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julho 31, 2004

MICHAEL MOORE E OS HOMENS DE SAIAS

No "Expresso" de hoje, António Cabrita escreve sobre "Fahrenheit 9/11". A dado passo, inventaria alguns dos problemas já detectados na peculiar concepção de cinema de Moore, mormente o escasso cuidado colocado na demarcação entre "a verdade e o cinema".
Mas, avisa-nos Cabrita, "esta forma de distorcer a realidade não é nova" (...) "Que diria o leitor se soubesse que os .kilts. escoceses apresentados em .Rob Roy. estão desenquadrados e que o kilt é uma invenção do século XIX?"
Quanto a vós, não sei. Mas o que este leitor diz é que a lenda relativa à suposta juventude histórica do kilt já tem barbas. E não se tornou muito mais convincente por isso. Segundo o mito, a famosa peça de vestuário dataria de 1725 (bem no séc. XVIII, portanto), sendo obra de um tal Thomas Rawlinson, que se teria dedicado a simplificar o tradicional plaid escocês - na realidade um vestido, decentemente mantido no lugar por um cinto - cortando-lhe a parte superior.
Acontece é que existem imagens oriundas do século XVII que já nos mostram escoceses de kilt, desmentindo categoricamente a teoria da invenção tardia. (Se vos despertei o interesse por homens de saias, podem dar um salto ao site da Scottish Historical Clothing Research e confirmar tal informação. )
Este despreocupado embarque no comboio do engano consensual pode parecer um pecadilho menor. Mas tenham em atenção o contexto em que decorreu: dava-se um exemplo de evidente atropelo à veracidade histórica! Usar um "facto" bastante discutido e discutível para o fazer é mais um pequeno contributo para que em breve não exista mesmo uma "realidade (social) não distorcida"...

Publicado por Luis Rainha às 11:51 PM | Comentários (17)

QUINO - 50 ANOS DE CARREIRA

Obrigado, Joaquín Salvador Lavado. Obrigado, Quinito, por tantos anos a fazeres-nos rir e, sobretudo, pensar.

Publicado por Filipe Moura às 11:36 PM | Comentários (0)

HÁ REVISTAS QUE VIVEM NA SILLY SEASON TODO O ANO

Eis uma das mais recorrentes falácias da imprensa cor-de-rosa. Na capa da sua última edição, a «TV Guia» anuncia entusiasticamente «fotos exclusivas» da actriz brasileira Malu Mader, captadas no «refúgio secreto» para onde levou a família nas férias. Pergunta óbvia: se o refúgio era assim tão secreto, como é que a «TV Guia» o encontrou?

Publicado por José Mário Silva às 12:24 PM | Comentários (6)

julho 30, 2004

IT'S OH SO QUIET

Ufffffffffffffffff, que alívio.
Acabou-se o pesadelo.
Bye bye RIAPA.
Não teremos saudades tuas.

PS- E agora, ultrapassado o desagradável incidente, continuemos com a nossa vida. Os leitores que se afastaram das caixas de comentários, pelas razões conhecidas, podem voltar sem receios. Já se respira outra vez ar puro, lá em baixo.

Publicado por José Mário Silva às 07:38 PM | Comentários (20)

O MAIS PERVERSO DOS LABIRINTOS (2)

Publicado por José Mário Silva às 06:49 PM | Comentários (4)

A INTERNET DÁ, A INTERNET TIRA...

Continuando o meu périplo nostálgico, lembrei-me de visitar a cidade onde nasci. Lembrei-me também de marcar quarto de hotel através da Net. Até aqui, tudo bem: com meia dúzia de "clicks", poupei 15 euros na diária.
O pior foi que me deixei entusiasmar e resolvi ligar-me ao BdE através do telefone do quarto. Resultado? Paguei 8 euros por uns míseros 16 minutitos de ligação!
Foram, muito provavelmente, os posts mais caros do ano...

Publicado por Luis Rainha às 12:12 PM | Comentários (15)

MAIS PIEDRA DE TOQUE

Enquanto não fica disponível a mais recente crónica de Vargas Llosa (que eu espero que seja sobre a situação no Sudão), sugiro ainda uma leitura desta outra, mais uma vez sobre a laicidade na Europa, mas onde são ainda abordados temas como a Turquia e a legalização do casamento gay em Espanha. Igualmente a não perder.

Publicado por Filipe Moura às 11:34 AM | Comentários (1)

NERUDA POR VARGAS LLOSA

Não falámos aqui do centenário de Pablo Neruda. Colmatamos agora esta falha (muito atrasados, mas antes tarde do que nunca) da melhor maneira: sugerimos a evocação do grande poeta por Mario Vargas Llosa, que nos apresenta, em mais uma das suas excelentes crónicas, a sua visão pessoal de Neruda, baseada na convivência que tiveram. A não perder.

Publicado por Filipe Moura às 11:32 AM | Comentários (1)

julho 29, 2004

A CASA DA NOSTALGIA (5)

"No chão brilha a humidade rejeitada pelas raízes adormecidas da tília. As caves estão frias, como convém à conservação das batatas. Junto a uma chávena partida, um rótulo já sem cor anuncia a ninguém milagres esquecidos. Mesmo ao lado, térmites digerem laboriosamente a estrutura onde repousa o peso de corredores, salas e quartos. Dos seus sonhos cegos apenas sobrevivem regulares montículos de poeira amarelada, detritos da fricção do tempo. O calor do dia foge pelas pedras imensas escondidas na alma das paredes. Elas são a força bruta, o esqueleto que não quebra sob o estuque há muito rachado por tremores de terra suaves demais para serem sentidos. Onde traves e tubos penetram as paredes, soam lentos compassos para cantar a saudade do Sol: um ranger de preguiça agora, um contraponto de estalidos inquietos depois. No sótão, arcas e arcas de memórias descartadas corrompem-se sem pressa, indiferentes à hora; é-lhes interdita a redenção do sono dos homens. Dúzias de chapas fotográficas esquecem cerimónias, poses solenes, crianças felizes nos seus bibes. Um maço de cartas por abrir. Uma medalha roubada a um morto noutra guerra, noutra fronteira. Uma colher de prata ainda à espera de ser encontrada por criadas com olheiras. As aranhas negligenciam as suas teias e sonham com a dança da reprodução.

A Casa dorme."

Publicado por Luis Rainha às 12:28 PM | Comentários (71)

ITINERÁRIO

R. Carlos da Maia, R. Correia Teles, R. Ferreira Borges, R. de Campo de Ourique, R. do Sol ao Rato, Largo do Rato, R. Alexandre Herculano, R. Braancamp, Marquês de Pombal.
São aproximadamente 2,5 quilómetros. Cerca de meia hora, a pé. Entre fachadas antigas, reflexos de luz nas janelas e todos aqueles ruídos de uma cidade que arregaça as mangas, lá vou. Caminhando devagar, caminhando apressado, caminhando sempre. Não é bem uma deambulação de flâneur (apesar de ter lido o que sobre ele escreveram Baudelaire e Walter Benjamin), não é um passeio propício a devaneios do espírito (como os de Rousseau à beira do lago), nem é muito menos uma caminhada higiénica e com uma rigidez de metrónomo (como as que Imannuel Kant fazia nas tardes de Konigsberg). É só uma descida ritual ao coração de Lisboa, com a cabeça em roda livre, para lá das nuvens.
Ao fim do dia, o sentido inverte-se: Marquês de Pombal, R. Braancamp, R. Alexandre Herculano, Largo do Rato, R. do Sol ao Rato, R. de Campo de Ourique, R. Ferreira Borges, R. Correia Teles, R. Carlos da Maia, casa.
E entretanto, algures na subida, nascem mentalmente alguns posts. Como este.

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (3)

A CASA DA NOSTALGIA (4)

Há pouco mais de um ano, encerrei-me no meu eremitério serrano, com planos de começar a entretecer os primeiros fios de uma espécie de romance. Quando dei por mim, a casa que me acolhera tinha conseguido infiltrar-se no que eu escrevera, convertendo-se numa das principais personagens dos meus modestos enredos. Vou aqui deixar, à laia de vestígios das perturbações nostálgicas que me afligem, dois fragmentos reveladores...

"Ela permaneceu sentada no pequeno muro junto ao poço. Este já conhecera melhores dias: coberto de musgo, só de perto era reconhecível. Sobre alguns restos de traves de madeira, a sua nora enferrujada equilibrada a custo, engrenagens de um velho relógio deitado fora para apodrecer. Em breve cairia sobre as águas esverdeadas para não mais ser vista.
Todo o jardim exalava decadência. As mesas em pedra à espera de picnics elegantes que jamais voltariam, algumas paredes em tijolo sem propósito aparente regressando devagar ao barro informe. Ela lembrou-se de que as ruínas tinham sido um tema arquitectónico muito em voga na construção de jardins, havia alguns séculos. Só que ali as ruínas eram autênticas, empapadas em memórias alheias e nostalgia.
Apesar de tudo, sentia-se bem, de novo em território amigo: o Sol iluminava a paisagem com uma clareza definitiva e os únicos movimentos a perturbar aquela calma vinham de alguns sacos de plástico à sua frente, pendurados para assustar os pássaros, em protecção das sementes do terreno lavrado. O murmurejo da água do tanque quase em harmonia com o som do plástico e das folhas da palmeira ao vento. O céu em azul-cobalto brilhava livre de máculas; sem nuvens ou chemtrails a perturbar a sua energia serena. O mundo podia estar a preparar-se para mais uma guerra, mas nem um eco das explosões se iria fazer ouvir ali.
Ela invejou a vasta tília que lhe dava abrigo e perfumava o ar: impassível e perene, tinha visto nascer e morrer gerações de ocupantes do solar sem outro estremecimento para lá de uma ou outra tempestade ocasional, limitando-se a crescer, crescer, alimentada por raízes que por certo se estendiam até à casa. Na sombra daquela árvore imensa tinham repousado soldados de Napoleão, cansados de marchas infindas, ganhando forças para a alegria da pilhagem. E senhoras espartilhadas lendo revistas com os figurinos da última moda de Paris, a poucos metros de camponeses que ainda lutavam para sair da Idade Média."

Publicado por Luis Rainha às 12:17 PM | Comentários (2)

QUESTÕES DE GLÓRIA FÁCIL

Mas não era a Maria José que gostaria de ser mais velha?
Ana, e as Vanessas, que idade têm?
Gostei de ler a opinião da Ana Sá Lopes sobre Paris. A Ana teria muito melhor impressão da cidade (OK, muito melhor, não; melhor) se não se restringisse ao (insuportavelmente turístico) Quartier Latin e às brasseries. Mas isto fica para outra altura. Há ainda a história do FF... Vou investigar se os tais cafés existem mesmo.
Entretanto ainda há isto... Eu fiz o mesmo teste, indicado pelo Rogério (que só ontem mudou mais duas vezes de nome), e tive exactamente o mesmo resultado que ele. O BdE é dono de 37.5% de mim. Como consegues, Maria José?

Publicado por Filipe Moura às 12:22 AM | Comentários (4)

julho 28, 2004

SANTANA CALVIN

Publicado por José Mário Silva às 08:43 PM | Comentários (6)

ILITERACIA FUNCIONAL, GOVERNANTE ACIDENTAL

O delicioso texto que se segue foi sacado à má fila de um post do Nuno Ramos de Almeida:
"Li no .24Horas. esta educativa história: Diogo Feyo é insigne militante do PP e foi colaborador do blogue .O Acidental.. Há uns tempos postou um pequeno texto com cinco linhas e cinco erros ortográficos. Uma leitora indignada protestou. Diogo Feyo, prontamente, esclareceu o lapso. Os erros eram devidos ao facto do computador não ter corrector ortográfico. Santana Lopes soube da história e enviou o rapaz para a escola da vida: a Secretaria de Estado da Educação!"

Publicado por Luis Rainha às 08:40 PM | Comentários (3)

OLHEM QUE É CAPAZ DE VALER A PENA

Para mais informações, oiçam o deserto.

Publicado por José Mário Silva às 08:38 PM | Comentários (0)

FOGOS

O que o blogue Grande Loja do Queijo Limiano vem revelando sobre os erros da política de prevenção de incêndios é de bradar aos céus. Um verdadeiro escândalo. Uma vergonha. Um exemplo do caos governativo. Vejam aqui, aqui e aqui.

Publicado por José Mário Silva às 08:30 PM | Comentários (1)

EM TRÊS PALAVRAS

Título do Público: «Governo reduz expectativas de baixar o IRS». Mais valia resumirem logo tudo: Governo reduz expectativas, ponto final.

Publicado por José Mário Silva às 08:25 PM | Comentários (0)

QUIZ

«A verdadeira poesia é a que senta a beleza nos seus joelhos e lhe torce o pescoço.»
Quem é o autor desta frase?

Pista: o autor é uma figura conhecida e a frase foi publicada num jornal português, durante o mês de Abril de 2004.

Publicado por José Mário Silva às 08:22 PM | Comentários (3)

A CASA DA NOSTALGIA (3)

Há uma casa, algures nas cercanias de Trancoso, que dá guarida ocasional à minha família desde o Século XVI. Um edifício antigo demais e bruto demais para passar por solar elegante. Cheio de retratos de antepassados que desconheço, papel de parede pintado à mão e comido pela humidade, salões que já devem ter servido para animados bailes e que agora estão literalmente entregues à bicharada. Em suma, uma carga de despesas que um dia irá recair sobre os meus ombros pouco capazes.
Em miúdo, abominava esta casa. Os seus corredores tortos e infindáveis, o cheiro a coisas mortas que cada armário aberto libertava, o ar espesso de recordações alheias, de memórias que nada me diziam. À noite, pressentia sustos em cada cada ruído da madeira velha. E o Verão - dias e dias sufocantes a centenas de quilómetros do oceano mais próximo . era sempre ocasião de suplícios mil.
Agora, fujo para cá a cada oportunidade. O que antes me era estranho colou-se-me como uma segunda pele, envolve-me agora como um acolhedor casulo de pedra, ferrugem e madeira carcomida. Cada vez mais sinto esta ruína adiada como a minha verdadeira casa.
Será apenas mais uma manifestação da nostalgia galopante que me tem cometido nos últimos meses? Ou será antes a causa dessas anomalias? Será que uma casa, com o poder de séculos de recordações acumuladas, pode ser um foco infeccioso capaz de transformar assim quem passe tempo demais dentro dela?

Publicado por Luis Rainha às 11:56 AM | Comentários (24)

ELEIÇÕES? NEM SEI PARA QUE NOS INCOMODAMOS COM TAL COISA...

A encerrar a discussão na AR, Santana Lopes analisou assim o dilema em que Sampaio se esticou ao comprido: "a outra alternativa seriam as eleições, de que os senhores tanto gostam, mas que, mais ou menos flutuação, têm sempre o mesmo resultado." Sem comentários.

Publicado por Luis Rainha às 11:44 AM | Comentários (3)

DIGA O QUE DISSER, O MISTER ESTÁ SEMPRE CERTO

No DN de hoje, há uma caixa (no fim das páginas dedicadas à discussão do programa de Governo) em que Nuno Simas descreve o que se passou «nos corredores de São Bento». Está lá tudo: a subserviência, a idolatria e o seguidismo acrítico do povo laranja, prostrado aos pés do líder que passeou a sua recém-estreada pose de estado (e o seu eterno capacete de gel) pelo Parlamento, com 16 . sim, leram bem: dezasseis . guarda-costas atrás. Infelizmente, o link para a peça não está disponível. Mas deixo-vos o elucidativo primeiro parágrafo:
«Os rituais parlamentares têm destas coisas. Ainda o novo primeiro-ministro não tinha dito uma palavra do seu discurso . aquela frase "senhor Presidente, senhores membros do Governo, senhores deputados" . e já as bancadas da maioria . PSD e CDS/PP . se apressavam a aplaudir Pedro Santana Lopes. De pé. Todos? Todos não. A ex-ministra Teresa Patrício Gouveia, que criticou o processo de substituição de Durão Barroso por Santana Lopes, preferiu ficar sentada... Os deputados da coligação que trocou de primeiro-ministro a meio do mandato esforçaram-se por dar "sinais exteriores" de união na estreia de Santana. Mesmo sem saber o que ia dizer!»

Publicado por José Mário Silva às 11:27 AM | Comentários (4)

OS NEUTRINOS OSCILAM

Prometi física a sério na semana passada e aqui a têm. Não é nenhuma opinião de um teórico, como a de Stephen Hawking (pareço um daqueles meus amigos do CERN ou do laboratório de Brookhaven que ficam horas a fio a controlar aparelhos para medirem secções eficazes).
É verdade: seis anos depois da descoberta das oscilações de neutrinos (e da confirmação da sua massa), este fenómeno foi agora identificado directamente nos neutrinos atmosféricos, no caminho do Sol para a Terra. Uma explicação básica e concisa do fenómeno e das suas consequências pode ser encontrada aqui e aqui; um bom resumo é esta notícia do Público. Com isto confirma-se uma hipótese que tinha sido aventada pela primeira vez há 35 anos por Gribov e Pontecorvo e que permite explicar o défice no fluxo de neutrinos solares observado, quando comparado com o previsto teoricamente.
Como reagir quando foi confirmada uma teoria com 35 anos? Um físico teórico poderá encolher os ombros... No estado actual da Física fundamental, em que a teoria anda muito à frente da experiência, tornando-se muitas vezes especulativa (por dificuldades tecnológicas e de outros tipos em fazer experiências a uma escala de energia em que estes fenómenos se passam), esta é "mais uma" hipótese que acaba por ser confirmada. Com excepção do célebre bosão de Higgs (que ainda está em investigação e não está de forma alguma excluído), tudo o que as teorias sérias (ao ponto de durarem tantos anos sem nunca lhes ter sido detectada nenhuma inconsistência) previram foi detectado quando se esperava. (Não incluo aqui, e em nenhum lugar deste texto (quando fale de teorias) as célebres teorias supersimétricas e de supercordas. Vamos ver nos próximos anos, quando finalmente entrar em vigor o colisionador LHC no CERN.)
Mas como vêem eu sou optimista. O optimismo é uma qualidade essencial na Física Teórica. Einstein encolheu os ombros quando a relatividade geral foi confirmada e disse que, se não tivesse sido esse o resultado, a experiência estaria errada. Paul Dirac deduziu a sua célebre equação quântica relativista para o electrão com base em princípios puramente estéticos, sem se preocupar com a existência de antimatéria (que a sua equação previa, muito antes de ser detectada). Em contrapartida, cientistas como Schroedinger e o próprio Einstein, a partir do momento em que se tornaram cépticos, nunca mais produziram nenhum resultado científico de relevo.
Mas ser optimista não significa nem deixar de ter os pés assentes na terra e nem ser arrogante ao ponto de menosprezar uma grande (e excitante) descoberta experimental. Sinto-me como quando ia para as aulas de laboratório de mecânica. O professor brincava comigo e dizia "lá está o teórico todo contente porque a teoria funciona". Na prática, o que se descobriu agora não passou de uns números de um detector, de uns gráficos de um computador. Mas é uma grande descoberta que dará seguramente um prémio Nobel daqui a uns anos. O Zé Mário que me desculpe, mas para mim isto é muito mais excitante do que os anéis de Saturno.

Publicado por Filipe Moura às 09:19 AM | Comentários (12)

julho 27, 2004

A CASA DA NOSTALGIA (2)


"Mistério e Melancolia de uma Rua" de Giorgio de Chirico, 1914

Quando comecei a desconfiar que o império da nostalgia não encontrava fronteiras traçadas nos mapas das ideologias, decidi que era problema clínico relacionado com a idade. Mais uma vez, o dispositivo parecia infalível na sua limpidez: os jovens sonham com o futuro que ainda querem ajudar a construir; os velhos, cientes que afinal não ajudaram grande coisa, limitam-se a sonhar com dias em que tudo era melhor.
Mais do que provavelmente, não tenho razão nenhuma. Mas, no que me diz respeito, a tese geriátrica parece um êxito absoluto: tantos ataques agudos de nostalgia tenho sofrido que até temo que me esteja a transformar, desde que passei o cabo dos 40, numa criatura de direita!
Eu cresci com paixões ferozes por Ficção Científica, Comunismo, Ciência, Arte Contemporânea e tudo o mais que me parecesse atalho seguro para o Futuro . assim mesmo, a cantar com maiúscula. Agora, dá-me mais prazer mirar o futuro como era há umas décadas, revendo episódios bolorentos do "Star Trek"; agora, leio fiadas de biografias sobre imperadores romanos; agora, deixo os discos do Boulez a coleccionar pó enquanto ouço mais uma dúzia de vezes o "Pelléas et Mélisande". (Mas a maleita já há muito dava sinais que eu devia ter entendido: o meu amor desordenado pelas colagens novecentistas de Ernst, pelas praças clássicas de Giorgio de Chirico, pelas assemblages nostálgicas de Cornell, pelos monumentos saudosos de Kiefer.)
Neste dias, tenho nostalgia de tudo. Sinto saudade de tempos e paragens que conheci ou que apenas imagino: a minha infância, o Império Bizantino, Paris dos anos 20, o tempo dos meus trisavós, os dias do 25 de Abril, sei lá.
Tranquilizem-me: não sou caso único, pois não? Há por aí, no mundo real, muita gente de esquerda doente de nostalgia em último grau. Não há?

Publicado por Luis Rainha às 10:31 PM | Comentários (9)

UM SINAL

Ao reeditar «Michael Kohlhaas, o Rebelde», de Heinrich von Kleist, na tradução de Egito Gonçalves, a Antígona escolheu uma capa em que o apelido do autor surge, pairando sobre uma gravura apocalíptica de Dürer, num veemente verde alface. Desculpem lá, amigos, mas isto não pode ser uma mera obra do acaso.

Publicado por José Mário Silva às 08:23 PM | Comentários (2)

A CASA DA NOSTALGIA (1)

Nostalgia s. f., melancolia, abatimento profundo de tristeza, causado pelas saudades do lar ou da pátria.

Se algum estado de espírito existe que seja decididamente político, será por certo a nostalgia. "Nóstos", ao que parece sinónimo de "regresso", foi palavra usada por Homero. Nesses dias, "Algía", plural de "álgos", significava "desgosto". Há quem assegure que a expressão "nostalgia" foi primeiro usada, ainda entre os gregos, como diagnóstico médico para a intensa e quase debilitante saudade de casa sentida pelos mercenários suíços...
Assim se vê que o conceito de Nostalgia teve, logo desde a sua origem, uma forte ligação à ideia de nacionalidade. Mas aquele não tardou muito até se autonomizar das ideias de "lar ou da pátria"; da antiguidade clássica aos impérios novecentistas, tudo serviu para modelar um ou outro passado idealizado ao qual se lançaram as âncoras de afectos imaginários. Já que estamos no BdE, tenho de dizer que até Marx nos deixou o seu veredicto sobre este problema, a propósito de Louis Bonaparte. Não resisto a deixar aqui três pequenas citações: "A tradição de todas as gerações mortas pesa tremendamente nos cérebros dos vivos"; "a revolução social do século XIX não pode retirar a sua poesia do passado mas apenas do futuro"; "Hegel escreveu algures que todos os grandes factos da história mundial aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu-se de acrescentar: da primeira vez como tragédia, da segunda como farsa." (Uma excelente caracterização do que acontece quando a nostalgia consegue agarrar as rédeas de um país...)
Apesar desta história distinta, a cultura popular reduz muitas vezes a nostalgia à condição de sentimento apolítico; sinónimo de "saudade" e nada mais. Isto não impede que ela continue a ter um lugar central no imaginário de várias causas políticas, sendo motor de rupturas e justificação de apego a legitimidades díspares, algumas já tão difusas que pouco mais são que folclore utilitário. Das "cruzadas" dos supremacistas brancos, apostados em reconstruir um mítico passado de pureza étnica, aos sonhos de um mundo islâmico imperfeitamente decalcado de antigos impérios, passando pelas saudades que hoje o comunismo já desperta em muitos jovens da Europa de Leste; sem esquecer os sonhos imperiais de Tony Blair . com as suas subtis evocações do mundo vitoriano - e dos sionistas de Jerusalém, sempre a tentar propiciar a chegada do dia do reencontro com Javé.
Na minha santa ingenuidade, cresci convencido que a nostalgia era um sentimento de direita; uma mania exclusiva dos conservadores. A coisa até fazia sentido: se a esquerda desejava transformar o mundo, deixava a quem apenas o queria gerir, em suaves incrementos qualitativos, as saudades de passados mais ou menos idealizados, de tempos em que cidadãos puros e cumpridores seguiam regras fáceis de entender.
Hoje, já pouco disto me parece assim tão claro. Autores como Warren Magnusson dizem-nos que a política da nostalgia é um anseio pelo estado soberano enquanto veículo da social-democracia, do comunismo revolucionário e do nacionalismo; que já lá vão os dias em que o conservadorismo subjacente à nostalgia era propriedade exclusiva da direita. Mas nem é preciso ler coisa alguma para chegar às mesmas conclusões: entre os ímpetos revolucionários dos neocons americanos e os impasses ideológicos em que quase toda a esquerda europeia caiu hoje, incapaz de esquecer os dias em que o capitalismo não se tinha imposto como paradigma quase inquestionável, onde terá o primado da Nostalgia direitos soberanos? Pois.
Estas elucubrações mais ou menos políticas vieram-me à cabeça por motivos pessoais. Pode ser que nas próximas horas arranje tempo para me tentar lembrar porquê...

Publicado por Luis Rainha às 08:12 PM | Comentários (4)

O VERÃO EM PORTUGAL

Pois. Não devia ser isto. Mas é isto.
Labaredas, fogo sem controlo, terra queimada.
Desgraças em todo o lado: da Arrábida a São Bento.

Publicado por José Mário Silva às 08:09 PM | Comentários (6)

EU SEI QUE O BARNABÉ ESTÁ A MEIO GÁS, QUASE FECHADO PARA FÉRIAS...

... mas confesso que me faz confusão vê-lo assim, tão magrinho.

Publicado por José Mário Silva às 06:19 PM | Comentários (5)

APELO DAS AUTORIDADES

Desapareceu de casa de seus pais o indivíduo José Barroso. No dia do desaparecimento envergava uma túnica e uma peruca de longas melenas, ambas guardadas desde os tempos da faculdade de direito. Suspeita-se que tenha levado consigo uma secretária de mogno roubada nos tempos do PREC e uma dita "gravata da sorte" tecida pelo comendador Gilberto Madaíl. Este indivíduo sofre de perturbações mentais e julga-se importante na União Europeia.
Qualquer informação sobre o seu paradeiro deve ser enderaçada à empresa Somague Construções, que neste momento já está a erigir as pontes entre ricos e pobres. O primeiro troço Curraleira-Quinta da Marinha já está adjudicado a uma empresa cujo nome não me lembra agora mas que faz todos os trabalhos de construção nos bairros sociais de Lisboa desde a chegada da tropa da Lisboa Feliz. Teve a Felicidade de ganhar todas as propostas da Gebalis, também conhecida pelos moradores como José Valis, Gebales, Cibal, Givalis, entre outras. Imbuído deste espírito, José Barroso já exigiu para Bruxelas uma LX on ice é nice, já que o pequeno manneken também quer patinar.
Embora não ande armado, trata-se de um indivíduo PERIGOSO.
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 02:54 PM | Comentários (13)

AFINAL, SANTANA LOPES SEMPRE TEM PENSAMENTO ESTRATÉGICO

O presente governo ia ser mais pequeno que o anterior. Afinal, até é maior. Atenuante apresentada por Santana Lopes? "Fiz algumas pesquisas e sei que já houve governos bem maiores."
A amiga de Portas, corajosa filha e neta de militares, andou em bolandas de sinecura para sinecura, atrasando a tomada de posse dos secretários de Estado? Não há crise: "Andei a informar-me e descobri que até já houve atrasos maiores nestas cerimónias."
Hoje mesmo, na AR, a propósito dos incêndios que lá nos vão reduzindo a cinzas: "No ano passado, por esta altura, já tinha ardido mais."
Resumindo: Santana não ambiciona ser o melhor, ou sequer atingir alguma espécie de excelência. A ele, basta-lhe não ser o pior de sempre; chega-lhe conseguir encontrar algures exemplos de incompetência ainda mais flagrante. Quando Portugal desatar a acelerar a sua queda livre em todos os índíces relevantes, teremos por certo Santana na TV, acalmando o seu eleitorado com a fórmula mágica: "Olhem que andei a investigar e descobri que o primeiro-ministro da Albânia até é bastante mais tosco do que eu!"

Por favor, quem falou ao homem em benchmarking que lhe explique o mais depressa possível que a ideia não era esta...

Publicado por Luis Rainha às 01:05 PM | Comentários (6)

OK, ADMITO QUE ALIMENTEI ESPERANÇAS

Segundo o DN, uma fábrica foi «violentamente consumida pelas chamas» em Paço d'Arcos, no domingo à noite. Paço d'Arcos, caso não saibam, é onde fica a toca do RIAPA.

Publicado por José Mário Silva às 11:20 AM | Comentários (1)

LEITURAS: GEORGE JOFFÉ

Nas escassas horas por dia em que a edição electrónica do DN está disponível, vale a pena ler a entrevista (publicada ontem) de George Joffé, antigo director-adjunto do Royal Institute of International Affairs e hoje professor convidado do Kings College de Londres (apesar de o entrevistado nunca vir identificado, como é hábito na edição electrónica do DN, com um pouco de pesquisa chega-se lá). Joffé é especialista em relações internacionais no Médio Oriente. Vale a pena ler a sua perspectiva sobre a situação no Iraque e o conflito israelo-palestiniano, mesmo que possa não se concordar com tudo (e eu não concordo).

"Derrubar de forma incompetente um regime, ser incapaz de reconstruir de forma eficaz as infra-estruturas básicas do país é uma receita para garantir o caos. E foi isso o que os EUA fizeram. Os americanos e os britânicos não foram eficazes e o preço muito elevado por não o terem sido, não é pago tanto por eles mas pelos iraquianos."

"O plano [de Sharon] é bastante simples: sabe perfeitamente que a Faixa de Gaza não tem qualquer interesse e é difícil de manter. Rabin já o sabia; a retirada de Gaza há muito que fazia parte dos planos dos trabalhistas e do exército. O que Sharon está a fazer é aceitar a verdade - controlar Gaza é uma tarefa impossível e os custos não se justificam - e a ideia inteligente é usar isso para justificar a apropriação de território na Cisjordânia. (...)
Sharon compreendeu o que os demógrafos israelitas já tinham percebido há muitos anos: a alta taxa de natalidade entre os palestinianos significa que com o tempo Israel tornar-se-á um Estado judaico onde os judeus estão em minoria. (...) Sharon tenta libertar-se de um milhão de palestinianos em Gaza para lhe dar mais tempo para impor uma solução no resto dos territórios. Porque não retira da Cisjordânia? Porque não pode mover 120 colonatos e 14 mil colonos, mas pode mudar 6700 colonos de Gaza. E na Cisjordânia encontra-se a maioria dos locais sagrados judaicos, mais do que em Israel."

Publicado por Filipe Moura às 10:56 AM | Comentários (0)

LEITURAS: SÃO JOSÉ ALMEIDA

Dois bons artigos publicados este fim de semana no Público. No sábado, numa análise da situação política, a autora conclui que a tão falada "mediatização excessiva" do poder, com "políticos de televisão", não é mais do que o medo da geração dos amigos de Baptista Bastos (esta designação é minha) de perder a tutela que tem vindo a exercer sobre a política portuguesa. Com efeito, a confirmar-se a ascensão de José Sócrates à liderança do PS, pela primeira vez os líderes dos dois principais partidos andavam no liceu no 25 de Abril, não tendo nenhum envolvimento político relevante durante o regime fascista (no caso de Sócrates, nem mesmo no PREC).

"Santana, ainda que de forma pouco profunda e sistematizada e em estilo de catadupa de ideias dispersas e aleatórias, é um político na linha liberal, conservadora. Já Sócrates em toda a acção governativa que até hoje desempenhou - é certo que sempre sob orientação de Guterres - assumiu medidas radicais até, inovadoras algumas, mas sempre na tradição da social-democracia ou do socialismo democrático, quer fosse no ambiente, na defesa do consumidor ou no combate à toxicodependência.
No fundo, é a luta política democrática nas novas formulas geracionais do Portugal democrático, com o nível de políticos que o sistema partidário criou e com a classe política que o país tem, mas isso é outro problema e é transversal a gerações. Mas também na nova geração há do melhor e do pior, tal como anteriormente houve políticos sérios e políticos corruptos. Ou seja, nem toda a gente que está na casa dos quarenta anos ou abaixo deles agradece convites para lançamentos de livros ao Machado de Assis e aprecia concertos para violino de Chopin.
"
O tempo não pára...

No domingo, a autora discorre sobre as razões da declaração de luto nacional pela morte de Carlos Paredes, mas não por Sophia de Mello Breyner ou Lurdes Pintasilgo. A ler.

Publicado por Filipe Moura às 10:52 AM | Comentários (3)

OFÍCIO DE JARDINEIRO

Todas as manhãs, quando abro o computador, elas estão lá. Espalhadas pelos posts, à espera de serem arrancadas. As ervas daninhas.

Publicado por José Mário Silva às 10:47 AM | Comentários (5)

julho 26, 2004

OS ANÉIS DE SATURNO (AGORA A CORES)

Foi a sonda Cassini-Huygens quem os captou assim, coloridos e esplendorosos. E digam-me: não parecem espiras de um disco vinil? Estará ali guardada, em registo analógico, a tão procurada música das esferas?

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (9)

SINAIS DOS TEMPOS

Hoje, no jornal «Público», a coluna onde são referidos outros órgãos de comunicação social ("Diz-se") traz uma escolha de 10 citações. Dessas 10 citações, três são de blogues (duas do Causa Nossa; uma do Abrupto) e três da Visão Online. Ou seja, mais de metade dos comentários escolhidos foram feitos na internet e não nos círculos habituais (imprensa e TV). Isto há-de querer dizer alguma coisa.

