de racionalidade no discurso", fazendo de conta que "módico" é substantivo e não adjectivo - isto de ler muitas revistas da moda em Inglês tem efeitos secundários destes...
A prosa arrogante e chocarreira trata depois de "afirmar duas tristes, ignoradas e escondidas verdades. Em primeiro lugar, que a lei portuguesa já prevê e já defende a interrupção da gravidez quando existe perigo para a saúde da mãe: não apenas para a saúde física – mas sobretudo psíquica, o que sem dúvida lhe concede uma generosa abrangência. Em segundo lugar, que a lei portuguesa não difere, no essencial, da actual legislação espanhola sobre a matéria, considerada um exemplo de ‘humanidade’ e ‘progresso’ pela voz inconfundível das patrulhas. O problema não está na lei; está, como facilmente se entende, na aplicação da lei".
Como é hábito, ficamos sem saber se a criatura, pura e simplesmente, não sabe do que fala, ou se mente sabendo que o faz. Destrinçar, nos escritos deste indivíduo, a ignorância da aldrabice é sempre tarefa arriscada. Por mim, apostaria que se trata de uma equilibrada mistura dos dois ingredientes. Mas vamos lá aos factos.

O que se passa com as leis relativas ao aborto, na Península? O artigo 142.º do nosso Código Penal descreve os casos em que a IVG é legal, começando por: "a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;"
Por acaso, o artigo 417 bis do Código Penal dos nossos vizinhos até faz exigência parecida: "Que sea necesario para evitar un grave peligro para la vida o la salud física o psíquica de la embarazada".
Só que se nota uma crucial divergência. A falta dos qualificativos "irreversível" ou "duradoura", a classificar os perigos que a saúde psíquica da mulher grávida terá de correr para que a IVG seja legalmente praticada. O que faz toda a diferença: imaginam algum psiquiatra a certificar que alguém - que não um convalescente de AVC ou de lobotomia - tem problemas psíquicos indeléveis e incuráveis? Claro que não.
Mas há mais. A Lei 90/97 veio deixar claro que "o Governo adoptará as providências organizativas e regulamentares necessárias à boa execução da legislação atinente à interrupção voluntária da gravidez". Isto aconteceu com a Portaria n.º 189/98, que obriga à constituição de "comissões técnicas de certificação", compostas por "três ou cinco médicos como membros efectivos e dois suplentes", incluindo "a presença obrigatória de um obstetra/ecografista, de um neonatologista e, sempre que possível, de um geneticista, sendo os restantes elementos necessariamente possuidores de conhecimentos categorizados para a avaliação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez". Coisa simples e pouco burocrática, claramente vocacionada para simplificar a vida às grávidas em risco. Eis como a lei se viu regulamentada com toda a "generosa abrangência".
Já se começa a tornar claro o abismo que separa esta situação da espanhola, não? É que lá, nas clínicas que hoje já atraem mais de 2.000 portuguesas por ano, basta um exame médico e uma consulta com um psicólogo para o procedimento poder avançar.
O Espadinha, na sua ânsia de fugir à tal "desonestidade", atropela com indiferença estes pormenores. E tem a supina lata de rematar a asneira com um tronitruante "que estas duas verdades sejam sistematicamente iludidas na histeria presente, eis um traço que não espanta nem horroriza. No fundo, o circo mediático não passa por uma lei razoável e justa (que já existe). Ou pela aplicação dessa lei razoável e justa (que não existe). Passa pela consagração do aborto livre."
Este gajo usa o drama de uma miúda – denunciada por crápulas hospitalares que esqueceram os seus deveres deontológicos – para mentir. E para insultar todos os que se atrevem a acalentar opinião diversa: quem discordar de leis tão "justas", só pode querer que o aborto se popularize como passatempo nacional. Reflexos de falhas de carácter que já não surpreendem ninguém; não depois disto.

Desculpem lá as longas transcrições desta porcaria. Mas amanhã, quando lerem os panegíricos dos idiotas do costume, deslumbrados com mais este achado "do João", já sabem de que é que eles estão a falar.

Publicado por Luis Rainha às 02:01 AM | Comentários (5)

O EIXO MOLE

O "Eixo do Mal" estreou há bocadinho. Jon Stewart pode dormir descansado: não é desta que o seu "Daily Show" topa com concorrência séria. Este programa de debate da SIC Notícias reúne dois bloguistas ilustres, o Daniel Oliveira e o Pedro Mexia, e duas múmias célebres, Clara Ferreira Alves e José Júdice; tudo sob a batuta de Nuno Artur Silva, que não tem qualquer espécie de jeito para aquilo.
Mais do que grandes novidades, descobre-se ali uma lúdica batalha de egos: o Daniel, mais exuberante, "acha" coisas a torto e a direito; CFA é a grande educadora das massas que, em vez de opiniões, oferece catadupas de certezas definitivas e - julga ela - bem informadas, com tempo até para apartes didácticos como o precioso "tenho de explicar aqui que ‘nojo’ é ‘luto’"; Mexia surge como o polemista mais ponderado, claro e calmo. De Júdice, pouco se ouviu. Em suma: uma espécie de cruzamento entre a "Noite da Má Língua" e um daqueles programas com o Pacheco Pereira.
Uma palavrita de apreço para o hiper-colorido e patusco cenário, feito à base de fotos dos intervenientes; talvez já a antecipar e preparar o lançamento dos respectivos cromos Panini.

PS: não percebi aquela relutância em revelar a ocupação do Daniel. O "oráculo" chamava-lhe "colunista", aliás como aos outros todos (há mais colunas do que vértebras, neste país), e foi apresentado como "jornalista" e "assessor do parlamento". Teve de ser o próprio, pressurosamente assessorado pela Clarinha, a assumir o seu vínculo ao BE.

Publicado por Luis Rainha às 12:59 AM | Comentários (15)

novembro 06, 2004

O MISTÉRIO DA LUZ

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Sagres, 27/10/2004

Publicado por José Mário Silva às 09:02 PM | Comentários (1)

COMO SE CRIA SIMPLICIDADE

O Luís acha que a mensagem de Bush era mais simples porque a situação o favorecia. Não digo que isso seja inteiramente falso, mas penso que a situação favorecia a posição republicana pois eles trabalharam para isso, criando um contexto em que todas as suas decisões pareciam sensatas, óbvias e intuitivas.
Vou tentar demonstrar como isso se faz.

Este é um excerto de uma notícia de anteontem:

"I think it is a real possibility," said Senator Sam Brownback, Republican of Kansas, a champion of social conservative causes. In the meantime, he said, he also hoped to pass other measures conservatives had campaigned for this year, including an "Unborn Child Pain Awareness Act" requiring some women seeking abortions to be offered anesthesia for their fetuses.
NYT

"Unborn Child Pain Awareness Act" e "anesthesia for fetuses". Perguntarão vocês inquietos: isto quer dizer que os fetos sentem dor durante o aborto? Não. Segundo os especialistas é praticamente impossível um feto sentir dor antes das 26 semanas visto as suas ligações neuronais não estarem activas. E nos EUA o aborto só é legal até às 24 semanas.
Então que significa esta proposta? Simplesmente, ao promover-se um programa aparentemente inócuo ("Qual é o mal de querer que o feto sofra o menos possível? Não é isso que todos desejamos?") está-se a passar uma mensagem intuitiva e potente: a de que o feto pode sentir dor durante o aborto. Esta ideia, quando passada para o público em geral pode ser um possível dissuasor do aborto - qual é a mulher que, além do sofrimento de abortar, suporta a ideia que além de destruir uma potencial vida está ainda a causar-lhe sofrimento? - e servirá ainda de base para atacar a despenalização do aborto, pois permite todo o género de extrapolações para o direito à vida do feto.
Se o programa tiver sucesso, e é fácil imaginar a dificuldade dos congressistas moderados para justificarem o chumbo a uma proposta que "quer apenas garantir o menor sofrimento possível a todas as partes envolvidas no doloroso processo de aborto", então podem conceber como se tornarão os debates televisivos sobre a penalização ou não do aborto:

Fundamentalista anti-aborto - E veja-se o sofrimento que o aborto causa aos bebés!
Moderado pró-escolha - Mas os fetos não sentem dor.
Fundamentalista anti-aborto - Como é que não sentem dor! Então para que é o governo aprovou um programa nacional para dar analgésicos aos pobres bebés que são mortos durante o aborto?

E aqui o infeliz defensor do direito de optar pode: a) jurar veementemente que é impossível os fetos sentirem dor e passar por extremista/radical/lunático; b) dizer que é uma conspiração do governo para atacar o direito de optar e faz papel de paranóico; e c) multiplica-se em explicações científicas e justificações e é considerado pretensioso/chato/incompreensível e ninguém se lembra do que ele disse.

A simplicidade não é uma questão de sorte, é uma questão de método.


Publicado por Jorge Palinhos às 06:59 PM | Comentários (10)

E SE FÔSSEMOS MESMO PASSADORES?

A ideia nasceu de um texto de Daniel Pennac, onde às tantas se diz isto:

«Sem os homens e as mulheres que dele fazem parte, sem toda essa vida que fervilha dentro dele e à volta dele, sem que o tenhamos lido, sem os poucos ou os muitos a quem iremos divulgá-lo, sem esse desejo de o fazer passar de mão em mão, o livro não é nada.»

Depois, o conceito organizou-se em torno de um eixo: a imagem dos passadores de livros, de leituras, de palavras. Tráficos, trocas, contrabandos. Partilhas de um prazer comum, de um vício salutar. No centro de tudo, a Eduarda Dionísio. Palco das conversas e das agitações: a Abril em Maio. Lema: «E se fôssemos mesmo passadores?»
A coisa começou a 8 de Outubro e acaba no próximo dia 8. Hoje, daqui a pouco (às 16h00), acontecerá um debate que é um encontro. Luiz Rosas, da associação Cardan de Amiens, inventor da «Leitura Furiosa», falará com alguns dos escritores portugueses que prolongaram aquela experiência de integração dos «excluídos da leitura», em Lisboa, de há uns anos para cá. Para além de Rosas, estarão presentes Filomena Marona Beja, Miguel Castro Caldas, Armando Silva Carvalho, José Mário Silva (moi même) e ainda Isabel Galvão e Maria Cabral.
Estão todos convidados. Até já.

