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setembro 30, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 1)

Filmes previstos para amanhã, sexta-feira (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - «Struggle», de Ruth Mader (Áustria)
21h30 - «A Cara que Mereces», de Miguel Gomes (Portugal)

Sala 2

17h30 - Curtas Competição 2
19h00 - Curtas Competição 3
22h30 - Curtas Herói Independente 2

Sala 3

16h00 - «Free Radicals», de Barbara Albert (Áustria)
18h30 - «Hard Luck Hero», de Sabu (Japão)
22h00 - «Sansa», de Siegfried (França)

Publicado por José Mário Silva às 11:50 PM | Comentários (0)

PREVISÃO DO TEMPO PARA ESTA NOITE, NA FLORIDA


Jeff Parker, Florida Today

Vai ser o primeiro debate de Kerry contra Bush — talvez o mais importante, talvez o decisivo. Para bem do futuro da América (e do mundo), exige-se uma vitória clara do candidato democrata. Our fingers are crossed.

Publicado por José Mário Silva às 08:51 PM | Comentários (3)

UM POEMA INÉDITO

Para grande honra nossa, Fernando Venâncio, de há muito um leitor fiel e comentador regular do BdE, escolheu-nos como "meio de publicação" de alguns dos seus poemas.
Aqui está mais um, acabadinho de chegar por e-mail:

QUARENTA ANOS, OBRAS COMPLETAS

Há muitos poetas de quarenta anos,
Algum ano menos, qualquer ano mais.
Que estrelas fulgiram há quarenta anos
Pra tanta poesia ter dado aos mortais?

Da morte não falam aos quarenta anos.
De amor sim, alguns. Já tristezas não sabem.
Passaram por cima de quarenta anos
Sem uma aflição, ou desgraça, onde acabem.

As obras completas aos quarenta anos
Consagram, garantem já nomes de ruas.
E casam, dobrados os quarenta anos,
Com jovens poetisas, descobertas suas.

Mas, ai, aguardemos mais quarenta anos,
E a dor há-de vir surpreender-lhes a alma.
As mágoas só tardam mais quarenta anos.
É questão de tempo. É questão de calma.

Obrigado, Fernando.

Publicado por José Mário Silva às 08:43 PM | Comentários (1)

NÃO HÁ PALAVRAS

No Iraque, continua o massacre dos inocentes. Mais de 30 crianças foram hoje assassinadas à bomba. Bem pode o soldado iraquiano da foto chorar o seu desespero; não se prevê para breve o fim destes absurdos sem nome.

Publicado por Luis Rainha às 04:25 PM | Comentários (9)

PERDÃO DA DÍVIDA AO TERCEIRO MUNDO

Coisa rara: uma boa notícia. Resta saber se esta declaração do governo de Blair não dispensa, digamos, a leitura do prospecto. (Hugo)

Publicado por José Mário Silva às 03:39 PM | Comentários (0)

OS HERÓIS DESCONHECIDOS

Apresento-vos o capitão John Alcock e o tenente Arthur Whitten Brown. Assim de repente, estes rostos e nomes não devem dizer muito a muita gente. Mas trata-se dos senhores que primeiro atravessaram o Atlântico num voo de avião sem escalas.
Descolaram a 14 de Junho de 1919, da Terra Nova, e chegaram à Irlanda no dia seguinte, tendo gasto 16 horas e 27 minutos na travessia. O voo de Lindbergh só teve lugar quase 8 anos depois. No entanto, estabeleceu-se firmemente na imaginação popular como tendo sido o primeiro voo non-stop sobre o Atlântico Norte, quando o aviador americano foi "apenas" (com muitas aspas) o primeiro a fazê-lo a solo.
Lembrei-me destes distintos e ignotos cavalheiros ao ler como esta notícia do "Público" afaga o mito, embelezando-o com frases como "Então, o feito de Lindbergh também tocava a fronteira da ficção científica". Não; ultrapassava sim as fronteiras da coragem e da resistência humanas. E já não era nada pouco.

Publicado por Luis Rainha às 01:36 PM | Comentários (6)

A CAMINHO DO ESPAÇO, AOS TRAMBOLHÕES

O Space Ship One cumpriu ontem o primeiro dos dois voos suborbitais que precisa para ganhar o Ansari X Prize (e os respectivos 10 milhões de dólares). A subida decorreu de forma bastante acidentada, com o veículo a rolar descontroladamente sobre o seu eixo. Apesar das acrobacias inesperadas, atingiu os 109 quilómetros de altitude, ultrapassando o recorde (com 41 anos!) do mítico X-15.
Dia 4 de Outubro, terá lugar o próximo voo. Entretanto, Richard Branson, patrocinador do SS1 e exótico patrão da Virgin, já anda com estrelas (e cifrões) nos olhos, a prometer para breve o nascimento da sua agência de viagens espaciais...

Publicado por Luis Rainha às 12:40 PM | Comentários (2)

OLHEM QUE ELE MERECE!


É verdade que ele recebe um ordenado milionário. Mas reparem bem que o trabalho dele é vender este traste pavoroso. Há formas terríveis de ganhar a vida.

Publicado por Luis Rainha às 11:43 AM | Comentários (3)

HÁ MUITOS MIRAS AMARAIS POR AÍ

Se isto não é um escândalo, o que é um escândalo?

Publicado por José Mário Silva às 11:30 AM | Comentários (4)

NA BLOGOSFERA, COMO NA VIDA REAL

Já consultaram a lista dos blogues mais vistos, ontem, no universo weblog.com.pt? Pois é. Depois de várias ameaças, as gajas nuas (sem texto) ultrapassaram finalmente, na liderança, a discussão política (com contexto). Sinal dos tempos?

Publicado por José Mário Silva às 10:59 AM | Comentários (11)

POSTAL PARA JOSÉ PACHECO PEREIRA

Caro Abrupto,
Para o caso de ainda ninguém lhe ter dito nada, consta que este belo vulcão está quase a acordar. Acho que vale a pena ir deitando um olho ao que por lá se passa.
Saudações vulcanólogas de um amante de nuvens,

Publicado por José Mário Silva às 09:50 AM | Comentários (2)

setembro 29, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 30)

Filmes previstos para amanhã, quinta-feira (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - «Free Radicals», de Barbara Albert (Áustria)
21h30 - «Hard Luck Hero», de Sabu (Japão)

Sala 2

17h30 - Curtas Observatório 3
19h00 - Curtas Competição 2
22h30 - Curtas Observatório 2

Sala 3

16h00 - «Il Dono», de Michelangelo Frammartino (Itália)
18h30 - «Whisky», de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll (Uruguai)
22h00 - «Vibrator», de Ryuchi Hiroki (Japão)

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (3)

IN MEMORIAM: TRÊS PADRÕES (4)

Pronto. Estes são os monumentos fúnebres da minha vizinhança.
E que querem eles impedir-nos de esquecer? Um acidente que mudou a história de Espanha e da Europa. Outro que poderia ter mudado a minha vida. E um que deve ter passado pelos jornais de raspão, numa daquelas lacónicas contagens de vítimas que ocultam mais do que contam. Mas foi precisamente este o único a conseguir marcar a minha imaginação com o ferrete macabro mas tão banal do fascínio pela morte dos outros.
Ou não? Ontem, sonhei com aviões moribundos, caindo lentos através dos céus de chumbo de uma cidade que não reconheci. E nem em sonhos consigo adivinhar os rostos dos miúdos cuja morte me assombra a cada vez que passo na curva que foi para eles a última. Mais respostas em busca de perguntas adequadas.

Publicado por Luis Rainha às 07:36 PM | Comentários (0)

IN MEMORIAM: TRÊS PADRÕES (3)

3 de Julho de 2002. Pouco passa do meio-dia. Uma avioneta Piper que descolou há minutos do aeródromo de Tires comunica ao controlo de voo que deparou com mau tempo e vai regressar. Depois, silêncio.
No dia seguinte, os matutinos noticiam o desaparecimento da aeronave. Mas a equipa de buscas já encontrou os despojos do avião e dos seus quatro ocupantes, em plena serra de Sintra.
Graeme Le Quesne, John Festi, Graham Mockridge e sua mulher, Josie. São estes os nomes que a lápide escondida algures no Vale do Cabrito continua a relembrar aos raros passantes. Hoje, ainda encontramos vestígios destas pessoas na Internet: elogios fúnebres, sarilhos legais, hobbies (assim são algumas das pegadas que deixamos por este mundo). Eram membros da International Fellowship of Flying Rotarians e participavam numa excursão aérea pela Península. O voo fatal deveria ter terminado no Porto.
Recordo-me bem da noite em que por fim o avião perdido foi encontrado: estava de férias em casa, a menos de dois quilómetros do local do acidente. Só entendi o porquê da gritaria contínua das sirenes quando vi as notícias no dia seguinte. E só ao encontrar este padrão fúnebre, há escassas semanas, pude avaliar a ameaça que roçou a minha vida e as dos meus filhos naquele dia: em menos de 30 segundos, o avião acidentado poderia ter chegado a minha casa. Será que o piloto, apesar do nevoeiro, ainda conseguiu discernir os vultos do casario, optando por deixar cair o Piper numa zona inabitada? (Claro está que nunca vou saber se isto é mais do que uma fantasia romântica.)

Nem quando percebi a razão de ser deste pequeno padrão, inesteticamente cravado no dorso do bosque, deixei de o achar frio e feio. As suas cores berrantes estão ali tão bem integradas com a Natureza circundante quanto o deverão ter estado os destroços do acidente que evoca. Mesmo a fórmula minimal e seca da "nossa memória" só me causou alguma estranheza por estar escrita em Português. Acima de tudo, não me pareceu coisa digna deixar este memento em pedra ali ao abandono, com mochos e morcegos por únicas companhias.
Mas há quem continue a visitá-lo, como se vê pelas flores quase frescas.

A propósito das flores: fui obrigado a deslocar-me ao seio da serra por três vezes, a fim de recolher estas imagens. Das duas primeiras, por uma razão ou por outra, as imagens apagaram-se acidentalmente da memória da minha câmara digital. E só à terceira visita, anteontem, é que lá encontrei o arranjo floral.
Lembro-me agora de ter lido um livro de Jung sobre o conceito de sincronicidade, há uns anos... o que me vale é que acho que não acredito nessas coisas.

Publicado por Luis Rainha às 06:19 PM | Comentários (0)

O QUIOSQUE DEPRESSIVO (2)

Devo confessar: há muitos anos que esperava por esta manchete. Só que o choque do Vaticano noticiado pelo CM nada tem a ver, infelizmente, com a farsa mitificada das aparições.

Publicado por José Mário Silva às 02:48 PM | Comentários (17)

O ESTRANHO MUNDO DO PP

Em resposta aos resultados desta sondagem, que indicam que 70% dos portugueses não aprovam a forma como Paulo Portas recebeu o "Barco do aborto", o VP do PP, Pires de Lima, desenvolveu este extraordinário raciocínio: "importante é que 30% dos portugueses apoiam a acção do governo, o que é um número significativo" (cito de memória).
Pronto. Da próxima vez que o Benfica perder por 7-1, já tenho uma bela consolação na manga: "interessa é termos marcado um golo!"

Publicado por Luis Rainha às 02:00 PM | Comentários (5)

PARABÉNS CERN

O Laboratório Europeu de Física de Partículas faz hoje cinquenta anos ...mas a triste realidade da actual participação portuguesa foi a que referi aqui. Mais informação aqui.
As maiores descobertas feitas no CERN foram os bosões de gauge das interacções nucleares fracas, o Z e o W, em 1983, essenciais para a confirmação da teoria conhecida como o Modelo Padrão. Mas a descoberta que teve maior impacto no mundo e na vida de todos nós foi mesmo a da world wide web...

Publicado por Filipe Moura às 01:31 PM | Comentários (4)

A MINHA AMIGA CONTESTATÁRIA

A idade das personagens de ficção tem sempre algo de estranho. A Mafalda foi concebida em 1963 para uma campanha publicitária que nunca saiu da secretária. São dessa altura as primeiras vinhetas, ainda algo primitivas. Na altura era uma miúda com cinco ou seis anos, e a sua idade pouco ou nada se alterou durante os dez anos que a tira durou.
Nestas coisas convém ter um aniversário fixo, e a primeira vez que a Mafalda apareceu na imprensa foi faz hoje precisamente 40 anos. Não foi só a sua idade que não mudou nestes anos: foi também a sua forma de pensar, de ver o mundo. O mundo mudou entretanto, a guerra fria e a lógica dos blocos acabaram, mas a angústia permanece. Ou aumentou. Mafalda permanece como um testemunho histórico atemporal. Ela não mudou, mas nem todos somos Mafaldas. Sigamos então o seu conselho e mudemos o mundo.

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Publicado por Filipe Moura às 11:30 AM | Comentários (1)

O QUIOSQUE DEPRESSIVO

Eis uma notícia que diz tudo sobre o estado da Nação. O 24 Horas ultrapassou o Público no número médio de jornais vendidos, durante o primeiro semestre de 2004. Mais tarde ou mais cedo, tinha que acontecer. Aconteceu agora e bate certo: é o triunfo lógico do Portugal que vemos à nossa volta. O Portugal rasca. O Portugal pimba. O Portugal tablóide.
Alguém tem por aí, à mão, uma embalagem de Prozac que me empreste?

Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (22)

COBIÇA DE MULTINACIONAL AMEAÇA EMPRESÁRIOS PORTUGUESES

É a velha história: quando uma operação de uma filial portuguesa se torna extraordinariamente rentável, logo aparecem os manda-chuvas da sede a querer abarbatar as rédeas (e os resultados) do negócio.
Neste caso, o alerta soou quando os administradores locais tiveram a triste ideia de convidar executivos da concorrência para levarem a cabo reuniões com clientes seus nas instalações da empresa lusa. De imediato os bosses centrais exigiram a demissão dos quadros portugueses implicados; se esta imposição não for acatada, teremos em breve estrangeiros a mandar em mais um importante centro de decisão nacional.
A notícia completa pode ser lida aqui.

Publicado por Luis Rainha às 11:09 AM | Comentários (3)

A MINHA AMIGA REACCIONÁRIA

Uma vez, no nosso último ano de curso, ao assinar um cartão de parabéns para mim, foi assim que ela se identificou. Enquanto outros amigos meus (entre os quais alguns destes) me escreviam saudações revolucionárias, e alguns deles teciam considerações sobre a minha maneira de cantar o Grândola, Vila Morena (uma questão que levantava muita polémica), ela escreveu, simplesmente, "beijinhos da amiga reaccionária". Eu achei uma delícia.
Esta minha amiga vem de uma família conservadora, na qual é no entanto considerada (politicamente) a ovelha negra, o caso perdido. (Tal como este rapaz, aliás.) Ela representa um progresso notável. Neste e noutros aspectos.
Parabéns, querida Marta. E um beijinho (mais ou menos) revolucionário.

Publicado por Filipe Moura às 10:11 AM | Comentários (2)

À ÚLTIMA HORA, BLAIR DEIXOU CAIR O «SORRY»

No seu discurso de quase contrição sobre o Iraque, Tony Blair esteve quase a pedir desculpa pelas divisões que a guerra provocou na sociedade britânica (mas o pedido de desculpas explícito desapareceu durante a derradeira reescrita do discurso).
São demasiados quases, não são?


Cartoon de Martin Rowson, «The Guardian»

Publicado por José Mário Silva às 10:02 AM | Comentários (2)

OUTSOURCING DA TORTURA

O Partido Republicano está a tentar legalizar a tortura nos EUA.
Deixem-me corrigir: o Partido Republicano quer exportar prisioneiros para outros países a fim que eles sejam aí torturados, enquanto os EUA continuam a indignar-se e a protestar contra os países que a exercem.
Mais uma vez os Republicanos são os principais aliados dos liberais, defendendo uma coisa tão simples como a liberdade de movimentar pessoas.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:56 AM | Comentários (2)

setembro 28, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 29)

Filmes previstos para amanhã, quarta-feira (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - «Sansa», de Siegfried (França)
21h30 - «Noite Escura», de João Canijo (Portugal)

Sala 2

17h30 - Curtas Observatório 2
19h00 - «Il Dono», de Michelangelo Frammartino (Itália)
22h30 - Curtas Competição 1

Sala 3

16h00 - «Brother to Brother», de Rodney Evans (EUA)
18h30 - «Breaking News», de Johnnie To (Hong Kong)
22h00 - «Niceland», de Fridrik Thor Fridrikson (Islândia)

Publicado por José Mário Silva às 11:50 PM | Comentários (0)

PEDIDO DE DESCULPAS CINÉFILO

Mas quem é que me mandou assistir a duas sessões por dia do Festival IndieLisboa? O resultado é o que (não) se vê. Com tantas horas passadas dentro da sala escura, a que se juntam as 368.529 tarefas diárias obrigatórias e inadiáveis, evaporou-se o tempo para os prometidos comentários críticos aos filmes que fui vendo no S. Jorge. Nada que um dia menos "carregado" não possa resolver (talvez amanhã). Até lá, noblesse oblige, deixo as minhas desculpas aos cinéfilos mais ansiosos.

Publicado por José Mário Silva às 11:42 PM | Comentários (1)

IN MEMORIAM: TRÊS PADRÕES (2)

Terá sido há seis, sete, oito anos? Não me lembro ao certo. Parece-me agora adequado que o acidente tenha eclodido entre as brumas aziagas do Outono; que algumas gotas frias molhassem os mirones postados em silêncio à roda do destroço fumegante. Mas não sei. Não me lembro.
Lembro-me bem é de dar com a aldeia onde então morava ensopada em tristeza. Pessoas refugiadas em magotes apreensivos, gestos quase secretos enquanto trocavam confidências furtivas. Diziam que tinham morrido dois miúdos, numa curva na Malveira da Serra. Que eram filhos, sobrinhos, netos, amigos de gente dali.
Não sei quem foram o Diogo e o Migas. Para vos oferecer, não tenho links, recortes nem, ao menos, a dignidade de nomes completos. Hoje, se não fosse pelo graffiti que vos mostro, já nem me recordaria destes esgarçados indícios: "Diogo", "Migas".
Há seis, sete, oito anos, ambos teriam 18 anos. Numa noite mais veloz, lá se destroçaram contra um muro. Pronto. A vida é assim, ao que todos dizem.
Hoje, a memória dos dois miúdos que ali morreram sobrevive neste fio de tinta, corroído por anos de nevoeiros serranos: "Até sempre amigos, jamais vos esqueceremos". A bravata do desafio ao olvido desmentida pela flagrante erosão do tempo; as letras que se esfumam de dia para dia, sugadas pelo cimento, escondidas por um tag manhoso, em breve decompostas em rabiscos sem remissão. (Que será feito dos amigos que assim juraram recordar? Talvez pais chorosos ainda lá passem uma vez por ano, com oferendas de flores tristes. Talvez.)
Nunca os conheci. Mas sempre me tocou de forma inexplicável este rasto pintado da tragédia. Como se aquela curva por onde passo todos os dias estivesse assombrada, não por almas inquietas mas apenas por esse fantasma tão incómodo e frágil: a memória.

Regresso, mesmo a tempo, a um livro que há muito não visitava:
"Porque nos pesa tanto a morte de uma criança?
Talvez só através das crianças nos seja possível acreditar no dia de amanhã. Nelas o mundo encontra o seu único lenitivo. Uma pequena mas vital cura para o medo do vazio.
A morte é coisa de adultos. Sempre monstruosa e inaceitável; mas entendível como o fim de um lento caminhar. Da inocência para a decadência. As crianças não devem, não podem morrer. Aceitar a possibilidade de um tal absurdo basta para abrir uma fenda na superfície ordenada das nossas vidas. Deixa-nos entrever o que todos sabemos lá estar debaixo. O caos. A negritude da nossa própria solidão. A evidência de que o único sentido da vida é o que nos leva ao desespero."
Pode ser. Mas a vida é assim, ao que todos dizem.

Publicado por Luis Rainha às 06:27 PM | Comentários (6)

O ESTADO A QUE CHEGOU A CIÊNCIA EM PORTUGAL

...sumarizado aqui. Como este, outros exemplos.

Publicado por Filipe Moura às 03:47 PM | Comentários (6)

A VELHA E ESFARRAPADA DESCULPA

"Às escuras, eles parecem-se todos uns com os outros!"

Publicado por Luis Rainha às 03:20 PM | Comentários (0)

UMA "NOVA" HISTÓRIA DE HEMINGWAY, QUE TÃO CEDO NÃO VAMOS LER

Um dos filhos de Ernest Hemingway vai leiloar o manuscrito de uma história inédita do seu progenitor. Este conto de cinco páginas, intitulado "My Life in the Bull Ring with Donald Ogden Stewart", descreve, ao que tudo indica, um episódio cómico ocorrido em Pamplona, no qual um amigo do escritor se viu lançado a uma arena, acabando corneado por um touro. Infelizmente, tão cedo o conto não vai chegar aos olhos do público. Os responsáveis pelo legado de Hemingway proibiram a sua divulgação, talvez por não apreciarem o tom de farsa com que foi escrito. Ninguém tem autorização para brincar com a memória de um vulto literário tão macho. Nem o próprio.

Publicado por Luis Rainha às 02:16 PM | Comentários (12)

IN MEMORIAM: TRÊS PADRÕES (1)

20 de Julho de 1936. Um pequeno avião prepara a descolagem do aeródromo de Cascais. O piloto, sabendo que a potência do aparelho é escassa para o peso da carga, acelera o motor ao máximo antes de se lançar à pista. A aeronave ganha altitude mas não a bastante para ultrapassar as copas das árvores que marcam o final da estreita faixa de terra batida: a hélice embate nas ramadas mais elevadas, desgovernando o avião. O piloto, Juan Antonio Ansaldo, tenta uma aterragem de emergência num campo lavrado, junto à aldeia da Areia, mas acaba por embater num muro em pedra. A aeronave incendeia-se. O seu passageiro jaz morto, com o pescoço desfeito.
Tratava-se do General Sanjurjo, figura-chave da sublevação que começara dois dias antes e viria a entronizar, por entre um mar de sangue, Francisco Franco como caudillo de Espanha.
O Marquês do Rif estava exilado no Estoril, castigado pela sua participação no fracassado golpe de Sevilha, em 32. Reconhecido como chefe natural por todos os militares descontentes com a vitória eleitoral da esquerda em 36, Sanjurjo fazia a ponte e limava arestas entre a facção carlista e os falangistas. O voo fatal tinha por destino Burgos, onde o general seria recebido pelas legiões de Franco como líder da revolta. Segundo o relato do piloto, que sobreviveu, o peso excessivo que terá condenado a aeronave deveu-se à mala carregada de uniformes de gala que Sanjurjo tinha por indispensável ao seu desembarque em glória.
Passados 68 anos, este acidente ainda causa polémicas e alimenta especulações. Ter-se-á tratado de um assassínio, ordenado por Franco? E como decorreria a História espanhola subsequente se o general tivesse alcançado Burgos? Pensaria Sanjurjo entregar o poder à Casa Real, mal a revolta triunfasse?
Mas disso já não reza a placa que em 2003 a CMC se encarregou de substituir, restaurando "a dignidade e a memória que há muito se vinha perdendo". Nela, os "compañeros de armas" de Sanjurjo apenas lamentam o destino que cortou cerce os seus planos de "incorporarse al glorioso alçamiento nacional".

Talvez fosse também nele que Neruda pensava ao escrever:
"Generales
traidores
mirad mi casa muerta
mirad España rota:
pero de cada casa muerta sale metal ardiendo
en vez de flores,
pero de cada hueco de España
sale España,
pero de cada niño muerto sale un fusil con ojos,
pero de cada crimen nacen balas
que os hallarán un día el sitio
del corazón."

Publicado por Luis Rainha às 01:21 PM | Comentários (3)

OS FRANCESES, TRABALHAM-T-ELES O SUFICIENTE? (TEXTO ALGO AFRANCESADO)

Já aqui levantei essa questão. Parece, no entanto, que não sou o único, como se pode ver na capa desta semana da revista Le Point.
Não li o artigo em questão (é a pagar). Creio no entanto que não é por acaso que este tema volta a estar na ordem do dia. É que o governo de direita e, principalmente, o patronato nunca aceitaram a lei das 35 horas de trabalho semanal, do anterior governo de esquerda plural de Lionel Jospin. E sobre este assunto a minha posição é clara: sou favorável à lei.
Aquilo a que eu me referia nem era necessariamente as horas que os franceses trabalham: era mais a atitude dos franceses no trabalho. Por aquilo que me é dado a ver, as pessoas que trabalham perto de mim são trabalhadoras e bastante prestativas. Já os funcionários públicos parecem-me enredados numa máquina burocrática pesadíssima que lhes diminui a eficiência (as voltas que eu tive que dar, os gabinetes que tive de percorrer para conseguir um cartão de acesso a um laboratório nacional!). Em Portugal há o mesmo problema.
A grande diferença está mesmo em tudo o que tenha a ver com atendimento ao público em geral (não só no comércio). Está certo que o Kramer que há em mim não costuma dar-se muito bem com o atendimento directo ao público. Mas os parisienses (falo agora dos parisienses) não gostam deste tipo de profissões. Acham-nas humilhantes. E tratam mal as pessoas que estão a atender. E aqui, podem crer que não sou só eu a achar isso. Pode ser que seja uma questão de antipatia natural parisiense. Que se revela noutros aspectos.
Há também os museus que estão abertos até às seis horas. Para mim (é a isso que estou habituado, e recuso-me a deixar de estar), se um museu está aberto até às seis horas, eu posso lá estar dentro até às seis horas. O conceito francês de "aberto até às seis horas" é às seis horas estar tudo na rua, incluindo os empregados, e o museu fechado à chave. E bem antes das seis horas começam a despedir as pessoas.
Pode ser que os franceses nem trabalhem assim tão pouco, mas quem os visita fica mesmo com a impressão de que não gostam de trabalhar. Era bom que pensassem nisto. Se calhar poder-se-ia evitar artigos como o do Le Point. Voltarei a este assunto.

Publicado por Filipe Moura às 10:30 AM | Comentários (15)

setembro 27, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 28)

Filmes previstos para amanhã, terça-feira (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - Curtas Observatório 1
21h30 - «Temporada de Patos», de Fernando Eimbcke (México)

Sala 2

17h30 - «War», de Jake Mahaffy (EUA)
19h00 - Curtas Competição 1
22h30 - «Lisboetas», de Sérgio Tréfaut (Portugal)

Sala 3

16h00 - «Down to the Bone», de Debra Granik (EUA)
18h30 - «The Fog of War», de Errol Morris (EUA)
22h00 - «Le Monde Vivant», de Eugène Green (França)

Publicado por José Mário Silva às 11:28 PM | Comentários (0)

BUSH É QUE TEM RAZÃO: URGE EXPORTAR A DEMOCRACIA

O respeito pelo processo democrático ainda é coisa impossível de lobrigar em certas paragens. Por exemplo, uma importante eleição a ter lugar ainda este ano parece destinada a resultar em balbúrdia e controvérsia. As autoridades locais já tentaram expurgar os cadernos eleitorais de 22.000 putativos apoiantes do adversário, já imprimiram boletins eleitorais que incluem um candidato que provavelmente não vai poder concorrer e, de acordo com Jimmy Carter, ex-presidente americano agora reconvertido em implacável fiscal de eleições por esse mundo fora, o desrespeito pelas "normas internacionais" é ali uma constante.
Iraque? Afeganistão? Madeira? Nada disso. É da Florida que se trata.

Publicado por Luis Rainha às 06:38 PM | Comentários (5)

ESCRITA FINA, ASNEIRA DA GROSSA

Um esclarecimento prévio: gosto bastante do Nuno Saraiva, quer enquanto artista de BD, quer enquanto (excelente) pessoa. Posto isto, devo declarar que abomino, sem excepção, todas as historietas que a revista do "Expresso" tem vindo a publicar sob o título "Escrita Fina".
Os argumentos (que não são do Nuno) a custo se fazem entender. E nem a duras penas conseguem ter um pingo de graça. Até os desenhos – não sei se por aperto de prazos – parecem toscos e mal-acabadões. Nem o facto de ali reconhecer de quando em vez o "Lux" ou a Margarida Rebelo Pinto consegue arrancar-me um sorriso que seja.
Bem; parece que o sofrimento que estas páginas me causavam pode ter chegado ao fim. Nesta semana, o índice da "Única" indicava como localização da coisa uma página 12 misericordiosamente ocupada com um anúncio qualquer.
Porra, Nuno, mas quando é que o Zé Inocêncio regressa?

Publicado por Luis Rainha às 05:45 PM | Comentários (2)

A MINHA CARREIRA CINEMATOGRÁFICA

Já que por aqui tanto se tem escrito sobre Cinema, não resisto a partilhar convosco as glórias da minha incursão no fabuloso mundo da 7.ª Arte...
Num destes dias vai estrear algures um filmezito com argumento de minha lavra (e dinheiro do ICAM, é bom de ver). A coisa arrastou-se por meia-dúzia de anos, meteu mudança de produtora a meio do caminho e mais algumas peripécias descabeladas. Hoje, apesar de tudo estar concluído há meses, continuo sem que alguém me mostre o produto acabado.
Mais: para além da (muito) relativa glória de agora ter o meu nome arquivado algures no maior armazém da especialidade, que ganhei eu com a obra? Nada. Acreditem que é verdade: no meio de dezenas de envolvidos, consegui arranjar forma de ser o único a não receber uma só migalha do orçamento. Suponho que andem por aí senhoras da limpeza e guardas-nocturnos que ganharam mais com este filme do que eu. Pior: ainda tratei de perder um amigo no processo.
De modo que é assim: se o David Lynch precisar dos meus humildes préstimos, sabe onde me encontrar. Para qualquer outro assunto relacionado com Cinema, não estou.

Publicado por Luis Rainha às 05:29 PM | Comentários (2)

E SE SAMPAIO É, AFINAL, UM GÉNIO?

E se o PR já há muito calculava que Ferro Rodrigues sairia da liderança do PS à primeira curva apertada, dando por fim lugar ao muito mais "marketizável" Sócrates?
E se ele já sabia que Santana Lopes é incapaz de se comportar de forma minimamente decente enquanto primeiro-ministro?
E se ele agora só está à espera da próxima grande bronca para correr com aquela corja e convocar eleições, entregando o poder de mão beijada ao PS?

Pois, pois. Vem nos livros: quando confrontada com uma desgraça de proporções esmagadoras, a mente humana desata a efabular soluções miraculosas, a sonhar com salvíficos deuses ex-machina, que, naturalmente, nunca aparecerão...
É melhor conformar-me: estamos mesmo entregues à bicharada.

Publicado por Luis Rainha às 05:14 PM | Comentários (3)

O GOVERNADOR CIVIL QUE NÃO CUMPRIMENTOU OS ALUNOS

Há uma grande celeuma porque o governador civil de Lisboa não recebeu os cumprimentos dos antigos alunos do Colégio Militar.
Eu, se fosse o governador civil, teria cuidado, pois nunca se sabe do que estes antigos alunos são capazes. Fala-se muito das influências e dos lóbis associados a organizações como o Opus Dei e a Maçonaria e, estranhamente, ninguém fala dos antigos alunos do Colégio Militar. E, no entanto, há uma Avenida do Colégio Militar em Lisboa (que, até há quinze anos, ninguém sabia onde era) - como se o país devesse mais ao colégio Militar do que a outras instituições de ensino. E, no entanto, a pretexto dessa avenida que ninguém sabia onde era, até se deu o nome de Colégio Militar a uma estação de metro. E toda a gente perguntava: "Colégio Militar? Porquê???" (Aqui, eu reconheço: vá lá, a estação não se chamar "Benfica". Se calhar também há aqui lóbi sportinguista.) E, no entanto, esta notícia é dada com este destaque no DN. "Meninos da Luz ofendidos. A Associação de Antigos Alunos do Colégio Militar está em rota de colisão com o actual governador civil de Lisboa, José Lino Ramos." Deveríamos estar todos muito preocupados com isto.