Publicado por José Mário Silva às 11:43 PM | Comentários (3)

F

Começa daqui a nada (22 horas), na Abril em Maio: «F de Falso» («F is for Fake»), um delirante documentário ficcionado de Orson Welles, sobre o mercado da arte, o talento dos falsários e a ténue fronteira que separa a verdade da mentira. Garanto-vos: é uma obra-prima tardia e abastardada do grande mestre. Uma falsificação deliciosa. Um grand finale (ou perto disso) barroco, excessivo, capaz de nos trocar as voltas.
O que esperam vocês, aí especados? Levantai-vos. Ide. Aproveitai.

Publicado por José Mário Silva às 09:05 PM | Comentários (3)

ALERTA LARANJA

Com Santana Lopes a brincar aos primeiros-ministros, à frente de um Governo instantâneo (como os pudins), hipertrofiado e aleatório, vai ser ainda cada vez mais difícil encontrar alguém que ponha travão ao descaramento insular de Alberto João Jardim.
Ainda ontem, fazendo tábua rasa de todos os abusos orçamentais dos últimos anos, o ogre do Funchal disse em Chão da Lagoa, no seu estilo truculento (e sem se desmanchar), que o continente deve «26 milhões de contos à Madeira»...
E isto, meus amigos, é só o princípio.

Publicado por José Mário Silva às 08:57 PM | Comentários (6)

QUESTÕES DE PASTELARIA

OK, Manuel, a malta não falou nisto. Ainda bem - a sério, ainda bem - que tu chamas a atenção para esse assunto. (Faço um reparo, no entanto: os municípios do PCP eram zonas livres de armas nucleares e não - no slogan - de nuclear; eram ZLAN e não ZLN. Há uma grande diferença.) Ainda assim tens razão em apontar o cinismo de Paulo Portas e o mérito do PEV. Só acho que não tens razão, ou pelo menos não toda, ao generalizares a tua crítica aos blogues de esquerda...
Falando no BdE, a malta aqui teve - e tem - o ataque da RIAPA, a malta teve de falar de outras coisas importantes como o cabelo dos buracos negros e, mais importante, a malta não é nenhuma agência noticiosa. Não temos tempo para falarmos de tudo o que queríamos, e depois é Verão... Temos direito de estarmos preocupados com o Hugo Viana (tu também estás preocupado com o Mantorras, não é?). Repito: acho que tens razão na tua crítica, mas não no modo exagerado como a formulas. Vai pegar umas ondas que isso passa-te.

Publicado por Filipe Moura às 11:31 AM | Comentários (4)

WAITING FOR LANCE

Place de la Concorde, Paris. Uma pequena multidão (umas trezentas pessoas - eu não sou jornalista, porém), americanos na sua esmagadora maioria, fazem a festa e aguardam pelo seu ídolo, Lance Armstrong. Vêem-se várias bandeiras americanas e uma carrinha da NBC. Ri-se, grita-se, trocam-se fotografias e endereços, combinam-se bebedeiras para esta noite. Vêm de vários estados diferentes, uns simplesmente por turismo, uns para estudar no verão, e uns somente para acompanhar o Tour. Há quem grite pelo Texas, a terra natal de Lance. Há quem, como o vetusto senhor dono da gigantesca bandeira na figura, ao ouvir falar em Texas grite Fuck Bush! e Lance for President!, sendo apoiado por outros presentes.
Uma vez por ano, Paris torna-se americana. Já vai sendo hábito.

Publicado por Filipe Moura às 11:14 AM | Comentários (3)

Doentes que nos invadem

Uma análise não exaustiva aos ips dos comentários postados pela seita auto intitulada de riapa, permite concluir que é uma família muito gregária, pois distribui-se em três no máximo conjuntos de "heterónimos" que podem, caso a necessidade de uma discussão obrigue (ver no post "nó górdio" abaixo os casos do "historiador" e o "fascista", etc...) defender posições contraditórias dando assim a ideia de que "são muitos". Tácticas já ensaiadas desde há muito tempo e inspiradas em insignes libertários como os pides.
Eis uma lista provisória de "pessoas" que partilham o mesmo computador:
Endereço 1
-Grilo
-Tubarão
-Historiador
-Mac Macléu Ferreira
-Fascista
-Paula Bicos
-Julia Campos
-Verdade Suprema
-Árabe Bygornas
-Tita dos Pés sujos
-Bigornas
-Zé do Fotógrafo
-RIAPA
-Riapa
-Avante Comandante Guelas
-Brigada Comandante Guelas
-Exército Comandante Guelas
-Mocho
-Lili Caneças

ou seja, dezanove "pessoas" na mesma casinha todas a comentar aqui para o blog que nem os Anõezinhos da Branca de Neve.

Endereço 2
-guelas ou
-comandante guelas
.

Endereço 3
- a família anhuca.

3 Amiguinhos teimosos como os três porquinhos que vão pela certa continuar a divertir-nos, mas que acabarão por compreender que o melhor que têm a fazer é meter as caudazinhas entra as pernas e bazarem para a sua toca-de-sapos.
Até lá as minhas desculpas aos restantes visitantes e comentadores.

Publicado por tchernignobyl às 02:06 AM | Comentários (15)

julho 25, 2004

PORTUGAL: NÃO EXPOR A TEMPERATURAS SUPERIORES A 30 GRAUS

Olho para a TV e vejo chamas; olho pela janela e vejo o céu cheio de fumo. Será que nada adianta? Vão e vêm governos, tomam posse mais especialistas, anunciam-se sucessos na prevenção... tudo para que, mal chega o calor, o país desate a arder como costume.
A única coisa que me espanta é ainda não ter visto Santana Lopes de capacete de bombeiro na cabeça, mangueira nas mãos e um cacho de microfones pela frente.

Publicado por Luis Rainha às 08:36 PM | Comentários (7)

POR CIMA DA DESGRAÇA, A ASNEIRA

Ouvido há minutos, no noticiário da RTP 1: "As chamas estiveram muito perto das habitações. Quatro casas arderam."

Publicado por Luis Rainha às 08:30 PM | Comentários (4)

LUZ VERMELHA

Como certos aparelhos eléctricos, eu também começo a dar o berro quando a temperatura sobe demais. Acima de 40º, kaput. Fico out, sem resposta, KO. Desculpem o mau jeito, mas a partir de agora fico mesmo off-line. Se precisarem de mim, estou no congelador, entre as postas de pescada n.º 5 e a embalagem de macedónia.

Publicado por José Mário Silva às 08:22 PM | Comentários (1)

AFORISMO LITERAL

Com a ascensão de Santana Lopes e José Sócrates aos lugares de topo dos respectivos partidos, constatamos que, nos dias que correm, os aparelhos partidários estão condenados a seguir a programação dos aparelhos televisivos.

Publicado por Luis Rainha às 08:15 PM | Comentários (5)

TOTOTOLO

Como previam os mais pessimistas, o governo de Santana Lopes já está a dar que falar: ele é jigajogas de última hora com secretários de Estado, um discurso de posse incompreensível, deslocalizações inexplicáveis, avanços e recuos a propósito de tudo e de nada, o diabo a sete. E a coisa conta com meros dias de vida!
Sei que se trata de um esforço arriscado, quase certamente votado ao fracasso. Mas não quis deixar de tentar. Num audacioso exercício de futurologia política, vou aqui prever as próximas medidas que o glorioso líder vai extrair do seu crânio coroado de gel.
Daqui a dois anos, veremos quantas acertei. Para tornar a coisa mais interactiva, podem os estimados leitores assinalar as que julgam mais prováveis e sugerir outras. Quem sabe se Santana Lopes, sempre à cata de ideias inovadoras e surpreendentes, não nos tem debaixo de olho... ainda vamos acabar por contribuir para muita "inspiração" das luminárias que nos governam!
Assim sendo, tenho como certo que estas vão ser as grandes linhas-mestras da acção governativa de Santana Lopes:

1- Todos os ministérios sairão enfim do Terreiro do Paço. Este será convertido num gigantesco salão de bingo.
2- Três meses antes das próximas eleições legislativas, eliminará o IRS, baixará o preço do tabaco e legalizará os bordéis.
3- Proporá uma emenda à Constituição para permitir que o primeiro-ministro possa ser, ao mesmo tempo, Presidente da República.
4- Falhando a medida anterior, vai apresentar Alberto João como candidato presidencial.
5- Mudará o ministério dos Negócios Estrangeiros algures para o estrangeiro.
6- Cinha Jardim será a próxima presidente da Cruz Vermelha.
7- Ainda neste Verão, arregimentará à força todos os arrumadores de Lisboa para vigiar as florestas. Como consequência imediata, os fogos triplicarão.
8- Dando seguimento a um seu sonho antigo (isto é verídico), reduzirá os impostos a que as casas de fados estão sujeitas. Quem faz "cultura para elites", que se vire sozinho.
9- Promoverá uma OPA amigável sobre o PP. Como contrapartida, Paulo Portas receberá duas ilhas dos Açores.
10- O INE será extinto. Os números sobre a nossa economia passarão para a alçada do gabinete da astróloga Maya.
11- Permitirá que os seus ministros levem a cabo MBOs sobre bens das áreas que tutelam. Telmo Correia ficará assim proprietário da Praia dos Tomates e Paulo Portas terá, finalmente, um submarino - com respectiva tripulação . só para si.
12- Para evitar mais confusões entre políticos e tribunais, o cargo de juiz passará a ser de nomeação governamental.
13- Declarará guerra a qualquer país na mira dos EUA, ainda antes que estes o invadam. A França perfila-se como alvo n.º1.
14- O problema do desemprego vai ser resolvido com um golpe de génio: quem permanecer por mais de seis meses sem emprego perde a cidadania portuguesa e é expatriado para S. Tomé e Príncipe.

Publicado por Luis Rainha às 08:11 PM | Comentários (12)

julho 24, 2004

O ÚLTIMO ADEUS

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Talhão dos artistas do cemitério dos Prazeres. 16h30. Depois de dez minutos de aplausos e lágrimas, Carlos Paredes desce à terra. Punhos no ar. Cravos. Alguém grita: «Até amanhã, camarada!». Alguém exclama: «Viva a Liberdade!» O calor sufoca a cidade e os amigos, tão tristes.

Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (1)

O CENTAURO

Carlos Paredes e a guitarra fundiam-se, muitas vezes, num mesmo corpo.
Eduardo Lourenço recorda-o, num texto publicado hoje no Público:

«Quem ouviu alguma vez tocar Carlos Paredes, quem assistiu ao espectáculo, ao recital em forma de luta e pose entre a sua arte e o instrumento que entre os seus dedos adquire uma vida mágica, não esquece a espécie de fusão, de confusão íntima entre o artista e a sua guitarra, como se ele emanasse dela ou ela, sobrenaturalmente, se transformasse nele.»

Publicado por José Mário Silva às 07:09 PM | Comentários (0)

AS DEZ MÚSICAS DE CARLOS PAREDES QUE PREFIRO

1- Sede e Morte
2- Acção
3- Canção Verdes Anos
4- António Marinheiro
5- Raiz
6- Mudar de Vida
7- Canção de Alcipe
8- Movimento Perpétuo
9- Dança dos Montanheses
10- Porto Santo

Publicado por José Mário Silva às 07:05 PM | Comentários (0)

NEM CARCAVELOS, NEM CASCAIS

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É mesmo a Feira da Ladra, hoje de manhã.

Publicado por José Mário Silva às 03:00 PM | Comentários (8)

A BLOGOSFERA ENQUANTO TERRITÓRIO PROPÍCIO À AUTO-DESCOBERTA

Às primeiras horas do dia de hoje, descobri, numa humilde janela de comentários de um osbcuro blogue mais ou menos "político", muita coisa que ainda desconhecia acerca de mim mesmo. Fiquei a saber que "sou do Bloco de Esquerda"; que escrevo num blogue que também "é" do BE; que vejo "impecilhos" nos "factos"; que sou "desonesto", "bronco" e que, pior ainda, tenho no prof. Boaventura Sousa Santos o meu "guru".
Estas revelações nocturnas tiveram outras facetas nigérrimas: descobri que consigo perder a calma sozinho à frente de um computador; que sou capaz de insultar uma senhora que nem sequer conheço. E, last but not least, descobri que confundo a feira de Carcavelos com a de Cascais.
Agora, nem sei por onde começar a indispensável penitência.

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (26)

Tirar a cabeça da areia

Este novo Governo, jovem de apenas uma semana, tem já um curriculum de ridículo difícil de invejar sim, mas um ridículo que atinge toda a geração dos anos 60/70 a tal que gosta de vangloriar-se da superioridade das suas vivências relativamente às seguintes.
Este é o produto "possível" no momento da assunção plena das responsabilidades de direcção do país por parte dessa geração.
Não interessa que muitos foram os que se afastaram por isto ou por aquilo, ou mesmo porque não têm pachorra para transigir com o sistema.
É esta a borra que ficou à tona. E aposto que todos adoram a musica dos anos sessenta, os Beatles, os Rolling Stones, e o "em Órbita", alguns tiveram um dois cavalos, andaram à boleia e tudo.
Pode dizer-se em jeito de consolaçãozinha, que reflecte sobretudo o que é hoje a direita em Portugal, intelectualmente de rastos e à mercê do desenrascanço mais imediatista, com as suas possíveis referência mais sólidas e credíveis fora do baralho disponível no momento:
O Cavaco em sabáticas preparando o doutoramento presidencial e o Pacheco, marginalizado ou de molho enquanto dirigente partidário, sem que a sua visibilidade quase ubíqua, garante de um "sucesso de estima" junto dos "intelectuais", lhe assegure os favores da maioria dos militantes ansiosos por resultados "palpáveis" e "pulpáveis" como qualquer adepto desportivo.
Mas o consolo não serve de muito; em termos de "classe política" parece ser pouco o que separa os dirigentes dos vários quadrantes com possibilidades práticas de governar o país, e muito o que os une em termos "culturais".
Bem mais grave porém, é tentar vislumbrar como quem virá a seguir conseguirá melhor, contemplando as possibilidades de regeneração por parte das gerações seguintes afogadas em competências nas áreas do "marketing" do "turismo" na "publicidade" e na "gestão".

Publicado por tchernignobyl às 11:50 AM | Comentários (7)

Intervenção Humanitária- que quadro?

Situações como a que se vive em Darfur levantam de novo uma questão que tem sido algo esquecida.
A questão da legitimidade da intervenção humanitária em situações de extrema violência e selvejaria.
Para que não tenhamos um novo Ruanda a lamentar daqui a mais dez anos.
Ok, são zonas inóspitas, remotas e pouco frequentadas do globo, mas neste momento é impossível ignorar.
Não será melhor que os defensores dos direitos humanos e os partidos, organizações de esquerda e até os governos de esquerda tomem desde já uma posição sobre isto, de uma forma "pro-activa" em vez de esperar uma hipotética proposta do outro lado para agirem de uma forma "reactiva"?

Publicado por tchernignobyl às 11:26 AM | Comentários (2)

Darfur, entre o 8 e o 80

A comunidade internacional e os seus dirigentes têm feito tudo para desacreditar o conceito de intervenções humanitárias.
Os desenvolvimentos dos últimos anos mostraram como os especialistas em marketing político vampirizaram totalmente o conceito e o transformaram num monstro informe que alberga intervenções caracterizados pelo dizimar de populações inocentes e a admissão da tortura como forma válida de comportamento em teatros de guerra.
As alternativas possíveis são a força bruta com objectivos políticos inconfessáveis e a passividade total.
Mas será que é possível que a comunidade internacional continue passiva perante a situação em Darfur no Sudão?
O que faz a ONU?
O que faz a Europa?
O que fazem os Estados Unidos?
O que fazem os Países Árabes?
O que fazem os Países Africanos?

Publicado por tchernignobyl às 11:15 AM | Comentários (4)

O TONTO-MOR JÁ TEM RESIDÊNCIA DE FÉRIAS

Para lá da trasladação de algumas secretarias de Estado para locais escolhidos mais ou menos ao calhas (Braga tem estudantes, leva com a Juventude; Évora tem uns monumentos, fica com os Bens Culturais; e por aí fora...) o nosso Desgoverno vai reservar, no Porto, "instalações, nas quais o primeiro-ministro e os diferentes membros do Governo, por períodos regulares, desempenharão a sua normal actividade".
Não bastavam as despesas disparatadas que se adivinham ao virar da esquina, associadas às iminentes migrações de notáveis e seus séquitos. Agora, o próprio Santana vai poder, quando o ennui da capital o aborrecer de morte, passar uns diazitos por ano na Invicta; o palácio de férias estará lá, quentinho e sempre limpo, pronto para receber Sua Excelência.
Esta ideia de descentralização lembra-me um faraó que, incapaz de colocar pirâmides em todas as províncias, se limita a transportar as pedras cimeiras de algumas já existentes. Depois, anuncia umas excursões aos seus domínios mais longínquos. E aguarda sorridente os aplausos da populaça periférica, que só tem mesmo é de ficar agradecida por tanta preocupação do atencioso suserano.
Confirma-se o que já parecia óbvio: estamos entregues à bicharada.

Publicado por Luis Rainha às 01:37 AM | Comentários (10)

Nó górdio

Leio com interesse o blog Rua da Judiaria , um excelente blog por quem tenho simpatia apesar de muito longe quanto às interpretações do conflito israelo-palestiniano.
Quase que percebo os dilemas com que se confronta o Nuno Guerreiro.
Por um lado afirma-se como uma pessoa de esquerda e acredito que o seja, mas quando analisa a situação em Israel ele bem se esforça por ser humano e pesar os prós e os contras mas acaba sempre sem outra saída que não seja o justificar a política israelita e em particular as medidas do Sharon, como uma inevitabilidade do destino.
Neste post tenta fazer a destrinça entre o muro mau e o muro bom.
O bom, a jaula vergonhosa que os israelitas estão a fazer para encerrar uns milhões de palestinianos num guetto.
Se o outro muro diz ele, O MURO da VerGONHA, era para impedir as deserções, este é para impedir a entrada dos terroristas.
Eu sugiro que o Nuno reveja urgentemente o "adeus Lenine" mas sem a perspectiva tranquilizadora dos que nele não vêem mais do que uma critica demolidora a uma situação localizada.
Diz ele que muita gente de esquerda em Israel apoia o muro, apenas desejaria um outro traçado. Bom, se muita gente de esquerda o apoia já é meio caminho andado para a legitimação do muro, podemos ficar tranquilos com o muro e a gente de esquerda.
Em Israel a justiça funciona e nalguns pontos o traçado do muro já foi "corrigido". Mais um terço do caminho andado, continuamos tranquilos.
O mundo condena Sharon (com a inevitável excepção dos neoconservadores americanos) ?
Pois isso apenas reforça Sharon, porque dá aos israelitas uma sensação de isolamento: quer dizer, o mundo não pode fazer nada, nem condenar mesmo que seja simbolicamente, há que aceitar e calar. (o mundo condenou o Saddam, a ONU aplicou sanções que fizeram sofrer mais os iraquianos do que o Saddam, mas aí ninguém se preocupou com a possibilidade do mesmo tipo de "reforço").
O Nuno não analisa esta possibilidade mas ao aceitar e calar, o mundo legitimaria mesmo que simbolicamente o Muro.
Ou seja o Muro é uma inevitabilidade.

O único a "lamentar" esta situação "necessária", o único com legitimidade para fazê-lo? O Nuno Guerreiro e todos aqueles que não gostam do Sharon mas.... a mensagem que passam é a de que: eu detesto o meu primo mas se o atacarem é como se me atacassem a mim.

Não ocorre ao Nuno uma coisa simples que evitaria todo este sururu. O fim da ocupação dos territórios palestinianos e o fim do encorajamento ao estabelecimento de colonatos judaicos .

Publicado por tchernignobyl às 01:34 AM | Comentários (27)

julho 23, 2004

K. (ATRAVESSANDO AS PALAVRAS)

«Só existe um destino, nenhum caminho. Aquilo a que chamamos caminho é hesitação.»

***

«Apenas uma palavra. Uma súplica apenas. Apenas uma aragem. Apenas uma prova de que ainda estás vivo e à espera. Não, nada de súplicas, apenas um respirar, respirar não, apenas estar pronto, estar pronto não, apenas um pensamento, um pensamento não, apenas o sono tranquilo.»

***

«Desvio-me do caminho.
O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada a grande altura, mas muito próxima do chão. Parece estar ali para nos fazer tropeçar, e não para que se passe por cima dela.»

***

«O que eu toco desfaz-se.»

***

«Para evitar um erro de palavras: o que vai ser destruído pela acção tem de ter estado antes muito bem seguro; o que se esboroa, esboroa-se, mas nada pode ser destruído.»

***

«Nada disso . atravessando as palavras há restos de luz.»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 08:32 PM | Comentários (2)

O TIMONEIRO

«"Não sou eu o timoneiro?", gritei eu. "Tu?", perguntou um homem de perfil sombrio e grande estatura, passando a mão pelos olhos como se afugentasse um sonho. Eu estava de serviço à roda do leme naquela noite escura, a lanterna de luz frouxa por cima da minha cabeça, quando apareceu aquele homem a querer empurrar-me. E como eu não cedi, ele pôs-me o pé sobre o peito e obrigou-me lentamente a ir ao chão, enquanto eu ainda continuava agarrado ao meão do leme, levando-o a dar uma volta completa ao cair. Mas o homem segurou-o, recolocando-o na posição certa, enquanto me empurrava a mim. Eu, porém, recompus-me depressa, corri até à escotilha que dava para a sala da tripulação e gritei: "Tripulação! Camaradas! Venham depressa! Um estranho obrigou-me a deixar o leme!" Eles foram vindo, devagar, subindo pela escada, figuras vacilantes, cansadas, pesadas. "Eu não sou o timoneiro?", perguntei. Eles acenaram que sim, mas só tinham olhos para o forasteiro, dispuseram-se em semicírculo à sua volta, e quando ele ordenou com voz imperativa: "Não me perturbem!", entreolharam-se, acenaram-me com a cabeça e voltaram a descer a escada. Que gente esta! Será que têm cabeça e pensam, ou passam só de raspão, e sem saber como, por esta terra?»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 08:19 PM | Comentários (1)

LONGA VIDA (NO CIBERESPAÇO) AO GRANDE LÍDER!

Graças ao zedtee, dei há pouco com o site da Coreia do Norte. Como compreenderão, ainda estou sem palavras. Vão e registem-se, que vale a pena. Como aperitivo das delícias mil que poderão descobrir, deixo-vos com alguns excertos da biografia do Grande Líder, Kim Jong Il:

"His family was a patriotic and revolutionary family in a way unprecedented in history.
He brought about a revolution in art and literature so as to build a Juche-oriented art and literature.
He led a flexible and bold diplomatic campaign in the nuclear confrontation between the DPRK-US.
After President Kim Il Sung.s death, he led the entire people to hold Comrade Kim Il Sung in high esteem and follow him as the eternal leader of the nation.
He was awarded the title of Hero of the DPRK (three times) and the title of Marshal of the DPRK.
"

Os mais dados a estas coisas da política exótica não deverão perder a tocante historieta que se segue, bem ilustradora da nobreza de carácter do Grande Líder:

The Question of Grocery Vans

One mid-August night of 1978 a senior official of the Pyongyang City Committee of the WPK was intent on his work in his office. After midnight he received a phone call from the respected Comrade Kim Jong Il.
The worker thought that he had rung him up on some important matter. He became tense, the receiver in his hand.
After returning his greeting the dear leader said, "I.d like to send you twenty grocery vans provided by the leader. I want you to submit a list of the creches to which you would like to give them."
This was all he said, but the worker.s excitement was immense. Had the dear leader telephoned him at that hour of the night simply to convey this news to him?
Of course he might have chosen other ways to let him know that he would send grocery vans, but he had reason to call him even after midnight.
A few days before, the responsible worker had told him at a meeting that some of the agencies in charge of supplies to creches were short of grocery vans.
At that time the dear leader was occupied with other pressing business. Later the worker blushed at having bothered him with such matters, seeing how busy he was. He was so intent on important questions that he might have failed to note what the worker had said.
Time passed. The responsible worker of the Pyongyang City Party Committee, himself pressed by other urgent and weighty problems, clear forgot the matter.
However, the dear leader had remembered the question raised by the worker, had secured as many as 20 grocery vans and now wanted him to submit a list for allotting them.
What a touching story!
The following day the responsible worker submitted the list.
A few days later the dear leader sent the city Party committee papers bearing his written instructions:
"... the drivers of vans that serve kindergartens and creches should be admonished not to drive them for other purposes."
Driving along the streets of Pyongyang, he had witnessed a grocery van of a creche carrying other goods.
What close attention and what tender care! His fatherly concern for the babies in need of special patronage! The workers felt conscience stricken when they looked back on their own work and lives.
Indeed, he was the paragon of noble morality!

Publicado por Luis Rainha às 06:24 PM | Comentários (8)

O EXAME

«"Então, em que ficamos?", disse o cavalheiro, olhando-me com um sorriso e ajeitando a gravata. Consegui aguentar o olhar, mas depois voltei-me, de livre vontade, um pouco para o lado e olhei para o tampo da mesa com olhos cada vez mais fixos, como se aí se abrisse e afundasse uma caverna que me atraía o olhar. E fui dizendo: "O senhor que examinar-me, mas ainda não me apresentou provas que lhe confiram esse direito". Desta feita, ele riu alto. "O meu direito é a minha existência, o meu direito é o eu estar aqui sentado, o meu direito é a minha pergunta, o meu direito é o que me advém de o senhor me entender". "Está bem", respondi eu, "partamos então do princípio de que é assim". "Então vou examiná-lo", disse ele; "faça o favor de puxar a poltrona um pouco mais para trás, que me sinto apertado. E peço-lhe também que não olhe para o lado, mas bem nos meus olhos. Talvez seja mais importante para mim vê-lo do que ouvir as suas respostas". Correspondi ao seu pedido, e depois ele começou: "Quem sou eu?". "O meu examinador", respondi. "Claro", disse ele. "E que mais?". "O meu tio", disse eu. "Seu tio!", exclamou ele. "Mas que resposta mais absurda!". "Meu tio", respondi com ênfase. "Nem mais!"»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 05:52 PM | Comentários (0)

Ó PRA ELE: NÃO ESTÁ MESMO COM AR DE VITÓRIA?

"O Poder central rendeu-se ao poder local." Com este ominoso vaticínio, Carlos Encarnação saudou a anunciada decisão de transferir uma Secretaria de Estado qualquer para Coimbra. Depois da rendição incondicional, aguarda-se agora o início da pilhagem por parte dos vencedores. Será aconselhável que mulheres, crianças e almas sensíveis se recolham em casa por uns meses.

Publicado por Luis Rainha às 05:41 PM | Comentários (2)

A ALDEIA VIZINHA

«O meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Agora, ao olhar para trás, ela concentra-se em mim de tal maneira que, por exemplo, não consigo compreender como é que um rapaz novo se decide a ir a cavalo até à aldeia vizinha sem recear . isto, para não falar já de acasos infelizes . que o próprio tempo de uma vida normal e feliz nem de longe chegue para uma tal cavalgada."»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 04:54 PM | Comentários (0)

MAS NINGUÉM O AVISOU QUE AFINAL NÃO HÁ ELEIÇÕES ANTECIPADAS?

José Sócrates decidiu que o PS exige uma maioria absoluta.

Publicado por Luis Rainha às 04:49 PM | Comentários (3)

AS ÁRVORES

«Pois nós somos como troncos de árvore na neve. Temos a impressão de que assentam sobre ela, e que com um pequeno empurrão seríamos capazes de os deslocar. Não, não somos capazes, porque eles estão firmemente presos à terra. Mas . quem diria? . até isso é ilusório.»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 04:44 PM | Comentários (4)

A MADRE TERESA FICAVA MELHOR SEM BARBAS, NÃO ACHAM?

"Nesta sala não há caciques. Há pessoas que dedicam a sua vida a servir o povo e, sobretudo, os mais desfavorecidos", exclamou hoje o conhecido filantropo Jorge Coelho, para gáudio de um antro pejado de autarcas do PS. Sim: Narciso Miranda estava lá.

Publicado por Luis Rainha às 04:40 PM | Comentários (6)

DAS PARÁBOLAS

«Muitos se queixam de que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: "Passa para o outro lado", não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se, sim, a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas essas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, e isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.
Ao que alguém disse: "Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias."
E um outro respondeu: "Aposto que também isso é uma parábola."
O primeiro: "Ganhaste."
O segundo: "Sim, mas infelizmente só na parábola."
O primeiro: "Não, na realidade. Na parábola perdeste."»

Franz Kafka, «Parábolas e Fragmentos» (selecção e tradução de João Barrento, Assírio & Alvim)

Publicado por José Mário Silva às 04:37 PM | Comentários (1)

PAREM AS MÁQUINAS

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Morreu Carlos Paredes, o genial inventor da guitarra portuguesa.

Publicado por José Mário Silva às 01:04 PM | Comentários (30)

DOES ANYBODY HERE REMEMBER THE DIALECTIC FOX?

Pois, ela voltou. A nossa querida raposa dialéctica voltou. E o blogue estava noutro lugar, o Durão Barroso estava noutro lugar, o país estava noutro lugar. Bandeiras nas janelas, convulsões políticas, ressaca do Euro, o diabo a sete. A pobre sentou-se na esplanada, a beber uma Super Bock Green (outra novidade), com aquele ar perplexo de quem volta a casa e encontra os móveis todos fora do sítio.

- Então, vais contar o que andaste a fazer pelo mundo, durante estes meses todos? - perguntei.
- Não.
- Estás triste?
- Não.
- Inquieta?
- Não.
- É por causa do Santana?
- Do Santana?
- Ainda não sabes?

Ainda não sabia. Expliquei-lhe. Ela abriu a boca de espanto.

- Pensava que era por isso que estavas tão desanimada.
- Agora é. Há bocado não era.
- Correram-te mal as voltas pelo mundo, foi isso?
- Um dia talvez me apeteça contar. Hoje não.

Acabou a cerveja. A tarde declinava.

- Zé Mário?
- Diz.
- Sentiste a minha falta?
- Sim.
- Estás contente com o meu regresso?
- Claro.
- Achas que sou «fair and balanced»?

Publicado por José Mário Silva às 10:05 AM | Comentários (9)

UM PESADELO DEMASIADO REAL

«Hoje encontrei uma colega da faculdade que já não via há algum tempo e a quem sempre achei muita graça. Acho que é recíproco, aliás. Uma das primeiras coisas que me disse foi que ainda estava em estado de choque com a situação política que o país vive. Pois. Contou-me que no dia em que soube que Santana ia ser primeiro-ministro teve um pesadelo terrível. Sonhara que ia num táxi conduzido pelo próprio e que ele andava às voltas, às voltas, sem nunca chegar ao destino. Entretanto, o taxímetro já marcava um balúrdio. Quando acordou, apercebeu-se que o pesadelo era real. Com uma única diferença: em vez de taxista, Santana Lopes era primeiro-ministro.» (in Desassossegada, com a graça e a elegância do costume)

Publicado por José Mário Silva às 09:10 AM | Comentários (0)

BUSH VS. KERRY: THIS LAND

É a animação do momento. Percam dois minutinhos a vê-la; é excelente.

Publicado por Filipe Moura às 02:40 AM | Comentários (4)

ECO!

Hoje, enquanto tomava o pequeno-almoço face a esta paisagem serrana, reparei num débil eco que respondia às minhas palavras; mesmo ao tilintar dos talheres. Gritei. Cronometrei a viagem do som. Três segundos: pouco mais de mil metros de ida e volta.
Para além da lonjura de tal trajecto, intrigou-me o timbre desconhecido que a minha voz trazia no retorno; como gritos de um estranho perdido nos penhascos, nada ouvia de familiar na fala do eco.
Cada ramo, cada mácula na face da montanha, cada sobressalto topográfico adicionava a sua ínfima modulação às sílabas que eu ia pronunciando. (Cascatas de reflexos quase inaudíveis correndo, sobrepondo-se, acotovelando-se para tomar o lugar das vibrações originais.) Três segundos depois, já não era a minha voz que me regressava. Era a voz da Serra.

Publicado por Luis Rainha às 01:13 AM | Comentários (7)

julho 22, 2004

O MAIS PERVERSO DOS LABIRINTOS

Publicado por José Mário Silva às 09:06 PM | Comentários (4)

PISTE

«Quando era pequeno, ao atravessar a ponte do povoado, o pastor encontrara sobre o seu parapeito uma cobra de pescoço erguido fitando nos olhos um passarinho imóvel, enfeitiçando-o de terror ou de confusão perante a morte. De um gesto salvara o passarinho, atirando uma pedra certeira que bateu na cantaria da ponte entre os dois animais despertando as asas da ave que logo, cantando, se elevara nos céus, enquanto a cobra desaparecia através das fendas e dos silvedos da velha construção.
Mas agora ela ele quem ali estava, olhando o lobo que o olhava. Confuso, sentiu o medo que o tomava desvanecer-se a ponto de poder observar o animal nos seus pormenores. Era um ancião, um lobo muito velho que ali estava solitário. Tinha as orelhas descaídas e o pêlo, sem brilho, muito ralo e emaranhado. Estava magro e, enquanto o fitava, abria a boca deixando descari pesadamente a língua como se estivesse esfaimado de carne e sequioso de água. E estava-o com certeza, pensou o pastor, senão não se teria aventurado até ali nem se aproximaria desta forma de um humano. Talvez não tivesse mesmo forças para caçar. E o Piste, que forças tinha então para o enfrentar se ainda há instantes cambaleava confuso junto à nascente? De súbito, num gesto absurdo para o seu pensar, começou a desancar a pita com o cajado, a enxotá-la a pontapé na direcção do lobo.»

Este é um excerto da novela «Piste», de J. P. Galhano Alves (edição recente da Quasi), uma agradável surpresa literária de que falo com mais detalhe aqui.