Publicado por José Mário Silva às 03:34 PM | Comentários (0)

TÍPICO

Típico.
Há décadas que se sabe que, mais tarde ou mais cedo, iria chegar um dia em que as torneiras do petróleo se começariam a fechar e que, devido às implacáveis leis da oferta e da procura, o preço começaria a subir imparavelmente. Há décadas que se sabe que esse acontecimento iria ser devastador para todas as economias desprovidas de alternativas energéticas, capazes de continuar a fornecer energia a um preço aceitável. Há décadas que sucessivos governos vêm sendo alertados para a necessidade de tomar medidas que permitam reduzir a dependência do petróleo em Portugal. Há décadas que se fala em alternativas para a produção energética e em medidas para a redução do consumo de produtos petrolíferos.
E que foi feito?
Nada. Os transportes públicos são insuficientes e de qualidade duvidosa nas grandes cidades e praticamente inexistentes fora delas, o que praticamente obriga milhões de portugueses a utilizar automóveis particulares. Não existe uma rede de abastecimento alternativa à rede de postos de gasolina, o que é o maior travão à disseminação de veículos movidos com outros tipos de energia. Num país com condições soberbas para uma aposta efectiva em energias alternativas, renováveis e limpas, na medida do possível, praticamente não há instalações de produção dessas energias. Além de algumas centrais hidroeléctricas, além de umas poucas e pequenas centrais de aproveitamento de energia eólica, além de colectores domésticos de energia solar, que em geral servem apenas para aquecer água, nada existe.
Em países com muito menos sol que o nosso, há grandes centrais solares; em países com menos costa que o nosso há centrais de aproveitamento da energia das marés ou das ondas, em países menos ventosos que o nosso, há muito maior produção de energia eólica.
Em lugar de nos prepararmos para o futuro, seguimos o caminho mais fácil, deixando crescer desmesuradamente a pegada ecológica e preparando-nos despreocupadamente para violar os compromissos assumidos em Kyoto.
E agora, quando um petróleo a 50 dólares o barril nos vem bater à porta como prenúncio dos tempos que estão para vir, quais são as soluções que as brilhantes cabecinhas que nos governam conseguem imaginar? Para já, ao que parece, impôr portagens para entrar nas grandes cidades, decerto apenas suficientes para que os ricos passem a ter menos trânsito a atrapalhar os seus sorvedouros de gasolina de grande cilindrada e para adicionar mais uns milhares de futuros ex-remediados às infernais bichas de transportes públicos eternamente à espera de investimentos, incapazes de sustentar os seus carrinhos económicos E as portagens. E para mais tarde? Pois que havia de ser? O nuclear, claro.
Típico.
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 03:30 PM | Comentários (1)

O MOMENTO DE PAZ

Momento de Paz Judaico-muçulmana Fora do Hospital: «Um rabi judaico e um religioso muçulmano apertam as mãos e trocam votos das melhoras do líder palestiniano. "Estamos aqui para mostrar a nossa solidariedade com os nossos irmãos muçulmanos", disse o rabi, chefe da comunidade ortodoxa de Viena. "Sentimo-nos muito envergonhados da barbárie contra o povo palestiniano".» E, no entanto, ele abre os olhos...

Publicado por Filipe Moura às 12:57 PM | Comentários (1)

A "ENTIDADE" ESTÁ DE VOLTA!

Mais feio que o Predator; mais esquisito que o Alien; mais desfasado da realidade que o Mr. Magoo. Falo, como já devem ter adivinhado, de Nuno Cardoso. O estranho indivíduo não desistiu de se colocar em bicos dos pés para ser o candidato do PS à câmara do Porto. E agora até ganhou um belo tique, que partilha com Napoleão, Marco Paulo e moles de valorosos futebolistas e veteranos da Volta a Portugal: falar de si mesmo na terceira pessoa. "Quero que o PS ganhe e ajudarei à vitória"; mas "há uma outra entidade, Nuno Cardoso, que foi presidente da Câmara do Porto e que tem um índice de popularidade indiscutível".
É daqueles casos que nos fazem ver que não é só no dicionário que "pateta" e "patético" andam juntinhos.

Publicado por Luis Rainha às 12:32 AM | Comentários (2)

MAIS UMA SINISTRA MANOBRA DE BUSH REVELADA!

Andava eu a arrumar a minha secretária quando dei com este boneco, que já não via há coisa de um ano. Trata-se de um daqueles brindes com que a McDonald's convence os nossos petizes a deliciarem-se com hambúrgueres totalmente inodoros e sem sabor. Agora, olhem de novo para o supostamente inócuo "brinde". Digam-me lá se não reconhecem o fácies de Bush Jr, do Monkey Boy em pessoa!
Isto só pode ser uma peça de um gigantesco esquema de lavagem cerebral aos infantes de todo o mundo: andam a persuadir a miudagem de que Bush II é um jovial companheiro de folguedos, não uma ameaça à Paz Mundial. Suprema perfídia: ele segura uma criança que, pela pinta, só pode ser oriunda de uma qualquer nação oprimida do Terceiro Mundo! Depois de conviver com o mimoso "brinquedo", como poderão os pequenos incautos acreditar que este é o monstro que bombardeia hospitais, casas e creches no Afeganistão e no Iraque?
Camaradas, chamem o José Bové; vamos dar uma lição aos McCrápulas que estragam o gosto aos nossos filhos e tentam impedi-los de adquirir uma saudável consciência política!

PS: desconfio que já fiz um post com este boneco algures. Se assim foi, desculpem a repetição, mas não resisti ao reencontro...

Publicado por Luis Rainha às 12:15 AM | Comentários (6)

novembro 05, 2004

CONFIRMAÇÃO

Sempre preferi os escritores literários. Quer dizer, os que escrevem a partir da literatura. É por isso que gosto muitíssimo de Borges, de Italo Calvino, de Perec. E de Vila-Matas, claro.

Publicado por José Mário Silva às 09:39 PM | Comentários (13)

DO SURPREENDENTE ALCANCE DA BLOGOSFERA

Tal como prometido, ontem à tarde entreguei em mão, a Enrique Vila-Matas, na Casa Fernando Pessoa, o recado do Luis. Uma folha de papel A4, com as seguintes frases: «Sou um leitor. Tenho o mal de Montano. Não me quero curar. A literatura pode salvar.» O escritor sorriu, agradeceu e acrescentou que já tinha lido o post da Natureza do Mal há uns dias, no seu computador, em Barcelona.

Publicado por José Mário Silva às 09:36 PM | Comentários (1)

PLANO ISRAELITA PARA LIDAR COM A MORTE DE ARAFAT

Israel tinha preparado, há meses, um plano para lidar com a eventual morte do líder palestiniano. Entre as situações previstas: o seu enterro fora de Jerusalém oriental, do lado palestiniano da barreira de segurança, de forma a ser facilmente controlado pelos israelitas. O reforço da vigilância nos postos de controlo estava também previsto.
Informação relativa ao tema (em estado bruto) neste artigo do jornal Haaretz.
(José Miguel Sardo)

Publicado por José Mário Silva às 09:19 PM | Comentários (1)

A BÍBLIA DELE

Há poucos minutos, Jorge Sampaio apareceu no Telejornal a transcrever para uma folha branca, com zelo de estudante aplicado, umas quantas frases do «Ecclesiastes». O que me fez confusão não foi tanto o facto de um presidente laico (e confessadamente agnóstico) estar a participar num projecto no mínimo dúbio como o da Bíblia Manuscrita, levado a cabo pela Sociedade Bíblica de Portugal. O que me impressionou foi a escolha de Sampaio. Olhando para o país e para o mundo, creio que o «Livro do Apocalipse» seria muito mais adequado.

Publicado por José Mário Silva às 09:15 PM | Comentários (4)

ARAFAT E OUTROS DEFUNTOS MALDITOS

Arafat ainda não foi dado como morto e já o seu cadáver anda em bolandas. Os israelitas não têm qualquer intenção de permitir que os desejos do líder palestiniano se cumpram com um enterro na Esplanada das Mesquitas. Aliás, o mais certo é não lhe cederem um só metro quadrado de "Terra Prometida" para o seu eterno descanso. O que não deixa de ser uma forma curiosa de preparar um período de frutuosas negociações pós-Arafat; perseguir o homem mesmo depois de morto será por certo o caminho mais curto para o apaziguamento do povo palestiniano.
Está decretado: Yasser Arafat foi terrorista e nem a morte poderá redimir os seus crimes. Não que as autoridades israelitas se tenham mostrado tão inflexíveis a propósito dos despojos de outros conhecidos terroristas. E nem falo de Menachem Begin que, enquanto líder da Irgun, foi responsável pela morte de incontáveis inocentes, no massacre de Deir Yassin e no ataque bombista ao Hotel King David. O túmulo de Baruch Goldstein, o alucinado médico de origem americana que, em 1994, entrou numa mesquita a abarrotar e disparou sobre a multidão, matando 29 pessoas e ferindo mais de 100, continua a ser um local de peregrinação para muitos judeus extremistas. É certo que o governo demoliu as estruturas em redor da campa; mas isso não tem impedido que esta seja palco de divertidas festas – com gente disfarçada de Baruch Goldstein e tudo – e de muita adoração ao homem que relançou os assassínios em massa no país. Mas que ainda é visto por muitos como um "Santo Mártir".
Só que Deus não dorme. Há dias, o Maariv veio revelar-nos que as ossadas de tão "santa" alma são agora testemunhas de comércios carnais indignos entre soldados do Tsahal e muheres locais. Pranto de um angustiado vizinho de Goldstein: "É um verdadeiro ultraje. Vir ao túmulo do santo Baruch Goldstein para encontrar mulheres é blasfémia. Um amigo meu encontrou um preservativo no meio dos arbustos, ó céus!"
Esta criatura indigada por certo seria o primeiro a rasgar as roupas em sinal de ultraje se Arafat fosse mesmo enterrado em Israel. Venham depois dizer-me que o fanatismo extremista naquelas bandas é exclusivo dos palestinianos.

Publicado por Luis Rainha às 05:31 PM | Comentários (1)

"BOA" COMPANHIA

Portugal e EUA estão unha com carne na tentativa de supressão de investigação em células estaminais na Assembleia da ONU. Está tudo aqui.
É outra das habilidades (encapotadas) do Sr. Santana. E mais ninguém diz nada?! Quem mandatou estes cavalheiros para fazerem esta figura? É Portugal (todos nós) que está ali, caramba! E em "boa" companhia, como se pode ver pela lista dos países subscritores.
(Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 05:22 PM | Comentários (0)

EM BUSCA DO NOVO "EQUADOR"

O lançamento da grande besta célere deste Natal já está em andamento. Ou, pelo menos, assim o espera a Gradiva, que apostou forte na estreia ficcional de... José Rodrigues dos Santos! "A Filha do Capitão", trepidante romance que decorre a propósito da participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, já tem a primeira edição – de 10.000 exemplares – toda vendida.
Não posso dizer mal do romance, pois ainda não o li. Mas deve ser obra de génio, a fazer fé na sentença da contracapa: "com esta obra inesquecível, o grande romance está de volta às letras portuguesas."
Só falta saber se o doutorado jornalista pretende emular as proezas literárias de Miguel Sousa Tavares ou apenas lançar-se numa nova carreira que o ampare se lhe acontecer mesmo um percalço mais ou menos inesperado...

Publicado por Luis Rainha às 04:20 PM | Comentários (11)

UMA MÃO LAVA A OUTRA

Confirma-se a rigorosa independência entre o universo empresarial ainda controlado pelo Estado e a Comunicação Social. A PT vai comprar o bonito projecto online do talibã laranja, Luís Delgado. Mas claro que se trata de decisão assisada: com a quantidade de publicidade estatal que lá cai, o Diário Digital só pode mesmo ser bom negócio...