Publicado por Filipe Moura às 09:56 AM | Comentários (9)

setembro 26, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 27)

Filmes previstos para amanhã, segunda-feira (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - «Whisky», de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll (Uruguai)
21h30 - «Breaking News», de Johnie To (Hong Kong)

Sala 2

17h30 - «Lisboetas», de Sérgio Tréfaut (Portugal)
19h00 - «The Adventures of Iron Pussy», de A. Weerasethakul & M. Shaowanasai (Tailândia)
22h30 - «10 on Ten», de Abbas Kiarostami (Irão)

Sala 3

16h00 - Curtas Observatório 1
18h30 - «Czech Dream», de Vit Klusák e Filip Remunda (Rep. Checa)
22h00 - «Atash», de Tawfik Abu Wael Agbariya (Palestina/Israel)

Publicado por José Mário Silva às 11:56 PM | Comentários (1)

UM DIA TÃO BONITO E EU AQUI AO TECLADO

Aos amigos que me ofereceram as "Canções Subterrâneas", tenho a agradecer um excelente disco, assombrado por um Fado transgénico que se serve (ou está ao serviço) de poemas belíssimos. E, claro está, o refrão mais delirante que alguma vez ouvi, saído da pena de Adília Lopes...

Publicado por Luis Rainha às 01:05 PM | Comentários (5)

UMA BELA SUGESTÃO PARA O FILIPE

Já que o meu estimado colega de blogue gostava de poder servir a Pátria, por um período curto mais prenhe de significado, tenho aqui um programa mesmo à maneira para lhe propor: o "Dia da Defesa Nacional"!
Graças à inspiração de Paulo Portas, a mocidade lusa vai receber valiosas lições de soberania, cidadania e demais mitologia acabada em "ia". 70.000 mancebos portugueses - por estranho que pareça, as donzelas nacionais ainda estão livres da chanchada - nem terão escolha: as convocatórias já devem estar a caminho; e declinar tal convite equivale a ter de pagar uma multa.
Espera-os um programa educativo completo, disponível em várias unidades militares: palestras, vídeos, inquéritos, mais palestras. Julgo que será a receita ideal para explicar aos rapazes que "obrigatoriedade" e "arbitrariedade" não rimam por acaso.
Filipe, como muitos de nós, cidadãos carentes de disciplina e espírito de sacrifício, já és um pouco entradote para participar na função. Mas talvez te aceitem como voluntário. Vem daí. Interrompe a tua vida – como acontecia a todos os que eram apanhados na teia do SMO - e ajuda-nos a erradicar este preocupante "défice de participação cívica, que convém corrigir desde tenra idade". A Nação conta contigo!
;-)

Publicado por Luis Rainha às 11:01 AM | Comentários (4)

setembro 25, 2004

INDIELISBOA (PROGRAMAÇÃO PARA DIA 26)

Filmes previstos para amanhã, domingo (a negrito os que tenciono ver):

Sala 1

17h00 - «Niceland», de Fridrik Thor Fridriksson (Islândia)
21h30 - «La Niña Santa», de Lucrecia Martel (Argentina)

Sala 2

17h30 - «Le Monde Vivant», de Eugène Green (França)
19h00 - Curtas Herói Independente 1
22h30 - «War», de Jake Mahaffy (EUA)

Sala 3

16h00 - «Brother to Brother», de Rodney Evans (EUA)
18h30 - «Or (Mon Trésor)», de Keren Yedaya (Israel)
22h00 - «Down to the Bone», de Debra Granik (EUA)

Publicado por José Mário Silva às 11:54 PM | Comentários (1)

UM FORTE PARA TI, UM FORTE PARA MIM...

Segundo o "Expresso" de hoje, Santana Lopes meteu na pequena cabeça que também tem de ter direito a um forte onde passar os fins-de semana, à imagem do cúmplice Paulo Portas. A cobiça do calhau com gel – que exigia localização na Linha e uma série de condições de conforto - recaiu sobre o forte de S. António da Barra. Precisamente o local onde Salazar se despenhou da célebre cadeira, com os resultados que todos conhecemos.
Os mais malévolos entre vós irão por certo fazer figas, a bem da Nação, para que entretanto ninguém se tenha lembrado de reparar a mobília...

PS: a seguir ao acidente, o ogre de Santa Comba foi mantido, pelos seus ministros, na ilusão de que ainda governava Portugal. Algo não muito diferente do que já se passa hoje com Santana, julgo eu...

Publicado por Luis Rainha às 05:25 PM | Comentários (5)

O SEGREDO DE NOTRE DAME

Agora que ele chegou ao fim, deixo-vos esta recordação do instável verão parisiense. Bem dizem que no fim de cada arco-íris há um tesouro.

NotreDame.jpg

Publicado por Filipe Moura às 01:44 PM | Comentários (3)

VERSOS QUE NOS SALVAM

De Luiza Neto Jorge, estes fragmentos:


Não podendo falar para toda a terra
direi um segredo a um só ouvido

***

Uma sombra encostava a pata
ao vidro da janela
Assim protegidos adormecíamos

***

Paraíso estanque:
estrelas a mais
barrando
a subida.

in «A Lume», Assírio & Alvim (1989)


Publicado por José Mário Silva às 01:41 PM | Comentários (2)

INDIELISBOA - DIA 0

Secção: filme de abertura
Título: «Before Sunset»
Realizador: Richard Linklater (EUA)

Quando soube que estava a ser produzida a sequela de «Before Sunrise» (1995), temi o pior. A graça toda do filme de Richard Linklater estava precisamente no facto de ser uma história sem regresso. Dois jovens que atravessam a Europa de comboio – ela francesa (Celine/Julie Delpy), ele americano (Jesse/Ethan Hawke) – fazem de um fragmento limitado de tempo, as poucas horas de uma deambulação nocturna pelas ruas de Viena, o espaço possível de um amor hiper-romântico e autofágico. Se aquele encontro faz sentido, com as suas ingénuas partilhas sobre os desejos privados ou as conjecturas sobre a vida e o futuro, é porque justamente não existe, entre aqueles dois, qualquer ilusão quanto à durabilidade daquele amor. Ao despedirem-se, após o breve idílio, preferem não trocar endereços ou número de telefone (para não cederem à tentação de um embaraçoso reencontro fora de Viena) mas não fecham completamente a porta um ao outro: seis meses depois, se a memória daquela noite resistisse à separação, voltariam à capital austríaca com dia e hora marcada. O charme do filme, que entretanto se tornou uma película de culto, estava muito nesta incógnita. Voltariam eles a Viena? Conseguiriam eles, à distância, manter a suprema leveza de um primeiro olhar? Qualquer resposta arriscava-se a quebrar o delicado equilíbrio daquela história. Por isso receei o pior ao saber de «Before Sunset». Torcendo um pouco a célebre frase de Pavese, nada é mais inabitável do que um filme onde se foi feliz.
O genérico – com imagens estereotipadas de Paris, cheias de filtros dourados – só agravou a minha desconfiança. E o começo não podia ser mais frouxo. Na livraria Shakespeare and Co., Jesse está a assinar o seu romance (sobre aquela noite, claro) e no meio de entrevistas previsíveis, vê surgir Celine, como uma aparição. Escapam-se logo que podem e sentam-se num café, a falar sobre os nove anos que entretanto passaram. Estão ambos mais velhos, com marcas no corpo e na maneira de falar. A ingenuidade foi-se, mas a maturidade ainda não chegou. Jesse é agora um escritor famoso, em tournée europeia, casado, com um filho de quatro anos. Celine pertence a uma ONG, tem o discurso empenhado na ponta da língua e o perfil da activista obcecada com um «mundo melhor». Cada um à sua maneira, escondem-se atrás das palavras que debitam com uma naturalidade algo forçada, enquanto procuram descobrir, nas entrelinhas, aquilo em que o outro verdadeiramente se transformou.
Depois, como Jesse precisa de estar no aeroporto dentro de pouco mais de uma hora (o filme, de 80 minutos, é filmado em tempo real), decidem flanar pelas ruas de Paris. E é então que Linklater recupera, surpreendentemente, o ritmo e a respiração de «Before Sunrise». Ficamos a saber que Jesse voltou a Viena mas Celine não (morrera-lhe a avó). A conversa progride aos saltos, cheia de insinuações, recomeços, subentendidos, um puzzle de palavras a crescer para todos os lados. Desfilam fantasmas, desilusões, pequenas angústias, desencantos. E de repente, quando os dois já adiaram o adeus até ao limite do possível, ambos põem as cartas em cima da mesa e partilham a sua mais completa infelicidade. O círculo aperta-se: das ruas passaram para um jardim, do jardim para um barco turístico, do barco turístico para uma carrinha, da carrinha para o apartamento dela. O tempo esgotou-se. Celine canta a Jesse uma valsa. Está na hora de partir e Jesse hesita, enquanto Celine (num arrepiante final em aberto) imita os trejeitos de Nina Simone em palco.
No fundo, o filme é apenas isto. Uma conversa. Dois corpos suspensos à beira de algo maior do que eles. Pequenas coisas quase invisíveis (a luz no rosto, certos reflexos). Gestos mínimos: aquele quase afago de Celine a Jesse, no táxi, por exemplo. Diálogos perfeitos. Dois actores em absoluto estado de graça (sobretudo Delpy). O filme é apenas isto. E este pouco é muito mais do que eu estava disposto a esperar.
À questão óbvia (assistiremos, daqui a uma década, à crise dos 40 do americano e da francesa?) prefiro não responder. Só sei que eles não disseram – e ainda bem – «we will always have Paris».

Publicado por José Mário Silva às 11:41 AM | Comentários (2)

AINDA PERDIDO NA TRADUÇÃO


É boa ideia alugar o DVD de "Lost in Translation", e não apenas pela óbvia necessidade de rever o filme. O making of incluído como extra mostra-nos um Bill Murray hilariante, sobretudo fora do plateau. E dá-nos a ver coisas que tinha por impensáveis, como filmagens piratas no metro, sempre com medo de ver surgir a polícia, e a expulsão da equipa de um restaurante onde pretendia filmar uma cena à socapa. Indesculpável é a escassa presença de Scarlett Johansson, mas trata-se da história do costume: não se pode ter tudo. (Por curiosidade, note-se que este cândido e singelo documentário é em parte filmado pelo ex da menina Coppola, Spike Jonze.)

Publicado por Luis Rainha às 01:30 AM | Comentários (2)

setembro 24, 2004

INDIELISBOA (ANTECIPAÇÃO)

Dentro de meia-hora, terá início o Festival IndieLisboa, no cinema São Jorge, com a ante-estreia do filme «Antes do Anoitecer» («Before Sunset»), de Richard Linklater. E já há indícios do desejável sucesso desta primeira edição: os bilhetes para a cerimónia de abertura esgotaram ontem, antes das 18 horas. Pelos vistos, há em Lisboa um público para o cinema que se coloca à margem do mainstream e dos seus habituais esquemas de promoção e exibição. Agora, resta esperar que a afluência não quebre demasiado durante a semana ou perante cinematografias mais difíceis.
Nos oito dias que dura o Festival, afixarei aqui todas as noites a programação completa da jornada seguinte (nas três secções: Competição, Observatório e Herói Independente), além de comentários aos filmes que tiver visto. Para amanhã, sábado, estão previstas as seguintes projecções (a negrito aquelas a que tenciono assistir):

Sala 1

17h00 - «The Fog of War», de Errol Morris (EUA)
21h30 - «Czech Dream», de Vit Klusák e Filip Remunda (Rep. Checa)

Sala 2

17h30 - «10 on Ten», de Abbas Kiarostami (Irão)
19h00 - «Or (Mon Trésor)», de Keren Yedaya (Israel)
22h30 - «Tarnation», de Jonathan Caouette (EUA)

Sala 3

16h00 - «Atash», de Tawfik Abu Wael Agbariya (Palestina/Israel)
18h30 - «The Day After the Day Before», de Attila Janish (Hungria)
22h00 - «Nói Albinói», de Dagur Kári (Islândia)

Publicado por José Mário Silva às 09:02 PM | Comentários (0)

PRAGAS DE GAFANHOTOS CULTURAIS

Querem uma excelsa dica para ganhar umas coroas, sem grande trabalho e, suma felicidade, dando-vos horas de convívio com grandes vultos da cultura pátria?
Sentem-se à minha volta e tomem notas: comecem por seleccionar uma vítima figura a homenagear. Pode estar viva, morta ou moribunda; interessa é que seja artista consensual e pouco abonado. Depois, escolham o modus operandi da coisa: podem almejar a angariação de verbas para pagar o asilo ao homenageado, para cuidar da sua criação de pombos ou qualquer coisa ainda mais nebulosa. Importa nunca definir bem quanto se vai dar, nem como, nem a quem.
Agora, chega a parte divertida: desatem a cravar escritores, músicos, gajos da BD, virtuosos do origami, funâmbulos célebres, etc. A abordagem é sempre a mesma: "eh pá, a malta anda a organizar um grande ciclo de homenagens ao _______, que deixou a família na miséria, e gostávamos de contar com uma obra tua". Proferido com uma voz convenientemente embargada, este pungente apelo nunca falha.
Depois, monta-se a divulgação: contratado um especialista em PR, assediam-se os jornais para colaborar com tão caritativa obra. Estes, sempre com falta de assunto, não se fazem esquisitos.
A máquina está pronta a arrancar. Está na hora de lançar livros, discos, exposições, peças de teatro, concertos... tudo com o trabalho alheio que vos foi ofertado. Se, no decorrer do processo, alguém tiver a suma lata de vos pedir dinheiro por alguma coisa de que a "Iniciativa" precise, acusem-nos publicamente de má-vontade para com o pobre homenageado. Anuência garantida.
Falta falar do principal, claro: o pilim. Mas a engenharia financeira associada ao processo é de uma simplicidade desarmante: todos os amigalhaços que entram na marosca colaboram com a "Iniciativa" a troco de generosos salários - sim, que a malta pode ser "da cultura" mas não é tonta – e de avenças várias. Desta forma feliz, podem passar um anito regalados, descansando sobre louros de outrem, que não vos faltará o carcanhol para a imperial.
No fim da "homenagem", até pode ser que sobre algum para destinar ao fim anunciado. Se não, azar. E nada temam, que todo o processo é perfeitamente legal.

Depois, deixam passar uns meses até escolherem novo homenageado. E assim por diante, num perpétuo movimento de infalível chupismo cultural.

Publicado por Luis Rainha às 06:19 PM | Comentários (4)

DECLARAÇÃO DE INDEPENDÊNCIA?

Ontem, o Zé Mário veio trazer-nos a boa nova do Indie Lisboa 2004.
Ainda com o belo eco da palavra "independente" a zunir nos ouvidos, lembrei-me de dias em que ouvia do grande e inimitável Edgar Pêra o relato diário das suas aventuras em busca de mais uma latita quase cheia de película, de mais um adereço emprestado, de mais um figurante à borla, etc. Na minha santa inocência, pensei que era disto que se falava quando se falava de "cinema independente": fitas que não dependem de gostos alheios ao do realizador.
Ó cruel desilusão: afinal, os filmes nacionais que por andam – as longas metragens, pelo menos - continuam a depender... do sítio do costume.

Bem, não vou deixar que um pormenor de somenos como este me estrague a fruição da coisa. Zé Mário: onde é que eu levanto os meus bilhetes à borla?

Publicado por Luis Rainha às 05:40 PM | Comentários (0)

OBRIGATORIEDADES E DEMOCRACIA

Tem dado que falar, a propósito do meu texto sobre o fim do serviço militar obrigatório, a compatibilidade entre "democracia" e "obrigatoriedades". A meu ver, evocar a "falta de democracia" para contestar qualquer tipo de obrigatoriedade é populismo do básico. Articulistas como José Pacheco Pereira e José Manuel Fernandes frequentemente costumqm referir-se à aversão dos portugueses a cumprir as suas obrigações; é para mim estranho que quem mais os costuma invocar depois se identifique politicamente assim.
Sobre esta questão da obrigatoriedade (e muitas outras, claro) razão tem a Mafalda, que faz quarenta anos mas não perde actualidade.

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Publicado por Filipe Moura às 02:52 PM | Comentários (4)

A VOX POPULI É UM PERIGO

Bastaram duas manchetes atiçadas (sobre a mulher que «matou a filha por 12 euros») e em frente ao quiosque já se exigia, no meio de insultos inomináveis, o regresso da pena de morte.

Publicado por José Mário Silva às 12:14 PM | Comentários (12)

RETÓRICA


Cartoon de Stephane Peray

Publicado por José Mário Silva às 09:52 AM | Comentários (0)

EU SOU PROVA VIVA

Ciberdependentes impedidos de utilizar a Internet sofrem de sensações de "perda, frustração e alienação".
Mas isso não era já a "condição moderna"?

Publicado por Jorge Palinhos às 09:27 AM | Comentários (4)

MERCANTILIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

Cadeias alimentares "compram" escolas para impingir os seus produtos aos alunos.
Conceito de educação obrigatória alargado para incluir alimentação obrigatória.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:10 AM | Comentários (1)

ROLETA


Cartoon de Stephane Peray

Publicado por José Mário Silva às 09:08 AM | Comentários (1)

A EXPLOSÃO QUE NÃO ERA NUCLEAR NEM EXPLOSÃO

A Coreia do Norte promete transformar o Japão num "mar de fogo nuclear".
Enquanto isso o governo japonês desconfia que o feudo medieval prepara testes balísticos.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:05 AM | Comentários (5)

BALBÚRDIA NO OESTE

Primeiro-ministro português quer encerrar refinaria de Leça da Palmeira

Álvaro Barreto Convicto de Que Refinaria de Matosinhos Não Irá Fechar

Publicado por Jorge Palinhos às 08:57 AM | Comentários (1)

RATOEIRA


Cartoon de Stephane Peray

Publicado por José Mário Silva às 08:55 AM | Comentários (0)

COINCIDÊNCIA?

Desconfio que o Paulo Gorjão tem um leitor atento no Miguel Sousa Tavares. Parece-me bem.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:54 AM | Comentários (0)

EM CIMA DO ACONTECIMENTO

Um ano e meio depois dos blogs, o Público descobre o political compass.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:47 AM | Comentários (2)

setembro 23, 2004

CINEMA INDEPENDENTE NO BDE

É já amanhã que começa, no São Jorge, o 1.º IndieLisboa (Festival Internacional de Cinema Independente). A programação está aqui.
A boa notícia é que fomos convidados oficialmente, com a mãozinha cúmplice de uma blogger da organização, a acompanhar o Festival passo a passo. Devidamente acreditados, tentaremos assistir ao máximo de filmes das várias secções. E aqui daremos conta dessas experiências cinéfilas, num ritmo de postagem diário.
Mantenham-se por isso atentos, caros leitores. Já faltou mais para o baixar das luzes.

Publicado por José Mário Silva às 09:22 PM | Comentários (4)

AINDA SE FOSSE POR RAZÕES ESTRITAMENTE MUSICAIS, COMPREENDIA-SE

Yusuf Islam (anteriormente conhecido por Cat Stevens) foi proibido de entrar nos Estados Unidos da América.

Publicado por José Mário Silva às 07:46 PM | Comentários (3)

O CINEMAMA ESTÁ DE LUTO



Faleceu ontem Russ Meyer, visionário da sétima arte. Sem obras seminais como "Mondo Topless", os seios femininos nunca teriam conquistado o seu justo lugar nos ecrãs de todo o mundo.

Publicado por Luis Rainha às 04:50 PM | Comentários (9)

SOBRE O FIM DO SERVIÇO MILITAR OBRIGATÓRIO

Na semana em que acabou, vale a pena reflectir sobre o serviço militar obrigatório. Ele acabou. E eu, que não fiz tropa e nem teria feitio ou disposição nenhuma para a fazer, digo: é uma pena. Não é uma pena ter-se acabado a obigatoriedade da tropa; é uma pena ter-se acabado a obrigatoriedade, simplesmente. Eu explico.
No sistema que defendo (e que se pratica, por exemplo, na Alemanha, um país que para mim é um exemplo em muitas coisas) um jovem, ao acabar a escola secundária, pode decidir livremente se presta o serviço militar ou se presta outro tipo de serviços à comunidade (e, saliente-se, sem precisar de se declarar objector de consciência). Que tipo de serviços são estes? Podem ser colaborar em hospitais, com os bombeiros, ser nadador salvador, ou outro tipo de tarefas não especializadas que contribuam para o bem estar geral. Serviços que são presentemente prestados por voluntários. Teríamos assim também a vantagem de poder prescindir destes bons samaritanos ou, pelo menos, reduzir a sua importância. Eu, que não gosto nada de caridadezinhas, prefiro não dever nada a ninguém, e que a sociedade também não deva: estes serviços seriam obrigatórios, prestados por toda a gente (homens e mulheres, claro) em alternativa ao serviço militar. Seria democrático. E sem excepções, como eu gosto.
Estes serviços teriam de ser prestados com seriedade, responsabilidade e disciplina. No fundo como na tropa, só que sem os militares. (Acho que a tropa até seria muito boa, se não fossem os militares.) Sem ter de aturar recalcados e hierarquias absurdas e estúpidas. E com a sensação de que se estava a fazer algo de útil.
Por que defendo eu isto? Que vantagens daí adviriam para a sociedade? Bem, para mim pelo menos é claro que a minha geração é egoísta. Há um enorme défice de participação cívica, que convém corrigir desde tenra idade. Por isso eu proponho este serviço logo aos 18 anos, assim que se acabar a escola secundária, sem adiamentos (exactamente como na Alemanha). Quem seguisse para a universidade já teria assim tido pelo menos uma responsabilidade séria na vida (ser estudante de licenciatura, estudar para uns exames, pode ser duro intelectualmente, requer alguma responsabilidade mas não muita, e ainda menos em Portugal). A minha experiência diz-me que os estudantes mais sérios e trabalhadores são... os trabalhadores-estudantes (nos EUA, por exemplo, são a maioria). Com esta medida creio que se aumentaria a taxa de aproveitamentos das nossas universidades: os estudantes passariam a levar o estudo mais a sério (embora eu nem creia que os estudantes sejam os principais culpados das elevadas taxas de reprovação, mas isso é outro assunto).
Eu não fiz a tropa; o meu contacto com o serviço militar limitou-se à inspecção. Mas hoje vejo que teria dedicado de bom gosto alguns meses da minha vida a uma actividade destas, desde que toda a gente os dedicasse também. Não sei o que pensarão desta proposta o Luís e o Daniel, que fizeram a tropa e se manifestaram a favor do fim do SMO. Mas sei que esta proposta não será nada popular entre os sectores afectos à direita liberal e ao Bloco de Esquerda, que se unem numa estranha coligação contra o SMO (e provavelmente contra qualquer coisa que inclua a palavra "obrigatório") pelos mesmos motivos egoístas e individualistas. (Razão tinha Pacheco Pereira ao afirmar, há uns anos, que a propaganda anti-SMO então distribuída pela JSD, na altura liderada pelo actual secretário de Estado da Juventude, mais parecia "propaganda do PSR".) É provável que leve muita pancada, principalmente de pessoas que não foram à tropa. Não me importa. Não me assusta levar pancada de quem não foi à tropa...

Publicado por Filipe Moura às 02:11 PM | Comentários (15)

WORD PERFECT

Tão enganadores, os nomes de alguns processadores de texto.

Publicado por José Mário Silva às 02:09 PM | Comentários (2)

DIÁLOGOS ANACLETOS (3)

Kamaradas Anacletos:

As minhas questionáveis dúvidas, de forma tão certeira aqui por vós denunciadas, desapareceram! O Povo já exprimiu a sua livre e revolucionária opinião! Regalem bem as proletárias pupilas nos resultados quase finais do referendo que levei a cabo no BdE:

O governo de Santana Lopes é "Um bando de populistas sem ideias" para 32% dos nossos esclarecidos e independentes votantes. E mai nada!
Como vêem, nem as massas engolem esse papão do neo-liberalismo; a não ser que seja nome novo para incompetência gritante e autismo desvairado.
Quanto a ceder-vos o meu amigo para colaborar nesse vanguardista órgão de comunicação da classe operária, lamento, mas tenho a comunicar-vos que o gajo é... dirigente do PSD! Atenção: antes de me acusarem de desvios burgueses, concretizados num perigoso delito de convívio com o inimigo, deixem-me confidenciar-vos que se trata de uma perigosa missão de espionagem, estando eu infiltrado no seio nauseabundo do inimigo capitalista, às gloriosas ordens do Kamarada Anacleto, himself!

Assim me despeço, na graça de Marx,

Publicado por Luis Rainha às 01:33 PM | Comentários (6)

MARIA DO CARMO SEABRA QUE O DIGA

Por vezes, a única forma de emendar a mão é emendar à mão.

Publicado por José Mário Silva às 01:22 PM | Comentários (0)

PAI E FILHOS



«O Regresso» (primeira obra de Andrei Zvyagintsev) é para mim, até agora, o mais belo, melancólico e enigmático filme de 2004. Há muito tempo que não via tantas perguntas a pairar — assustadoramente sem resposta — num ecrã de cinema.


Publicado por José Mário Silva às 01:00 PM | Comentários (2)

DIÁLOGOS ANACLETOS (2)

Kamaradas leitores,

É com o coração nas mãos que procedo a este agónico mas inadiável exercício de autocrítica. No entanto, sinto que, depois de ver publicamente expostas as minhas muitas deficiências e desvios enquanto revolucionário, se impõe um vigoroso e apologético mea culpa, berrado enquanto bato com o punho direito no peito, numa cadência adequadamente dolorosa.
Sim; confesso. É triste mas vero. "Já na escola primária o Lulu (?) explorava as crianças da classe trabalhadora. Comprava caixas de bombocas e depois vendia à peça aos outros meninos tendo com isso grandes lucros. Emprestava berlindes a juros e ficava com o lanche dos meninos da primeira classe a troco de cromos do Jordão e do Néné".
Mas que querem? Com as minhas raízes encravadas no âmago da aristocracia rural, como poderia eu ver a luz nesta tenra idade? Tive de esperar até ao dia em que a Rita, aquela deliciosa kamarada do 3.º ano, me ofereceu o meu primeiro autocolante "Eu sou comunista. E tu?" Soube logo que estava no caminho justo quando vi o chilique que deu à minha doce mas politicamente iludida mãezinha.
Nesses tristes anos de alheamento das lutas do proletariado, é verdade que revendia bombocas com grandes mais-valias; mas as dores de barriga que causava àqueles gulosos filhos-família não deixavam de ser uma espécie de proto-terrorismo de esquerda! E olhem que isso do Nené não é do meu tempo; cá para mim, era mais cromos do Tibi, membro oprimido de uma minoria étnica, mal pago, gozado por todos e, ainda por cima, sofrendo a ignomínia de ser guarda-redes do FCP! Lucrava com este comércio indigno, é certo; mas fazia-o de forma solidária com o mais explorado e infeliz futebolista da época...
Apresentadas as minhas débeis circunstâncias atenuantes, e sem querer colocar em causa o infalível julgamento do Kamarada Anacleto, pergunto-vos respeitosamente se eram mesmo necessárias aquelas coisas do "traidor da classe operária" ou o "desde pequenino, um perigoso filo-capitalista encapotado"... E a sentença exarada com cruéis frases como "Camaradas, não podemos ficar de braços cruzados enquanto este lacaio do imperialismo e do grande capital andar por aí a corromper a nossa causa. Divulguem esta denúncia. Abaixo o Luis Rainha!" não será severa demais, tendo em vista o meu empenhamento, nas décadas mais recentes, em todas as gloriosas demandas do nosso povo, superiormente enquadrado pela vanguarda dirigida pelo Kamarada Anacleto: os charros, o aborto, as salas de chuto, o cinema do Burundi, a liberdade para os oprimidos da Baixa Lapónia, etc, etc.?

E devo também declarar-me vítima de algumas injustiças. Não é minha ideia, de forma alguma, questionar a pertinência revolucionária do sistema de bufos que com tanta eficácia serve o Partido e o Kamarada Anacleto. Mas olhem que aquilo do "Eu conheço o Rainha. Já na escola ele tinha dúvidas sobre isto e mais aquilo. Não sabia se a direcção que o movimento contra o neoliberalismo estava a tomar era a mais correcta" não passa de uma falsificação grosseira: eu sou tão antigo que no meu tempo de liceu o liberalismo ainda não precisava do "neo" para se dar ares de coisa moderna... e que dizer de uma suposta acusação que é servida por esta frase: "O nome do Rainha em Inglês é Queen. Está tudo dito"? Aqui, as vossas iníquas fontes desmascararam-se por um momento decisivo: então isto lá é forma de falar d@s noss@s Kamaradas homo/bi/trans/tri? Que querem; não me parece coisa de esquerda, pronto!
Mas não desejo que subsistam dúvidas nos vossos iluminados espíritos sobre a profundidade do meu arrependimento. Assim, junto a minha à vossa voz, numa litania redentora e revolucionária: "Abaixo o Luis Rainha! Bush para a rua! Viva o Lula! Viva o camarada Henver Hoxa! O Kerry é nosso amigo! Viva o Pôncio Monteiro! A revolução triunfará!"

Publicado por Luis Rainha às 12:06 PM | Comentários (3)

PARANÓIA II

Falando em paranóia, peço-vos que registem isto na vossa memória. No dia 18 de Setembro de 2004 a Helena Matos comparou as universidades e escolas ocidentais a Madrassas fundamentalistas.

...uma denúncia vivíssima da repressão e da censura que o politicamente correcto exercem no meio académico brasileiro.

Exactamente. Por isso, quando vos falarem em má-fé e na comparação de Bush com Hitler, já sabem o que dizer.

Publicado por Jorge Palinhos às 09:05 AM | Comentários (0)

EARLY MORNING CLOUDS

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Publicado por José Mário Silva às 09:01 AM | Comentários (0)

PARANÓIA AGUDA E TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

A propósito gostaria de recomendar a entrevista de Bat Ye'or, uma "intelectual" (eu chamar-lhe-ia "imaginativa") egípcia judia, aparentemente muito apreciada pelos meios de direita islamofóbicos, mas cujas teorias são consideradas de validade científica nula. Leiam e descubram porquê:

Eurabia represents a geo-political reality envisaged in 1973 through a system of informal alliances between, on the one hand, the nine countries of the European Community (EC)which, enlarged, became the European Union (EU) in 1992 and on the other hand, the Mediterranean Arab countries. (...)
In domestic policy, the EAD established a close cooperation between the Arab and European media television, radio, journalists, publishing houses, academia, cultural centers, school textbooks, student and youth associations, tourism. (...)

However, the Euro-Arab Palestinian cult goes much deeper than a political tool used for a Euro-Arab Partnership policy against America and Israel. It is linked to theological currents of Judeophobia and a replacement theology based on the Palestinization of the Bible and the rejection of its Jewish roots in order to delegitimize Israel's history and rights on its land. The Euro-Arab Palestinian cult symbolized the redemption of Christianity and Islam and their reconciliation on the ashes of Israel, the work of Satan -- a belief propagated by the media's continuous demonization of Israel, and Palestinian victimization. This cult brings together neo-Nazis, Judeophobes, anti-Americans, communists and jihadists. It is a revival of Nazi anti-Jewish and anti-Christian trends, particularly in its hatred of Christian Bible believers and America, the country that was determinant in the defeat of Nazism and Communism.

