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abril 30, 2004

TEMPUS FUGIT

Eu bem queria escrever. Eu bem queria. Mas entre contratos rescindidos, celebrados e a celebrar, mais o trabalho a que se regressa já exausto, não consigo.
Como é que dizem aquelas placas das lojas que fecham para almoço?
Volto já.
É isso.
Volto já.

Publicado por José Mário Silva às 09:37 PM | Comentários (3)

Anti-semitismo

Cento e vinte e sete túmulos judaicos profanados ontem na Alsácia.
É isto uma amostra do anti-semitismo que levanta de novo a cabeça.
Intolerável.
Que pelo menos não nos esqueçamos da sua virulência quando nos envolvemos noutras discussões.

Publicado por tchernignobyl às 08:48 PM | Comentários (16)

Land of the brave

Numa revigorante demonstração da "superioridade moral" sobre os raptores do Iraque há pessoal que classifica como "demagogia" esta história das torturas no Iraque.
Não esquecer que tudo neste processo traz a marca de um retrocesso civilizacional de quase cinquenta anos para o nível da "ideologia dos centuriões "da guerra da Argélia agora comprovadamente reintroduzida no teatro de operações tal como vinha desde há tempos a ser preconizado por "teóricos" ultraconservadores como o Robert Kaplan.
É obra, nem o próprio Bush tem lata de qualificar essa vergonha como menos do que "repugnante" correndo porventura o risco de com esta crítica aos excessos de algumas das suas tropas quebrar a unidade indispensável para não ceder nem um milimetro à Al-Qaeda.
Justifica-se a admiração que os apoiantes portugueses das políticas radicais do neoconservadorismo têm pelo Bush.
Ao menos que aprendam com ele um mínimo de contenção e decência nem que seja de fachada se são incapazes de o fazer com mais alguém.

Publicado por tchernignobyl às 07:46 PM | Comentários (0)

CONHECER, SIMPLESMENTE

Subscrevo este artigo .Conhecer a Sociedade., de Manuel Villaverde Cabral, sobre o financiamento da investigação em ciências sociais. Só quero aqui ressalvar que, com excepção dos dois parágrafos que se referem à publicação de textos em português (algo que não é válido nestas áreas), o mesmo se aplica a todas as ciências fundamentais, incluindo as exactas (física e matemática), incluindo o que diz respeito à (péssima) herança do salazarismo.
É importante distinguir áreas tecnológicas de áreas científicas fundamentais. Se há uma maior aposta do governo nas primeiras, há que frisar que é também em detrimento das últimas. Ninguém espera, pelo menos por agora, que uma área como a teoria das supercordas tenha aplicações tecnológicas. O mesmo se dirá de muitas áreas da física (como a física de partículas e a astrofísica) e da matemática. Quem tenha a formação e queira trabalhar nestas áreas não tem alternativa que não seja a investigação, que em Portugal se faz somente na universidade. Não há .tecnologia. que valha a quem queira fazer investigação fundamental. E para esta continua a haver um subinvestimento, que as recentes propostas da Ministra da Ciência não vêm resolver nada.
Melhor esteve João de Pina Cabral que, em declarações ao Público, afirmou que .a importância dada à transferência tecnológica não poderá aplicar-se a algumas áreas, como as ciências sociais e humanas ou ciências fundamentais como a matemática ou a física teórica..
De qualquer maneira, julgo que se deveria estabelecer como princípio que as regras de financiamento para as ciências sociais e humanas não podem ser as mesmas que para as ciências fundamentais. Há regras, e mesmo possíveis financiamentos, que fazem todo o sentido numa área e nenhum na na outra, pois as respectivas práticas e necessidades correntes são totalmente diferentes. Possivelmente, a entidade financiadora nem deveria ser a mesma para ambas as áreas.

Publicado por Filipe Moura às 05:27 PM | Comentários (9)

Boa saúde

O ar saudável do homem cuja foto vem impressa no novo cartão do negócio Vodafone/Ministério da Saúde postado pelo Barnabé ilustra com eloquência o slogan da campanha de lançamento:
"Este governo dá valor acrescentado à sua saúde"...
e oh oh se não dá.
Por outro lado, a especificação "este" governo sugere que o limite temporal para o acrescento de saúde actualmente observável entre os portugueses é o da vigência dos actuais timoneiros.
Como diz o ditado, não há mal que sempre dure... talvez o eleitorado siga a sugestão dos outros dizeres do tranquilizador cartão e "ceda ao impulso" de os pôr com dono nas próximas eleições.

Publicado por tchernignobyl às 05:15 PM | Comentários (1)

O QUE VALE AOS IRAQUIANOS É QUE O REGIME QUE MALTRATAVA PRISIONEIROS FOI DEPOSTO

Em poucas horas, as infames fotografias de prisioneiros iraquianos sendo maltratados deram a volta ao mundo. Agora, todos, dos militares a Blair, se declaram muito "appalled" e "disgusted". Mas é tarde.
Bob Stewart, o antigo comandante da OTAN na Bósnia, já afirmou que estas fotografias são "the best recruiting sergeant that al Qaeda and those people that want to fight against British soldiers, American soldiers and the rest of coalition could ever want." Mesmo o conservador Daily Mail poucas dúvidas teve: "we are losing their hearts and minds."
Sim; sei perfeitamente que no tempo de Saddam nunca ninguém investigaria tais coisas. Mas é igualmente verdade que rumores de comportamentos similares já circulavam há muito, até a propósito de bases americanas no Afeganistão.
Já correu melhor a exportação dos "Valores Ocidentais" para o Iraque...

Publicado por Luis Rainha às 03:08 PM | Comentários (23)

HOMEM OU MULHER? E OUTRAS BIZANTINICES

O nosso amigo Afixe anda a vaguear por territórios perigosos. Para um homem de direita, não lhe fica nada bem postar heresias a propósito da mais santa de todas as refeições: a Última Ceia!
A sugestão de que a figura à direita de Jesus seria na realidade uma mulher já é bem antiga. Agora, parece que voltou à superfície, aproveitando a boleia da famosa besta célere, o Código Da Vinci.
Mas julgo que afirmar que se trata de "uma mulher, sem dúvida" é mesmo muito precipitado. Identificar com tal segurança esta figura como sendo feminina é ignorar a ambivalência sexual de muitas personagens desenhadas por Leonardo. Este famoso desenho mostra-nos um rosto muito parecido com aquele à direita de Jesus na última ceia; a tal "quase insinuação de um seio" surge aqui até com maior visibilidade. No entanto, é bastamente claro que se trata de um homem (e muito entusiasmado, por assim dizer). A sexualidade de Leonardo já deu pano para muitas mangas; dados como estes desenhos e as acusações de sodomia que sobre ele recaíram em 1476 são apenas algumas das pistas investigadas pelos estudiosos de tais minudências.
Mas há mais. As Escrituras afirmam que Maria Madalena esteve no local mas não ceou, tendo-se limitado a lavar os pés aos convivas e pouco mais. Se Leonardo se tem atrevido a colocar ali uma mulher, por muito vestida de homem que estivesse, seria trancafiado num calabouço remoto antes que o Belzebu tivesse tempo para esfregar uma ramela. Se hoje as obras blasfemas ou heréticas ainda causam escândalo, imagine-se o que não seria naqueles dias...

Outros temas aflorados no post em apreço são igualmente fascinantes mas não dá mesmo para resumir tanto assunto neste espaço.
A questão do Concílio de Niceia enquanto "solidificador" do Novo Testamento, por exemplo. É errado imaginar que este cânone se estabeleceu assim de um dia para o outro: algumas figuras de proa do Cristianismo inicial, como Eusébio, já antes tinham deixado claras as suas escolhas, atribuindo aos três evangelhos sinópticos o selo da autenticidade e questionando o de João. Só no ano de 367 é que o bispo Atanásio de Alexandria publicou a primeira lista completa do canône do NT. No ano de 400, o Livro da Revelação ainda era tido como de autoria duvidosa - e mesmo hoje há quem o considere herético...

A ideia de que os evangelhos sinópticos são "quase cópias integrais uns dos outros" é algo estranha; descrevendo eles a vida da mesma pessoa, outra coisa não seria de esperar! No entanto, é fácil descobrir contradições quanto a factos simples: por exemplo, basta procurar as várias descrições do episódio dos ladrões crucificados juntamente com Cristo para encontrar divergências. A suspeita, no entanto, tem razão de ser: a hipótese das Duas Fontes, que tem recentemente ganho popularidade, postula que Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito, sendo que "Mateus" e "Lucas" o usaram mesmo à laia de inspiração, assim como a um outro documento, hoje perdido, denominado "Q" (do alemão "Quelle"). Por outro lado, será também fácil comprovar que os escritos dos primeiros bispos não aludem a episódios que tivessem sido depois expurgados no Concílio de Niceia para facilitar a "deificação de Jesus" a que o Afixe - aka Mérovée - alude.
Deve dar para perceber que este tema me dá corda aos deditos do teclado. Mas isto já vai longo demais. Finalizo declarando que ainda não li o Código Da Vinci. Mas estou curioso.

PS: confessei que ainda não li o livro. De qualquer forma, não resisto a dar-lhe uma pequena alfinetada. Se os evangelhos gnósticos são tão decisivos na sua trama, como encaixar em tais "revelações" o mais reverenciado de todos os apócrifos, o evangelho segundo S. Tomé? Não me parece que as palavras aí endereçadas à própria Maria Madalena demonstrem grande amor, ou sequer respeito, pelo princípio feminino:
"E disse-lhe Simão Pedro .que Maria nos deixe, pois as mulheres não são dignas da vida.. Jesus respondeu .eu mesmo a guiarei para fazer dela um macho, para que também ela se torne num espírito vivo que se assemelhe a vós, machos. Pois cada mulher que se transforme num macho entrará no Reino do Céu.."

Publicado por Luis Rainha às 12:43 PM | Comentários (3)

Avanços civilizacionais: uma análise imparcial

Ambos os lados do conflito israelo-palestiniano encontraram uma nova utilização para os adolescentes palestinianos.
Uma aparente similitude de procedimentos que se esboroa se analisarmos imparcialmente os factos.
Há uns dias trás foi o miúdo detectado quando se aproximava de um posto de controle israelita com uma bomba presa ao corpo.
Alegadamente não tinha consciência do que transportava. De uma forma ou de outra... consciente ou inconsciente, é a demonstração do beco sem saída a que leva o militantismo fundamentalista islâmico e mostra bem a situação de impasse a que chegou a resistência dos palestinianos condenados a vergarem-se ou (e) a desaparecerem de acordo com o que é anunciado triunfantemente de Telavive a Washington.

O exército israelita não ficou atrás em criatividade, embora com a natural atenuante de ser um exército de paz e sem fins agressivos que se encontra permanentemente na defensiva.
Numa escaramuça, uma patrulha israelita apanhou um palestiniano de 13 anos e amarrou-o a um jipe como escudo humano.
Explicações existem muitas, e todas elas inabalavelmente lógicas:
1-É uma situação normal num quadro de instabilidade política. Apenas o anti-semitismo larvar da opinião pública justifica a presença ubíqua de fotógrafos perturbando as normais operações de patrulhamento do exército israelita quando ignora outras noutros pontos do globo.
Este argumento parece imoral e é-o noutras circunstâncias mas neste caso é uma utilização razoável, séria e civilizacionalmente aceitável da "elocubração adversativa".
2-O miúdo sendo palestiniano, e dada a aversão dos palestinianos pelo trabalho e a corrupção endémica de que padecem que os impede de se tornarem numa nação próspera como o seu vizinho Israel tem todas as probabilidades de ser ou de pelo menos vir a ser terrorista e como tal o melhor é prevenir do que remediar.
3-os miúdo detectado no posto de controle, conscientemente ou não era um terrorista, levava uma bomba e o seu propósito era ofensivo.
Este miúdo foi apenas utilizado num contexto rigorosamente defensivo e por um exército democrático na luta contra o terrorismo.
4- O miúdo "escudo humano" foi exposto apenas a balas e não a qualquer espécie de bomba.