Publicado por Luis Rainha às 03:15 PM | Comentários (2)

GANHAR ELEIÇÕES COM A AJUDA DO SENHOR

Julgam que Bush Jr. passa a vida a falar de Deus por pura devoção? Olhem que o homem pode ser tonto, mas não tanto. Na eleição de 2000, a coisa quase deu para o torto, em parte porque, pelos cálculos do manda-chuva das campanhas do Monkey Boy, dos 19 milhões de cristãos devotos e reaccionários dos EUA, 4 milhões resolveram abster-se. Tal aconteceu, segundo Karl Rove, pois "uns desanimaram-se com a corrupção que viam na política e outros simplesmente escolheram ficar em casa depois do cadastro de condutor embriagado de Bush ter sido exposto". A partir daqui, estava tomada a decisão de não arriscar mais e de escolher esta comunidade como alvo primordial.
Logo em 2002, ele revelou os seus planos aos líderes do poderoso Family Research Council: "nós ganharemos se trabalharmos juntos muito mais do que o outro lado quereria". Dito e feito. Os anos pré-eleitorais foram de intenso trabalho de sedução desta importante fatia do eleitorado.
Aliás, Rove é muito mais do que um estratego de campanha. Pode até dizer-se que ele inventou George Bush, ao ter, ainda nos anos 80, a ideia de o lançar como candidato ao governo do Texas. Desde aí, tem sido a sua sombra. E tem ganho eleição após eleição, sempre com a mesma receita: "primeiro, vem uma fase em que o candidato de Rove adopta uma mensagem bem focada e limitada, agarrando-se a ela incansavelmente. Depois, vem a calúnia – uma campanha sussurrada que sugere sujidade oculta no passado do oponente." Tudo acaba com este enredado em respostas e contra-ataques estéreis, que só contribuem para desviar a atenção dos votantes para a calúnia e para longe da sua mensagem.
Mas dar a volta ao eleitorado evangelista não podia ficar só por conta de umas jantaradas e de umas quantas menções ao Altíssimo nos discursos presidenciais. E assim surgem os 11 referendos para proibir os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Arkansas, Michigan, Oregon, Ohio, Georgia, Kentucky, Mississippi, Montana, Dakota do Norte, Oklahoma, e Utah. Estes foram os estados onde os eleitores se viram chamados a pronunciar-se sobre a vida íntima dos seus compatriotas gays.
Os quatro primeiros eram estados onde se previa luta acesa. E o conjunto de referendos serviu para criar a impressão de que os democratas estavam empenhados num ataque à sacrossanta "Família Tradicional", quando na realidade eles nem queriam legislar sobre o assunto. E serviu, acima de tudo, para dar uma razão fortíssima ao votante cristão e conservador para sair de casa no dia das eleições: derrotar os inimigos do Senhor e, já agora, votar no presidente que O defende.
Talvez assim já se entenda melhor a grande afluência à urnas, que, ao contrário do que se pensou, não foi obra de jovens nem de membros de minorias. Blessed be the Lord!

Publicado por Luis Rainha às 02:28 PM | Comentários (7)

THANKS, MR. BUSH; THANKS, MR. ARAFAT (OR MAYBE NOT)

Não sei se foi por causa do rescaldo das eleições americanas, se foi pelo estado clínico periclitante de Arafat (ou se foi, deixem-me ser optimista, pela referência a Enrique Vila-Matas). O certo é que ontem, como se pode comprovar aqui, fomos o blogue mais visitado no universo weblog.com.pt. Melhor: pulverizando todos os anteriores records, chegámos ao impressionante máximo absoluto de 5439 visitas. Repito: 5439 visitas.
A todos os nossos leitores, regulares ou ocasionais, o nosso muito obrigado.

PS- Se tivermos em conta que o Barnabé — indiscutivelmente o blogue português mais lido (juntamente com o Abrupto) — ultrapassou há dias a barreira das 6.000 visitas, pode dizer-se que a massa crítica de leitores da blogosfera começa a aproximar-se das audiências da imprensa clássica. Basta dizer que não faltam para aí jornais cujas vendas andam na mesma ordem de grandeza (ou mesmo abaixo)... Além disso, o conjunto do universo weblog.com.pt obteve igualmente, anteontem, o seu máximo histórico: 60.000 visitas. Ou seja, mais do que a tiragem actual de cada um dos dois principais diários de referência. Mesmo descontando as especificidades do meio, isto há-de significar alguma coisa. Ou não?

Publicado por José Mário Silva às 12:05 PM | Comentários (9)

O QUE PODEMOS ESPERAR DE MAIS QUATRO ANOS DE BUSH?

Cartoon de Ted Rall

Publicado por Luis Rainha às 11:56 AM | Comentários (2)

novembro 04, 2004

AINDA A LÍNGUA: QUEM FALA ASSIM NÃO É DELGADO

Na passada sexta feira quando comprei um jornal a meio de uma viagem, ao chegar à pagina em cujo topo se encontravam lado a lado as crónicas de bettencourt resendes e do delgado, chamou-se a atenção uma outra crónica na metade inferior da página cujo início transcrevo utilizando a técnica da citação linkada do J:

Circunstâncias de alinhamento gráfico fazem com que eu compartilhe esta página com dois membros da Administração deste jornal.
Ambos convergiram numa decisão: afastar o director. Um deles anunciou-o ao País através de uma televisão, da qual é comentador.
Entretanto, uma senhora que, afinal, eles já haviam convidado para ser a próxima directora, veio publicamente dizer que não existiam condições para fazer deste jornal um diário «de referência, isenção e aceitação pública».
Chegadas as coisas a este ponto, compreendam os leitores que eu saia deste lugar. É patente o que está actualmente em causa na comunicação social portuguesa: o domínio dos media pelo grande capital, a entente cordiale entre esse grande capital e o actual Governo. Poucas serão as excepções.

Vale a pena ler tudo porque começa onde acaba o professor Marcelo limitado por agendas políticas mais voluptuosas mas ao mesmo tempo mais limitadas.
E vale a pena ler porque se percebe como o post do Luis abaixo nos deve alegrar porque mostra que o país está em boas mãos e a "renovação" está assegurada.
Porém o J que fique descansado: isto da "língua" não é tão "simples" assim.
Quem tem boca vai a Roma, é certo, mas as sondagens, com mais ou menos margem de erro, mostram que o Santana ainda tem de sofrer uma boa lingua de palmo para se impingir aos portugueses e os açorianos até já lhe mostraram uma boa receita.
Se calhar é a chatice de não sermos americanos.

Publicado por tchernignobyl às 09:40 PM | Comentários (0)

DE FACTO A COISA É UM BOCADO MONÓTONA

In 1972, we reelected an incumbent. In 1976, we elected an unknown southern governor who had not spent a day in Washington D.C. and had no national political record. In 1980, we elected an unknown governor--a southerner, if Orange County is "southern"--who had not spent a day in Washington D.C. and had no national political record. In 1984 we reelected an incumbent president. In 1988 we elected an incumbent vice president. In 1992 we elected an unknown southern governor who had not spent a day in Washington D.C. and had no national political record. In 1996 we reelected an incumbent. In 2000 we elected an unknown southern governor had not spent a day in Washington D.C. and had no national political record.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:57 PM | Comentários (1)

PASSAR POR PROFESSOR MARCELO

Sim, parece que ainda se agarra à vida. Mas com rumores assim já na televisão receio que venha a ter razão por uma questão de horas, dias no máximo.
Não estou tão optimista como o Rodrigo, mas espero que ele ganhe a aposta.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:52 PM | Comentários (1)

"AGITAR AS IDEIAS" É UM TRABALHO SUJO, MAS ALGUÉM TEM DE O FAZER

Nesse farol do jornalismo independente que por pouco se safou de ser dirigido pela Clara Ferreira Alves e que dá pelo nome de "Diário de Notícias", ergueu-se anteontem uma desassombrada voz a contrariar os maldizentes que não conseguem ver as maravilhas do nosso governo.
"A cada intervenção de um membro do Governo ou do primeiro-ministro sucede a frase aqui-d'el-rei que o País está em perigo"; "Confrange, por exemplo, assistir às intervenções públicas de Mário Soares, Freitas do Amaral, e outros comentadores e protectores do regime sobre a acção dos novos agentes políticos. Choca o pretensiosismo intelectual. Choca a arrogância de quem se julga mais e melhor, sem cuidar de conferir o benefício da dúvida"; "Esta nova geração de governantes ou potenciais governantes merece o nosso respeito, colaboração e as mesmas oportunidades da anterior."
Nestas poucas palavras fica bem nítido o retrato do fiel engraxador. E fica descoberto um potencial escriba para a tal "Central de Comunicação" que o governo anda a pôr de pé. Mas quem será este "José Francisco Gandarez", este lúcido e corajoso "advogado" que tão claramente identifica mais uns produtores do "ruído" que tanto incomoda os santanicos? Boa pergunta. E olhem que a resposta ainda é melhor: trata-se de um membro da "Rui Gomes da Silva e Associados – Sociedade de Advogados".
Nesta busca desesperada de voluntários para louvar o glorioso Dr. Lopes, não tarda nada estão a pedir croniquetas ao porteiro de Bagão Félix. E, provavelmente, o trabalho não sairá pior.

PS: Esta chegou-me por mail, oriunda de amigo jornalista dado aos prazeres da má-língua. Mas foi fácil de confirmar, com ajuda do Google.

Publicado por Luis Rainha às 06:26 PM | Comentários (3)

QUEREM SABER COMO VAI SER O SEGUNDO MANDATO DE BUSH?


Cartoon de Mike Lane, »The Baltimore Sun»

Pois. Qualquer coisa como isto. Resta saber quanto tempo levará W. a olhar para o relógio.

Publicado por José Mário Silva às 05:56 PM | Comentários (1)

ARAFAT AINDA ESTÁ VIVO (CONFIRMAÇÃO OFICIAL)

Um porta-voz militar anunciou há momentos, no hospital Percy (arredores de Paris), que Yasser Arafat «não faleceu». Médico-chefe do Serviço de Saúde dos Exércitos Franceses, o general Christian Estripeau limitou-se a declarar que a situação clínica do presidente palestiniano se tornou «mais complexa».

Publicado por José Mário Silva às 04:58 PM | Comentários (3)

OU TALVEZ NÃO

Calma, Jorge. Segundo a agência France Press, um ministro palestiniano acaba de negar a morte de Arafat.
O melhor é aguardarmos por um boletim clínico definitivo.

Publicado por José Mário Silva às 04:48 PM | Comentários (0)

REJOICE! ARAFAT MORREU

Finalmente estão criadas as condições óptimas para um rápido acordo de paz entre Sharon e o Hamas.

Publicado por Jorge Palinhos às 04:45 PM | Comentários (1)

COISAS MÍNIMAS E QUASE PERFEITAS

Ainda a carpir as mágoas de ontem, descubro na blogosfera duas pequenas maravilhas que me atenuam o súbito spleen.

1) Este parágrafo do Alexandre Andrade:

«E se fosse uma cabala que, para além de desprovida da tal vontade objectiva, dispensasse (com alacridade!) desiderato, substância e fautor, e perdurasse em roda livre, sustentada por dezenas de milhar de cidadãos, mesquinhamente cúmplices na certeza de partilharem algo de maior do que eles, guardando segredos como bocados de guita ou carcaças do dia anterior? A cabala dos honestos, dos trabalhadores por conta de outrem, dos remediados, dos que contemplam placidamente o mundo. A irmandade da maioria, traduzível em signos pavorosos desenhados em vidraças embaciadas e no senso comum burguês.
Toda uma cidade em quotidiano conluio. Um bichanar de esquina em esquina. A dor, a magnífica dor dos excluídos do círculo.»