Venham-me cá falar de teorias da conspiração...

Publicado por Jorge Palinhos às 08:57 AM | Comentários (1)

BARREIRAS CULTURAIS

O Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico está irritado por uma barreira da estrada israelita ter bloqueado a passagem de um deputado inglês, vítima de um achaque, durante mais de 90 minutos.
E isto foi só uma vez: imaginem os palestinianos que as atravessam todos os dias.

Publicado por Jorge Palinhos às 08:42 AM | Comentários (1)

setembro 22, 2004

O QUE COMPTA É A INTENÇÃO

Compta networksolutions: a melhor forma de comprometer o início de um ano escolar (e a vida de muita gente). Eficácia garantida. Vamos a casa.

Publicado por José Mário Silva às 06:55 PM | Comentários (7)

ET TU, PENTÁGONO?

Da mesma fonte das notícias anteriores sobre o processo eleitoral em curso na América (PECA) chega-nos mais uma notícia saborosa. Desta vez, vou só traduzir, deixando-vos à vontade para verificar o original.

«O Pentágono restringiu o acesso ao website que os votantes ultramarinos, sejam civis, sejam militares, podem usar para se registarem para as eleições, justificando-se com tentativas de intrusão (hacking). A história apareceu primeiro no International Herald Tribune. Será o Pentágono, com os seus biliões de dólares, incapaz de pôr online um simples website que seja difícil de penetrar? E será que a resposta certa às tentativas de intrusão é colocar barreiras aos votantes ultramarinos, incluindo os militares que põem as suas vidas ao serviço dos EUA? É assim que se suportam as tropas? Retirando-lhes o direito ao voto?
A Microsoft e outras companhias são atacadas todos os dias, e a sua reacção é melhorar as defesas. De certeza que o Pentágono é capaz de fazer o que a indústria informática faz, não?»

Um comentariozinho à citação: os servidores do Pentágono também são atacados todos os dias, e se calhar com mais "violência" (ou, pelo menos, virulência) do que a Microsoft e outras empresas do ramo. O Pentágono possui um departamento que se dedica exclusivamente à guerra informática e electrónica e monitoriza em permanência a Internet. O Pentágono provavelmente sabe mais acerca das ameaças a que se está sujeito online do que qualquer outra organização no mundo inteiro. (Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 06:25 PM | Comentários (2)

LISTA NEGRA

Como muitos outros, passei horas a fio neste site, à espera de novidades. Mas nada. «Temporariamente indisponível», diziam-nos hora após hora, em letras vermelhas. Resultado: além dos 50.000 professores que ainda ignoram o nome da escola onde é suposto leccionarem, fica por confirmar a colocação de uma diligente funcionária do Ministério no lugar a que tem direito. O seu nome é Maria do Carmo Seabra. O lugar: a rua.

Publicado por José Mário Silva às 06:22 PM | Comentários (4)

BEM-VINDO AO "SÉCULO DA LIBERDADE"


Cartoon de Steve Bell, "The Guardian"

Bush II continua asilado num universo alternativo onde tudo corre pelo melhor no Iraque, que em breve formará, com o feliz Afeganistão, um par de "exemplos para o Médio Oriente de países pacíficos e democratas".
Na mesma arenga nas Nações Unidas, lembrou-se também de justificar a invasão com a seguinte espécie de argumento: "The security council promised serious consequences for defiance. And the commitments we make must have meaning. When we say serious consequences, for the sake of peace there must be serious consequences. And so a coalition of nations enforced the just demands of the world."
Isto apesar do que o representante dos EUA, John Negroponte, disse na ONU no próprio dia em que a resolução 1441 foi aprovada: "There's no 'automaticity' and this is a two-stage process, and in that regard we have met the principal concerns that have been expressed for the resolution. Whatever violation there is, or is judged to exist, will be dealt with in the council, and the council will have an opportunity to consider the matter before any other action is taken." 
O descaramento do Monkey Boy continua sem conhecer limites. Bem pode o pobre Annan murmurar resmunguices a propósito de "nações que desavergonhadamente ignoram a lei internacional"...

Publicado por Luis Rainha às 06:13 PM | Comentários (0)

O ANACLETO GIROCLETO

Um conjunto de distintos bloguistas (AAA, JCD, Miguel, João) decidiu criar o blog do Anacleto para parodiar a esquerda, mas especificamente o Bloco de Esquerda.
A coisa tem alguma piada graças ao imaginativo uso da ficção, que me recordou os tempos em que este blog estava vivo.
Mas devo dizer que acho o blog sério de cada um destes elementos bastante mais divertido.

Publicado por Jorge Palinhos às 06:11 PM | Comentários (8)

QUE GOVERNO É O NOSSO? (2)




Publicado por Luis Rainha às 03:55 PM | Comentários (11)

QUE GOVERNO É O NOSSO? (1)

Conversava há uns dias com um amigo meu, muito preocupado com o andar desta nossa carruagem: "os gajos do governo lançaram-se ao assalto do país; são crias do neo-liberalismo mais radical. Só vão sossegar quando derem cabo de todas as estruturas do Estado. Depois, ninguém vai conseguir consertar o estrago!"
Aí, tentei acalmá-lo, contrapondo a minha visão pessoal da gentalha que nos governa: "não te preocupes, que isso das ideologias é areia a mais para a furgoneta do Santana. Ele quer é ganhar eleições, ser muito popular e nem pensa no resto..."
Resposta pronta: "pode ser. Mas, e só por exemplo, põe os olhos naquele Bagão; o homem tem mesmo ar de fanático com uma missão. E a missão dele é desmantelar o nosso Estado, da Saúde à Educação!"
Com mais vagar e menos álcool no sistema circulatório, pus-me depois a matutar melhor no assunto. É que ainda existem outras opções: o nosso governo pode bem ser apenas um bando de incompetentes, gente desorganizada e tonta demais para sequer ter planos nas cabeças. Ou pode ser um grupo de malta esforçada que enfrenta dificuldades terríveis (nah...). Ou até se pode dar o caso de a coisa nem ser homogénea: uns ministros serão espertalhões em busca de coroas, outros gente honesta mas burra, outros ainda extremistas liberais com sinistras idées fixes liberais por programa.
Continuo hesitante. Qual é a vossa opinião?

PS: Não sei se ajuda a esclarecer alguém, mas atrevo-me aqui a copiar algumas abruptas ideias sobre esta problemática: "Existe em certos sectores da direita e da esquerda intelectual portuguesa a ilusão que um governo Santana Lopes será um governo que prosseguirá políticas liberais, ou, como pejorativamente agora se diz, ‘neo-liberais’. Enganam-se completamente. Se há coisa que em Portugal sofrerá com o populismo é o discurso genuinamente liberal. O populismo é nacionalista, defensor da closed shop, ‘social’ e clientelar. O populismo será alicerçado em duas coisas muito próximas na vida política portuguesa: um discurso social, que pode mesmo chegar a ser socializante, e na gestão de clientelas."

Publicado por Luis Rainha às 03:52 PM | Comentários (2)

O «MEU» LEONARD COHEN...

... é este. Ano de edição: 1971. Puro e duro. Genial.

Publicado por José Mário Silva às 03:29 PM | Comentários (3)

ESTADO DA EDUCAÇÃO EM PORTUGAL É CALAMITOSO

Crianças japonesas não sabem para que lado se põe o Sol e acham que este anda à volta da Terra.

Publicado por Jorge Palinhos às 01:09 PM | Comentários (1)

FALAR POR UMA BARRA DE OURO

O telemóvel mais caro do mundo está a ser um sucesso entre novos-ricos, tias e executivos. Chama-se Vertu, é fabricado pela Nokia e tem as mesmas funcionalidades que os outros telemóveis topo de gama. A diferença: pode ser fabricado a platina (25 000 euros), ouro (15 000 euros) ou pele (3800 euros).
Eu, do alto da minha mesquinhez pequeno-burguesa, anseio para que sejam todos gamados.

Publicado por Jorge Palinhos às 01:04 PM | Comentários (6)

O DIA EM QUE O TUBARÃO DE DAMIEN HIRST ENGOLIU A MONA LISA


Cartoon de David Austin, «The Guardian»

Publicado por José Mário Silva às 12:52 PM | Comentários (0)

TIRAR AOS POBRES PARA BOMBARDEAR OS POBRES

Gostavam de saber onde é que Bush II vai buscar dinheiro para financiar o seu pesadelo imperial no Iraque?
Tenho a impressão que um contributo para tão nobre causa virá por certo desta linda ideia: acabar com os subsidíos de habitação hoje entregues a milhares de madraços armados em pobres. Agora, já sabemos onde é que o Santana Lopes encontra inspiração para os seus esquemas de "justiça social"...

Publicado por Luis Rainha às 12:04 PM | Comentários (1)

AGARRADOS PELA MÃO INVISÍVEL?

A Democracia pode demorar mais uns tempos a chegar a Bagdade. Mas a iniciativa privada já por lá se estabeleceu firmemente, com apreciável celeridade e eficiência. E qual foi o cluster que primeiro atraiu a atenção dos empresários nativos? A indústria dos raptos, claro está! Ao que tudo indica, são os prestáveis criminosos locais quem se dedica a "caçar" estrangeiros pelo Iraque afora. As vítimas são depois vendidas ao grupo radical que estiver melhor de finanças na altura.
Isto é uma estratégia empresarial brilhante. Os mafiosos enriquecem sem grande esforço ou risco. Os fundamentalistas, graças às maravilhas do outsourcing, podem assim reservar os seus quadros mais qualificados para tarefas em que são mesmo bons: aparecer encapuzados na TV a urrar "inch’Allahs" e proceder a uma ou outra decapitação. Para dar nas vistas, um bando destes só precisa mesmo de um quarto bem escondido e de alguns figurantes mal-encarados.

Na próxima vez que vir imagens de reféns amordaçados algures no Iraque, já sabe quem está por detrás da marosca: a mão invisível. Afinal, os nossos amigos liberais até tinham razão: alguns dos nossos "valores" civilizacionais floresceram bem depressa por aquelas paragens...

Publicado por Luis Rainha às 11:35 AM | Comentários (2)

70 ANOS DE COHEN

Foi ontem, pois foi, mas mesmo atrasados não queremos deixar de evocar este autor intemporal e indispensável. (De resto, eles também se esqueceram. Mas ele não.) E atenção: novo álbum a 25 de Outubro, Dear Heather. Que Cohen permaneça inspirado por muitos anos, apesar de já não cantar quase nada. Mas as suas canções e poemas são imortais.

Publicado por Filipe Moura às 09:22 AM | Comentários (2)

setembro 21, 2004

O FAMIGERADO UTILIZADOR/PAGADOR ATACA DE NOVO!

Só faltava mesmo esta invenção ao governo Santana Lopes: a cobrança de uma propina extra aos alunos do secundário que já começaram as suas aulas, para financiar as despesas inesperadas com o processo de colocação dos professores!
O calhau com gel, entrevistado em Nova Iorque, onde se encontra a fazer ninguém sabe bem o quê, foi quase claro: “Mas é uma medida da mais elementar justiça social; quem já usufrui de aulas terá um ano lectivo mais longo, por isso é justo que pague mais. Assim o ministério da Educação já pode fazer face ao pagamento das horas extraordinárias dos muitos funcionários - a senhora ministra, por exemplo, nem tem dormido - que, abnegadamente, estão a dar tudo por tudo para emendar o resultado dos erros da gestão socialista!”
Era fatal como o destino: depois dos transportes e da saúde, o utilizador/pagador tinha de aproveitar esta crise para de novo mostrar a sua feia carantonha…

PS: olhem que isto é a brincar. É invenção. Mas quando o gajo se lembrar mesmo desta bela ideia, não me venham pôr as culpas em cima, que ele não lê o BdE…

Publicado por Luis Rainha às 07:55 PM | Comentários (8)

O OUTRO HORROR DE ÁFRICA

Ultimamente fala-se muito de Darfur, e muito bem, mas gostava de chamar a atenção para outra tragédia passada a sul do Sudão, e no qual este também tem o dedo.
No norte do Uganda actua o auto-proclamado Exército de Resistência do Senhor que já raptou 20 000 crianças, para as transformar em soldados ou escravos sexuais, matou mais de 100 000 pessoas e provocou 1,8 milhões de refugiados.
O grupo é liderado por um tal Joseph Kony, um ex-ajudante de sacristão (explica algumas coisas, parece-me), que criou o exército com base numa mescla de cristianismo, islamismo e animismo e o lidera com o apoio do governo sudanês.
E, no entanto, se lerem as notícias, não só não se ouve falar disto como o Uganda é apontado como um exemplo de desenvolvimento africano...

Publicado por Jorge Palinhos às 07:12 PM | Comentários (5)

O NASCIMENTO DE UMA LINGUAGEM?

Podem ler aqui como um grupo de cerca de mil crianças surdas, deixadas quase ao abandono numa escola da Nicarágua, parece ter criado a sua própria linguagem gestual. Desde 1977 que estes miúdos, sem ninguém que lhes ensinasse formalmente qualquer tipo de comunicação por gestos, se dedicaram a criar e fazer evoluir o que parece ser uma linguagem radicalmente nova: "They broke it down into bricks and they ended up with elements that you never see alone with gesture. They could assemble these into an infinite number of elements. They had a language."
Os elementos mais velhos da comunidade, agora trintões, ainda usam versões rudimentares deste idioma gestual, sendo que são os mais novos a introduzir mudanças e aperfeiçoamentos na sua estrutura.
Leiam, que é fascinante. Será desta que descobrimos como é que a nossa espécie se lembrou de começar a falar?

Publicado por Luis Rainha às 03:32 PM | Comentários (6)

CULPA SOLTEIRA BUSCA COMPROMISSO A LONGO PRAZO

Lendo isto, até somos assaltados por uma súbita vontade de acreditar naqueles boatos mal-intencionados que dão a incompetência como inevitável em certos serviços públicos nacionais... Pobres professores e alunos que de tal malta dependem.

Publicado por Luis Rainha às 03:04 PM | Comentários (4)

CULPA SOLTEIRA BUSCA COMPROMISSO SÉRIO

Enquanto ainda parecia possível minorar os danos do pesadelo da colocação dos professores, a ministra declarava-se pessoalmente "empenhada" e terá até passado a noite de sábado e domingo encafuada no ministério, vigiando os computadores da vergonha.
Nos entrementes, porque o seguro morreu de velho, alguém já tinha soprado os nomes de dois funcionários de quem se presumiam culpas terríveis neste fiasco. Gente, claro está, nomeada "no tempo" de Guterres.
Hoje de manhã, a culpa andava em busca de parceiro casadouro na sede da Compta, empresa responsável pelo "programa" que bastou para lançar no caos o início do ano lectivo. E Gonçalo Capitão ia avisando que até talvez nem fosse grande ideia ouvir David Justino numa comissão de inquérito, como o ex-ministro sugerira...
"Eles" já tomam conta da Educação há dois anos e tal. Mas ainda vão encontrar forma de sacudir a água do proverbial capote, molhando as costas largas do PS ou da antes infalível iniciativa privada... que até conta, neste caso, com uma administração de amigalhaços!

O nos ampara por entre a desgraça é que, no patusco dizer do deputado laranja, "todas as segmentações dos portugueses interessados em matéria de educação podem estar descansadíssimos".

Publicado por Luis Rainha às 02:21 PM | Comentários (8)

MAIS UM TESTE ESTAPAFÚRDIO (2)

Por norma, estes testes causam-nos alguns sorrisos na hora de desvendar os seus resultados. Este não. Ainda na fase de inquérito, dá-se com uma pergunta que, por si só, já vale a deslocação:

Quem é que não terá "preferência" na hora de se declarar (ou não) fêmea? E como se avaliará a "prioridade" dada a tal escolha?

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (1)

MAIS UM TESTE ESTAPAFÚRDIO (1)


Eu já devia saber que todos estes testes têm por singular e oculta missão agravar as minhas angústias existenciais. Mas lá segui, incauto e tonto, a recomendação do Filipe. E fui assim insultado:

  • My #1 result for the SelectSmart.com selector, Seinfeld Character Selector, is The Soup Nazi


    Pois. Como retaliação, depois de amanhã, às 23 horas, vou estar a ver é as "Queridas Feras".

    Publicado por Luis Rainha às 12:48 PM | Comentários (9)

    JB NO 9

    Mal entrou no autocarro, reconhecia-a logo. T-shirt azul com o Bugs Bunny, mala vermelha a tiracolo, penso-rápido no pescoço, olheiras de quem não dorme há muitas noites. Por um segundo, hesitei. Seria aquela mulher a Joana Bárcia real, uma das melhores actrizes do novo teatro e do novo cinema português, ou uma das suas personagens?

    Publicado por José Mário Silva às 12:38 PM | Comentários (2)

    O RESPEITINHO É MUITO BONITO

    Por estas bandas, o respeito pelos símbolos nacionais é implementado à martelada: pelo que leio no Barnabé, um jovem acaba de ser condenado a 10 meses de serviço comunitário por ter queimado em público um dos feios panos verdes e vermelhos que representam o lindo, avançado e feliz Portugal. E assim segue a vida neste canto da Europa da tolerância e da liberdade, neste pardieiro mofento disfarçado de país onde se mobilizam canhoneiras para manter ao largo uma perigosas senhoras que querem contaminar as nossas donzelas com ideias abortivas...
    Porque não tratam antes as doutas autoridades judiciais de obrigar os incontáveis milhares de papalvos que penduraram nas janelas provas do seu patriotismo futebolístico a retirar os trapos esfarrapados em que elas se tornaram? E porque não se lembram de condenar a esposa do nosso ex-presidente Jorge Sampaio, que teve a graciosa ideia de se vestir com um simulacro desse sacrossanto símbolo nacional, também em plena histeria colectiva do Euro?
    Por outro lado, nos sinistros e concentracionários EUA, queimar uma bandeira não é coisa muito bem vista. Mas os tribunais encaram estes protestos como actos ao abrigo das garantias de liberdade de expressão, por muito que isso desagrade à costela patriótica da maioria. Ainda temos algumas lições de civismo a aprender com a land of the free, é o que é.

    Publicado por Luis Rainha às 12:26 PM | Comentários (11)

    AINDA A CONFUSÃO DAS LISTAS

    Há uns tempos, publicámos o texto indignado de um itálico sobre o problema da colocação dos professores.
    Desde essa altura, quase ou nada mudou. Data do desabafo do nosso leitor: 15 de Julho. Repito e sublinho: 15 de Julho.
    Não foi Santana Lopes que afirmou aos quatro ventos que os seus ministros teriam menos férias para "conhecerem" as pastas e resolverem as questões urgentes? Vê-se...

    Publicado por José Mário Silva às 12:10 PM | Comentários (1)

    JERRY VS. ARCHIE

    Como já disse, segundo os críticos da revista TV Guide Seinfeld é nem mais nem menos do que "a melhor série de televisão de todos os tempos". Antes de anunciarem o resultado a Jerry, ele perguntou: "Did we reach the top ten?" Claro que, vindo de quem vem, a classificação da TV Guide pode ser questionável; afinal, na série, o pai de George coleccionava todos os fascículos da revista, até que, no episódio The cigar store indian, perde um.
    Para mim Seinfeld é a melhor comédia televisiva (sitcom) de sempre, a par com All in the Family (que ficou em quarto lugar na classificação a todas as séries dos críticos da TV Guide). Cada uma na sua época, são duas séries marcantes, que influenciaram muito do que se fez a seguir em televisão e não só. Ainda bem que estão a emitir ambas as séries nos canais por cabo da SIC (SIC Radical e SIC Gold - seria melhor se as emitissem em sinal aberto...). O que é pena é que sejam transmitidas à mesma hora, tanto quanto eu sei. Não havia mesmo necessidade... A quem nunca viu nenhuma das séries, recomendo que use o videogravador. Valem mais do que qualquer outro programa em exibição. E ainda há a Murphy Brown...

    Publicado por Filipe Moura às 09:33 AM | Comentários (5)

    LISTAS DE PROFESSORES

    Mesmo depois de um fim-de-semana de trabalhos (es)forçados, a tentar pôr água numa fervura que há muito veio por fora, a ministra da Educação continua sem conseguir resolver o problema da colocação de professores, um procedimento básico e essencial para o início (já atrasado) do ano lectivo. Só tenho três palavras a dizer sobre isto: vergonha, vergonha, vergonha.

    Publicado por José Mário Silva às 09:27 AM | Comentários (6)

    O TESTE DO DIA

    Adivinhem qual... Seinfeld character selector! Relativamente aos outros testes que eu fiz, este tem a novidade de se poder seleccionar a importância relativa das respostas, bem como seleccionar "indiferente". O meu resultado está à vista (e não é de agora).
    O resultado final do teste é uma classificação. Em segundo lugar na parecença comigo ficou o David (namorado da Elaine) e, em terceiro, ...o George (quem não é parecido com ele?). Fiquei surpreendido por não ser mais parecido com a Elaine. A Elaine ferozmente pro-choice. A Elaine ferozmente contra o uso de peles de animais no vestuário. A Elaine que não deixa a grávida fumar. A Elaine sempre cheia de embirrações (como as minhas: com as consoantes duplas nos nomes, com as bandeirinhas...) e que exprime sempre a sua opinião. Nestes aspectos, tão parecida comigo.
    Também sou parecido com o Jerry no que ele tem de ocultar os seus sentimentos, de os guardar para si (que é bem diferente de dar uma opinião). Mas enfim, o teste deu Kramer, sou Kramer. Afinal é a personagem mais popular da série, embora não seja o resultado mais frequente do teste. Experimentem e digam os vossos resultados. (O Monty nem precisa; já sabemos...)

    Publicado por Filipe Moura às 09:04 AM | Comentários (3)

    REGRESSA O JERRY

    A "melhor série de televisão de todos os tempos" (segundo os críticos da revista TV Guide) regressa à televisão portuguesa.
    Não estando em Portugal, tal não me diz directamente respeito, até porque nunca vi o Seinfeld em Portugal (a TVI sempre teve uma tendência para programar as suas melhores séries para de madrugada). Para mim o Seinfeld estará sempre associado ao meu período nos EUA, onde vi a série toda por várias vezes sem nunca dela me cansar (até que a dada altura, quando sabia os episódios todos de cor, me converti a Friends). O facto de a série se passar na zona onde vivia, em Nova Iorque e Long Island, ajudou. (As frequentes referências jocosas a Long Island na série por parte de Jerry, na vida real um nativo da ilha, da vila de Massapequa, são um must para mim, que lá morava.) A verdade é que o Seinfeld contribuiu de uma forma decisiva para eu, um estranho europeu do sul que nunca tinha visto neve, me integrar na cultura nova-iorquina.
    Garanto-vos que as personagens poderiam ser todas reais, ou pelo menos
    caricaturas de arquétipos nova-iorquinos. O Jerry é ele próprio; toda a gente conhece um George; os pais do George, por exemplo, são iguaizinhos aos meus; e eu conheço Elaines e Kramers (mais informações aqui). As situações descritas são iguais às que toda a gente já viveu: estar perdido numa gigantesca garagem subterrânea e ter vontade de urinar; estar na retrete de uma casa de banho pública e acabar-se o papel higiénico; e tantas outras. É esta a explicação do sucesso da série que se auto-define "sobre nada". Sobre tudo, digo eu.

    Publicado por Filipe Moura às 08:57 AM | Comentários (6)

    DIAS DA CUNHA TEM TODA A RAZÃO

    O Sporting perdeu mais uma vez para a SuperLiga (contra o Marítimo, em Alvalade, 0-1) por causa do sistema... de jogo.

    Publicado por José Mário Silva às 08:51 AM | Comentários (2)

    setembro 20, 2004

    OS TROSTSKISTAS DA CASA BRANCA

    Seymour Hersh (via Queijo) é um dos mais respeitados jornalistas norte-americanos, que revelou ao mundo os abusos de Abu Ghraib, de Guantanamo e massacre americano de My Lai no Vietname. A propósito do seu novo livro dá uma entrevista à Salon (só têm de aturar um powerpointzeco publicitário para lerem a entrevista), onde diz várias coisas interessantes. Como esta:

    Você é perito em Henry Kissinger. Há alguém que...

    Sou perito da faceta de Henry Kissinger que mentia como a maioria de nós respira.

    Há alguém que seja o Henry Kissinger desta administração?

    Acredite em mim, eu rezo para que exista! Era fantástico se nos tivessem mentido sobre as AMD e não acreditassem realmente que a democracia chegaria com a invasão do Iraque, que era possível fazer uma guerra com 5,000 homens e algumas forças de elite, algumas bombas e muitas bandeiras americanas e que só com isso o Iraque seria pacificado, Saddam derrubado e nasceria um governo moderado, com a democracia a correr como água de uma fonte? Mas não, estes tipos acreditam mesmo. Acreditam nas AMD. Ninguém os trava. São utópicos trotskistas que acreditam na revolução permanente. Acreditam verdadeiramente...

    A coisa faz algum sentido, pelo que não posso deixar de me espantar com o apoio que sólidos reaças dão a esta "revolução permanente". Será que em cada conservador moderno há um trostskista a tapar o Che com a gravata?

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:21 PM | Comentários (6)

    A MERCANTILIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO

    60 charter schools (escolas privadas que recebem fundos públicos consoante o número de alunos) da Califórnia foram à falência, deixando 6000 alunos e respectivas famílias desesperadas em busca de escolas de última hora.
    Como é que a iniciativa privada consegue?

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:04 PM | Comentários (4)

    COM 20 ANOS DE ATRASO, LÁ SE FINOU O SMO

    O Serviço Militar Obrigatório já devia andar moribundo há anos; com a ideia notável de reduzir o tempo de serviço para períodos que não permitiam uma instrução decente em sistemas mais complicados que uma G3, a bandalheira deve ter alcançado níveis fabulosos. A verdade é que nem a Força Aérea nem a Marinha recorriam a pessoal conscrito desde há uns tempos; no Exército, continuo sem ver como é que armas como as Transmissões ou a Artilharia conseguiram manter algum grau de operacionalidade com pessoal que só passava por lá quatro ou cinco meses.
    O louvor mais estranho ao SMO provinha do PCP: que as forças Armadas deviam ser um espelho da Nação, que profissionalizar o Exército era abrir caminho à criação de uma elite de mercenários que, a qualquer momento, se poderia lembrar de tomar o poder... "vê o que aconteceu ao Chile de Allende", ouvi eu algumas vezes. Ora o golpe do Chile foi levado a cabo precisamente por Forças Armadas que preenchiam as suas fileiras com o recrutamento obrigatório. A revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974 idem. O problema é que os detentores da real autoridade militar serão sempre os oficiais profissionais, não os modestos milicianos a quem cabe a nobre missão de "espelhar a Nação". (Bem, o PCP votou contra a saída do SMO da Constituição, na revisão de 97, mas parece agora estar bastante quietinho, que os tempos não andam para posturas impopulares entre a juventude...)
    Duvido, na minha má-fé impenitente, que o novo modelo consiga encher os quartéis de voluntários ansiosos por subir ao olimpo da vida militar como praças; segundo dizia ontem um noticiário televisivo, os voluntários vão ter "condições especiais no ensino universitário" e "facilidade no acesso á GNR e PSP". O problema é que isto já se passava há 20 anos, quando me tocou a sorte madrasta de ser arrastado à força para o Exército: os desmobilizados tinham direito a épocas especiais de exames e praticamente ninguém entrava nas forças policiais sem o serviço militar cumprido. Hoje como então, receio bem que o único incentivo capaz de levar um jovem saudável de QI normal a aceitar passar meia-dúzia de anos às ordens de uma cáfila de incapazes mandriões seja mesmo o dinheiro. Se o soldo for bom, pode ser que o Exército consiga os seus voluntários. De outra forma, talvez Paulo Portas tenha de recorrer à mobilização de emigrantes ilegais...
    Mas não fiquem em cuidados, temendo que os nossos bravos generais possam ter falta de magalas para repelir as hordas invasoras oriundas de Marrocos ou de Huelva: a lei já é previdente qb para antecipar uma futura "convocação" de jovens, em caso de falta de voluntários.

    No "Público" de ontem, Guilherme d’Oliveira Martins recorda que "países como o Reino Unido têm de há muito tempo uma tradição da revolução francesa que se baseia em dois deveres, o tributário e o da conscrição" e que o SMO é "importante porque permite a mobilização de todos os cidadãos". Tratar-se-ia assim de "um factor de coesão social e de cooperação cultural e étnica e mesmo para a formação e educação". Não entendo grandemente o que significa este último argumento; mas sei que o primeiro, relativo ao Reino Unido, está errado: por ali, em tempo de paz, apenas existiu recrutamento obrigatório entre 1949 e 1960 (e não apenas para o serviço das armas; durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de jovens foram recrutados para trabalhar nas minas de carvão). Pacheco Pereira já invocara há tempos a necessidade, enquanto exigência de cidadania, de se partilhar uma "servidão" "igualitária do máximo risco: o da morte em combate em defesa da independência da soberania e da liberdade". Ora isto só faria sentido com um sistema espartano - e absurdo face às nossas necessidades - em que todos os mancebos fossem chamados; não apenas aqueles que não se lembravam a tempo de uma cunha salvadora, à boa maneira portuguesa. E, a bem da verdade, haverá sempre tempo para um recrutamento obrigatório de emergência em caso de ameaça relevante aos tais valores de soberania e liberdade.
    Eu, para aplaudir o fim daquele SMO que nos impingiram durante décadas, só preciso de me recordar de um infeliz que andava pelo meu quartel apesar de só ter dois dedos na mão direita. O senhor comandante, incomodado pelo facto, ordenou que esse soldado deixasse de "bater a pala" aos superiores. Ficava feio, ao que parece.

    Publicado por Luis Rainha às 03:49 PM | Comentários (5)

    BUSH VS. KERRY: CIÊNCIA, DEFESA E AMBIENTE

    Já aqui afirmei que o meu candidato preferido às eleições presidenciais americanas teria sido Howard Dean (igualmente com um sulista para vice). Pelo menos não teríamos as - porventura justificadas - acusações de flipping - flopping, qual Cosmo Kramer quando passou a usar boxers, por parte dos republicanos.
    Mas ninguém me ouviu ou alguma vez ouvirá dizer que "Kerry é igual a Bush", como fazem alguns activistas mais radicais como Ralph Nader. Há muitas diferenças importantes. Um dos temas em que há mais diferenças entre os dois candidatos é sobre política científica e assuntos relacionados, como o meio ambiente e a defesa nacional.
    Sendo assim, a revista Nature pediu aos dois candidatos que apresentassem resumidamente a sua opinião sobre uma série de temas escolhidos. Esses temas foram: as restrições à imigração e as consequências que tal poderá ter na contratação de "cérebros" estrangeiros; a independência política dos comités de assessores do presidente; a maneira de evitar a disseminação de armas de destruição maciça por países inimigos; o investimento americano em novas armas nucleares; o investimento em defesa e o fabrico de novos mísseis; a participação americana na investigação sobre a produção de energia "limpa"; o programa espacial americano; a distribuição de fundos de investigação para biomedicina comparados com os de outras áreas; problemas de ambiente e o excesso de consumo; a protecção de espécies em perigo; os alimentos transgénicos; a relação entre os combustíveis fósseis e as mudanças no clima; questões de segurança relativamente à produção de medicamentos novos; a possibilidade de a doença das vacas loucas se alastrar aos EUA; e, finalmente, a investigação em células estaminais.
    Se em alguns assuntos os candidatos estão mais ou menos de acordo, como a promessa de dinheiro para a investigação e a defesa da contratação dos melhores cientistas de todas as nacionalidades, noutros as diferenças são bem vincadas. E assim surgem, por parte de Bush, a defesa de que a América hoje, relativamente ao passado, não consome mais, mas consome melhor (pode ser verdade, mas o país continua a ser um gigantesco desperdício, que se reflecte à escala do planeta), não consentindo portanto nenhuma alteração ao modo de vida americano. Surge também a defesa da ideia de que "não está provada" a relação entre emissão de gases poluentes e as alterações climáticas, pelo que o Protocolo de Quioto não deve ser assinado. Relativamente à defesa das espécies em risco, tem de se "rever este conceito" (de espécie em risco) - uma verdadeira pérola! Para além disto, Bush sem surpresas preconiza um aumento no investimento na defesa e a produção de novas armas nucleares. Tudo isto está explícito aqui, onde se pode ler ainda a análise das propostas de ambos os candidatos pelos especialistas da Nature. A não perder.