(nota: a origem das notícias deste post e do anterior é a Newsweek o que transforma esta revista em mais um órgão de informação ao serviço do anti-semitismo primário)

Publicado por tchernignobyl às 10:54 AM | Comentários (9)

Santana também tem direito a um Estudo de Impacto Ambiental aprovado

É nestas coisas que se vê a superioridade moral da democracia israelita.
Tal como em qualquer país civilizado os diferentes poderes são exercidos de forma perfeitamente independente.
Piscando o olho ao juri do Nobel da Paz, Sharon "anuncia" uma retirada unilateral da faixa de Gaza, e adverte os seus concidadãos para tempos difíceis que "poderão" implicar o "sacrifício " da destruição de colonatos judaicos (dúvida: aqui pode dizer-se mesmo "judaicos" para distinguir dos colonatos palestinianos ou teremos de arranjar uma expressão especial que nos ponha a salvo de acusações de anti-semitismo?).
Algures, no papel, está em projecto um novo "road map" pacificador da chamada "guerra civil nas estradas" daquela região.
No terreno, constrói-se com afinco. Novos colonatos, um longo muro de separação.
Os respectivos Estudos de Impacto Ambiental estão devidamente feitos e aprovados pois como é sabido, todos estes colonatos e muros são construídos com o objectivo de melhorar o "ambiente"
(nota:
Todos sabemos que este muro é uma medida temporária de inegável qualidade ambiental reveladora de um profundo empenhamento civilizacional e sem quaisquer intuitos de discriminação étnica, política ou outra, passada presente ou futura.
A expressão "muro" é aqui utilizada por simples facilidade de linguagem enquanto não se encontra uma expressão alternativa rigorosamente extirpada de quaisquer possíveis conotações anti-semitas directas ou indirectas, e não implica qualquer analogia com qualquer outro "muro" e em particular "O Muro".
)

Publicado por tchernignobyl às 09:49 AM | Comentários (0)

O QUE É QUE O BAIANO TEM?

Desde hoje,tem 90 anos...
Parabéns, seu Dorival Caymmi. A imagem que o mundo tem da Bahia passa muito pela sua música. É um compositor assumidamente preguiçoso (um total de pouco mais de oitenta canções em 90 anos de vida), mas muito talentoso (uma grande parte dessas composições são obras primas). Em sua homenagem, proponho desta vez um delicioso vídeo, gravado em casa de outro monstro sagrado da música brasileira, desaparecido passam este ano dez anos: Tom Jobim. As famílias Jobim e Caymmi ensaiam uma excelente versão da famosa Maracangalha, de Caymmi, que viria a ser incluída no álbum António Brasileiro, o derradeiro álbum originais de Jobim. Pode ver-se aqui.

Publicado por Filipe Moura às 02:36 AM | Comentários (0)

abril 29, 2004

EM AUDIÇÃO

«Cuckooland», de Robert Wyatt: simplesmente genial.

Publicado por José Mário Silva às 08:51 PM | Comentários (4)

PEQUENO POST EM INGLÊS

Here is the smallest of all personality tests (just one question):

1) If you have some time, what will you chose?
a) Shoppenhauer
b) Shop an hour

Publicado por José Mário Silva às 08:49 PM | Comentários (6)

AS MAIÚSCULAS

Estava eu no Jardim da Parada a ler o jornal, espreitando de vez em quando os velhos empolgados com a sorte das cartas e os bebés que insistem em perseguir ingloriamente, no seu trote tenaz e trapalhão, uma caterva de pombos fugidios, quando eles apareceram. Eles, os militantes da Nova Democracia. Tias betas, rapazes de boné + blazer, executivos de camisa às riscas e gravata de seda (mesmo ao sábado). Distribuíam panfletos, felizes da vida, com muitos sorrisos à mistura e conversa mole para enganar papalvos. A mim, vá lá, passaram-me só o papelucho, talvez por causa da cara de poucos amigos, não sei. O certo é que assim pude descobrir, tomado de assombro, a famosa andorinha (em tons de azul), mais uma foto de Manuel Monteiro (de mão no queixo, como Cavaco na capa da «Autobiografia Política - parte II»), acompanhadas por duas frases: uma a lembrar chapéus de palha e sobretudos verdes («Em Frente Portugal») e outra à laia de slogan («Nova Democracia, o novo Partido Português»). Repararam nas maiúsculas? Pois é, uma maravilha. E ainda dizem que a direita não é subtil.

Publicado por José Mário Silva às 08:46 PM | Comentários (2)

E QUE TAL PROCURAR NO ESPELHO?

Este é por certo o título do ano. Tão certeiro que é quase mauzinho...
Mas que dizer de um presidente de câmara que inquere, entre o angustiado e o perdido: "Mas sou eu que tenho de resolver isto?"

Publicado por Luis Rainha às 03:18 PM | Comentários (3)

A MEMÓRIA DO 25 DE ABRIL

Local: teatro da Residência André de Gouveia, Cidade Internacional Universitária de Paris. Data: terça-feira passada, 21:30. No âmbito da semana de comemorações do 30º aniversário da Revolução dos Cravos, o historiador Fernando Rosas deu uma conferência intitulada «La mémoire du 25 avril». A sala estava quase cheia para assistir a um bom resumo do período do fascismo em Portugal. A descrição da vida em Portugal durante o fascismo foi apresentada com bastante clareza, cheia de exemplos. O autor descreveu os métodos da PIDE, as prisões políticas e as torturas de uma forma bastante convincente, de quem sabia do que falava. (Obviamente não é o meu caso, mas conhecendo eu bem pessoas que passaram por estas situações, posso dizer que os exemplos do Prof. Rosas foram muito bons.) Fernando Rosas falou também da Guerra Colonial, tendo tocado aspectos menos divulgados, como a comparação com outras guerras coloniais de outros países e o apoio político que o governo português teve, nesta questão, de países como a França.
Em resumo, uma boa conferência, bem moderada pelo nosso Manuel Deniz (se me permitem o elogio interno).
Embora grande parte da audiência fossem universitários portugueses, também havia um grande número de estudantes de outros países e um número considerável de emigrantes portugueses e seus filhos. Por tudo isto, está de parabéns a organização desta iniciativa, que aqui queremos cumprimentar. E até ao fim da semana ainda há mais. Quinta e sexta, no mesmo local, a partir das 18:30.

Publicado por Filipe Moura às 03:09 AM | Comentários (3)

Parece que és bruxo

Não sei bem como acabei por aterrar numa página do arquivo do Intermitente em 22 de Março de 2003 (35 anos depois do 22 de Março de 68...), sobre o historiador francês Emmanuel Todd:

"Voltando ao sociologo frio, o seu anti-americanismo chega ao extremos.
Acerca da guerra no Iraque a resposta à pergunta:

"Essa teoria não cairá por terra se os soldados americanos forem aclamados libertadores ?"

-Já pensei nesse cenário. Porém, ele em nada altera a minha análise. Um libertador pode muito bem, após um período de tempo, passar a ser considerado ocupante que vai gerar forças de resistência. Os EUA podem vencer o Iraque mas nunca controlá-lo a longo prazo.

Para além de ignorar tudo o que a Administração Norte-Americana disse acerca do futuro do Iraque, Emmanuel Todd não permite qualquer duvida. As coisas são assim porque ele quer! Ao contrário do que VPV ( referência a mais uma crónica seminal do VPV daquelas em que bate em todos para não bater em si próprio) retórica sobrepõe-se à realidade...

Este "ao contrário de...", arruma logo a conversa, e depois logo o Todd, contaminado como é bastamente sabido por um "anti-americanismo que chega a extremos".
Passado um pouco mais de um ano, é bom irmos confrontando a retórica e a realidade.

Publicado por tchernignobyl às 12:43 AM | Comentários (7)

abril 28, 2004

LOCKERBIE? NUNCA OUVI FALAR...

O atentado de Lockerbie, onde morreram mais pessoas do que no ataque de 11 de Março em Madrid, tem sido muito relembrado nos últimos dias. Isto, claro está, a propósito da visita de Kadhafi à capital da Eurolândia.
Mas... e se as coisas forem muito diferentes do que parecem? E se o atentado foi na realidade encomendado por Teerão a terroristas baseados na Síria? E se esta pista só tiver sido abandonada, a pedido de Bush Sr., em troca da participação de forças de Damasco na primeira Guerra do Golfo? E se o famigerado Abu Nidal até admitiu a aliados seus a autoria do massacre?
Esta teoria não circula por aí em sites mais ou menos ligados aos X- Files; veio à luz nas páginas do insuspeito Guardian . Passem a vista pelos diversos artigos deste special report, que vale bem a pena.

Até que se dissipem as perplexidades - provavelmente nunca - o suposto bode expiatório do caso, Abdelbaset Ali Mohmed al-Megrahi, continua na sua cela de luxo, onde já foi visitado por Mandela e Kofi Annan, enquanto mesmo alguns familiares das vítimas de Lockerbie começam a manifestar dúvidas em relação à sua culpa.
Será esta a causa oculta por detrás do pressuroso perdão que agora é generosamente concedido ao ditador líbio?

PS: Sim. O caramelo que surge na foto a entregar uma linda prenda a Kadhafi é mesmo o Joerg Haider.

Publicado por Luis Rainha às 07:59 PM | Comentários (6)

NÃO ME ENTERREM MAIS, POR FAVOR!

O patusco anúncio que convocou uma concentração de solidariedade para com o túnel do Marquês nem sequer conseguiu comover o presidente da CML. Santana Lopes veio agora agradecer o tal "apoio ao esforço em prol da modernidade do actual executivo da Câmara de Lisboa"; mas prefere que não o enterrem mais. Assim, pede aos seus imaginativos apoiantes que se deixem disso das manifs.
Rita Salema e Ruy de Carvalho, as cabeças de onde surgiu a coruscante ideia, vão ter de encontrar outra ocasião para arejar o genial slogan com que hoje divertiram os leitores do "Correio da Manhã": "pelo túnel, mais cidade, pela modernidade"...

Publicado por Luis Rainha às 07:01 PM | Comentários (2)

Shrinks de prevenção

É interessante constatar que a maioria dos escribas de direita que alinhava as suas croniquetas displicentes quando não pura e simplesmente difamatórias sobre o 25A74 militava à época em diversas organizações de extrema esquerda.
É tal a quantidade de gente nestas condições que dá para perguntar se não estamos em presença de uma epidemia colectiva de esquizofrenia aguda com laivos de mitomania e uma perigosa tendência auto-flagelatória a exigir rápida mobilização do Serviço Nacional de Saúde.
Ou será que quando criticam o que se passou nessa época não se referem a si próprios mas "aos outros"?
Francamente não sei o que será mais grave, auto-mutilação ou inimputabilidade intelectual e política...

Publicado por tchernignobyl às 02:20 PM | Comentários (17)

Hola verde

Voltando ao kadhafi, é de saudar a sua fotogenia na era da "imagem".
Ontem na tv rodeado por jovens modelos jihadistas com ar de bond girls prontas para o que der e vier do tipo "só por cima do meu (tentador) cadáver", hoje numa fotografia brilhante do público em que o perfil do coronel se confunde com os rechonchudos anjinhos renascentistas "imortalizados"(??!!!) nos frescos do gabinete de Romano Prodi.
Quem deve estar contrariada a estas horas é a Oriana Falacci. A fogosa jornalista anti-islâmica assinalou há muitos anos numa entrevista que o coronel tem uma verdadeira obsessão por tudo o que é verde, o que longe de ser um defeito é uma informação preciosa que espero não escape ao olhar atento de Dias da Cunha na hora de procurar investidores credíveis financeiramente e carentes de respeitabilidade para investir nos reforços da próxima época.