Publicado por José Mário Silva às 09:01 PM | Comentários (1)

A TRIBO DO ASTÉRIX

O processo da Casa da Música, sejam quem forem os responsáveis, é um escândalo que simboliza o triunfo da rede de cumplicidades, incompetências e corrupção intelectual, para dizer o mínimo dos mínimos, que envolve Portugal no planeamento, projecto e execução de projectos desta dimensão.
De 182 para 300 milhões de euros e de dois (salvo erro) para seis anos de obra!
E estes não são ainda os números finais, mas apenas a projecção mais actualizada. Quando a obra acabar MESMO, vamos ver.
Não é a derrota na Final do Europeu, ou a ida de Barroso para Bruxelas, a tibieza de Sampaio e a ascenção do inenarrável Lopes ao cargo de Primeiro-Ministro que nos deveriam fazer emigrar.
São porcarias como esta, a dos túneis, do metro e do marquês de Pombal, a Ponte Europa em Coimbra, e, não esqueçamos, o caso do CCB, o Templo Dourado do Cavaquismo, concluído com uma derrapagem orçamental em termos percentuais como não há memória.
É que com as aventuras do Lopes, do Durão e do Sampaio, uma pessoa ainda pode refugiar-se na crítica populista "aos políticos".
Com estes casos que referi, embora se possa argumentar que há decisões políticas irresponsáveis na raiz dos problemas (os túneis de Lisboa, a Casa da Música são casos óbvios...), é a vida profissional de milhares de pessoas que é directa ou indirectamente afectada, porque pressupõe a caução iniludível, incompreensível e continuada que se dá a estas situações por centenas ou milhares de técnicos de várias especialidades e diversos níveis de responsabilidade.
Injusto?
É que não há sequer a desculpa da falta de know-how.
Atente-se na execução do terminal do Gás Natural em Sines, cujo contrato foi assinado em Novembro de 2000 e a conclusão da obra prevista para Dezembro de 2003:
Uma obra com um orçamento brutal, 269 milhões de euros, superior ao orçamento inicial da Casa da Música, certamente de não menor grau de dificuldade de execução técnica e de muito mais graves potenciais perigos ambientais e de segurança, no caso de existirem erros no projecto.
Qualquer desvio orçamental de pontos percentuais se traduziria em milhões de euros, já para não falar nas costumeiras situações dos 20 por cento, 50 por cento, 100 por cento!
No entanto, coisa inacreditável, a obra foi completada no prazo (apertado para uma obra desta envergadura) e dentro do orçamento! Ficou mais barata do que a Casa da Música.
Não acredito que haja aqui algum dedo milagreiro, alguma imagem do Menino Jesus de Praga estrategicamente colocada no local da obra e faço a pergunta:
Será que não existem em Portugal, uma vez que já se viu que a "classe política" dominante é mais ou menos homogénea, mais equipas de gestores, projectistas, empreiteiros, fiscais, etc... ou, no mínimo, com capacidade de liderança e coordenação que tornem esta situação a regra e não a excepção?
Porquê? Porque razão é isto um caso isolado e não a regra? Como é possível um desnível tão abissal de performances?
Alguém, mas tem de ser alguém muito bem colocado no processo de tomada de decisões relativas a estes projectos de grande envergadura, precisa de me explicar isto.
Nota final: os estádios do Euro, e muito bem, foram cumpridos dentro do prazo e também em tempos record. Esperam-se informações quanto ao cumprimento dos orçamentos.

Publicado por tchernignobyl às 08:59 PM | Comentários (6)

E DE REPENTE UMA FRASE ILUMINA-SE

Apreciem, por favor, este pensamento beckettiano do Tiago: «Havia um homem que se sentia muito sozinho porque tudo à sua volta era divino excepto ele próprio».

Publicado por José Mário Silva às 08:29 PM | Comentários (1)

AO TELEFONE COM O PRIMEIRO-MINISTRO

Honrando a nossa tradição investigativa, temos o prazer de vos apresentar mais um grande "furo". Os intrépidos repórteres do BdE acabam de regressar à sede do blogue com uma peça explosiva: a transcrição de uma conversa telefónica entre Pedro Santana Lopes e Durão Barroso, ocorrida há escassas horas.
Sem mais delongas, deixamo-vos com este documento histórico:

- Zé Manel?
- Sim...
- Fala o Pedro.
- Hmm...
- Queria dar-te os parabéns pela eleição! Estavas já a ver a coisa mal parada, hein?
- Sim, sim. Tu é que estavas mortinho por me ver de volta, de mãos a abanar e a pedir o meu lugar de volta, não?
- Que lugar? Então não sabes que o povo não vota no primeiro-ministro, mas sim no partido? Eu sacrifiquei-me a bem da Nação e para não aborrecer o Sampaio, que até nos fez o jeito....
- Jeitosa tem sido a tua figurinha por aí. Ainda não aprendeste a pensar no que dizes antes de abrires a bocarra? Os ministros vinham do país todo e afinal só dois são de fora de Lisboa; os ministérios iam mudar sabe lá Deus para onde; o teu governo ia ser mais pequeno que o meu... e agora é só fiascos!
- Que mau feitio, Zé Manel. Olha que estive a informar-me e descobri que já houve primeiros-ministros mais toscos que eu!
- O Vasco Gonçalves e mais quem, pá?
- Mas o Luís Delgado diz que é tudo uma questão de estilo; do meu estilo pessoal...
- Ó minha avantesma: tu ligas ao que esse gajo escreve? O Delgado é uma espécie de Espelho Mágico avariado. Pode pôr-se à frente dele a Rainha Má mais feia deste mundo que ele há-de continuar a proclamá-la a mais bela. Desde que seja do PSD...
- PPD/PSD, queres tu dizer!
- Então não foi o teu santo padroeiro, o Sá Carneiro, quem mudou o nome ao partido?
- Deixa-te de minudências. Se o Portas chama ao grupelho dele "CDS/PP", achas que eu podia ficar com menos letras?
- Linda peça, esse marmanjo. Ouve o que te digo: o gajo é tramado. Se lhe dás uma mão, essa piranha engravatada come-te logo o braço todo. É assim tipo tu, mas em esperto e esquisito. Nem me admira se quando eu voltar lá das europas o gajo te tiver ocupado o poleiro...

- Isso é tudo má língua. Até a Cinha me diz que ele é porreiro. E já o meti na ordem: disse aos jornais todos que o governo só fica decidido quando o primeiro-ministro decide. E esse é cá o mangas!
- Por falar em lindas decisões tuas, o que é aquilo que saiu hoje nos jornais acerca da Teresa Caeiro? O que é que te deu para andares com a pobre miúda em bolandas, da Defesa para as Artes e Espectáculos?
- Achas mesmo que isso da tropa é coisa para o mulherio?
- Se foi o Portas quem disse que era uma boa escolha porque o pai e o avô dela foram militares...
- E então? Andei a pesquisar e descobri que eles também tinham quadros em casa e até iam de vez em quando à Revista! Está visto: Artes e Espectáculos!
- Ai, que me dói a meninge esquerda.
- Eu bem sei que tu e os teus amigos intelectualóides andavam sempre a gozar comigo. Mas se me tens em tão fraca conta, como é que deixaste o estaminé nas minhas mãos?
- Julgas tu que estava para que os meus filhos tivessem de decorar o teu nome, quando estudassem os Presidentes de Portugal? Só me faltava mesmo essa! Assim, estás aí só dois anos no governo e pode ser que não tenhas tempo para fazer muita merda...
- Zé Manel! Estou a ouvir-te mal; o que é que disseste?
- Que os meus filhos te desejam montes de sorte, à frente dos destinos de Portugal. E que o tempo está bom para a erva. Olha, tenho de desligar; a Europa chama por mim! Faz mas é o que o Arnault e o Sarmento te disserem, que a desgraça não há-de ser total...
- O Arnault é um tormento, não tem graça e é anormal? Ah pois; mas quem é que me mandou dar asilo ao gajo? Foste tu! Zé Manel? Estás ainda aí?
Piiiiiiii...

Publicado por Luis Rainha às 05:46 PM | Comentários (11)

CIDADE DOS HOMENS

No autocarro da carreira 9, entrou um homem vermelhusco, olhos baços do álcool, boina quase a cair. Encostado a uma das janelas, pôs-se a cantar Frank Sinatra. «My way». Ou seja, à maneira dele: muito alto, muito expressivo, quase desafinado. «I did it... myyyyyyyyyyyyyyyy wayyyyyy!»
Os restantes passageiros entreolharam-se, uns fascinados, outros perplexos. E não é que a voz algo trôpega, por causa das inclinações do corpo e do sotaque, fazia lembrar incrivelmente, ali dentro do autocarro em ponto-morto, a meio da Rua Alexandre Herculano, numa tarde quente de Julho, o timbre único daquele a quem chamavam the voice?

Publicado por José Mário Silva às 03:25 PM | Comentários (6)

E UMA RECORDAÇÃO ANTEDILUVIANA

Como podem vocês, miúdos imberbes, gabar-se de infâncias felizes, se nunca tiveram acesso aos fabulosos, únicos e estrepitosos Thunderbirds?
Alegrem-se que esta lacuna nas vossas vidas atrofiadas vai em breve ser preenchida, graças à edição em DVD deste clássico dos clássicos. Sem falar do filme que está aí a estrear!
Outras obras-primas do bonecreiro-mor, Gerry Anderson, ainda andam aos pulos na minha memória atravancada: o Stingray, o Joe 90, sei lá...

PS: o Thunderbird Two, que encima este post, foi, por anos a fio, o meu brinquedo preferido. O que eu não dava agora para reencontrar este "Rosebud" perdido...

Publicado por Luis Rainha às 02:48 AM | Comentários (13)

MAIS SOBRE PROGRAMAS INFANTIS

Deixei de ver desenhos animados assim que fui para o ciclo preparatório, pois achei que já era muito crescido. Achava ridículo ver desenhos animados e ter colegas que fumavam.
Admira-me como, na discussão do meu texto anterior sobre este assunto, ninguém falou nesse clássico dos clássicos que era a Abelha Maia (e o Calimero, claro). Se bem que isto já era mais para adultos.
(Estou muito bem disposto, hoje. É do Hugo Viana.)

Publicado por Filipe Moura às 02:24 AM | Comentários (9)

UM QUASE-ÓBITO

Há quase 30 anos, um adolescente desengonçado colocava no gira-discos dos pais a terceira rodela de vinil em que investira a sua magra mesada. Em dias de Abba, Disco Sound, ecos tardios dos Beatles e pouco mais, nada poderia ter servido de amortecedor para o que se fez então ouvir:

Here, at the glass -
All the usual problems,
All the habitual farce
You ask, in uncertain voice,
What you should do,
As if there were a choice,
But to carry on
Miming the song
And hope that it all
Works out right

Sei que há quem evoque professores, acontecimentos históricos ou cataclismos familiares como circunstâncias fundadoras das suas identidades. Eu, pobre e modesto, limito-me a recordar esta canção como o primeiro cruzamento decisivo que a minha vida atravessou. Não sei se seria hoje uma pessoa "melhor" ou "pior" sem esse encontro fortuito. Sei que seria alguém muito diferente. Sei que eu não seria eu. (Anos depois, deparei-me com uma outra encruzilhada crucial. Mas teria passado por ela sem sequer pestanejar se não contasse já com aquela herança primeira no alforge.)
A forma como vejo o mundo. Isto é, nem mais nem menos, o que devo a quem escreveu aquela canção (e muitas outras que vim depois a descobrir). Cada sílaba dos meus gostos, cada centímetro do meu crescimento começou ali.
Vem esta reminiscência a propósito de uma notícia ainda fresca: o autor/cantor dos versos acima anotados de memória acabou de sofrer um ataque cardíaco que quase o matou. Sempre soube que a ausência deste homem irá deixar-me um pouco mais só, um pouco mais pobre. Mas nunca consegui imaginar como coisa real um universo onde não está para sair mais um disco dele.
Agora, sinto-me desleixado, negligente; quase como se deparasse com um pai às portas da morte sem que de tal me tivesse inteirado a tempo. Dádivas há que, de tão gigantescas e ocultas, nunca encontrarão agradecimento ajustado.
Mas posso tentar. E faço-o assim.

Publicado por Luis Rainha às 01:52 AM | Comentários (4)

O NOVO GOVERNO

Concluído que está o novo governo, verifica-se ser maior do que o anterior. Santana Lopes contraria assim a doutrina de um dos seus fiéis escudeiros, uma das teclas principais que este usava no ataque aos governos do PS. Falamos, obviamente, do honorável director da agência LUSA que, apesar de tudo, não hesita em dizer que "no conjunto, apesar da sua grandeza, em número, o Governo tem um conjunto muito bom, com agradáveis surpresas, tanto a nível ministerial como de secretarias de Estado, e agora só precisa de tempo, e serenidade, para começar a trabalhar"...
Neste Governo temos, assim, a senhora Teresa Caeiro, que foi secretária de Estado da Segurança Social, depois ia passar para a Defesa e afinal acabou por ir para a "Cultura e Espectáculos", que com este governo quer dizer teatro de revista e musicais. É "filha e neta de militares". E indefectível de Paulo Portas. Segundo o director da LUSA, tudo "não passa de um pormenor de última hora". Claro.

(Salve-se ao menos o secretário de Estado da Juventude, que enquanto líder da JSD já era santanista - daí esta recompensa -, mas que afirmou que Alberto João Jardim era "um político execrável". Esperemos que a prática governamental não lhe altere esta opinião.)

Publicado por Filipe Moura às 01:52 AM | Comentários (7)

FAIR AND BALANCED (2)

A imagem original está aqui.

Publicado por Filipe Moura às 01:23 AM | Comentários (0)

FAIR AND BALANCED (1)

"At first, Fox's strategy was to ignore our charges. But it didn't work. Outfoxed is now the best-selling DVD on Amazon.com. All the major newspapers are asking whether Fox is "fair and balanced." Editorial cartoonists are poking fun at Fox's Republican slant. We've attached links to a few of the best stories and cartoons below.
Last night on Fox News, Bill O'Reilly exploded over all the criticism, declaring war between his network and the New York Times in an attempt to distract from the charges made in the film. This is typical, of course. But no one at Fox has answered any of the charges: Why are there so many Republican commentators and guests compared to Democrats? (The media monitor FAIR reports five to one.) Why does Fox business management dictate how the news is framed in its daily memos? Why would Fox assign a reporter whose wife was out campaigning for Bush at the time to conduct an exclusive interview with him? How can Fox's slogan "Fair and Balanced" be anything other than an attempt to deceive viewers and advertisers?
So instead of responding, Fox is going to try to bully other media outlets into going silent on this story. (...)
Congress is beginning to take up the issue. This afternoon, dozens of members of Congress will be viewing Outfoxed in a special showing. Several members of the House have drafted a letter asking Rupert Murdoch to come before them to discuss how he'll correct the partisan bias at Fox. (...)
AlterNet is leading the challenge by other media outlets of Fox's outrageous attempt to hold the trademark "Fair and Balanced." Believe it or not, if Fox succeeds in holding that trademark, it can sue to keep all others from using these words."

(Cortesia MoveOn)

Sobre este último assunto, leia-se também o Público.

Publicado por Filipe Moura às 01:16 AM | Comentários (1)

julho 21, 2004

EVOCAÇÃO

Anima Bella da Quel Nodo Sciolta

Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.

Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.

Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.

Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.

(Tradução de Jorge de Sena)

Há precisamente 700 anos nascia na cidade de Arezzo o «poeta dos poetas», Francesco Petrarca.

Publicado por Manuel Deniz às 11:02 PM | Comentários (2)

FOTOGRAMA SEM TÍTULO

«Untitled Film Still #53», Cindy Sherman (1980)

Publicado por José Mário Silva às 04:09 PM | Comentários (11)

POR DETRÁS DOS SLOGANS TELEVISIVOS...

1 - Os nossos sacrifícios estão a valer a pena.
«Sem medidas temporárias e com ajustamento ao ciclo, o défice ascenderia a 5,7% do produto interno bruto (PIB), em 2001, a 4,7%, em 2002, e a 4,5%, no ano seguinte» (Vítor Constâncio, governador do Banco de Portugal). Nota: é sensivelmente o mesmo décife do final da legislatura de Guterres.

2 - O novo governo é a continuidade do anterior.
«Este Governo não tem que responder pelas suficiências ou insuficiências do anterior» (Morais Sarmento, ministro da Presidência do Conselho de Ministros)

3 - Sampaio não dá orientações nem assume responsabilidades no novo programa do governo.
«É preciso conter criteriosamente a despesa pública corrente e combater eficazmente a evasão fiscal. Só assim se poderá ganhar margem de manobra para evitar que se sacrifiquem indevidamente despesas sociais necessárias» (Jorge Sampaio, na mesma intervenção)

Tanta honestidade e coerência até assusta. (Nuno Pinho)

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (11)

OS NOSSOS PROGRAMAS INFANTIS

Ainda na linha "muito leve, muito fresco". O Rogério recorda-nos o excelente desenho animado Conan, o Rapaz do Futuro. Gostei, sem dúvida, mas os programas infantis que mais me marcaram foram o Tom Sawyer, o Sítio do Picapau Amarelo e o Era uma Vez o Espaço.
Ao contrário do Conan (legendado), o Tom Sawyer era dobrado. Ainda hoje quando ouço a Ermelinda Duarte lembro-me da voz do Tom. (A voz do Huck era a também inconfundível Irene Cruz.) Gostei da série de tal modo que tive de ler o livro. Que foi um dos livros que marcaram a minha infância.
Graças ao Tom Sawyer, tornei-me curioso pela América. Graças ao Sítio do Picapau Amarelo, passei a gostar de telenovelas brasileiras e, sem o saber, de Gilberto Gil, Dorival Caymmi e Chico Buarque (quando, muitos anos mais tarde, ouvi o Passaredo, a música do Pedrinho na versão da altura, fiquei com um nó na garganta). E graças ao magnífico Era uma vez o Espaço, interessei-me pela Física.

Publicado por Filipe Moura às 12:01 PM | Comentários (36)

A IRONIA

Liga-se o computador. Abre-se o Kazaa. Uma janelinha diz-nos "Kazaa versão 2.6 - Protegido pelas leis internacionais dos direitos de autor".

Publicado por Filipe Moura às 11:51 AM | Comentários (3)

Uma pequena questão administrativa

Comentário de fernando esteves pinto a um comentário meu no post abaixo:

"zé mário, a imagem é esta: naquelas reportagens da tv onde se junta muito povo, e por trás do reporter aparecem aqueles tipos apalhaçados a fazerem caretas e não a acertarem no tema que se discute no momento; assim é a quadrilha da RIAPA. agora censurá-los é dar-lhes mais importância do que o vosso espaço consente. e é lamentável o comentário de tchernignobyl: mimado; odioso e fascista.
aviso: pensa nas tuas vítimas e sentir-te-ás também um RIAPA. só que com outra farda vestida.
"

É para isto que servem as janelas dos comentários livres:
Há que aguentar que um idiota qualquer tenha o direito de nos chamar de "odioso", "mimado" e (sobretudo, era agora o que me faltava ) "fascista".
Tudo bem.
É preciso que fique claro que não é este tipo de comentário que eu defendo que deve ser apagado.
O tipo de comentário que qualquer idiota poderia perceber se estivesse mais virado para aí do que para se precipitar a insultar-me de uma forma que me é particularmente repulsiva, e que eu defendo que DEVE ser apagado é o tipo de comentário pegajoso, repetitivo, continuado dia após dia em todos os posts.

Por acréscimo, temos o especial nojo que causa a "mensagem politica" e a linguagem em geral, mas é apenas um detalhe porque o que esse tipo de "comentário" pretende é pura e simplesmente avacalhar os comentários, em ultima análise que deixe de fazer sentido ter a pachorra para abrir as janelas dos comentários.
O que preocupa certos sujeitos é que acham que tem de se aturar isto porque se trata de uma "mensagem politica", uma "crítica" ao conteúdo deste blog.
Como é um blog de esquerda acham legítima a crítica, esta "crítica", que consiste em inundar dias a fio as janelas de comentários com a mesma conversa (ainda se fosse uma conversa muito breve!).
Mas uma pessoa, porque tem um blog, não tem de amochar.
Desde sempre que se me tornou claro, mesmo quando não participava em nenhum blog, que o dono do blog é quem decide como quer geri-lo.
Pode apagar os comentários que lhe der na real bolha.
Não deve fazê-lo indiscriminadamente, mas deve poder fazê-lo em liberdade, em certas circunstâncias.
E este caso justifica-o plenamente. Aliás, é talvez o único caso de que me lembro a justificar uma medida destas.
A conversa despropositada do senhor fernando sobre as fardas etc, ele acha que é uma boa argumentação, as fardas... fala pateticamente em "vítimas", já me está a ver de botas a espezinhar o triste e indefeso riapa; mas este sujeito passou por aqui nos últimos dias?
Estupidez pura.

O senhor fernando que tente entrar numa sala de "chat" e discutir o que quer que seja com alguém e depois explique-me a liberdade que encontra, tente frequentar newsgroups outrora com algum interesse, desde a invasão do spam.
Se calhar engano-me e provavelmente detesta que se combata o spam. Interfere com a liberdade de expressão, pois claro.

A flexibilidade na criação de blogs torna desnecessário o "direito de resposta", e de resto, só tem janelas de comentários QUEM QUER, sem ter de aturar ofensas deste tipo a fernandos e companhias.
Apagam-se os comentários do riapa aqui? Ah pois o heróico riapa pode ir fazer todos os posts iguais que colocou aqui e nos outros blogs fora os que foram apagados, no blog dele, todos em fila à vontade "em inteira liberdade" para merecerem a "leitura atenta" do senhor fernando.
É preciso que se perceba - quem quiser perceber - que não se está a "censurar" a liberdade individual a ninguém.
Uma coisa é apagar os comentários do riapa AQUI, outra coisa é impedir o riapa de ter o seu local próprio para postar o que lhe apetecer.
Ora o riapa, que tem o seu local próprio ao que parece, prefere comentar aqui. Mas não comenta - não fez um único comentário de certeza- em blogs que não admitem comentários e portanto ignoram o que é aturar um imbecil de merda qualquer chamar-nos de fascista porque tentamos combater o que qualquer pessoa, mesmo que não nos grame percebe - menos o fernando, ah e o tulipa, o "capitão de abril", o "guelas" o "tubarão" etc... - que é um abuso : Precisamente a justificação para não terem comentários.
Para a acta, fique referido que ANTES de ter percebido que só há uma maneira de lidar com psicopatas como o riapa pedi várias vezes POR FAVOR como mandam as regras, para se evitar a repetição sistemática dos mesmos comentários em posts diferentes.
Quando fiz isto, não fiz qualquer referência ao CONTEÚDO para o qual me estava a borrifar.
Não teve qualquer efeito.
É preciso que se volte a repetir que estes comentários apareceram em diversos blogs.
Ora pode "ignorar-se" dez vezes esta seca?
Não se pode, e isso foi claro até nas reacções de outras pessoas que fizeram comentários.
O fernando que os "ignore" no seu blog se quiser, eu não ignoro, porque quando abro uma janela de comentários com curiosidade para saber o que pensa alguém sobre algo que eu ou outros escreveram não é para ver sempre a mesma treta escrita por pessoas que se estão nas tintas para a liberdade de quem quer que seja.
Mais: Um dia que se abra uma janela de comentários e se depare com cinquenta anúncios a cabeleireiros alfaiates lojas dos trezentos ou seitas criacionistas e que não se consiga por falta de pachorra procurar se alguém tem algo a dizer, a criticar, a rebater o post, talvez o fernando fique satisfeito, mas isso é o problema dele, o meu é agora, ANTES.

Publicado por tchernignobyl às 12:24 AM | Comentários (21)

julho 20, 2004

PROCESSO DE DESINFESTAÇÃO EM CURSO

De repente, pelas frinchas do nosso soalho (pintado com requinte pelo Caillebotte), começaram a aparecer todo o tipo de insectos rastejantes. O foco da praga, como os nossos leitores já terão percebido, é um esgoto a céu aberto chamado RIAPA, site que alberga uma seita de reaccionários trogloditas de primeira apanha, uma verdadeira cáfila de valentões ordinarotes com pseudónimos apalhaçados e uma mais do que evidente nostalgia salazarista. O pior é que os rapazes, à falta de touradas, mulheres e vinho verde que alimentem a sua prosápia marialva, decidiram azucrinar-nos o juízo, invadindo sistematicamente o sistema de comentários do BdE. O incómodo inicial depressa se transformou num martírio, com os comentadores habituais cada vez mais perdidos no meio do lixo que o RIAPA espalhou, com uma determinação digna dos melhores produtores de spam.
Entretanto, depois de ultrapassados todos os patamares de tolerância, a nossa paciência esgotou-se. A bem da legibilidade (e da higiene) deste blogue, não vamos admitir mais ataques como os que nos fizeram nos últimos dias. Todos os comentários insultuosos provenientes do RIAPA e seus sucedâneos serão apagados logo que possível. E se essa "limpeza" não for suficiente, pediremos autorização ao Paulo Querido para utilizar armas mais radicais e, digamos assim, à altura dos nossos inimigos invisíveis. Armas químicas como estas:

Publicado por José Mário Silva às 05:57 PM | Comentários (29)

NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER

«Este vai ser o ano do Benfica» - Luís Filipe Vieira.

Publicado por José Mário Silva às 04:45 PM | Comentários (4)

A HONRA

Vejamos o processo de nomeação do futuro presidente da UE:

1) A UE tem 25 Estados membros. Mas como desses apenas 12 participam em todas as políticas da UE, o presidente da Comissão Europeia só pode ser escolhido entre 12 e não entre 25.

2) Desses 12 Estados membros há três (França, Itália, Bélgica) que são excluídos pois já tiveram um presidente da comissão no passado. Ficam apenas
nove.

3) Desses nove países há cinco (Alemanha, Espanha, Holanda, Irlanda, Grécia)que ficam excluídos à partida, pois já detêm cargos de relevância na UE. Sobram quatro países.

4) Dos quatro países que ficam, foi convidado oficialmente o primeiro-ministro do Luxemburgo, que recusou o cargo alegando que tem um compromisso com o eleitorado do Luxemburgo. Restam portanto três países: Áustria, Finlândia e
Portugal.

5) Uma das imposições para se ser presidente da Comissão Europeia é falar inglês e francês. Ora mais de 99% dos Austríacos e dos Finlandeses não sabem falar Francês e Inglês. Restava por isso Portugal. Como de costume no último lugar e por exclusão de partes.

E ainda há quem diga, entre nós, que é uma honra Portugal ocupar este cargo. Se a saloiice matasse, Portugal seria um cemitério de saloios. (Cláudia)

Publicado por José Mário Silva às 04:42 PM | Comentários (0)

20 DE JULHO DE 1969

Foi há 35 anos, o pequeno passo.

Publicado por José Mário Silva às 04:23 PM | Comentários (2)

SEAN CARROLL

Queria ainda chamar a atenção para que o melhor texto pedagógico de relatividade geral para alunos de física, na minha opinião (todos os outros ou não estão nada actualizados, ou não são nada pedagógicos, ou as duas coisas), é da autoria deste professor da Universidade de Chicago e uma boa parte dele está disponível, de graça, nos arquivos da especialidade. Sinal dos tempos. Vão-se habituando.

Publicado por Filipe Moura às 11:51 AM | Comentários (0)

OS BURACOS NEGROS TÊM CABELO

O título correcto deste texto deveria ser "Stephen Hawking convenceu-se de que os buracos negros têm cabelo". (Para esclarecimentos sobre estes conceitos, veja-se por exemplo o interessantíssimo blogue Preposterous Universe de Sean Carroll. Recomendo vivamente esta discussão. A notícia também saiu no Público de sexta feira. A justificação para o esotérico nome "cabelo" tem de vir de um matemático; tem origem na topologia, e é disso que se trata.)
O título é, neste aspecto, enganador; é só mais uma opinião, de um físico famoso.
Tudo se resume ao seguinte: Hawking descobriu nos anos setenta que os buracos negros afinal deveriam emitir radiação; tal entraria em contradição com os princípios fundamentais da mecânica quântica, no que ficou conhecido como o paradoxo da informação. Hawking passou os anos oitenta e noventa a pôr em causa esses princípios fundamentais (nomeadamente o chamado princípio da unitaridade) devido ao tal paradoxo, e com isso foi perdendo influência (mas não respeitabilidade) junto dos seus pares. Agora mudou de ideias e pediu para comunicar tal mudança numa sessão plenária de uma conferência da especialidade.
Como é que isto me afecta? Não me afecta particularmente. Hawking nunca foi dos cientistas que mais me tenham influenciado. Ao pôr em causa a mecânica quântica afastou-se do mainstream, onde (tento) trabalhar. Neste momento trabalho precisamente em buracos negros com cabelo, e a aceitação do sr. Hawking, francamente, deixa-me algo indiferente. De resto, as teorias de cordas apresentam os únicos resultados palpáveis para uma compreensão microscópica dos buracos negros.
Tudo isto não passa da opinião de um físico teórico, e a opinião de Hawking presentemente tem mais crédito junto da imprensa do que junto dos seus pares.
O que me faz pensar nisto tudo é justamente o valor da opinião dos mais influentes na física teórica. É muito, podem crer, e, na total ausência de experiências a confirmar estas teorias, é ainda maior.
Será que Stephen Hawking acredita em buracos negros com cabelo? Será preciso acreditar mesmo nalguma ideia para a desenvolver? Baseado na minha experiência de falar com os meus colegas a minha resposta é não. No meu caso, sinceramente, eu acredito nas ideias com que trabalho, mas não ponho a mão no fogo... Voltarei a este assunto. Por agora, chega de opiniões. Ainda esta semana, física a sério.

Publicado por Filipe Moura às 11:37 AM | Comentários (5)

julho 19, 2004

NÃO TENHAM MEDO. ESTAMOS AQUI PARA VOS SALVAR!

O "New England Journal of Medicine" está preocupado com a saúde mental dos soldados que regressam do Iraque e do Afeganistão. O stress pós-traumático é tramado. Digo isto sem ironia: sei que grande parte dos soldados que por lá penam não pediram tal destino. No entanto, permito-me desviar a minha atenção por uns minutos da periclitante sanidade dos guerreiros made in USA.
O que gostaria de destacar neste relatório é mesmo um pormenor de somenos. Uma minudência quase esquecida num canto pouco iluminado.
Numa elucidativa tabela, vemos que 14% dos inquiridos - militares do Exército americano que regressaram do Iraque - se atribuem culpas pela morte de um "não-combatente". Quanto aos bravos Marines, a percentagem dispara para os 28%.
("Não-combatente" é o nome mais asséptico que hoje se dá aos civis, sobretudo quando morrem.)
Agora, pensem nos milhares e milhares de soldados americanos que andam pelo Iraque neste preciso momento. Para calcular o risco que as populações civis em seu redor correm, façam as contas.

Publicado por Luis Rainha às 05:14 PM | Comentários (32)

O MEU CICLISTA PREFERIDO

champion.jpg

Qual Lance Armstrong, qual carapuça. O grande campeão da Volta à França, mesmo quando não escapa ao carro-vassoura, é um rapaz chamado Champion (passe a redundância). Há também quem o conheça por ser neto da Madame Souza . uma portuguesa das antigas, com bigode e tudo. Para mais informações, confira aqui.

Publicado por José Mário Silva às 04:52 PM | Comentários (4)

PARA DESANUVIAR

Nos últimos dias, não sei bem porquê, tem havido demasiada crispação aqui no BdE (sobretudo nas áreas de comentários, sordidamente invadidas pela maralha insultuosa do RIAPA). É certo que temos o Santana Lopes em São Bento, é certo que vai entrar em funções um Governo sem chama (e sem «estado de graça» que lhe valha), mas caramba, não é preciso andarmos a bater com a cabeça nas paredes. Para desanuviar, deixo-vos o link para um site levezinho que nos permite saber qual a canção que liderava o Top 40 inglês, no dia em que nascemos. No meu caso, apropriadamente, era o hit «Son Of My Father», dos Chicory Tip. Quanto às estrelas rock que também celebram o aniversário a 2 de Março, destaco Lou Reed (cool); Chris Martin, vocalista dos Coldplay e marido de Gwyneth Paltrow (not so cool) e Jon Bon Jovi (totally uncool, para não dizer blargh!).

Publicado por José Mário Silva às 04:37 PM | Comentários (10)

Não faças aos outros...

Uma carta de um leitor do Economist para a secção de correspondência:

Security barrier
SIR - Israel's security barrier will reduce Palestinian hardships in the long term, by stopping terrorism and creating conditions for peace (.Israel's illegal but unstoppable barrier., Economist.com, July 9th). There will be no peace until terror ends, and terror won't end until there is barrier. Palestinians say the barrier encroaches on their future state; but there will be no state until the terror stops, and measures short of a barrier have failed to stop the killing. Having failed to stop the terror themselves, Palestinians must accept the barrier as a necessary hardship on the road to a state.

Ilya Shlyakhter
Brighton, Massachusetts

(Bolds e itálicos meus ).

A facilidade com que um animal destes fala em "must accept"s e "necessary hardship"s, sabendo da forma sádica como o plano prevê que os palestinianos sejam enjaulados nos locais mais inóspitos é arrepiante.
Vejam o mapa no artigo linkado, eu só agora me apercebi que o muro fecha um circulo completamente cercado por Israel, literalmente uma imensa jaula.
Este é um precedente aberrante para o futuro, uma reabilitação do apartheid, uma maldade de dimensões apocalípticas que só por ser permitida revela o carácter das "missões humanitárias" dos progadores de "democracias liberais", a demonstração de até onde pode ir a desumanização da força bruta.
Quem é que é capaz de dizer depois disto que Israel é um "país democrático"?
Espero que essa ideia absurda seja convenientemente desmistificada pelo acolhimento dos judeus franceses ao convite do Sharon para que "emigrem imediatamente".

Quer queiram quer não, e num momento em que se fala do anti-semitismo em França que com mais ou menos especificidade na definição de anti-semitismo também atinge os árabes ( atentem na conotação racista que é possivel encontrar nessa forma de tentar iludir que também os árabes são alvo da discriminação anti-semitas para reservar essse estatuto apenas para o "povo eleito"), este tipo de opiniões faz mesmo lembrar qualquer coisa.