    Agradeço ao nosso leitor e meu amigo leftista Luís Oliveira e Silva a indicação do artigo.

    Publicado por Filipe Moura às 03:25 PM | Comentários (3)

    IVA GLOBAL

    Lula e Chirac vão apresentar hoje na ONU uma proposta para um imposto internacional cujas receitas sejam empregues a combater a pobreza e a fome do mundo. Não é a taxa Tobin, mas é claramente inspirada nesta. E, no processo de globalização, impostos globais parecem-me o próximo passo lógico.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:51 PM | Comentários (3)

    A INPORTAMSIA DE APREMDER A EXCREVER QUORRETAMEN-TE

    Gabriel García Marquez impedido de participar num Congresso Internacional de Língua Espanhola por defender o fim do ensino da ortografia. Ao contrário do que diz o senso comum, afinal ainda há tabus.

    P.S. - Alguém faz ideia do que o Saramago ia lá fazer???

    Publicado por Jorge Palinhos às 12:45 PM | Comentários (7)

    ERRATA: ONDE SE LIA "MISSÃO CUMPRIDA", LEIA-SE "MISSÃO COMPRIDA"


    Cartoon de Vince O'Farrell

    Publicado por José Mário Silva às 12:18 PM | Comentários (0)

    O DN NUM MINUTO

    Alguém precisa de um minuto para ler isto?

    Publicado por Filipe Moura às 09:51 AM | Comentários (1)

    CONTRA AS PATENTES DE SOFTWARE

    Recebi, da secção portuguesa da FFII (para quem não sabe, Foundation for a Free Information Infrastructure) o seguinte email, que passo aqui a divulgar:

    No próximo dia 23 de Setembro será votado o Projecto de Resolução n.º 254/IX - Contra as patentes de software na União Europeia em defesa do desenvolvimento científico e tecnológico, proposto na Assembleia da República pelo Deputado Bruno Dias (PCP). Esta moção visa inverter o infeliz voto favorável a patentes de software emitido por Portugal na reunião de 17/18 de Maio de 2004 no Conselho Europeu de Ministros. Por este motivo, é urgente que escreva uma carta em papel ou fax, (pode enviar um email também, mas o contacto "não digital" tem mais impacto), aos seus deputados preferidos pedindo-lhe que apoie esta Resolução, mesmo que seja feita por um partido opositor. Se puder enviar esta carta em nome da sua empresa, faça-o. É importante realçar que a sua empresa também será afectada.
    Bons pontos a focar incluem a rejeição a patentes de software expressa por quase 2900 portugueses na petição entregue no Parlamento Europeu a proposta do Parlamento Europeu que claramente exclui patentes de software depois de um longo período de estudo, e pode incluir como anexo o Apelo Urgente disponível em http://swpat.ffii.org/cartas/cons0406/index.pt.html. Para ajudar a mostrar, especialmente aos partidos que compõem o governo, a nossa vontade de um mercado de software Europeu livre de patentes de software, é necessário este pequeno esforço. Por favor, ajude-nos pois este gesto é importante e urgente.

    Contacto no PP:
    Grupo Parlamentar do Partido Popular - 14
    Palácio de S. Bento
    1249-068 LISBOA
    Tel: 800205158 (linha verde)
    gp_pp@pp.parlamento.pt

    Contacto no PSD:
    Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata - 105
    Palácio de S. Bento
    1249-068 LISBOA
    Tel: 800205156 (linha verde)
    gp_psd@psd.parlamento.pt

    Contacto no PS:
    Grupo Parlamentar do Partido Socialista - 96
    Palácio de S. Bento
    1249-068 LISBOA
    Tel: 800204342 (linha verde)
    gp_ps@ps.parlamento.pt

    Contacto no PCP:
    Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português - 10
    Palácio de S. Bento
    1249-068 LISBOA
    Tel: 800200358 (linha verde)
    gp_pcp@pcp.parlamento.pt

    Contacto no BE:
    Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda - 3
    Palácio de S. Bento
    1249-068 LISBOA
    Tel: 800204027 (linha verde)
    blocoar@ar.parlamento.pt

    Publicado por Filipe Moura às 09:39 AM | Comentários (3)

    setembro 19, 2004

    DOCE FALTA DE COMPETÊNCIAS

    Quem será o ministro, que dizem sempre muito prestável para com Dias Loureiro, que se tem esquecido, com admirável pertinácia, de transferir competências para os seus secretários de Estado?
    E lá ficam assim os dois figurões sem nada que administrar, interna ou externamente, entregues ao tédio mais cruel, dia após dia, mês após mês. Bem, ao menos, o facto de terem um ponto para picar sempre evita que eles andem por aí, desocupados e inertes, sujeitos a tentações pecaminosas várias; e sempre são dois desempregados a menos.
    A bem da verdade, olhando para os curricula de ambos, logo se percebe que talvez fosse mesmo impossível transferir competências para onde elas nunca antes medraram...

    Publicado por Luis Rainha às 01:45 PM | Comentários (4)

    THE SUICIDE

    Antecipando em poucos dias o regresso da melhor comédia televisiva de sempre às televisões portuguesas (para quem tem TV Cabo...), e a propósito dos recentes acontecimentos na Ponte 25 de Abril e na Av. 24 de Julho, recordo o monólogo de stand-up comedy inicial de The Suicide. O texto que se segue, porém, não é aconselhável a barranquenhos, a fãs do Big Brother e a pessoas sensíveis em geral ou com história de suicidas na família.

    The thing I don't understand about the suicide person is the people who try and commit suicide for some reason they don't die and that's it. They stop trying. Why? Why don't they just keep trying? What has changed? Is their life any better now? No. In fact it's worse because now they've found out one more thing they stink at. Okay, that's why these people don't succeed in life to begin with. Because they give up too easy. I saw, pills don't work, try a rope. Car won't start in the garage, get a tune up. You know what I mean? There's nothing more rewarding than reaching a goal you have set for yourself.

    Publicado por Filipe Moura às 09:44 AM | Comentários (2)

    setembro 18, 2004

    CORTE DE CABELO

    De tesoura na mão, ela pôs-se a observar atentamente a minha cabeça. E depois disse, com a convicção de um Freud capilar: «Temos aqui um caso de dupla personalidade. Ou talvez tripla, não sei. O senhor tem vários remoinhos contraditórios, está a ver? E é difícil encontrar uma lógica nesta confusão. Olhe, não queria desiludi-lo mas o seu cabelo, digamos assim, é um bocado esquizofrénico».
    Não me desiludiu, claro. Até porque já sabia isso desde os meus cinco anos, quando o senhor Mesquita me punha uma capa verde-água em torno do pescoço e eu, lá do alto da cadeira giratória, via o infinito a propagar-se pelos espelhos da barbearia (colocados em paredes opostas, face a face).
    Esquizofrénico, o meu cabelo? Sim senhor. E com muita honra. Única loucura possível de uma cabeça demasiado normal.

    Publicado por José Mário Silva às 07:33 PM | Comentários (7)

    LÁ COMEÇOU A ÉPOCA

    Com os jogos do meu filho mais velho, começa a época dos sábados com alvorada às 7 da manhã, faça chuva ou faça sol. Assim serão as "minhas" manhãs desportivas dos próximos meses. Bem; pode ser que, ao menos, aprenda a mexer na câmara como deve ser.

    Publicado por Luis Rainha às 07:09 PM | Comentários (5)

    A IMPORTÂNCIA OU O PERIGO DOS BLOGS

    Recentemente, a questão da veracidade ou não dos memorandos que punham em causa o percurso militar de W. Bush foi saudada dentro e fora dos blogs como uma vitória destes e sintoma da sua crescente importância.
    Contudo, sabe-se agora que o primeiro blogger a pôr em causa os documentos não foi um anónimo especialista em tipografia, mas sim um activista republicano próximo da Casa Branca e, inclusivamente, feroz opositor de Clinton durante o escândalo Lewinski, a agir sob a protecção de um pseudónimo.
    Ou seja, não estamos perante um movimento de base em busca da verdade, mas sim de contra-informação encenada pelos próprios alvos da informação original, com o intuito de colocar esta em causa. Para tal, os blogs revelaram-se utilíssimos, na medida em que conferiram à dita encenação uma legitimidade e aparente isenção que aquela talvez não tivesse caso fosse transmitida pelos canais oficiais.
    Logo, sem questionar a importância informativa dos blogs, parece-me que também devemos ter cuidado em relação à sua utilização como meio particulamente eficaz de disseminação de boatos e informações "convenientes".

    Publicado por Jorge Palinhos às 04:48 PM | Comentários (7)

    O FURA-TRADIÇÕES

    Ontem, na Assembleia da República, os partidos de esquerda manifestaram-se surpreendidos e chocados pelo facto de Santana Lopes, o PM em exercício, ter "fugido" ostensivamente à interpelação do BE ao Governo, sobre a questão do aborto. Como se pode ler no DN de hoje, «a falta do primeiro-ministro foi lembrada e relembrada pela oposição, que além do mais atacou o facto de ter sido rompida uma tradição longa: a de o chefe do Governo assistir às interpelações ao seu Executivo (praxe que António Guterres e Durão Barroso cumpriram)». Para ser sincero, custa-me compreender tanta celeuma. Santana rompeu uma «tradição longa» dos seus antecessores? E daí? Onde é que está o espanto? Caso não se lembrem, ele já tinha rompido anteriormente outra «tradição longa»: a de chegar a São Bento só depois de um escrutínio eleitoral.

    Publicado por José Mário Silva às 04:15 PM | Comentários (5)

    UMA DEFESA DA LIBERALIZAÇÃO DO ABORTO

    No fim de tudo [polémica sobre o barco das Women on Waves] fica uma única certeza: a de que ninguém discutiu realmente a questão da IVG. Falou-se muito e de muitas coisas em muitos sítios. Discutiu-se a autoridade do estado; discutiram-se os sistemas legais; falou-se muito de política pequena; quis-se saber quem tinha convidado a WoW, que filiações partidárias tinham; quis-se saber da legalidade da decisão de proibir o barco de entrar em águas nacionais; fizeram-se números de circo de um e de outro lado da barricada. Mas quase ninguém quis discutir o aborto. Nos media houve poucas tentativas de debate. Hoje como há seis anos. Mesmo na altura do referendo o grosso das discussões foi marginal, falhou o objectivo. Na blogosfera, as únicas tentativas sérias de abordar a questão aconteceram, tanto quanto me apercebi, no Triciclo Feliz e no Conta Natura.
    Já vi a expressão "vida humana" ser usada vezes demais nesta discussão. Vamos lá a ver se nos entendemos: a vida humana não é sagrada; se fosse, eu faria um crime de cada vez que faço a barba ou corto o cabelo; um dentista faria um crime de cada vez que arranca um dente; a lipoaspiração seria considerada uma actividade assassina. Dir-me-ão que são exemplos anedóticos; responderei que em todos eles se acaba com alguma forma de "vida humana".
    A questão a colocar não deve ser, portanto, se um feto constitui ou não uma forma de vida humana. Devemos perguntar, isso sim, se um feto é ou não uma pessoa. E aí é que a coisa se torna mais complicada, porque para responder a isto temos primeiro de responder à questão "o que é uma pessoa?", ou, no mínimo, de enunciar o conjunto mínimo de características que tornam um ser... numa pessoa. A característica mínima geralmente aceite é a senciência (capacidade de ter experiências sensoriais, como o prazer ou a dor). A senciência implica algumas capacidades neurológicas básicas que estão ausentes nos fetos com poucas semanas. Duas outras que normalmente são apontadas mas que não fazem sentido são a vida entendida no sentido estritamente biológico (que já mencionei) e a pertença a uma espécie (que faz tanto sentido como a pertença a uma raça, ou seja, nenhum. Dizer que é a espécie por si só que nos fornece um estaturo moral é totalmente arbitrário).
    Há um outro argumento muito utilizado pelos partidários pró-vida (até a designação é errada: como se os defensores da legalização fossem pró-morte): o argumento da potência. Dizem-nos que um feto é uma pessoa em potência. Verdade. Mas não menos verdade é isto: uma pessoa em potência não é uma pessoa e não tem o estatuto moral desta. Se levássemos este argumento a um extremo (o que é sempre uma boa maneira de testar argumentos), depressa chegaríamos à conclusão que a menstruação, por exemplo, teria de ser proibida. Afinal de contas, também um óvulo é uma entidade viva e uma pessoa em potência. A verdade é que em nenhum outro aspecto da vida damos ao potencial de possuir determinados direitos o estatuto de quem tem esses direitos de
    facto. Uma criança, por exemplo, é, em potência, um eleitor, um trabalhador, um desempregado, um filantropo, um assassino; mas não pode votar enquanto não fizer dezoito anos, não desconta para a segurança social nem paga IRS enquanto não trabalhar, não recebe subsídio de desemprego enquanto não estiver desempregado, etc. O feto não atinge o estatuto moral que contém em potência enquanto não concretizar essa potência.
    A questão do estatuto moral do feto não pode ser ignorada. Grande parte dos movimentos pró-escolha cai nesse erro ao transformar a questão do aborto numa discussão sobre os direitos da mulher. É um erro: primeiro precisamos de conhecer o estatuto moral do feto. E esse não é o de uma pessoa. Um feto com poucas semanas de existência não tem experiências sensoriais; não tem, de resto, actividade cerebral relevante. Um feto com poucas semanas de vida não é uma forma de vida superior ao de um paciente em estado de morte cerebral. Não é, enfim, uma pessoa. A medicina consegue manter um coração (ou um par de pulmões) a trabalhar dentro de um frasco. Todos concordaremos que é uma forma de vida humana. Não autónoma, mas humana. Alguém será capaz de dizer que o médico que desliga a máquina é um assassino?
    Há pouco tempo, num (pobre) debate sobre o tema na televisão, uma senhora dizia que um feto é uma criança. Cito o grande George Carlin: «se um feto é uma pessoa, porque não os contam nos censos? Se um feto é uma pessoa, porque é que não fazem um funeral quando há um aborto espontâneo? Se um feto é uma pessoa, porque é que os casais dizem "temos um filho e estamos à espera de outro" em vez de dizerem "temos dois filhos"?»
    (Hugo)

    Publicado por José Mário Silva às 04:06 PM | Comentários (10)

    CONSTATAÇÃO PREVISÍVEL

    João Lopes, o excelente crítico de cinema (e de imagens, sensu lato), foi quem mais escreveu sobre Madonna, na imprensa portuguesa.

    Publicado por José Mário Silva às 03:40 PM | Comentários (0)

    PARAÍSO (E PESADELO) DO LEITOR

    661. É o número de romances — 440 nacionais; 221 estrangeiros — que foram lançados por estes dias, em França, na rentrée literária.

    Publicado por José Mário Silva às 03:34 PM | Comentários (2)

    MENOS ÁRVORES, MENOS NAPALM, O MESMO DESTINO

    Cartoon de Pancho, «Le Monde»

    Publicado por José Mário Silva às 11:52 AM | Comentários (3)

    COMO SE ESCOLHEM AS NOTÍCIAS

    Teve início ontem, na Abril em Maio, uma série de debates sobre os processos de filtragem das notícias nos vários órgãos de comunicação social.
    Para hoje, estão previstas as seguintes mesas-redondas:

    - «A ESCOLHA DAS NOTÍCIAS NA POLÍTICA», com Diego Palacios, Estrela Serrano, João Mesquita e Nuno Pacheco, às 15 horas

    - «A ESCOLHA DAS NOTÍCIAS NA CULTURA», com Augusto M. Seabra, Francisco Belard, João Paulo Cotrim, Sandy Gageiro e Vítor Silva Tavares, às 17 horas

    - «A ESCOLHA DAS NOTÍCIAS NA SOCIEDADE», com Ana Margarida Carvalho, Leonor Figueiredo e Rui Canário, às 19 horas

    E amanhã, domingo:

    - «COMO SE ESCOLHEM ENTÃO AS NOTÍCIAS», debate com os participantes dos dias anteriores e Acácio Barradas, Adelino Gomes, Cristina Ponte, Jorge Silva Melo e José Mário Silva, às 16 horas

    A morada é a do costume: Regueirão dos Anjos, 68 (Lisboa).
    Apareçam.

    Publicado por José Mário Silva às 11:47 AM | Comentários (0)

    setembro 17, 2004

    O PARADOXO

    Em entrevista à revista brasileira Época, José Eduardo Agualusa disse em voz alta, sobre José Saramago, o que muita gente murmura de forma mais ou menos envergonhada. «Não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida.»
    Até aqui tudo bem. Se Agualusa não gosta, não gosta. Está no seu direito. Mais: a sinceridade, matéria-prima raríssima nos círculos literários, é de aplaudir. Tal como é de aplaudir o modo frontal como sugere, noutro passo da entrevista, serem os escritores portugueses «todos terrivelmente melancólicos». Reparem: nem um, nem dois, mas todos.
    Em suma, Agualusa torce o nariz aos livros «contaminados pelo desencanto» e à melancolia inata do portuga. Nihil obstat. Mas, sendo assim, por que raio é que considera António Lobo Antunes, esse exemplo paradigmático do misantropo eternamente mal disposto, «o maior escritor lusitano da actualidade»?

    Publicado por José Mário Silva às 08:14 PM | Comentários (33)

    CONSTITUTIONAL ROCK

    Embora o título escolhido para o próximo álbum dos U2 seja «How to Dismantle an Atomic Bomb», ignora-se ainda até que ponto a banda irlandesa — conhecida pela sua consciência política — se inspirou na recente abdicação dos poderes presidenciais, por parte de Jorge Sampaio, durante a crise que levou Santana Lopes a São Bento.

    Publicado por José Mário Silva às 07:56 PM | Comentários (0)

    EROS VAI AOS FRANGOS

    Não resisto a partilhar convosco esta pequena maravilha, descoberta pelo Cachucho algures nos pitorescos escaninhos desse universo alternativo que é o Kristi's Fans.
    Não percam. A coisa envolve um jogador de futebol. Muito suor. Gordura a rodos. Um minúsculo avental. E, claro está, alguns frangos, figurantes mudos mas aquiescentes numa fantasia erótico-culinária sem freio (nem regras ortográficas).

    Nunca chegaremos, pobres e ignaros machos, a compreender o cérebro das mulheres; sobretudo durante aqueles anos adolescentes em que ele se descobre inundado por hormonas irresistíveis. Mas quem é que me mandou ter uma filha em vez de um galgo afegão?

    Publicado por Luis Rainha às 07:23 PM | Comentários (3)

    COFFEE BREAK DAS SETE DA TARDE

    Publicado por José Mário Silva às 07:04 PM | Comentários (1)

    REFILANÇO

    Inicialmente, o Lucky Luke era uma BD razoável, que se tornou imprescindível quando Goscinny tomou conta dos argumentos e se converteu numa BD medíocre depois deste falecer. A personagem original e as primeiras aventuras couberam totalmente a Morris, mas foi com Goscinny que a colecção ganhou todas as suas características mais populares: Rantanplan, o cão mais estúpido que a própria sombra, o cavalo falante Jolly Jumper, a personagem de BD que mais se assemelha a um blogger, etc..
    Depois da morte deste argumentista, Morris, com toda a legitimidade, foi buscar novos argumentistas. Todos, sem excepção, se demonstraram sem rasgo, incapazes de irem mais além do que fazer pequenas variações sobre o legado de René Goscinny.
    Agora, graças ao Frederico, descubro que saiu em França o primeiro álbum que nem é desenhado por Morris (visto este também já não ser deste mundo).
    Não percebo, juro que não percebo.
    Será que alguém imagina o Corto Maltese a ser desenhado por outro que não Hugo Pratt? Ou alguém que não Art Spiegelmam a fazer a continuação de Maus? E alguém concebe que pusessem outra pessoa a escrever romances de Maigret que não Simenon? Será que se der o tilt à J.K. Rowling antes desta acabar a saga do seu puto-feiticeiro, vão por outro a acabar a série?
    Então porque é que a BD se sujeita a estas coisas? É certo que a BD franco-belga estagnou depois Moebius, sendo uma pálida sombra diante da pujança da BD anglo-saxónica (tanto comercial como alternativa) e do exotismo manga. Mas como é que se põe gente totalmente diferente a continuar o Lucky Luke, o Blake & Mortimer ou mesmo o Spirou como se estes fossem vulgares sitcoms industriais americanas?

    Publicado por Jorge Palinhos às 05:37 PM | Comentários (3)

    DUAS FACES DO TERROR



    Em Beslan, uma mãe procura a confirmação dos seus piores receios por entre fotografias das vítimas da escola assaltada pelos terroristas chechenos.
    No hospital de Falluja, mais uns quantos "collateral damages", desta feita resultantes de um ataque americano à sua cidade, aguardam tratamento.
    É-nos fácil dizer que uma coisa são ataques que têm por objectivo único criar destruição e morte, outra bem diversa são ataques militares apontados apenas a uns quantos meliantes. Mas como poderemos esperar que um pai ou uma mãe de luto consigam entender essas minudências? Como poderemos evitar perguntas como a que nos foi dirigida por um dos comunicados que reivindicaram o horror de Março em Madrid: "nós não sentimos pesar por tombarem aqueles a que vocês chamam civis. Será aceitável que eles matem as nossas mulheres, crianças, idosos e jovens no Afeganistão, Iraque, Palestina e Kashmir, mas proibido que nós os matemos?"
    Já tinha andado a matutar nisto há uns tempos. Agora, o texto do Jorge Candeias veio recolocar estas e outras questões. Que não encontram respostas tão fáceis e prontas quanto alguns desejariam.
    Claro que os EUA não são moralmente equivalentes à al-Qaeda; mas quando as famosas "rules of engagement" têm em vista, única e exclusivamente, a salvaguarda dos soldados americanos - "Shoot to kill. No questions asked" -, ignorando as vidas dos civis que as potências ocupantes deveriam proteger, o abismo de diferenças estreita-se um pouco.
    Uma criança é uma criança. Seja americana, russa, iraquiana, israelita ou palestiniana. Cúmplice do terrorismo é quem se recusa a entender isto.

    Publicado por Luis Rainha às 04:07 PM | Comentários (5)

    MAIS METRO (E OUTROS ASSUNTOS)

    Passou mais um aniversário desse terrível dia que mudou o nosso mundo que foi o 11 de Setembro de 2001. Na semana passada, bastante ocupado, nem pude escrever nada aqui sobre o assunto. Mas Lisboa tinha algo que me fazia lembrar a Nova Iorque pós 11 de Setembro (e provavelmente ainda hoje). Para além das reminiscentes (e ridículas) bandeirinhas nas janelas, havia uma bandeira nacional colada em cada carruagem do metropolitano.
    Para o cenário ser igualzinho ao da América pós 11/9, só faltavam inscrições por todo o lado, e a propósito de qualquer coisa, de "Deus abençoe Portugal". Nessa altura, inscrições de "God bless America" vinham até na conta do supermercado!
    Presumo que as bandeirinhas no metro se devem ainda ao Euro 2004. Conforme aqui já afirmei, esta atitude de pendurar bandeirinhas a torto e a direito, para mim é sempre provinciana e está associada a um certo histerismo. Compreendo melhor esse histerismo numa cidade que acabou de sofrer um atentado, apesar de achar que o histerismo é sempre mau conselheiro. Em ambos os casos, foi e é usado politicamente. Nos EUA, com esta onda de patriotismo, quem se atrever a questionar a política externa do governo é rotulado de "antipatriota". Em Portugal, recentemente, tivemos a campanha "Força Portugal" da direita.
    Há no entanto uma diferença importante entre as bandeiras no metro e nas casas. Numa casa particular, o dono faz o que quiser. Posso dar a minha opinião sobre as bandeiras, mas nunca porei em causa o direito de o dono as colocar. Já o metro é uma empresa pública, e não se destina somente a quem apoia a selecção portuguesa. Não se destina somente a portugueses, e nem mesmo somente a residentes em Portugal. Com tantos turistas que passaram por Lisboa durante e depois do Euro 2004... As bandeirinhas penduradas, especialmente no metro, em Lisboa e Nova Iorque, são por natureza incompatíveis com o cosmopolitismo que se deseja para estas cidades. E continuam lá penduradas...

    Publicado por Filipe Moura às 01:51 PM | Comentários (5)

    PILHAR OU NÃO PILHAR, EIS A QUESTÃO

    Na "Visão" desta semana, António Mega Ferreira publica uma crónica intitulada "Os mármores de Elgin". O tema é a "pilhagem" que Lord Elgin terá levado a cabo, ao enviar para o Reino Unido as peças escultóricas hoje expostas no British Museum. Ao contrário de muito boa gente que tem alimentado uma polémica com mais de um século, o cronista não tem dúvidas: "a sensação de esbulho que lá (Atenas) se experimenta é reforçada com esta forma quase ostensiva como são apresentados os mármores de Elgin. Fazem falta lá; aqui, são uma obscenidade."
    Inspirado pela hagiografia de Lord Byron, Mega Ferreira aceita como certo que o poeta inglês terá sido "a primeira voz culta e desinteressada que denunciou o saque do Parténon". Ora George Byron não foi, de forma alguma, o primeiro a criticar Elgin, embora tenham ficado célebres versos seus directamente apontados ao antigo embaixador britânico em Constantinopla: "Cold as the crags upon his native coast/ His mind as barren and his heart as hard". Desde o início, os aristocratas londrinos, apesar do seu hábito de recolher souvenirs clássicos onde quer que fossem, tiveram a impressão que Elgin havia ido longe demais. O ataque, tão feroz que até incluiu dúvidas sobre a autoria grega das esculturas, foi liderado por um tal Richard Payne Knight, figura destacada da Society of Dilettanti, uma espécie de grémio de ditadores do gosto artístico inglês da época. Aliás, e ao contrário do que Mega Ferreira escreve, os mármores não foram objecto de uma "primeira exposição" em 1807; ficaram durante anos (mal) guardados num barracão erigido em Park Lane, onde eram visitados apenas por artistas e connoisseurs ilustres. O pintor suíço Fuseli terá mesmo saído da sua primeira visita berrando algo como "De Greeks were godes! de Greeks were godes!"
    Mas, afinal, a que propósito foram os "mármores" da discórdia parar a Londres?
    Em primeiro lugar, devemos ter em mente que o estado de ruína do Parténon não se ficou a dever em exclusivo à fricção do tempo. Foi preciso chegar a 1687 para que uma bala de canhão oriunda de um navio veneziano da armada de Morosini acertasse em cheio no edifício, então reduzido à pouco nobre condição de... paiol de munições turco. A explosão escaqueirou o Parténon, mas não impediu que os turcos continuassem a usar a Acrópole como fortaleza militar por mais de um século. Eles nunca se mostraram muito dados à apreciação de tais monumentos: outra vítima célebre, o pequeno templo de Nike Athena, foi ali destruída para dar mais espaço à artilharia otomana...
    No início do século XIX, de acordo como várias fontes contemporâneas, e nem todas favoráveis a Elgin – como o arqueólogo alemão Adolf Michaelis – as esculturas estavam a ser canibalizadas para a construção de casas e reduzidas a cinzas em fornos de cal!

    O objectivo inicial de Thomas Bruce, sétimo conde de Elgin, era modesto: copiar, com moldes de gesso, algumas esculturas, para decorar a mansão que oferecera à sua mulher como prenda de casamento. Para tal, teve de subornar várias autoridades turcas; mesmo assim, a sua equipa trabalhava sujeita a inúmeras restrições: por exemplo, não podiam usar andaimes, pois isso poderia permitir que os infiéis europeus espreitassem para dentro das residências de bons muçulmanos.
    A páginas tantas, Elgin resolveu mudar os seus planos e dedicar-se antes a "salvar" os frisos. Aproveitando a sua condição de embaixador e a crescente influência britânica na zona, fruto das vitórias de Nelson, pediu e obteve autorização para levar para o Reino Unido "algumas" peças. Esta palavra ainda hoje é alvo de controvérsia, pois o original turco da autorização concedida a Elgin está perdido há muito, restando apenas uma tradução italiana que usa a palavra "qualche", que tanto pode significar "umas poucas" ou "quaisquer". O bom embaixador decidiu-se alegremente pela segunda hipótese, lançando sobre o Parténon uma equipa de 300 homens que se dedicou, durante um ano, a retirar, nem sempre com muito cuidado, as peças que podemos admirar no British Museum... e a deixar na estrutura remanescente os feios buracos que ainda hoje tanto irritam os gregos. Os denodados operários até terão serrado algumas esculturas, para facilitar o seu transporte...
    Sir Edward Dodwell, um turista britânico que visitou o local na altura, não foi meigo ao criticar a operação de "resgate" no seu livro "A Classical and Topographical Tour through Greece": "Everything relative to this catastrophe was conducted with an eager spirit of insensate outrage, and an ardour of insensate rapacity, in opposition not only to every feeling of taste but to every sentiment of justice and humanity." Mas é de notar que noutras passagens deste livro é descrita a destruição com que os turcos continuavam a massacrar a Acrópole, já depois de terminada a "exportação" dos mármores.

    O resto da história correu mal a Elgin: foi preso pelos franceses, abandonado pela mulher e aldrabado pelo governo inglês, que acabou - depois de muita discussão que até meteu um comité - por adquirir os mármores por uma soma inferior ao que o ex-embaixador havia gasto.
    Terá Elgin sido o bárbaro amante da pilhagem que Mega Ferreira descreve de forma tão decidida? Hoje, a maioria dos autores parece inclinada a rejeitar essa tese. E os ingleses também não parecem estar na disposição de devolver os mármores à procedência, como se viu pelos escassos resultados das recentes iniciativas gregas, que tinham por objectivo colocá-los na Acrópole a tempo dos Jogos Olímpicos.


    PS: a ideia de devolver estas obras à Grécia não é invenção recente. Em 1940, uma deputada trabalhista já perguntara a Winston Churchill se as esculturas seriam entregues ao povo grego, como agradecimento pela sua resistência aos alemães. A resposta foi negativa.
    Quem quiser ler mais sobre este e outros temas ligados aos mármores, tem muito por onde escolher. Este pode ser um bom começo.