2) Este poema do José Carlos Barros:

[os valores]

A crueldade tem a sua pátria.
A rapariga olha da janela o dia a crescer
e é como se o medo sobreviesse
à idade: a memória acende no quarto
as suas lâmpadas de água.

Não tarda o inverno.
Não tarda a sementeira do trigo.
As crianças regressam a casa
e abandonam os muros do largo, a pedra do tanque.

É como se tudo estivesse certo.

Publicado por José Mário Silva às 04:31 PM | Comentários (4)

UM CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES

Por estranho que vos possa parecer, anda por aí malta que aprecia George Bush por nele lobrigar entendimento de um "desafio civilizacional" que o terrorismo islamita colocaria à nossa way of life. Nunca deixa de me parecer incrível a forma como umas dúzias de fanáticos armados de x-actos e escassas aulas de voo conseguiram afectar a nossa percepção do universo. Será mesmo possível que o ódio militante de alguns loucos consiga lançar o mundo numa guerra religiosa global, num choque de civilizações? Parece que sim. E ai de quem conteste o diagnóstico apocalíptico; passa logo à categoria de "idiota útil" ou mesmo de cúmplice declarado de Osama. Quantos votos terá custado a Kerry a cândida constatação de que o terrorismo deveria ser visto apenas como "mais uma ameaça"?
Mas imaginar que vivemos dias de confronto entre dois modelos globais de civilização é coisa mais acertada do que possa à primeira vista parecer. Aliás, creio mesmo que já começámos a travar uma guerra subterrânea contra um inimigo mortal. E estamos a perdê-la.
Este inimigo partilha algumas características com os prosélitos do Islão radical: tem uma visão teocrática da vida em sociedade; "sabe" que o seu Deus guia cada um dos seus passos e que tem um desígnio claro para o levar à Glória. Define-se sempre em função de um inimigo exterior; é o medo que congrega as massas em seu redor, é o ódio ao que é estranho e insondável que desenha todas as suas bandeiras. Ele reconhece apenas um imperativo moral: o direito do mais forte à sobrevivência. Valores como a Justiça ou a Honra só podem ser proclamados enquanto peças funcionais de uma engrenagem que gira em torno do Poder. Assim são aqueles que nos declararam guerra: os cidadãos da Nova Esparta.
Esta civilização é antagónica à nossa mas não medra no exterior, não se posiciona como ameaça oriunda do Outro. Ela cresce sim no corpo da nossa sociedade tolerante e solidária, como um parasita que se alimenta do nosso sangue e usa os nossos dispositivos vitais para se fortalecer.
O que vemos quando olhamos para criaturas como Rumsfeld, Cheney, Rove, Rice, etc.? O rosto implacável e eficiente da Nova Esparta. A derradeira casta de guerreiros egoístas e impiedosos, a elite dirigente que tem agora mais quatro anos para moldar os EUA ao novo credo neocon: temos Deus do nosso lado; quem não está connosco está com o inimigo; não há convénio internacional que possa sobrepor-se aos nossos desejos; os mais fortes prevalecerão; a Velha Europa é uma criatura do passado, incapaz de se adaptar à realidade competitiva do habitat violento e perigoso que é o mundo de hoje.

Não estamos equipados para lutar contra esta ameaça. O modelo moral segundo o qual tudo vale para atingir os fins certos criou soldados terríveis para lançar nas batalhas políticas; enfrentado opositores que permanecem mais ou menos agarrados a noções de decência e de respeito pelas regras, os Karl Roves deste mundo têm a vida facilitada. Contra os idealistas do seu partido, eles souberam impor a escolha de um vendedor carismático e desprovido de profundidades que só atrapalham. Contra os democratas, lançaram mão de todos os truques sujos conhecidos e ainda tiveram tempo para inventar alguns novos. Face ao restante universo, proclamam a glória do poder militar, cantam hosanas à sua própria determinação belicosa e só reconhecem como igual o outro estado esculpido à imagem da velha Esparta. Agora, com o poder legislativo doméstico mais dominado que nunca, têm quatro anos para crescer, consolidando o futuro radioso que lhes ilumina os sonhos: um Império sem fraquezas éticas, sem adversários, sem constrangimentos. É esta civilização do lucro e do poder a todo o custo que nos declarou guerra, mesmo que ainda de forma surda e camuflada.
Até por cá a Nova Esparta já tem agentes bem activos. E eles apressaram-se a saudar os mestres: "Mas é importante sublinhar que a vitória de George W. Bush demonstrou que o ruído não perturba nem derrota quem tem uma linha de rumo, como alguns andaram a insinuar nos últimos meses". Assim mesmo: "ruído" é denunciar mentiras na justificação de uma guerra, é querer recuperar valores de tolerância e multilateralismo que já foram importantes. O que interessa à tribo é ter um "rumo", seja qual for, desde que bem determinado e inflexível.

Os verdadeiros inimigos da Civilização Ocidental não são os ogres do fundamentalismo islâmico, nem as hordas esfomeadas do Terceiro Mundo. Eles estão para lá das antinomias tradicionais: Direita-Esquerda, Norte-Sul ou Conservação-Revolução. São os bárbaros de fato e gravata, a serpente que cresce no nosso seio, o germe que já está a metamorfosear-nos num monstro lucrativo, eficaz, letal, sem alma. Estamos bem tramados.

Publicado por Luis Rainha às 03:17 PM | Comentários (8)

JANELA FECHADA

E de repente vão-se embora, assim, sem razão nenhuma. Quase uma afronta. Baixa a persiana, desce a luz, esfuma-se no ar um dos melhores blogues portugueses de sempre: este. Sobra um sentimento indízivel, uma emanação de tristeza, um rasto de nostalgia.
E sobram também, ainda abertos (sempre magníficos), os arquivos de uma bela aventura digital. Adeus, amigos. Hei-de persistir nas visitas. Mesmo se apenas para ver de frente, no ecrã, o vosso silêncio.

Publicado por José Mário Silva às 02:24 PM | Comentários (0)

SOBRE OS ESCALÕES DO IRS

O Governo vai baixar quatro das seis taxas do imposto sobre as pessoas singulares (IRS) e actualizar os escalões em dois por cento, segundo a proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2005.
A taxa do escalão de rendimentos anuais mais baixos (inferiores a 4351 euros) diminui 1,5 pontos percentuais, para 10,5 por cento. Para o escalão seguinte, afecto aos rendimentos de entre 4351 e 6581 euros por ano, a taxa desce um ponto percentual, para 13 por cento. Os rendimentos anuais entre 6581 e 16.317 euros terão uma redução de meio ponto percentual, para 23,5 por cento. No patamar seguinte, entre 16.317 e 37.528 euros, a taxa permanece em 34 por cento. O mesmo não acontece no escalão seguinte, para rendimentos de entre 37.528 e 54.388 euros por ano, que cai de 38 para 36,5 por cento. Mantêm-se sem alterações as taxas para os rendimentos mais altos (acima de 54.388 euros anuais), que continua a ser de 40 por cento. Todos os escalões são actualizados em dois por cento, o equivalente à
inflação prevista pelo Governo para 2005.
Resumindo:

No 1.º escalão (menos de 4.351 euros) verifica-se uma baixa de 1.5%
No 2.º escalão (entre 4.351 e 6.581 euros) verifica-se uma baixa de 1.0%
No 3.º escalão (entre 6.581 e 16.317 euros) verifica-se uma baixa de 0.5%
No 4.º escalão (entre 16.317 e 37.528 euros) verifica-se uma baixa de 0%
No 5.º escalão (entre 37.528 e 54.388 euros) verifica-se uma baixa de 1.5%
No 6.º escalão (mais de 54.388 euros) verifica-se um aumento de 0%

Alguém me consegue explicar por que é que o 5.º escalão baixa tanto quanto o escalão mais baixo? Será por ser onde estão integrados todos aqueles que vão aprovar o orçamento? Ou será que é só para gozar com a cara de todas as pessoas que estão no super-escalão 4? Haverá algum tipo de comparação possível entre os pobrezinhos do 1.º escalão e os "pobrezinhos" do 5.º escalão? (Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 02:16 PM | Comentários (1)

ATÉ LOGO, ENRIQUE

Às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, é lançado um romance de Enrique Vila-Matas acabadinho de editar pela Teorema: «O Mal de Montano». Como quase todas as ficções do escritor catalão, é um livro sobre a literatura (esse vício, essa compulsão, essa doença). Chegado de Barcelona, a magnífica «cidade nervosa», Enrique partilhará com os seus leitores o que tem de melhor: a bonomia, a arte de conversar, a sabedoria das palavras certas.
Também por isso, gostava muito (mas mesmo muito) de ver hoje à tarde, em Campo de Ourique, o Luís. Mas olha, pá, não te preocupes. Caso seja impossível deslocares-te a Lisboa, eu dou-lhe o recado.

Publicado por José Mário Silva às 01:02 PM | Comentários (1)

LÓGICA INFANTIL

- Ó mãe, é verdade que o Bush ganhou?
- É sim, filha.
- Mas tu não me estás sempre a dizer que quem mente merece um castigo?

Publicado por José Mário Silva às 12:52 PM | Comentários (7)

QUANDO A CLAREZA E A SIMPLICIDADE SÃO IMPOSSÍVEIS

Pelo post que o Filipe deixou abaixo - e com o apoio das concordâncias citadas – poderíamos acreditar que a derrota de Kerry se ficou a dever, em grande parte, à inabilidade do candidato e seus estrategos. Que não souberam opor-se à unicidade do posicionamento de Bush Jr. com armas semelhantes: as tais "clareza" e "simplicidade".
Ora eu creio que tal seria sempre impossível; e que esta será sempre a grande, enorme debilidade de qualquer challenger à presente administração republicana, enquanto durarem as ameaças terroristas.
O que andou Bush a pregar pelos EUA afora? Que ele é, mais do que um Presidente, um Comandante-em-Chefe, o homem providencial que soube reagir ao 11 de Setembro, o guerreiro que conseguiu levar o fogo da Justiça americana até aos seus inimigos, trazendo "Honra" ao país (esta já é do discurso da vitória). Quando grande parte da nação continua convencida das ligações de Saddam a Osama, quando os marines continuam a cair que nem tordos pelas ruas do Iraque, como pode alguém afirmar-se contra esta guerra? Como pode um candidato democrata oferecer o flanco a acusações de "desmoralizar as tropas" e de ser "amigo dos terroristas"? Mais eficaz seria imolar-se pelo fogo a meio de um debate...
As aparentes tibiezas do discurso de Kerry acerca do Iraque radicam-se todas neste busílis. Claro que ele, sabendo o que se sabe hoje, nunca invadiria o Iraque, pois não é um demente intoxicado por sonhos de grandeza. Mas como admiti-lo? Como surgir face à home of the brave com discursos pacifistas, neste momento? Impossível. Mencionar Guantánamo? Só se quisesse ser logo apodado de "terrorist lover"...
Kerry nunca poderia ter um posicionamento "simples" e "claro" face a Bush. Nunca poderia revelar por inteiro as suas convicções relativas a esta guerra. Fazê-lo implicaria automaticamente uma derrota inapelável. E, contra o quase invencível argumento "Segurança = Guerra ao Terrorismo", que armas usar? O estado da economia, as falsidades já descobertas nas causas para a invasão, e pouco mais.