Publicado por tchernignobyl às 01:37 PM | Comentários (4)

«É A CULTURA, ESTÚPIDO!» LIGHT

Hoje à tarde (18h30), no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, decorre mais um encontro «É a Cultura, Estúpido!», desta vez em versão reduzida. Com dead-line apontada para as 20h00, devido a uma estreia na sala principal, o debate contará com a presença dos participantes habituais: Pedro Mexia, Nuno Costa Santos, João Miguel Tavares e José Mário Silva a falarem das novidades literárias, cinematográficas e musicais; uma entrevista de Anabela Mota Ribeiro com Frederico Lourenço, romancista e premiado tradutor da «Odisseia»; um debate sobre o PREC, entre o Daniel Oliveira e o Pedro Lomba, a partir de um livro de Fernando Rosas; e o sempre muito aguardado momento de stand-up comedy de Ricardo (ou será Icardo?) Araújo Pereira.
Compareçam.

Publicado por José Mário Silva às 12:40 PM | Comentários (2)

NÓS SABEMOS MUITO BEM QUAL É O NOSSO


Bartoon de Luís Afonso, hoje no «Público»

Publicado por José Mário Silva às 12:32 PM | Comentários (1)

STILL PACKING

Qual Tântalo, qual Sísifo. Isto é que é um suplício: haver sempre mais um saco de coisas esquecidas na sala ao lado, um caixote de cartão para encher.

Publicado por José Mário Silva às 12:29 PM | Comentários (2)

abril 27, 2004

UMA ESPANTOSA METAMORFOSE

Ainda não há muito tempo, este homem era um ogre, o diabo em pessoa, um patrocinador de terroristas, um alvo a abater. Lembram-se?
Agora, tudo mudou. Muammar Kadhafi é recebido em Bruxelas como um príncipe, saindo da limusina branca com um sorriso e garantindo que a Líbia «está determinada e empenhada em liderar o processo que permita atingir a paz no mundo» (dito assim mesmo, com o tom ingénuo de uma qualquer candidata venezuelana a Miss Universo).
Ai Saddam, Saddam, seu maroto, estás a ver o que é que os meninos bem comportados fazem, enquanto tu ficas de castigo?

Publicado por José Mário Silva às 11:53 PM | Comentários (26)

O "S" A MAIS

Publicado por José Mário Silva às 09:18 PM | Comentários (3)

CASTINGS

Como ainda não vi o filme, reservo para mais tarde uma eventual opinião crítica. Mas vou dizendo desde já que tenho uma certa dificuldade em imaginar Gwyneth Paltrow na pele da esquiva Sylvia Plath. É que começo logo a pensar na Virginia Woolf de Nicole Kidman e na Frida Kahlo de Salma Hayek.
E tremo.

Publicado por José Mário Silva às 09:16 PM | Comentários (2)

CONTRAFACÇÃO

Anda por aí uma imitação barata de um blogue de alta costura. Estão a ver aquelas pseudo-sapatilhas estilosas, tipo Nike, mas que na realidade se chamam Mike (nome de uma qualquer fábrica manhosa do Vale do Ave); ou então aqueles polos da Lacoste com o crocodilo mal cosido, que se vendem a três patacos na Feira de Carcavelos? É a mesma coisa.

PS - Eu sei que sou suspeito nesta matéria, mas parece-me óbvio que Vírgula há só uma. A verdadeira e mais nenhuma.

Publicado por José Mário Silva às 09:12 PM | Comentários (8)

OUTROS CÉUS DE ABRIL

Do outro lado do mundo, no Iraque, o que ilumina a noite é a estupidez dos homens, a fúria das armas "civilizadas" a cair sobre os infiéis. Os combates em Fallujah acabam de recomeçar, mais ferozes que nunca.

Publicado por Luis Rainha às 08:37 PM | Comentários (2)

ILUSÕES DE ABRIL

O dia 25 de Abril começara havia pouco mais de uma hora. Guiava eu pelo Alentejo acima, com o rádio do carro a fazer os possíveis por me manter acordado, berrando banalidades sobre futebol, títulos, treinadores e sei lá mais o quê. À saída de uma curva, suave como todas as curvas alentejanas, lá estava ela, esplêndida mesmo que truncada pelo horizonte: a Lua.
Melhor: um fantasma da Lua, uma promessa de luz, quase alheia às evidências astronómicas dos lunários. A Primeira Falcada, o prenúncio do Quarto Crescente. Mas era enorme, o satélite que eu via rente à planura; uma Lua amarela, excessiva, desmesurada. Que melhor augúrio para começar o dia de todas as celebrações do que este vagaroso fogo-de-artifício celestial?
Ainda pensei em sair do carro para fotografar a Lua de assombro. Depois, lembrei-me de que estava a olhar embasbacado para algo que só existia dentro do meu crânio. Uma ilusão. A famosa "Ilusão da Lua". Se a fotografasse, apenas captaria um traço de luz banal e ínfimo. Tudo o mais estava a ser construído pelas maquinarias desorientadas da minha percepção.
Recordei então outros pormenores: muitos olhos há que sempre foram completamente imunes a esta ilusão. Olhos de gente feliz que mira o horizonte nocturno e vê apenas o que lá está, numa contabilidade de formas e volumes sempre precisa e rigorosa. Nada de astros inflacionados por uma imaginada proximidade à Terra.
Essa gente deve ser a mesma que não se entusiasma com datas nem efemérides. Para eles, o dia 25 de Abril também será apenas um dia no calendário; nem maior nem menor que qualquer outro. E que será uma utopia para pessoas tão práticas? Por certo apenas uma outra classe de quimera, uma outra aberração mental destinada a afectar cérebros mais débeis...

Cheguei a Lisboa a matutar nisto. Gostaria de ser assim. Invulnerável a ilusões dos olhos e da alma. Parcimonioso nos afectos. Espartano nas paixões.
Felizmente, o 25 de Abril correu-me bem. Senão, ainda era capaz de me convencer mesmo...

Publicado por Luis Rainha às 08:01 PM | Comentários (3)

ASSIM SE VÊ A FORÇA DA TV

Anda um homem a escrever anos a fio nos jornais e passa completamente despercebido (ou quase). Mas basta aparecer uma noite na televisão, em debate amalucado sobre o 25 de Abril, para que toda a gente lhe fale do assunto e até desconhecidos o abordem na rua, para a palmadinha cúmplice nas costas.

Publicado por José Mário Silva às 11:53 AM | Comentários (17)

O VOLÁTIL COMBUSTÍVEL ELEITORAL DE BUSH


Cartoon de Pancho, «Le Monde»

Publicado por José Mário Silva às 11:43 AM | Comentários (0)

Mau tempo nos túneis

Não bastava a famigerada história do túnel do metro do Terreiro de Paço.
O embargo da obra do túnel do Marquês quando esta se encontra a meio é mais uma situação gravíssima e a demonstração de que não há experiência que ensine um mínimo de bom senso ao mais sagaz dos animais políticos.
Também a decisão do tribunal, por muito "cidadã" que pareça, partilha por tardia, do espectáculo de irresponsabilidade.
Corre-se o risco de se entrar em mais uma batalha jurídica interminável sem benefícios rigorosamente para ninguém, uma vez que não estando ainda inventadas as viagens no tempo, é impossível anular não só o impacto que as obras já tiveram mas também o que continuarão a ter mesmo estando embargadas até porque o Estudo de Impacte Ambiental ordenado pelo tribunal vai ser uma palhaçada.
Um gabinete nomeado pela Câmara vai agora produzir um "estudo" qualquer para fins de legitimação jurídica que vai obviamente concluir não haverem impactos especiais (as declarações do Secretário do Estado do Ambiente são a este respeito eloquentes).
Que alternativas existem?
Mandar aterrar o túnel imediatamente repondo a anterior situação?
Até que ponto será isto possível?
Que custos envolverá?
Contratar uma empresa idónea com experiência internacional sem regatear euros mas de forma transparente para que se saiba quem ganhou quanto e a fazer o quê e ordenar uma correcção aos aspectos técnicos mais polémicos do projecto de forma a que as obras retomem (e acabem) rapidamente?
Quem paga os custos da correcção do projecto?
Pelo animal político, pelos coordenadores da equipa projectista, pelos responsáveis pela aprovação e pelo empreiteiro de acordo com uma fórmula a esclarecer em tribunal ?
E os custos inerentes à execução em obra das alterações, se os houver?
Deverão ser assumidos pelo Estado?
ALGUÉM, o Governo, os espanhóis, a CEE, os americanos, nem que sejam os marcianos ou quem quer que queiram tem de pôr alguma ordem nisto urgentemente.

Publicado por tchernignobyl às 11:28 AM | Comentários (10)

Olha o nível

Eu até que não acharia nada mal que as pessoas se "assumissem" desde que não nos viessem noutras ocasiões dar lições de civilidade e elevação no que toca a atitudes "de Estado" e comportamentos institucionais.

Publicado por tchernignobyl às 09:44 AM | Comentários (1)

abril 26, 2004

O QUADRO MAIS CERTEIRO

Durante a última semana, foram muitos os bloggers a sugerir quadros para a casa nova, prolongando o estapafúrdio arremedo de galeria pessoal que me lembrei de esboçar por aqui. A todos agradeço a simpatia, as palavras amáveis e as belas sugestões. Mas a palma, desculpem lá, vai mesmo para a nossa amiga Jussara, clarividente caçadora de nuvens, que soube encontrar a ilustração perfeita (made by Escher) para o esforço diário que os cinco andares em Campo de Ourique vão representar. Acertaste na mouche, Ju. Na mouche.

Publicado por José Mário Silva às 09:07 PM | Comentários (10)

PARA QUE CONSTE

O melhor (e mais esclarecedor) dos artigos sobre a natureza revolucionária do 25 de Abril foi publicado por Vital Moreira, há quase uma semana, no «Público». Se não o leram na altura, leiam-no agora. E aproveitem esta espécie de silêncio benfazejo. O silêncio que se instala, sempre, quando cessam as maratonas mediáticas em torno das grandes efemérides.

Publicado por José Mário Silva às 08:57 PM | Comentários (2)

ACUMULAM-SE OS INDÍCIOS

Um dia, também ele virá para aqui. Isto é: para Campo de Ourique e para a esquerda.

Publicado por José Mário Silva às 08:54 PM | Comentários (1)

OS BONECOS TAMBÉM VÃO À GUERRA

Uma das "tiras" diárias mais populares nos EUA - "Doonesbury", de Garry Trudeau - está a levar as consequências da guerra do Iraque a locais onde as fotos dos caixões não chegam: às páginas de 1.400 jornais americanos.
Uma das suas personagens principais, o treinador de futebol BD, já dera por si no Iraque, depois de ter sido inopinadamente chamado de volta ao exército. Agora, ele acaba de perder uma perna em combate, no que é um episódio já polémico e algo inesperado numa "tira" humorística.
Ao saberem dos planos do autor, cerca de 10 jornais ligaram à Universal Press, dando voz às suas preocupações. Mas não era com a saúde da personagem que se afligiam; queriam era saber que tipo de linguagem iria o "BD" usar quando descobrisse a sua nova configuração anatómica...
Se este difícil relacionamento com as duras realidades da guerra vos faz lembrar episódios já antigos, saibam que não estão sós. Este outro desenhador, o grande Pat Oliphant, concorda convosco.

Publicado por Luis Rainha às 07:18 PM | Comentários (0)

OS CAIXÕES? MAS QUE CAIXÕES?


Cartoon de Mike Lane, «The Baltimore Sun»

Publicado por José Mário Silva às 04:09 PM | Comentários (1)

...A RESSACA

É mesmo verdade: depois de ver tanta gente a descer a avenida de cravo na lapela e esperança nos sorrisos, é difícil regressar ao mundo real. É difícil acordar e ver que está tudo na mesma ou pior que nunca: o P. Portas (sim, o da pastilha elástica) ainda é ministro; o Porto é campeão; Bush Jr. voltou a bombardear Fallujah; ninguém ainda deu um público par de estaladas ao Coito que ostensivamente atirou um cravo para o chão durante a sessão solene no "parlamento" regional do Jardim.
Enfim: melhores anos virão.