Publicado por tchernignobyl às 02:30 PM | Comentários (11)

O FUTURO DE SHARON

Publicado por José Mário Silva às 12:31 PM | Comentários (7)

DER PORTUGIESISCHE BERLUSCONI

"O dandy tem uma reputação muito versátil. É frequente encontrá-lo quer nas discotecas da capital, quer em recepções oficiais. Três vezes casado, com cinco filhos, verifica-se que as louras à sua volta mudam a uma grande velocidade desde o fim do seu último casamento. Da sua estadia na câmara da metrópole à beira do Tejo, resta uma herança medíocre: muitas promessas populistas, muito pouca acção. As despesas municipais aumentaram. A sua aparência exageradamente esmerada, o seu glamour, o futebol e o seu dom de lisongear as pessoas fazem com que se lhe atribua o título de Berlusconi português. Muitos ministros têm medo de que Santana Lopes governe da mesma maneira como foi presidente da câmara de Lisboa."

Quem o afirma não somos nós: é o Die Tageszeitung.

(A minha responsabilidade é pelo resumo de uma tradução francês-português. A tradução do original alemão para o francês é do meu amigo Joerg. Deixo a ligação para o original em alemão para quem o entender.)

Publicado por Filipe Moura às 01:08 AM | Comentários (7)

SANTANETES E SANTANISMOS

Concordo com a ideia defendida pelo Celso Martins no Barnabé, mas não quero deixar de fazer uma ressalva: o termo santanete há muito que deixou de ser aplicado somente às supostas namoradas de Santana Lopes, para passar a designar todo um tipo de clientela (política) que sempre o acompanha. Sejam de facto ex-namoradas como a antiga cronista de Verão do DN, sejam "assessoras culturais" da Câmara Municipal de Lisboa, seja o seu próprio chefe de gabinete.
Continuarei, portanto, a utilizar a expressão santanete, como já utilizei, para designar um certo tipo de pessoas ricas e fúteis que são a essência do santanismo. Sempre, sem nenhuma conotação com algum tipo de relacionamento pessoal ou íntimo com o agora primeiro ministro. Por aí, concordo que a política não se deve fazer, a menos que o que o político defenda não seja o que pratique.

Publicado por Filipe Moura às 01:02 AM | Comentários (8)

FOI HORRÍVEL, NÃO FOI?

Também assisti à invasão de campo que acabou com o jogo-treino do Benfica, algures na Suíça. Imagens difíceis de esquecer: o pobre segurança deitado no relvado, careca reluzente pontapeada pelos hirsutos espectadores em fúria; os outros vigilantes de negro tratando de colocar o lombo a bom racato, sem um olhar para o companheiro caído; o povo correndo em busca de vingança, desafiando as bastonadas dos "seguranças".
Enfim, foi uma cena lamentável, exemplo do pior que a justiça popular nos pode oferecer, quando cavalga a onda do instinto da turba.
Eu sei que não devia; mas adorei. E não consigo reprimir um sorrisinho sádico a cada vez que repetem a cena na TV.

Publicado por Luis Rainha às 12:18 AM | Comentários (33)

julho 18, 2004

CICLOTIMIA

A depressão é por certo uma doença. Atestam tão clínica evidência hordas de psicólogos à cata de avenças, resmas de revistas "Xis", legiões de pais inquietos com olheiras fundas. Mas não deixa também de ser um ponto de vista sobre a saúde mental; um miradouro sobre os bairros das nossas cidades interiores que quase nunca frequentamos. Por outro lado, deslizar em apertadas tangentes ao voraz buraco negro que se adivinha no centro de cada depressão tem sempre o seu fascínio. E, como todas as viagens, permite-nos aprender algo sobre nós mesmos. Se tivermos sorte.

Publicado por Luis Rainha às 10:28 PM | Comentários (9)

CÉU DE LISBOA

ceu.jpg

Domingo, 18 de Julho, 19h32.

Publicado por José Mário Silva às 10:13 PM | Comentários (6)

Rico Presente

Da posição privilegiada de quem sabe bem a que humilhações diárias pode ser submetido um povo nos territórios ocupados sob as suas ordens, está Sharon preocupado com o anti-semitismo em França e oferece aos judeus franceses a salvação de se irem enterrar no caldeirão em que se tornou a Palestina, apenas para tentar marcar pontos perante uma comunidade internacional que tende cada vez mais a marginalizá-lo politicamente e a humilhá-lo politicamente.
Talvez ele precise também de mais colonos como carne para canhão para servirem de guarda avançada da sua política racista e colonialista.
O anti-semitismo em França pode ser considerado grave e inadmissível e atinge tanto os judeus como os árabes para além das tensões entre estas duas comunidades e tem de ser combatido por toda a sociedade francesa mas haverá judeus franceses tão inconscientes que aceitem esta proposta celerada?

Publicado por tchernignobyl às 09:07 PM | Comentários (1)

Intolerância zero

Resposta a um comentário do André Gomes ao post .Um modelo para o Pacheco..
Caro André, é curioso que tanto o Troll como tu admitem que o texto é fraco mas se insurgem contra o facto de eu ter feito um post em que tento tirar partido disso.
E ainda por cima tanto um como outro me classificam a mim de intolerante indo o Troll ao cúmulo de me acusar num tom que vai muito além da .crispação. de que me acusas, de ter diculdade em .aceitar críticas..
Há outros faits divers que rodeiam a actividade pública do pacheco nos ultimos dias, todos os dias as haverá, um deles é a questão da Unesco mas a minha .agenda. quando penso nos posts que hei-de enviar para o Blog não é ditada pela vida do Pacheco, se o fosse já teria falado deste texto que agora critiquei há mais de uma semana, ou sentir-me-ia compelido a fazer uma análise sistemática das suas posições, semana após semana.
Se serve para alguma coisa posso explicar que o mote para o post foi dado pela deliciosa noticia do sujeito que agride a namorada com um crocodilo.
Se as pessoas acham que isto tem a ver com uma atitude .reactiva. da minha parte... que hei-de fazer?Nada como é óbvio.

Quanto à questão do lugar na UNESCO:
O Barnabé elogiou o Pacheco sem questionar sequer as razões de cálculo politico que estarão por detrás desta atitude dele.

Uma coisa é o que ele diz, que é por .coerência., mas também é evidente para qualquer um que tenha acompanhado a trajectória política dele que este lugar tinha demasiada falta da visibilidade e o afastava do centro da luta política num momento em que tudo parece em vias de recomposição no campo da direita.
De qualquer modo, esse breve elogio do Barnabé e logo do Daniel Oliveira, levou o povo da direita a congratular-se sôfregamente pois foi visto como uma contribuição para a tentativa de entronização do Pacheco como uma espécie de .sage. suprapartidário que os seus admiradores tentam forçar por razões que pouco têem a ver com inocência política.
Talvez venha daí a impaciência que se manifesta quando as pessoas encontram uma critica anódina a uma croniqueta em vez de mais uma genuflexão perante a presciência do guru.
Nesta questão eu (e sendo este um blog colectivo falo apenas por mim) inspirando-me porventura num modelo de intervenção política idêntico ao que inspira o próprio Pacheco, prefiro ser muito mais ciscunspecto.
O Pacheco poderá ser muito coerente (como tantos outros em todos os quadrantes políticos, alguns dos quais persistentemente vilipendiados pelos admiradores dele) mas de nada vale realçar essa qualidade em si se daí não resultar algo de .operativo. relativamente ao progresso do Pacheco quanto a toda uma série de questões de muito maior gravidade em que a sua .coerência. se tem manifestado, como na defesa mais intransigente das aventuras do sr Bush mesmo depois das evidências que demonstram como se forjou uma gigantesca mentira e na mais triste tentativa que por cá se fez de justificação do injustificável, a generalização da tortura como .método. incentivado a partir da mais alta hierarquia de tratamento aos prisioneiros de guerra.
Seja o Pacheco coerente com os princípios da democracia que diz defender e denuncie sem "mas" tal como exige noutras circunstâncias aos seus opositores, como intoleráveis os abusos de Abu Ghraib, por exemplo, em vez de dourar a pílula e estarei disposto a tirar-lhe o chapéu.
Que se demita da UNESCO pelas razões que muito bem entender, é uma questão que me passa rigorosamente ao lado.
O domínio de aplicação da sua coerência exerce-se aqui relativamente a muitas ideias que ele tem patrocinado e defendido que me deixam na dúvida se me sentiria mais tranquilo com um Pacheco coerente à frente do Governo do que não estou com o populista Santana Lopes.

Publicado por tchernignobyl às 06:59 PM | Comentários (14)

DOIS IRMÃOS

doisirmaos.jpg

Ontem à noite, no Teatro Municipal de Almada: «Dois Irmãos», de Fausto Paravidino. Uma produção dos Artistas Unidos, encenada por Jorge Silva Melo, com José Airosa, Pedro Marques e Carla Galvão.
O texto é uma máquina de tensões, um pequeno universo de afectos desencontrados, de equívocos, de vidas em circuito fechado. Há uma progressão temporal claustrofóbica, um acumular de energias à espera de explodir, cartas que se trocam de viva voz (através de cassetes áudio), bastantes silêncios, um bizarro triângulo amoroso, jogos sobre a verdade e a mentira. Quase tudo coisas assim: frágeis, voláteis.
Depois, como sempre nas peças de Paravidino, a escrita é feita de rasgões, a linguagem tem a lâmina afiada. Só que este espectáculo, por enquanto, ainda não fere, ainda está rombo, perro, desafinado. Falta qualquer coisa, sobretudo ao nível da direcção de actores: Pedro Marques não convence quando berra; Carla Galvão é mais açucarada do que o pote de Mutella que vai comendo com corn flakes; e só Airosa tem o desprendimento certo no papel de irmão mais velho.
Nada que o tempo em palco (e os ajustes de Silva Melo) não possa solucionar, quando a peça reiniciar a sua carreira no Teatro Taborda.

PS: Depois de «Dois Irmãos», os Artistas Unidos fizeram uma leitura encenada de outra obra de Paravidino: «Natureza Morta numa Vala». É um extraordinário tour de force narrativo, com seis personagens à procura da explicação de um crime, que já tinha sido levado à cena no Festival, na versão italiana para um só actor (Franco Russo Alesi). Se dúvidas restassem de que Fausto Paravidino é já, aos 28 anos, um dos dramaturgos mais interessantes do teatro europeu contemporâneo, esta leitura (juntamente com a que foi feita de outro texto brilhante: «Génova 01») dissiparam-nas por completo.

Publicado por José Mário Silva às 04:48 PM | Comentários (3)

De certeza que estamos mais seguros?

Ontem de manhã tive uma acalorada discussão com um amigo acerca do brilhante futuro que nos espera (defendia ele) com a destruição da segurança social, a privatização da saúde e da passagem do controle das infra-estruturas básicas para a nossa sobrevivência como pessoas e até como civilização para as mãos de companhias privadas imunes ao controle democrático dos cidadãos.
Quando pensava num post para o blog, deparei-me com o artigo "We are not imune" de Ronald J. Glasser publicado na Harper's deste mês.
Como a Harper's, uma excelente revista, infelizmente não disponibiliza os seus artigos on line, aqui fica a introdução do artigo :

"Death is inevitable, but not disease. The difference may be as simple as washing our hands or keeping the wastes of industrialized farming out of the water supply, but it is often much more complicated. Bacteria and viruses are no mean adversaries, nor are they easily defeated. If we fail to be watchful or to protect those most at risk, a public-health catastrophe is inevitable, and yet somewhere within the span of the last thirty years the idea of the common good has disappeared from our national consciousness, giving way to the misconception that we no longer need to concern ourselves with the welfare of our fellow citizens. It is a dangerous concept, and it leads us toward a future infected with unprecedented and unnecessary disease.
We have grown not so much complacent and narcotized, lulled into a sense of security by the almost daily pronouncements from corporate medicine and the pharmaceutical industry of better drugs and more .breakthrough. treatments.
The spectacular progress of twentieth- century medicine, most recently the sequencing of the human genome, sponsors the widespread fancy that disease might someday be conquered, that genetic manipulation or nanotechnology or some other science- fiction marvel might bring with it the cure for death. Long forgotten are the days when the loss of a child to diphtheria or whooping cough or yellow fever was a commonplace event, the days before widespread vaccination and government safety and health regulations ; we no longer remember life before publicly funded sewage .treatment plants and the passage of the clean . air and .water acts.
Public health is often invisible and unremarked when it works well; when it fails our neighbors sicken and die.
A public health system is only as strong as its weakest link ; an epidemic enforces, in the most rigorous fashion, the American credo that all men are created equal. If we allow one segment of our society to suffer and perish from preventable disease, little stands in the way of collective doom.
"

Publicado por tchernignobyl às 04:33 PM | Comentários (1)

Dedicado à Daniela

Com dedicatória à Daniela que comentou o post abaixo sobre o Pacheco, um link para um texto bom para ler hoje à tarde da imprescindível Isabel Ferreira no storm magazine.
Infelizmente não consigo reencontrar o fantástico texto da Isabel intitulado "Cães de Abril".
Alguém fez o download quando o texto esteve disponível on line?

Publicado por tchernignobyl às 12:54 PM | Comentários (5)

A tribo sempre

está um Domingo cheio de sol, apetece-me ir passear e aconselhar este blog de que gosto muito.

Publicado por tchernignobyl às 12:47 PM | Comentários (0)

Um modelo para o Pacheco

Muitos devem ter apreciado o pequeno e deslavado exercício de "crónica social" que o Pacheco foi inventar para evitar ter de falar noutras coisas numa das suas últimas crónicas de quinta feira no Público .
Nessa crónica acompanha-se a deriva de uma família suburbana portuguesa perdida entre a outra banda, Rio de Mouro e o Algarve, o filho "gótico", o divórcio, as frustrações e "last but not least" graças à magnanimidade do autor, um leque vasto de opções de voto a condizer com a total ausência de perspectivas:
a CDU, o PS e o Bloco de Esquerda (nas europeias).
A história é frouxa, palavrosa e recorre demasiado aos lugares comuns chapa sete sobre essa família de temas.
Para apimentar a próxima crónica talvez o Pacheco ganhe inspiração em histórias reais vindas do El Dorado com a vantagem de os protagonistas terem grandes hipóteses de ser entusiásticos apoiantes do Partido Republicano de cujo franchising ele detém em Portugal os direitos.

Publicado por tchernignobyl às 10:21 AM | Comentários (10)

julho 17, 2004

DICAS QUE SÓ DOU AOS MEUS MELHORES AMIGOS (1)

A mais sublime das mousses de chocolate que se servem em Lisboa é esta:

mousse.jpg

Quem a traz para a mesa é a Xinha, neste belíssimo restaurante:

ijorgel.jpg

O IJorgeL fica na R. Sebastião Saraiva Lima, n.º 17 (uma paralela à Morais Soares, como quem sobe para a Penha de França).

Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (3)

Efeitos positivos do santanismo (o humor)

O hilariante discurso de Lopes na tomada de posse do novo governo só demonstra que temos razões para estar satisfeitos com o excelente momento de forma que a "stand up comedy" atravessa em Portugal.
Se pistas forem necessárias de futuro a algum historiador que investigue no caixote do lixo da história a hora a que decorreu o evento, basta atentar nos sintomas agudos de "modorra pós prandial" evidenciados pelo nóvel Primeiro Ministro durante a errática leitura do seu discurso .
Neste, fundiram-se duas das tradições que marcam o percurso e o discurso do popular estadista:
A tradição desportiva firmemente ancorada num frutuoso período de dirigismo desportivo caracterizada pela assimilação do estilo do dificilmente imitável "palmelão" detectável nas insinuações aos "que pensam que sabem as coisas antes de elas acontecerem", e o "pensamento" do autarca bem patente no recurso à incontornável metáfora "dos Velhos do Restelo" imbatível em popularidade na sua categoria junto da empreendedora "camada" ou "demão" (estamos numa época histórica em que por todas as razões é preferível a todo o custo evitar a designação de "classe") dos empreiteiros da construção civil.
Mesmo assim, o Presidente da República não evitou um puxão de orelhas pouco subtil pelo tempo que levou a tomar a sua decisão deixando apenas a Santana cinco dias cinco para formar o seu Governo.
Jorge Sampaio, que a poucos metros vigiava atentamente tudo o que se passava terá já dito a sua última palavra?

Publicado por tchernignobyl às 07:48 PM | Comentários (10)

Efeitos positivos do santanismo (cola...)

Não pode ser feito um levantamento dos efeitos positivos do santanismo sem uma referência (muito especial como é costume dizer-se) àqueles efeitos por assim dizer mais directos provocados pela longa permanência no ecosistema do "animal político" (não fui eu que inventei esta designação de animal... vocês sabem disso) .
Pois que outro exemplo mais inspirador dos benefícios da proximidade com o novo Primeiro Ministro podemos nós encontrar do que os dois novos Ministros Chaves e Silva cujas notoriedades particulares e evidentes elegibilidades lhes são outorgados pela estreita ligação política e pessoal de longa data com ele?
Assim, um ostentará o garboso título de "adjunto", o outro tratará dos "assuntos".
O equilíbrio ecológico do pântano está assegurado.
O Presidente Sampaio pode estender o hamac e ressonar a sua sesta.

Publicado por tchernignobyl às 05:44 PM | Comentários (5)

Efeitos positivos do santanismo (mens sana...)

A manutenção do Ministro Luis Filipe Pereira à frente da Pasta da Saúde foi recebida com compreensível alívio em muitos lares portugueses (independentemente de clubites e afectos políticos).
Não foi esquecida a forma determinada como contra os profetas da desgraça, o Ministro fixou em quatro o número de mortos registados na vaga de calor que assolou Portugal no passado Verão, assim arrancando às garras de uma cruel morte administrativa alguns milhares de portugueses já suficientemente penalizados pela morte física inexorável.

Publicado por tchernignobyl às 05:20 PM | Comentários (5)

Boas Férias

O ministro Telmo, ex-correia de transmissão do seu partido na Assembleia da República apresenta ao que parece como um dos factos mais notáveis do seu assombroso currículum na área sempre difícil e ingrata do Turismo, a participação num congresso de agências de viagem.
Em Cuba.
Que tal começar a descentralização com o Ministério do Turismo?

Publicado por tchernignobyl às 03:14 PM | Comentários (4)

Burocracia bem oleada

Habituada ao rame rame das "reacções" dos partidos, catalogáveis de acordo com os critérios prevalecentes no jornalismo mais moderno tal como as reacções dos vários intervenientes de qualquer jogo de futebol, a pivot do jornal da tarde da sic recorreu com eficiência ao modelo 37 para "reacções à posse de novo governo":
a oposição critica, a "coligação" apoia e está feito.
Santana, que sabe de que azedumes é feita a "unanimidade" do apoio que lhe é garantido pelo seu Partido deve ter gostado de ouvir uma notícia tão positiva.

Publicado por tchernignobyl às 03:07 PM | Comentários (1)

Efeitos positivos do santanismo (A corrida ao oiro)

Antes que nos vejamos na situação dos Bolivianos há que observar as cabeças de cartaz que se perfilam para a corrida ao oiro do século XXI.
O abastecimento e distribuição da água, o tratamento dos efluentes e sua reutilização.
A corrida ainda há pouco começou:
Guedes vai à frente, Arlindo resmunga pela porta do cavalo.
Adivinhem quem todos eles querem que se trame no fim.
Estou a pensar comprar um garrafão de cinco litros de água do Luso (até é privada e tudo) ao Presidente Sampaio para que ele alivie a sua sede enquanto medita nestes problemas da estabilidade política.

Publicado por tchernignobyl às 02:13 PM | Comentários (4)

Efeitos Positivos do Santanismo (mais valias)

Faltava graciosidade ao Ministro Roseta.
Para além de umas condecorações no último dia de mandato (uma bofetada de luva branca em todos aqueles que por inveja o acusaram de inépcia à frente do ministério), o Ministro soube cumprir com absoluto rigor e insenção a reinvindicação de "menos Estado" formulada por tantos artistas.
O que é como quem diz "mais Estado" sim, mas por omissão.
Restava por resolver a questão da imagem.
Ora imagem por imagem, se a alternativa era a "não imagem", Santana teve de optar pela Ministra João, inegavelmente uma mulher elegante, revelando assim uma insuspeitada atenção aos detalhes.
Na passada definiu também uma opção política clara:
Acima de polémicas estéreis sobre "mais" ou "menos" Estado ditadas pelas habituais "invejinhas", Santana afirma-se passo a passo, seguramente, como um actor priveligiado do estado "a que isto chegou".

Publicado por tchernignobyl às 02:11 PM | Comentários (3)

Efeitos Positivos do Santanismo (sempre)

A escolha do Ministro Arnault só parece surpreendente para quem não sabe que as próximas eleições são as autárquicas e as autárquicas têm muito que ver com as cidades.
Convém garantir que as cidades se encontram devidamente engalanadas para receber as autárquicas.
E para que o oiro continue a correr sobre o azul há também que assegurar que as quotas dos militantes do PSD continuam a ser pagas a tempo e horas e ainda que tudo se passa dentro da maior transparência.
Também há que dar descanso ao deputado Silva.

Publicado por tchernignobyl às 02:04 PM | Comentários (3)

Efeitos positivos do Santanismo (mais)

A escolha do Ministro Guedes vem em boa hora e é um golpe de asa que assegura de per se a criação de um bom Ambiente nas reuniões do Conselho de Ministros e no País.
Ao Presidente Sampaio recomenda-se uma ventoinha que o reconforte na árdua tarefa de vigilância nas Praias do Algarve que o espera ao longo dos "tempos apaixonantes" que se avizinham.

Publicado por tchernignobyl às 02:02 PM | Comentários (2)

AMIGOS E ESTREANTES

«É um governo de amigos e estreantes, com poucos técnicos e muitos políticos, aquele que Pedro Santana Lopes apresentou ontem ao Presidente da República e à comissão política do PSD» (in Público)

Depois dos primeiros ases tirados do baralho (o assustador mas experiente Bagão Félix, transferido da Segurança Social para as Finanças, e o quase consensual diplomata António Monteiro, indigitado para os Negócios Estrangeiros), o governo de Santana Lopes só revela duques e ternos. É, de resto, um Executivo à imagem do seu líder: neófito, comprometido e desconfortável na sua nova pele. Alguém imagina Nobre Guedes a mergulhar nos complexos dossiês do Ambiente? E Telmo Correia, um cão-de-fila de Paulo Portas, a gerir os melindres da estratégia turística nacional?
Na sua maioria, os novos ministros dividem-se em quatro categorias: os óbvios erros de casting (como os supra-citados e as novas ministras da Cultura e da Educação), os que merecem o benefício da dúvida (Fernando Negrão na Segurança Social), os perigosos (Bagão nas Finanças; José Luís Arnaut no super-ministério das Cidades, Administração Local, Habitação e Desenvolvimento Regional, em ano de pré-autárquicas) e as incógnitas (Daniel Sanches; José Pedro Aguiar Branco e todas as outras escolhas que foram feitas apenas por motivos políticos, de forma a criar uma corte fiel a Santana no Conselho de Ministros).
Em suma, se o Governo de Durão Barroso já era bastante fraco, este consegue ser ainda mais débil e dependente da iniciativa, visão e capacidade política do seu líder. Um líder chamado Santana Lopes. Mais do que triste, o cenário que se desenha para os próximos meses de governo em Portugal é altamente preocupante.

Publicado por José Mário Silva às 12:32 PM | Comentários (2)

julho 16, 2004

O FESTIVAL ESTÁ QUASE NO FIM

Até domingo, dia 18, o Festival de Teatro de Almada ainda tem muito para oferecer. Conferir a programação aqui.

fachada.jpg

Publicado por José Mário Silva às 08:05 PM | Comentários (9)

HÁ CENTENAS DE PAÍSES NO MUNDO

«Não tenho nada contra Santana Lopes para além do facto de me parecer um megalómano desejoso de acumular cargos uns atrás dos outros, de não mostrar competência para dirigir seja o que for em condições (uma câmara municipal, um clube de futebol, uma secretaria de Estado ou um governo), de desempenhar as funções para as quais é eleito de forma leviana e a pensar no que virá a seguir (Cultura, Sporting, Figueira, Lisboa, Portugal, Mundo e por aí fora), de andar sempre rodeado de dondocas, de ser tantas vezes referido nas páginas da actualidade política dos jornais como nas revistas cor-de-rosa ou de ser uma versão moderada, menos preocupante em aparência e heterossexual de Paulo Portas. Até estou disposto a dar-lhe uma oportunidade para ver do que é capaz à frente do governo de um país. Mas acho que não devia ser à frente do governo deste país. Há centenas de países no mundo. Por que é que temos de ser nós a ser governados por Santana Lopes? Não somos já suficientemente desgraçados com os incêndios, a pobreza, o atraso estrutural, as doenças, a iliteracia, as listas de espera, os Malucos do Riso e os acidentes de viação?» (roubado, com uma vénia, ao excelente blogue Confissões de um Atrasado Mental)

Publicado por José Mário Silva às 08:01 PM | Comentários (7)

UM ANO DEPOIS

Nem de propósito (foi mesmo coincidência), mas escrevi sobre música cubana exactamente um ano depois do desaparecimento de duas das suas maiores figuras. A 14 de Julho morreu Compay Segundo e a 16, faz hoje um ano, morreu Célia Cruz.
Encontrava-me ainda nos EUA aquando destas mortes. Se a morte de Compay foi lamentada pela comunidade hispânica, a de Célia foi algo para mim nunca visto. Foi todo um país dentro dos EUA (que é o que os hispânicos são) que parou para se despedir da sua maior referência. (Não na sua Cuba, que a ignorou até na morte.) Havia filas de quilómetros de fãs que se queriam despedir de Célia na agência funerária. Célia teve direito a dois funerais: em Manhattan, na catedral de St. Patrick, e em Miami, na torre da Liberdade. A música cubana ficou mais pobre sem eles, mas outros virão.

Publicado por Filipe Moura às 06:35 PM | Comentários (2)

QUEM VÊ TV...

Pessoas de olhos vazados de ver tanta televisão, por lhes esvaziarem assim a alma aos bocadinhos com tantas emoções alheias.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:25 PM | Comentários (11)

... SOFRE MAIS QUE NO WC

Queremos dominar o nosso tempo e fazer o que achamos importante, mas logo vem a ditadura da televisão e enfraquece-nos a vontade. Fica ligada a debitar coisas, umas atrás das outras e a trazer mundos que não são os mundos que queremos. Mas fragilizam-nos tanto que a única coisa que conseguimos fazer como atitude subversiva é mudar freneticamente de canal. E nunca mais vem o nosso mundo.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:25 PM | Comentários (6)

GESTOS (2)

Detesto esse gesto de engolir o fumo do cigarro com a maior calma do mundo. Poluis-te por dentro com ar de dominador de situações.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:24 PM | Comentários (8)

REGRESSO A CANAÃ (VERSÃO IMPERIALISTA)


Cartoon de Mike Lane, «The Baltimore Sun»

Publicado por José Mário Silva às 01:21 PM | Comentários (3)

A queda do anjinho

Eleição atrás de eleição, acentua-se o mergulho dos trabalhistas ingleses a caminho do fundo amarrados de pés e mãos e acorrentados pela mafia militarista a um bloco de cimento produzido na cimenteira Blair.
De nada valem os "relatórios" ilibadores convenientemente fabricados por juristas dedicados e provavelmente muto melhor pagos para iludir o eleitorado inglês.
Parece que já toda a gente percebeu que o senhor Blair não interessa e um clube que o aceita como sócio gerente não é frequentável.
Mais uma lição eloquente para a esquerda.
No município "seguro" de Leicester South tiveram agora uma queda de 27% o que dá uma medida do apoio desbaratado por este partido depois da varridela dada à vaga de corrupção ultraliberal dos anos 80.
Se isto não é um sinal..., mas o homem não larga o poder mesmo que arraste o partido para o fundo. E não há quem o ponha na rua...
Há um tipo de paroquialistas ingénuos que pensam que a corrupção e o compadrio se ficam por terras de nomes castiços como o Marco de Canaveses, Águeda, Felgueiras ou Gondomar e não se estendem para além da raia quanto mais ainda os Pirinéus e de todo para lá do Canal.
As consequências disto ainda estão longe de poderem ser avaliadas porque os conservadores continuam a debater-se com os anti-corpos gerados pela famigerada Thatcher (só de pensar nos elogios que este monstro de penteado exuberante vai ter quando morrer, já revira na tumba o labrego asselvajado do Ronnie ) e por serem provavelmente associados à governação proxy que mantiveram na pessoa do Tony em matéria de política externa e em particular no alinhamento canino com a Administração Bush.
São agora cada vez mais o terceiro partido, ocupando o lugar anteriormente ocupado pelos liberais democratas e o mesmo tipo de expressão eleitoral.
Os senhores do momento são mesmo os "liberais democratas" .
De partido com expressão insignificante disputam agora taco a taco com o Labour as preferências do eleitorado.
Se o Blair se demitir será que a Rainha convoca eleições antecipadas?

Publicado por tchernignobyl às 08:05 AM | Comentários (13)

SALSA NO OLYMPIA

Fui há algum tempo ao histórico Olympia ver Omara Portuondo, a grande dama viva da canção cubana. Não pude evitar recordar que estava numa sala histórica, por onde já tinham passado monstros sagrados da canção. Mas sinceramente pareceu-me que era isso o mais excitante que a sala do sr. Bruno Coquatrix tinha para oferecer que a distinguisse de outras salas: a história. Nada mais. A sala não me pareceu verdadeiramente nada de especial. Pareceu-me algo pretensiosa. A ideia do dono de ter o seu nome em néon por baixo do nome da sala parece-me de muito mau gosto... Se ele queria ser conhecido por ser o dono do Olympia, que tivesse dado o seu próprio nome à sala quando a fundou! O Carnegie Hall de Nova Iorque tem o nome do seu mecenas e ninguém se aborrece. O que eu nunca tinha visto era um tipo que, pelos vistos, só por ter nome de habitante da aldeia do Astérix, se julga tão ou mais importante do que a sala, quando afinal ninguém o conhece.
Bem, talvez esta má vontade se deva a uma certa decepção com o concerto de Omara. Ficou longe do que eu esperava. Ainda não tinha ouvido o seu mais recente álbum, Flor de Amor, mas esperava um trabalho na linha de Buena Vista Social Club e do seu álbum anterior, Omara Portuondo. Ou seja, esperava ouvir predominantemente boleros. No entanto, grande parte do concerto foi constituído por salsas e guarachas. Também houve espaço para algumas canções clássicas cubanas, para uma canção especialmente composta por Carlinhos Brown para Omara e para a inevitável Veinte Anos. Talvez esteja a ser injusto (eu até gosto de salsa), mas saí do concerto com a sensação de que Omara parece apostada em substituir a imortal Célia Cruz como a rainha da salsa. Parece-me um erro por dois motivos. Nunca o conseguirá (principalmente para o público hispânico nos EUA, para quem Célia Cruz era um ídolo), e nem me parece que seja essa a sua vocação natural. Esperemos que se mantenha no son e no bolero.

Publicado por Filipe Moura às 01:55 AM | Comentários (3)

julho 15, 2004

TOMARA-QUE-FIQUEM (MUITOS ANOS)

Primeiro houve uma conversa, junto àquele pequeno lago que fica no topo do Parque Eduardo VII, numa tarde de intenso calor. A Lia e a Ju falavam, animadíssimas, do blogue que estavam quase a criar, com outras "minas" que eu ainda não conhecia e que depois aprendi a admirar (a Filipa, a Patrícia, the rest of the gang). Poucos dias mais tarde, o blogue começou mesmo, a 15 de Julho.
Chama-se Tomara-que-caia e às vezes pareceu (ainda parece) uma versão lisboeta do «Sexo na Cidade», embora a tónica esteja muito mais na amizade do que propriamente nas desventuras afectivas. Fez hoje um ano de vida, esse blogue maneirinho, onde se pode ouvir/ler a melhor música brasileira (entre outras subtis maravilhas). Saravá, amigas! Que contem muitos.

Publicado por José Mário Silva às 11:37 PM | Comentários (0)

DA PORTA PARA DENTRO

Os sites das imobiliárias oferecem, na maior parte dos casos, completíssimos portfolios dos apartamentos que tentam vender (oito a dez imagens, em média, captadas com as cada vez mais democráticas câmaras digitais). Esses acervos são úteis para quem procura casa, diga-se. O problema é que são também, ao mesmo tempo, esteticamente perigosos. Isto porque revelam um dos mais bem escondidos pecados portugueses. Escreve-se com três palavras: decoração de interiores.

Publicado por José Mário Silva às 11:28 PM | Comentários (15)

EM JEITO DE SLOGAN

As Finanças precisam de bago, não precisam de Bagão.