Ou seja: Bush tinha ao seu dispor aquilo que em marketing se chama "Unique Selling Proposition"; uma oferta bem focada e inimitável. E fortíssima, pois apela ao valor mais primordial e básico do ser humano. A sobrevivência, sua e dos seus.
Assim, bastou a Bush subir ao pedestal do grande guerreiro americano e vestir a túnica do herói religioso, com a sagrada missão de cumprir a vontade de Deus. Aos seus capangas, ficaram entregues os trabalhos sujos mas úteis, como as calúnias acerca do comportamento de Kerry no Vietname, a manobra de diversão a propósito dos casamentos entre gays, o controlo de media instrumentais como a Fox News, as constantes alusões à cooperação entre a Al-Qaeda e Saddam, os periódicos alertas para iminentes ataques terroristas que, afinal, nunca chegaram.
Não se trata pois de uma questão formal, de elegância e concisão na dialéctica; a "complicação" do discurso de Kerry surge principalmente no plano conceptual: comparado ao apelo da segurança, tudo o mais é visto pelos eleitores como "complicado" e "obscuro". Muito conseguiram os Democratas nesta campanha, jogando contra um adversário com cartas e trunfos bem superiores.

Publicado por Luis Rainha às 11:47 AM | Comentários (8)

CLAREZA E SIMPLICIDADE

"Clareza e simplicidade" era o lema do grande físico russo Lev Davidovitch Landau enquanto pedagogo, que ele sempre aplicou na incontornável colecção de compêndios sobre todos os assuntos da física que escreveu, das saudosas edições MIR Moscovo, e que tanta informação e prazer me deram ao estudar por eles.
"Clareza e simplicidade" tem de ser o lema do bom cientista e do bom professor. Do professor que, quando faz uma demonstração muito complicada, não se perde a fazer contas ou em raciocínios que ninguém consegue acompanhar. Pelo contrário, sabe destacar e enfatizar os pontos principais, que o aluno deve levar bem entendidos da aula, de modo a poder estudar todos os pormenores por si.
Clareza e simplicidade. Nos exemplos que se escolhem para ilustrar as ideias, que devem ser claros e o mais possível relacionados com as situações mais correntes. No final tudo deve ser reduzido a 2+2=4, de modo que se um aluno aplicado não perceber a matéria a culpa é do professor que não soube explicar.
Estas ideias aplicam-se à pedagogia mas também, sem grandes alterações, à política. Devem sempre ser observadas por políticos no seu contacto com o público. Clareza e simplicidade são duas características fundamentais dos políticos, especialmente na época mediática em que vivemos. Numa democracia é o povo que escolhe os seus líderes e não uma elite esclarecida; por isso, a mensagem de um político tem de ser dedicada ao povo e não "a quem a perceber". Por muita que seja a competência de um político, não lhe servirá de nada se, ao passar a sua mensagem, não houver clareza e simplicidade. Clareza como é aqui definida pelo Daniel. Simplicidade, como a define o Rui, no contexto do Partido Democrata americano. Como as define o Jorge aqui e aqui. Como é definida no artigo de Nicholas Kristof no The New York Times que o Jorge refere e do qual aqui transcrevo umas partes:

«One of the Republican Party's major successes over the last few decades has been to persuade many of the working poor to vote for tax breaks for billionaires. Democrats are still effective on bread-and-butter issues like health care, but they come across in much of America as arrogant and out of touch the moment the discussion shifts to values.

In the summer, I was(...) in (...) a rural, working-class area where most people would benefit from Democratic policies on taxes and health care. But many of those people disdain Democrats as elitists who empathize with spotted owls rather than loggers. (...)

Bill Clinton intuitively understood the challenge, and John Edwards seems to as well, perhaps because of their own working-class origins. But the party as a whole is mostly in denial.»

Fica aqui para irem pensando. Voltarei a este assunto.

Publicado por Filipe Moura às 08:08 AM | Comentários (1)

novembro 03, 2004

DON'T WORRY ABOUT THE GOVERNMENT

É a canção que melhor traduz o meu estado de espírito. Aplica-se tanto nos EUA como em Portugal.

Don't Worry About the Government (Talking Heads - álbum Talking Heads 77)

I see the clouds that move across the sky
I see the wind that moves the clouds away
It moves the clouds over by the building
I pick the building that I want to live in

I smell the pine trees and the peaches in the woods
I see the pinecones that fall by the highway
That's the highway that goes to the building
I pick the building that I want to live in

It's over there, it's over there
My building has every convenience
It's gonna make life easy for me
It's gonna be easy to get things done
I will relax alone with my loved ones

Loved ones, loved ones visit the building,
take the highway, park and come up and see me
I'll be working, working but if you come visit
I'll put down what I'm doing, my friends are important

Don't you worry 'bout me
I wouldn't worry about me
Don't you worry 'bout me
Don't you worry 'bout me

I see the states, across this big nation
I see the laws made in Washington, D.C.
I think of the ones I consider my favorites
I think of the people that are working for me

Some civil servants are just like my loved ones
They work so hard and they try to be strong
I'm a lucky guy to live in my building
They own the buildings to help them along

It's over there, it's over there
My building has every convenience
It's gonna make life easy for me
It's gonna be easy to get things done
I will relax along with my loved ones

Loved ones, loved ones visit the building
Take the highway, park and come up and see me
I'll be working, working but if you come visit
I'll put down what I'm doing, my friends are important

I wouldn't worry 'bout
I wouldn't worry about me
Don't you worry 'bout me
Don't you worry 'bout ME..........

Publicado por Filipe Moura às 11:15 PM | Comentários (3)

TOMEM LÁ UM POUCO DO VOSSO PRÓPRIO VENENO

Se a maioria dos blogues de direita fosse coerente, anunciaria hoje com o devido destaque aquele que foi o verdadeiro vencedor das eleições americanas.
A saber:

Publicado por José Mário Silva às 09:51 PM | Comentários (1)

O LADO POSITIVO DA COISA


Cartoon de Bob Englehart

Publicado por José Mário Silva às 09:46 PM | Comentários (0)

ATÉ 2008

Se hoje já foi mau, o cenário para 2008 pode ser ainda pior, catastrófico mesmo.
Mas há esperança. Mora aqui e aqui.
4 MORE WARS, Mr. Bush?
(Alípio Severo de Noronha)

Publicado por José Mário Silva às 09:39 PM | Comentários (3)

PORQUE GANHOU BUSH

Parece que estou um bocadinho menos deprimido que aqui os parceiros e provavelmente a razão é que há já uns dias tinha o palpite que Bush ia ganhar.

O palpite era em parte irracional e em parte por me colocar nos jeans do típico americano, divorciado ou casado segunda vez, com sessenta horas de trabalho por semana, aterrado com o 11 de Setembro e esperançoso de um dia ser milionário.

Vejamos: nos tempos em que os democratas dominavam o congresso, Bush negociou um diploma de promoção da educação e outro de apoio à compra de medicamentos que favorecem largamente as classes mais desfavorecidas - se eu estivesse em dificuldades não esqueceria isso tão depressa.
Cortou nos impostos, beneficiando os que são ricos ou os que a isso aspiram.
Manteve o país sem atentados desde o 11 de Setembro. Mesmo considerando a Guerra do Iraque, fazendo uma conta grosseira vemos que nela só morreram 1000 americanos - contra os 3000 das Torres Gémeas - um resultado positivo. A guerra pode não estar a ser muito famosa, mas desde que haja segurança interna e desde que Bush não seja forçado a recorrer ao serviço militar obrigatório para a sustentar não é assim tão preocupante quanto isso.
A economia vai bem, apesar do défice e do desemprego. Mas o défice não afecta o quotidiano das pessoas e as vítimas do desemprego pertencem aos quase 50% de americanos que não votam.

Logo, mudar para quê? Ainda para mais se o adversário aparentemente concordava com o princípio de todas as decisões tomadas?
Eu, se fosse americano e mais dado ao pragmatismo quotidiano que às questões de política internacional provavelmente também votaria Bush.

Acrescente-se que Bush conseguiu transmitir a sua mensagem de forma muito mais simples e eficaz (ver quadro "Most Important Quality" para ver os eleitores americanos confirmarem-no).

Ao contrário do que pensa o Tcher, não é uma questão de deturpar ou simplificar as questões, mas colocá-las em moldes que as pessoas as compreendam, as integrem nos seus esquemas mentais e se consigam identificar com elas.
Como observa o George Lakoff, desde a década de 60 que os conservadores têm vindo a trabalhar a linguagem de forma a esta moldar-se aos seus princípios ideológicos para que estes pareçam claros, intuitivos e óbvios. O seu sucesso tem vindo a ser tão grande que nós próprios já usamos o seu vocabulário. Porque é que, a propósito dos impostos, falamos de "carga fiscal" como se eles fossem um fardo de que desejamos libertar-nos e não de "participação social" ou "contribuição cívica" para os representar intuitivamente como o contributo de cada indivíduo para a sociedade em que se insere?

Porque é que Bush foi capaz utilizar uma expressão tão poderosa "sociedade de proprietários" - com todas as conotações de prosperidade e tranquilidade individual e colectiva que isso implica - e Kerry se perdeu em explicações, problematizações e divagações que ninguém consegue citar de memória.

Lamento, Tcher, mas por muito complexas que sejam as questões, apresentá-las de forma complicada nunca convenceu ninguém da sua importância.

P.S. - Um exemplo: neste artigo do NYT defende-se que os republicanos ganham porque inventam falsas questões para esconder os verdadeiros problemas. Um bom exemplo é do casamento gay. O problema foi inventado pelos republicanos que queriam passar um emenda constitucional para proibir o casamento entre homossexuais. Os democratas acharam a medida uma patetice, pois era preferível a questão ficar em aberto consoante o entendimento de cada religião, e os conservadores aproveitaram para os colar a posições de "destruição da família heterossexual", "ataque à fé", etc.
Outra é as armas, em que os democratas defendem o registo do porte de armas, e os republicanos habilmente passam a mensagem que o objectivo é proibir todas as armas.
Tudo questões de manipulação da linguagem.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:15 PM | Comentários (2)

O "PROLETARIADO" DE BUSH

Não queria estragar a alegria do João Miranda, mas gostava de saber o que ele entende por "pobres".
É que as minhas fontes dizem que os afro-americanos e os latinos-americanos votaram esmagadoramente por Kerry e são eles que detêm os mais altos níveis de pobreza e de reprodução dos EUA.
As minhas fontes reportam ainda sobre o rendimento dos votantes:

Menos de 15000 dólares (ano) 37% Bush 63% Kerry
15-30000 dólares 41% Bush 57% Kerry
(...)
150-200000 dólares 58% Bush 42% Kerry
Mais de 200 000 dólares 63% Bush 36% Kerry

A não ser, claro, que o João Miranda se refira à pobreza de espírito, visto que o Bush bate Kerry entre os eleitores que têm apenas licenciatura ou menos (os que nem Secundária têm não se dão ao trabalho de votar) e Kerry vence em todos os outros.


Publicado por Jorge Palinhos às 05:19 PM | Comentários (3)

CAPITÃO SAMPAIO: JÁ PODE VOLTAR AO PLANETA TERRA!