PS: pelo menos, alguém teve o bom-senso de mandar parar o buraco do Santana Lopes...

Publicado por Luis Rainha às 02:25 PM | Comentários (10)

GANDA ICARDO

Está muito giro, o texto do IAP (Icardo de Araújo Pereira) no Barnabé.

Publicado por José Mário Silva às 01:43 PM | Comentários (0)

E DEPOIS DA FESTA...

... a ressaca.
Mas não se assustem.
Voltamos já.

Publicado por José Mário Silva às 01:38 PM | Comentários (2)

abril 25, 2004

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (14)

Publicado por Luis Rainha às 11:13 PM | Comentários (3)

MÚSICA DE ABRIL

Para quem está a uns dois mil quilómetros da manif de Lisboa, é forçoso encontrar outras formas de celebrar a Revolução. Aqui em Paris até não é difícil. As comemorações do 25 de Abril na Cité Internationale Universitaire de Paris, a que o Filipe Moura já se referiu, começaram hoje de manhã com a inauguração da exposição «A ditadura, a revolução e a festa» na Residência André de Gouveia. Mais logo, às nove da noite, o quarteto Artur Serra tocará música do Zeca Afonso, do Sérgio Godinho e do José Mário Branco, no auditório da mesma residência. A pedido do grupo que está a organizar as comemorações, escrevi uns quantos apontamentos rápidos sobre o papel desempenhado pela música na resistência ao fascismo. Digo-vos já que não é fácil alinhavar qualquer coisa sobre o assunto em três ou quatro parágrafos, para mais em estilo .notas de programa.. A citação do José Mário Branco do post anterior serviu-me de epígrafe, e o fragmento ficou assim, ainda incerto e hesitante, à espera de outros desenvolvimentos:

A repressão política imposta durante mais de cinquenta anos pelo fascismo português, o Estado Novo de Salazar, trouxe consigo a regulação e o controlo da actividade artística, num apertado regime de censura que ia impondo pela força a exaltação nacionalista em todas as circunstâncias e consciências. Foi por isso decisiva, na contestação à ditadura, a acção dos artistas resistentes, como o compositor Fernando Lopes-Graça. As suas «canções heróicas», cantadas por amadores nas colectividades, nas reuniões clandestinas, nas prisões, foram um instrumento de consciência, de solidariedade e de luta contra a opressão. Lopes Graça, impedido de ensinar e várias vezes preso pela PIDE (a polícia política do regime), reafirmou ainda a capacidade crítica da música ao recuperar, com a ajuda de Michel Giacometti, tradições musicais da vida rural, que romperam com a imagem .típica. e .folclórica. que o Estado Novo reservava às manifestações de arte popular.
A contestação estudantil, que conduziu à Crise Académica de 1962, foi um outro momento em que a canção se fez protesto e trincheira. José Afonso, e mais tarde Adriano Correia de Oliveira, pegaram em formas do Fado académico de Coimbra, em particular na .balada., para lhe conceder uma maior dimensão poética e social. Enquanto o regime ia continuando a apadrinhar, na Emissora Nacional e na televisão, um repertório de música ligeira, conformista e moralizadora (o então ironicamente chamado nacional-cançonetismo), o rock e o jazz iam penetrando no espaço público, em programas de grande audiência, como o Zip Zip (1969) ou mesmo nos Festivais da canção, onde letristas como José Carlos Ary dos Santos iam abalando o .consenso. oficial. Nos últimos anos do regime desenvolveu-se, com Francisco Fanhais, José Jorge Letria, Fausto, Manuel Freire e Luís Cília, entre outros, a imagem mais radical do .cantor de intervenção., em torno do movimento .canto livre.. Seguindo modelos fortes da época, como os chilenos Violeta Parra e Victor Jara, afirmaram-se como um novo tipo de .trovador., andarilho inseparável da sua viola, pondo em música poemas de claro conteúdo político (como os de Manuel Alegre ou de António Gedeão).
Também no exílio se ia construindo a resistência. Por Paris andavam Sérgio Godinho e José Mário Branco, refugiado em França desde 1963, e autor de .A Ronda do Soldadinho" (1969), um protesto contra a Guerra Colonial, e da célebre canção .A cantiga é uma arma., um manifesto das potencialidades da música de intervenção. E foi em Paris que José Afonso gravou as .Cantigas do Maio., disco marcante onde apareceu pela primeira a canção .Grândola, vila morena., logo proibida pelo regime e que se tornou depois no hino da Revolução dos Cravos, quando foi o sinal escolhido para o inicio das operações militares da madrugada de 25 de Abril de 1974, que levaram ao derrube da ditadura.
Ouvir hoje a música de oposição ao fascismo, em toda a sua diversidade, clarifica as imbricações que ligam a arte e a política, e que passam por esta necessária procura de formas novas de expressão, pela invenção de diferentes maneiras de trabalhar e criar colectivamente. Sobretudo, a actualidade do seu testemunho diz-nos que uma canção pode ser um lugar de utopia e de acção (como agora mesmo se tenta no Festival .Printemps de Bourges.), uma concreta esperança de mudar a vida, através da transformação da arte.

Publicado por Manuel Deniz às 02:56 PM | Comentários (3)

A CANTIGA É UMA ARMA

« Pertenço a uma geração anterior ao pós-modernismo, em que nós aprendemos que ligada a qualquer estética há sempre uma ética. Quando me perguntaram, no princípio dos anos 80, 'você é um cantor de intervenção?', eu disse: 'Somos todos cantores de intervenção'. Marco Paulo é um cantor de intervenção. Intervém à sua maneira e eu intervenho à minha. Agora, não me venham dizer que aquilo é neutro. Não há neutralidade possível quando se está a falar para milhares de pessoas. Está ali um tipo a dizer umas palavras, a tomar umas atitudes e, portanto, a transmitir modelos que levam à reprodução do sistema social tal como ele está, ou a colocar em causa esse sistema social e a sugerir pistas, eventualmente erradas. Nunca se vai impunemente para cima de um palco.»

José Mário Branco ao jornal Público, 27 de Fevereiro de 2004

Publicado por Manuel Deniz às 02:36 PM | Comentários (0)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (13)

Publicado por Luis Rainha às 02:30 PM | Comentários (0)

TODOS À MANIF!

É daqui a menos de uma hora. Por isso já sabem: tragam outro amigo também, venham mais cinco, etc.
A manif é importante todos os anos. Mas hoje, caramba, somos trintões. Vamos lá gritar «25 de Abril Sempre!», de cravo na lapela, Avenida da Liberdade abaixo.
O ponto de encontro é no Marquês de Pombal, às 15.
Até já.

Publicado por José Mário Silva às 02:15 PM | Comentários (6)

LIBERDADE

Publicado por José Mário Silva às 02:14 PM | Comentários (0)

RUA

A ler blogues no 25 de Abril? O lugar para se estar, hoje, não é em frente de um computador. É na rua. Já.

Publicado por José Mário Silva às 02:13 PM | Comentários (2)

ENTRE DUAS CASAS

Entre duas casas e sem Netcabo, aproveito cinco minutos de ADSL alheia. Só cinco minutos, não mais. Havia muitos posts previstos para este dia que ficaram em stand by (talvez ainda os escreva, não sei). É o que dá fazer revoluções pessoais, trinta anos depois e a cinco minutos do Largo do Carmo.
O principal, no entanto, já foi dito nas últimas semanas. E está aí: a liberdade.

Publicado por José Mário Silva às 02:10 PM | Comentários (0)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (16)

Chegámos assim ao Século XXI. Vivendo num Portugal onde por fim se cumpriram as grandes promessas de Abril: todos somos livres, os trabalhadores estão felizes em casa a ver o Big Brother e os nossos mancebos já não vão para a guerra. (A não ser em caso de imperativos humanitários no Iraque, em que urge encontrar as pobres armas de destruição massiça perdidas...) Esta é a Pátria que nos enche o peito de incontido orgulho. Um País em que a sociedade vive tranquila sabendo que não há grandes diferenças entre os dois partidos capazes de subir ao poder. Um País onde as pontes caem mas ninguém tem grande culpa, além do S. Pedro. Um País cujas elites aparentemente tiveram como passatempo oficial animados folguedos com crianças à guarda do Estado. Um País onde dá gosto viver, sobretudo se se for estrangeiro!
Não te dissemos, pequeno leitor, que esta história ainda ia ter um final feliz?

Publicado por Luis Rainha às 12:17 PM | Comentários (4)

SEI QUE ESTÁS EM FESTA, PÁ

Muita gente conhece a música "Tanto Mar", do quase sexagenário Chico Buarque, mas a maioria das pessoas não conhece a versão original, censurada. (Quando a música foi autorizada pela censura brasileira, foi incluída num álbum em 1978, mas a situação política em Portugal já não era a mesma e Chico alterou a letra.)
A versão original da música, de 1975, saudava a Revolução dos Cravos, recentemente ocorrida. Chico ia interpretá-la num concerto, no Rio, com Maria Bethânia, mas as autoridades não deixaram. Transcrevendo da página de Chico:

"Num show com Maria Bethânia, no Rio, onde houve um problema com tanto mar, outra surpresa: o censor encarregado de encrencar com a música era Augusto da Costa - ninguém menos que o zagueiro Augusto da seleção de 1950, em cuja jurisdição, ou quase, o ataque uruguaio enfiou aquelas duas bolas no fatídico 16 de julho. "Porra, Augusto, você perde a copa e ainda vem me aporrinhar.." disse Chico. O zagueiro chutou a responsabilidade pra cima dos cartola. Tanto mar passou, mas sem letra."

Por isso ainda hoje, quem comprar o CD deste (magnífico) concerto, leva uma versão instrumental. A versão original, cantada, é uma raridade. Foi editada somente em Portugal, em vinil, com o concerto, substituindo a versão instrumental. A partir de um desses vinis, o meu amigo Nuno criou um ficheiro wma com a música, que tenho agora o prazer de partilhar convosco. (Para ouvirem o Grândola, Vila Morena visitem o blogue do Nuno.)

Publicado por Filipe Moura às 04:07 AM | Comentários (3)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (15)

Apesar de já ter feito parte de governos que alegremente criaram belos défices, o Cherne proclamou a calamidade nacional mal se agarrou ao poder. "Estamos de tanga, falidos, sem cheta!" gritaram os arautos da desgraça, enquanto se iam promovendo a assessores, gestores hospitalares, etc.
Associado a uma quadrilha disfarçada de pequeno partido, o Cherne revelou-se um excelente amigo do Sr. Bush, servindo uns belos cafézinhos na cimeira dos Açores. Well done, boy!

Publicado por Luis Rainha às 04:02 AM | Comentários (0)

A REVOLUÇÃO FAZ-SE POR DENTRO

Convém nunca nos esquecermos de que o 25 de Abril foi uma revolta de militares, fartos de uma guerra estúpida. (Ao escrever isto não posso deixar de me lembrar do meu amigo Olindo, de quem já aqui falei. Ao contar-lhe a história portuguesa entre 1974 e 75 ele perguntou-me, incrédulo: "Os militares portugueses são de esquerda?")

"Queria estar a treze mil quilómetros dali, a vigiar o sono da minha filha, nos panos do seu berço, queria não ter nascido para assistir àquilo, à idiota e colossal inutilidade daquilo, queria achar-me em Paris a fazer revoluções no café, ou a doutorar-me em Londres e a falar do meu país com a ironia horrivelmente provinciana do Eça, falar na choldra do meu país para amigos ingleses, franceses, suíços, portugueses, que não tinham experimentado no sangue o vivo e pungente medo de morrer, que nunca viram cadáveres destroçados por minas ou por balas. O capitão de óculos moles repetia na minha cabeça A revolução faz-se por dentro, e eu olhava o soldado sem cara a reprimir os vómitos que me cresciam na barriga, e apetecia-me estudar Economia, ou Sociologia, ou a puta que o pariu em Vincennes, aguardar tranquilamente, desdenhando a minha terra, que os assassinados a libertassem, que os chacinados de Angola expulsassem a escória cobarde que escravizava a minha terra, e regressar, então, competente, grave, sábio, social-democrata, sardónico, transportando na mala dos livros a esperteza fácil da última verdade de papel.
(...) Queria rebentar-lhe uma granada na peida, doutor Salazar
."