Publicado por José Mário Silva às 11:18 PM | Comentários (8)

UM ESCÂNDALO

No ano lectivo de 2002/2003 saíram alterações aos regime de concursos dos professores. As principais alterações debruçavam-se sobre os chamados "mini-concursos". O objectivo do ainda então Governo de Durão Barroso era terminar com os ditos, o que iria beneficiar professores e alunos pois os primeiros seriam colocados mais cedo, e os segundos teriam todos os professores logo no início do ano lectivo. Até aí tudo bem.
No entanto, o início do ano lectivo 2003/2004 foi tudo menos aquilo que o Governo tinha prometido. Os "mini-concursos" terminaram (isso é verdade), mas deu-se início a algo ainda pior: as autopropostas. Em vez de ser o extinto DGAE a colocar os docentes, são estes que têm que apresentar a sua autoproposta às Escolas que disponham de um horário. Toda a transparência (prometida por David Justino e Abílio Morgado) dos concursos fica em causa.
Milhares de professores ficam de fora. Outros só são colocados em meados de Novembro (quando em primeiro em meados de Setembro tudo estava resolvido). Outros vêem o seu lugar ser ocupado por alguém com graduação inferior.
Mas o pior estava para vir: os concursos 2004/2005. Depois de milhares de euros em software informático, surgem erros em todos os verbetes de todos os professores. Num primeiro balanço são detectados mais de 20 mil excluídos.
Num balanço final esse número sobe para 100 mil. Isto é, todos os docentes do País. Com isto, os concursos são anulados e são prometidas novas listas provisórias para meados de Julho. Essas listas não surgem. Abílio Morgado vem à Comunicação Social dizer que na primeira quinzena de Agosto elas serão divulgadas. No entanto, não adianta uma data certa. Refere, ainda, que foram recebidas 25 mil reclamações e que estas estão a ser analisadas por um grupo de 20 pessoas (sim, 20) a uma média de 800 a 900 boletins por dia. Milhares de professores ficam em risco de ver as suas férias comprometidas (um direito há muito ganho por todos os trabalhadores); mas Abílio Morgado diz que os professores podem ir para férias descansados, dizendo ainda que o início do próximo ano lectivo não está em risco. Descansados? Como? Quando o futuro de alguém está nas mãos de gente como David Justino e Abílio Morgado, quem é que pode ir de férias descansado? Como pode Abílio Morgado dizer que o início do próximo ano lectivo não está em risco, quando nunca os professores foram colocados tão tarde?!
Portugal viveu embriagado com o Euro. Agora embriaga-se com o novo Governo, com as remodelações, nomeações, tachos, etc. Enquanto isso, milhares de professores esperam que o seu futuro seja decidido por gente que não tem dignidade suficiente para lhe ser atribuído o "título" de pessoa.

manuel (www.pedranocharco.blogspot.com)

Publicado por tchernignobyl às 05:10 PM | Comentários (9)

A SEZÃO

Depois de uns dias de expectativa com o desaparecimento do fatídico post "AMARGOR 5", eis que o telhudo J volta à carga e consuma a liquidação do Cruzes Canhoto.
AMARGOR V foi ampliado de forma a fundamentar mais demoradamente a sua decisão num texto eloquente ditado ainda pela raiva . Cheio de razões válidas como seria de esperar mas de cuja conclusão prática discordo em absoluto e que espero poder ter tempo de rebater nos próximos dias.
Outros "doentes" apanhados pela peste do momento são os imprescindíveis "Formiga de Langton" que já tinham dado o aviso de partida postando imagens de um ecrã de aeroporto com uma lista de partidas. Talvez dispostos a levar à letra as promessas de emigração imediata uma vez que Lopes chegasse ao Poder, mas provavelmente também saturados de aturar outras mediocridades num país de fronteiras demasiado estreitas para cientistas do nível deles.
Vejo assim, ainda incrédulo, fecharem as portas blogs amigos onde me habituei a comentar furiosamente nas minhas primeiras incursões na blogosfera no caso do cruzes, a incentivar no início e a ler fervorosamente depois no caso da formiga .
Como não tenho grande pachorra para exortações patrioteiras ou lamentações, fico-me por aqui já que suponho que eles podem imaginar o que eu sinto.
Um abraço ao J, ao Vitorino e ao Osvaldo e espero que voltemos a encontrar-nos em breve ou por aqui ou pela "realidade".

Publicado por tchernignobyl às 04:35 PM | Comentários (2)

INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA

A propósito de um comentário da sofia ao post do Filipe Moura sobre o "aussie" Fox acerca da manipulação da informação nos media americanos, a invasão do Iraque e a tortura nas prisões iraquianas ( e não só):
"A leitura dos memos escritos pelos advogados da Administração Bush sobre o tratamento a dar aos prisioneiros da "guerra ao terror" é uma experiência estranha. Os memos lêem-se como os conselhos de um advogado da mafia a um padrinho sobre como iludir a lei e evitar a prisão."
"Reading through the memoranda written by Bush administration lawyers on how prisoners of the "war on terror" can be treated is a strange experience. The memos read like the advice of a mob lawyer to a mafia don on how to skirt the law and stay out of prison."
Anthony Lewis, "Making Torture Legal" na New York Review of Books de 15 de Julho de 2004.

Publicado por tchernignobyl às 03:40 PM | Comentários (0)

Efeitos Positivos do Santanismo

O primeiro é quase um milagre:
Santana tranquiliza o povo inquieto com a possibilidade de ser abandonada a linha de "rumo" chamemos-lhe assim do anterior Governo.
Bagão Félix nas Finanças.
O povo pode começar a rezar muito porque com este ministro convém contar com os milagres da multiplicação dos pães e da transformação da água em vinho para a melhoria da qualidade de vida.
E os outros também, é só mais um reforçozinho de orações ao Menino Jesus de Praga e Salazar, ele próprio, acabará por voltar.
Interrogo-me se ao livro do Luís acerca dos segredos de Fátima não terá de ser adicionado mais um capítulo.

Publicado por tchernignobyl às 09:20 AM | Comentários (10)

THE AUSSIE THAT CONTROLS THE MEDIA

O movimento MoveOn, numa tentativa de demonstrar a parcialidade da Fox, uma das principais estações noticiosas de televisão norte-americanas (propriedade de Rupert Murdoch), patrocinou um estudo na forma de um documentário chamado Outfoxed. Na sua apresentação pode ler-se:

Seven days a week, 24 hours a day, Fox News Channel turns Republican talking points into news headlines. Now Uncovered director Robert Greenwald -- working with a group of Fox-monitoring MoveOn members -- has put together a documentary film called Outfoxed that exposes Fox for what it is: partisan spin, not news. (...)
Outfoxed was co-sponsored by the Center for American Progress and MoveOn. The film features former Fox News producers, reporters, bookers, and writers talking for the first time about how they were pressured to push each day's partisan message. Through leaked memos and never-before-seen Fox clips, Outfoxed makes a powerful and disturbing case not only about Fox, but about the state of American journalism.
Fox News makes no real distinction between its opinion shows and its news coverage -- partisan politics infuse all of Fox's programming. The media watch group FAIR just released a study of Fox's flagship evening news program, finding Republican guests outnumber Democrats by 5 to 1. Having an opinion is one thing. Insisting your partisan politicking is "fair and balanced" journalism is quite another. Whether you agree with Fox's politics is beside the point -- citizens in a democracy depend on unbiased news reporting.

O documentário Outfoxed vai ser vendido em DVD. Neste fim de semana o MoveOn está a organizar reuniões de divulgação onde o vídeo será exibido. Podem ver a apresentação e um trecho do mesmo aqui.
Outro estudo estatístico sobre a parcialidade da Fox News pode ser lido aqui.

Publicado por Filipe Moura às 01:31 AM | Comentários (5)

julho 14, 2004

EFEITOS NEFASTOS DO SANTANISMO (2)

Quem substitui Santana parece sempre, por comparação, melhor do que realmente é.

Publicado por José Mário Silva às 12:11 PM | Comentários (10)

PEQUENA SÍNTESE DO EURO 2004 (DEZ DIAS DEPOIS)

Há uma velha piada que diz mais ou menos isto: o futebol é um desporto jogado por duas equipas de 11 jogadores que correm atrás de uma bola redonda e no fim ganham os alemães. Infelizmente, a piada continua actual, apesar do desaire da Mannshaft (eliminada na primeira fase). Convenhamos: mais alemão do que Otto Rehhagel, só mesmo o futebol da Grécia.

Publicado por José Mário Silva às 11:50 AM | Comentários (9)

ALLONS ENFANTS...

Francófilos da blogosfera, uni-vos. Ici et ailleurs.

Publicado por José Mário Silva às 11:48 AM | Comentários (14)

TRÊS PALAVRINHAS APENAS

Repitam-nas como um mantra: «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»; «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»; «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»; etc.

Publicado por José Mário Silva às 11:46 AM | Comentários (7)

CÉU DA BOCA

Ontem queimei o céu da boca. Passado o incómodo, fica a poesia involuntária da língua (portuguesa).

Publicado por José Mário Silva às 10:16 AM | Comentários (2)

julho 13, 2004

O SADDAM ESTAVA BOM, APURADINHO, MAS AGORA, OLHE, TRAGA-ME UM BIN LADEN

Assim funciona a agenda da política externa americana:
«Segundo a "New Republic", a Casa Branca insiste em "apanhar" Bin Laden antes das eleições de Novembro. A revista cita várias fontes (sob anonimato) dentro do Governo paquistanês; um destes indivíduos estipula até um período específico. "Os visitantes [americanos] a Islamabad deram os últimos dez dias de Julho como data-limite. O ideal seria se a captura ou morte [de Bin Laden] fossem anunciadas a 26, 27 ou 28 de Julho" . ou seja, durante a convenção do Partido Democrata em Boston.» (in Público)

Publicado por José Mário Silva às 07:46 PM | Comentários (6)

NUVENS

nuvens.jpg

Quando me canso do que se passa cá em baixo, olho para cima.

Publicado por José Mário Silva às 07:28 PM | Comentários (3)

EFEITOS NEFASTOS DO SANTANISMO (1)

Agora até dou comigo a concordar com o que o José Manuel Fernandes escreve:

«Mas pior foi [Santana Lopes] ter feito crer que despachar uns ministérios para fora de Lisboa seria uma grande medida de descentralização. Ora cheirar a vacas no gabinete do ministro da Agricultura ou verem-se inglesas torradas pelo sol da janela do secretário de Estado do Turismo não faz deles melhores governantes nem corresponde a nenhuma real descentralização. A centralização é a mesma enquanto tudo tiver de ir ao gabinete do ministro, esteja ele no Terreiro do Paço ou na Foz do Douro. (...)
Ter surgido com tais ideias é, contudo, sintomático: Santana vive dos títulos dos jornais e das frases que passam em rodapé nas televisões. Por isso terá, todos os dias, uma ideia para ocupar esses espaços, ideia de que se esquecerá tão depressa como os eleitores, pois a ideia de cada dia serve para fazer esquecer a do dia anterior. É também dessa massa que se faz o populismo.»

Publicado por José Mário Silva às 06:54 PM | Comentários (22)

IMPOSTOS E IMPOSTORES

Nunca percebi por que é que a tarifa doméstica da electricidade é mais cara do que a tarifa industrial. Parece-me que o uso da electricidade para passar a ferro, para um frigorífico ou para cozinhar, é tão essencial como o leite. Por que é que um alfaiate ou o dono de um restaurante, que utilizam a electricidade para os mesmos fins (e mais um, que é ganhar dinheiro), pagam a electricidade mais barata? É um favor que o Estado lhes faz por fugirem ao pagamento de impostos?
De resto, a fuga aos impostos dos nossos empresários (mais de 60% não pagam impostos durante anos a fio!) é uma escandaleira nacional. Mas se eles não pagam de uma maneira, tem que pagar de outra. A partir de agora, eu quero que a tarifa da electricidade industrial passe a custar cinco vezes mais do que a tarifa doméstica.
No gasóleo industrial e nos veículos comerciais, a filosofia é a mesma. Por que é que são mais baratos que os nossos? Eu quero que o gasóleo industrial custe o dobro do normal, em vez do contrário, e, se eles têm dinheiro para comprar Ferraris e Range Rovers, também têm dinheiro para pagar veículos comerciais, que são os que lhes dão o dinheiro a ganhar. Eu quero que qualquer veículo comercial passe a custar, no mínimo, 50000 euros, mais um imposto de selo por ano no valor de 500 euros. Se eles não pagam de uma maneira, pagam de outra.
Toda a gente sabe que os profissionais liberais também são muito bons a fugir aos impostos (os trabalhadores por conta de outrém pagam em média 200 contos de IRS por ano, enquanto os profissionais liberais se ficam pelos cento e poucos). Eu quero que as tarifas da electricidade e água, em escritórios de médicos, advogados, arquitectos, etc, sejam 20 vezes mais caras do que as tarifas domésticas. Se eles não pagam de uma maneira, pagam de outra.
Outra coisa que me parece evidente: se as únicas pessoas que pagam impostos são os assalariados, e os empresários continuam a recusar-se a pagar o IRC, que agora até é só 30%, aumentam-se todos os empregados 30%, o que dá um aumento na colecta de impostos de 30%, e acaba-se com o IRC. É justo, não é? Se eles não pagam de uma maneira, pagam de outra.
Eu não quero continuar a aturar empresários chico-espertos, que recebem ajudas, incentivos e subsídios (muitos a fundo perdido) do Estado e da UE, que pagam a electricidade, a água, o gasóleo, os carros, e os terrenos em zonas industriais, mais baratos e à nossa custa, mas estão sempre a falar contra o Estado-Providência e políticas sociais, que até choram quando um pobre recebe o rendimento mínimo, que estouram os subsídios do Estado e da UE em carros, putas e copos, que montam o seu tasco, arranjam um empregado a quem pagam a caixa, mais meia dúzia de ilegais, a quem pagam 60 ou 70 contos por mês, que se acham sempre os melhores pagadores porque ali ao lado só pagam 50, e que ainda vão para o café gabar-se e rir, à frente de toda a gente, de que não pagam impostos.
Parece-me que andam a roubar os pobres para dar aos ricos.
(Luis Alves)

Publicado por José Mário Silva às 02:03 PM | Comentários (14)

CONVITE

convite.jpg

Este rectângulo chegou-me hoje à caixa do correio. Podia ser uma brincadeira do Luis Rainha, mas por acaso não é.

Publicado por José Mário Silva às 01:54 PM | Comentários (14)

ATEÍSMO NA NET

Como em tudo na vida uns partem, uns ficam, uns surgem. Também nos blogues. O pensamento ateísta já está representado na blogosfera há alguns meses através do Diário de Uns Ateus, um blogue colectivo que conta com a colaboração do nosso bem conhecido comentador e itálico ocasional Ricardo Alves. Vão lá ver.

Publicado por Filipe Moura às 12:52 PM | Comentários (8)

MEMORÁVEL

Parece que o Memória Inventada acabou mesmo. Era um blogue clássico no sentido blogosférico do termo, um dos pioneiros, e seguramente um dos mais bem escritos. Para mim tinha outro atractivo especial: era sediado em Nova Iorque (quem me vai dar crónicas nova-iorquinas agora?). O Ivan teve um percurso académico (geograficamente) inverso ao meu. Orientou-me uns bons restaurantes aqui em Paris. Ainda penso retribuir com uma lista comentada dos meus locais preferidos de Nova Iorque. Tal como contava com ele para uma discussão blogosférica sobre as vantagens relativas (culturais, de estilo de vida e não só) das duas cidades. (Tudo isto são projectos que espero que saiam da minha cabeça para o teclado um dia.)
Por tudo isto é uma pena esta decisão. Ao mesmo tempo agrada-me ler, na nota final do Ivan, que o blogue representou, nas palavras dele, "uma desmistificação do acto de escrever" e uma sucessão de "textos incompletos que depois nunca chegámos a terminar. (...) Chegou a altura de pegar em algumas dessas entradas e ver se consigo ir um pouco mais longe." Pelo muito bom que se lia no "Memória" desejamos bom trabalho e boa sorte ao Ivan, ao Tulius e ao Difool. Nós ficamos à espera.

Publicado por Filipe Moura às 12:49 PM | Comentários (0)

julho 12, 2004

22 mm

Vinte e dois milímetros.
Dois centímetros e qualquer coisa.
Imagino esse tamanho mínimo.
Aproximo a ponta do dedo polegar da ponta do dedo indicador.
Digo: «é assim.»
O tamanho mínimo, entre o polegar e o indicador.
«Agora é assim.»
Respiro fundo.
Ainda é assim.
Já é assim.

Publicado por José Mário Silva às 11:13 PM | Comentários (5)

OVER REACTING

Este gajo está a passar-se e alguém tem de inculcar-lhe algum juízo na cabeça.
Custa-me a compreender como as pessoas assumem estas reacções desesperadas como se tivessem ainda grandes ilusões sobre a forma como funciona o nosso sistema político, ou qualquer sistema político.
Onde pára a lucidez?
Sabemos que a conjuntura é favorável, e que se a Esquerda ou Esquerdas souberem agir com competência e lucidez, de nada valerão as piruetas previsíveis do Santana ainda speedado com o balão de oxigénio fornecido pelo Sampaio.
Mas para isso, pelo amor de deus, deixemos de encarar o Santana como o monstro que não se pode enfrentar, caraças.
Não levou ele traulitada forte e feia e acabou derrotado em todos os disparates em que se meteu em Lisboa? E foi como? Com a desistência dos Presidentes de Junta, sobretudo da CDU, e os movimentos de opinião e os cidadãos que lhe fizeram frente.
É um político com capacidades de comunicação que chega a um certo tipo de eleitorado? Sim, mas o que há de novo nisto?
Cuidado apenas com a excessiva fixação, mesmo se negativa, no personagem.
Fora isso eu estaria deprimido se tivesse havido uma vitória eleitoral brutal da direita e se as sonsagens lhes dessem vastas maiorias.
Agora assim?
Depender da tibieza de um personagem?
Encurralados?
Metem medo a quem?
É agora que o pessoal "desiste"?
Porque "deixou de ter espaço"?
AGORA????

Franchement... J, toma um duche frio e repensa-me essa coisa por favor.

Publicado por tchernignobyl às 10:56 PM | Comentários (15)

ORGULHO SELECTIVO

É extraordinário que Portugal tenha organizado um Campeonato Europeu de Futebol que incluiu a construção de 10 estádios mais os respectivos acessos em dois ou três anos a tempo e a horas de merecer os mais comovedores elogios da UEFA?
Ainda mais extraordinário é a Casa da Música que tem 20.000m2 de área de construção e foi projectada para ser inaugurada durante o evento Porto Capital Europeia da Cultura 2001 estar há seis-anos-seis em obras de Santa Engrácia.
A data (mais uma ) prevista para a inauguração da ciclópica obra será Abril de 2005 com abertura ao público em Setembro do mesmo ano, alvitram agora os astrólogos de serviço perscrutando com rara concentração os efeitos iridizantes provenientes da refração da diáfana luz do Norte através da superfície de uma réplica em cristal da bola oficial do Euro.
Até lá, melómanos, agarrem-se. Agarrem-se aos auscultadores.
Perguntar-se-á: não há vergonha no Porto, no Governo, entre os vários agentes que intervêm na obra?
Não interessa porque tudo faz sentido.
O futebol é uma prioridade nacional.
A nossa razão de existência, o nosso orgulho.
E a cultura? Mais Casa da Música menos Casa da Música, mais Casa menos Música alguém sente a falta de alguma coisa?

Publicado por tchernignobyl às 10:10 PM | Comentários (9)

É SÓ MUDAR AS DATAS

Guiava eu hoje à tarde por uma estrada do Alentejo quando no alto de um cerro vi uma pequena multidão.
Aproximei-me vi que admiravam um fogo que lá em baixo, numa extensa zona plana a cerca de sete quilómetros, se estendia por uma frente de dois ou três quilómetros através de uma zona densamente arborizada lançando para o céu uma enorme núvem de fumo que se elevava para Nascente, descrevia um arco à medida que subia e dirigia-se finalmente para o mar quando atingia uma altitude de umas centenas de metros.
Não se via um único helicóptero, apenas tractores a caminho do local para ajudarem os bombeiros a combaterem o fogo.
O Verão que se aproxima bem pode ter amornado no plano político com a decisão do Presidente mas no capítulo dos fogos, embora seja dificilmente concebível que se atinjam os recordes do ano passado parece que vamos tê-lo novamente escaldante.
Ainda mal a "estação" começou e já as labaredas irrompem de Norte a Sul.
Felizmente vale-nos o Livro Branco elaborado no fim do Verão passado pela Eminência Ministerial Lopes, Figueiredo, destinado a ilibá-lo e ao Governo do descalabro e a .propôr medidas. de prevenção e combate .
Como o conteúdo deste ano vai ser praticamente igual ao do anterior, no fim do Verão é só mandar editar as páginas com a data actualizada e teremos um novo Livro Branco prontinho em tempo recorde (poupança, eficiência...) a desculpabilizar mais uma vez o Governo.
Como ainda por cima o Governo deste ano só agora entrará em funções e não tem nada a ver com o que se passou nos anos anteriores está rigorosamente inocente.
Mais uma razão pois, para re-editar o Livro Branco.
Com um bocadinho de sorte até que talvez ainda esteja actualizado e legível para o próximo ano.

Publicado por tchernignobyl às 08:58 PM | Comentários (1)

SOPA DE LETRAS

É uma tentação irresistível dar mocada no Santana.
No entanto a insistência pode ter os seus efeitos perversos.
Suponhamos que um dia destes o Sampaio fala ao País e diz:
"Bom, já vi que com este cretino isto não vai a lado nenhum
Ó Esquerda, bacanos, vamos fazer as pazes ok?
Não posso fazer eleições porque enfim sou uma pessoa séria mas posso escolher um Primeiro Ministro e vigiá-lo a contento.
Ora ajudem-me aqui.
Quem há-de ser o gajo do PSD ou do PP sério, honesto, competente credível e dialogante que eu hei-de nomear e que ainda seja do mal o menos?
"
- o Alberto João?
- o Marques Mendes?
- o Guilherme Silva?
- o Paulo Portas?
- o Telmo Correia?
- a Manuela Ferreira Leite?
- o Ângelo Correia?
- o António Capucho?
- o Deputado Silva?
- o Avelino Ferreira Torres?
- o Arménio Santos?
- a Zita Seabra?

Quem é que o pessoal escolheria como alternativa credível ao Lopes?
Aceitam-se sugestões.

Publicado por tchernignobyl às 01:03 PM | Comentários (16)

A NOVA DESCENTRALIZAÇÃO

Num rasgo de puro génio, Pedro Santana Lopes avançou já com uma das suas famosas ideias peregrinas e decidiu marcar o início da trajectória enquanto primeiro-ministro com uma medida estrutural (chamemos-lhe assim): a "descentralização" do Governo. Uma coisa linda. Um ovo de Colombo. Um achado.
Funciona mais ou menos assim:

«É no Algarve que há mais turismo? Então transfira-se a Secretaria de Estado para Faro.»
«Sempre ouvi dizer que é no Norte que se trabalha a sério, não é? Nesse caso, ala com o Ministério da Economia para o Porto, a ver se isto entra nos eixos.»
«E os agricultores? Isso tem a ver com campinos, touros e coisas dessas, certo? Hmmm, sendo assim, Santarém é que é. Ouviram? Ribatejo é que é. Ponham lá o Ministério da Agricultura perto das terras lavradas...»

Confesso que estou mortinho para conhecer a futura localização dos outros ministérios. Quanto ao Conselho de Ministros, caso se mantenha a lógica descentralizadora, calculo que se passe a realizar todas as quintas-feiras, de manhã, no rochedo mais exposto ao vento do arquipélago das Selvagens.

Publicado por José Mário Silva às 11:57 AM | Comentários (16)

POLÍTICA GINSENG

Em entrevista à SIC, ontem à noite, Pedro Santana Lopes garantiu que a vigilância de Sampaio sobre a sua governação será entendida como um «tónico».

Publicado por José Mário Silva às 11:54 AM | Comentários (2)

A DECISÃO DE SAMPAIO

A decisão de Jorge Sampaio foi muito educativa. A ver vamos é se as lições que ela corporiza vão ser aprendidas.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos, entre outras coisas, que a "democracia" que temos em Portugal recompensa privilegiados que para ganhar umas eleições se "esquecem" das leis que regem este país e em vez de apresentar listas de deputados se apresentam apenas a si próprios como candidatos a primeiro-ministro.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos que a "democracia" que temos em Portugal recompensa que, quando deixa de convir falar-se em "candidato a primeiro-ministro", entretanto transformado em primeiro-ministro, se "redescubra" subitamente que, afinal, em Portugal se elegem deputados nas eleições legislativas.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos que a "democracia" que temos em Portugal recompensa quem engana o povo. Não só quem engana o povo com campanhas eleitorais fraudulentas, mas também quem engana o povo com citações truncadas de textos do próprio Jorge Sampaio.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos que a "democracia" que temos em Portugal é operada em jogos de bastidores e intrigas palacianas, das quais pouco mais sai para a opinião pública do que desinformação.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos que na "democracia" portuguesa quem foge às suas responsabilidades e não cumpre o que prometeu aos que nele confiaram tem futuro assegurado.
A decisão de Jorge Sampaio não nos ensina, mas ajuda a tornar mais claro, que na "democracia" portuguesa se cumpre fielmente aquele princípio que diz que cada um é promovido na proporção directa da sua incompetência.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos, ou pelo menos devia, que a esquerda nunca ganha nada quando recorre a níveis de demagogia que se aproximam aos da direita.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos, ou pelo menos devia, que a única forma de a verdadeira esquerda conquistar algum poder real na "democracia" portuguesa é marcando a diferença sendo, de facto e não apenas em teoria, moral e formalmente superior à direita.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos, ou pelo menos devia, que o voto útil é sempre, mas sempre, profundamente inútil, e que dar poder a medíocres por se julgar que poderão, talvez, ser menos maus que os adversários que se toma como mais directos é sempre, mas sempre, um tiro que sai pela culatra.
A decisão de Jorge Sampaio ensina-nos, enfim, que na "democracia" portuguesa o povo não conta para nada e na realidade só serve para formalizar a bênção já dada por outros a uma ou outra das facções em que na aparência se divide a oligarquia de medíocres que governa o país.
E é isto que nos ensina a decisão de Jorge Sampaio. Depois de uma aula tão educativa, segue-se o recreio.
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 11:17 AM | Comentários (7)

ELE É UM «POPULISTA CONTROVERSO»

Não somos nós que o dizemos. É o Financial Times.

Publicado por José Mário Silva às 11:14 AM | Comentários (5)

Onde está o Wally?

Por outro lado, esta demissão do Ferro... o que significa?
Alguém me explica a razão de ser de uma demissão destas neste momento mesmo admitindo que Ferro se sentiu "traído" pelo Sampaio?
Fez isto para "lixar" ou afrontar o Sampaio?
E a oposição ao novo Governo? Não é isso o mais importante?
Medo de enfrentar o regresso do Papa Vitorino?
Mas não acabou de sair de uma vitória eleitoral?
O que é que foi? Não pode sofrer uma contrariedade que nem é um sério revés uma vez que quem ficará com o ónus da manutenção da direita no Governo é apenas o Sampaio?
Não é o historial dos disparates e becos sem saída provocados pelas .reacções. temperamentais do Ferro acompanhado de perto pela pasionaria Ana Gomes uma prova que o melhor é mesmo a esquerda e em particular o PS se deixar de indignações epidérmicas e arranjar cabeça fria, organizar-se e preparar-se para vencer as próximas eleições com uma alternativa estruturada para o governo do País?
Ou o pessoal satisfaz-se com a vitória de um partido fantasma nas eleições europeias por reacção instintiva do eleitorado contra o Governo, festejada na rua por quatro cidadãos tristonhos e bem intencionados à porta do Hotel Altis?
Com este PS incapaz de criar um movimento na desmobilizada sociedade portuguesa, ainda a sair do pesadelo Casa Pia, desarticulado, à procura de um líder de um baralho onde os ases são o Sócrates, o Lamego, o João Soares, o Coelho, provavelmente o Vitorino ou mesmo o Seguro, o que é que o pessoal estava à espera que viesse a ser o tal Governo da Esquerda que forçosamente sairia de umas eleições antecipadas?
O regresso da Edite Estrela? Do Narciso? do Gomes? do Monterroso? Dos "notáveis"? Do "aparelho"?
RENOVA-TE PS ganha a iniciativa política e depois falamos.
Ou estão à espera que seja o Bloco como de costume a fazer as despesas da crise e a levar a oposição às costas com o seu enorme grupo parlamentar para depois assumirem a pose de Estado quando chega a hora do poder e desprezarem solenemente a restante esquerda a quem conforme ao papel que lhe está reservado no script resta gritar (novamente) .ó da guarda traição traição. ?

Publicado por tchernignobyl às 01:18 AM | Comentários (17)

julho 11, 2004

Stress da meia noite

O excesso de horas de trabalho nas últimas semanas que me forçou a acompanhar a actualidade de forma fragmentária e longínqua talvez me tenha empedernido a carapaça mas surpreendeu-me um pouco a agitação que se viveu nos últimos dias à volta do .affaire. eleições que depois de criar tantas expectativas acabou afinal por parir um rato para substituir aquele que em boa hora abandona já o navio.
Um marciano julgaria encontrar-se perante uma derrota catastrófica e histórica, uma afronta de dimensões apocalípticas quando, na minha opinião, isto não passa de um contratempo do qual se têm de extrair lições.
É claro que me chateou a decisão do Presidente mas será que isso justifica o stress com que na esquerda se reagiu, a começar com as acusações de .submissão. aos capitalistas só porque no meio da confusão uns parolos se pronunciaram solenemente acerca da .desestabilização. que seria .inevitavelmente. provocada pelas eleições ( para eles todas as eleições são sempre mais ou menos desestabilizadoras, qual é a novidade?) apenas para reprodução devota e imediata do Correio da Manhã e afins no calor da guerra mediática?
O Sampaio é um homem sério que foi provavelmente apanhado à má fila pelo Durão quando se tornou quase certa a ida deste para Bruxelas, terá dado logo garantias, ficou preso pela palavra (aquela cena .pimbo-patriótica. das vantagens "para o país" do cargo se ocupado por um patrício estão a ver?) e... ficou logo ali todo tolhidinho... o resto foi mero show off, engonhar para o pagode descomprimir das emoções do Euro.
Claro que isto não deixa de ser preocupante e mesmo revoltante pelo que revela da impossibilidade da esquerda aprender com o pragmatismo da direita.
Em situação análoga, se cheirasse a poder, tivessem eles a faca e o queijo na mão, não havia "espírito" da Constituição ou .desestabilização. que evitasse as eleições, era logo... enquanto a esquerda se afunda neste pântano da "imparcialidade" do Presidente e da sua preciosa moralidade serôdia e sistematicamente abdica de exercer o poder quando dele dispõe.
À direita, verdade seja dita, ainda houve um arrepio da Dra Ferreira Leite que não é um personagem menor do partido e do governo defunto a esganiçar-se contra o Pedro mas não entrou logo tudo nos eixos da unanimidade kim sung ilyana mais coriácia amortecendo quaisquer ondas que sugerissem a mais leve fractura e inspirassem o mais ténue sobressalto de consciência ao impoluto presidente?
Muitos, possivelmente a maioria deles, não podem com o Santana? Que se lixe! O que interessa é que não haja eleições nesta altura, engulam-se os sapos que tenham de se engolir.
Admita-se que não são parvos.
Torna-se é incompreensível que chamem em tom pejorativo de disciplinado ao eleitorado do PC...
O cúmulo, depois da cedência fundamental, são as promessas de "vigilância" e os "vetos" do Presidente.
O Governo tem de continuar a aplicar o seu programa???
Como assim?
Quer dizer que afinal o Sampaio também acha que o Governo estava no caminho certo?
Ou acha que o Governo para ser coerente tem de ir até ao fim a torturar os portugueses?
Eu por mim tudo bem, quanto mais eles nos derem do mesmo maiores são as perspectivas de rebentarem nas próximas eleições, mas o tal povo português tem de levar com isso em cima sem reagir?

Publicado por tchernignobyl às 11:53 PM | Comentários (3)

TEORIA DOS TRÂNSFUGAS

Jorge Sampaio é o Freitas do Amaral da esquerda.

Publicado por José Mário Silva às 11:47 PM | Comentários (8)

ATENÇÃO, SEQUÊNCIA E RIGOR

«Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda de uma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.»

Arte Poética III, Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por José Mário Silva às 11:46 PM | Comentários (1)

TRÊS ANOS DEPOIS (COM RIMA E TUDO)

Ainda bem, acho hoje, que a lucidez antes do ensaio me levou a caneta no momento de fazer a cruz no Sampaio.

Publicado por Margarida Ferra às 11:43 PM | Comentários (2)

O PARADOXO DE BELÉM


Cartoon de Luís Afonso,
«Público»

Publicado por José Mário Silva às 11:37 PM | Comentários (4)

COISAS QUE EU GOSTARIA DE SABER ESCREVER

O frágil ritmo da respiração do bebé que dorme ao meu lado; a mágoa que repassa os últimos acordes daquele quarteto que já só ouço em segredo; o alívio de acordar sem que isso doa; a estranheza agridoce de ver os meus filhos transformarem-se aos poucos em estranhos gentis mas distantes, com vidas cheias de portas fechadas e janelas opacas; a brandura do desespero destes dias vagos; o assombro de um ou outro momento que refulge, redentor e inesperado, sem motivo claro; mesmo a descoberta de mais uma banal maravilha para juntar a este rol.
Se ao menos eu fosse poeta, as minhas palavras talvez pudessem aspirar à condição da música, talvez fossem capazes de ignorar a fenda entre e o artifício e a essência das coisas que magoam, que nos mordem. Mas não: sei-me condenado a permanecer aquém, tagarela e inconsequente. Assim, com muito pouco tenho de me contentar. Nestas linhas repousará o meu parco consolo, por descobrir mais uma fronteira traçada pelo giz das minhas imperfeições. One more line crossed, one more mystery explained...
Uma só questão: se não consigo, se nem sequer tento, chegar às paragens que realmente almejo, porque hei-de perder tempo com excursões irrisórias a parte alguma?

Publicado por Luis Rainha às 09:08 PM | Comentários (2)

Never ending story

Demos a palavra a quem sabe e sente do que fala.

"Life without a fence was terrible, but at least it created a sense of urgency; that we have to do something to stop the killing; to solve the conflict; to make peace. The fence creates an illusion that we can "manage" the conflict instead of resolving it, another dubious invention of recent years."
Extraído do artigo de Yoel Esteron, "Lets dismantle the fence" publicado no Haaretz.

Publicado por tchernignobyl às 09:59 AM | Comentários (2)

julho 10, 2004

SOPHIA SEMPRE, SAMPAIO NUNCA MAIS

De um poema dedicado a Catarina Eufémia (já aqui evocado pelo Filipe Moura):

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Publicado por José Mário Silva às 11:50 PM | Comentários (0)

MORTES POLÍTICAS

Primeiro foi a simbólica (Jorge Sampaio). Depois a real (Maria de Lourdes Pintasilgo). Triste coincidência.

Publicado por José Mário Silva às 11:47 PM | Comentários (2)

SAMPAIO, O SUPER-VIGILANTE?


Para dar uma no cravo, depois de dez minutos a martelar furiosamente na ferradura, Sampaio afivelou cara de mau e ameaçou o futuro governo com um purgatório de constante vigilância. Que é preciso continuar as políticas neste e naquele sector; senão... senão, o quê, meu Deus?
Irá Sampaio dissolver a AR mal Santana aplique à escala nacional o populismo acéfalo e ineficiente que já distinguiu a sua acção em Lisboa? Irá Sampaio puxar as orelhas a Alberto João quando a sua ilha se endividar excessivamente pela 86ª vez?
Alguém acredita, para começar, que ele tenha coragem para tal? Alguém crê, por um minuto que seja, que ele irá afrontar a maioria que agora não quis sujeitar a sufrágio? Alguém o imagina a lançar a tal "bomba atómica" se agora, quando tinha todos os motivos imagináveis para tal, não o fez? Está-se mesmo a ver Sampaio a declarar uma guerra institucional ao governo que criou em nome da sacrossanta "estabilidade", não está?
Quem acredita nisto, talvez também imagine possível o cenário em que os barões laranjas se vão voluntariamente apear do comboio do poder para combater Santana...