    Publicado por Luis Rainha às 01:21 PM | Comentários (3)

    TERRORISTAS, GUERREIROS E OUTROS IDIOTAS

    Aquilo que aconteceu em 11 de Setembro de 2001 foi uma atrocidade. Não há outro nome, não há palavras mais adequadas. Mas cada vez há mais sinais a indicar que foram bem piores as consequências tardias do que as consequências imediatas, apesar de continuar a haver gente que atira alegremente para trás das costas milhares de mortes como se não contassem, como se não fossem mortes de seres humanos, como se só os homens, mulheres e (algumas) crianças assassinadas barbaramente em 11 de Setembro tivessem relevância.
    A 11 de Setembro, morreram cerca de 3000 pessoas de várias nacionalidades, com claro predomínio para cidadãos norte-americanos. Foram 3000 vítimas inocentes de um ataque perpetrado por fanáticos. Três mil vítimas de assassínio premeditado. É um número atordoante. É como riscar do mapa uma vila inteira de um dia para o outro.
    Depois do 11 de Setembro, o hiperterrorismo assassinou mais algumas centenas de pessoas em Espanha, Marrocos, Indonésia e outros pontos do planeta. Excluo os prováveis 500 mortos de Beslan, porque a ligação ao terrorismo internacional não está demonstrada. Mas, mesmo com eles, o número de vítimas causadas pelo terrorismo internacional não atinge as 4000.
    Por outro lado...
    Por outro lado aconteceram duas guerras. Uma com justificação e legitimidade internacional, a outra baseada em mentiras. Ambas por iniciativa dos Estados Unidos da América.
    E quanta gente morreu nessas guerras? Deixemos o Afeganistão de lado, falemos só do Iraque. Mortos militares americanos (ou seja, não contando com os mortos ingleses e de outros países envolvidos na agressão ao Iraque), passaram há dias os 1000. Combatentes iraquianos, entre exército regular e milícias irregulares, são muitos mais, provavelmente até 10 vezes mais. Só entre os militares regulares registaram-se 5 a 6 mil mortos. Mas esses, de um lado e do outro, são mortos combatentes, logo, por inerência, não-inocentes, ainda que haja muito boa gente que considera bastante mais valiosa a vida de quem morre a tentar defender a sua terra do que de quem invade essa terra. Em todo o caso, interessa mais saber quantos civis perderam a vida no Iraque.
    O Pentágono e os seus aliados recusam-se a fornecer números sobre os "danos colaterais" o que, só por si, faz imediatamente suspeitar que o número seja elevado. A situação de confusão que continua a prevalecer no país também não ajuda a obtenção de números fiáveis, até porque sobem todos os dias. No entanto, há alguns cálculos, que chegam a valores muito diversos.
    Os números mais elevados são os divulgados em Agosto de 2003, há já mais de um ano, portanto, por Jude Wanniski, citando um elemento do Partido da Liberdade do Iraque, uma organização clandestina de oposição a Saddam.
    Segundo este elemento, teriam morrido, entre o início da invasão e meados de Junho de 2003, mais de 37 mil civis iraquianos, com especial relevo para as províncias de Basra e Bagdade, em cada uma das quais teriam morrido mais de 6000 civis. A fiabilidade destes números é, à partida, duvidosa, por haver uma discrepância muito grande entre estes números e todos os outros. Mas a verdade é que já por várias vezes a realidade do que se tem passado no Iraque se tem revelado muito pior do que as expectativas mais pessimistas. Veja-se Abu Ghraib para um exemplo eloquente.
    Em todo o caso, os outros números são mais modestos.O Iraq Body Count, um grupo de activistas anti-guerra maioritariamente americanos e britânicos, calcula as mortes civis entre as 11800 e as 13800. Estes números até poderiam ser exagerados, mas este site inclui algo que é muito raro encontrar, especialmente em quem faz da morte de seres humanos uma arma de combate político: uma explicação detalhada da metodologia seguida. Podem lê-la em português aqui.
    Além disso, estes números, actualizados, são consistentes com artigos na imprensa datados de 2003. Dois exemplos: a 22 de Maio de 2003, o Christian Science Monitor falava já de um número de mortes civis que poderia estar entre 5000 e 10000, e a 13 de Junho de 2003 o Guardian lançava os mesmos números de baixas civis, se bem que este artigo tenha sido produzido com base nos valores do IBC.
    Supondo que o número de civis mortos no Iraque foi de "apenas" 10000, que morreram "só" 5000 combatentes iraquianos e que o número de invasores mortos não passou dos 1000, o resultado é, ainda assim, de 16000 vidas perdidas, só nessa guerra. Dezasseis mil. Sem contar com o Afeganistão. Se a perda de três mil pessoas é uma atrocidade, o que será a perda de 16 mil?
    É cada vez mais claro e cristalino que as guerras que se seguiram ao 11 de Setembro, que usaram os ataques terroristas como pretexto, foram muito mais mortíferas do que os ataques propriamente ditos. E assim, é difícil diabolizar os terroristas com eficiência. É que nenhuma das vítimas acredita nas boas intenções de quem provoca cinco vezes mais mortos do que a rede de Bin Laden. Na melhor das hipóteses, para o mundo muçulmano, os terroristas são tão assassinos como os líderes dos países responsáveis pela guerra no Iraque. Na pior, acham que Bin Laden é um bom homem, quando comparado com Bush e Blair. É que os muçulmanos também sabem fazer contas e são capazes de comparar resultados. Também são homens, por mais que isso custe à extrema-direita. Não são untermensch. E quem assassina um muçulmano é tão assassino como quem assassina um americano.
    É por isso que não há qualquer diferença de fundo entre Bin Laden e George Bush. São ambos bárbaros, são ambos responsáveis por assassínio em massa, são ambos rostos modernos do fascismo fundamentalista. E a luta de todos os seres humanos com um pouco de vergonha na cara deve ser contra ambos. Sempre.
    (Jorge Candeias)

    Publicado por José Mário Silva às 11:55 AM | Comentários (18)

    WAY OUT THERE

    O Pedro Mexia resolveu dar-nos um exemplo de individualismo da direita e agora analisa os seus próprios posts e faz polémicas consigo próprio a propósito dessas análises (1, 2).
    Isso, ou anda a sentir-se muito sozinho.

    Publicado por Jorge Palinhos às 10:47 AM | Comentários (1)

    setembro 16, 2004

    QUANDO FOR VELHO QUERO TER UM ROSTO ASSIM

    [Samuel Beckett, ageless]

    Publicado por José Mário Silva às 07:23 PM | Comentários (6)

    MAIL DO RAP

    Não resisto a transcrever aqui, para que todos apreciem a prosa, um mail do Ricardo Araújo Pereira (o mais benfiquista dos benfiquistas) em resposta ao post anterior do Luis, sobre a sua experiência de lampião no metro em Inglaterra. Detalhe significativo: a pequena "carta" foi redigida, com uma indignação que apenas a elegância da escrita consegue disfarçar, menos de uma hora após o aparecimento do post. Deus (ou, se quiserem, Eusébio) não dorme.
    Eis o mail:

    «Ó Luis Rainha,
    O Benfica vive de memórias e já não ameaça ninguém?! Por amor de Deus, pá. Os bifes riram-se e abraçaram-te porque queriam felicitar-te pela tua escolha. Sejam de que clube forem, já perderam com o Glorioso de certeza. Não me lixes com isso das memórias. O que são meia dúzia de anos na imensidão do tempo? O mundo tem milénios e milénios, catano. Aquele desacato que houve em Roma, nos idos de Março, foi ontem. O Águas levantou a Taça dos Campeões há cinco minutos, pá. Que te acusem de anti-semitismo, tolero bem; agora, que abras o flanco a acusações de anti-benfiquismo, já acho reprovável. Vê lá isso, homem.
    Um abraço,
    Ricardo»

    Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (1)

    METRO E FUTEBOL (2)

    Há muitos, muitos anos, num Reino Unido muito distante, estava eu a entrar no metro quando, por entre uma algazarra incrível, me vejo rodeado por um bando de alucinados de caras pintadas e farpelas de uma qualquer agremiação desportiva. De imediato um deles me perguntou qual era o meu clube.
    Ao ouvirem a minha sumida resposta, "Benfica", desataram todos a rir e lá me deixaram em paz, depois de me castigarem com uns quantos abraços e sorrisos a tresandar a Guinness.
    Nunca me tinha antes sentido feliz por ser adepto de um clube que vive de memórias e já não ameaça ninguém...

    Publicado por Luis Rainha às 05:25 PM | Comentários (3)

    METRO E FUTEBOL (1)

    Faz hoje uma semana. Eu e o Zé Mário vínhamos da FNAC Colombo. Ao chegarmos à estação do Alto dos Moinhos, a carruagem onde seguíamos foi subitamente invadida por uma claque do Benfica, apanhando toda a gente de surpresa. Ninguém contava com aquilo.
    Vinham armados com bastões dos bem grandes. Dos que podem matar. Entraram de rompante e foram logo apagando as luzes, desatarraxando as lâmpadas. Batiam nas paredes e nos vidros. Gritavam e entoavam cânticos do seu clube. As pessoas ou saíam na estação seguinte ou seguiam viagem, silenciosas, esperando que aquilo não fosse nada com elas.
    Assim seguimos até ao Marquês de Pombal, onde o Zé Mário saía e eu decidi sair também, para apanhar a linha amarela, apesar de não ser esse o trajecto mais rápido para o Parque das Nações. Mas alguém finalmente conseguira denunciar os delinquentes ao motorista, que chamara a polícia. A circulação na linha azul ficaria interrompida por algum tempo.
    Chegando à gare da linha amarela, dou de caras com um grupo de polícias e previno-os do que se passa na linha azul, e da necessidade da sua intervenção. Respondem-me que "não podem estar em todo o lado" e que o objectivo deles é "evitar que as claques se encontrem". É então que me apercebo de que nessa gare, para apanhar o metro para o Campo Grande, está... uma claque do Sporting. Bem mais sossegados, evidentemente só por causa da presença policial. Não têm, no entanto, os tais bastões que tanto me impressionaram.
    A viagem desta vez correu bem. Só foi pena que a polícia não chegasse para tudo.
    No meio disto tudo, só me restava uma dúvida. Duas claques em risco de confronto e a causarem distúrbios no metropolitano de Lisboa, porquê? Que eu me lembrasse não havia jogos de futebol nesse dia. Muito menos um Benfica-Sporting. Fui saber. Tinha havia um Benfica-Sporting... em futebol de salão. Chegámos a este ponto. Distúrbios, polícia,... por causa do futebol de salão. Sem desprimor para este desporto, por qualquer motivo. Até por desportos a que quase ninguém liga.

    Publicado por Filipe Moura às 04:39 PM | Comentários (4)

    O "SUCESSO CATASTRÓFICO" DO IRAQUE


    A expressão é mesmo de Bush II: "Had we had to do it over again, we would look at the consequences of catastrophic success". Provavelmente, ele disse isto tendo na memória o relatório de que hoje o "NY Times" faz eco. Trata-se de uma "National Intelligence Estimate" preparada (isto deve querer dizer que tem muitos desenhos) para o Monkey Boy, onde se prevêem três cenários possíveis para o Iraque no final de 2005. O mais benigno descreve um país sem estabilidade política e económica nem segurança. O pior cenário apresenta-nos uma nação mergulhada nos horrores da guerra civil.
    Quando voltarem a ver o caramelo de olhinhos muito juntos e brilhantes a arengar sobre o seu lindo sonho de um Iraque democrático e sobre os progressos espantosos que têm ocorrido recentemente, já sabem que nem ele acredita naquilo.

    Publicado por Luis Rainha às 02:57 PM | Comentários (4)

    AGORA É QUE ISTO ANDA DIREITO...

    Quem poderia confiar na esquerda para voltar a governar Portugal? Então não nos deixaram de tanga? E esses gajos são geneticamente incapazes de organizar seja o que for; com eles a mandar, como poderíamos alguma vez ter comboios a horas?

    Era, não era? Pois agora, graças aos bons e insuspeitos ofícios do ministro das finanças, sabemos que continuamos "de tanga", ao fim de dois anos de sacrifícios. Constatamos que a consolidação orçamental foi quase inexistente, que a fuga aos impostos não abranda nem por consideração para com os "amigos" no poleiro. E a realidade trata de nos mostrar o que é um governo de direita a organizar um evento rotineiro mas complexo como o início de um ano escolar: o caos mais generalizado de que há memória.

    Publicado por Luis Rainha às 02:15 PM | Comentários (3)

    E POR FALAR EM 11 DE SETEMBRO...

    Reparem só nesta imagem do fotógrafo Augusto Alves da Silva, incluída na exposição «Metaflux», que representa o state of the art português na 9.ª Bienal de Arquitectura de Veneza:

    twin.jpg

    Não faço ideia se Augusto Alves da Silva é de esquerda ou de direita. Mas faz-me confusão que alguém fotografe assim as Twin Towers de Sete Rios. Se o nome dado àqueles edifícios já não era muito feliz (sobretudo sabendo-se que a inauguração das Galerias foi em 2002, poucos meses após os atentados de Nova Iorque), esta abordagem artística consegue ser ainda mais duvidosa.
    O trompe l'oeil do aeroplano que desce para Lisboa, mas que o erro de paralaxe coloca em rota de colisão com as torres, não poderia ter sido evitado? Não é para "limar" este tipo de inconveniências que se utiliza o Photoshop?
    Eu sou de esquerda e fico chocado com coisas destas, sejam elas acidentais ou irónicas. A sério, fico mesmo chocado. Posso? Deixam-me?
    Pois é. Se calhar não posso. Se calhar não me deixam. A indignação com os atentados de 11 de Setembro, se levarmos a sério o discurso hard de João Pereira Coutinho (ou mais soft de outros bloggers de direita), parece ser exclusiva de quem apoiou George W. Bush na sua equívoca "guerra contra o terrorismo".
    Mas já ninguém leva a sério esse discurso, pois não?

    Publicado por José Mário Silva às 01:18 PM | Comentários (3)

    O NOJO

    Num dos meus primeiros posts por estas paragens, prometi não contribuir para dar ao João Pereira Coutinho a atenção irritada que ele procura afanosamente como elemento vital para a sua visibilidade. Mas decido hoje, por razões de monta, fugir ao meu próprio preceito. Só por esta vez (digo eu).
    É que já imaginava o jeito que daria à direita conseguir apropriar-se do desgosto cavado pela queda das torres do WTC para seu uso exclusivo. E até já sabia que o roubo político de sepulturas é manobra com barbas de vetustez; e que qualquer crítica ao Monkey Boy equivale por certo a um urro de solidariedade com os terroristas de Osama.
    Mas nunca antes lera uma coisa assim: "rio com textos que se escrevem por aí. Textos de pesar. Assinados por vagabundos sem um pingo de vergonha na cara que, há três anos, com o segundo avião a enfiar-se pela torre adentro, abriam a primeira garrafa de uma tarde longa e festiva entre vagabundos de estirpe igual. Conheço casos."
    Mas claro que conhece; então não é facto há muito estabelecido que as hienas apreciam bastante o convívio dos seus iguais? E não consta que deixem que alguma divergência ideológica lhes estrague o forte instinto gregário.
    Mas adiante, que há mais: "’mereceram!’, diziam, com o típico brilho nos olhos que identifica, de imediato, o filho da puta nazi sem a humanidade natural que nos distingue dos bichos da selva. Primeiro mito a desfazer: para a esmagadora maioria, o 11 de Setembro foi o dia de apagar as velas. Um dia festivo. O dia mais feliz das vidas deles."
    Nem nego que possa existir gente assim, embora por acaso até não saiba de "caso" algum. Mas que JPC conheça morcões de esquerda que festejaram a morte atroz de milhares de inocentes é um facto cuja loquacidade se limita a descrever a falta de cuidado que ele coloca na escolha de amizades. O que não o impede de generalizar alegremente: "por cada palavra de pesar, convém ouvir a gargalhada sinistra que se esconde na retórica".
    Escusamos, nós os da "troupe fandanga da esquerda", de fingir que pertencemos, ainda que por laços ténues, à espécie humana. Nada nos ajuda admitir a tristeza sem fim que aquele dia nos deixou como herança. A nossa remissão nunca poderá surgir da compaixão que sentimos pelas vítimas do 11 de Setembro. Porque, inevitavelmente, é tudo fingido, "para a esmagadora maioria". Choramos as nossas copiosas lágrimas de crocodilo apenas para, em surdina, gargalharmos até nos faltar o fôlego. É que a malta de esquerda é mesmo assim. Está-nos no sangue, viscoso, nauseabundo e infectado.
    O melhor fica guardado para o fim: "nos milhares de corpos calcinados que selvagens sem nome condenaram à morte numa manhã de Setembro, não estão pais, mães, gente inocente com ambições e propósitos de vida. Estão meras estatísticas".
    Como é que esta criatura tem o topete de lançar um tal escarro à cara de quem quer que seja? Ao menos, podia ter reparado que o vento sopra com força bastante para lhe enviar a pestilenta expectoração de volta para as trombas. Será que alguém leu uma linha escrita por esses tais "nazis" de esquerda onde se tenha apoiado a chacina do 11/9? Onde se tenha aplaudido o planeamento da operação e a sua rápida conclusão?

    Mas todos lemos o aplauso delirante da direita a uma invasão que causou, pelo menos, 12.000 mortos civis! Doze mil "pais, mães", "gente inocente" cuja morte não suscitou, nem suscitará nunca, uma só investigação interna das forças invasoras; 12.000 cadáveres ignorados, caídos num massacre que mereceu na Coluna Infame apartes como "mortos civis no Iraque. Como em todas as guerras, as justas e as não-justas." Meros pormenores "estatísticos", coisa de somenos face às imagens que nos mostravam "um povo iraquiano vitorioso, aliviado por ver finalmente a queda de um ditador sanguinário" (santa ingenuidade). Como poderiam esses destroços ensanguentados diminuir a jubilosa certeza de que "estamos do lado certo. Politicamente, moralmente, estar do lado certo é a melhor consolação que se pode ter num conflito militar"?
    O luto, esse era guardado para os militares da coligação: "É essa visão de respeito, de risco, de admiração que me ocorre quando chegam notícias sobre os soldados tombados no Iraque." Os soldados, que os civis iraquianos apenas mereceram destaque quando a RTP ousou mostrar os seus restos mortais, ao som de "uma banda sonora de filme de terror". Patentemente um exercício de "pura pornografia".

    Tudo se torna por fim claro. A esquerda celebrou esfuziante os 3.000 assassinatos do 11 de Setembro. Hoje, a direita continua a merecer o monopólio do luto nesta data. Mesmo que, sistematicamente, persista em fechar os olhos e tapar o nariz, ignorando as hordas - em número para sempre impossível de contabilizar com rigor - de corpos que continuam a apodrecer, nas sepulturas anónimas, nas planícies, nas cidades, nas valas comuns do Iraque. No cérebro afogado em bílis de JPC, isto é óbvio e transparente.
    Pensando bem, a quem assentará que nem uma luva a descrição do "filho da puta nazi sem a humanidade natural que nos distingue dos bichos da selva"?

    Não preciso de afirmar ante ninguém o meu luto pelo 11 de Setembro ou face aos mortos iraquianos sem nome nem direito a memoriais. Não preciso de relembrar o milhar de jovens americanos que morreram numa guerra absurda e fundamentada com mentiras.

    Preciso mesmo é de me indignar com gente que já anda por aí a celebrar este escarro de JPC como "o melhor texto sobre o 11 de Setembro de 2004".
    O ódio cego é uma doença contagiosa; e é por certo a única maleita que parece dar orgulho a quem dela padece.

    Publicado por Luis Rainha às 01:01 PM | Comentários (10)

    NAIFADAS

    naifa.jpg

    Para o caso de não se ver bem no cartaz, aqui ficam os locais dos concertos (e as horas previstas para o começo dos espectáculos):

    Dia 22 – Frágil (Bairro Alto), às 24h00
    Dia 23 – Incrível Club (Almada), às 23h00
    Dia 24 – Teatro da Malaposta (Odivelas), às 22h00
    Dia 25 – Santiago Alquimista (Castelo, Lisboa), às 23h00

    Publicado por José Mário Silva às 12:39 PM | Comentários (6)

    (NOT SO) EARLY MORNING POEM

    [Para o Abrupto, aka JPP]

    O SENTIDO SIMPLES DAS COISAS

    Depois das folhas terem caído, regressamos
    A um sentido simples das coisas. É como se
    Tivéssemos chegado ao fim da imaginação,
    Inanimados num inerte savoir.

    É difícil até escolher o adjectivo
    Para este frio vazio, esta tristeza sem causa.
    A grandiosa estrutura tornou-se numa casa menor.
    Nenhum turbante caminha através dos soalhos degradados.

    A estufa nunca precisou tanto de tinta.
    A chaminé tem cinquenta anos e está inclinada para um lado.
    Falhou um esforço fantástico, uma repetição
    Numa repetitividade de homens e moscas.

    Contundo a ausência da imaginação tinha
    Ela própria de ser imaginada. O lago grandioso,
    O seu sentido simples, sem reflexos, folhas,
    Lama, água como vidro sujo, expressando silêncio.

    De certo tipo, silêncio de um rato saindo para ver,
    O lago grandioso e a sua imensidade de nenúfares, tudo isto
    Tinha de ser imaginado como um conhecimento inevitável,
    Exigido, como uma necessidade exige.

    Wallace Stevens, in «Ficção Suprema» (tradução de Luísa Maria Lucas Queiroz de Campos, Assírio & Alvim, 1991)

    Publicado por José Mário Silva às 11:41 AM | Comentários (3)

    UMA ABRUPTA SURPRESA

    Olha: temos aqui um leitor atento! Quem diria...

    Publicado por Luis Rainha às 11:16 AM | Comentários (6)

    setembro 15, 2004

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (7)

    A Ana escreveu algures por aqui, comentando uma destas minhas frustrações invejosas, que "infelizmente, não somos uma província espanhola..."
    Pois é. Há uns anos, um amigo meu andou a matutar na ideia de lançar uma coisa parecida com o Grupo dos Amigos de Olivença, só que ao contrário: exigindo a integração de Portugal em Espanha, como mais uma Região Autónoma. Pedindo a El Rey que encare aquelas tonterias do D. Afonso Henriques como águas passadas, devaneios juvenis a requerer perdão, não o opróbrio deste desterro de séculos nos fundos da Península.
    Mas tenho por certo que seria esforço embalde; os espanhóis são espertos. Nunca nos aceitariam.

    Publicado por Luis Rainha às 09:50 PM | Comentários (5)

    O FENÓMENO CRISTIANO RONALDO

    E se um dia, de forma subterrânea e sem aviso, um clube de fãs do Cristiano Ronaldo aterrasse no BdE?
    Pois bem, caros leitores, foi precisamente isso que aconteceu. Num post anódino de Junho, escrito durante o Euro 2004, começaram a cair, não sei porquê, dezenas de mensagens sobre o ídolo da selecção portuguesa e do Manchester United. Todas escritas num tom histérico por admiradoras — presumo que adolescentes — do géniozinho madeirense.
    Quem quiser espreitar o interminável thread (já vai em 153 comentários), pode fazê-lo aqui. E olhem que vale a pena, quanto mais não seja para enumerar todas as variações possíveis de um mesmo tema: «Ronaldo és bué de giro, amo-te 4ever e sonho conhecer-te».
    A minha teoria é esta: por um qualquer acaso das buscas aleatórias no Google, juntaram-se ali, naquele cantinho perdido do nosso blogue, todas as inconsoláveis amantes platónicas do Cris (como afectuosamente lhe chamam) que têm acesso à internet. E chega a ser comovente assistir ao estilhaçar dos corações de tantas andreias e déboras, de tantas marisas balbinas e cátias solanges. Por ele, ao que parece, estão dispostas a tudo. Escrevem declarações de amor em português, brasileiro, inglês, francês e dialecto SMS. Oferecem o mail, a morada de casa e o telemóvel, à espera de uma improvável resposta do craque. E até marcam encontros, tanto virtuais como em bares de praia.
    Ainda hoje, ao princípio da tarde, a Debora Superti confessava ao mundo:

    «CRIS, estou loucament apaixonada por ti...
    Gostaria k soubesses k nao sou como mtas mulheres interesseiras, admiro-t mt, adoro as tuas fintas, a tua simpatia, a tua humildade, e a tua boniteza...
    Para mim o amor nao escolhe idades, moro perto do estadio do dragao, gostaria de t conhecer pexoalment, ja t mandei uma carta com a minha foto...
    MTS JINHOS SO PARA TI KIDO...

    PS: Responde pf, para o meu mail»

    É um mundo à parte, garanto-vos.
    Quando passo por ali, curioso de ver até onde chega o bizarro fenómeno, estou sempre à espera de escutar, vinda sei lá de onde, a música da Twilight Zone.

    Publicado por José Mário Silva às 07:36 PM | Comentários (26)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (6)

    Nestes dias que passei em Espanha, desenvolvi uma teoria quase genial para explicar o avanço que aquela malta nos leva em tudo o que é importante, do nível de vida ao aspecto das miúdas.
    A coisa assenta na importância que as palavras indubitavelmente têm. Não é preciso ser semiólogo para acreditar que elas disfrutam de vida e energia próprias, para lá da sua ligação às realidades que descrevem. Mas o Castelhano não soa assim tão diferente do Português; onde estará então o busílis?
    Mui simplesmente, nos nomes das cidades em que vivemos. Habitar um espaço nomeado por sílabas vibrantes, a transpirar vigor e vontade de progresso, só pode mesmo ser factor positivo. Ou prefeririam viver num tugúrio cujo nome é um repositório de vogais sombrias, pronunciadas em dolentes cadências de mau agouro?
    Querem exemplos? Ora vejam: a Seat, fiel às suas origens, baptiza os seus modelos com nomes de cidades espanholas. Assim, temos por aí o "Seat Cordoba", o "Seat Ibiza", o "Seat Toledo", etc, etc. Agora, imaginem a triste figura de tais automóveis, se lhes apusessem denominações baseadas em nomes de cidades lusas. Não estão mesmo a ver as linhas agressivas do desportivo "Seat Figueira da Foz" ou o dinamismo rutilante do familiar "Seat Montijo"?
    Para prova final, vejam bem os riscos que corre quem se atreve a conduzir o único automóvel de nome português de que me lembro, o Opel Sintra. Isto não pode ser coincidência.
    Eis a medida que nos faltava para reduzir o abismo que nos separa do mundo civilizado: modernizar e animar os nomes das nossas urbes.

    Publicado por Luis Rainha às 06:15 PM | Comentários (10)

    DILEMA DA LEGITIMIDADE

    Ao contrário do que é normal no blog em causa, este post não é propaganda básica, mas antes uma questão muito interessante.
    A invasão da reunião autárquica pela deputada muncipal do BE, Alda Macedo parece injustificável, vinda de um partido democrático. É certo que estamos perante um caso dramático, mas até que ponto a legitimidade moral pode ultrapassar a legitimidade das instituições democraticamente eleitas? Afinal, não foi invocando uma alegada legitimidade moral que George W. Bush violou a legitimidade internacional e lançou a Guerra do Iraque?

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:12 PM | Comentários (8)

    A ESCOLA DE BESLAN REABRIU

    Com um minuto de silêncio e uma aula "da memória e da paz".

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:09 PM | Comentários (1)

    NUM JANTAR, EM LISBOA

    Excerto de um diálogo sobre blogues, entre mim e um colega meu, português, num jantar. O diálogo, no entanto, foi travado em inglês por consideração a um outro colega nosso, italiano, sentado na mesma mesa. A ideia principal só é exprimível em inglês.

    - So, you don't usually read weblogs...
    - I don't know many weblogs.
    - You don't even know Pipi?
    - PP? What is that? Ah, Pacheco Pereira?
    - No, no... Pipi!

    Ele não conhecia.

    Publicado por Filipe Moura às 02:55 PM | Comentários (3)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (5)

    Para servir de banda sonora à minha excursão pela Andaluzia, lembrei-me de levar um CD com a "Iberia" de Debussy (e também, confesso, para abafar o previsível chinfrim das seis crianças que transportei no machimbombo alugado para o efeito...).
    Se não conhecem, cliquem aqui que vos ofereço o primeiro andamento, "Par les Rues et les Chemins". (Fabuloso, não acham?)
    Engraçado é que o compositor francês produziu uma peça de inspiração flagrantemente espanhola sem ter gasto em Espanha mais do que umas horas, assistindo a uma tourada em Donostia/San Sebastián. Já vários críticos chamaram a este exercício tão pós-moderno "folclore imaginário"; o compositor Manuel de Falla preferiu dizer que "se ele se serviu de Espanha como inspiração para uma das mais belas partes da sua obra, já pagou tão amplamente a sua dívida que agora é a Espanha que lhe fica devedora".
    Bem. Nada disto bastaria para me deixar frustrado. O pior foi quando comecei a imaginar o que seria uma peça inspirada - à distância da imaginação, ainda para mais - por Portugal.
    Julgo que bastaria acrescentar umas guitarras plangentes e uns quantos gorjeios fadistas a isto para ficarmos com uma boa ideia do resultado.

    Publicado por Luis Rainha às 01:10 PM | Comentários (4)

    PEQUENO DIÁLOGO (LONGE DO PAVILHÃO ATLÂNTICO)

    — Xi, pá. Já me leste isto?
    — O quê?
    — Parece que a Madonna trouxe um camião TIR só para a roupa dela.
    — Não me espanta. Já a música cabe toda num Mini...

    Publicado por José Mário Silva às 12:46 PM | Comentários (2)

    TÃO, TÃO DEMOCRÁTICOS QUE ELES SÃO (II)

    Continuando a viagem pelas delícias da democracia americana:

    «The good news for Nader is that the Florida Divisions of Elections is putting him on the ballot despite a court order not to do so. In the old days, when Mayor Daley stole elections for the Democrats, at least he did it by getting dead people to vote in the dark of night. The Republicans are a lot more brazen. I suspect we haven't heard the last of this story.»

    Ou seja, para quem não foi suficientemente abençoado com conhecimentos da língua inglesa para poder saborear estes acepipes no vernáculo original, a Divisão Eleitoral da Florida decidiu colocar Nader no boletim de voto, apesar de uma decisão judicial em contrário. Noutros tempos, quando o Mayor Daley roubou eleições para os democratas, pelo menos fê-lo levando a votar mortos no escuro da noite. Os republicanos são bastante mais descarados. O autor da página suspeita que ainda se vai ouvir falar mais desta história. Também eu, especialmente se os resultados na Forida voltarem a ser decisivos.
    Democracias perfeitas são assim, cheias de emoção e incertezas... (Jorge Candeias)

    Publicado por José Mário Silva às 12:37 PM | Comentários (5)

    A AUTO-ESTRADA DO FUTURO (SEGUNDO SANTANA LOPES)

    Publicado por José Mário Silva às 12:12 PM | Comentários (4)

    RESPEITAR A TRADIÇÃO E NÃO AS PESSOAS

    Segundo o Jornal de Notícias de hoje:

    Relação do Porto aumenta férias para quatro meses

    O presidente do Tribunal da Relação do Porto assinou um provimento, só aplicável aos juízes desembargadores, que faz aumentar o período de não distribuição de processos considerados não urgentes, de três para quase meses. Invocando a tradição, o magistrado que preside aquele tribunal de segunda instância, alega que a "distribuição vai atingir níveis elevados, a ponto de ser previsível, mais do que provável, que se ultrapassem os valores fixados pelo Conselho Superior da Magistratura".

    Por isso, acrescenta o juiz, "as secções judiciais deixarão de lavrar conclusões e vistos, em todos os processos, excepto os de caráceter urgente, duas semanas antes das férias judiciais de Verão e uma semana antes da Páscoa e do Natal".

    Bem, se é tradição, os tipos presos há quase dois anos em prisão preventiva têm o dever de respeitar.