O nosso Presidente persiste em não largar os óculos cor-de-rosa com que se tem empenhado em observar o universo circundante. Agora, fantasiou estes desejos para os próximos quatro anos de Bush: "Espero que seja possível, neste segundo mandato, trabalhar pela paz, pelo desenvolvimento, pela protecção ambiental e, eventualmente, reforçar as entidades multilaterais". Hmm; já agora, Sampaio podia ter mencionado a sua secreta esperança de que o Monkey Boy venha em breve a descobrir uma vacina para o cancro.
Mas, francamente, seria de esperar mais acerto de alguém que vislumbrou em Santana Lopes uma figura capaz de fazer de primeiro-ministro?

Publicado por Luis Rainha às 05:03 PM | Comentários (3)

A FLORIDA AGORA FICA UM POUCO MAIS A NORTE


Cartoon de M. E. Cohen

No Ohio, o famoso Estado-chave destas eleições, a contagem de votos ainda não chegou ao fim. Teoricamente, subsiste uma estreitíssima hipótese aritmética de vitória para Kerry, caso os votos pendentes venham a cair de forma esmagadora no campo democrata. Todos sabemos, no entanto, até que ponto é vaga esta réstea de esperança. Derrotar Bush, neste momento, seria da ordem do milagre. E os milagres eleitorais esgotaram-se todos em 2000.

Publicado por José Mário Silva às 04:40 PM | Comentários (2)

SIMPLES SIM, NÃO SIMPLÓRIO

Ainda não segui o link mas já me tinham chegado ecos de "cursos" de propaganda pró-democrata referidos noutros sites e acho a passagem transcrita neste post do Jorge um bocado disparatada, para dizer pouco.
É que as pessoas não são completamente atrasadas mentais, ou melhor são-no, a resultar pelo resultado final e decisivo desta eleição, mas não dessa forma.
Não posso avaliar ao pormenor a qualidade do discurso do Kerry ao longo de toda a campanha mas parece-me que o candidato foi sempre acompanhado por um batalhão de especialistas em análise política, imagem e marketing que não esteve à espera de soluções "simples" da banha da cobra para gizar uma estratégia.
Este conselho, ao esquecer que se deve simplificar sim o que pode e deve ser simplificado e não erigir a simplificação como forma de debate poderia ser dirigido aos contendores do espaço politico de Bush na luta por exemplo por uma nomeação de candidatura pelo partido às eleições.
A esquerda democrata tem uma forma de exprimir-se e chegar ao eleitorado que é diferente da direita, ponto final, e tem de viver com ela quer ganhe ou não eleições.
A "simplicidade" de Bush funciona pura e simplesmente porque as pessoas se identificam com ESSA simplicidade, não significa que as pessoas se identifiquem com OUTRAS simplicidades.
Não me refiro é claro a questões tácticas de pormenor, mas o que interessa compreender é que o discurso da direita em geral e do Bush em particular, neste momento histórico, são mais directos e "simples" porque as coisas são assim mesmo, é a forma como a simplicidade se apresenta hoje e é com essa realidade que temos de viver.
O eleitorado Bush é o que se revê na resposta de uma cidadã portuguesa que disse com toda a "simplicidade" que mais valiam as bombas a cair em cima dos filhos dos outros do que em cima dos nossos e contra esta conclusão "simples", que nem tem a ver sequer com uma real situação de perigo eminente e perceptível como o poderia pressentir uma mãe israelita por exemplo, já para não falar de uma palestiniana, não existe antídoto "simples, pelo menos simples o suficiente para fazer reflectir esta mulher que já tem a cabeça feita de egoísmo e paranóia.
Contra "isto" não há grande coisa a argumentar, ou se "sente" ou não, e pelos vistos a maioria dos americanos sente-o dessa forma.
Resta-nos celebrar os praticamente 50% de americanos, e são muitos milhões de “politicamente correctos", que votaram contra o Bush.

Publicado por tchernignobyl às 03:54 PM | Comentários (3)

A GRANDE DEPRESSÃO

As explicações para a eleição de Bush já estavam a postos nas cartucheiras de muito comentador mais prevenido: que a trilogia "gays-guns-god" serviu às mil maravilhas para mesmerizar a América profunda e pequenina; que Kerry foi escolhido já ninguém sabe bem porquê, em desfavor de candidatos que não se limitavam a ser uma alternativa ao presidente; que a nossa compatriota e pretendente a primeira-dama só prejudicou o marido; que as ameaças de atentados apocalípticos, inevitáveis se o candidato democrata fosse eleito, tiveram o eco programado; que a guerra no Iraque continua a fazer sentido junto aos que permanecem convencidos de que Saddam foi o mandante do 11 de Setembro; que o Monkey Boy pode mandar prender arbitrariamente, deportar e torturar quem quiser, desde que não seja americano; que o acrónimo KISS é sempre um bom conselho; que a máquina de propaganda e spin dos Republicanos não tem rival nos dias que correm; que a receita de Hermann Goering continua a operar maravilhas: "O povo pode ser sempre levado a obedecer aos seus líderes. É fácil. Tudo o que tem de fazer é dizer-lhes que estão a ser atacados, e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por exporem o país ao perigo. Funciona da mesma forma em qualquer país."

Amanhã, pode ser que tenha coragem para pensar nestas coisas. Hoje, depois de uma noite em claro e em vão, nem tenho vontade de não estar deprimido. O mundo está a ir por água abaixo; nos quatro próximos anos, as coisas só vão piorar, por muita fé que os crentes depositem numa "suavização", em teoria "inevitável", do segundo mandato. Agora, para a desgraça ser total, só falta mesmo que o Santana ganhe as próximas eleições por cá.

Publicado por Luis Rainha às 01:00 PM | Comentários (1)

APRENDER COM AS DERROTAS

Why don't a majority of voters agree with us? How has Bush pulled it off?

I think this is the answer: Simplicity, simplicity, simplicity.

Think about the simplicity of everything Bush says and does. He gives the same speech every time. His sentences are short and clear. "Government must do a few things and do them well," he says. True to his word, he has spent his political capital on a few big ideas: tax cuts, terrorism, Iraq.

Now look at your candidate, John Kerry. What quality has he most lacked? Not courage—he proved that in Vietnam. Not will—he proved that in Iowa. Not brains—he proved that in the debates. What Kerry lacked was simplicity. Bush had one message; Kerry had dozens. Bush had one issue; Kerry had scores. Bush ended his sentences when you expected him to say more; Kerry went on and on, adding one prepositional phrase after another, until nobody could remember what he was talking about.

Do what the Republicans did in 1998. Get simple.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:55 PM | Comentários (3)

O MAPA DO NOSSO DESCONSOLO

A vermelho, os Estados Bush; a azul, os Estados Kerry.
Mais pormenores do desastre, aqui.

Publicado por José Mário Silva às 12:48 PM | Comentários (1)

UP ALL NIGHT

A SIC Notícias pode ter todos os Rogeiros, Medeiros Ferreiras, Delgados e Monjardinos do mundo. So what? Nós temos o Jorge Palinhos, esse discreto herói que montou guarda ao que se passava lá nos States, enquanto o desânimo nos tolhia os dedos (sobre o ecrã) e o pensamento.
G'anda J. Parabéns pelo brilhantismo do teu night watch, camarada.

Publicado por José Mário Silva às 12:39 PM | Comentários (2)

RAZÕES PARA ESTAR CONTENTE

Como aqui parece toda a gente muito sorumbática, vamos lá ver as razões para estarmos contentes pela possível vitória de Bush:

- O Daily Show vai continuar a ser o melhor programa de televisão do ar e vai continuar a ter matéria-prima de primeira qualidade;
- O interessantíssimo cinema documental de intervenção americano vai continuar a prosperar;
- Michael Moore vai continuar activo aumentando assim o risco de apoplexias entre os blogs de direita;
- Quando as coisas correrem mal, os blogs bushófilos não vão poder dizer "Com Bush as coisas teriam sido diferentes!";
- Após tal derrota, o Partido Democrata vai ter de repensar as suas estratégias e posições e procurar novos eleitores, especialmente entre as camadas não-votantes - isto é, jovens, minorias e classes desfavorecidas;
- Os sites com gafes de Bush vão continuar a expandir-se a multiplicar-se;
- Vai passar a haver um elemento visual em favor do sim à Constituição Europeia;
- A Europa vai esforçar-se por se libertar da tutela americana e seguir o seu próprio caminho;
- Dominando o Senado, Congresso e presidência é possível que o Partido Republicano se torne tão extremista que empurre muita gente do centro para os Democratas;
- A julgar pela incompetência do primeiro mandato, é previsível que o segundo seja igualmente mau ou pior, logo dando uma vitória confortável aos Democratas nas próximas eleições;
- Blogar do lado esquerdo vai continuar a ser interessante, fácil e divertido;
-...

O meu lado irresponsável e hedonista está contente. O outro nem por isso.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:31 AM | Comentários (14)

ELEITO OU RE-ELEITO?

O Rui Tavares tem razão: o mais extraordinário é o facto de ser uma perfeita incógnita o rumo do segundo mandato de Bush, tal qual como se fosse um presidente eleito pela primeira vez. Já o João Miranda dizia que é preciso "esquecer o passado" e AAA que o primeiro mandato teve "muitos problemas", de modo que parece que nem os apoiantes de Bush querem uma continuação das suas políticas.
Parece que tudo está dependente da facção republicana que vai conseguir controlar o poder: a neo-liberal, a conservadora moderada ou a fundamentalista evangélica.
Marioneta já há, resta saber quem será o titereiro.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:14 AM | Comentários (8)

EFEITO BUSH

Ontem, quando se pensava que Kerry ganharia o petróleo desceu, hoje, perante a vitória de iminente de Bush, subiu.
E ainda dizem que Bush faria bem à economia.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:07 AM | Comentários (1)

WISCONSIN PARA KERRY

Resultados unânimes:

Bush - 254
Kerry - 252

Publicado por Jorge Palinhos às 10:05 AM | Comentários (0)

ENCRAVANÇO PARTE DOIS

Resultados:

Bush - 254
Kerry - 242
CNN

Bush - 254
Kerry - 252
C-Span

Há quatro estados encravados - Iowa, Wisconsin, Novo México e Ohio - num total de 44 votos para o colégio eleitoral, e parece que no último vai demorar quase duas semanas para haver resultados definitivos.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:56 AM | Comentários (0)

VÁ LÁ, DECIDAM-SE!

Bush - 249
Kerry - 242
CNN

Bush - 254
Kerry - 242
C-Span

Curiosidades: No Ohio, os republicanos obtiveram o direito de desafiar a legalidade dos leitores - isto é, de ter gente nas urnas com o intuito de acusar eleitores que não têm o direito a votar. Não consigo imaginar tal coisa...

Publicado por Jorge Palinhos às 08:01 AM | Comentários (3)

ENA, PÁ! ISTO É EMOCIONANTE.

Eis que Kerry ganha vantagem:

Bush - 249
Kerry - 241

CNN

Curiosidades:

O Clark County, destino da polémica iniciativa epistolar do Guardian, está 51% Bush, 49% Kerry. Não estou bem a ver onde é que está a reacção: "Ah eles querem que eu vote no Kerry? Atão voto no Bush."

O Colorado acaba de eleger o Salazar.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:51 AM | Comentários (1)

BOM DIA! (tm)

Quê, ainda nada? Esperava mais eficiência da pátria do capitalismo.