PS: sempre gostaria de saber como é que Santana poderá, em simultâneo, seguir o programa de Durão e prosseguir as políticas do mesmo, quando uma coisa não equivale à outra - recordem, por exemplo, o previsto e nunca visto "Choque Fiscal".

Publicado por Luis Rainha às 12:33 PM | Comentários (12)

O FIM DO SEMIPRESIDENCIALISMO?

O que mais me preocupa são as consequências que esta decisão pode ter (e terá) no nosso sistema político.
Sejamos claros: a decisão do Presidente da República não é ilegal e nem é inédita. Noutros países é até normal. Quando Margaret Thatcher se demitiu por causa da poll tax, em 1991, foi substituída por John Major, sem eleições. Neste caso tratou-se de uma solução de continuidade. Mas em Itália, em 1999, o governo da Oliveira de Romano Prodi perdeu o apoio da Refundação Comunista. Prodi acabaria como Presidente da Comissão Europeia mas o governo que se lhe seguiu, apoiado por uma fracção da Refundação (que viria a constituir um novo partido) e presidido por Massimo d'Alema, não foi um governo de continuidade relativamente ao de Prodi. O mesmo se dirá do terceiro governo da Oliveira, após a demissão de d'Alema devido à derrota nas eleições regionais. Em todos estes casos, "salvou-se" o parlamento e lá se procurou a solução. Ninguém se queixou de falta de democracia. Por que não fazer o mesmo em Portugal?
Bem, é que nestes países há um regime parlamentarista. O parlamento é a instituição soberana da democracia. O chefe de Estado italiano é eleito pelo Parlamento, ou seja, tem tantos poderes como a rainha de Inglaterra. O chefe de Estado inglês é... a rainha de Inglaterra.
Portugal é um regime semipresidencialista e o principal garante de funcionamento do sistema é o presidente da República, que é eleito por sufrágio universal. Não é que Sampaio não tenha legitimidade para tomar a decisão que tomou, mas ao pensar sempre no parlamento como o órgão máximo, ao justificar com base nisso a sua decisão e ao abdicar de utilizar os seus poderes, Sampaio está a proceder como se dependesse do parlamento. Como se tivesse sido eleito por este. Ora isto é que é muito grave, para mim e para os que, como eu, defendem um regime semipresidencial com um presidente forte. Sampaio tem esvaziado (desde há muito tempo) completamente a sua função.

(Notas: a primeira pessoa a falar neste assunto desta perspectiva foi o João Pedro Henriques. O André Abrantes Amaral tem uma discussão interessante sobre parlamentarismo vs. semipresidencialismo neste contexto. Embora a perspectiva dele - parlamentarista - não seja a minha, acho que vale a pena lê-la.)

Publicado por Filipe Moura às 03:00 AM | Comentários (14)

PARA ACABAR DE VEZ COM O PSD

Sejamos minimamente optimistas. Este é um governo que, apesar de legal, é contra a vontade popular desde a sua génese. Não lhe prevejo grande sucesso. Tem contra si toda a esquerda e, mais importante, grande parte do PSD. Não nos iludamos: as "bases", o "aparelho", podem ter apoiado Santana Lopes com 98% dos votos. Mas muitas das principais figuras do partido estão contra este líder. Santana Lopes, o seu populismo, a sua despreparação, vão conduzir a direita e o PSD ao abismo. Depois de dois anos de Santana Lopes, a esquerda vai ganhar as autárquicas, as presidenciais e as legislativas. O pior é o país até lá ficar entregue a ele.
E com esta divisão interna talvez acabe de vez essa aberração chamada PSD, um partido completamente contra natura (até no nome, que não tem rigorosamente nada a ver com a sua prática política) e onde cabe tudo: de herdeiros do salazarismo a Pacheco Pereira. Sousa Franco e o seu grupo sairam do PSD por causa da primeira AD. Agora, talvez outros membros façam o mesmo e a história se repita. Santana, em congressos, nunca chegou à presidência do partido pois, apesar de apelar às "bases", nunca convenceu os dirigentes. Várias vezes chegou a falar-se de um partido criado por Santana. Agora que, com Santana como Primeiro Ministro, o PSD real (digo, o PPD) chegou ao poder, talvez sejam os "copinhos de leite" (para usar a linguagem do colega Avelino) a sair e a fundar um novo partido.

Publicado por Filipe Moura às 02:56 AM | Comentários (9)

SANTANA - THAT'S OUR BUSH!


São meninos de boas famílias e só por isso vieram para a política.
Fora da política, não se lhes reconhece currículo académico ou de serviços de relevo.
Não se lhes reconhece uma ideia ou pensamento político original ou relevante. São especialmente famosos pela sua despreparação, pela falta de educação e cultura e pelas gaffes.
Fizeram carreira política local, e nunca nacional. (Um foi secretário de estado, mas nunca ministro.)
Chegaram aos mais altos cargos por processos legais mas não democráticos.
Descubram as diferenças.

Publicado por Filipe Moura às 02:04 AM | Comentários (13)

VALHA-NOS S. AGIGULFUS!


Primeiro, ele era só um inimigo de estimação, mais ridículo que perigoso. Depois, surgiu a ameaça, ainda incrível demais para ser levada a sério. Agora, por fim, dou-me conta do tristíssimo abismo em que Sampaio nos deixou cair: Santana Lopes vai mesmo ser primeiro-ministro de Portugal.

Publicado por Luis Rainha às 01:46 AM | Comentários (2)

NÃO GASTEMOS CERA...

Razão tem um sagaz amigo que há pouco me ligou: "deixa lá o Sampaio. Daqui a três dias, já toda a gente se voltou a esquecer que ele existe".

Publicado por Luis Rainha às 01:38 AM | Comentários (2)

ALGUÉM ME EXPLICA PORQUE TEREI VOTADO NESTE FULANO?

Jorge Sampaio teve oportunidade de impedir que chegasse ao poder, por portas travessas, um primeiro-ministro que representa os antípodas dos valores que ele, Sampaio, diz respeitar: honestidade, democracia, respeito pelas diferenças alheias, competência, seriedade. Ao invés, Sampaio estendeu o tapete de boas-vindas a um clown que traz já na sua corte o pior bando de hienas que se consegue hoje arregimentar por aquelas paragens "ideológicas".
Depois de uma justificação de merceeiro/jurista, muito apegada às lógicas da mais estrita interpretação da constituição, ficamos sem saber para que serviu a encenção de infindáveis visitas de conselheiros, o psicodrama arrastado... quando afinal bastava ao nosso PR que a maioria lhe garantisse estabilidade e teimosia na implementação das mesmas políticas. (Mesmo que o próximo primeiro-ministro fosse o Bibi, presumo.)
Sampaio trai assim a confiança e o voto de todos os que o elegeram. E deixa em cada um de nós a certeza de que esta inércia timorata se transformaria em coragem renovadora caso ele estivesse ainda no seu primeiro mandato, caso ainda necessitasse mais uma vez de cortejar o "povo de esquerda". É desta matéria mole de que são feitos aqueles que largam as suas ditas "convicções" mal elas deixam de garantir flutuabilidade em mares revoltos.
Declaro-me aqui disposto a fazer o que puder para impedir que a vergonha de termos Santana no poder dure muito. Posso colar cartazes, fotocopiar folhetos, fazer peditórios, sei lá. Só não me peçam para votar outra vez num candidato presidencial oriundo do PS.

PS: há uns tempos, já aqui tinha feito a pergunta. Agora, estou mesmo convencido da resposta que então arrisquei: "Se é indiferente estar lá Sampaio ou Cavaco Silva, talvez fosse mais económico e razoável deixarmos ao Tribunal Constitucional - ou a algum computador versado em leis - a resolução destas crises. Sempre poupávamos o pobre Jorge I, o Consensual, a semelhantes dores de cabeça."

Publicado por Luis Rainha às 12:47 AM | Comentários (5)

julho 09, 2004

LUTO

Publicado por José Mário Silva às 10:22 PM | Comentários (13)

THE HORROR... THE HORROR...

Sampaio acobardou-se, Ferro colapsou, vamos ter Santana Lopes como primeiro-ministro. É nestas alturas que tenho vergonha de ser português.

Publicado por José Mário Silva às 10:17 PM | Comentários (25)

O QUE JÁ TODA A GENTE SABIA

O Tribunal Internacional de Justiça declarou ilegal o Muro da Cisjordânia, recomendou à ONU que ponha fim à sua construção e declarou que os palestinianos afectados devem ser indemnizados. O texto foi aprovado com um único voto contra de um juiz norte-americano.
Entretanto, Washington já declarou que o TIJ "não é a instância adequada" para julgar este caso. O governo de Ariel Sharon já anunciou não acatar a decisão.
Alguma surpresa para alguém?

Publicado por Filipe Moura às 05:32 PM | Comentários (3)

O SANTO PADROEIRO DAS ANTECIPADAS

Nem de propósito: hoje é dia de S. Agigulfus. Este beneditino, bispo de Colónia, teve a fraca ideia de se manifestar contra a nomeação de Carlos Martel como Prefeito do Palácio, em substituição do moribundo Pepino. Quando Carlos tratou de abarbatar o poder, teve logo a lembrança de mandar matar o bom Agigulfus.
Imaginem, aqui e agora, a bicha de candidatos a mártires, se o Santana sobe mesmo ao trono...

Publicado por Luis Rainha às 04:45 PM | Comentários (2)

PRIMEIRAS REACÇÕES À DECISÃO DE JORGE SAMPAIO

Um intelectualóide de esquerda como eu tem mais que fazer além de estar aqui à espera que Sua Hesitação por fim escolha um caminho: há o ciclo de cinema búlgaro no cineclube lá do bairro, uma manifestação em defesa dos antílopes do Alto Volta, a palestra do Vasco Gonçalves; um sem fim de obrigações incontornáveis a encher a minha agenda para hoje. Vai daí, deixo-vos já na companhia de um sumário das notícias que aí vêm. Para que a coisa se adapte aos condicionalismos impostos pela realidade, vocês só têm de, a cada frase, riscar o que não interessa. Vamos lá então:

"Jorge Sampaio, como é já do conhecimento geral, optou por convidar o PSD a formar novo governo/antecipar as eleições .
Naturalmente que o BdE, enquanto organismo colectivo visceralmente de Esquerda, só pode ficar com vontade de bater em alguém/congratular-se com semelhante escolha. Esta vem provar que a confiança que sempre depositámos em Jorge Sampaio era uma idiotice completa/inteiramente justificada.
Num PSD condenado a mais dois anos de poder/morder o pó da derrota, a situação parece invocar um silêncio de sepulcro. Santana Lopes tem recusado todos os contactos com a imprensa, tendo sido, no entanto, apanhado pelas câmaras da TVI a vociferar um sonoro Yes!/Porra! ao telemóvel, à porta da Kapital/da sua residência oficial. O seu apoiante/ex-apoiante, Alberto João Jardim, menos circunspecto, declarou que "está pronto a assumir responsabilidades a nível nacional"/"está pronto para declarar a independência" da sua ilhota.
No Largo do Caldas, preparam-se excursões de joelhos a Fátima/multiplicam-se os casos de imolação pelo fogo de futuros desempregados. Paulo Portas já veio a público "aplaudir a coragem demonstrada por Sua Excelência ao resistir às infames pressões da esquerda"/"condenar o golpe de estado subreptício consubstanciado através da pusilanimidade do PR".
Quanto ao PS, temos que Ferro Rodrigues passa a ter os dias contados/vê assim a sua liderança reforçada; os seus adversários internos/apoiantes de sempre fazem já bicha para pedir a sua cabeça/um lugarzito no governo.
Na sede do BE, Louçã manifestou-se "veementemente contra o presente estado de coisas". No Parlamento Europeu, não foi possível obter um comentário de Miguel Portas, ausente em missão oficial na Festa da Cerveja de Knokke le Zoute."

Amanhã, prometo voltar ao assunto/passar mas é o dia na praia, a comemorar.

Publicado por Luis Rainha às 03:46 PM | Comentários (10)

QUATRO ASSOALHADAS

Terrível, esta certeza de que a casa ideal existe . algures na cidade . chamando por nós como a agulha no palheiro.

Publicado por José Mário Silva às 02:20 PM | Comentários (7)

REACCIONARISMO TRIPEIRO

Nos tempos áureos do BdE I escrevi que os nomes das pessoas muito poderiam revelar sobre as suas posições políticas. Tal posição valeu-me uma divertida polémica com o Pedro Mexia. Fiquei de voltar a este assunto, e não voltei até hoje. Mas continua em agenda.
O assunto que trago hoje é análogo: os nomes das ruas. De facto, no Porto (onde escrevi este texto apesar de já lá não me encontrar), as ruas são sempre "de" alguém. Não me refiro à Praça de Lisboa, onde escrevi este texto (quem diria?); refiro-me às ruas com o nome de uma pessoa. É a Rua de Júlio Dinis, é a Praça de Gomes Teixeira, é a Rua do Doutor Magalhães Lemos... Não encontrei mesmo nenhuma excepção.
Pelo contrário, em todas as outras cidades portuguesas que me lembro, as ruas não têm o tal "de". As únicas excepções de que me recordo agora (vá-se lá saber porquê) são, em Lisboa, a Rua do Conde de Redondo e a Avenida de António José de Almeida. Mas não me lembro de mais nenhuma rua "de" alguém.
Creio que tal facto não acontece por acaso, e surge como consequência de o Porto ser historicamente uma cidade burguesa e defensora da iniciativa privada. As ruas do Porto, assim, de certa forma também são privadas. No Porto, é uma honra para a rua ter o nome da pessoa que lhe dá o nome.
Pelo contrário, nas outras cidades é uma honra para a pessoa ter o seu nome imortalizado numa rua. A rua pertence acima de tudo à cidade e aos seus habitantes; não é "de" ninguém.
No dia em que a esquerda conquistar a presidência da segunda câmara do país (por exemplo por intermédio do competente Rui Sá, esse homem tão elogiado no passado por Nuno Cardoso e tão criticado no presente pelo PS e pelo Bloco de Esquerda), há uma tarefa urgente a fazer: apagar uma série de "des" da toponímia portuense.

Publicado por Filipe Moura às 02:00 PM | Comentários (18)

E LÁ ESTÁ SAMPAIO, EM PLENA REUNIÃO COM O CONSELHO DE ESTADO...

Publicado por Luis Rainha às 11:28 AM | Comentários (3)

julho 08, 2004

GESTOS

O teu riso assemelhava-se ao som da rolha a sair da garrafa de vinho.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 07:10 PM | Comentários (11)

TOP EXECUTIVE PARA EMIGRANTES

Não sei se repararam, mas a capa do texto anterior é da edição internacional do "24 Horas". Nesta mesma capa, a TAP tem o desplante de propagandear viagens Newark-Portugal por $1699. Será isto o melhor que a TAP tem para oferecer? Deve ser por isto que eu nunca voei na TAP. Nunca encontrei uma tarifa competitiva na TAP.
Está certo que é uma tarifa "top executive", mas será essa a melhor tarifa a anunciar no "24 Horas"? De certeza que não é essa a tarifa que a concorrente Continental anuncia. Depois admiramo-nos de a TAP estar como está.

Publicado por Filipe Moura às 07:06 PM | Comentários (15)

MAIS UM SANTANETE

Mais comentários para quê?

(Imagem captada no blogue "Amor e Ócio", do seinfeldiano Rui Baptista.)

Publicado por Filipe Moura às 06:58 PM | Comentários (5)

UM BARCO

Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho

Sophia de Mello Breyner Andresen (Navegações XIV, in «Navegações»)

Publicado por José Mário Silva às 06:47 PM | Comentários (0)

DE PEQUENINO É QUE SE TORCE O DESTINO

Quer que o seu querido rebento se desenvolva com assinalável vigor intelectual e/ou espiritual? Quer que ele cresça até ser tão grande quanto os maiores?
Então, comece já por expulsar de casa as Barbies, as Tarturagas Ninja e demais brinquedos comuns, dignos apenas de pequenos paspalhos oligofrénicos. De seguida, escolha a Action Figure com que vai desafiar o universo infantil dos seus descendentes: pode ser um Escritor Maldito, um Vulto das Ciências, um Charlatão Famoso, ou até mesmo uma Autoridade do Espírito, como o Papa Inocêncio III. E olhe: de Beethoven a Jesus Cristo, temos uma infinidade de fascinantes e pedagógicas companhias de folguedos para os seus pequenos génios!
Já viu bem onde você poderia estar se os seus pais tivessem tido a presciência de lhe oferecer estes brinquedos tão educativos? Por certo que não estaria aí, a gastar o dia lendo blogues disparatados...

PS: não deixe de aproveitar a visita para conhecer os mundialmente famosos Parasite Pals. Um encantador cruzamento entre mascotes amorosas e parasitas sugadores de sangue, como DigDig, o Piolho, ou Tickles, a Ténia.

Publicado por Luis Rainha às 04:52 PM | Comentários (7)

O ASCO

Luciano Amaral, um dos nossos Acidentais de estimação, já descobriu a causa de tanta má vontade contra Santana Lopes. Afinal, é tudo malquerença e elitismo:
"O .asco a Santana., como facilmente se percebe, não passa senão de uma nova versão (adaptada à nova personagem) do .asco a Cavaco. nos anos 80. Cavaco era o filho do gasolineiro algarvio que não sabia o número de cantos dos Lusíadas. Santana não é intelectual e não provém da .classe média alta, ilustrada e progressista., que parece ser o berço necessário para se fazerem certas coisas em Portugal."
O bom do Luciano está a ver se nos engana. Fazer de conta que o pânico que se instalou com a ameaça de Santana chegar ao poder surge de meros preconceitos de classe é uma das ideias mais disparatadas que esta crise gerou até ao momento. Mas não é inocente. Pretende apagar anos e anos de incoerência e falta de seriedade de Santana, deseja esconder dois anos de inépcia na CML, almeja ocultar o vazio sem remissão que compõe o pensamento político do maior umbigo de Portugal.
É que há um mundo a separar Cavaco e Santana, a diferenciar um homem com a obsessão de fazer e um eterno adolescente com a mania de mostrar. Cavaco é dono de uma personalidade severa, quase espartana; o delfim de Barroso não passa de um clown convencido de que o estilo pode mascarar a falta de substância. O professor de Boliqueime surgiu como um tecnocrata que se rodeou de almas similares, enquanto que o frequentador da Kapital é um populista habituado a espalhar nulidades reverenciais em seu redor. Cavaco é obstinado e sabe o que quer; Santana vagueia ao sabor das conveniências do momento e só tem um objectivo firme na vida: alcançar a glória que sabe estar-lhe predestinada.
Cavaco demonstrou um grão de ignorância com o episódio dos Lusíadas; mas Santana Lopes revelou, com a gaffe dos violinos, algo muito pior: vontade de se "armar aos cucos" e um desejo irrefreável de se mostrar melhor do que é, mais culto, mais profundo, mais ponderado e sério. Afinal, não é grande mácula de carácter ignorar a lista completa de obras de Chopin; mau mesmo é que alguém que não deve passar muito do Elton John queira impressionar os eleitores com o apuro do seu gosto e nem cuide de se informar antes de largar a peta.

Mas a teoria do Luciano tem outro buraco: de acordo com as biografias esquemáticas que hoje em dia se encontram em vários jornais, Santana Lopes é filho de uma "antiga enfermeira no Instituto de Oncologia" e o seu pai "chegou a ser colega de Francisco Sá Carneiro na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa". Ele fez o secundário no Liceu Padre António Vieira, sendo a sua educação complementada por "Ginástica no Sporting, violoncelo e flauta na Gulbenkian e Francês na Alliance." Pobre criança atrofiada no seu desenvolvimento cultural; como é que este cérebro juvenil, alimentado com uma dieta de tal forma espartana e carenciada, se poderia desenvolver com harmonia?
O facto de se ter casado com uma filha do general Kaúlza de Arriaga, seguindo depois para turbulentas relações com hostes de namoradas com coloridos petits noms como "Tita" e "Cinha", também será por certo um sinal de exclusão social; outra vergonhosa marca de pertença ao lumpen que tanto desagrada às elites bem-pensantes, sejam elas de esquerda ou de direita.

Conforme-se, Luciano: o tal "asco a Cavaco", que pode bem ter existido nos salões finos da direita bon chic bon genre, pouco tem a ver com o "asco a Santana" que hoje invade a nossa sociedade como um incêndio de Verão a espalhar-se pelas matas por limpar. O primeiro era mesmo um preconceito. O segundo provém do mais básico bom-senso.

Publicado por Luis Rainha às 12:59 PM | Comentários (9)

SÃO COSMO, THE OFFENSIVE BRUTE

O Luís pediu propostas para um santo padroeiro da blogosfera. O Francisco propôs o arcanjo Gabriel. A minha proposta vem mais noutro sentido.
Com efeito, na blogosfera nota-se uma tendência para se dizer tudo o que se pensa, espontaneamente, sem se preocupar com as reacções dos outros. Os bloguistas não usam roupa interior, "there's nothing holding them in place, they're flipping, they're flopping." Como se "the only thing between them was a thin layer of gaberdine". Os bloguistas não são masters of their domain.
Claramente, Cosmo Kramer é o guru de uma grande parte dos bloguistas, uns mais, outros menos. Três casos evidentes são moi-même, o Rogério e o bruto JPH (é uma pena a Ana Sá Lopes ter ido de férias; seria interessante ler a opinião dela sobre este assunto). Proponho assim São Cosmo para padroeiro da blogosfera.

Publicado por Filipe Moura às 12:46 AM | Comentários (8)

julho 07, 2004

NO TICKETS

Não consegui bilhetes para o concerto da Lhasa.
É verdade. Pensava que ia conseguir (pensava mesmo) mas à última da hora não mos arranjaram.
Como dizia a outra, tudo isto é triste (e esta nem sequer canta fado).

PS: Se alguém esteve no Fórum Lisboa, esta noite, que partilhe a experiência (nos comentários ou por mail). E venham daí os pormenores: à partida, já estamos roídos de inveja.

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (2)

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU: HAVERÁ SITE MAIS UMBIGUISTA QUE O MEU?

Procuram um oásis de boa disposição e humor no meio das revoltas ondas da Internet? Recomendo-vos que lancem âncora por aqui: no site pessoal do eurodeputado Carlos Coelho.
Por acaso, ainda me lembro do meu primeiro contacto com o pensamento político deste ilustre cidadão: na altura, ele tinha acabado de redigir uma proposta de estatutos para a Associação de Estudantes do Liceu de Queluz com mais de 100 páginas e elementos visionários como a possibilidade de ser declarado um "Estado de Emergência Associativa"...
No dia em que fez 18 anos, a luminária trasladou-se da JSD para o PSD; um ano depois era já deputado. Até à data presente, CC tem tido uma carreira política exemplar. Só é pena que no seu currículo nada se veja de remotamente aparentado com a vida real: nem um emprego "a sério", nem sombra de percurso académico, nada de nada a não ser tachinhos no partido, livrinhos editados pelo partido, sinecuras ocupadas no partido.
Mas isso são pormenores de somenos. Importa agora é recomendar-vos que não percam jóias como o vídeo "Carlos Coelho Adverte o Conselho" ou a secção "Quer vir para Bruxelas?", que por certo será mui útil a todos os aspirantes a eurocratas de sucesso. Interessante é também a secção "Notícias": só na sua primeira página, é mencionado 43 vezes o insigne nome "Carlos Coelho". Isto a propósito de declarações inesperadas e rutilantes na sua profundidade, como "Carlos Coelho: Tráfico de crianças é imoral e repugnante". (Olha: nunca tinha pensado nisso!)
Depois desta experiência, jamais alguém poderá dizer-me que os eurodeputados são uma corja de preguiçosos e inúteis, sem levar logo a resposta pronta: "talvez; mas também lá há vultos eminentes como o Carlos Coelho!"

Publicado por Luis Rainha às 03:32 PM | Comentários (11)

CONFRONTOS (3)

Há uma coisa que abomino em alguns poetas: a sua capacidade de desdenhar, do alto do marfim ético, quem ganha a vida de forma menos nobre, ou então, a sobrevalorização disso mesmo.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:02 PM | Comentários (3)

OS MEANDROS DA CRÍTICA

Acho deliciosa a bisbilhotice da crítica textual: andar à cata dos passos de Pessoa, as cartas que escrevia, com quem se dava, os negócios, os amores, os outros poetas, a convivência com espíritos, as cartas astrais, as ideias políticas, decifração de caligrafia difícil. Enfim, coisas de detective.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:00 PM | Comentários (4)

MUITAS BOCAS, POUCA CABEÇA


Caricatura inédita de Jorge Mateus

Pelo que aqui se lê, o saco de vento que presentemente se arrasta pelos estúdios de TV a delirar com "o seu governo" não consegue nem governar Lisboa com um mínimo de siso.
A reabilitação urbana do Vale de Alcântara quedou-se, ao bom estilo santanesco, por retoques de pormenor; agora, o dinheiro, 700.000 euros da CE relativos ao programa URBAN II, já se foi.
Realce-se que este foi o único dos três programas aprovados por Portugal a redundar em fiasco. Gondomar e Amadora levaram os seus até ao fim. Quer isto dizer que o tipo que quer ser nosso primeiro-ministro consegue ser menos competente que Joaquim Raposo e Valentim Loureiro. Isto sim, é obra.

Publicado por Luis Rainha às 12:42 PM | Comentários (3)

A ALDRABICE POR OMISSÃO

Com um dos seus fatinhos de alegre gato-pingado, lá foi o Paulinho das Feiras, acompanhado da restante quadrilha, azucrinar um pouco mais a moleirinha de Jorge Sampaio.
Desta vez, a elegante fórmula escolhida passou por citar palavras com que o próprio PR, há 3 anos, descreveu os cenários em que poderia decidir pela convocação de eleições antecipadas: "a dissolução da AR só deve, em geral, ocorrer quando o Parlamento se mostre incapaz de gerar soluções governativas estáveis, como forma de prevenir ou solucionar crises políticas ou institucionais graves ou por necessidade, consensualmente reconhecidas, de adaptação dos calendários eleitorais." Ou seja, nada que se possa invocar a propósito da presente crise. Feliz com o brilharete, a criatura do PP levantou o irreprimível indicador maroto, exigindo "coerência" a Sampaio (olha quem...).
Só que, de fora da periclitante memória centrista, ficou a conclusão do texto citado: "a não ser nessas situações, ela só deve verificar-se em circunstâncias excepcionais e muito estritamente delimitadas. Será esse o caso em que a sua avaliação pessoal e maduramente ponderada, o PR conclua que o interesse nacional exige a relegitimação da representação parlamentar, quando se convença que a representação parlamentar deixou definitivamente de corresponder à vontade do eleitorado ou quando considere que ela não permite a formação de um Governo capaz de mobilizar adequadamente as energias nacionais para as tarefas que se colocam ao país." Ou seja: de acordo com a sua própria cartilha, Sampaio sentir-se-á hoje livre para seguir por tal caminho.

Mas será que o Paulinho, sempre tão amigo de missas e que imagino ter sido aluno aplicado na catequese, nunca aprendeu que também se peca e se mente por omissão?
Claro que aprendeu; mas está-se nas tintas para a verdade. Ele até sabia bem que bastaria um jornalista atento (ainda os há, sim) para o apanhar em questão de horas. Mas o impacto de declarações na TV ultrapassa em muito o relevo de três ou quatro páginas impressas; a aldrabice vale a pena, a infâmia compensa.
Este comportamento é apenas mais um eco do afiar de garras em que a cáfila do costume já se lançou, antecipando o momento em que se vai banquetear com o governo de Portugal. Albertos Joões, tiranetes autárquicos, tios de milionários suíços... as hienas estão a sair dos covis. E vêm esfomeadas.

Publicado por Luis Rainha às 10:38 AM | Comentários (10)

LHASA

A voz indescritível (telúrica? ultra-violeta? magnética?) de «La Llorona» e «The Living Road». Hoje, às 22 horas, no Fórum Lisboa, ali para os lados da Avenida de Roma.

Publicado por José Mário Silva às 09:31 AM | Comentários (4)

UMA DULCINEIA NÃO ME CHEGA, PÁ

Pedro Santana Lopes, na longa e inoportuna entrevista a Judite de Sousa, disse com ênfase que preferia ser D. Juan a D. Quixote. Antes sedutor que sonhador. Pois, pois. Tell me something new.

Publicado por José Mário Silva às 09:25 AM | Comentários (1)

E ALÉM DISSO NASCEU EM BELÉM

«Cristo teria sido maçon, do PS, e seria pela dissolução [da Assembleia da República] neste momento» . Almeida Santos, citado no DN de hoje.

Publicado por José Mário Silva às 09:21 AM | Comentários (5)

SAUDOSISMO

Pois é, como atrás afirmei gosto de uma certa vulgaridade, por vezes mesmo de um certo kitsch, desde que seja autêntico (e aquela fotografia do Rui Costa, ó se era autêntica). Esta é uma das (várias) coisas de que eu gosto e que não são bem vistas pela malta bem pensante. Como de referências portuguesas no estrangeiro, por exemplo. Venho agora da festa de anos de uma amiga alemã. Ofereci-lhe com todo o gosto um CD da Amália. Desde que no sábado comprei aquele cachecol da selecção portuguesa que me deu para isto.

Publicado por Filipe Moura às 02:23 AM | Comentários (9)

ADENDA

Apesar do meu texto anterior, concordo inteiramente com o Luís no que ele escreveu sobre agradecer-se a um tipo principescamente pago. Quem quer ser de esquerda na prática e não somente no papel sujeita-se a contradições destas.

ADENDA À ADENDA: Para se agradecer ou não a uma pessoa, vários aspectos têm de ser considerados. Para mim, o facto de essa pessoa ganhar salários elevados é um "contra", mas que pode perfeitamente ser compensado por outros aspectos como a relevância dos seus serviços e a maneira como os desempenha. Pode perfeitamente, portanto, agradecer-se a quem tem um salário elevado e não há aqui contradição nenhuma.

Publicado por Filipe Moura às 02:21 AM | Comentários (3)

OBRIGADO, RUI

Quando penso no Rui Costa, lembro-me sempre de uma entrevista dele que eu li a um jornal desportivo (não me lembro a qual). Foi creio que um ano depois de o Rui se ter transferido do Benfica para a Fiorentina. A entrevista era bastante intimista, do estilo "de magazine", mas nem foi pela entrevista em si que eu não me esqueço: foi por uma fotografia. Foi em casa do Rui, ou dos pais, ou dos sogros, não sei. Sei que o "menino Rui" era o entrevistado daquela edição alargada de fim de semana. E vai daí, todos os familiares, amigos e vizinhos do Rui estavam na fotografia. Sem exagero, umas vinte pessoas. A ilustrar... uma entrevista ao Rui Costa. Os colegas da primária, os padrinhos de baptismo e de casamento, as senhoras da mercearia e da padaria. Só faltavam o prior e o presidente da junta. A fotografia foi tirada na sala de jantar de uma casa bem portuguesa, com certeza. Ao centro estavam o Rui e a mulher com o filho ao colo. Ao cimo, inevitavelmente... o retrato da Última Ceia.
Todos queriam aparecer na entrevista ao "menino da terra" que nessa época tinha sido considerado o melhor estrangeiro a jogar na liga italiana. E sabem que mais? Acho que estavam todos ali para mostrar que eram amigos do Rui, e o Rui para mostrar que era amigo deles. E por mais razão nenhuma.
O Rui ainda é um grande campeão, e continua a ser a mesma pessoa que sempre foi. Obrigado, Rui.

Publicado por Filipe Moura às 02:19 AM | Comentários (3)

julho 06, 2004

MANIF NO ROSSIO

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Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (9)

USAR O GUME DA PALAVRA CLARA E JUSTA

No passado domingo, durante a missa fúnebre de Sophia de Mello Breyner Andresen, na Igreja da Graça, a escritora Maria Velho da Costa levantou-se e disse estas palavras exactas e necessárias:

«Neste país, paraíso triste, de séculos em séculos acontecem milagres.
A Sophia foi um dos milagres acontecidos à nossa alma. Visionária do visível, reinventou uma sonoridade límpida para os nomes que damos às coisas, o mar, a luz, o fogo, a cal dos quartos onde se cresceu só, a justiça, a liberdade. Durante anos levantou a cabeça das nossas crianças para o assombro.
Fê-lo por uma conjunção muito difícil de encontrar no ser português: a paixão da claridade e a capacidade de confronto com o caos. Acho que foi essa a essência da sua vida e da sua obra: usar o gume da palavra clara e justa contra o horror e a espessura opaca do mundo que não cessaram nunca de a acossar.»

(o texto completo pode ser lido aqui)

Publicado por José Mário Silva às 09:15 PM | Comentários (10)

BANDEIRA AZUL

Há mais de um ano que vou todos os dias à praia (mesmo no inverno, mesmo na maré cheia, mesmo quando o mar está bravo).

Publicado por José Mário Silva às 09:01 PM | Comentários (1)

LAVAGEM AO CÉREBRO

Na plataforma do metro, os novos painéis gigantes (permanentemente ligados a um circuito interno de TV, com publicidade, fait-divers e programas de surf) enchem os ouvidos dos passageiros com uma notícia em loop: «Numa entrevista dada à RTP, ontem à noite, Pedro Santana Lopes considerou inconcebível a convocação de eleições antecipadas pelo Presidente da República». Passados dois minutos: «Numa entrevista dada à RTP, ontem à noite, Pedro Santana Lopes considerou inconcebível a convocação de eleições antecipadas pelo Presidente da República». Passados quatro minutos: a mesma coisa.
Ao fugir da tortura, apercebi-me do olhar vítreo da multidão que convergia para a escada rolante. Como autómatos, as pessoas murmuravam qualquer coisa. Temo bem que fosse: «inconcebível... inconcebível... inconcebível...»