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:31 AM | Comentários (0)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (4)

    Confesso que já não podia com tanto flamenco. Nas ruas, na rádio, por toda a cidade de Sevilha (onde decorre uma interessante bienal), não havia forma de me furtar àquele berreiro constante.
    Já sentia a falta da minha dose de pop inconsequente. Mas esta carência passou-me depressa. Para me curar, bastaram dois dias de TSF, com a sua play-list - ou "Playlixo" no dizer bem-humorado dos funcionários da casa - repetida até ao vómito, massacrando-nos com hits bolorentos dos cromos mais vetustos do show-business anglo-saxónico: Tina Turner, Rod Stewart, Bee Gees, sei lá. No que toca à música "nacional", os ouvintes da TSF também levam que contar: Represas, Velosos, Joões Pedros Pais, Toranjas e quejandos. Temas que por acaso até são cantados em Português; o que não é bem o mesmo que música portuguesa.
    Acham coisa pouca? Então, tomem lá:
    "Sou um ser que odeias mas que gostas de amar
    Como um barco perdido à deriva no mar
    A vida que levas de novo outra vez
    O mundo que gira sempre a teus pés"
    Depois de ouvir "de novo outra vez" este lindo poema do JPP, o Flamenco non-stop até já nem parece assim tão terrível...

    Publicado por Luis Rainha às 09:30 AM | Comentários (8)

    A GRANDE NOVIDADE: O ANTÓNIO BARRETO ENGANOU-SE (III)

    Após uma enxurrada de artigos de opinião a dizer que se investia demais na educação em Portugal, a verdade. Segundo o recente relatório da OCDE o investimento português na educação está abaixo da média dos países abrangidos e é apenas superior à Turquia, ao México, à Polónia e à Grécia (e estes ao menos ganharam o Europeu).
    Compare-se o investimento por aluno:

    Ensino Básico
    Portugal - 3400 euros
    Média da OCDE - 3921 euros

    Ensino Secundário
    Portugal - 4863 euros
    Média da OCDE - 5445 euros

    Ensino Superior
    Portugal - 4231 euros
    Média da OCDE - 10 000 euros

    Mas, tendo em conta que o António Barreto diz que o Ensino Superior português é "excelente", mais vale tirar mais dinheiro ao Superior e dá-lo ao Básico e Secundário. Afinal, se eles se safam com menos de metade do investimento dos outros países todos...


    Publicado por Jorge Palinhos às 09:21 AM | Comentários (3)

    A CLONAGEM DOS CARECAS

    Segundo este artigo, o número de skinheads racistas americanos duplicou no passado ano e uma organização neonazi, a Aryan Nations, abriu 11 novas sedes nos EUA, havendo um total de mais 43 organizações locais de extrema-direita do que o ano passado.
    Esta subida é atribuída a desconfiança em relação ao Patriot Act e paranóia anti-governamental.
    Seria interessante conhecer qual a situação portuguesa. Pelo menos partido e blogs a dar com um pau já têm.

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:19 AM | Comentários (6)

    BRUNO WALTER

    Há precisamente 128 anos, nascia em Berlim o meu maestro preferido.

    Publicado por José Mário Silva às 09:15 AM | Comentários (0)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (3)

    Ainda bem longe da fronteira, ligo o rádio do automóvel e apanho, roufenho da distância, um noticiário português. Ouço a expressão "o primeiro-ministro, Santana Lopes". Desligo de imediato a engenhoca tagarela, com um indicador ruborizado pela vergonha.

    Publicado por Luis Rainha às 09:10 AM | Comentários (1)

    OS TELHADOS DE VIDRO

    Os Jaquinzinhos, Intermitente e Blasfémia indignam-se com a história de uma família sueca a quem o respectivo Estado só pode dar um aparelho auditivo ao filho surdo.
    Pois, é triste. Pena é que o modelo de estado que estes blogs defendem daria nenhum aparelho auditivo à tal família.

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:09 AM | Comentários (3)

    QUAL "HEGEMONIA DE ESQUERDA"?

    O AAA saúda os blogs como pondo em causa a "hegemonia de esquerda" nos media tradicionais. Aqui está um teste muito simples para ele responder:

    1) A rádio portuguesa mais ouvida é a Renascença que é de ___________.
    2) A televisão portuguesa mais vista é a SIC cujo dono é Francisco Pinto Balsemão, também fundador de um partido de ___________.
    3) O semanário português mais lido é o Expresso que é de ___________.
    4) O diário português normalmente mais lido é o Correio da Manhã que é de ___________.
    5) O director do principal diário de referência português chama-se José Manuel Fernandes e a sua posição política assumida é de __________.
    6) O director do principal rival do Público, o Diário de Notícias, já foi assessor de imprensa de um governo de __________.
    7) A televisão americana mais vista é a Fox News que é de ____________.
    8) O jornal britânico mais lido é o The Sun que é de ___________.
    9) Um programa político radiofónico mais ouvido nos EUA é o de Rush Limbaugh que é de ________.
    10) Uma das principais revista noticiosas do mundo é a The Economist que é de __________.

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:05 AM | Comentários (3)

    setembro 14, 2004

    WAITING FOR WAITS

    No próximo dia 5 de Outubro, é lançado o novo disco do grande Tom Waits, «Real Gone», uma espécie de continuação das experiências começadas em «Alice» e «Blood Money». Os 15 temas prometem um pouco de tudo: blues, sonoridades multi-étnicas (da Jamaica aos ritmos latinos) e algo que Waits define como «funk cubista». Os fãs mais ansiosos podem ouvir um primeiro tema («How's it going to end») no excelente site promocional.

    Publicado por José Mário Silva às 08:57 PM | Comentários (9)

    RUÍNAS CIRCULARES

    «Começo hoje este blog como terapia para o meu recém-adquirido estado de desempregado (há cerca de três horas). São dias sempre árduos, esses em que nos despedimos de alguém. Daí que, para mim, um blog será sempre um reflexo de um estado de melancolia que é, como toda gente sabe e vem nos livros, de todos os estados de alma, o mais produtivo.»
    Assim teve início, a 7 de Setembro, um blogue com nome de conto borgesiano. Quem o escreve é João Pedro da Costa — apreciador de coisas boas, como os Mutts, a música de Jeff Buckley ou a melancolia.
    Que seja bem-vindo.

    Publicado por José Mário Silva às 07:56 PM | Comentários (3)

    FURACÃO AMÁVEL

    Afinal, o Ivan passou ao largo de Cuba e Fidel agradeceu a «atitude amável». Pelo sim, pelo não, aguarda-se que um certo blogger desminta tão comprometedora cortesia.

    Publicado por José Mário Silva às 06:30 PM | Comentários (1)

    MANIA DAS GRANDEZAS

    Há quem prometa sempre mais do que pode cumprir. Santana Lopes, por exemplo. Ou os autoclismos da marca Dilúvio.

    Publicado por José Mário Silva às 05:30 PM | Comentários (9)

    DECLARAÇÃO

    Aos nossos estimados governantes,

    Por minha honra declaro que não tenho a menor intenção de tão cedo voltar ao arquipélago da Madeira. Assim sendo, e tendo em vista o declarado apreço que vos suscita o famoso princípio do "Utilizador/Pagador", venho pedir-vos a restituição da fatia dos meus impostos que se destinaria a subsidiar os delírios do vosso companheiro Alberto João e respectiva camarilha.

    Sem outro assunto de momento,

    Publicado por Luis Rainha às 04:27 PM | Comentários (7)

    O NOSSO MUGABEZINHO

    Alberto João Jardim continua cheio de vontade de liquidar o único grupo económico madeirense que não vai à bola com ele. Assim sendo, os Blandy foram de novo ameaçados: o seu "Diário de Notícias da Madeira" pode bem ser expropriado logo após as eleições regionais, por ser um claro perigo para a "estabilidade política e económica" da região. Isto porque este jornal ousou noticiar, com confirmação da PJ, o envolvimento de madeirenses em sites pedófilos. E o bojudo ogre do Funchal não ficou por aqui: "É melhor a Judiciária estar calada", "em vez de andar a exibir-se em jornais".
    Eis o retrato perfeito do nosso Mugabe insular. Quando algo lhe corre mal, a melhor solução é fechar os jornais e calar os polícias. Desde que ninguém faça ondas, tudo fica no melhor dos mundos.

    Publicado por Luis Rainha às 04:13 PM | Comentários (3)

    ELE VOTA EM GEORGE BUSH

    Luís Delgado, no Diário Digital: a Holanda é "um santuário de ilegalidades" (ligação via Renas e Veados).

    Publicado por Filipe Moura às 03:44 PM | Comentários (1)

    VOOS E REFEIÇÕES

    Desta vez, e ao fim de sete anos de voos regulares para o estrangeiro, pela primeira vez na minha vida voei na TAP. No voo Paris-Lisboa, pela primeira vez na minha vida telefonei para Lisboa a avisar que o voo ia sair com mais de uma hora de atraso. (Mentira, foi a segunda. A primeira foi num voo com a Iberia, aqui há uns anos.) O que valeu foi que o voo ia praticamente vazio. Já o voo de regresso a Paris foi pontual e o pessoal de bordo foi (apesar de o avião vir apinhado) do mais gentil e atencioso com que alguma vez voei.
    Dito isto, devo dizer que não fiquei particularmente impressionado com a companhia. A sandes de atum, num caso, de peru no outro, a garrafinha de vinho e a madalena que me deram não justificam serem chamados "almoço". Eu "almocei" (ou seja, fiquei sem fome), mas porque pedi para repetir a comida, pedido que me foi concedido. Mas isto sou eu, que sou a falta de vergonha em pessoa. Os outros passageiros não almoçaram. Comeram uma sandes.
    Devo aqui explicar que eu não sou nada de luxos e não me importo nada de não me impressionar com o serviço de uma companhia aérea, especialmente em voos de curta duração. Desde que não poupem no principal - a manutenção dos aviões e a segurança dos passageiros -, acho muito bem que as companhias aéreas reduzam gastos supérfluos (e refeições requintadas podem ser assim consideradas, tal como a oferta de jornais e revistas). Acho muito bem, desde que essa poupança se traduza em tarifas mais baratas.
    Ora, não foi isto que eu vi na TAP, tal como não veria na Air France ou noutras companhias aéreas "de bandeira". A tarifa não foi mais barata, e supostamente incluía um almoço por cada viagem. O que me irrita é isto: as tarifas que não estão baratas e, sobretudo, chamarem "almoço" àquelas sandes. Esta atitude das companhias tradicionais é recente; no princípio do ano eu tive direito a uma refeição quente, voando com a Air France, mas sei que agora tal já não acontece também nesta companhia (refiro-me, em todo este texto, a voos de curta duração).
    Por isto, cada vez acho mais honesta a opção da Air Luxor de anunciar, desde o princípio, que a refeição não está incluída na tarifa e que toda a comida a bordo é paga. Esta é a atitude das companhias aéreas de baixo custo, e surge associada a uma atitude que me agrada, de tornar os voos mais democráticos, acessíveis a mais bolsas. As companhias aéreas tradicionais (especialmente em Portugal, dado que somos um povo que viaja pouco) querem manter as refeições com receio de desagradar à sua clientela tradicional, que tem uma ideia elitista de voo, que andar de avião não é para toda a gente, e gosta de mordomias durante o voo. Creio que o futuro dará razão às companhias de baixo custo, e as companhias tradicionais terão de adoptar medidas mais drásticas e mais assumidas, em lugar do compromisso com ligeiro aspecto de vigarice em vigor. E, desde que os pressupostos que referi sejam verificados, estou de acordo e apoio as companhias de baixo custo. Quem quer mordomias que traga farnel de casa ou, se é burguês, que viaje em classe executiva.

    Publicado por Filipe Moura às 03:05 PM | Comentários (6)

    A COISA PROMETE...

    Na Florida, já estão a preparar tudo para mais umas eleições em grande. Ao que parece, o nome de Ralph Nader irá surgir nos boletins eleitorais deste estado, mesmo contra uma ordem de um tribunal. Este dera razão a uma queixa dos Democratas, que alegaram que o partido de Nader não é, de acordo com a lei estadual, um partido nacional. Pouco depois, aproveitando um recurso com efeitos suspensivos, os funcionários do irmão de Bush II invocaram a ameaça do furacão Ivan para desatarem a imprimir boletins sem esperar por mais decisões judiciais incómodas.
    Já tinha ouvido histórias de eleitores-fantasmas; mas um candidato-fantasma é mesmo do coisa do além...

    Publicado por Luis Rainha às 02:59 PM | Comentários (5)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (2)

    Será que os espanhóis são alegres, ruidosos e simpáticos porque a vida lhes corre bem, ou será ao contrário?

    Publicado por Luis Rainha às 02:34 PM | Comentários (4)

    UM PAPEL DE EMBRULHO

    Estreia hoje uma coisa chamada "Ferreirinha – A Rainha do Douro"; ao que parece, mais uma série a sair da pena do abominável Moita Flores.
    Mas olhem que esta produção promete. Só o casting já integra elementos da mais desbragada comédia, como a contratação da decorativa Catarina Furtado para o papel de... Ana Plácido. Com efeito, basta olhar para uma fotografia da volumosa "mulher fatal" de Camilo para notar as óbvias semelhanças e concordar com o acerto da escolha. Não sei ainda que actor irá dar corpo a Camilo; Eddie Murphy parecer-me-ia uma boa e coerente aposta.

    PS: o texto acima não pretende denegrir o talento dramático de Catarina Furtado. Este, a julgar pelas amostras com que já topei em vários filmes nacionais, não pode ser criticado pois nem sequer chega a existir.

    Publicado por Luis Rainha às 01:41 PM | Comentários (5)

    OS AMANTES DOS COMBOIOS

    Não, Bruno, desta vez estás enganado.
    Os comboios são dos filhos mais belos da Revolução Industrial. Por alguma razão é o único meio de transporte que merece o epíteto de "cavalo", por partilhar com este animal a nobreza, a pujança e o erotismo.
    É também o mais metafórico de todos os meios de locomoção, desde o cliché obsceno dos vagões a entrar no túnel, à linha de ferro que atravessa túneis e sobe a montanhas, e cuja mudança para outra linha é sempre uma fase dolorosa de hesitações e solavancos.
    Esqueces-te que os comboios encurtaram regressos e intensificaram correspondências e esqueces-te que despedidas são sentimentos públicos, em que se demonstra aos outros o futuro do sofrimento. Por isso as despedidas só fazem sentido em plataformas de comboios e salas de espera de aviões e nunca na privacidade da garagem particular.
    Se queres responsáveis pela secura do "até à próxima" procura-os nos stands da Renault e da Opel e não nas estações da CP.

    Do fanático de comboios,

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:05 PM | Comentários (2)

    «TU DEVES PENSAR QUE ÉS O PRESIDENTE DA JUNTA, MAS OLHA QUE NÃO ÉS»

    Os ministros melindrados deste Governo já se deixaram de subtilezas retóricas no ataque a Nobre Guedes.

    Publicado por José Mário Silva às 12:43 PM | Comentários (1)

    FRUSTRAÇÕES TURÍSTICAS (1)

    Chegar a uma cidade espanhola numa quarta-feira à tarde e encontrar ruas em ebulição, com cachões de vida, de gente. Entrar em livrarias belíssimas e enormes que não precisam de vender jogos de PlayStation para estarem repletas de clientes (malta que folheia e compra livros, imagine-se!). Fugir do calor para dentro de uma pequena igreja onde se depara, sem aviso, com um enorme Murillo. Passear ao anoitecer por bairros onde magotes de pessoas se aglomeram para celebrar a vida a cada esquina, a cada taberna gordurenta.
    Porque diabos não me acontecem estas ínfimas alegrias em Lisboa?

    Publicado por Luis Rainha às 12:40 PM | Comentários (5)

    SIM, TIO! COM CERTEZA, TIO! POIS NÃO, TIO! COMO QUISER, TIO! (2)

    Há 35 anos, já havia quem entrasse pelas nossas salas adentro para ministrar pequenos sermões sobre famílias e estados. Já então olhando os portugueses "olhos nos olhos" graças aos prodigiosos ofícios do Teleponto, estreado em Portugal - e em regime de religiosa exclusividade - para benefício de Marcello Caetano...

    Publicado por Luis Rainha às 11:57 AM | Comentários (0)

    AS PORTAGENS BAIRRISTAS

    Há uns tempos o jcd riu-se da proposta do BE de discriminar portagens segundo o número de ocupantes do carro. Estou curioso por saber qual a expressão facial do jcd em relação à proposta de Santana Lopes de discriminar portagens consoante a área de residência dos ocupantes do carro.

    P.S. - Não é que eu diga que isso é impossível de ser feito. Pode-se sempre instalar outdoors no tejadilho do carros e afixar fotocópias gigantes da escritura da casa onde vivem os ocupantes do carro. Desde que se eleve o pé-direito das portagens, evidentemente.

    P.P.S. - Isso quererá dizer que quem tem mais casas passa a pagar menos portagens?

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:26 AM | Comentários (3)

    SIM, TIO! COM CERTEZA, TIO! POIS NÃO, TIO! COMO QUISER, TIO!

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:02 AM | Comentários (6)

    TERMINAL

    Vale a pena conhecer a verdadeira história do homem que vive num aeroporto (o Charles de Gaulle, em Paris) e inspirou o mais recente filme de Spielberg. Está aqui.

    Publicado por José Mário Silva às 08:54 AM | Comentários (1)

    setembro 13, 2004

    URGE TRATAR DA SAÚDE AO GOVERNO. ANTES QUE ELE TRATE DA NOSSA

    Primeiro, foi a proposta de introduzir uma dita "discriminação positiva" nos passes sociais. Agora, chegou a vez do nosso martirizado sistema de saúde: subvertendo de forma grotesca a ideia que presidiu à criação das taxas moderadoras (dissuadir o utente de rumar às urgências hospitalares ao primeiro sinal de dor de cabeça) o nosso governo de chicos-espertos decidiu encontrar nelas uma generosa fonte de receitas.
    O plano é simples: quem estiver um pouco acima do limiar de pobreza começará a pagar mais sempre que entrar num hospital público. Quem tem mesmo muito dinheiro continuará a ter o bom gosto de adoecer apenas em hospitais privados, desfrutando das atenções de clínicos bem pagos, em quartos individuais climatizados com muita música ambiente e gravuras do Cargaleiro a rodos.
    Por fim, quem sobrevive com o salário mínimo ou pouco mais continuará a pagar as mesmas taxas moderadoras. E graças a isto já podemos ver o calhau com gel que nos governa proclamar a grande "justiça social" da sua medida, como se estivesse a fazer algo que não roubar quem já está na mó de baixo: os doentes portugueses.
    Santana Lopes "esquece" que quem paga mais impostos já financia o sistema de saúde mais do que a média. "Esquece" que a evasão fiscal continua a ser o passatempo preferido de muitos. "Esquece" que os tais cidadãos com "duas casas, barcos de recreio ou mais de um carro" nunca devem ter visto o interior de um hospital público a não ser nos noticiários da TV.
    O crânio lambuzado do primeiro-ministro deve achar tudo isto genial. E até justifica o injustificável com argumentos como "temos de perseguir quem foge ao fisco" e "se o nosso sistema fiscal fosse perfeito, se quem pagasse impostos não fossem principalmente aqueles que vivem do seu trabalho, aí teríamos as desigualdades corrigidas. Mas como o nosso sistema fiscal não é perfeito, temos de introduzir estas correcções para corrigir as desigualdades". Ou seja: se quem pode fugir foge, há que cobrar mais ainda a quem tem a desdita ou honestidade de pagar. Eis a ideia de "igualdade" que cabriola feliz na cabecita do tonto que nos caiu em cima como uma maldição bíblica.
    Mas que teremos feito para merecer tal fado?

    PS: Pensando bem, se calhar ainda andam por aí alguns doentes com posses que se deixam tentar pelos hospitais públicos quando chega a hora de uma cirurgia mais complicada, talvez por saberem que os médicos que lá trabalham até nem são maus de todo. É preciso obrigar estes recalcitrantes a encher os bolsos aos amigalhaços das clínicas privadas e das companhias de seguros...

    PS2: Hoje de manhã, um jornalista, director de um qualquer jornal económico, respondeu assim a um colega da Sic Notícias, que se lembrara do objectivo constitucional de um serviço de saúde gratuito: "Pois é. Isso é um problema." Pois. A Constituição é um problema; não só para o Governo, mas também para este douto jornalista. Acautela-te, Luís Delgado; já anda por aí gente a puxar melhor o lustre aos sapatitos governamentais do que tu...

    Publicado por Luis Rainha às 05:13 PM | Comentários (17)

    ESTAVA QUASE LÁ

    onze anos a paz no Médio Oriente parecia possível. Hoje, um dos protagonistas do bacalhau "histórico" está morto, outro sitiado no seu quartel-general, toda a região em ruínas e já se fala em "guerra civil".
    Mas durante algum tempo parecia que estava tão próximo.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:50 PM | Comentários (2)

    LOIRA, EU?

    E para celebrar a explosão de estrogénio que vai acontecer hoje em Lisboa aqui fica um teste para determinarem a vossa loirice.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:48 PM | Comentários (2)

    O QUE QUER A AL-QAEDA

    Aproveitando a efeméride do 11 de Setembro queria apontar este excelente artigo de Juan Cole em retrospectiva da guerra com Al-Qaeda. Juan Cole é professor de história contemporânea do Médio Oriente na Universidade de Michigan e um analista relativamente objectivo, ao contrário de Daniel Pipes, cuja popularidade se deve simplesmente ao ódio que demonstra em relação ao Islão (defende que os imigrantes islâmicos nos EUA devem ser automaticamente discriminados e que a solução do problema israelo-árabe é o esmagamento total dos palestinianos).

    For al-Qaeda to succeed, it must overthrow the individual nation-states in the Middle East, most of them colonial creations, and unite them into a single, pan-Islamic state. But Ayman al-Zawahiri's organization, al-Jihad al-Islami, had tried very hard to overthrow the Egyptian state, and was always checked. Al-Zawahiri thought it was because of US backing for Egypt. They believed that the US also keeps Israel dominant in the Levant, and backs Saudi Arabia's royal family.

    Al-Zawahiri then hit upon the idea of attacking the "far enemy" first. That is, since the United States was propping up the governments of Egypt, Israel, Jordan, Saudi Arabia, etc., all of which al-Qaeda wanted to overthrow so as to meld them into a single, Islamic super-state, then it would hit the United States first.


    Publicado por Jorge Palinhos às 01:16 PM | Comentários (3)

    O GOEBBELS DA PARÓQUIA

    Após vários anos dedicados à causa pública, eis que um dos mais citados colunistas na blogosfera vê o seu mérito reconhecido. Luís Delgado, após uma temporada à frente da única agência noticiosa do país, vai passar agora a administrar um dos principais consórcios nacionais de informação e entretenimento: a Lusomundo Media, detentora de cinemas, do DN, do JN, da TSF, do Jornal do Fundão, etc., e propriedade da Portugal Telecom, de quem um dos mais influentes accionistas é o Estado Português.
    Certamente, Luís Delgado não deixará de incentivar a qualidade da informação destes órgãos de comunicação através do conselho editorial único para todo o grupo, que definirá as políticas editoriais de todos estes órgãos. Políticas essas que, indubitavelmente, serão assentes na isenção e na imparcialidade.
    Falando de grupos económicos, soube-se que o governo português pretende alterar a Lei da Imprensa, responsabilizando o jornalista em caso de violações do segredo de justiça. Esta alteração deverá ser estudada por uma comissão presidida por Francisco Pinto Balsemão, presidente da Impresa, o outro grande grupo de media português, através do qual foi conhecido o escândalo Casa Pia.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:00 PM | Comentários (4)

    setembro 12, 2004

    ELES SÃO TÃO DEMOCRÁTICOS, NÃO SÃO?

    Estaremos nas vésperas da maior fraude eleitoral da história? Este bocadinho de prosa (encontrado aqui) não deixa de ser extremamente inquietante:

    «Now some voting machine news. The state of California has decided to sue Diebold, the nation's largest manufacturer of electronic (touch screen) voting machines because the company lied about the machines' security. The machines have a special feature that creates fake vote totals when a secret 2-digit code is typed in. The LA Times article about the lawsuit does not specify whether there are separate codes to fake a Bush victory and fake a Kerry victory or whether one candidate's victory has been programmed in advance or whether election officials can enter any result they want. However, Diebold's CEO, Walden O'Dell, has said he was "committed to helping Ohio deliver its electoral votes for the president." The suit comes 6 months after the machines failed in the March primary. The machines are used in 19 California counties and many states nationwide.»

    Traduzindo, o estado da Califórnia decidiu processar a Diebold, o maior fabricante americano de máquinas de voto electrónicas (por ecrã sensível ao toque) porque a empresa mentiu quanto à segurança das máquinas. As máquinas têm uma característica especial que gera totais de votos falsos quando um código secreto de 2 dígitos é introduzido. O artigo do LA Times sobre o processo não especifica se existem códigos separados para falsificar uma vitória de Bush ou de Kerry, se a vitória de um dos candidatos foi programada de antemão, ou se os controladores eleitorais podem introduzir o resultado que desejarem. No entanto, o CEO da Diebold, Walden O'Dell, disse que está "determinado a ajudar Ohio a entregar os seus votos eleitorais ao presidente". O processo chega seis meses depois do falhanço das máquinas nas primárias de Março. As máquinas são usadas em 19 condados da Califórnia e em muitos outros estados.

    A democracia americana nunca deixa de me surpreender... (Jorge Candeias)

    Publicado por José Mário Silva às 08:14 PM | Comentários (2)

    PARA DIZER TUDO NUMA FRASE

    Desculpem lá, bloggers de direita, mas a dor do 11/9 não é só vossa (não é mesmo).

    Publicado por José Mário Silva às 08:07 PM | Comentários (0)

    setembro 11, 2004

    GROUND ZERO

    Há três anos, eu vi aquilo tudo de boca aberta: os aviões, as chamas, os corpos caindo a pique, a derrocada das torres, a cinza branca por todo o lado (até nos meus pulmões), o horror absoluto. Sim, o ground zero. Sim, o grau zero. Lembrei-me de Umberto Eco (e de outros teóricos da Literatura): «the suspension of disbelief». Só que aquela Nova Iorque, infelizmente, não era ficção.
    Três anos depois, a cinza branca não assentou. O mundo não está mais claro nem menos perigoso. Ainda estamos dentro daquilo tudo. Continua o estado de suspensão. E a descrença.

    Publicado por José Mário Silva às 09:20 PM | Comentários (0)

    3 ANOS

    Hoje é o terceiro aniversário do dia 11 de Setembro de 2001, provavelmente o único dia de que quase toda a gente do mundo se recorda onde estava, o que fazia e o que sentia.

    No mundo terá havido outras catástrofes mais mortíferas e horrorosas, mas nenhuma foi sentida vertiginosamente por tanta gente ao mesmo tempo. Tal deveu-se aos media, mas também ao poder estético do próprio atentado: a precisão, a eficiência, o choque dos aviões contra as torres como se fosse um castigo divino (veja-se a carta de tarot em cima) tornou-o um acto impensável de ser humano, mas antes quase sobrenatural.

    A carta do Tarot que reproduzo aqui em cima é muito interessante: não só contém quase todos os elementos que recordamos da tragédia, mas também porque a torre que se vê é chamada maison-Dieu, a casa de Deus. O Deus desta casa poderá ser o Deus-dinheiro ou o Deus fanático de Bush, mas eu identifico-o antes com o Deus panteísta de Espinoza, que se iguala ao universo e a toda a diversidade que contém. Nova Iorque é a cidade mais cosmopolita e tolerante do mundo, a torre de Babel dos dias de hoje. Quem a feriu desejava a divisão, o caos, o ódio e a incompreensão mútua. Consegui-lo será a sua vitória. Cabe-nos tentar que isso não aconteça e para isso contamos com um património mais precioso que todos: a memória visual.

    Um dos momentos que gostei no Fahrenheit 9/11 passa-se no início, quando Moore rememora este dia, não agredindo-nos com imagens dos aviões a chocar contra as torres, mas mostrando as expressões de horror dos nova-iorquinos que assistiam impotentes à tragédia. Eu, como vocês, não sei nem imagino o que passava pela cabeça das pessoas dentro das torres, mas sei perfeitamente o que sentiam as pessoas que estavam de fora e olhavam. E é isso que nos une. Os homens não se juntam sob nações ou ideologias, mas sob imagens mentais comuns. As vítimas do 11 de Setembro de 2001 foram sacrifícios inocentes de um desígnio tenebroso. A única forma de homenagear a sua morte é tornando-as símbolos da cultura global que desejamos.

    Publicado por Jorge Palinhos às 04:36 PM | Comentários (4)

    1 ANO

    Entããããããããããõoooooo?
    O melhor blogue de Portugal atinge a maioridade (em blog-years) e nenhum dos 11 elementos deste blogue diz nada?
    Tenho de ser eu, com os meus 7 compromissos, 3 problemas de saúde, 5 prazos ultrapassados, 1 crise de nervos e 1 dor de cabeça que vale por 2, a fazer as honras da casa?
    Pronto, está bem,cá vai:

    Redacção: Porque é que eu gosto do Barnabé

    O Barnabé é bonito. O Barnabé é simpático. O Barnabé dá-nos o leite quentinho para bebermos todos os dias e ficarmos crescidos. O Barnabé é feito por cinco senhores muito inteligentes. Um senhor é o Daniel, que diz coisas giras quando são precisas. Outro senhor é o Rui, que nos explica muita coisa. Há ainda um senhor chamado Pedro, que é tão descansado e bondoso que eu acho que deve ser um velhinho sorridente de grandes barbas, ao lume com um netinho ao colo. Depois há o senhor André que nos conta coisas que não sabíamos e que aconteceram no passado. O senhor Celso fala-nos de música que não conhecíamos de maneira diferente da dos senhores que fazem a Y, que às vezes parece que cheiram gás hilariante.
    Eu vejo todos os dias o Barnabé. O Barnabé é engraçado. O Barnabé faz bem à saúde. Eu quero que o Barnabé viva muito tempo.
    Eu gosto do Barnabé.

    Publicado por Jorge Palinhos às 12:10 PM | Comentários (11)

    setembro 10, 2004

    A VÉSPERA


    Cartoon de Sandy Huffaker, Cagle Cartoons

    Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (2)

    ESTETIZAÇÃO DO HORROR

    A propósito de Beslan e da forma como as televisões encheram de música as imagens terríveis do massacre, António Pinho Vargas escreveu, no «Público» do passado domingo, um texto importante que não tive, na altura, tempo de linkar. Leiam-no, mesmo se um pouco a destempo, aqui.
    Excerto:
    «Escrevo e é-me insuportável o que escrevo. Tento descrever o que vi e ouvi mas a minha descrição ofende-me. O resumo que estetiza o horror desloca-se do simples registo noticioso para o do videoclip da catástrofe. Lembrei-me de um amigo me ter dito que, na guerra de Angola, a coisa mais estranha para ele era a guerra verdadeira não ter música de fundo. Esta falha grave da realidade estará em parte já resolvida com a possibilidade do uso de auscultadores dentro dos capacetes; como, no filme do Moore, o daquele piloto do tanque americano no Iraque que, em plena acção, está a ouvir um rock adequado: "Let them burn". Nada me garante que os membros da Al-Qaeda, na sua mistura peculiar de fundamentalismo pré-moderno e sofisticação tecnológica, não usem Portable CD Players com os mesmos objectivos.
    Que audio-mundo é este que estamos a fazer?»

    Publicado por José Mário Silva às 07:53 PM | Comentários (3)

    O CLIMA QUE CRIA OS FACTOS

    Já que falei disso, embora não me apetecesse, deixo aqui uns excertos deste artigo muito interessante do Libération sobre a recrudescência do anti-semitismo em França:

    Para os primeiros sete meses do ano o ministério do Interior contabilizou 160 «acções vioentas de carácter anti-semita» (contra 75 no mesmo período do ano anterior): 11 são atribuídos à extrema-direita, 50 provocados por «indivíduos de origem arábico-muçulmana», mas os mais numerosos (99) devem-se a "motivações diversas".(...)