Resultados provisórios:

Bush - 249 votos no colégio eleitoral
Kerry - 211 votos

CNN

Bem, a sondagem que mencionei antes falhou redondamente e parece que estamos a um passo de Bush ser reeleito, além de os republicanos dominarem o congresso e o senado.
Não será propriamente o fim-do-mundo como se andou a dizer mas, juntamente com o controlo que os conservadores poderão passar a ter no Supremo Tribunal de Justiça, é de prever um forte retrocesso em termos de liberdades individuais e fomento do terrorismo internacional. Tem pelo menos a vantagem de Bush poder levar a cabo a sua milagrosa solução de Bush e ver os defensores do actual presidente justificar o défice galopante.
Por outro lado blogar continuará a ser uma actividade muito interessante e hilariante, mesmo que de uma forma um tanto deprimente.

Prevê-se ainda grande regozijo entre os blogs de direita, especialmente aqueles que diziam que Kerry era igual a Bush, que Bush era o presidente mais à esquerda dos últimos anos e que dentro em pouco já andaríamos a criticar Kerry, e todos os posts conterão as palavras "Michael Moore". Há que ser compreensivo: com o cataclismo Santana em curso há que ter algo onde descarregar a frustração.

Não se recomenda é a leitura do DN nos próximos dias, visto que durante uns tempos os jornal se vai assemelhar a uma obra-prima de Ron Jeremy.

Publicado por Jorge Palinhos às 07:21 AM | Comentários (2)

SONDAGEM À BOCA DAS URNAS

A Zogby International dá uma vantagem no colégio eleitoral para Kerry de quase 100 votos!

Bush - 213
Kerry - 311

No site é explicado como chegaram a estes números. A confirmarem-se, deverá ser particularmente hilariante ler as colunas do Luís Delgado e do António Ribeiro Ferreiro depois de amanhã. Por outro lado, Kerry não vai ter uma herança nada meiga.

(Bocejo) Amanhã veremos isso.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:19 AM | Comentários (3)

VOLTANDO A VACA...

Primeiros resultados provisórios:

Bush - 34 votos do colégio eleitoral
Kerry - 3 votos

4 estados contados.
Informação actualizada aqui.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:06 AM | Comentários (1)

novembro 02, 2004

MORTO POR UMA TRANSPARÊNCIA

Eu sei que está toda a gente com o cérebro ocupado pelas eleições americanas, mas deixem-me insistir nisto. Foi preso um indivíduo de nacionalidade marroquino-holandesa, suspeito de ter assassinado o realizador Theo Van Gogh.
A confirmar-se a sua culpa, estamos perante um caso de uma fatwa bem-sucedida contra a liberdade de expressão e a criatividade artística.
Isto é intolerável. É necessário que todas as pessoas envolvidas neste escabroso caso sejam detidas e exemplarmente punidas, a fim de garantir que o direito de Voltaire, o isto é, o direito à integridade da opinião individual, seja garantido e continue a servir de base para as sociedades modernas e cosmopolitas.


Publicado por Jorge Palinhos às 11:31 PM | Comentários (1)

QUE SERÁ DE NÓS SEM ELE?

Conceda-se: os blogs bushófilos têm razão; a vida vai ser muito mais aborrecida sem ele.
Após quatro anos a odiar visceralmente alguém, a espantarmo-nos com o seu fundamentalismo, a rir com as gafes, a indignarmo-nos com a arrogância, a ficarmos estupefactos com a incompetência e a dar sonoras gargalhadas com o desorientação dos blogs de direita para o tentar defender, se Bush perder hoje vai gerar um enorme sentimento de vazio.
Se Kerry ganhar, mesmo que prossiga com as mesmas políticas, é praticamente certo que vai desempenhar o seu cargo de forma mais sóbria, moderada e conciliadora. Ou seja, vai perder metade da piada pertencer a um blog de esquerda. Salva-nos o Santana Lopes...

Por isso, às vezes, uma parte de mim quase torce por Bush.
Depois lembro-me dos 100 000 mortos, das AMD, de Guantanamo, de Abu Ghraib, de Quioto, do processo de paz do Médio Oriente, do ataque à liberdade sexual e aos casais homossexuais...

Publicado por Jorge Palinhos às 07:46 PM | Comentários (1)

O "ALEGADO JORNALISTA" VOLTA A FAZER DAS SUAS

Aqui temos a última crónica do alegado jornalista António Ribeiro Ferreira. O estilo é o habitual, mas hoje ele esmerou-se tanto que me deixou sem mais palavras.

«A Velha Europa largou umas lágrimas de crocodilo no 11 de Setembro, sonhou com um novo Vietname no Afeganistão, tentou tudo para travar a libertação do Iraque, amplifica os erros dos aliados e compreende o terrorismo bárbaro que mata milhares de inocentes. A Velha Europa, anti-semita, odeia o apoio dos EUA a Israel e está de alma e coração ao lado dos terroristas palestinianos.»

E ainda há mais esta: «A Velha Europa foi obrigada pelos americanos a libertar-se do nazismo.» Quem escreveu isto também escreveu há cerca de cinco anos, num dos célebres editoriais do DN, que os bombardeamentos da Jugoslávia por parte da NATO (com que eu discordava, mas não nestes termos) eram... "a vingança da derrota de Hitler nos Balcãs". Ao contrário do Daniel, não creio estar-se só perante um caso de ignorância ou má fé histó(é)rica; receio que se trate mesmo de um caso de paranóia.

Publicado por Filipe Moura às 06:42 PM | Comentários (8)

COMO CONSEGUI VOTAR NAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS AMERICANAS

Há uns anos, eu era frequentador habitual de um fórum de discussão política num site dedicado aos malucos da alta-relojoaria (sim; sofri de tal maleita mental, mas já estou quase curado). As discussões virulentas que ali decorriam opunham invariavelmente os americanos mais direitistas e um pequeno mas aguerrido bando de europeus. De permeio, surgiam uns quantos americanos razoáveis e comedidos. Chegou o dia em que as discussões se tornaram tão vivas que os donos da coisa decidiram encerrar o fórum, por indecente e má figura.
Desses tempos, guardo ainda uns quantos e-amigos, com que me correspondo regularmente, e um amigo de carne e osso, o Sam. Este texano chegou mesmo a passar uma semana hospedado em minha casa, para surpresa dos fundamentalistas lá do fórum, que "sabiam" que eu era um anti-americano primário...
Nas últimas semanas, tenho tentado convencer o Sam a ultrapassar a sua descrença e sair de casa para votar hoje. Ele, mesmo não sendo a criatura mais politizada deste mundo, até antipatiza com o Bush. E, mais importante, vive em Santa Fe, capital do Novo México, swing state que as últimas sondagens davam como virtualmente empatado. Há pouco, recebi um mail dele com uma rendição incondicional: afirma que vai votar, só para não ter de aturar mais o meu "bitching" acerca do perigo que o Bush II representa para o Mundo Civilizado, para a Liberdade, para os Relógios Suíços, etc.
Já sabem; se o Kerry ganhar neste estado por um voto apenas e tal vitória for decisiva para a eleição presidencial, podem agradecê-lo a este vosso criado...

Publicado por Luis Rainha às 05:36 PM | Comentários (1)

VIVA! JÁ SOU UM GAJO RELEVANTE!

Imaginam a sensação de procurar, via Google, um texto que escreveram há umas semanas e encontrarem-no duplicado, sendo que uma das "versões" está assinada por outrem?
Pois foi mesmo isso que me aconteceu há minutos. Entre isto e isto, a única diferença à vista é a falta de link na cópia. E, claro está, a assinatura, que passa a ser de um tal "A.Mello-Alter" (a parte do "Alter" até tem alguma graça, neste contexto).
Sim; sei daquela história segundo a qual a imitação é a forma mais sincera de lisonja. Mas continuo a abominar o plágio em todas as suas formas. Continuo a pensar que o Jorge Listopad e a Clara Pinto Correia deviam ser banidos para a Zona Fantasma. Não consigo encontrar na cópia qualquer elogio, a não ser o da preguiça e da desonestidade intelectual.
Que raio de atenuante será agora invocada para amenizar este disparate?

Publicado por Luis Rainha às 03:44 PM | Comentários (9)

UM ÚLTIMO VOTO

Não estou à espera que a eleição de John Kerry transforme de forma radical este mundo em que temos o fado de viver. Não tenho grandes expectativas nesse sentido.
Mas não consigo esquecer várias outras coisas: Bush lançou uma guerra baseada em mentiras, algumas fruto de uma certa vontade de acreditar, outras comprovadamente conscientes. Lançou as suas tropas no abismo, sem fazer ideia dos custos humanos e dispensando qualquer planeamento do pós-guerra. Transformou a América numa nação neo-espartana, capaz de ignorar direitos e garantias em nome da famosa "segurança" (pobre Ben Franklin; tão depressa esqueceram o teu aviso). Trouxe de volta a tortura e as detenções prolongadas e arbitrárias, sempre em nome do inexaurível "bem maior". Incentivou a perpetuação de mentiras úteis, através de um vice que ainda hoje insinua que Saddam esteve de alguma forma ligado ao 11 de Setembro. Ignora olimpicamente qualquer vontade para lá das fronteiras americanas, a não ser quando precisa de mais carne para os canhões estacionados no Iraque. Revela uma total despreocupação com a salvaguarda do Ambiente, quer se trate de furos no Alaska ou de papeladas assinadas em Quioto. Deseja devolver Deus ao lugar que acha que Ele merece e exige: o de co-governante dos EUA. Em quatro anos conseguiu escavacar a economia americana, estraçalhar as relações com quase todos os seus aliados e deixar a sua administração embrulhada em variados escândalos financeiros.
Como é que ainda anda gente por aí a proclamar o seu apoio a tal criatura? Porque persistem abantesmas como esta?
Não é uma questão de ser de esquerda ou de direita; Kerry não é, de todo, um socialista, e há mais a unir os dois grandes partidos americanos do que a separá-los. É sim uma questão de consciência: Bush não passa de um néscio carismático nas mãos de bonecreiros impiedosos e sem escrúpulos.
Por isso, faço mesmo votos que Kerry ganhe.

Publicado por Luis Rainha às 03:21 PM | Comentários (3)

WHAT'S NEW?

Bob Park, Universidade de Maryland, escreve notas semanais sobre política, ciência e delírios anti-científicos para a American Physical Society. Distribuídas via email, num estilo blogger avant la lettre, estão online aqui, com arquivos a partir de 1987. Para além de um "disclaimer" insuperável ("Opinions are the author's and not necessarily shared by the University of Maryland, but they should be."), as notas são brilhantes e desmoronam muitos dos preconceitos que os europeus têm em relação aos americanos. Dois exemplos recentes:

4. POLITICAL SCIENCE: SCIENTISTS ARE MORE PARTISAN THIS TIME.
The New York Times wrote about it Tuesday, so I guess it's fair game. I got an e-mail this week from a journalist in the UK, who begged me to give him the name of a Bush-Republican scientist he could interview. I did, but it wasn't easy. (WN, October 22 2004)

2. NUCLEAR PROLIFERATION: CANDIDATES DIFFER SHARPLY IN DEBATE.
The moderator, Jim Lehrer, asked Kerry what he thought is the most serious threat to national security. "Nuclear proliferation, nuclear proliferation," Kerry responded emphatically. "To make it clear to the
world that we're serious about containing nuclear proliferation," he vowed to shut down the current program to develop a nuclear bunker-buster. Bush responded that "we've increased funding for dealing with nuclear proliferation about 35 percent since I've been President." Apparently, if the United States develops a new nuclear weapon it's not proliferation. (WN, October 1 2004)
(Luís Oliveira e Silva)

Publicado por Filipe Moura às 01:16 PM | Comentários (2)

UM ITÁLICO DA LEFT

O nosso leitor Luís Oliveira e Silva enviou-nos mais um texto sobre uma perspectiva de um cientista das eleições norte-americanas. Luís, muito obrigado pela contribuição. Deixa-me porém só manifestar uma ligeira discordância. Insuperável é o "disclaimer" da página pessoal de Warren Siegel, para o bem e para o mal meu professor: The views expressed on these pages are my own, & should not be taken as those of the State University of New York, which are not as good.