Publicado por José Mário Silva às 08:36 PM | Comentários (3)

O GATO É QUE SABE

«Se Durão Barroso aproveitar o facto de ocupar a presidência da Comissão Europeia para fazer pela Europa o mesmo que fez pelo país, há uma forte hipótese de, dentro de pouco tempo, a Europa estar na cauda de Portugal.» (Ricardo Araújo Pereira, in Gato Fedorento)

Publicado por José Mário Silva às 08:24 PM | Comentários (1)

ADENDA AO POST ANTERIOR

Não te amofines tanto, Luis. A sério. Deixa-os estrebuchar.
Já devias saber que a nossa direita é mesmo assim: quando as coisas se complicam, toda ela treme, toda ela vacila, toda ela disparata. É uma coisa lá deles. Herança sanguínea. Um fardo genético.
Por isso, peço-te que sejas mais compreensivo, para não dizer magnânimo. Lembra-te que não é fácil ser racional quando se tem medo.

Publicado por José Mário Silva às 08:17 PM | Comentários (6)

MAS CLARO QUE O CULPADO SÓ PODIA MESMO SER O SAMPAIO!

Como é que anda tanta gente por aí a opinar sem topar um óbvio mais que ululante como este?
Que seria de nós sem um preclaro vidente como o nosso bom Vasco Rato para nos apontar o luminoso caminho da verdade?
Claro que a culpa da presente crise não pode recair sobre as esquivas costas de Durão Barroso: então, se foi com grande sacrifício pessoal que ele acedeu ao prestigioso convite, tendo em vista apenas a glória da pátria, como é que o poderemos agora culpar? Se até suportou mais uns dias o cargo, antes de pedir mesmo a demissão, apenas para levar a sua gravata da sorte à final do Euro, onde estará a má-vontade? Se ele vituperou Guterres pela "fuga", se ele garantiu que estava para lavar e durar duas legislaturas, quem terá coragem para condenar estes compreensíveis excessos juvenis de linguagem?
Claro que a culpa também não pertence a Santana Lopes: por definição, ele nunca tem culpa de nada. O João Baião é que o fez "abandonar" a política; o Albarran é que o convenceu a entrar naquele concurso inominável; as revistas é que inventaram as fotos grotescas da criatura de lencinho vermelho à Kamikaze de pacotilha; os invejosos é que pararam o túnel; o casino não irrompe do chão, em simultâneo com um Parque Mayer renovado e fabuloso, porque o Gehry é um ganancioso; os silos de estacionamento, as escolas e as piscinas... se nada do prometido a Lisboa aparece é porque... sei lá, alguma sinistra cabala deve ter andado a perturbar a obra deste estadista sem cadastro nem passado. Não. O perfil do cromo tem tudo para inspirar confiança e invocar a preciosa "estabilidade".

Excluídos estes suspeitos, quem restará?
Concedamos então a palavra ao sagaz analista-que-era-para-se-ter-despido-em-pleno-Rossio:

"Se Sampaio tivesse esperado pelo desfecho da sucessão da liderança do PSD, sem se pôr em bicos de pés, não havia, neste momento, qualquer .crise.. Ao chamar um conjunto de .personalidades. a Belém . sabe-se lá com que critério . para se pronunciarem sobre a .eventualidade. de eleições, Jorge Sampaio lançou o caos. Sampaio tornou-se num factor de instabilidade política."
Imagine-se: Sampaio lembrou-se que existe e que até foi eleito por uma substancial maioria. Passou-lhe pela cabeça que não se troca de primeiro-ministro como quem muda de cuecas. Cismou que ninguém o obriga a aceitar o primeiro idiota de aldeia que queiram entronizar. Embirrou com a figura heróica e intelectualmente possante de Santana Lopes.
Por querer examinar bem o chão que pisa e ponderar a decisão mais importante dos seus mandatos, Sampaio passa a ser um arrivista em bicos de pés. Um empecilho teimoso que se atreve a atrasar a triunfal chegada ao poder do populismo, da irresponsabilidade e da ignorância mais arrogante.

Nem sei bem o que pode levar alguém a escrever uma coisa assim. Cegueira partidária não basta para explicar semelhante divórcio da realidade. Será a expectativa de um lugarzito num ministério qualquer?
Não sei. Mas posso sugerir um outro provável culpado para figurar na próxima alucinação de Vasco Rato: Afonso Henriques. Se ele não tem tido a triste ideia de andar à pancada com a mãe, estávamos agora integrados no Reino de España, felizes, autonómicos e estáveis que nem um calhau.

Publicado por Luis Rainha às 06:47 PM | Comentários (8)

EU PEÇO, TU PEDES, ELE PEDE, NÓS PEDIMOS

É imperioso assinar a petição que exige a Sampaio o óbvio. Está aqui em versão argumentada (50 alíneas). E aqui em versão directa ao assunto («queremos eleições já»).

Publicado por José Mário Silva às 05:42 PM | Comentários (1)

PASSEM POR NÓS NO ROSSIO

Daqui por uma hora (18h30), terá início mais uma concentração anti-Santana e pró-eleições, desta vez convocada por uma organização sindical (CGTP). Em Lisboa, os protestos confluem para o Rossio; no Porto, para a Praça da Liberdade. Compareçam.

Publicado por José Mário Silva às 05:39 PM | Comentários (4)

«OLHAR SUBURBANO»

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(Miniatura inédita, em técnica mista, de António Ferra . gentilmente oferecida ao BdE)

Publicado por José Mário Silva às 04:52 PM | Comentários (3)

ANJOS NA AMÉRICA

“Não podemos parar. Não somos rochas. Progresso, migração, o movimento é modernidade. É animado. É o que os seres vivos fazem. Desejamos. Mesmo se tudo o que desejamos é a quietude, continua a ser desejo. Mesmo se andamos mais depressa do que devíamos, não podemos esperar.” Palavras dentro do sonho do “profeta”, seguindo-se insultos a Deus, no último episódio da série Anjos na América, na 2.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:45 PM | Comentários (4)

REFORMA AGRÁRIA

«Amor é latifúndio, sexo é invasão», canta a Rita Lee. E quando é que se volta a invadir os latifúndios?
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:43 PM | Comentários (11)

DISCUSSÃO ENTRE NAMORADOS

“No fundo queria morar numa barraca, sozinho” diz um deles, mas pensam os dois na grande miragem do consenso.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:42 PM | Comentários (1)

CONFRONTOS (2)

Um autor comprometido, no sentido de Sartre, aquele que se interessa pelos feitos dos outros. Noutra perspectiva, aquele que está acima da História e da ideologia, que não toma partido (partidário, entenda-se).
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:41 PM | Comentários (1)

DO OUTRO LADO

Do outro lado da decepção, há uma maré viva de alegria. No verso da foto de um Rui Costa amargurado, há imagens de um país em delírio, ainda sem a certeza de não estar a sonhar. Não consigo ler uma só palavra da prosa que enche as primeiras páginas dos jornais gregos. Mas percebo tudo perfeitamente. O bastante para ter inveja.

Publicado por Luis Rainha às 12:18 PM | Comentários (2)

QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
e como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta.
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Poema escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen (aos 26 anos) e lido por um dos filhos, Miguel Sousa Tavares, no dia do seu funeral.

Publicado por José Mário Silva às 12:11 PM | Comentários (2)

SÓ NOS FALTAVA MAIS ESTA

Através do Sono Consciente, dei com este artigo da Nature. Ao que parece, criaturas há que inopinadamente descobrem irresistíveis vocações artísticas depois de sofrerem... hemorragias cerebrais. A Ciência já engendrou explicações rasteiras para explicar o Amor, Deus, etc, etc. Só falta agora termos um diagnóstico neurológico anexado a cada quadro, no verso de cada livro, cada CD.
Bem que a vox populi tem por certo que ser artista é sinal infalível de maluqueira.

Publicado por Luis Rainha às 11:28 AM | Comentários (3)

FUTEBOL & MELANCOLIA

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Se houve alguém que não mereceu perder a final de domingo, foi ele.
Adeus, Rui.
Obrigado, Rui.

Publicado por José Mário Silva às 11:02 AM | Comentários (15)

A CANALIZAÇÃO MAIS AUDÍVEL

Adoro ouvir vozes na casa de banho: os ruídos do prédio, alguma confidência do vizinho. Porém, todos os dias, à mesma hora, ouço exactamente os mesmos risinhos, os mesmos diminutivos, o mesmo chapinhar de água, a mesma birra. É uma mulher que dá banho a um bebé e me exaspera com aquela maneira muito pouco sóbria, muito pouco pessoa e estranhamente vulgar entre os adultos, de se falar com as crianças como se fossem extraterrestres.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 03:33 AM | Comentários (5)

CONFRONTOS

Na cultura protestante ser ambicioso é uma qualidade, na cultura católica é um pecado.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 03:32 AM | Comentários (8)

TEORIA DE CORDAS EM PORTUGAL

Haja esperança: está viva, de boa saúde e até já vai tendo o seu reconhecimento entre nós, apesar do cepticismo com que é encarada pela generalidade do meio académico da área. Este reconhecimento surgiu para dois dos melhores que a fazem, ao nível internacional. Parabéns ao Miguel e ao Lorenzo.

Publicado por Filipe Moura às 01:52 AM | Comentários (0)

A TEORIA DAS CORDAS PARA O POVO

Ainda sobre o mesmo assunto: gostei de ver a forma lúcida mas optimista como Gross defende teorias que também são suas. Basicamente Gross defendeu (e com toda a razão, a meu ver) que esta é uma teoria essencialmente conservadora, que acrescenta hipóteses novas sem jamais pôr em causa os princípios físicos a que estamos habituados. Gross não deixou, porém, de apontar a seguinte passagem do livro "Hannibal", de Thomas Harris:

"Lecter sits in his armchair with a big pad of butcher paper doing calculations. The pages are filled with the symbols both of astrophysics and particle physics [seja isso o que for]. There are repeated efforts with the symbols of string theory [seja isso o que for]. The few mathematicians who could follow him might say his equations begin brilliantly and then decline, doomed by wishful thinking."

Gross lamentou que fosse esta a "visão popular" da teoria de cordas. Bem, há aqui um equívoco de linguagem. Eu não creio, infelizmente, que as classes médias de nenhum país tenham algum tipo de impressão sobre as teorias de cordas. Ao falar em "visão popular", Gross quer provavelmente referir-se à "visão dos leitores do The New York Times", à visão do público educado mas leigo.
Comparando com Portugal, eu não me importaria que fosse essa a visão do público educado e leigo, equivalente aos "leitores do The New York Times". Mas não. Essa é a visão da generalidade dos físicos. Quanto ao resto do público educado e leigo, não quer saber disso para nada.

Publicado por Filipe Moura às 01:51 AM | Comentários (4)

CONHECIMENTO, IGNORÂNCIA, SABEDORIA

Outro dos grandes nomes da física teórica e provável vencedor do prémio Nobel (tomem nota disto) é David Gross, que primeiro se notabilizou no estudo das interacções fortes, nos anos 70, antes de passar a ser um dos grandes dinamizadores da teoria das supercordas. No muitíssimo interessante e inspirador colóquio que deu no Seminário Poincaré, no bonito Grand Amphi de la Sorbonne, Gross referiu-se à possibilidade de se poder encontrar uma teoria final que explique todos os fenómenos físicos. Segundo Gross, geralmente as pessoas referem-se ao progresso científico como uma cebola, à qual se vão retirando as camadas à medida que se vai progredindo até não haver mais nada para retirar. Para Gross, esta perspectiva é errada. A perspectiva correcta é oposta: temos o vácuo no qual se vai expandindo um corpo conexo. O interior desse corpo representa o conhecimento científico estabelecido; a superfície que é a fronteira desse conhecimento representa a nossa ignorância, as questões que formulamos, o que está em dúvida. Daqui resulta que, quanto maior for o nosso conhecimento, mais questões formularemos, pois um corpo maior tem uma maior fronteira. Desta maneira o aumento do conhecimento implica o aumento das dúvidas, mas de tal maneira que a sabedoria (razão entre conhecimento e ignorância, ou seja, entre o volume do corpo e a área da sua fronteira) aumenta também.
A grande questão é saber se o espaço em que o corpo está inserido é limitado ou não, isto é, se há um limite para o nosso conhecimento. Ninguém pode responder a esta questão neste momento mas, ainda segundo Gross, se tal acontecer notar-se-á uma diminuição gradual da ignorância e das dúvidas e um abrandamento do crescimento do conhecimento, isto é, o modelo deixa de ser válido. Mas não temos nenhuns indícios hoje em dia de que isso se passe ou venha a passar. Bem pelo contrário.
Além disso, Gross referiu que, mesmo que venhamos a ter algum dia uma teoria de tudo (que, convém dizer, estamos muito longe de ter), tal não implicará o fim da física e muito menos o fim da ciência.

Publicado por Filipe Moura às 01:43 AM | Comentários (3)

NÃO HÁ QUEM NOS ACUDA?

Durante o almoço que tive a subida honra de partilhar com o autor de um dos meus blogues preferidos, presenciei uma revelação; vi irromper sobre o inox da humilde mesa de canto a claridade que por norma anuncia a chegada triunfal das grandes e significativas descobertas.
E de que se tratou? Mais do que uma solução para um dado problema, a luz que ali se fez tem a ver com um problema per se; com uma ausência, melhor dizendo. Em resumo, demos com uma lamentável lacuna na hagiografia hodierna: não existe um padroeiro da blogosfera!
Se até os cavalos doentes têm direito a um protector celeste, porque diabo é que o nosso querido habitat cibernético, o nosso mundinho feliz, não há-de merecer a mesma sorte? Queremos, exigimos um padroeiro!
E, já que as hierarquias religiosas não têm demonstrado sensibilidade quanto a esta carência, proponho que sejamos nós mesmos a eleger a figura que irá merecer a nossa devoção e conquistar um altarzinho em cada blogue.
Enviem-nos as vossas sugestões. Por mail. Por correio. Por telepatia. Pode ser um figurante das mitologias clássicas, um demónio menor de alguma epopeia de paragens exóticas, uma descoberta recente das teologias new age, enfim... não faremos discriminações quanto a etnias, géneros, opções políticas ou número de braços quando chegar a altura de avaliar os candidatos.
Mas atenção: nada de escolhas demasiado óbvias, como S. Isidro de Sevilha, que já é patrono da Internet e dos nerds em geral, ou Santa Dimpna, que zela pelos doentes mentais. O Mephisto que escangalhou a vida a Fausto também não serve: personagens literárias não têm os fortes poderes que a função em apreço exige.

Julgo que esta pode ser uma missão honrosa, por certo capaz de preencher o vazio que a derrota de Domingo deixou bem cavado na alma de muitos blogues nacionais. Tratemos de pôr mãos à obra, pessoal: vamos eleger o nosso padroeiro!

Publicado por Luis Rainha às 01:12 AM | Comentários (2)

julho 05, 2004

FOLHETO ENCONTRADO NUMA CAIXA DE CORREIO ALGURES NA 5ª DIMENSÃO


Vejam aqui a capa da coisa. Depois, se forem mesmo corajosos, espreitem O Sofá Mais Feio do Mundo. Estou sem palavras.

Publicado por Luis Rainha às 07:02 PM | Comentários (8)

UMA BATALHA DESIGUAL

Pode causar algum espanto que os poderes combinados de Nossa Senhora de Caravaggio . a predilecta de Scolari . e da Virgem de Fátima . superstição favorita entre os jogadores portugueses . tenham sido tão claramente sobrepujados pelos esforços dos gregos.
Mas, caramba, já viram bem quantos deuses eles puderam invocar em sua ajuda?

Publicado por Luis Rainha às 04:07 PM | Comentários (4)

JÁ SEI QUEM NOS AZAROU A FINAL!

Propondo para mascote do lindo sonho da final a funesta Ourobouros, o Zé Mário sentenciou-nos à abjecção da derrota. Condenou toda uma nação prenhe de esperanças a reviver o pesadelo do jogo de abertura do Euro 2004. "O meu fim é o meu começo", escreveu o demoníaco blogger, camuflando os seus propósitos cabalísticos sob a capa da língua de Verlaine. Ele só podia estar a invocar os espíritos da desgraça! E assim foi: o nosso "fim" surgiu às mãos dos crápulas que já nos tinham batido no "começo" do campeonato!
Por favor, Zé Mário, tem cuidado com a próxima entidade mística que invocares; sobretudo se for a propósito desta maldita crise política...

Publicado por Luis Rainha às 03:58 PM | Comentários (4)

GANHOU O PROZAC

De todos os prognósticos para o funesto Portugal-Grécia, o mais certeiro foi o da Sara: «Passa-me aí o Prozac / Passa-me aí o Guronsan (riscar o que não interessa)».
Aparentemente, depois dos jogos com a Inglaterra e a Holanda, o Guronsan estava esgotadíssimo no mercado nacional.
Já os gregos, da Segunda Circular ao Parthénon, aproveitaram para dar cabo dos stocks de ambrósia e outros licores divinos.

Publicado por José Mário Silva às 03:27 PM | Comentários (0)

AFINAL HOJE NÃO FOI FERIADO

O PIB português deseja agradecer ao Sr. Otto Rehhagel, treinador germânico da selecção grega, a eficácia do seu futebol ultra-defensivo.

Publicado por José Mário Silva às 03:22 PM | Comentários (0)

DA SUPERSTIÇÃO

Eis a triste verdade dos factos: na instável balança da sorte e do azar, a presença nefasta de Gilberto Madaíl no Estádio da Luz teve muito mais peso do que a gravata da sorte do ex-primeiro-ministro Durão Barroso. Hélas. Ou como dizem os gregos, Hellas.

Publicado por José Mário Silva às 03:10 PM | Comentários (0)

O TEMPO TODO INTEIRO

Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia

Sophia de Mello Breyner Andresen (Setembro de 2001, in «Relâmpago», n.º 9)

Publicado por José Mário Silva às 01:26 PM | Comentários (0)

E ENTRETANTO, NOS EUA...


Cartoon de Monte Wolverton

... as notícias dos abusos e desmandos de G. W. Bush não são muito melhores.

Publicado por José Mário Silva às 01:02 PM | Comentários (4)

MAIS UMA TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

Nestes dias, a vida política portuguesa parece ter alcançado um novo mínimo absoluto em termos de elevação e elegância. Há notícias falsas postas a circular em benefício de um candidato a primeiro-ministro de aviário (o inexistente apoio de Cavaco a Santana e o suposto pedido de desculpas de Manuela Ferreira Leite à mesma ave rara). Há uma legião de figuras pouco recomendáveis que se erguem dos seus purgatórios políticos, como zombies desconjuntados que ainda acreditam que estão vivos (Menezes, Isaltino, Pinto da Costa... só falta nesta linda lista o Valentim e a fugitiva de Felgueiras...). O nosso estimado Presidente continua a consultar toda a gente que tenha tido o nome num jornal durante a última década (o processo deverá terminar algures em Agosto de 2006, quando o famoso Emplastro emitir por fim a sua douta opinião sobre a crise). Já há quem escreva, no "Expresso", que a chamada de Arlindo Cunha para o governo visou apenas impedir que o mesmo fosse promovido a Comissário Europeu da Agricultura, o que impossibilitaria, dada a importância do pelouro, que a Presidência da Comissão pudesse ser também confiada a um português. Por fim, hoje até apareceu o ogre da Madeira a recomendar que PP e PSD tratem de evitar a participação em hipotéticas eleições antecipadas (claro que isto de uma ida a votos acarretar um risco de derrota é coisa impensável para o soba insular).
Que este deslizar em direcção à fossa coincida com a ascensão de Santana Lopes à liderança do PSD (ou do PPD, ou lá como aquilo se chama agora), não surpreende ninguém. Mas que tenha sido Durão Barroso, o mais feroz adversário interno de Santana, a abrir as portas às hordas da mediocridade ambiciosa e ao seu inimigo coberto de gel... isso sempre me intrigou. Até agora.
Por fim, entendi o que levou Barroso a entregar o ouro ao bandido. Não foi medo de continuar amarrado a esta choldra camuflada de país. Não foi por ambicionar sinecuras menos trabalhosas e mais bem pagas. Foi simplesmente desejo de vingança. Ter ganho em congresso o partido não bastava para ele se ressarcir das ofensas passadas (que não interessa esmiuçar aqui). Não; era preciso mais.

O plano é deveras maquiavélico, quase genial. Barroso sai e deixa o partido entregue a Santana, teoricamente o menino de oiro que ganha todas as eleições. Só que o demissionário já sabe . depois de conferenciar com Sampaio - que as eleições antecipadas são inevitáveis, e com elas a derrota da coligação. Derrota essa que vai ter como figura de proa Santana Lopes, retirando-lhe para todo o sempre o "carisma" de grande vencedor dos desafios difíceis. Ou seja: o partido ficará nas mãos de Santana apenas o tempo necessário para que ele se desgrace e perca toda a credibilidade. A partir daí, passará a ser visto pelos seus correligionários como aquilo que realmente é: um menino-prodígio que passou o prazo de validade, um cromo entradote e inchado com delírios de grandezas.
Cúmulo da duplicidade: para se certificar do bom andamento do esquema, Durão até trata de deixar cair algumas insinuações sibilinas de que Jorge Sampaio teria entrado numa negociata para garantir a elevação do tosco delfim a primeiro-ministro. É óbvio o fito de irritar o PR, levando-o a optar ainda mais depressa pela solução oposta.

Isto parece um esquema tão refinadamente diabólico que até me inspira algum respeito pelas meninges do "Joe" Barroso...

Publicado por Luis Rainha às 11:56 AM | Comentários (5)

A BOA NOTÍCIA FUTEBOLÍSTICA DO DIA

O medroso, ultradefensivo e totalmente ultrapassado Giovanni Trapatonni é o novo treinador do Benfica.
(Mas eu não me devo rir. Quem é o treinador do Sporting? Alguém o conhece?)

Publicado por Filipe Moura às 01:58 AM | Comentários (17)

VERSOS QUE NOS CONSOLAM

Siempre es conmovedor el ocaso
por indigente o charro que sea,
pero más conmovedor todavía
es aquel brillo desesperado y final
que herrumbra la llanura
cuando el sol último se ha hundido.
Nos duele sostener esa luz tirante y distinta,
esa alucinación que impone al espacio
el unánime miedo de la sombra
y que cesa de golpe
cuando notamos su falsía,
como cesan los sueños
cuando sabemos que soñamos.

(Jorge Luis Borges)

Agradeço ao meu colega teórico de cordas e camarada gaúcho Alberto Iglesias que, mesmo sem saber português, esporadicamente até visita o BdE.

Publicado por Filipe Moura às 01:53 AM | Comentários (0)

julho 04, 2004

O FIM DO SONHO

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21h53. O fogo-de-artifício é vermelho e verde mas a festa, tanto no relvado como nas bancadas, é azul e branca. Os gregos foram mais consistentes, mais eficazes, tacticamente perfeitos e irrepreensíveis a defender: por isso derrotaram-nos pela margem mínima (1-0), como já tinham derrotado outras selecções de superior talento, casos da França e da República Checa.
Enfim, para usar o rei dos lugares-comuns, o futebol é assim mesmo.
Parabéns aos vencedores, aplausos para os vencidos.

(E agora, se não se importam, é tempo de voltar à realidade.)

Publicado por José Mário Silva às 11:58 PM | Comentários (2)

O PRINCÍPIO DA FESTA

principio.jpg

19h42. O Estádio da Luz quase cheio. Ouve-se o hino português, cantado por dezenas de milhares de pessoas. Ainda é legítima toda a esperança.

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (0)

UMA GIGANTESCA BANDEIRA PORTUGUESA ADEJA NA FACHADA DA KAPITAL

Estarão já a comemorar a promoção de um dos seus melhores clientes a primeiro-ministro?

Publicado por Luis Rainha às 11:54 PM | Comentários (2)

A VINÇANÇA ESTÁ PARA BREVE!

Pronto; os gregos ganharam-nos. Num jogo manhoso e sem grande emoção, levaram-nos a nossa taça, conquistaram o nosso Euro. Mas animem-se: os Jogos Olímpicos estão a chegar. E vão ser na Grécia. Para nos vingarmos deste dia triste, só temos de sair de Atenas com um montão de medalhas de ouro dos Jogos deles. Força Portugal!

Publicado por Luis Rainha às 10:54 PM | Comentários (4)

DIÁLOGO OUVIDO MINUTOS ANTES DO JOGO

- Vou agora à missa das sete e meia.
- Olha que o padre é capaz de faltar, para ver a final...
- Se calhar, nem Deus lá vai estar...

Publicado por Luis Rainha às 08:49 PM | Comentários (1)

UMA CONCESSÃO DE ÚLTIMA HORA

Atrás escrevi, num texto que deu muito que falar, que achava ridícula a mania de hastear bandeiras portuguesas nas casas. Bem, mantenho tudo o que ali disse, com uma ressalva: acho ridículo em Portugal, como achava ridículas (para não dizer pior) as bandeiras americanas nos EUA.
No entanto, há que compreender e aceitar os desejos de afirmação dos emigrantes, que são sempre uma minoria. E tal como escrevi então, isso não se aplicava a cachecóis, bonés, camisolas e outros adereços da selecção.
E depois, com a breca, eu sou um emigrante. Posso não ouvir música pimba, mas gosto de futebol e de telenovelas brasileiras. Posso não morar no banlieue, mas basta-me atravessar a Boulevard Périphérique e já lá estou. Não tenho casa própria (nem a minha família), e sou filho de trabalhadores por conta de outrem. Deixem-me ser vulgar (adoro uma certa vulgaridade). Deixemo-nos de tretas.
Tudo isto para dizer que não resisti e comprei um cachecol da selecção nacional. Fez-me falta durante a semana, na conferência, quando só o meu colega Ricardo fazia frente aos holandeses e às suas camisolas laranja. Espero usá-lo hoje à noite, nos Campos Elíseos, onde são esperados cerca de um milhão de portugueses caso a selecção logo consiga a vitória que tanto desejamos.

Publicado por Filipe Moura às 06:57 PM | Comentários (7)

CRÓNICA ALGO TARDIA DE UM RELATO FALHADO (O PENÚLTIMO)

O post anterior é um dos que não cheguei a escrever durante o jogo Portugal-Inglaterra, a mais emocionante das partidas disputadas pela selecção nacional neste Europeu de futebol (e a única que não fui narrando, quase minuto a minuto, aqui no blogue).
Seria fastidioso, agora, contar a saga daquela tarde em que cheguei a casa, em cima da hora do jogo, ajoujado com um saco de cerejas do Fundão muito negras, uma mala carregada de livros e jornais debaixo do braço, para descobrir, em pânico, que o televisor não dava de si nem à estalada. O resto da história seria matéria para um romance daqueles que se escrevem sem rédea, sem pontos finais, sem a mínima pausa: a corrida escada abaixo e rua fora, a entrada no café com os bofes a sairem pela boca e a camisa toda transpirada, a aterragem numa mesa de mármore frio enquanto no ecrã enorme já estava inscrito o resultado maldito, 0-1, com apenas quatro minutos de jogo, depois daquela cabeçada inglória, para trás, do Costinha, e eu a rabiscar notas num papel, a pensar ainda numa edição em diferido do relato, mas depois o jogo a pegar nos clientes do café, todos, em peso, como num corpo que se deixa manipular, a adrenalina a trepar pelas paredes, as cumplicidades súbitas a aproximarem as mesas e os copos e os corpos, o papel esquecido em cima do mármore frio, que se lixe o relato, que se lixe o blogue, eu quero é ver isto com olhos de ver, os jogadores portugueses a correrem contra o infortúnio, os ingleses a fecharem-se cada vez mais, uma muralha branca à entrada da área, e o Figo a fintar, e o Deco a inventar espaços, e o Cristiano Ronaldo a esbarrar na eficácia obstinada de Ashley Cole, e o maus prenúncios a agigantarem-se na sala, um poster que se descola, a TV que repousa sobre uma bandeira nacional made in China com o escudo invertido, um sopro de fatalismo a formar vincos nas testas, mais uma água mineral fresquinha se faz favor, e depois a cor do jogo a mudar de repente, o diabo Rooney a perder as botas, a insistência dos portugueses a ganhar proporções épicas, o futebol ensinado, na sua simplicidade e beleza, a quem inventou o jogo há século e meio, o intervalo para ganhar fôlego, a segunda parte de angústia a subir até ao zénite e depois aquilo tudo que aconteceu e não se descreve, a saída do Figo com trombas de animal revoltado, o Postiga no ar a fazer um golo de raiva, o interminável prolongamento com aquele golo maior do que tudo do Rui Costa, cinquenta metros de corrida e um disparo sem hipóteses, belo, belo, belo, e depois a facada nas costas desferida pelo Lampard, e mais sofrimento, e mais pessoas em pé, as mãos encolhidas, olhando para o lado com medo dos penaltys, e depois novamente o Postiga a enfiar-me um cubo de gelo espinha abaixo, com aquele remate em câmara lenta que humilhou o James e a arrogância do Beckham e a bazófia dos tablóides ingleses, tudo ao mesmo tempo, e depois o Ricardo a tirar as luvas, a pedido do Eusébio, a defender com as mãos nuas, a partir para a bola, logo depois, com toda a força do mundo e a metê-la, à bola, no cantinho inferior esquerdo, e o café a expodir de alegria, e a rua, e o bairro, e o país inteiro.
Nunca poderia sentir tudo isto, se tivesse o portátil sobre os joelhos, no conforto da minha sala.
Desculpem os leitores, mas o amuo do televisor salvou-me. Não trocava aquele turbilhão emocional por nada. Ou seja, tanta coisa só para dizer que não haverá relato hoje (mas espero que haja vitória).

Publicado por José Mário Silva às 06:15 PM | Comentários (4)

MINUTO 109

Que pena o golo de ouro do Rui Costa não ter sido um Golo de Ouro.

Publicado por José Mário Silva às 05:52 PM | Comentários (4)

PORTUGAL-GRÉCIA: 3 A 2

«E o Brasil parte novamente para contra-ataque a toda a velocidade, bola na posse de Tonino Cerezo que entra na nossa grande área, olha para o seu pé, faz pontaria e remata para a baliza, mas aparece Gaetano Scirea, um anjo vestido de azul, que intercepta a bola com o pé, e a bola sobe, sobe para o céu até ficar um pontinho que já não se vê, ninguém a consegue ver, mas depois volta a descer à terra, chega lá primeiro Fulvio Collovati, corta de cabeça e atira a bola para trás, para Scirea, Scirea passa a Oriali, todos os brasileiros entram na nossa área, a bola parece que queima, Oriali passa-a novamente para Scirea, Scirea dá para Collovati que entrega novamente a Oriali, Oriali liberta para Scirea, Oriali, Scirea, Collovati, Oriali, Scirea, quando do grande círculo se ouve um grito, é um tipo baixo, atarracado, com o cabelo todo à frente da cara, o seu nome é Bruno Conti, .Passem-me a bola., Scirea não quer acreditar e lança-lhe logo a bola, e Bruno Conti domina a bola e começa a correr como um louco, e corre, e evita os brasileiros, dribla os italianos, faz um túnel ao árbitro, corre veloz, parece um comboio perseguido pelos índios, nunca mais pára, até que da nossa linha de baliza o quarentão que a defende, o seu nome é Dino Zoff, grita. .Bruno! Onde é que vais?!? Enganaste-te no lado! Tens que ir para o outro lado!. Bruno Conti pára, olha à sua volta .Pois é! É verdade.... Dá meia volta e recomeça a correr em direcção à baliza certa, a do Brasil, e aparece Sócrates . vê-se o Brasil todo que avança em direcção a ele . ele cruza a bola para o outro lado do campo, a bola está quase a sair quando chega Antonio Cabrini, o jogador mais lindo do mundo . é tão lindo Antonio Cabrini . e todas as fãs começam a tirar-lhe fotografias, as fãs italianas, as fãs brasileiras, as fãs espanholas, na minha casa a minha mãe diz .que apetitoso que é o Antonio Cabrini. e o meu pai diz-lhe .Zinù: voltas a dizer isso e levas dois estalos à frente de toda a gente!., e Antonio Cabrini faz pose, deixa-se fotografar por todas as mulheres do mundo, quando da nossa linha de baliza se ouve o grito de um quarentão: .Antonio! Então? Despacha-te que é tarde! Temos de ganhar o nosso ou não?.; e Antonio Cabrini volta-se, olha para o nosso capitão e diz .Às ordens., e começa a correr ao longo da faixa lateral, e que linda corrida! Como é gracioso Antonio Cabrini, parece um príncipe em cima de um burro com o manto azul e tudo, chega à linha de fundo e faz um lindíssimo cruzamento para a área do Brasil. E na grande área brasileira, não há rasto dos nossos jogadores, apenas camisolas verde ouro, quando, de repente, por trás das costas de um defesa brasileiro, aparece um gajo magrinho, com o número vinte nas costas, o seu nome é Paolo Rossi, nascido em Prato, salta para o céu e parece que toca de verdade na bola. Os adeptos italianos por trás da baliza não querem acreditar, o guarda-redes brasileiro interroga-se .donde é que este gajo saiu?., e Paolo Rossi cabeceia a bola, a bola vai em direcção à baliza do Brasil, Enzo Bearzot fuma o cachimbo como uma chaminé, um adepto por trás do banco do Bearzot põe-se aos berros, na minha casa saltamos todos no ar, o meu pai pergunta .quem é que cabeceou?. .Paolo Rossi. respondemos em coro. .Então esse cabrão vai falhar!. diz o meu pai e vira-se para o outro lado, mas logo a seguir volta a ver o jogo porque a bola vai na direcção da baliza mas parece que o guarda-redes brasileiro a vai agarrar. Os adeptos brasileiros têm o coração nas mãos e os italianos também, mas esses mesmo assim continuam a ver a jogada. A bola está perto da linha de baliza, o guarda-redes estica-se, Paolo Rossi entrega-se nas mãos de Santa Rosália .Santinha, ajuda-me., o Bruno Curcurú come os Nazionale sem filtro, o Vicenzo Filiponne come a chávena de café, o meu pai come a poltrona, o guarda-redes não consegue apanhar a bola e é
GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLO!»