    Wieviorka chama a atenção para a relativa desproporção entre eventos e clima. Há um clima mediático em que a questão do anti-semitismo se tornou central. Mas não se pode falar em França de discriminação contra os judeus (...). O mundo político e mediático precisa de eventos e a sua reflexão assenta "nesses eventos e não no ambiente".
    (...)
    O anti-semitismo implica a exlusão de uma comunidade, mas hoje é também reflexo de exclusão (social e afectiva) do indivíduo.
    Não existem movimentos anti-semitas organizados nem da extrema-direita, nem do extremismo islâmico, nem de franjas da extrema-esquerda. Existem é indivíduos e pequenos grupos ocasionais que desencadeiam eventos, incentivados pelo clima mediático. (...)

    São gestos isolados, de seres isolados em busca de uma identidade e a quem a televisão diz que para serem alguém é preciso que saiam do anonimato. (...)

    O novo rosto do anti-semitismo nasce de uma sociedade onde o indivíduo está perdido na solidão, sem valores (políticos, sociais, familiares ou afectivos) e para quem o anti-semitismo não é um objectivo ou mesmo uma convicção, mas a expressão de um problema de identidade e uma forma de sair do anonimato.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:28 PM | Comentários (8)

    BLAUFUKS & COLOMBO

    São dois artistas portugueses, muito idiossincráticos e francamente bons naquilo que fazem. Visitem, s.f.f., os (magníficos) sites do Daniel Blaufuks e do Jorge Colombo. Vão ver que não se arrependem.

    Publicado por José Mário Silva às 01:20 PM | Comentários (6)

    GREAT MINDS?

    Estou verdadeiramente atónito: o Pedro Mexia publicou um comentário ao Shylock de Shakespeare quase idêntico a uma resposta que dei uma vez num exame! Juro. Até posso ir pedir o dito à minha antiga professora.
    Não é que eu me recorde de todas respostas que dei em exames, mas esta ficou-me na memória pois não só me permitiu defender a minha personagem favorita de uma peça de outro modo bastante enfadonha, The Merchant of Venice, como na altura fiquei todo orgulhoso da resposta por a achar muito original e ter saído todinha da minha cabeça. É certo que não me lembrei dessa da "lógica da vítima", mas só tinha 20 anos e 45 minutos para responder à pergunta, pelo que não me podia dar ao luxo de pormenorizações sofisticadas.
    Por outro lado, será que o não me ter lembrado disso me torna um antisemita (sic) mais light que o Pedro Mexia? Serei um antisemita (sic) diet? E porque não um antisemita (sic) kids?

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:13 PM | Comentários (1)

    DEPOIS DO CAOS... O CAOS?


    Cartoon de Mike Keefe, «The Denver Post»

    Publicado por José Mário Silva às 11:38 AM | Comentários (0)

    setembro 09, 2004

    FRANÇA-0; ISRAEL-0

    No passado sábado, inesperadamente, a fortíssima selecção dos bleus empatou a zero com a modesta equipa de Israel, numa partida do grupo 4 de acesso ao próximo Campeonato do Mundo de Futebol.
    Uffff. Acho que todos suspirámos de alívio. Pelo menos desta vez, o MacGuffin e a Ana Albergaria não se podem queixar do anti-semitismo dos franceses.

    [Atenção, leitores precipitados: isto é uma piada. Uma p-i-a-d-a. Só isso, apenas isso, nada mais do que isso. E já agora, MacGuffin, o link da coluna da direita já está implacavel e subrepticiamente operacional...]

    Publicado por José Mário Silva às 05:31 PM | Comentários (6)

    BORBOLETA NOCTURNA

    «— Pai, olha, estou a fazer este desenho para ti.
    A pequena mão de Yahya passeia um lápis por uma folha de papel escuro.
    — Que estás a desenhar?
    — Uma borboleta nocturna.
    — Onde é que ela está?
    — Não se vê, é noite.»

    Atiq Rahimi, escritor afegão radicado em França, em «As Mil Casas do Sonho e do Terror» (Teorema)

    A minha recensão crítica ao livro pode ser lida aqui.

    Publicado por José Mário Silva às 05:17 PM | Comentários (5)

    HUMOR NO COLOMBO

    É já daqui a nada. Na FNAC do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, os quatro mosqueteiros do melhor blogue humorístico nacional (Gato Fedorento) vão fazer a apresentação, para quem os queira ouvir, do filme «A Vida de Brian» — verdadeira obra-prima dessa outra trupe engraçadota que eram os Monty Python. O parlapié começa às 18h30; o filme às 18h50. Quer isto dizer que os primeiros vinte minutos não são facultativos.

    Publicado por José Mário Silva às 04:47 PM | Comentários (3)

    O REGRESSO DA ESQUERDA LEFT

    Pois é, a esquerda LEFT está aí para durar.
    Ainda não sou eu que estou de regresso a tempo inteiro. Encontro-me na escola que viu crescer a esquerda LEFT, no mesmo edifício, em mais uma conferência. O chamado turismo científico, como lhe chamava um professor da LEFT. Neste caso não é bem turismo, pois vai manter-me bem ocupado por esta semana, antes do regresso à Cidade Luz.
    Refiro-me a este blogue, que tive a honra de fundar e a que tive o prazer de pertencer durante quatro ou cinco meses, com alguns dos meus amigos. O ritmo de publicação dos outros membros nem sempre foi muito elevado, e nunca eles prometeram que o fosse, mas vale sempre a pena ler. Especialmente agora, após as férias de verão: o Rui parece ter voltado cheio de ganas, como se diz lá em Espanha, onde ele vive. E é vê-lo a escrever sobre o aborto em Portugal, sobre as eleições americanas, sobre Michael Moore, sobre Israel e a Palestina, sobre o Sudão, sobre Almodóvar e João César Monteiro, sobre Lula... O Rui, sendo de nacionalidade portuguesa, é um cidadão do mundo lusófono e hispânico. Escreve numa língua que por vezes oscila entre o portunhol (vive em Espanha) e o português do Brasil (onde passou a maior parte da sua vida, antes de nos conhecermos).
    Talvez devido a estas suas experiências de vida, o Rui tem uma perspectiva original, muito sua, sobre muitos aspectos, e consegue abordá-los de uma forma "multidireccional", que é sempre interessante de ler. Esperemos que as ganas do Rui se mantenham, e que a ele se juntem o Nuno (que ultimamente só tem escrito sobre jazz), o André (que nos vai dando o prazer de comentar aqui de vez em quando) e o desaparecido Guilherme. Vão passando por lá.
    Mas a presença da LEFT na blogosfera não se resume a mim e aos Estrangeiros no Momento. Entre outros blogues com alunos da LEFT, destaco agora o Diário de uns Ateus, onde participa o nosso frequente comentador e leftista Ricardo Alves. O Ricardo tem andado ocupado com actividades interessantes, que têm sido relatadas neste sempre atento blogue.

    Publicado por Filipe Moura às 01:47 PM | Comentários (3)

    EUFORISMO

    Na rua das casas decimais, a mercearia fica no n.º 0,6 e o merceeiro só gosta de arredondar para cima.

    Publicado por José Mário Silva às 01:31 PM | Comentários (1)

    O MULTIBANCO DIZ: ABAIXO O CAPITALISMO

    Já se perguntaram porque ri o boneco do Multibanco?
    Acham que ri de contentamento por vos dar dinheiro?
    Mas o dinheiro que vos dá é vosso e estão a levantá-lo para ficarem sem ele. Para o gastarem a pagar contas a que não podem escapar e a comprar supérfluos - coisas que destroem o ambiente, fazem cair os dentes, estragam a pele, aumentam o volume da barriga, perdem o valor no momento em que são compradas, roubam espaço na casa ou de que se aborrecem três dias depois de terem sido compradas. Façam uma lista e vejam quanto do que compraram com o dinheiro do multibanco é mesmo essencial.
    O riso do boneco do multibanco, se repararem, é um riso de olhos, boca e língua, sem rugas nem covinhas; o mesmo riso que o burlão oferece à sua vítima.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:03 PM | Comentários (6)

    UMA UTILIDADE PARA O PACMAN

    Cientistas britânicos imploram aos militantes do PSD, que se transferiram do PS nos últimos dois anos, para não se aproximarem deste novo robot sob risco de acontecer um horrível acidente.

    Publicado por Jorge Palinhos às 09:01 AM | Comentários (0)

    O FILHO E O TINO

    Espero bem que esta notícia seja falsa. Detestava que fosse preciso prescindir dos encantadores pequerruchos só para nos livrarmos dos eleitores do PSD.

    Publicado por Jorge Palinhos às 08:50 AM | Comentários (7)

    setembro 08, 2004

    4-3-3 (+1)

    Está prestes a começar o segundo jogo da selecção portuguesa de futebol, no grupo 3 de qualificação para o próximo Campeonato do Mundo, na Alemanha. Como de costume, Scolari aposta tacticamente no 4-3-3: Ricardo, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Jorge Andrade, Rui Jorge, Costinha, Maniche, Deco, Cristiano Ronaldo, Simão Sabrosa e Pauleta.
    No entanto, se as circunstâncias o justificarem, este sistema pode ser alterado para um 4-4-2 (com a entrada de Hélder Postiga). Em desespero de causa, se o empate a zero subsistir a meio da segunda parte, Felipão terá de recorrer mais uma vez à arma secreta. Uma jovem estudante de Tallinn em topless, claro.

    Publicado por José Mário Silva às 09:12 PM | Comentários (2)

    PARABÉNS, DAVID

    Há precisamente 500 anos, a 8 de Setembro de 1504, era revelado aos olhos mortais dos florentinos uma das mais espantosas obras-primas de Michelangelo Buonarroti. Esta que vedes acima.
    Hoje, após sucessivos restauros (e respectivas polémicas), o gigantesco David de mármore continua a ser uma escultura impressionante e um arquétipo de beleza masculina, apesar do que dele diz o fisioterapeuta Alan Herdman. Segundo este especialista, a posição corporal do tomba-Golias é tudo menos correcta. O mais certo é que sofresse de dores nas costas. Já para não falar de uma evidente fragilidade nas ancas e nos tornozelos...

    Publicado por José Mário Silva às 08:18 PM | Comentários (3)

    AVENTURAS DA RAPOSA DIALÉCTICA

    Depois de uma noite de copos, a raposa foi apanhada na Marginal por uma patrulha da Brigada de Trânsito. Soprou no balão: 1,8 gramas. O agente nem queria acreditar: «A menina andou a abusar da vodca, não andou?» E ela, um olho aberto e outro fechado, com a língua a enrolar-se: «Vod-ca? Mas quais vod-ca? Ele foi vod-ca, ele foi vinho verde, ele foi amêndoa amarga, ele foi Mateus Rosé, ele foi SuperBock Green, ele foi 1920 [lê-se «mil nove e vinte»], ele foi Cutty Sark, ele foi tudo, senhor agente, ele foi tudo». Lá para trás, de Cascais a Carcavelos, somavam-se os toques nos rails, as inversões de marcha sem visibilidade, as ultrapassagens a pisar o traço contínuo, uma ameaça de choque frontal.
    «Porquê? Podes dizer-me porquê?», perguntei-lhe na manhã seguinte, à saída da esquadra. Ela, óculos escuros e cara de Guronsan, encolheu os ombros. «Só queria saber o que é isso de ser português, pá, essa coisa da identidade nacional.»
    De regresso a Lisboa, fui eu que guiei. E ela, à pendura, pelo sim pelo não, até pôs o cinto.

    Publicado por José Mário Silva às 06:25 PM | Comentários (1)

    TEMPOS DE HIPÉRBOLE II

    Daniel Pipes, o mais exaltado estudioso do Médio Oriente, queixa-se do facto de os media não costumarem utilizar a palavra terroristas. O problema, explica ele no fim do artigo, não é que as designações utilizadas estejam incorrectas, mas antes por "insular o público do mal do terrorismo".
    É, pois, a primeira vez que vejo alguém criticar os meios de comunicação por serem insuficientemente histéricos e alarmistas.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:47 PM | Comentários (6)

    TEMPOS DE HIPÉRBOLE

    "Parlamento adere à moda dos blogues", diz-nos o popular matutino em título, só para imediatamente a seguir explicar que "ao todo o parlamento dispõe de três blogues" mantidos por três dos 230 deputados.
    Agora também me apetece dizer que Portugal "aderiu em força" ao Em busca do tempo perdido. Eu pelo menos conheço uma pessoa que anda a ler.

    Publicado por Jorge Palinhos às 01:45 PM | Comentários (2)

    O REGRESSO E A PAGINAÇÃO

    O alegado jornalista António Ribeiro Ferreira, um dos poucos apoiantes explícitos de Ariel Sharon na imprensa europeia, voltou ontem a assinar uma coluna de opinião no "Diário de Notícias". O texto está indisponível na rede - parece que a opinião deixou de fazer parte da edição electrónica no DN. Mas espero que os textos de ARF voltem a estar na rede depressa. Ter ARF como articulista é como ter Santana Lopes como primeiro ministro, como notou o RAP: os textos para o blogue escrevem-se sozinhos.
    Neste seu regresso, com o seu estilo inconfundível, ARF cometeu a proeza de relegar as "Linhas Direitas" de Luís Delgado para a direita... da página esquerda do jornal! A posição natural das "Linhas Direitas", a direita da página direita, foi para ARF. Não se faz. A meu ver, o DN deveria manter Luís Delgado na página direita e fazer uma página especial, mais larga, para a opinião de António Ribeiro Ferreira, que deveria ser colocada à direita de Delgado.

    Publicado por Filipe Moura às 12:34 PM | Comentários (10)

    ESCOLA DO HORROR

    Publicado por José Mário Silva às 12:27 PM | Comentários (0)

    O NÚMERO REDONDO

    Mil. Repito: 1000. É o número de baixas americanas no Iraque, mais de um ano após a famosa visita de Bush ao porta-aviões, para cantar vitória e vangloriar-se da «missão cumprida». Entalados entre duas fúrias (a dos sunitas e a dos xiitas), perdidos no caos de um país à deriva, os sobrinhos do Tio Sam vão continuar a cair, uns atrás dos outros, durante muito tempo, dando corpo a uma tragédia inglória. Enquanto isso, em Washington, o principal responsável por este desperdício de vidas sorri, feliz da vida, com a perspectiva de ser reeleito Presidente, quiçá sem precisar da ajuda do irmão Jeb e do Supremo Tribunal.

    Publicado por José Mário Silva às 11:42 AM | Comentários (14)

    3248

    Segundo o sistema de estatísticas do weblog.com.pt, registámos ontem 3248 visitas, um valor absolutamente record para o BdE. Descontando o exagero (este pico não bate certo com os valores do SiteMeter para o mesmo período), é óbvio que nos congratulamos com o feito e com a reiterada fidelidade dos nossos leitores. Mais do que estratosféricas, as nossas visitas de ontem foram barnabianas. E melhor do que isso não pode haver.

    Publicado por José Mário Silva às 11:22 AM | Comentários (6)

    setembro 07, 2004

    A NATUREZA DO MAL

    Ainda giram na minha cabeça, demasiado nítidas e cruéis, as imagens das crianças massacradas na escola de Beslan.
    Há ali qualquer coisa de que não consigo aproximar-me. Uma espessura do horror. Um fogo que repele a racionalidade e me deixa incapaz do exercício mais necessário (o da lucidez).
    É fácil chamar nomes aos criminosos que dispararam contra crianças, pelas costas. É fácil descarregar a raiva nesses homens capazes das maiores perfídias sobre quem não se podia defender, sobre quem não podia arcar com nenhuma "culpa", fosse ela qual fosse. É fácil vituperar as autoridades russas (e Putin, atrás e acima delas) pela forma trágica como, mais uma vez, não souberam lidar com uma situação extrema. É fácil sermos demagógicos e radicais perante o que não compreendemos, porque é incompreensível.
    Mas no intervalo da comoção e do choque, convinha que alguém nos ajudasse a descer à terra. Convinha tentarmos perceber onde crescem as raízes de tanto ódio. E isso, infelizmente, é que não é fácil.
    Por isso, tenho que tirar o chapéu ao Luís, autor de um dos melhores blogues portugueses que conheço. Com coragem, atrevendo-se a pensar para além do imediato e do óbvio, escreveu hoje este texto:

    ACTUALIDADE DE SAMUEL
    No Colégio sequestrado na Ossétia, quando uma das mães começou a chorar, um dos terroristas disse-lhe: É a tua vez de chorar, que as nossas mães não param de o fazer. Isto, e mais do que isto, ouviu uma testemunha. Não foi dito em árabe. Foi em russo, com forte dialecto do Cáucaso. Quem o disse foi um homem com idade para ser um homem novo, como Putin. Talvez isto que conto horrorize alguns. Está escrito no livro de Samuel:
    “Depois Samuel disse: ‘Trazei-me Agag o rei dos Amalecitas’. Agag aproximou-se a tremer e disse: ‘É a hora amarga da morte’. Samuel disse-lhe:’ Assim como a tua espada deixou muitas mães sem filhos, também a tua mãe ficará entre elas sem o seu filho’. E Samuel degolou Agag diante de Javé, em Guilgal.”
    A religião para quem este livro é sagrado viria a tornar-se a ideologia oficial do Império, a encerrar, por pagã, a Academia de Platão, a pôr fim aos Jogos Olímpicos e a assinar momentos históricos grandiosos como as Cruzadas e a Inquisição. *
    Hoje os cristãos do Ocidente lêem o livro de Samuel contextualizado (ah, mas nem todos e menos do que julgamos). Os filhos dos homem novos das antigas repúblicas socialistas soviéticas do Cáucaso, põem a roupa interior a secar nos canos ainda quentes dos canhões dos exércitos de Putin ou fuzilam crianças pelas costas nas Escolas, ou fazem-se explodir nos teatros da sede do Império, em nome da actualidade de Samuel.

    *Cf O Significado das Coisas, A. C. Grayling, Gradiva, Filosofia Aberta, Outubro de 2002

    Publicado por José Mário Silva às 08:22 PM | Comentários (4)

    A GRANDE NOVIDADE: O ANTÓNIO BARRETO ENGANOU-SE

    Um estudo sobre o sistema escolar francês revela que os conhecimentos dos alunos têm vindo a aumentar consideravelmente desde o último estudo do género (realizado há vinte anos). Pelo que se deduz que os métodos pedagógicos "de esquerda" franceses (que se tem tentado transpor para Portugal) têm vindo a revelar-se eficazes.
    O problema é a crescente segregação social e sexual de escolas, com os alunos "brancos e ricos" a frequentarem os melhores estabelecimentos e os "escuros e pobres" confinados aos piores, as raparigas empurradas para os cursos de humanidades e os rapazes levados para os cursos mais inovadores, como ciências exactas, engenharia e informática.

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:33 PM | Comentários (6)

    SINAIS DE TRÂNSITO

    Neste blogue, não é só o Código da Estrada que se reinventa. É tudo (e ainda bem).

    Publicado por José Mário Silva às 06:33 PM | Comentários (0)

    O PREÇO DOS LIVROS

    244 euros sem os cêntimos foi quanto vi perfazer o total dos livros escolares encomendados por um aluno de um estabelecimento público de Lisboa.
    244 euros sem os cêntimos, sem a mochila, sem os lápis de cor, a borracha, o afia, o resto do recheio do estojo, os ténis para educação física e o casaco (porque o do ano passado já não serve).
    244 euros sem os cêntimos e descontando os quilos que a empregada da livraria a custo trouxe até ao balcão.
    244 euros sem os cêntimos, porque todos os livros subiram de preço desde o ano passado, explicava, quase envergonhada, a rapariga enquanto arrendondava para cima a conta que nunca foi magra.

    Publicado por Margarida Ferra às 05:55 PM | Comentários (15)

    DISPERSAS (5)

    «Todavia, a organização cultural e social da autoridade política e da propria autoridade filosófica (quem e como se define a realidade), nas sociedades árabes está cada vez mais nas mãos de extremistas». De um comentário do Kim aos posts "dispersos" abaixo.
    Posso enganar-me mas parece-me que, por muito que o fundamentalismo seja hoje a força aparentemente dominante nas sociedades árabes, são patentes os pequenos passos que pouco a pouco se vão dando para a emancipação da mulher; discerniveis até, ao contrário do que elas próprias possam pensar, nas manifestações das jovens ansiosas por exercerem o direito de usar o véu, evidentes por exemplo nas taxas de fertilidade decrescentes, na adopção de vestuário ocidental sob os véus, as burkhas ou os tchadors.
    Os árabes, para além de outros aspectos "subjectivos", querem o mesmo que nós: melhor nível de vida.
    Se por um momento histórico fosse possível ao "ocidente" não afrontar a sensibilidade da "rua árabe" e concentrar-se nas trocas culturais e comerciais, deixando fluir os aspectos positivos da globalização, em vez de conquistas, guerras preventivas e embargos ou palhaçadas de construção de democracias artificiais, suspeito que não subsistiriam em breve muitos Ayatollahs a pregar fora das mesquitas.

    Publicado por tchernignobyl às 12:24 AM | Comentários (7)

    setembro 06, 2004

    DISPERSAS (4)

    A minha ignorância não me permite compreender as razões dos conflitos no Caúcaso.
    Talvez se passe aí algo de idêntico com os Balcãs.
    Teremos talvez de reler o «Imperium» do Ryszard Kapuscinski (ou ele teria de fazer uma edição actualizada, à luz dos últimos desenvolvimentos), o «Black Sea» do Neal Ascherson, para aflorarmos essa questão.
    Falta-nos o Artyom Borovik para nos situar no âmago do teatro de guerra mas a sua aptidão para a reportagem nessas situações limite apressou certamente a sua retirada forçada e definitiva de cena.
    Zonas montanhosas, zonas de passagem e de fronteira entre impérios que nos seus fluxos e refluxos vão deixando marcas que ao invés de se fundirem mantêm, através dos séculos, com uma obstinação dificil de percebermos, as suas idiossincracias, os seus ódios rivalidades e fidelidades ampliadas pelo ambiente fechado das lealdades de clã.
    O que é certo é que o confronto entre o poder russo e povos com tradições de combate, islamizados e apoiados alegadamente pela AlQaeda (é a teoria oficial, alguém sabe a verdade?) têm resultado numa mistura explosiva que de crime em crime, de escalada em escalada, levou à monstruosidade a que assistimos na passada semana.

    Muito provisoriamente pode concluir-se que a Rússia, urso ferido em perda de prestígio internacional, acossado nas suas próprias traseiras pelo arqui-inimigo americano, vivendo um período pós-comunista em que a hipótese de liberalização, no sentido da construção de um Estado democrático, se gorou em favor de um arremedo de “liberalização pura”, em que acabou por prevalecer, como seria de esperar, a transformação do pesado Estado soviético numa estrutura “leve” quanto aos aspectos sociais e dos direitos dos cidadãos, mas vivendo uma atmosfera pesada resultante do equilíbrio do terror entre as várias “famílias” de mafias, tem aplicado sem pejo nem constrangimentos ao longo de uma década a estratégia irredutível dos “centuriões”, com resultados que se tornam de dia para dia mais evidentes: um fracasso terrível.
    Pode admitir-se que contra assassinos do calibre de um Bassaev não há grandes alternativas senão combatê-los. Mas será possível fazê-lo reduzindo a situação ao ponto de vista exclusivamente militar, com evidente e total desprezo das populações ?
    Que brutalidades se seguirão agora em aldeias anónimas do Cáucaso longe das equipas de reportagem? Serão “estas” justificadas?
    Outra conclusão que se impõe é encarar de frente a questão dos limites da resistência e da reacção, sob pena de se perderem completamente quaisquer referências morais e civilizacionais que só podem conduzir à barbárie, mesmo no caso de uma eventual vitória sobre o “inimigo”.
    Não posso aceitar como válidas as justificações da “única saída” para atingir indiscriminadamente populações civis indefesas apresentadas por resistentes de vários quadrantes com o único propósito e justificação de ter também a recompensa de matar. Que credibilidade terão ou têm líderes políticos dos vários lados de várias barricadas que são de algum modo coniventes com massacres deste tipo?
    Digo isto e assaltam-me dúvidas... não foi Werner Von Braun, esse sinistro executor dos planos mais loucos do Hitler (como o bombardeamento indiscriminado dos civis da cidade de Londres, “obra” que contou com a “utilização” como carne para canhão da mão-de-obra escrava de milhares de judeus e outros prisioneiros), reciclado em herói do Programa Espacial Americano? E depois dizem que não negoceiam com terroristas...

    Publicado por tchernignobyl às 11:57 PM | Comentários (0)

    AS COISAS SÃO O QUE SÃO

    «Propaganda? Essa palavra não me incomoda. A administração Bush tem a Fox News ao seu serviço. Para lidar com isso, temos que usar os mesmos utensílios, temos que usar os "media".»

    Spike Lee (no Festival de Veneza, citado pelo Público)

    Publicado por José Mário Silva às 09:04 PM | Comentários (6)

    DESESPERADO REGRESSO

    Após o triste e atribulado episódio do roubo do seu blogue, o Bruno Alves está de volta à lusoblogosfera com uma nova versão do Desesperada Esperança. Fica aqui. E vale a pena acompanhar com atenção o que por lá se vai passando.

    Publicado por José Mário Silva às 09:02 PM | Comentários (6)

    E POR FALAR EM CAMPANHAS PREPARADAS AO MILÍMETRO

    Vai uma aposta que Bin Laden vai ser estrategicamente capturado pouco antes das eleições presidenciais de 2 de Novembro? O plano já está em marcha. Só não vê quem não quer.

    Publicado por José Mário Silva às 07:31 PM | Comentários (9)

    O GRANDE MANIPULADOR DAS "VERDADES" QUE AFINAL SÃO MENTIRAS...


    Cartoon de Monte Wolverton


    ... já tem, com todos os jogos sujos e "barragens" mediáticas, confortáveis 11% de vantagem sobre Kerry.

    Publicado por José Mário Silva às 02:39 PM | Comentários (8)

    DENTRO DO MUNDO

    Quando o conhecido comentador televisivo pegou no último livro do Pedro Mexia sorri. Quando o comentador caracterizou o autor de "grande bloguista" pensei que este deve ter tido uma fúria por se ver assim engavetado. Quando o comentador se insinuou leitor de blogs alarmei-me: haverá no mundo blogs suficientes para o professor Marcelo Rebelo de Sousa?

    Publicado por Jorge Palinhos às 08:48 AM | Comentários (6)

    ESQUERDA OU DIREITA?

    São questões fundamentais para a compreensão do mundo em que vivemos.
    De que lado está você Sr. Filipe Moura?

    Publicado por tchernignobyl às 08:03 AM | Comentários (4)

    setembro 05, 2004

    DISPERSAS (3)

    Entre as décadas de cinquenta e setenta pareceu emergir no Médio Oriente um movimento pela laicização e democratização do mundo muçulmano.
    Esse movimento foi esmagado e está hoje isolado com a conivência dos países ocidentais que controlavam a área, por um fundamentalismo retrógrado e virulento que se afirmou como a forma mais poderosa de de solidariedade social e afirmação civilizacional sobretudo entre os mais carenciados.
    Alguns chamam-lhe “avanço” vendo no fundamentalismo islâmico uma versão oriental do fascismo que terá inspirado alguns dos seus principais teóricos – e é curioso que certos analistas o façam quando se tenta por outro lado apresentar o fanatismo belicista dos fundamentalistas como algo endógeno e quase decorrente da mentalidade “árabe”.
    Para lá da forma exímia como os terroristas fundamentalistas se souberam incrustar nos aspectos mais sombrios do funcionamento do sistema financeiro internacional e no recurso à tecnologia como instrumento de terror não vejo onde está o “modernismo” do “movimento”.
    Há que barrar a passagem a esse fundamentalismo, aos seus lideres e agentes.
    É algo de “inegociável”.
    Não há que ter ilusões quanto a um qualquer carácter “dialogante” da parte do fundamentalismo islâmico num sentido global.
    Para eles estamos todos ao mesmo nível, não há esquerda e direita simpatizantes de israelitas ou palestinianos.
    Isto é bem claro e por isso me parecem infelizes as acusações de cedência quando se defendem posições de acordo com a ética que fundamenta a nossa concepção de civilização, independentes e não presas na lógica da “vendetta” cara aos fundamentalistas islâmicos e outros e para a qual se arriscam a deixar-se arrastar não digo já a seita criminosa e interesseira que tomou de assalto a Casa Branca que joga descaradamente no tabuleiro dos seus interesses mesquinhos mas muita gente que ingenuamente se deixou seduzir pela teoria da “Guerra preventiva”.
    Esse “barrar passagem” poderá ou terá mesmo que assumir formas militares ou policiais diversas, também aqui não podem haver grandes ilusões.
    Não pode porém é ignorar que o ascenso do fundamentalismo se alicerça na exclusão social e política, e que nesse campo há um mundo de coisas a negociar.

    Publicado por tchernignobyl às 08:45 PM | Comentários (7)

    DISPERSAS (2)

    As formas extremas como se processa hoje a “resistência” em vários locais do planeta, facilitam a interpretação do choque de civilizações.
    O argumento demagógico de que são elementos priveligiados quem dentro das sociedades muçulmanas alimentam as revoltas daí concluindo pela sua total falta de ligação a uma qualquer realidade socio politica, esquece que em todas as revoluções, revoltas e dissidências estiveram sempre envolvidos “ovelhas negras”, indivíduos oriundos das classes priveligiadas e que nem por isso muitas dessas revoluções deixaram de ser justificadas.
    As imagens e os testemunhos não permitem enganos quanto às causas das revoltas no Cáucaso e noutros lugares :
    o atraso, a miséria e a corrupção.

    Publicado por tchernignobyl às 08:39 PM | Comentários (0)

    DISPERSAS (1)

    Sabemos pouco do conflito que se arrasta há mais de uma década na Tchétchénia.
    Apenas imagens de destruição e sofrimento, notícias de atentados espectaculares e mortíferos, que se destacam num ténue pano de fundo de massacres indiscriminados em aldeias remotas de ruas enlameadas e casas decrépitas, cidades onde multidões se arrastam penosamente em bichas de racionamento por entre quarteirões esventrados.
    Na aparência é mais uma frente do choque das civilizações.
    Uma frente onde os combates têm decorrido sem a presença incómoda de interlocutores com intenções pacifistas.
    O balão de ensaio óptimo para que sejam validadas as opções de resolução de conflitos meramente pela força.
    O resultado, é a escalada da violência. O armamento a que têm acesso hoje um grupo de dissidentes dispostos a tudo por uma causa que se sobrepõe de forma absoluta a quaisquer outras considerações permite uma resistência até ao infinito, pelo menos enquanto por qualquer razão não for possível ao contendor mais poderoso o recurso definitivo à limpeza étnica total.

    Publicado por tchernignobyl às 08:35 PM | Comentários (2)

    LINHA DE SOMBRA


    Cartoon de Vince O'Farrell

    Publicado por José Mário Silva às 08:33 PM | Comentários (2)

    TRÉGUAS

    As criticas que têm sido trocadas a propósito do assalto à escola na Ossétia do Norte, exprimem sobretudo a estupefacção das pessoas.
    O horror inexprimivel que sentimos perante as manifestações de ódio cego levado até às ultimas consequências.
    Sobretudo porque neste caso estão envolvidas crianças.
    Alguém poderá ficar indiferente a um acto destes?
    Que outro estado de confusão nos pode levar a insultarmo-nos mutuamente sobre assuntos acerca dos quais não duvido que estamos com certeza de acordo?