António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

Publicado por Filipe Moura às 04:00 AM | Comentários (3)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (12)

Publicado por Luis Rainha às 03:52 AM | Comentários (0)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (14)

E eis que surgiu o novo Messias! Um Iluminado da nossa Época, que sabe que é melhor e mais económico falar do que fazer. Este homem soube prolongar a antiga tradição das cunhas, do amiguismo e do aumento constante da grande Família que é a Função Pública. Tudo em nome de um país mais dialogante, mais simpático... mais cor-de-rosa, em suma!

Publicado por Luis Rainha às 12:14 AM | Comentários (0)

abril 24, 2004

24 DE ABRIL

Há exactamente trinta anos, o Sporting de Yazalde foi eliminado das meias finais da Taça das Taças. Definitivamente, o Sporting não se dá bem com o 24 de Abril. 25 de Abril sempre!

Publicado por Filipe Moura às 11:59 PM | Comentários (3)

À SOLTA

Amanhã pretendo andar por aí pela cidade a curtir manifs, a apreciar a liberdade conquistada em 25 de Abril.
Digam que é pavloviano mas é sempre uma sensação de alívio...quando se vê passar uma carrinha da policia e não embica na nossa direcção.

Publicado por tchernignobyl às 07:08 PM | Comentários (2)

(DES)ENGANADO

Pensando ainda no meu post "Capacidade de Abstracção" abaixo, e nalguns comentários cruzados com o thirbacus, saltou-me à vista este detalhe do inquérito ao militares de abril publicado hoje no Publico:
É que de entre todos aqueles homens, há um, claramente assumido como de direita, que se manifesta arrependido por ter participado na revolução.
Há outros três arrependidos, mas à esquerda, provavelmente por frustração quanto aos sonhos que pretendiam ver realizados, mas este homem era de direita, continua "claramente " de direita segundo vem eufemisticamente descrito no artigo ( tem uma visão favorável do regime anterior e desfavorável deste...) e... participou activamente na revolução. Equívoco abençoado.

Publicado por tchernignobyl às 06:56 PM | Comentários (0)

PARECEU MESMO UMA REVOLUÇÃO


Bartoon de Luís Afonso, hoje no «Público»

Publicado por José Mário Silva às 05:43 PM | Comentários (1)

NO MORE PAINTINGS

A casa está lá, ainda quase vazia, preparando-se para os nossos corpos, as nossas palavras, a nossa respiração. Os livros dentro dos caixotes, aguardando a ordem provisória das estantes. Como em todos os recomeços, há muito júbilo e uma ponta de melancolia. Quanto à galeria virtual, propositadamente confusa, desfez-se no ar.

Publicado por José Mário Silva às 05:33 PM | Comentários (0)

É A MINHA OU A TUA?

Diz o Baltasar num comentário ao post n.º 10 da série "o 25 de Abril explicado às crianças" do luis, um pouco mais abaixo:
"Lá está a esquerda a ser má lingua."
Será má? será boa?
Talvez o livro "Qual é a minha ou a tua língua?" - cem poemas de amor de outras linguas organizado por Jorge Sousa Braga e editado pela Assirio&Alvim que eu ofereci ontem lance alguma luz sobre esta matéria.

Publicado por tchernignobyl às 04:59 PM | Comentários (0)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (13)

Claro está que se impunha indemnizar os espoliados de Abril. Em poucos meses, todos os nossos ilustres capitalistas puderam voltar a tomar posse dos seus bancos e das suas indústrias. A engenhosidade do processo de privatizações foi espantosa: casos houve de bancos pagos com o dinheiro das próprias instituições compradas!

Publicado por Luis Rainha às 02:06 PM | Comentários (1)

ATÉ JÁ!

Encontramo-nos na festa?

Publicado por Luis Rainha às 12:13 PM | Comentários (0)

FMI, COMO NÃO PODIA DEIXAR DE SER...

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!
(José Mário Branco)

Marta Lança

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.
José Mário Branco

Publicado por José Luís Peixoto às 02:17 AM | Comentários (10)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (12)

Já dizia Heráclito que a vida dos Homens é cíclica; tantos anos após o advento do Professor Oliveira Salazar, surge mais um emérito professor e ministro das Finanças, apostado em acabar com a confusão e impor a ordem.
Que a peculiar noção de ordem deste grande homem passasse pelo autoritarismo, e por uma relação algo autista com o resto da Humanidade, foram preços pequenos a pagar por tanto progresso e tanta auto-estrada.

Publicado por Luis Rainha às 02:00 AM | Comentários (1)

HOJE SOMOS ALGUNS . AMANHÃ SEREMOS MILHÕES

.É por isso que esta investigação, se estiver bem preparada, é uma revolução. Com «R». Porque as revoluções, diferentemente das evoluções, se fazem contra o «sistema»..

É impressão minha ou estas palavras de Miguel Portas são uma declaração implícita de apoio à candidatura de Dias da Cunha à presidência da República?
Pois é, gozam com o presidente Dias da Cunha, mas ainda lhe hão-de dar muita razão, pelo que se viu esta semana... DIAS DA CUNHA À PRESIDÊNCIA, JÁ!

Publicado por Filipe Moura às 01:55 AM | Comentários (1)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (11)

Com a adesão à CEE, pudemos por fim cumprir o nosso destino colectivo: servir de estância turística para nórdicos abastados e fornecer mão-de-obra mal paga! Há que aproveitar vantagens competitivas como o trabalho infantil e a subalternização das mulheres...
E com a entrega da nossa soberania aos sábios Eurocratas de Bruxelas, os políticos nacionais já têm bem menos com que se preocupar!

Publicado por Luis Rainha às 01:00 AM | Comentários (1)

abril 23, 2004

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (11)

Publicado por Luis Rainha às 10:53 PM | Comentários (2)

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Quando vi os homens a carregarem às costas, degrau a degrau, como Sísifos hesitantes, o peso tremendo da minha biblioteca, não tive coragem de lhes dizer o que se comemora hoje. Podiam pensar que era uma piada de mau gosto.

Publicado por José Mário Silva às 09:07 PM | Comentários (6)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (10)

Com a extinção do Conselho da Revolução, os militares voltaram às suas casernas. Claro está que os responsáveis pela sublevação de Abril foram prudentemente colocados em prateleiras diversas, sem grandes possibilidades de promoção. Afinal, quem trai uma vez os superiores e a ordem hierárquica, é bem capaz de o fazer de novo...
Desta forma, militares com provas dadas, como o intrépido General Soares Carneiro, puderam retomar as suas carreiras, rumo aos píncaros da glória!

Publicado por Luis Rainha às 09:05 PM | Comentários (3)

F225

Esta história é verdadeiramente incrível. Céu Duarte, uma cidadã portuguesa que pretendia entrar nos EUA, esteve retida 13 horas no aeroporto de Nova Iorque (uma parte das quais algemada) e foi depois devolvida à procedência, Lisboa, mesmo não existindo qualquer acusação formal.
Porquê? Porque em tempos o seu nome constou do processo judicial das FP-25, do qual saiu absolvida. «Fizeram-me várias perguntas e uma muito específica que me fez perceber onde queriam chegar: perguntaram se eu conhecia uma coisa que era as F225». Já o sabíamos: a sombra do terrorismo leva a paranóia ao mais ridículo dos extremos.
Não podendo fazer mais nada, só podemos sublinhar a nossa solidariedade para com Céu Duarte e a sua legítima indignação. Se o seu cadastro «tem que estar limpo», porque foi absolvida no julgamento, como é que as autoridades americanas obtiveram informações sobre o processo?
Há aqui qualquer coisa de muito assustador.

Publicado por José Mário Silva às 09:03 PM | Comentários (12)

SINOPSE DO DIA

Escada acima. Escada abaixo.
Escada acima. Escada abaixo.
Cinco andares sem elevador.
E uma consolação: já falta pouco.

Publicado por José Mário Silva às 08:58 PM | Comentários (2)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (9)

Ad Parnassum, Paul Klee (1932)

Publicado por José Mário Silva às 08:55 PM | Comentários (1)

CADÁVERES INCÓMODOS (2)

Este post surge como resposta ao leitor RMD, que me chamou a atenção para o facto de eu ter ignorado a antiguidade da norma relativa à cobertura mediática da chegada aos EUA dos cadáveres de militares. Teria eu igualmente feito por ignorar o "argumento utilizado": o respeito pelas famílias. (Famílias essas que, ao que parece, também não estão muito felizes com esta norma...)

Ora, julgo eu que não há argumentos reais que possam justificar a ocultação dos mortos. Há uma simples razão para esta vergonha, quer seja culpa de Clinton ou de Bush Jr.: evitar o desgaste político que o espectáculo quotidiano da chegada dos caixões por certo causaria.
A repórter do Post, Dana Milbank, escreveu, ainda em 2003: "To this problem, the Bush administration has found a simple solution: It has ended the public dissemination of such images by banning news coverage and photography of dead soldiers. homecomings on all military bases."
Quanto à antiguidade da norma, a verdade é que ela foi inventada durante a primeira guerra do Golfo, mas nunca foi levada muito a sério, até há pouco, como se lê neste artigo do Toronto Star. Foi possível ver imagens da chegada das baixas do Afeganistão. Clinton assistiu aos funerais das vítimas do conflito na Somália.
Bush Jr. é, simplesmente, o primeiro presidente americano a evitar as cerimónias fúnebres dos homens e mulheres que enviou para a batalha.
Como eu escrevi há pouco, o que me parece desrespeito é esconder estes cadáveres como se fossem lixo embaraçoso que urge varrer para debaixo do tapete mais próximo.

Publicado por Luis Rainha às 05:47 PM | Comentários (9)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (9)

Uma vez evitada a anarquia, era tempo de restabelecer a ordem: com eleições, campanhas, caciques autárquicos, etc. A qualidade deste sistema ainda hoje é bem patente através da manutenção continuada no poder de figuras carismáticas e prestigiadas como Valentim Loureiro e Alberto João. E nem as minorias têm razão de queixa: vejam se o Dr. Paulo Portas, apesar de liderar um partido pequenito, não chegou a ministro dos submarinos...

Publicado por Luis Rainha às 05:00 PM | Comentários (0)

CADÁVERES INCÓMODOS

O começo da história é já de todos conhecido: uma vez que a moral do povo americano parece ser algo débil, a sua Administração decidiu protegê-la do impacto nocivo que a visão de caixões cobertos pela star spangled banner poderia causar. (O efeito já provocara estragos durante a guerra do Vietname...)
Vai daí, ficou proibida a divulgação de fotografias da chegada dos esquifes à land of the free. O boicote durou até que o Seattle Times publicou a imagem que encima este texto. Essa fotografia, feita à socapa por uma civil no aeroporto do Kuwait, valeu inúmeras críticas ao jornal e o despedimento à sua autora.
Agora, a CNN conta-nos como o activista da Primeira Emenda Russ Kick conseguiu que o Exército lhe cedesse centenas de imagens similares, que podem ser vistas aqui. Pouco depois, o todo-poderoso Pentágono veio interditar o prosseguimento desta capitulação desprestigiante.
O único comentário que uma tão triste história me sugere já foi há muito escrito, por mãos bem mais capazes que as minhas:

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

Na improvável eventualidade de que alguém não o conheça bem, aqui fica o belíssimo e arrepiante poema de Pessoa:

O Menino da sua Mãe

Fernando Pessoa


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
. Duas, de lado a lado .,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira,
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


1926

Publicado por Luis Rainha às 01:37 PM | Comentários (11)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (10)

Publicado por Luis Rainha às 12:07 PM | Comentários (6)

23 TAMBÉM É DIA A CELEBRAR! EU ENTRO COM AS PRENDAS...

Hoje, dia 23 de Abril, celebra-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor.
Esta localização no calendário foi proposta à Unesco pelo governo espanhol, em 1995, por ser a data da morte de Miguel de Cervantes y Saavedra, de William Shakespeare e do cronista Garcilaso de la Vega (el Inca). Por estranho que pareça, faleceram os três no mesmo dia de 1616. A entrada dos Direitos de Autor na festa ficou a dever-se a proposta russa.