Excerto de «Italia-Brasile 3-2», de David Enia, traduzido por Alessandra Balsamo e publicado no último número da Revista Artistas Unidos sobre .Os teatros que vêm de Itália.. Se a final de hoje não se saldar num resultado semelhante ao do jogo mítico do Mundial de 82, resta-nos vibrar em diferido na leitura que José Airosa (dirigido por Pedro Marques) fará deste texto fabuloso, dia 9 de Julho, pelas 18h00, no Teatro Municipal de Almada.

Publicado por Margarida Ferra às 05:31 PM | Comentários (1)

SOLIDÃO

A solidão é um emigrante a jantar fast-food sozinho num centro comercial ao Domingo.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:33 PM | Comentários (4)

INJUSTIÇA

- Deixa lá, é como no futebol, a alegria de uns é a infelicidade de outros!
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:32 PM | Comentários (0)

FADAS E ANDORINHAS

. Os países distantes são tão maravilhosos . diziam as andorinhas.
. Contem, contem . pediu a Oriana.
. O rei do Sião tem um palácio com um telhado de oiro e na China há torres de porcelana . disse uma andorinha.
. Na Oceânia há ilhas de coral cobertas de relva e palmeiras. E nessas ilhas as pessoas vestem-se com flores e são todas bonitas, boas e felizes . disse outra andorinha.
. Os cangurus têm uma algibeira para guardar os filhos e o rei do Tibete sabe ler o pensamento de todos os homens . disse outra andorinha.
. No alto das montanhas dos Andes há cidades abandonadas, onde só vivem águias e serpentes . disse outra andorinha.
. Que maravilha! Contem tudo . pediu Oriana.
. Não se pode contar tudo . responderam as andorinhas. . As maravilhas do mundo são tantas, tantas! Mas vem connosco, Oriana. Quando vier o Outono nós partimos. Tu também tens duas asas. Vem connosco.
Mas Oriana olhou o vasto céu redondo e transparente, suspirou e respondeu:
. Não posso ir. Os homens, os animais e as plantas da floresta precisam de mim.
. Mas tu tens duas asas, Oriana. Podes voar por cima dos oceanos e das montanhas. Podes ir para o outro lado do Mundo. Há sempre mais e mais espaço. Imagina como seria bom se viesses. Podias voar muito alto, por cima das nuvens, ou podias voar rente ao mar azul, mergulhando a ponta dos teus pés na água fria das ondas. E podias voar por cima das florestas virgens, e respirar o perfume das flores e dos frutos desconhecidos. Vias as cidades, os montes, os rios, os desertos e os oásis. No meu do grande oceano há ilhas pequeninas com praias de areia branca e fina. Ali, nas noites de luar, tudo fica azul, parado e prateado. Imagina estas coisas, Oriana.
Mas Oriana, olhando o alto céu e as nuvens vagabundas, suspirou e disse:
. Imagino o que seria da velha sem mim quando ela acordasse numa manhã fria de Inverno e não encontrasse o pão nem o leite.
. Vem connosco, Oriana . tornaram a pedir as andorinhas.
. Eu prometi tomar conta da floresta . respondeu a fada . e uma promessa é uma coisa muito importante.
Então as andorinhas fitaram-na com olhos pretos duros e brilhantes, e com um ar severo disseram:
. Oriana, não mereces ter asas. Tu não amas o espaço e desprezas a liberdade.

«A Fada Oriana», Sophia de Mello Breyner Andresen (Figueirinhas)

Estas foram das primeiras palavras da Sophia que ouvi, ainda antes de as ler. Lá em cima, na sala do segundo ano, às sextas-feiras à tarde, a voz do Professor confirmava a minha certeza na existência das fadas.

Publicado por Margarida Ferra às 04:05 PM | Comentários (0)

ALGUNS MINUTOS DE SILÊNCIO

Ontem, acordei a meio da noite, sem razão para tal. Acordei assustado; e ainda mais assustado por não entender porquê. Quase sem me mexer, tentei apanhar ecos do ruído que me teria despertado. Nada. Só ao fim de longos segundos percebi o que estava errado com a noite, com o mundo à minha volta: o silêncio absoluto. Nada se movia nem respirava à volta da casa.
O murmúrio das árvores vergadas pelo vento. O pipiar de coisas silvestres em voo. O ronco contínuo das ondas que, sem aviso, descobrem a linha de costa mais ocidental deste continente. A passagem ocasional de um automóvel ronceiro. O latido de um cão, furioso por dormir ao relento. É destas pequenas máculas que se faz o silêncio nocturno da minha aldeia.
Mas nem uma se deixava então ouvir. Como se alguém tivesse acabado de desligar o motor fundamental do universo, deixando tudo inerte, imóvel, mudo e quedo. Ou como se nada existisse para lá das paredes do meu quarto; apenas nevoeiro e escuridão sem fundo.
Só consegui voltar a adormecer com almofadas comprimidas contra as orelhas; dir-se-ia que estava a fugir de um ruído atroz. Mas assim pude concentrar-me até descobrir alguns sons: as marés internas do sangue que aflui aos tímpanos, as batidas descompassadas do coração alarmado. E lá fiquei, durante o que me pareceram horas, sonolento e receoso não sei bem de quê, até voltar a adormecer.

Quando voltar a ler o cansado chavão do "silêncio ensurdecedor", já saberei de que se trata.

Publicado por Luis Rainha às 02:54 PM | Comentários (2)

PROGNÓSTICO NOSTÁLGICO

«Sentimental e kitsch como sou, já só sonho em assistir, domingo, no Estádio da Luz, à consagração de Luís Figo. Trinta anos após a "revolução dos cravos", não cantarei o hino português, mas murmurarei a "Grândola Vila Morena"...»
Daniel Cohn-Bendit (na sua crónica de ontem, no «Le Monde»)

Publicado por José Mário Silva às 01:30 PM | Comentários (2)

PORTUGAL-GRÉCIA

Com a morte da Sophia, seja qual for o resultado do jogo desta tarde, os dois países já perderam.

Publicado por José Mário Silva às 12:57 PM | Comentários (3)

julho 03, 2004

INFÂNCIA

«Era uma vez uma casa branca nas dunas, voltada para o mar», escreveu a Sophia. E eu habitei muito tempo nessa casa.

Publicado por José Mário Silva às 06:29 PM | Comentários (0)

O TEMPO TODO INTEIRO

Quem me roubou o tempo que era um
quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia

Sophia de Mello Breyner Andresen (Setembro de 2001, in «Relâmpago», n.º 9)

Publicado por José Mário Silva às 06:26 PM | Comentários (0)

POESIA

A morte de uma mulher bela é o tema mais poético do mundo.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 03:03 PM | Comentários (12)

FEVER

A febre do futebol como forma de socialização por excelência.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 02:59 PM | Comentários (3)

BATE NA MADEIRA

Gosto de me sentar no largo e ver o mundo acontecer: o Chiado ao princípio da noite de 6ª feira, os grupos que se encontram, a alegria a prazo do fim de um dia de trabalho. A mentalização do país para uma eventual grande vitória e o fatídico despertar da afectação colectiva na próxima 2ª feira: o que é que se passa? o Barroso foi para onde? quem é o Primeiro-Ministro?
Quanto maior for a glória maior será a queda. (ops, de volta o pessimismo português!)
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 02:56 PM | Comentários (2)

AINDA VALERÁ A PENA VOTAR NUM PRESIDENTE DA REPÚBLICA? (2)

"Boneco" de Jorge Mateus, ligeiramente modificado; desculpa lá, pá, mas é para uma boa causa...

Publicado por Luis Rainha às 10:47 AM | Comentários (2)

AINDA VALERÁ A PENA VOTAR NUM PRESIDENTE DA REPÚBLICA? (1)

António Guterres apeou-se do cargo de primeiro-ministro na sequência de um resultado catastrófico em eleições autárquicas. Jorge Sampaio aceitou essa demissão e escolheu não convidar o PS a formar novo governo. Estava no seu direito.
Agora, o mesmíssimo Presidente prepara-se para recompensar a fuga de um outro primeiro-ministro . igualmente no rescaldo de eleições desastrosas para as suas cores . com a elevação às mais altas responsabilidades governativas de um cromo sem currículo nem tino suficientes para tal. Se calhar, continua no seu inteiro direito.
Eu, por acaso, até votei neste Presidente: Jorge Sampaio. E escolhi-o em oposição a um candidato de direita, crente que, quando o momento da verdade chegasse, o facto de termos um Supremo Magistrado de esquerda faria alguma diferença. Afinal, parece que me enganei.
Sim; já ouvi a cantilena do "Presidente de todos os portugueses". Mas o facto é que este PR vai ter de tomar, nos próximos dias, uma decisão que desagradará sempre a uma grande parte do eleitorado. Por muita urticária que lhe tal pensamento lhe cause.
Se o facto de ele ter sido eleito pelo "povo de esquerda" não vai ter qualquer peso nesta decisão, declaro-me aqui e agora arrependido de me ter dado ao incómodo de votar nas presidenciais. Se é indiferente estar lá Sampaio ou Cavaco Silva, talvez fosse mais económico e razoável deixarmos ao Tribunal Constitucional - ou a algum computador versado em leis - a resolução destas crises. Sempre poupávamos o pobre Jorge I, o Consensual, a semelhantes dores de cabeça.

Publicado por Luis Rainha às 10:41 AM | Comentários (7)

A TUDO QUANTO EXISTE ME HEI-DE UNIR

Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso, o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta. Ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão.
Sophia, Arte Poética II
Recolho do importante livro Exercícios de Aproximação (Vendaval, 2003) dois excertos sobre a poesia de Sophia, pela voz inconfundível de Silvina Rodrigues Lopes, ensaísta de disponibilidade infindável para descrever a alegria do poema que nasce de um corpo que estremece.
Do texto “Escutar, nomear, fazer paisagens”: O tema da justiça, ou a busca da relação justa com as coisas e com os outros, deve pois ser entendido a partir da exigência deste tipo de claridade. A «explicação com o universo» não se compadece com distinções entre ética e estética – é uma implicação inteira, para usar outra palavra do léxico de Sophia. A mesma que Paul Celan tem em mente nestas palavras célebres de um seu discurso: “Só mãos verdadeiras escrevem verdadeiros poemas”. De “A linha musical do encantamento”: A poesia de Sophia mostra-nos o movimento em que a voz, carregada de memória e desejo como de uma energia inexaurível, se reúne às coisas, resgatando-as da sua mudez. A energia é a do mar interior, aquele que brota da atenção como uma oração da alma e afirma a sua exterioridade como uma veemência.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 07:37 AM | Comentários (0)

100000

Não gosto particularmente destes textos umbiguistas mas, desculpem lá, não resisto. Passámos as 100000 visitas do Sitemeter, o contador em que mais confio. O BdE II, claro, desde o fim do Novembro. Há que juntar a estas as mais de 128000 visitas do BdE I, desde Janeiro de 2003. Diga-se em abono da verdade que cerca de 20000 destas visitas foram só no último mês de Junho. Obrigado pela vossa preferência.

PS - E no momento em que escrevo estamos a somente três dos 10000 comentários no BdE II.

Publicado por Filipe Moura às 02:16 AM | Comentários (5)

SOPHIA POR MIGUEL

Nunca conheci Sophia de Mello Breyner. Creio nunca a ter ouvido, sequer. No entanto fiquei a julgar conhecê-la um pouco através deste relato fortíssimo do filho, que me ficou gravado na memória e que aqui transcrevo parcialmente.

"À mesa, entre a sopa e o prato principal, dentro de um automóvel a caminho do sul ou na missa das sete da tarde na Igreja da Graça, de repente ela começava a recitar poesia com a mesma naturalidade com que os outros falavam de coisas triviais ou respondiam em latim ao "orate, frates!" do padre. Às vezes, naquele terror que as crianças têm que os pais pareçam estranhos em público, apetecia enfiarmo-nos pelo chão abaixo quando, à mesa de um café no Chiado, ou numa loja, em plenas compras de Natal, ou caminhando connosco pela rua de mãos dadas (por vezes, distraída, perdia-nos), ela começava a recitar poesia em voz alta, como se o mundo inteiro à sua volta lhe fosse de repente absolutamente alheio. Um dia, no eléctrico a caminho de casa, ela fixou-se num letreiro, por cima de uma janela, que rezava assim: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche." E então, no meio daquele silêncio envergonhado dos passageiros,. que fingem não ver e não se ouvir uns aos outros, ecoou a voz dela, clara e silabada, recitando um poema: "se alguma janela o incomoda, peça ao condutor que a feche e que nunca mais a abra."

Publicado por Filipe Moura às 02:04 AM | Comentários (1)

AGRADECIMENTOS

Deve um orador, numa conferência ou num simples seminário, agradecer o convite que lhe foi formulado? Ou mesmo que se tenha autoproposto a falar, deve agradecer a oportunidade que lhe foi concedida (falar numa conferência destas não é para qualquer um)? Manda a cortesia, em ambos os casos, que sim. Para alguns oradores, porém (não me refiro a ninguém em particular), manda o número de artigos e de citações que não.
Dá que pensar. Sem hipocrisias: um operário caloiro (e calão) deste ofício, como eu, quando vem a esta conferência gosta de ouvir as estrelas. Não sou de maneira o único a pensar assim: basta ver a ocupação da sala de conferências de cada vez que uma das estrelas fala. Depois, mais do que em qualquer outra área, na ciência o estatuto de estrela tem de ser renovado permanentemente. Muito dificilmente se ganha, muito facilmente se perde. Não há vacas sagradas (refiro-me à ciência de nível internacional...). Basta ter passado um ano sem se ter publicado um artigo de grande impacto para não fazer sentido falar na conferência. Quem trabalhou a sério para isso e obteve resultados (são duas coisas independentes; a primeira não implica a segunda) pode se calhar achar que merece e que tem direito a falar na conferência.
O agradecimento deve ficar, assim, ao critério de cada um, e ninguém deve ser julgado por isso. No entanto, nesta conferência, gostei de ver que os cientistas de quem à partida tinha melhor impressão enquanto pessoas (por outras razões que não esta) agradeciam.

Publicado por Filipe Moura às 01:57 AM | Comentários (0)

O BLOGUE DA CONFERÊNCIA

Vim depois a saber que Jeff Harvey lia (pelo menos) um blogue. É da autoria de Jacques Distler, um professor da Universidade do Texas em Austin e igualmente participante na conferência Strings 2004. Oferece um relato científico da mesma e evidencia um defeito grave do Movable Type (o Blogger não é melhor): não é possível editar fórmulas científicas no blogue.

Publicado por Filipe Moura às 01:28 AM | Comentários (0)

O BANQUETE (CONCLUSÃO)

No fim houve uma sessão de stand-up comedy com Jeffrey Harvey, outro guru (este de Chicago), não tanto como Witten, claro, mas um tipo porreiríssimo e com um excelente sentido de humor. Afirmou que esta conferência tinha sido o melhor passo na melhoria das relações franco-americanas dos últimos tempos e desejou que, para o ano, na próxima conferência, houvesse uma nova administração americana. Assim, sem mais delongas. Foi aplaudido em pé.

Publicado por Filipe Moura às 01:15 AM | Comentários (1)

julho 02, 2004

COMO SERIA BONITO...

... vermos Portugal parar por um minuto silencioso, mesmo antes da final do Euro, em memória de Sophia...

Publicado por Luis Rainha às 11:23 PM | Comentários (1)

CESSE TUDO O QUE A MUSA ANTIGA CANTA

Morreu a Sophia.

Publicado por José Mário Silva às 08:58 PM | Comentários (9)

LEGITIMIDADE

No imenso lodaçal de disparates em que está transformado este país, desde que a fuga de Durão Barroso para Bruxelas desencadeou uma crise política, a última e uma das mais divertidas que ouvi foi a de um barão do PSD, não me lembro o nome, que tentou legitimar a ida de Santana Lopes para a posição cimeira de Portugal com a sua vitória autárquica em Lisboa pois, dizia ele, Lisboa pelo peso que tem, é determinante em termos eleitorais.
Façamos algumas contas. Nas eleições de 2001, as autárquicas, aquelas que Santana Lopes ganhou, havia 568.087 eleitores em Lisboa. Santana Lopes conseguiu a aprovação de 131.094 destes eleitores. No mesmo ano, havia registados em todo o país 8.738.906 eleitores. Ou seja, o peso de Lisboa no total é de... aahn... 6,5%. Uau! Tanto! E Santana Lopes foi aprovado em 2001 por... hum... 1,5% do total dos eleitores portugueses.
OK, estou convencido. É só legitimidade.
(Jorge Candeias)

Publicado por José Mário Silva às 08:52 PM | Comentários (2)

COMO GANHAR ELEIÇÕES

Ontem, Pacheco Pereira já tornou público um momento de lucidez em que condenou claramente o "modelo" de governo que todos adivinhamos vir a reboque de Santana Lopes: o populismo mais desbragado e insensato.
O abrupto comentador usa, como excelente ilustração, as trocas e baldrocas por que já passou o pobre Parque Mayer, sujeito a promessas, anúncios, arrependimentos, muito dinheiro gasto ninguém sabe bem para quê... sem esquecer o rol de ideias peregrinas que até incluiu um estranho casino ambulante.
Assim descrito, parece ridículo, não é? Mas convém não esquecer que o modus operandi da untuosa criatura é perigoso; a sua receita de efeito quase garantido.
Afinal, o que faz Santana Lopes para ganhar uma eleição?
Simples. Basta-lhe prometer tudo e mais alguma coisa que o eleitorado possa desejar. Não importa que muitas promessas sejam irrealizáveis ou absurdas; não interessa que algumas sejam até incompatíveis entre si; é irrelevante que não haja dinheiro nem para metade. O que urge é prometer. Quatro anos depois, quem se lembrará do que era suposto ter sido feito entretanto?
E este papagaio da jura fácil não cala o bico nem depois de eleito: para ele, é igual fazer ou anunciar que se faz, através de cartazes, conferências de imprensa, livrecos manhosos ou excursões de braço dado a arquitectos de renome. Que a confusão impere, entre dispendiosos avanços e recuos, é coisa de somenos!

Concretizemos: a eleição de Santana para a presidência da CML, decidida afinal por pouco mais de 800 votos, obedeceu a esta estratégia tosca mas letal. Enquanto que João Soares se recusou obstinadamente a fazer promessas, o seu oponente coberto de gel metralhou-as sobre todos os alvos. E ganhou.
Segue-se um pequeno resumo de algumas dessas alucinações eleitoralistas. Assim de repente, elenquei 22, de que foram cumpridas (parcialmente)... as primeiras duas. Pois.

1- Abertura do túnel entre o Marquês de Pombal e as Amoreiras.
2- Aumento das zonas pedonais.
3- Melhoria na oferta de transportes públicos, desencorajando o uso de viatura própria. (como se conjugaria esta promessa com a n.º1 é que eu não sei...)
4- Um silo de estacionamento por cada quarteirão de bairro.
5- Repovoamento do centro de Lisboa, através de incentivos à habitação de jovens no centro e da colocação no mercado de andares devolutos; expropriando-os se necessário fosse.
6- Criação de um Fundo Imobiliário para recuperação de zonas históricas, em especial a Baixa pombalina.
7- Saída dos ministérios do Terreiro do Paço.
8- Revisão do regime de cargas e descargas, acabando com a actual confusão diurna.
9- Autocarros de saúde servirão como postos de prestação de cuidados médicos básicos aos toxicodependentes.
10- Equipas de ruas estarão em todos os bairros problemáticos da cidade, fazendo a troca de seringas nos locais de consumo, aconselhamento da prevenção da sida, combate à tuberculose e prestando cuidados de enfermagem.
11- O número de efectivos de Polícia Municipal nas ruas irá triplicar.
12- Transferência da Feira Popular para os arredores de Lisboa e construção no local de residências universitárias.
No que toca à Cultura, SL agradeceu o apoio de algumas figuras ilustres do teatro e das novelas com uma mão-cheia de promessas:
13- Galeria Municipal de Arquitectura.
14- Bienal Internacional de Arquitectura.
15- Um Festival Internacional de Cinema e outro de Teatro.
16- Concursos de Bandas e Coros de Lisboa.
17- Uma "Lisbon Film Commission", para produção de filmes e séries de televisão.
18- Um Plano de Recuperação e Requalificação das Casas de Fado.
19- O "Mega Espaço da Juventude".
20- "Espaços Multimédia" para acesso à Internet.
21- O "Passe Cultural Lisboa Jovem" gratuito.
(E até me abstenho de voltar a mencionar a tal "requalificação" do Parque Mayer.)
22- Já no Plano para este ano, o Euro 2004 não foi descurado, tendo a CML anunciado um "ciclo temático designado Futebol - Espaços e Emoções - visão multidisciplinar e transversal para a reflexão do fenómeno desportivo". Se isto já pareceria pouco, tendo em vista a quantidade de visitantes que a nossa capital recebeu, que dizer da realização desse mirífico "Ciclo"? Alguém o viu?

Mas muito mais haveria a relatar, no campo das promessas desbocadas e irrealistas de SL: lembram-se, por exemplo, do belo cartaz de campanha que anunciava que ele fazia "escolas e piscinas"? Ou da converseta sobre a "bela história de amor" que iria construir com os arrumadores de Lisboa? Ou da sede para os Artistas Unidos?
É esta forma de "governo" que nos aguarda: promete-se o que for preciso para dar a volta ao papalvo. Quatro anos depois, culpam-se as eternas "forças de bloqueio" por, afinal, nada ter sido feito. Ou confia-se, pura e simplesmente, na nossa fraca memória.

"É assim que eu não quero que Portugal venha a ser governado". Sábias mas impotentes, estas palavras de Pacheco Pereira.

PS: Recorri, para juntar este apanhado, a várias fontes, incluindo o "Público" de 7 de Janeiro de 2002, o site do PCP e mais umas quantas de que não me recordo. Peço desculpa a estas últimas.

Publicado por Luis Rainha às 05:04 PM | Comentários (6)

BYE BYE, BRANDO

Publicado por José Mário Silva às 04:53 PM | Comentários (0)

PARABÉNS, CAMARADA

Hoje é dia do Daniel Barnabé Oliveira soprar velinhas. Força.

Publicado por José Mário Silva às 04:47 PM | Comentários (2)

MA FIN EST MON COMMENCEMENT

Como Ourobouros . a serpente que morde a própria cauda . a final do Euro 2004 é um regresso ao princípio, às origens, àquele maldito jogo de estreia. Portugal e Grécia vão defrontar-se de novo, para acertar contas, decidir o título e repor a harmonia quebrada. Até no plano simbólico, bate tudo certo: começámos nas trevas do Dragão para acabar no esplendor da Luz. E o estádio fica na Segunda Circular...

(OK, fico por aqui com a brincadeira, antes que pensem que me transformei na Fina d' Armada.)

Um pouco mais a sério: domingo à tarde, não nos espera o céu nem o inferno, mas apenas um estado transitório de glória ou decepção. Ainda assim, será tempo de catarse, uma palavra grega que se virará (espero) contra quem a inventou.

Publicado por José Mário Silva às 12:20 PM | Comentários (5)

O BANQUETE

Banquetes de conferências de físicos são, como bem nota o meu orientador, locais em que as pessoas mais bem vestidas são os empregados de mesa. Ele não me decepcionou e, fiel à sua indumentária tradicional, apresentou-se de chinelos. Só faltaram os calções. E ele a coçar a barriga (e outras partes do corpo) enquanto se espreguiça e faz questões nos seminários.
De resto, foi bom ver mais de 500 físicos (grande parte dos quais americanos ou a trabalharem nos EUA) a darem uma boa lição a estes comedores de queijo. Contavam-se pelos dedos de um pé (sem exagero) os participantes do banquete que tinham fato e gravata. (Basicamente, eram os organizadores da conferência.) Num banquete no Senado da República Francesa. Quinhentos e tal físicos conseguiram o que os sonhadores do Maio de 68 tanto queriam, sem sucesso. Só faltou mesmo o caviar no menu do banquete.

Publicado por Filipe Moura às 02:24 AM | Comentários (0)

UMA VERIFICAÇÃO (À ENTRADA DO SENADO)

Em França, como na Alemanha e na Inglaterra, a autoridade de uma pessoa é tanto maior quanto maior o ridículo do seu chapéu.

Publicado por Filipe Moura às 02:21 AM | Comentários (1)

BOM PARA O EGO

Edward Witten é o mais citado físico da actualidade (e creio que de todos os tempos) e por isso, de acordo com a revista Time, uma das dez pessoas vivas mais influentes em todas as áreas. Com efeito, grande parte dos seus artigos abrem uma nova área de investigação para inúmeros cientistas da minha área, que se limitam a aperfeiçoar e a extrair consequências das teorias propostas pelo guru. De acordo com um modelo para cartas de recomendação, os físicos devem ser classificados numa escala de 1 a Witten.
Na conferência Strings 2004 um dos seus seguidores (e não mais do que isso), numa das palestras, aproveitando o facto de estar na terra dos comedores de queijo, falava nos seus acetatos da "grande bouffe". Imediatamente eu e os meus pobres colegas "americanos" (na verdade, nenhum era americano) entreolhámo-nos: o que quer este gajo? Eu era suposto ser o francês mas, desgraçadamente, não sabia o que queria dizer bouffe. Désolé.
Na sessão de perguntas, Witten, um homenzarrão com uma vozinha surpreendentemente fina, quase de menina, pede a palavra. Era visível um certo nervosismo no orador. Afinal, apesar da sua vozinha, Witten é, para além do seu currículo, um dos mais temíveis arguentes, capaz de derrubar um orador com uma das suas questões. Mas a questão que se ouviu da referida vozinha foi "what do you mean by bouffe?"
Eu e os meus colegas, de certa forma, sentimo-nos bem. Afinal não é todos os dias que se tem a mesma dúvida daquele que é talvez o maior génio da actualidade! Mas lá está - a grande diferença que faz os génios: Witten ousou fazer a pergunta.
Na ciência, no futebol, na vida, muitas vezes o que faz a diferença é a autoconfiança.

Publicado por Filipe Moura às 02:19 AM | Comentários (7)

julho 01, 2004

FUTEBOL E MULHERES NUAS

Pelo que li hoje n."A Capital", Nelson Rodrigues terá escrito que "olhar para uma partida de futebol sem sofrer por uma das equipas é como olhar para um nu artístico . qual é o interesse?"
(Não consegui certificar-me do acerto da citação; mas vou confiar no cronista.)
Para mim, que estou bastante mais habituado a ver jogos de ténis do que de futebol, isto parece-me coisa de malucos. Acompanho por vezes maratonas de 3 e 4 horas entre jogadores que desconheço e faço-o apenas e tão somente porque o ténis praticado é espectacular, com incerteza constante quanto ao vencedor. Posso até "torcer" por um atleta cujo jogo me esteja a agradar mais, mas sem qualquer sofrimento pelo meio.
E não me chamem elitista, que também já tenho ficado colado a partidas do plebeu futebol, entre equipas que nem sei bem onde vivem, acontecendo-me o mesmo: se o jogo é bom e emocionante, sou capaz de o seguir até ao apito final. Com prazer. (Para obter sofrimento garantido, já me bastam os jogos do meu filho ou do Benfica.)
Hoje, espero deliciar-me com o Grécia-República Checa. E não vou sofrer ou delirar com nenhuma dessas selecções. Aliás, se o jogo não for grande coisa, nem o verei todo. Será que me está a faltar qualquer coisa para fruir como deve ser este Europeu?
Ná. O Nelson Rodrigues que me perdoe; mas entre olhar para uma matrafona pejada de celulite e mirar, por exemplo, um "nu artístico" de Bonnard, escolho correr para o museu mais próximo.

Publicado por Luis Rainha às 07:38 PM | Comentários (2)

E AGORA UM VERDADEIRO QUADRO FUTEBOLÍSTICO (SEM PHOTOSHOP)

«Les Footballeurs», de André Lhote (1918)

PS- André Lhote pertenceu à «segunda vaga» de pintores cubistas (a que surgiu depois de Picasso, Braques e Juan Gris).

Publicado por José Mário Silva às 07:37 PM | Comentários (0)

WC PUTO

O Puto Paradoxo, deste blogue colectivo e amalucado, decidiu "partir a loiça toda" no que aos nomes dos materiais sanitários diz respeito. E propõe uma causa nobre: abaixo Valadares, viva Salazar (para nome de urinol, claro). Gostava era de saber o que pensaria disto o Cesariny...

Publicado por José Mário Silva às 06:54 PM | Comentários (1)

UM PULO DO LOBO CHAMADO COLLÈGE DE FRANCE

Compromissos inadiáveis obrigaram-me a estar afastado da blogosfera nestes dias. Na semana passada foi a conferência no Porto e o São João. Esta semana tem sido a conferência Strings 2004, aqui em Paris. Com mais de 500 participantes, é de longe o mais importante evento científico em que já participei. A minha vida tem sido assistir a palestras da maioria dos mais importantes especialistas no assunto, reencontrar colegas, colaboradores e amigos de longa data, rever um dos meus grandes mestres (um holandês que, nestas coisas do futebol, é tão racional, tão desportivo que mete raiva), rever ainda o meu orientador (checo de nacionalidade - o futebol não será a nossa única "guerra"). Ontem vi o (grande) jogo, mais uma vez na Casa de Portugal. Antes, tive direito a um tour do Sena, pago pela conferência. E agora vou ao banquete, no Senado, no palácio do Jardim do Luxemburgo. Vida dura... Voltarei a dar mais notícias hoje ou amanhã.

Publicado por Filipe Moura às 05:42 PM | Comentários (4)

AQUELA SOMBRA

A Cassini-Huygens entrou hoje finalmente na órbita de Saturno, após sete anos de viagem e 3,5 mil milhões de quilómetros percorridos. Uma odisseia. Antes da chegada ao sexto planeta do sistema solar, a sonda ainda conseguiu oferecer-nos, no princípio de Maio, esta imagem deslumbrante:

Não sei o que me encanta mais: se a perfeição do planeta (um prodígio gasoso, formado por 75% de hidrogénio e 25% de hélio); se a ténue iluminação solar que contrasta com o negrume do espaço sideral; se aquela sombra avançando pelos anéis, tão nítidos.

Publicado por José Mário Silva às 05:16 PM | Comentários (2)

ROHMERIANA

No blogue mais genuinamente verde e mais ostensivamente bem escrito da blogosfera nacional (1bsk), é tempo de Rohmer. Éric Rohmer: um dos grandes génios do cinema francês. Textos críticos, análises, curiosidades, fetichismos . a equipa kleistiana esmerou-se. Obrigado, Alexandre.

Publicado por José Mário Silva às 04:48 PM | Comentários (0)

A PRIMA DA OBRA

«Golo», de Maniche & alguns filtros foleiros do Photoshop (2004).

Publicado por Luis Rainha às 03:30 PM | Comentários (6)

OBRA-PRIMA

«Golo», de Maniche (2004).

Publicado por José Mário Silva às 03:01 PM | Comentários (3)

DEGOLADOS E QUEIMADOS

Graças à TSF, fiquei ontem a saber que existe, algures neste sempre surpreendente país, uma localidade chamada "Velhos Degolados".
Escusam de procurar pormenores no Google, que é inútil. De qualquer forma, também já não deve valer a pena ir lá: o lugar com tão improvável nome foi ontem notícia... por estar em chamas.

Publicado por Luis Rainha às 02:29 PM | Comentários (7)

A IMENSA FALANGE DE APOIO SANTANISTA

1+1+1+1. Quatro pessoas.

(Imagem captada na contra-manif de terça-feira, em frente ao Palácio de Belém. Cortesia do blogue Enresinados.)

Publicado por José Mário Silva às 01:54 PM | Comentários (8)

TRIBUNA DA ASNEIRA

Hoje, municiei-me para enfrentar uma espera numa repartição pública comprando um jornal. Por algum motivo insondável, escolhi "A Capital"; já não lia tal coisa há anos, tinha ouvido dizer que fora renovada, sei lá.
A bem da verdade, o jornal pareceu-me manhoso como sempre. De diferente, só lobriguei uma profusão inexplicável de crónicas e croniquetas, espalhadas a eito pelo jornal como uma infestação de cogumelos de ar duvidoso. Logo na última página, dou com um arremedo de texto humorístico a glosar a relação amorosa que Portugal aparentemente mantém com a Alexandra Lencastre. Tal, imagine-se, a propósito do jogo de ontem: "Milhões de portugueses a sonhar com a Alexandra... e depois vem um Piet-Hein qualquer fazer-lhe os filhos que eram nossos? Mas o que é isto?! Não contente com isso, o holandês decidiu fornicar-nos uma segunda vez e pensou: 'agora vou trazer os reality-shows para cá! Uhahahaha!'"
Assim mesmo. Juro que isto está impresso n'"A Capital" de hoje. Por uma questão de pudor, nem vou mencionar o nome do responsável.
Depois, avancei até à secção cultural: a propósito da estreia da sua peça de teatro, o destaque de uma entrevista a José Eduardo Agualusa arranca assim: "(...) é uma escritor de língua portuguesa (...) é a sua primeira incurssão na dramaturgia". Ou seja: para contratarem humoristas dementes, demitiram o revisor.
Mais sério é o que consta na página 19. Aqui, deram uns largos centímetros quadrados a uma figurinha da TV para abrir a sua alma ao mundo. A alma e uma falta de senso sem limites nem vergonha. Leiam e pasmem:
"Talvez as lésbicas portuguesas não saibam bem o que isto quer dizer, que um filho é mais do que uma revindicação ou direito, é uma opção para toda a vida, é a única responsabilidade que nunca termina. Deverá ou não a lei portuguesa aceitar a maternidade/paternidade dos Homossexuais?"
Esta senhora, ao que parece, coloca a hipótese de o Estado poder recusar a alguém a possibilidade de ter um filho, e logo por uma razão de peso: a orientação sexual! Ou talvez imagine uma repartição eugénica que confisque bem depressa a descendência de tão repugnante e inconsciente gentalha...

Nunca simpatizei muito com os eucaliptos; mas hoje, pela primeira vez, tive pena de alguns deles. Dos que foram abatidos para que não faltasse papel onde imprimir esta edição de "A Capital".

Publicado por Luis Rainha às 01:39 PM | Comentários (7)