    Publicado por tchernignobyl às 08:31 PM | Comentários (3)

    GRAXA

    Este blog oscila habitualmente entre o bom e o ingramável.
    No último post entra para o Guiness da graxa mais cretinóide.
    Espero que ao menos o "grande sábio" e "decano da blogosfera" recompense o simpático Nuno Guerreiro com uma viagem a Marrocos.

    Publicado por tchernignobyl às 12:53 AM | Comentários (13)

    setembro 04, 2004

    DUAS NOTÍCIAS TRISTES

    Li-as no DN de hoje: esta e esta. A uni-las, o sentimento de uma perda estúpida e irreparável.

    [Para evitar confusões, esclareço que as notícias sobre a escola de Beslan estão noutra dimensão: a das tragédias que nos perseguem e martirizam, com a ferocidade do horror inexplicável. Não são tristes, são muito mais do que isso. Nem sei se há adjectivos que as definam.]

    Publicado por José Mário Silva às 08:14 PM | Comentários (3)

    CHAPLIN VEZES CINCO

    Estão neste momento em cartaz, numa cópia digital, cinco obras-primas de Charles Chaplin: «Tempos Modernos», «A Quimera do Ouro», «O Grande Ditador», «Opinião Pública» e «O Barba Azul».

    Só para o caso de ainda não terem reparado.

    Publicado por José Mário Silva às 05:08 PM | Comentários (4)

    IRRELEVÂNCIAS

    Depois do improvável optimismo dos sete mortos iniciais no assalto à escola osseta, alguns atiram já a cifra para a casa das três centenas. E se calhar isto não vai ficar por aqui.
    Quando este é o resultado de uma operação de salvamento musculada não é um pouco ridículo andarmos a discutir o dilema "negociar não negociar"?
    A mim parece-me que não, pelo menos enquanto as pessoas não entenderem o significado da palavra "negociar" no contexto de um assalto com tomada de reféns.
    Enquanto não se perceber que a alternativa a "negociar" neste contexto é assistirmos a este espectáculo regularmente exibido em território russo e que duvido pudesse repetir-se em território americano, israelita, alemão ou francês.
    Diferente do significado de "negociar" uma curva, diferente de "negociar" a compra de uma aparelhagem roubada na feira da ladra, "negociar" um contrato de trabalho, um acordo entre dois estados e por aí fora.
    Talvez se deva arranjar uma palavra específica para estas circunstâncias.
    Falando do caso francês, se se confirmarem as esperanças de resolução do caso dos dois jornalistas recentemente raptados no Iraque já estou a ver as manifestações de decepção daqueles que prefeririam vê-los degolados para confirmação das suas teses, relembrando de passagem que o governo francês não é de esquerda.
    Indiferente à perplexidade de todos perante o indizível horror do ódio cego, levado obstinadamente até às últimas consequências, o comentador josé barros exige alternativas "específicas" e "credíveis" que fujam aos lugares comuns do "pacifismo oco da esquerda" como resposta ao meu post do "algoritmo".
    Que tal, josé, bombardear imediatamente com napalm qualquer edifício tomado por sequestradores? Ou equipar os edifícios públicos com dispositivos de auto-destruição, desde que se detectem no seu interior elementos dispostos a miná-los?
    Levada ao limite a lógica do "não negociar", porque não investir imediatamente?
    Eu diria até, preventivamente...

    Publicado por tchernignobyl às 11:25 AM | Comentários (6)

    setembro 03, 2004

    ERA O PRIMEIRO DIA

    Lembram-se como era o primeiro dia de escola? A ansiedade de conhecer os novos professores e novos colegas e a saudade de reencontrar os antigos, o cheiro intenso dos manuais novos cujas páginas estalavam, a leve tristeza por as férias de Verão terem acabado, a curiosidade com que se olhavam os novos professores tentando espiar neles indícios de personalidade, a luz estival que ainda enchia salas e corredores, a alegria por sair mais cedo de cada aula, os tempos mortos com miradas intensas sobre os novos colegas tentando descobrir neles amigos ou inimigos, os contínuos já de ar enfadado mas que mal conseguiam esconder um sorriso condescendente, o professor responsável a descabelar-se por as salas e horários não encaixarem; enfim, a excitação de começar uma coisa nova e o prazer de reencontrar uma sensação antiga maravilhosamente conciliados.

    Depois de hoje, muitos não voltarão a ter um primeiro dia de aulas.

    Publicado por Jorge Palinhos às 11:59 PM | Comentários (5)

    E SE OS SIMPSONS FOSSEM INDIANOS?

    Chamavam-se Singhsons e acabariam o genérico sentados num "sofá" de madeira, com uma vaca sagrada e flatulenta ao lado. Só não sei quem desempenharia, nesta Singhfield a abarrotar de estereótipos, o papel de Abu (talvez um merceeiro WASP, com forte sotaque texano).

    Publicado por José Mário Silva às 09:04 PM | Comentários (3)

    O ALGORITMO DO ÓDIO

    A exemplo do que se passa noutras zonas do globo, a intransigência e o ódio continuam a fazer vítimas inocentes no Cáucaso.
    Depois de falhada a táctica “musculada” do Kremlin na Tchetchénia, com o inevitável corolário de vítimas inocentes decorrente da perspectiva hoje prevalecente no mundo de “não dialogar com terroristas”, desde que sejam inocentes anónimos a arcar com o fardo dessa posição reconfortantemente “digna”, aguarda-se ansiosamente o próximo passo, o início da construção de um muro separando a Tchetchénia (e a Inguchia, e a Ossétia, etc...) do resto da Federação.

    Publicado por tchernignobyl às 07:49 PM | Comentários (17)

    QUE GRANDE SALTO!

    Tenho a confessar estar perfeitamente estarrecido com os últimos artigos do (suponho que agora ex-) guru dos bloguistas conservadores, Andrew Sullivan. Só uns exemplos:

    "But there are other values - of basic human dignity and equality - that cannot be sacrificed without losing your integrity itself. That's why, despite my deep admiration for some of what this president has done to defeat terror, and my affection for him as a human being, I cannot support his candidacy."

    "I agreed with almost everything in the foreign policy section of the speech, although the president's inability to face up to the obvious sobering lessons from Iraq is worrying. I get the feeling that empirical evidence does not count for him; that like all religious visionaries, he simply asserts that his own faith will vanquish reality. It won't."

    "But conservatism as we have known it is now over. People like me who became conservatives because of the appeal of smaller government and more domestic freedom are now marginalized in a big-government party, bent on using the power of the state to direct people's lives, give them meaning and protect them from all dangers. Just remember all that Bush promised last night:..."

    "Some of this, I have to say, was Orwellian. When your convention pushes so many different messages, and is united with screaming chants of "U.S.A.", and built around what was becoming almost a cult of the Great Leader, skeptical conservatives have reason to raise an eyebrow or two."

    Publicado por Jorge Palinhos às 06:05 PM | Comentários (5)

    ALELUIA! (e uma explicação)

    Finalmente, depois de mais de uma dúzia de posts, o MacGuffin afirma que: "uma vez que eu nunca disse que uma e outra são a mesma coisa" sobre o anti-semitismo e as críticas ao governo de Sharon. (Espero que o não dizer implique que também não acreditas nisso.)
    Pena é que para isso tenha de ter ficado ofendido comigo e achar que não tenho consideração para com ele. Nada disso. Não havia qualquer intenção ofensiva e tenho muita consideração pelas tuas opiniões que se traduz pelo facto de as ler e lhes responder.
    Mas, caramba, achares que com aquele post o Zé Mário estava a tentar desculpar o atentado dá-me razões para pensar que ingeriste acidentalmente aquilo que o actual Secretário de Estado dos Assuntos do Mar toma com regularidade!

    Publicado por Jorge Palinhos às 04:15 PM | Comentários (7)

    LEILOA-SE GOVERNO

    O Johann Hari também parece abananado, mas é com os níveis de corrupção da campanha americana.

    Nas convenções políticas europeias há debates. Nas convenções pólíticas americanas há patrocínios; dinheiro, dinheiro em todo o lado. Queres almoçar? Leva lá uma refeição grátis oferecida pela Haliburton! Queres ir a um espectáculo da Broadway? Toma lá uma borla, gentileza da Pfizer! (...)

    Leis americanas destinadas a proteger os trabalhadores das lavandarias dos químicos perigosos presentes nas toalhas foram reprovadas. Duas semanas antes uma das maiores cadeias de lavandarias tinha doado 1.7 milhões de dólares à campanha de Bush. (...)

    Como diz um dos mais importantes economistas americanos, Paul Krugman: "Vivemos um replay da Era Dourada em que barões sem escrúpulos compram e vendem às claras governantes e políticas."

    Ao menos em Portugal ainda não é às claras.

    Publicado por Jorge Palinhos às 04:01 PM | Comentários (5)

    VERSOS QUE NOS SALVAM

    Foi enviado por uma amiga próxima, via e-mail, este poema que evoca o que aconteceu há precisamente uma semana, entre dois dos membros deste blogue:


    ESTA AREIA FINA

    Não sei
    se o que chamam amor é este apaziguamento.
    Não sei se comias fogo. Tuas abelhas
    voam agora em círculos tranquilos.
    Mães serenam seus filhos no ventre,
    não sei se o que enfim chamam
    amor é esta areia fina.

    Agora estamos um dentro do outro,
    fazemos longas visitas deslumbradas
    porque «o nosso prazer lembra um rio vagaroso
    no meio de juncos ao cair da tarde.»

    As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
    falaríamos melhor de tudo isto.
    Não sei se o que chamam amor
    é a cama desfeita o sol fugindo,
    uma vontade louca de beber
    a grandes goles a noite entorpecente.

    Com o silêncio, o silêncio sem nome:
    morrermos a meio do filme
    simples, calada, delicadamente.
    Eras tu, amor? — Era eu, era eu!

    Um barco junto à margem. E cegonhas.

    Fernando Assis Pacheco, in «A Musa Irregular»

    PS- Obrigado, Marta. E um enorme agradecimento a todos os amigos e leitores anónimos que nos desejaram felicidades naqueles dias de pura exaltação. Agradecimento ainda, do fundo do coração, aos blogues que se referiram à cerimónia: Afixe (belíssimos, os quadros), Ponto e Vírgula, Esplanar, Tomara-que-caia e Cibertúlia.

    Publicado por José Mário Silva às 04:01 PM | Comentários (1)

    UFA?

    Infelizmente, Jorge, acabei de ouvir falar em 150 mortos na escola de Beslan, já na posse das autoridades russas. Afinal, o problema sempre acabou da forma catastrófica que se temia. E as imagens de crianças nuas a fugir, em pânico, do ginásio maldito (tomado à força pelos soldados de Putin) sucedem-se agora nas cadeias de TV internacionais, como avatares da nossa impotência.

    Publicado por José Mário Silva às 01:37 PM | Comentários (13)

    UFA!

    A crise da Ossétia parece estar a resolver-se de forma menos catastrófica do que se temia.
    Por um lado ainda bem, mas seria bom que esta situação toda servisse para se fazer alguma coisa concreta para resolver o problema checheno.
    Mas, francamente, tendo em conta o historial recente e antigo...

    Publicado por Jorge Palinhos às 12:39 PM | Comentários (2)

    MOBILIDADE E RIQUEZA

    O Filipe fala de dois temas interessantes: a mobilidade social, que já tinha sido referida num comentário, e a distribuição de riqueza.

    Alguns dados:

    Distribuição de riqueza nos EUA

    Percentagem da população - Percentagem da riqueza que possui (1998)

    0.5% - 25.6%
    0.5% - 8.4%
    4% - 23.4%
    5% - 11.4%
    10% - 12.8%
    80% - 18.5%

    Tirado daqui. E, sim, estão a ver bem, os 5% de americanos mais ricos têm quase 60% da riqueza.

    Ler também este artigo: US Led a Resurgence Last Year Among Millionaires World-Wide

    Mobilidade social americana

    Em relação à mobilidade social recomendo este artigo onde, para além de se verificar uma diminuição da mobilidade social entre 1979 e 1991 (os anos Reagan e Bush pai), se conclui que a mobilidade social é bastante equivalente entre os EUA e outros países, apesar dos primeiros terem maior desigualdade social.

    Ainda este artigo um pouco mais antigo (1991) dá uma série de indicadores interessantíssimos sobre nível de vida nos países ocidentais. Exemplos:


    Evolução da produtividade individual dos trabalhadores na segunda metade do séc. XX

    1950s 1960s 1970s 1980s 1990
    United States 100% 100 100 100 100
    Canada 77.1 80.1 84.2 92.8 95.5
    Italy 30.8 43.9 66.4 80.9 85.5
    France 36.8 46.0 61.7 80.1 85.3
    Germany 32.4 49.1 61.8 77.4 81.1
    United Kingdom 53.9 54.3 58.0 65.9 71.9
    Japan 15.2 23.2 45.7 62.6 70.7

    Note-se que os países que nos últimos anos estavam a apostar numa maior destatização da economia (Grã-Bretanha e EUA) perderam terreno na produtividade em relação a outros países.

    E já que Bush falava numa "sociedade de proprietários", veja-se quais os países onde há mais gente dona do tecto que a abriga.

    Percentagem de pessoas proprietárias da sua casa

    Ireland 82% Japan 60
    Spain 80 Portugal 59
    Luxembourg 77 United States 59
    Norway 73 Finland 58
    Belgium 72 Sweden 55
    Greece 72 France 54
    Italy 68 Netherlands 46
    United Kingdom 67 Germany 40
    Canada 64 Switzerland 29
    Denmark 60

    Como se vê, nesta altura Portugal rivalizava seriamente com os EUA.

    Já quanto à desigualdade, e indo de 0% (máxima igualdade) para 100% (máxima desigualdade):

    United States 99
    Canada 83
    Netherlands 82
    Switzerland 79
    United Kingdom 78
    Germany 66
    Norway 60
    Sweden 60

    E para não atafulhar isto de números, o número de mortes por subnutrição por cada milhão de habitantes (lembrem-se que estamos a falar do mundo desenvolvido):

    Men Women
    United States 7 13
    France 4 9
    Canada 5 7
    Japan 2 1
    United Kingdom 1 2
    Norway 0 1

    E número da mortalidade infantil (por cada mil nascimentos):

    United States 10.4
    United Kingdom 9.4
    Germany 8.5
    Denmark 8.1
    Canada 7.9
    Norway 7.9
    Netherlands 7.8
    Switzerland 6.8
    Finland 5.9
    Sweden 5.9
    Japan 5.0

    Mas o artigo tem muito mais.

    Publicado por Jorge Palinhos às 08:31 AM | Comentários (3)

    VIVER PARA TRABALHAR OU TRABALHAR PARA VIVER?

    Temos tido uma discussão interessante entre o Jorge Palinhos e o André Amaral de O Observador.
    As estatísticas e informações que o Jorge apresentou são interessantes e merecem a nossa reflexão. Contrariam algumas ideias feitas (e confesso que, em parte, contrariam a minha experiência empírica, baseada na observação, que pode ser muito parcial). Em qualquer dos casos creio que o texto do Jorge revela um optimismo exacerbado (eu é que tenho fama de optimista!) e (o Jorge que me desculpe) não é capaz de olhar para além do próprio umbigo (umbigo europeu, não umbigo do Jorge!), algo que frequentemente criticamos nos americanos mas que também se nos aplica.
    Por outro lado, o texto do André revela, a meu ver, uma crença profunda, de apóstolo, no "sonho americano", no ideal da América. Esta crença parece-me pura e bem intencionada, mas algo ingénua e longe da realidade. A mobilidade social de que o André gosta (e eu também) nos EUA é um mito.

    (Desculpem-me os autores se fui demasiado "cru" na minha apreciação aos textos.)
    Uma das grandes razões para o poderio dos EUA é que conseguem (e têm condições geográficas e económicas para isso) atrair imigração de países muito mais pobres. Esses imigrantes ganham muito mais dinheiro que nos seus países e têm regalias sociais muito superiores às dos seus países, mas isso não torna o modelo social americano bom. Os EUA aproveitam-se assim da pobreza de outros países, ao não tratarem os imigrantes condignamente. Os europeus devem orgulhar-se do seu modelo social, das regalias conquistadas pelos seus trabalhadores e devem mantê-las.
    É falso que os americanos defendam o seu modelo social e não queiram optar por um modelo de um tipo mais europeu. Franklin Roosevelt utilizou uma receita keynesiana, estatista, para desenvolver a economia, e durante a sua presidência muitas regalias sociais foram conquistadas. Recentemente, Bill Clinton sempre teve como objectivo democratizar os sistemas de saúde e de educação, e se não conseguiu mais foi porque tinha o bloqueio do congresso, de maioria republicana. Por outro lado, na Europa vamos assistindo a tentativas sucessivas, por parte dos governos de direita, de adoptar um modelo mais semelhante ao norte-americano. A qestão não é o "modelo europeu" versus o "modelo americano": é o modelo da esquerda versus o modelo da direita. Agora, é verdade que na Europa vai prevalecendo o primeiro e nos EUA o segundo.
    Refiro isto porque esta discussão também envolve valores diferentes, expectativas diferentes em relação à vida. Isso foi bem evidente nos comentários ao texto do Jorge. Este é mesmo um tema em que não se deve fugir à dicotomia esquerda-direita; bem pelo contrário, ela é indispensável para analisar o assunto com clareza. Por exemplo: o André fala em "liberdade acima do bem estar". Primeiro há que ver o que entendem a esquerda e a direita por "liberdade" e "bem estar". São coisas bem diferentes.
    Tendo vivido nos EUA e agora na Europa, é para mim inegável que nos EUA há uma maior vontade de progredir, de subir na vida. Há uma cultura de trabalho e de responsabilização individual maior. Na Europa, pelo contrário, há uma tendência para a acomodação, que os exemplos de "preguiça" que tenho vindo a dar ilustram. Esta acomodação deve ser vista com preocupação; se por um lado pode significar uma vida mais fácil para os "acomodados" de hoje, ela significará, se não for modificada, menos riqueza e uma pior vida para os europeus de amanhã. Há que inverter esta tendência, sem pôr em causa conquistas e progressos essenciais: a educação e a saúde universais, as férias, os sindicatos... A meu ver, há que saber motivar os trabalhadores.
    Termino com duas curiosidades. Para dar informações sobre o livro de Rifkin, o Jorge faz uma ligação à Amazon.com, um exemplo verdadeiro de progresso e utilização das novas tecnologias ao serviço do consumidor. Vem dos EUA. Dificilmente uma empresa como a Amazon (de que eu sou cliente com todo o gosto) poderia provir originalmente da Europa (é claro que, quando chega à Europa, tem sucesso). Na Europa a principal preocupação seria não estragar o negócio aos pobres livreiros retalhistas.
    Já o Observador, blogue do trabalhador André, tem como lema uma citação do preguiçoso professor Agostinho da Silva que não poderia ser mais eloquente: "O homem não nasceu para trabalhar, mas para criar."
    É isto que este outro preguiçoso vos queria dizer; agora, privilegiado que sou, deixem-me voltar até ao fim de semana para as minhas férias.

    (Devo esclarecer que, frequentemente, escrevo os meus textos com alguma antecedência, antes de os publicar, principalmente se eles dizem respeito a temas que não perdem actualidade, e vou-os publicando quando posso. Tal é especialmente verdade nesta altura, em que me encontro no distrito de Aveiro profundo (ou nem tanto), dependente de um modem. Quando escrevi sobre a preguiça ainda nem havia a discussão que referi, pelo que a ideia não era meter-me nela. Mas agora não resisto. Tentarei ser sucinto. Não vou conseguir.)

    Publicado por Filipe Moura às 12:58 AM | Comentários (1)

    setembro 02, 2004

    NÃO RESISTO...


    Cartoon de Pat Oliphant, "NY Times"

    Publicado por Luis Rainha às 10:14 PM | Comentários (0)

    AS TIME GOES BY

    Reparem bem neste relógio japonês e digital (digital no sentido mais estrito da palavra, porque feito com os dedos). É uma coisa incrível, não é?
    Agora esperem uns quantos minutos. Apreciem o labor incansável daquela mão. Tem qualquer coisa de hipnótico, mas ao mesmo tempo de assustador, abominável, desumano. O tempo é uma escravatura e uma contínua repetição dos mesmos gestos — diz-nos o relógio a cada segundo.
    Eu não concordo. E fecho a janela do Explorer. E volto para os velhos ponteiros, apaziguado.

    Publicado por José Mário Silva às 08:52 PM | Comentários (2)

    AINDA NÃO DESFIZEMOS O LUTO, HENRI

    H. Cartier-Bresson, «Allées du Prado» (1932)

    Publicado por José Mário Silva às 08:44 PM | Comentários (0)

    O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

    Nem sempre controlamos os caminhos e os acasos que nos conduzem a um certo poema, num certo dia. Mas a razão destes versos de José Tolentino Mendonça me acudirem agora, logo agora, até seria fácil de explicar.

    AS CASAS

    As casas habitadas são belas
    se parecem ainda uma casa vazia
    Sem a pretensão de ocupá-las
    tornam-se ténues disposições
    os sinais da nossa presença:
    um livro
    a roupa que chegou da lavandaria
    por arrumar em cima da cama
    o modo como toda a tarde a luz foi
    entregue ao seu silêncio

    Em certos dias, nem sabemos porquê
    sentimo-nos estranhamente perto
    daquelas coisas que buscamos muito
    e continuam, no entanto, perdidas
    dentro da nossa casa.

    in «De Igual para Igual» (2001)

    Publicado por José Mário Silva às 08:32 PM | Comentários (0)

    HAPPY BIRTHDAY, INTERNET

    Esta traquitana magnífica em que andamos todos metidos até ao pescoço — WWW, «rede das redes», chamem-lhe o que quiserem — completou hoje 35 anos de vida. Quer dizer, apenas 35 anos. É, digamos assim, uma jovem. E só aqui entre nós, está cada vez mais gira.

    Publicado por José Mário Silva às 06:09 PM | Comentários (8)

    VIRA-SE O CANICHE PARA O PITBULL E DIZ


    Cartoon de Cam Cardow, «The Ottawa Citizen»

    Publicado por José Mário Silva às 05:07 PM | Comentários (2)

    POBRE TARANTINO

    Já viste, Zé Mário, até uma humilde peça de teatro serve para o MacGuffin pôr atitudes racistas e críticas ao Governo israelita no mesmo saco. É melhor nem citarmos este livro para o bom velho MacGuffin não ir buscar a metralhadora.

    Publicado por Jorge Palinhos às 03:42 PM | Comentários (5)

    ENTRETANTO, NO REINO DA FICÇÃO

    O primeiro-ministro designado de Portugal vai "clarificar" as explicações que deu ontem. Qualquer semelhança entre ambas será pura coincidência.

    Publicado por Jorge Palinhos às 03:34 PM | Comentários (3)

    CORRECÇÃO DA CORRECÇÃO

    Já agora, Daniel, deixa-me dizer-te que os anarquistas/bloquistas/betinhos/whatever que fizeram isso têm toda a razão. Afinal, se se trata a hipocrisia como uma coisa esdrúxula (hiPOcrisia) e não grave (hipoCRIsia), então faz todo o sentido que leve acento na antepenúltima sílaba.

    P.S. - Correcção da correcção da correção - Considerando que o -ia não é um ditongo, não é verdade que a hipocrisia seja esdrúxula. Raios, mais uma boa ambiguidade arruinada por picuinhices!

    Publicado por Jorge Palinhos às 03:23 PM | Comentários (6)

    MÃES DE OSSÉTIA

    Nem quero imaginar tamanho desespero.

    Publicado por José Mário Silva às 11:52 AM | Comentários (3)

    SAUDADES

    Ontem, a propósito de um interessantíssimo livro de Jeremy Rifkin, o Jorge escreveu mais um dos seus posts polémicos, bem articulados e provocadores (para os neoliberais fanáticos, entenda-se). O texto terminava em tom de desafio: «Aguardam-se as refutações indignadas dos liberais.» E as refutações vieram, com alarido. E tiveram respostas à altura. E de repente já se discutia com veemência tudo e mais alguma coisa: números, credibilidade dos índices, modelos sociais, "viver para trabalhar" vs "trabalhar para viver". Ou seja, trocavam-se opiniões com garbo e ênfase, mas sem acrimónia.
    Devo confessar que já tinha saudades de um debate assim. Mais: após umas semanas de dúvida e desalento, voltei a acreditar que as caixas de comentário valem de facto a pena. E valem mesmo.

    Publicado por José Mário Silva às 09:49 AM | Comentários (6)

    AINDA A PREGUIÇA

    Voltando ao assunto da preguiça gaulesa e portuguesa. Quando eu, após o check-in, me dirigia para o embarque no aeroporto de Orly, coloquei-me, com outras pessoas, na fila para a minha bagagem de mão passar pelo raio X. Havia um empregado que observava as bagagens, e outro cuja missão aparente era simplesmente orientar as pessoas (uma missão daquelas que se fazem com as mãos nos bolsos). Quando eu e a senhora atrás de mim chegámos, este último achou que a fila se estava a tornar muito grande (duas ou três pessoas à nossa frente) e decidiu enviar-nos para o seu colega, na outra máquina de raios X. Algo contrariados, por andarmos a carregar a bagagem, fizemos-lhe a vontade. Chegámos ao local indicado e deparámos com uma máquina vazia, de facto, e pronta a ser usada. Ao lado dela, outros dois empregados conversavam. Ao verem que nos dirigíamos para a máquina, um deles informou-nos que aquela máquina se encontrava encerrada e apontou-nos a máquina de onde tínhamos saído.
    Eu ainda não sei insultar convenientemente (e convincentemente) em francês, pelo que permaneci calado. A senhora que vinha atrás de mim imediatamente protestou que nos tinham dito para vir ali da outra máquina. Confrontados com este facto, os empregados decidiram parar com a conversa e sempre nos inspeccionaram a bagagem ali.
    Este pode parecer um episódio corriqueiro e sem importância nenhuma, mas corresponde a uma das impressões mais fortes que eu levarei de França no dia em que me for embora. O de dirigir-me a um guichet para ser atendido e estar lá um empregado que se recusa a atender-me e me manda para outro guichet. Seja na caixa do supermercado, seja para pagar a refeição na cantina, seja numa repartição pública qualquer.
    Tenho de aprender a insultar (os insultos já sei).

    Publicado por Filipe Moura às 02:39 AM | Comentários (2)

    setembro 01, 2004

    PETIÇÃO

    Adivinharam. É contra o bloqueio político-militar da entrada em Portugal do navio da Women on Waves, uma decisão obtusa e terceiro-mundista do Ministro dos Assuntos do Mar. Podem assiná-la aqui.

    Publicado por José Mário Silva às 08:20 PM | Comentários (7)

    VIRGIN ON WAVES


    Para Paulo Portas, esta é a única mulher que pode operar ao largo da costa portuguesa.

    Publicado por José Mário Silva às 08:16 PM | Comentários (21)

    ANDAM A FAZER COISAS NAS COSTAS DO VIGILANTE

    Manchete do DN: «Jorge Sampaio exige explicação ao Governo» (sobre o tratamento dado pelo executivo de Santana Lopes ao navio da Women on Waves).

    Publicado por José Mário Silva às 03:40 PM | Comentários (4)

    DESCOBRIR A PÓLVORA

    É uma das características sociais que mais me impressionam, a capacidade de as pessoas acreditarem e venderem mitos porque lhes convém.
    A actual história do Barco da IVG já fez correr uma quantidade enorme de declarações, alegações e argumentos perfeitamente ridículos - e nem estou a falar de se ser a favor ou contra a IVG - de que talvez depois fale.
    Felizmente, há ainda algumas pessoas lúcidas que volta e meia abanam o castelo de cartas. Como este livro que vem dar uma machadada no "sonho americano".
    Rifkin diz que:

    O sonho americano era baseado no dinheiro, trabalho e eficiência, o sonho europeu baseia-se na qualidade de vida, que foi melhorada ao longo das últimas duas décadas. E assim, hoje em dia, os europeus vivem mais anos, têm melhor educação, riqueza pessoal, melhores objectivos de vida, menos pobreza e crime, mais férias, menos stress; resumindo: melhor qualidade de vida que os americanos. Enquanto os americanos «vivem para trabalhar», os europeus «trabalham para viver». Ao mesmo tempo, a União Europeia é já a maior economia do mundo, as multinacionais europeias dominam e fizeram com que as americanas não passem hoje quase de um mito folclórico.

    Basta ver, por exemplo, que os EUA estão em 48.º lugar em termos de esperança de vida, atrás de praticamente todos os países da UE, em 14.º lugar na educação, também atrás dos principais países europeus.

    Mais importante ainda, apesar de os trabalhadores americanos trabalharem quase 60 horas por semanas, terem 15 dias de férias por ano e pouquíssimos direitos laborais, Rifkin prova que:

    até os trabalhadores franceses, conhecidos pelo curto horário de trabalho semanal e pelas férias prolongadas, têm produtividade superior à dos americanos. E se globalmente os EUA se proclamam reis da inovação e tecnologia, Rifkin mostra que os europeus estão na liderança.

    Em 2002, por exemplo, apesar de os franceses trabalharem metade das horas médias de um americano, já tinham uma produtividade quase igual.

    A conclusão é óbvia, apesar dos velhos do Restelo desejosos de enterrar a cabeça na areia, a União Europeia está a caminhar rapidamente para o que se pode chamar uma nação não territorial de 455 milhões de habitantes e um produto nacional bruto de 10,5 triliões de dólares, que eclipsará os Estados Unidos em decadência.

    Aguardam-se as refutações indignadas dos liberais.

    Publicado por Jorge Palinhos às 10:57 AM | Comentários (32)

    E EU QUE ACHAVA QUE O NOSSO ANO LECTIVO TINHA UM MAU COMEÇO

    Attackers storm Russian school

    Some of the children managed to flee the hostage-takers
    At least 200 pupils and some parents and teachers are being held hostage in southern Russia after a school was seized by masked and armed attackers.
    At least 17 men and women, some wearing explosive belts, entered the school in Beslan, North Ossetia, officials said.

    Publicado por Jorge Palinhos às 10:54 AM | Comentários (2)

    NEW YORK

    Dizer "apetecia-me estar em Nova Iorque" é forte, pois estou bem onde estou. Mas tenho frequentemente saudades de Nova Iorque. Tenho saudades da energia contagiante que se sente ao caminhar por Nova Iorque, tão diferente de andar por Paris, onde uma quantidade impressionante de pessoas está sempre sentada na esplanada. Tenho saudades de andar numa cidade onde as pessoas têm pressa.
    Referi que um dos grandes defeitos de Paris é estar longe do mar. Nova Iorque não tem esse defeito. Quem quiser ir à praia pode apanhar o metro para Coney Island (em Brooklyn), linha F, como fez Seinfeld no famoso episódio The Subway. Mas a melhor opção ainda são as praias de Long Island, ali mesmo ao lado.
    É disto que sinto falta em Nova Iorque. Esta semana, porém, há o ténis em Flushing Meadows (não sou um grande apreciador de ténis, mas gosto do Flushing Meadows Corona Park). E há uma outra razão muito forte para ter saudades: é que esta semana a vocação política natural da cidade cumpriu-se. As ruas estão ocupadas por activistas, apesar dos esforços em contrário do mayor Michael Bloomberg (duzentos e cinquenta mil manifestantes). E os republicanos estão encurralados no Madison Square Garden.

    Publicado por Filipe Moura às 12:48 AM | Comentários (9)