Podia limitar-me a deixar-vos com esta informação e com um link para as comemorações organizadas pela CML (não; não incluem mostrar o Santana Lopes a ler um livro pela primeira vez desde que saiu da faculdade...).
Mas, dada a minha condição de sócio de um colosso editorial, vou armar-me em mecenas da leitura. Vou oferecer um tomo da minha editora aos primeiros 5 leitores que aqui deixarem o nome do livro que estão a ler.

PS: não valem provocações que incluam o "Mein Kampf " e quejandos...

Publicado por Luis Rainha às 11:18 AM | Comentários (28)

TODOS A GONDOMAR!

Não. Não vamos lá gritar "Valentim, amigo, a blogosfera está contigo" ou coisa que o valha.
Mas olhem que é ideia bem recomendável visitar a simpática "capital da ourivesaria". O advogado do vice-presidente da respectiva câmara explicou-nos que, se é verdade que "se oferecem uma peças em ouro", isso "não significa compra de favores" aos árbitros. Mais: no Norte, as pessoas "são mais unidas, mais amigas e recebem bem" os visitantes. Que gente tão hospitaleira e amiga de ajudar o próximo!
Isto está tudo no Público de hoje. Eu, estou já de malas aviadas.

Publicado por Luis Rainha às 10:51 AM | Comentários (7)

4 GREGUERÍAS POR DIA

As japonesas levam escondidas nos seus altos penteados as suas cartas de amor.

No vinagre fica todo o mau feitio do vinho.

O mar gosta da impunidade, por isso apaga todas as marcas na praia.

Uma mulher disfarçada é tão apetitosa como um croquete, mas tão suspeita como ele.

Ramón Gomés da la Serna, Greguerías, Assírio & Alvim.

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:33 AM | Comentários (3)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (9)

Publicado por Luis Rainha às 03:10 AM | Comentários (0)

ABRIL EM PARIS

Révolution des oeillets. Com .R., claro... Assim é conhecido em França o 25 de Abril de 1974.

Cartazes como este, da autoria de Rita Tavares, encontram-se espalhados desde meados deste mês pela Cité Internationale Universitaire de Paris. A ilustração foi este mês capa do Citéscope, a agenda cultural mensal da Cité.
O programa das comemorações, de 25 a 30 de Abril, inclui documentários, palestras de Fernando Rosas e debates com Otelo, pá.
Destaco particularmente a iniciativa .Où étais-tu le 25 avril?. para "descobrir a história e a cultura recentes de Portugal de uma forma lúdica".
Aqui daremos conta, dentro das nossas possibilidades, do que se for passando pela Cité.

Publicado por Filipe Moura às 01:16 AM | Comentários (1)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (8)

Por fim, as forças da esquerda totalitária quiseram lançar Portugal no caos da guerra civil. Mas figuras heróicas como Sá Carneiro, controlando as operações a partir dos seus prudentes esconderijos no estrangeiro, trataram de fazer o País regressar ao seio da Civilização Ocidental.

Publicado por Luis Rainha às 12:35 AM | Comentários (5)

abril 22, 2004

FEIRA DE EDIÇÃO INDEPENDENTE - “Grrrevolução”

23 e 24 de Abril (sexta e sábado) /// das 19h00 às 02h00 # Entrada livre Galeria Zé dos Bois Rua da Barroca, 59 [Bairro Alto] A entrada é livre.
Para comemorar o 25 de Abril a Famíla Alternativa e ZDB apresentam: ESPECIAL FEIRA DE EDIÇÃO INDEPENDENTE “Grrrevolução”
Nesta especial Feira de Edição Independente organizada em parceria com a Zé dos Bois e a Família Alternativa, no espaço da Galeria ZDB, participam mais de 30 grupos e associações que se dedicam exclusivamente à edição independente. Neste espaço estarão à venda, entre outros, revistas, fanzines, livros de poesia, serigrafias, pins, Cds, vinil e catálogos. Na Feira haverá ainda um espaço para consulta de revistas e fanzines, e estarão presentes alguns dos autores e criadores aos quais se juntarão alguns músicos para realizar um DJ set.
A Família Alternativa – Editores Independentes é um grupo informal de editoras que visa a promoção da edição independente em Portugal. Por edição independente entendemos a realização de publicações, trabalhos, objectos gráficos e artísticos que criem espaços de liberdade que não estejam constrangidos por interesses puramente comerciais, ou outros que não sejam a divulgação de trabalhos artísticos ou de carácter social.
A Família Alternativa reuniu-se pela primeira vez em Dezembro de 2002 para a realização do Natal Subterrâneo, uma feira de edições independentes realizada na Vyrus, uma catedral do consumo subterrânea em pleno Chiado. O projecto foi dinamizado pelo núcleo duro da Família, as revistas Flirt e V-ludo, a Associação Chili Com Carne e a editora MMMNNNRRRG ao qual se juntaram uma série de primos distantes. Um ano depois, a Família juntou-se de novo para participar na Feira do Mundo Mix, em Dezembro de 2003, também com o objectivo de divulgar a edição a um público, aparentemente, menos motivado para encontrar este tipo de objectos mas, no entanto, muito receptivo.
A Família Alternativa é um grupo disfuncional, caótico, desorganizado e multicéfalo que partilha objectivos: _criar uma rede de editores que trabalhe de forma colectiva e sistemática para a promoção da edição independente em Portugal; _criar nas livrarias um espaço digno e legitimo para a edição independente; _criar uma rede de locais alternativos para a distribuição deste tipo de publicações fora do mercado livreiro; _participação e organização de eventos que promovam, divulguem e estimulem a edição independente.
APAREÇAM!
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 11:44 PM | Comentários (5)

TELEGRAMA

Desculpem STOP Ando sem tempo para isto STOP Faço mudança casa nova amanhã STOP Muitos livros dentro de caixotes STOP Nenhum dos quadros com que sonhei STOP Escrevo mais quando puder STOP Mas fico descansado STOP O resto da malta está em forma STOP Até já STOP

Publicado por José Mário Silva às 08:11 PM | Comentários (2)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (8)

Composition with Gray and Light Brown, Piet Mondrian (1918)

Publicado por José Mário Silva às 08:04 PM | Comentários (0)

DO URBANISMO AO MINARETE

Gostosa e sumarenta a entrevista de Omar Bakri à revista Pública. O Valentim, comparado com ele, é um menino. O Ferreira Torres parece um puto queque dos Salesianos. Porém, no discurso digamos intenso deste senhor poderá estar a chave mestra do controlo de tráfego para o nosso edil favorito. Sim, esse mesmo, Santana Audi A8 Lopes que se vê e se deseja para pôr o povo de Lisboa e arredores a andar de transportes públicos, sobretudo em tempo de escavação de túnel mais ou menos inclinado, mais ou menos embargado. Diz o Omar (perdoe-se-me a familiaridade): «Pois bem, não ando mais de carro. Meu Deus, por Ti, sofro, vou de comboio.» Toque de Midas, desenlace de Polichinelo, a solução passa por converter ao Islão os utentes da área metropolitana de Lisboa, impedindo-os assim de fazer seguros e, em consequência, de utilizar o automóvel. O túnel já não perturba, o povo dá hossanas e compra o L123. Já estou a ver os outodoors «Espero que tenha reparado - ser muçulmano dá um charme erótico arrasador e além disso os torresmos de porco fazem bexigas no lifting. Lisboa a mudar». (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 07:54 PM | Comentários (2)

CAPACIDADE DE ABSTRACÇÃO

Grandiosa e um pouco em consonância com o cartoon postado abaixo pelo Luís foi a resposta de Maria Fortes, técnica de marketing e turismo de 38 aninhos à pergunta do Público "Vai assinalar os 30 anos do 25 de Abril de alguma maneira?" no número de ontem:
"Já ouvi falar da data mas no momento não estou lembrada do que representa".
Salvas as devidas circunstâncias e proporções, isto lembra-me de um texto de Ian McEwan na Granta sobre a retirada de Dunquerque, quando uma secção de soldados ingleses se depara com o espectáculo bizarro de um camponês lavrando a sua terra por entre os bombardeamentos alemães e o caos da retirada das forças inglesas através dos campos.
Ou uma história que me contaram passada em 1975, quando se travou uma batalha entre cerca de mil estudantes do técnico entrincheirados no pavilhão central e idêntico número de estudantes de outras faculdades de lisboa afectos à UEC que os cercavam. Do alto do Pavilhão Central choviam estiradores e ao que parece terão sido ligadas as bombas de incêndio para combater os invasores.
"Pelo ruído, parecia que se estava numa batalha medieval" disse-me uma testemunha que se encontrava próxima do local - participando num torneio de futebol no campo de jogos, a pouco mais de cem metros da refrega.
Acho fantásticos estes testemunhos de pessoas que parecem afectadas por uma espécie de autismo social que lhes permite levar a sua vidinha abstraindo-se das maiores convulsões, como se vivessem noutro planeta. Vendo isto pelo lado positivo poderemos concluir que há sempre recantos impenetráveis a todos os discursos, todas as imagens, todas as normalizações?

Publicado por tchernignobyl às 07:30 PM | Comentários (5)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (8)

Publicado por Luis Rainha às 05:59 PM | Comentários (8)

DESVIO

Chegámos de manhã cedo ao centro da pequena aldeia, o Largo Otelo Saraiva de Carvalho, era o que estava pintado à mão em letras pretas numa tabuleta de madeira pregada de forma provisória na esquina de uma das casas.
Pouco a pouco o pequeno largo foi-se enchendo de gente que discutia animadamente.
Por volta das dez horas chegou um homem com notícias da aldeia vizinha que distava cerca de três quilómetros daquela mas que o desvio provocado pela cerca da herdade que existia entre elas colocava a mais de dez quilómetros.
O homem teria cerca de cinquenta anos, cabelo preto, pele do rosto queimada pelo sol e sulcada pelas rugas, a expressão séria de alguém habituado a tomar decisões sensatas e ponderadas. Tinha cerca de um metro e sessenta o corpo sólido apoiado em pernas arqueadas e o andar decidido. Notei que ao andar metia os pés para dentro e o nome tinha uma impossível ressonância anglo-saxónica completamente estranha naquele lugar tão isolado.
Calçava umas botas, e vestia umas calças de sarja escuras, uma camisa aos quadrados em pano surrado e tinha um boné encardido na cabeça.
Cumprimentou-nos com cortesia mas sem excessivas afabilidades.
Informou que já estava tudo combinado com a outra aldeia. Os outros invadiriam a herdade do seu lado, nós do nosso e encontrar-nos-iamos a meio caminho.