Publicado por Filipe Moura às 01:13 PM | Comentários (1)

CONFIRMA-SE: O FRIO DÁ CABO DO CÉREBRO

O Alaska é o estado americano em que se prevê uma maior diferença entre os votos em Bush e os atribuídos a Kerry: 57% contra 30%. Por outro lado, Nader poderá ter aqui o seu segundo melhor score: 5%. Ou seja: votam em massa no gajo que quer esburacar aquilo tudo e, à laia de compensação, dão umas migalhas ao ecologista. Nunca mais me deixo enternecer pela dura vida dos Esquimós.

Publicado por Luis Rainha às 12:10 PM | Comentários (4)

UM FIM-DE-SEMANA ARREPIANTE

Estava escrito que, mais dia, menos dia, isto iria acontecer; finalmente, deixei-me persuadir a organizar, em minha casa, uma festa de "Halloween". Como em qualquer função com dezenas de comensais, lá tive de gastar horas infindas no supermercado e na cozinha. Mas isto foi só o começo: tive de decorar a casa com os adereços "assustadores" que um meu amigo texano me tinha enviado já há uns anos. Tive de aprender a esculpir abóboras (como a da foto). Tive de andar a correr de loja em loja à procura de um transformador para poder ligar as iluminações festivas vidas dos EUA (ainda acabei por recordar a tempo algumas vagas noções sobre ligações em série). Tive de tentar "disfarçar-me" com um adereço que só se agarrava à minha pele com litros de cola gosmenta. Bem, pelo menos, a criançada divertiu-se a valer: o meu filho mais velho disfarçou-se de zombie ou coisa que o valha, e o mais novo desatava aos berros sempre que vislumbrava um esqueleto em plástico que jazia pendurado numa porta. Enfim; não me sobrou um fiapo de energia que fosse para postar no fim-de-semana.
Mas olhem que eu não encaro a ocupação da minha casa por estes festejos americanizados como uma cedência vergonhosa; foi antes uma espécie de tributo às cromadas e faiscantes divindades yankees, para que iluminem aquela malta ainda a tempo das eleições.

Publicado por Luis Rainha às 11:42 AM | Comentários (6)

ATÉ FOI UM FAVOR QUE LHE FIZERAM...

Buttiglione declara-se "feliz por sofrer pelos seus valores".

Publicado por Jorge Palinhos às 11:26 AM | Comentários (2)

OUTRAS CULTURAS ALIENÍGENAS

Família de jovem japonês raptado e assassinado no Iraque pede perdão pelos "embaraços criados pela má-educação do filho".

Publicado por Jorge Palinhos às 11:20 AM | Comentários (0)

A SEGUNDA MORTE DE VAN GOGH

Cineasta holandês que realizou um filme sobre a violência que sofrem as mulheres muçulmanas foi assassinado em Amsterdão.

Publicado por Jorge Palinhos às 11:00 AM | Comentários (7)

A BEBERAGEM MARAVILHA

Já era um excelente desentupidor de canos e tira-nódoas, mas agora os agricultores indianos descobriram uma nova utilidade:

Indian farmers have come up with what they think is the real thing to keep crops free of bugs. Instead of paying hefty fees to international chemical companies for patented pesticides, they are reportedly spraying their cotton and chilli fields with Coca-Cola.

Com tantas aplicações qualquer dia até se lembram de a beber.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:51 AM | Comentários (0)

A SUPERIORIDADE DA MÃO INVISÍVEL

Os portugueses representam cerca de 20% dos clientes do comércio de Badajoz nos chamados dias normais da semana, sendo que nos feriados em Portugal, a percentagem sobe significativamente, de acordo com estudo agora divulgado no semanário Crónica de Badajoz, que dá conta de uma clientela lusa que chega a atingir 70%. (...)

«A tendência vai ser aumentar, pelo menos é assim que está planificado há alguns anos», acrescenta José Pães, deixando claro que nada foi feito ao acaso, conseguindo-se Badajoz impor, nos últimos quatro ou cinco anos, através de uma agressiva mediatização comercial dos seus preços apelativos, fundamentalmente, ao nível dos produtos de primeira necessidade.

Elvas deixou morrer a sua «galinha dos ovos de ouro», com a queda das barreiras alfandegárias. Há 12 anos, ainda rebentava pelas costuras de espanhóis num simples sábado. Qualquer casa de «atoalhados e amarelos» que abrisse ao público tinha sucesso garantido, mas o fenómeno do enriquecimento fácil foi-se diluindo. Sobrevivem meia dúzia de casas, com sacrifício. Faltou planificação.


Publicado por Jorge Palinhos às 10:45 AM | Comentários (2)

A RESPOSTA

Olha! O António Ribeiro Ferreira é americano:

É por isso que hoje eu voto, obviamente, em George W. Bush.

Publicado por Jorge Palinhos às 10:42 AM | Comentários (4)

A QUESTÃO

Quantos posts é que vou aguentar sem mencionar as eleições americanas?

Publicado por Jorge Palinhos às 10:39 AM | Comentários (0)

AS OUTRAS ELEIÇÕES

No Brasil, Lula não tem muitos motivos para sorrir com o desempenho do PT nas grandes cidades nas eleições municipais. Se Porto Alegre, afinal, foi perdida para o PPS de Ciro Gomes (um parceiro governamental), mantendo-se à esquerda, São Paulo foi perdida para o principal partido da oposição, o PSDB. A classe média paulista penalizou assim a prefeita Marta Suplicy, que tentou sempre sobretudo melhorar as condições de vida e de trabalho das classes mais pobres. Por outro lado, no nordeste brasileiro o PT teve progressos importantes, tendo conquistado Fortaleza. Mas a nova prefeita do PT não procurou o apoio de Lula e nem do aparelho do partido, tendo-se declarado uma marxista esotérica. Ou seja, venceu porque não era conotada com o governo... Equilíbrios delicados que Lula teve de gerir para chegar ao poder. Esperemos que saiba geri-los, sem episódios tristes como os do correspondente do The New York Times. Também aqui fico a torcer.

Publicado por Filipe Moura às 09:08 AM | Comentários (1)

EXPECTATIVAS PARA HOJE

Que no Midwest e na Região dos Lagos (Ohio, Iowa, Minnesota, Wisconsin) o descontentamento dos trabalhadores se reflicta nas urnas. Que na Pensilvânia Filadélfia e Pittsburgh e arredores se sobreponham à parte rural. Que na Flórida os cubanos moderados se sobreponham aos radicais, e os cortes na segurança social e assistência médica influenciem os reformados. Que não haja surpresas em New Jersey e no Oregon. E que haja uma surpresa no Colorado. Gostando eu particularmente deste estado da América profunda no coração das Montanhas Rochosas, tal dar-me-ia um gozo especial.
A situação a nível nacional, de acordo com as últimas sondagens, dá um empate técnico com ligeira vantagem para Bush. A mesma situação de há quatro anos. E Gore acabou por ter mais votos. Para tal muito contribuiu o trabalho de última hora dos seus apoiantes. Mesmo no dia das eleições, os elementos do movimento MoveOn vão continuar a trabalhar. E eu a torcer por eles.

Publicado por Filipe Moura às 07:45 AM | Comentários (0)

novembro 01, 2004

TENS RAZÃO, ALEXANDRE, TENS RAZÃO

«Viver na cidade de Lisboa é o acto mais subversivo de todos.»

Publicado por José Mário Silva às 04:39 PM | Comentários (1)

UM ANO DEPOIS

O nosso "poeta itálico", Fernando Venâncio (mais conhecido como professor universitário, romancista e crítico), está de regresso com mais um poema gentilmente oferecido, em exclusivo, ao BdE. Com uma vénia de gratidão, aqui o deixamos:


OUTONO DE 2003


Caem as folhas. Devagar. Apáticas.
Mas isso nem é o pior.
Caem, também, os livros dos amigos
na caixa do correio.
Trazem um abraço, às vezes beijos,
e mesmo algum (sim, nunca fiando)
protesto de amizade.
Depois, pelas entrelinhas
(falo ainda da dedicatória),
a lembrança de quão agradável leitor vou ser.


Gosto do Outono. Mas não um assim.
Para ler os amigos, roubo no cinema,
roubo no sono, roubo na preguiça.
Chego à Primavera lido mas definhado.
Houve momentos de suave aperto, de doce amargura.
Mas pouco ri, muito pouco, não é mal lembrá-lo.


Os amigos não têm piedade.
E, vão ver, para o ano voltarão,
os sacanas,
como se nada se tivesse conseguido.

Publicado por José Mário Silva às 01:40 PM | Comentários (7)

PORTUGUESE RULES THE WORLD!

Há anos, durava e durava um programa na defunta RTP2 chamado "Portugal Sem Fim", cujo objectivo expresso era descobrir cada terreola onde um português tivesse aliviado a bexiga e cada indivíduo cuja avó tivesse andado no truca truca com um luso garanhão.
Através desta notícia descubro agora que o programa se parece ter mudado para a Internet, sob a forma desse patusco hobby que dá pelo nome de genealogia. O grupo de peritos por trás do sapiente site descobriu que ambos os candidatos a presidentes do EUA são descentes de D. Afonso Henriques porque "a descendência do primeiro rei de Portugal 'está ligada a imensas casas reais', pelo que o cruzamento entre as famílias nobres europeias justifica a diáspora dos seus descendentes" e ainda que "dos 43 presidentes norte-americanos, desde George Washington (1732-1799) a George W. Bush (nascido em 1946), 26 descendiam do primeiro monarca português" (mas sem explicações divertidas desta vez)!
A mim confude-me então que as boas famílias americanas tenham tido a desfaçatez de embirrar com o primo Jorge ao ponto de terem emigrado para o continente americano e se terem devotado à república.
Contudo, até reconheço algumas afinidades entre Bush e o fundador da nacionalidade, na característica de ambos não hesitarem em mentir despudoradamente para atingir os seus fins. Por outro lado, também parece haver uma certa semelhança entre Bill Clinton e o nosso Afonso I, visto ambos terem grande dificuldade em reservar as suas pudendas para aplicação específica nas esposas de direito.
Na mesma linha de pensamento, tenho impressão que os grafistas deste blog serão, todos eles, bastardos de João II devido às suas ideias sobre o Estado estratega (o que gera alguns problemas de consaguinidade, receio), e, quem sabe, filhos de Thomas Jefferson aquando da sua estada na Europa.

Publicado por Jorge Palinhos às 12:53 PM | Comentários (2)