Começámos finalmente em movimento em direcção à cerca da herdade que alcançámos ao fim de uns quinze minutos de marcha vigorosa.
Pelo caminho cantaram-se canções e lançaram-se alguns slogans, alguns levavam panos vermelhos içados em paus à laia de bandeiras.
Não se viam simbolos de partidos políticos e muito menos o observador treinado podia descortinar a presença de algum militante desgarrado querendo carimbar uma acção para o seu grupo através de palavras de ordem estandardizadas habituais nas manifestações na cidade.
Quando chegámos à cerca, esperámos até toda a gente se juntar, umas oitenta, cem pessoas.
No ar claro da manhã pairava a névoa do tabu da transgressão da propriedade privada da terra.
Não era todos os dias que se chegava assim em ar de desafio à cerca da Herdade.
Nunca isso tinha sido feito naquele sítio.
Não só porque era a propriedade do dono das redondezas, mas porque esse dono fora um alto dignitário da Pide.
A hesitação foi porém coisa de momentos. Alguns dos homens sacaram de umas tenazes e alicates e começaram a cortar os fios de arame.
Em poucos minutos uma boa extensão da rede tinha sido derrubada. As pessoas entraram por ali dentro de roldão, aos gritos e aos abraços.
Retomámos então o caminho ao encontro da outra aldeia.
Pelo caminho passámos por um belo edifício agrícola abandonado, tinha azulejos pintados na fachada. Explicaram-nos que tinha sido uma vacaria.
Não nos detivemos por ali.
Ao fim de alguns minutos de marcha chegámos ao alto de um cabeço de onde se avistavam os campos a toda a volta, e ao longe os telhados da outra aldeia.
Desse lado, por um caminho de terra batida através dos campos verdes vinha uma mancha de gente na nossa direcção, ouviam-se já os gritos de alegria.
As pessoas das duas aldeias, homens, miúdos, mulheres, todas, corriam umas para as outras e abraçavam-se, gritavam os nomes, riam alto.
No topo do cabeço. Na manhã de um dia claro de Primavera.

Publicado por tchernignobyl às 04:28 PM | Comentários (5)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (7)

O caos instalou-se. O povo julgava que tudo era permitido. Conceitos perigosos como Igualdade, Liberdade e sabe Deus que mais andavam à solta. Estivemos muito perto de cair no abismo da órbita soviética!
Os heróicos resistentes do MDLP e do ELP lá iam combatendo os comunistas, com o imprescindível apoio da Igreja, que não hesitou em colocar quadros seus a coordenar pequenas campanhas bombistas...

Publicado por Luis Rainha às 04:26 PM | Comentários (3)

EU, POR ACASO, NUNCA PENSEI QUE ESCREVESSES EM PORTUGUÊS...

A rutilante Margarida Rebelo Pinto espera estrear em breve no Brasil uma sua peça de teatro. Até aqui, tudo bem; a coisa vai dar-se longe. Mas há mais.
"Escrevi uma comédia de costumes em brasileiro, com ambientes e temas relacionados ao Brasil que fala de um casal que questiona o sentido da vida e do próprio casamento" confessou a putativa escritora.
Realmente, Portugal não merece talentos assim.

Publicado por Luis Rainha às 04:16 PM | Comentários (6)

O 25 DE ABRIL É UMA CHATICE - AS COMEMORAÇÕES, ENTENDA-SE

Desde que me lembro de ser gente (e se calhar antes disso) cumpro o ritual no dia 25 de Abril: ouço a Grândola à hora de almoço, lá para as 15h dirijo-me ao Marquês e junto-me aos amigos para descer a Avenida - de forma desorganizada, a saltitar de fileira em fileira, atentos à variedade do desfile, na expectativa de que aquele ano seja o melhor ano. Depois dos discursos, da Grândola novamente, e do (ugh!) Hino, lá vamos todos parar à Ginginha do Rossio a prepararmo-nos para uma noite de intenso e são convívio.
Acontece que... se a princípio o que me ligava a esse ritual era o imaginário poderoso e fundador do 25 de Abril, as conquistas de Abril, o sermos filhos dessa gente e cantarmos na creche, com pulmões comovidos, a “Gaivota” que voava, voava... Se a princípio as comemorações eram lindíssimas, lembro-me dos concertos de Fausto, Sérgio Godinho e José Mário Branco no Rossio nas noites de 24, a abarrotar de gente amiga e solidária... Se a princípio aquele espírito era uma promessa de que era possível...
Herança tão grande, queda ainda maior. Ou seja, houve uma altura em que tudo aquilo me provocava uma raiva profunda. Acho que foi durante os tempos do Cavaco. Irritava-me aquele desfile em que as pessoas marchavam precisamente como numa marcha fúnebre, a largar para o ar, com vozes rouquíssimas, frases batidas e gastas, de “fascismo nunca mais” e “25 de Abril sempre”, de ano para ano com um ar mais nostálgico e mais desiludido. De ano para ano menos pessoas e mais tristes pessoas. Acho que nos tempos do Cavaco chovia quase sempre nesse dia, então chegávamos à praça e dispersávamos rapidamente. Era um cenário triste. Eu tinha raiva daquilo, do ritual de se gritar as coisas obrigatórias, de se “sair para a rua de cravo na mão a horas certas”, e depois voltar para as vidinhas tão fruto do 25 de Novembro! Mas nunca deixei de lá ir. Na esperança de que as comemorações deixassem de ser nostálgicas e espelhassem o espírito do 25 de Abril, com outras palavras de ordem, contra os nossos actuais fascismos que são muitos e têm nomes. Chamar os bois pelos nomes.
Mas nunca deixei de lá ir. Nos 30 anos, nós, filhos do “verão quente”, temos muitas palavras a dizer. Mas eu, ironicamente, nesta data histórica não vou estar cá para descer a Avenida. Acho que não me quero desiludir novamente. Vou perseguir a “gaivota” da nossa infância para outros lados, para terras de Zapata.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:07 PM | Comentários (10)

4 GREGUERÍAS POR DIA

Nos foles que unem os vagões dos comboios ouve-se o tango da viagem.

O cérebro é um pacote de ideias enrugadas que levamos na cabeça.

A mulher que retoca o bâton antes de entrar num sítio parece que vai copiar do dicionário do espelho a palavra com que vai enganar.

O elevador bate a todas as portas por que passa, mas só uma lhe dá troco.

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, Assírio & Alvim

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 04:01 PM | Comentários (3)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (6)

No Alentejo, outrora o orgulhoso celeiro de Portugal, o cenário é o mesmo: hordas de populares hirsutos ocupam herdades e até se atrevem a substituir coutadas de caça por plantações de humildes cereais!

Publicado por Luis Rainha às 03:18 PM | Comentários (3)

UMA NEFASTA CONSEQUÊNCIA DO 25 DE ABRIL

Este senhor foi à TV explicar como seria hoje o seu programa se a ditadura não tem sido exterminada: um loooooooongo silêncio.
Confirma-se. Ninguém é perfeito; até a nossa Revolução é afinal culpada desta assinalável malfeitoria.

Publicado por Luis Rainha às 03:03 PM | Comentários (0)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (7)

Publicado por Luis Rainha às 03:00 PM | Comentários (0)

EXPROPRIAÇÃO

A crónica de Manuel Queiró ontem no Público, aproveita um bocadinho do refrão pimbalhoso de uma já antiga cassette da direita:
Os 30 anos do 25 de Abril vão ser aproveitados por uma certa esquerda para mais uma tentativa de apropriação da sua memória.(adoro sempre estes "certa").
Como disse o ZéMário ontem na RTP2, é muito natural que "certa" esquerda se aproprie de uma coisa que se fez à custa de e contra "certa" direita e da qual se automarginalizou a restante "certa" direita.
No 25 de Abril, a direita pura e simplesmente desapareceu, o que é que querem que se lhes faça?
Para os irredutíveis do anterior regime foi mesmo um cataclismo irreversível.
Há casos de pessoas activas que se fecharam em casa e nunca mais sairam à rua.
Para além disso, e independentemente das suas realizações e dos anos que se lhe seguiram, umas mais outras menos consensuais e nalguns casos de carácter contraditório, interessa referir que embora o 25 de Abril tenha para a sociedade portuguesa uma importância determinante de que não é pouca monta ter sido o momento fundador de um regime político que também é pertença natural e legitima da direita democrática, é inegável que o DIA 25 de ABRIL de 1974 foi um MOMENTO único de explosão espontânea, contagiante, generalizada e provavelmente irrepetível.
E que essa explosão REVOLUCIONÁRIA que atravessou de Norte a Sul esse país cinzento se fez com as bandeiras nacionais misturadas com as vermelhas, ao som das canções de zeca afonso, adriano e josé mário branco, fez-se com as pessoas na rua em manifestações espontâneas apesar dos apelos iniciais em sentido contrário dos militares revoltosos, fez-se à custa da alteração momentânea das relações de trabalho, de propriedade, de autoridade e até de proximidade quando as pessoas abraçavam desconhecidos na rua.
Não há aqui "evolução" nenhuma e nem precisamos para o afirmar de manter qualquer preconceito ou desprezo para com a "evolução".
De resto, se o actual governo quiser encontrar uma palavra que traduza a sua marca na evolução política e económica do país, "evolução" não me parece uma boa escolha.
Eu sugiro-lhes Involução.

Publicado por tchernignobyl às 11:27 AM | Comentários (3)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (5)

De assalto ao poder, as forças a soldo de Moscovo destruíram o tecido económico do País, nacionalizando a torto e a direito bens e empresas fruto do suor honesto dos nossos empresários. Imagine-se: a ralé inculta a tomar conta de grandes grupos económicos!

Publicado por Luis Rainha às 10:35 AM | Comentários (0)

CONSELHO DE ESTADO

O nosso zémário esteve bem.
Sem o habitual "look" MR, entusiasmou-me ouvi-lo dizer que é "visceralmente de esquerda", há muitos anos que eu não ouvia este tipo de afirmações na televisão, é tudo uma poltranagem que se refugia nas meias tintas do cálculo carreirista.
O carlos antunes não é um portento de facilidade de expressão e valeu sobretudo pela convicção.
O professor bessa teve bocados hilariantes sobretudo pelo estilo.
No entanto, algumas coisas que ele disse devem ser meditadas e debatidas porque estão na raiz do populismo de direita em Portugal e esse populismo embora nos pareça "arcaico" tem raízes na nossa sociedade que não podemos correr o risco de subestimar.
Para o que é a imagem arrogante que transparece da sua produção escrita, o Lomba foi surpreendentemente brando, quase consensual e disse uma coisa com que concordo bastante embora provavelmente por muitas razões diferentes. É que também me irrita um bocado uma certa "ideologia de abril" feita de saudosismo estéril e nostalgia pacóvia que roça o ranço das procissões a fátima e que me leva aos extremos do ataque de psoríase quando oiço a "gaivota voava voava".

Publicado por tchernignobyl às 10:31 AM | Comentários (15)

abril 21, 2004

HOJE, NÃO HOUVE STAR TREK NA SIC RADICAL; MAS NÃO FAZ MAL...

Na 2, está a dar um excitante episódio da série "Zé Mário Enfrenta os Marcianos".
Onde é que a produção desenterrou aquela múmia tartamuda do António Marques Bessa? E de que bruma primeva e revolucionária emergiu o Antunes?
Aquele rapaz nervoso, estridente e baralhado em citações opacas, é mesmo o Lomba? Há pessoas que não deviam sair do ciberespaço...

Pobre Zé Mário. Está com ar de quem só quer que aquilo acabe depressa. E que não esteja muita gente a ver...

Publicado por Luis Rainha às 11:46 PM | Comentários (19)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (6)

Publicado por Luis Rainha às 09:58 PM | Comentários (5)

UM "QUADRO" QUE NÃO GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA

Publicado por José Mário Silva às 05:51 PM | Comentários (4)

DEBATE NA TV

Hoje à noite (23 horas), na 2:, o programa «Conselho de Estado» discute os 30 anos do 25 de Abril. A conversa será moderada por Nuno Santos. Do painel fazem parte Carlos Antunes, Pedro Lomba, António Marques Bessa e José Mário Silva (sim, o nosso Zé Mário). Não percam.

Publicado por Margarida Ferra às 05:46 PM | Comentários (3)

ELECTRODOMÉSTICOS DOURADOS

À porta do Tribunal de Gondomar, não estão apoiantes do Major Valentim Loureiro. Estão frigoríficos.

Publicado por José Mário Silva às 05:24 PM | Comentários (8)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (7)

Harmonie Tranquille, Wassily Kandinsky (1914)

Publicado por José Mário Silva às 09:44 AM | Comentários (7)

NÓS TAMBÉM

A NATO considerou um desperdício o investimento de centenas de milhões de euros na compra de submarinos novos para a Armada portuguesa. (in DN)

Publicado por José Mário Silva às 09:37 AM | Comentários (2)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (4)

Perigosos radicais de esquerda sublevaram as Forças Armadas, seduzindo a populaça. Só o sangue-frio dos oficiais fiéis à Situação evitou uma guerra civil.
E assim começa um período conturbado da nossa História. Mas não te preocupes, pequeno leitor; tudo vai acabar bem!

Publicado por Luis Rainha às 09:28 AM | Comentários (7)

FINALMENTE, UMA NOTA

Chegámos enfim aos finalmentes, apenas com uma simples verificação. O Rui Tavares escreveu uma série de textos satíricos à referida infame entrevista do dirigente da Al-Qaeda Omar Bakri Mohammed, numa atitude típica de .rir para não chorar. que é, de facto, a melhor a ter perante tal entrevista. Pois logo uma pletora de blogues de direita insinuou que o Rui, vejam bem ao que isto chegou, ao satirizar a entrevista não se estaria a demarcar suficientemente dela, numa daquelas chantagens de que a esquerda é frequentemente vítima e nem sempre se sabe libertar (não foi o caso do Rui). Passei por esses blogues, e reparei que, curiosamente, nenhum se referia à entrevista de Tanya Reinhart. Por que seria? Preferiram fingir que não leram? Eu gostaria de ler mais comentários sobre essa entrevista (e, principalmente, sobre os factos nela apresentados), principalmente naqueles blogues mais pró-israelitas (não necessariamente pró-Sharon), mas também noutros blogues em geral.

Publicado por Filipe Moura às 01:56 AM | Comentários (3)

ENTRETANTO, UMA ENTREVISTA

Passemos então aos entretantos. Eu falei no estado de Israel, querendo referir o seu governo e quem o apoia (a maioria do povo, que sucessivamente tem votado e aprovado esta política). Mas Israel é uma democracia, há liberdade de expressão e seguramente (e felizmente) muitos israelitas são contra a política do actual governo. Queria que lessem esta entrevista (em três partes, aqui, aqui e aqui) de Tanya Reinhart, uma professora das Universidades de Utrecht e Tel Aviv. Judia e israelita. Linguista e, sim, discípula deste senhor. Independentemente dos pontos de vista da entrevistada (com os quais concordo totalmente), vale a pena reflectir sobre os factos que ela apresenta.

Publicado por Filipe Moura às 01:54 AM | Comentários (4)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (3)

O nosso País até era muito, muito grande. Se não fosse a União Soviética a causar distúrbios, a evolução no Ultramar seria certamente pacífica e cheia de progresso para os autóctones.
Mais uma vez, os interesses estrangeiros trataram de nos prejudicar, propalando notícias caluniosas sobre massacres e outras perfídias imaginárias.

Publicado por Luis Rainha às 01:53 AM | Comentários (5)

TERCEIRAMENTES

Na Palestina há, certamente, terroristas. Há, certamente, organizações radicais que querem acabar com o estado de Israel. De acordo com o que expus, o estado de Israel tem todo o direito a defender-se destes terroristas. Mas, infelizmente, não é só isso que o estado (e o governo) de Israel fazem. Nem é só a política de assassínios selectivos (de que este fim de semana ainda se viu mais um exemplo), em vez de uma captura e de um julgamento, como se esperaria de um estado de direito. O exército israelita ataca inocentes, e assim o estado israelita comporta-se ele próprio como uma organização terrorista. Bem poderosa, por sinal. Para além disso, é o estado que mais resoluções das Nações Unidas viola. Insiste numa política de criação de colonatos ilegais. Constrói um muro que mantém aldeias e famílias separadas e um povo na miséria. Esse povo, o palestiniano, ao contrário do israelita, não tem como se defender. Daí ao terrorismo, vai um passo. É mau para os palestinianos. E é mau para os israelitas, que devido ao terrorismo vivem numa situação de ameaça e insegurança permanentes. Mas aqui tem de se reconhecer que esta política do estado de Israel foi a escolha dos seus dirigentes e do seu povo. Até pelas características do judaísmo que acima referi, pelas perseguições históricas de que os judeus foram vítimas, tal escolha não pode ser compreendida. Por isso defendo que o estado de Israel, enquanto continuar com esta política, não pode ter apoio internacional ou, pelo menos, o apoio internacional que tem. E continuo a achar que por aqui passa a resolução de todo o problema. Infelizmente, não é isso que se verifica. Mas só tem moral para combater o terrorismo quem não se comporta como terrorista.

Publicado por Filipe Moura às 01:50 AM | Comentários (0)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (5)

Publicado por Luis Rainha às 01:48 AM | Comentários (2)

SEGUNDAMENTES

Ainda citando o velho Odorico. Segundamente, qualquer pessoa que defenda os direitos humanos é contra o terrorismo. Acho, sobretudo, que qualquer povo tem o direito a defender-se do terrorismo. Aí é que está o ponto. Defender-se, nunca atacar. Admito que esta distinção na prática nem sempre seja simples, mas é de crucial importância.
Devo aqui esclarecer que, na sequência dos atentados de 11 de Setembro de 2001, fui favorável à invasão do Afeganistão e ao derrube do regime talibã. Este foi, e continua a ser, um assunto muito controverso entre a esquerda, mas para mim foi um daqueles casos em que, mesmo estando a atacar, na verdade estava-se a defender. Derrubou-se um regime que, para além de horrendo, comprovadamente apoiava os terroristas. Enfraqueceu-se logisticamente a Al-Qaeda. Embora nada tenha sido perfeito . houve danos colaterais, e ficou-se muito longe de neutralizar a organização -, o balanço final parece-me positivo. Foi uma operação militar com uma finalidade bem definida. Mesmo os seus críticos (pelo menos, os de boa fé) reconhecerão que esta intervenção em nada é comparável ao recente desastre da intervenção iraquiana, em que a desculpa do .combate ao terrorismo. era parte de uma enorme mentira. Se alguém tiver dúvidas da natureza desta organização, que leia esta recente e sinistra entrevista ao Público de um dos seus dirigentes. Em resumo, não pode haver concessões perante o terrorismo. Tal não implica que não se deva (é evidente que se deve) tentar entender as suas motivações.

Publicado por Filipe Moura às 01:47 AM | Comentários (1)

OUTRA PERSPECTIVA SOBRE O VELHO ASSUNTO

Vou voltar ao assunto delicado, mas não tabu. Com a breca, como diz o Boss, os tabus são mariquices. Mas antes, uns primeiramentes, como diria o saudoso Odorico Paraguaçú.
Embora haja (felizmente) muitos muçulmanos moderados, a verdade é que muitos dos praticantes desta religião são fanáticos e fundamentalistas. Muitas práticas associadas à religião e civilização muçulmanas, não sei se por uma leitura demasiado à letra do Corão, se por uma interpretação distorcida do mesmo, são incompatíveis com o que entendemos por uma sociedade aberta e respeitadora dos direitos humanos. Aqui há uns meses, neste blogue, levantou-se a questão do véu nas mulheres. Apesar de o véu não passar de um símbolo, achei que deveria ser proibido nas escolas públicas precisamente por isso. Por ser um símbolo. Atrás do véu há muitas outras coisas. Repito: o islamismo, obviamente, não é de forma alguma incompatível com os direitos humanos; mas certas práticas associadas a alguns fundamentalistas muçulmanos são.
Nada disto se passa com o judaísmo, que não só é totalmente compatível com o que concebemos como uma sociedade aberta como terão sido, e ainda hoje são, vários judeus figuras de proa do pensamento progressista.

Publicado por Filipe Moura às 01:39 AM | Comentários (1)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (4)

Publicado por Luis Rainha às 01:00 AM | Comentários (0)

4 GREGUERÍAS POR DIA

Há suspiros que ligam a vida à morte.

As andorinhas põem aspas no céu.

O pior dos médicos é que olham para nós como se nós não fossemos nós.

A cada tiro recua o canhão como se se assustasse com o que acaba de fazer.

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, Assírio & Alvim

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 12:24 AM | Comentários (1)

abril 20, 2004

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (2)

Alguns historiadores facciosos têm enegrecido o panorama pré-revolucionário. No entanto, feitas bem as contas, a coisa até não era assim tão má. Tínhamos eleições periódicas, com a vantagem de se saber os resultados com alguma antecedência. Havia ampla liberdade religiosa, desde que exercida em Fátima. E a liberdade de expressão também era quotidianamente desfrutada por legiões de fadistas. É verdade que a polícia política, por vezes, se excedia um pouco. Mas as histórias de torturas e assassinatos são muito exageradas: não condizem com uma Nação de brandos costumes como a nossa...

Publicado por Luis Rainha às 08:58 PM | Comentários (5)

UM OKUPA NO MONITOR

Este talvez não seja o melhor site do mundo; mas é por certo um dos mais mexidos...

Publicado por Luis Rainha às 03:27 PM | Comentários (2)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (1)

Tornava-se imprescindível a edição da presente obra, para elucidar as crianças portuguesas, ainda hoje confusas sobre a evolução da nossa História recente. Importa desmitificar fantasias perniciosas. Urge colocar tais acontecimentos no contexto do Portugal de hoje, por fim liberto de utopias perigosas e consagrado aos valores modernos do Mercado, da Globalização e do respeito pela Tradição.
Atenção, pequeno leitor: prepara-te para satisfazer todas as tuas dúvidas sobre essa data tão falada e tão misteriosa: o 25 de Abril de 1974!

Publicado por Luis Rainha às 03:25 PM | Comentários (4)

4 GREGUERÍAS POR DIA

Há casais que dormem de costas para não roubarem um ao outro os sonhos ideais.

O café é a tinta que usa o coração para pintar o cabelo.

As formigas andam de passo apressado, como se fossem fechar-lhes a loja.

Para evitar o aborrecimento, o melhor é aborrecermo-nos freneticamente.

Ramón Gómez de la Serna, Greguerías, Assírio & Alvim

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:11 PM | Comentários (1)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (3)

Publicado por Luis Rainha às 01:10 PM | Comentários (1)

O 25 DE ABRIL EXPLICADO ÀS CRIANÇAS (0)

Tendo em vista que 30 anos não é coisa que se comemore todos os dias, inventámos aqui no BdE uma modesta celebração. Até ao dia da Revolução, poderão seguir nestas paragens alguns exercícios de BD com o inconfundível traço do Jorge Mateus. Espero que gostem.

Publicado por Luis Rainha às 01:09 PM | Comentários (2)

AS PESSOAS DOS BLOGUES

De tempos a tempos preciso de estar com o Zé Mário, o Mexia ou o Daniel (e os outros que conheço nesta “comunidade discursiva” bloguística) ao vivo e a cores para ter a certeza que existem. É que de tanto os ver em forma de palavras, poesia e opiniões em tão intensa actividade, a sua identidade difunde-se na assinatura, na forma da frase breve e certeira, nessa lógica tão interna que articula um pensamento pessoal com referências intertextuais e que alcança sempre o remate eficaz. E, ainda por cima, com perfeito domínio e manutenção de um estilo próprio. Esta gente tem uma grande escola! Mas imagino que o drama seja, como me disse o Daniel a propósito da sua actividade política, a obrigação (ou a auto-obrigação, ou a habituação) de se ter sempre opinião sobre tudo.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:08 PM | Comentários (4)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (6)

A Lawn Being Sprinkled, David Hockney (1967)

Publicado por José Mário Silva às 01:06 PM | Comentários (2)

SPAM STORY

O subject do mail dizia «I love you». E ele, embora consciente dos riscos que corria, leu a mensagem e abriu o ficheiro assassino. Mais valia ser amado por um vírus do que por ninguém.

Publicado por José Mário Silva às 01:04 PM | Comentários (6)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (2)

Publicado por Luis Rainha às 12:53 PM | Comentários (0)

APITO DOURADO

Pronto. Lá deram com a morada do famoso "sistema"...

Publicado por Luis Rainha às 12:08 PM | Comentários (6)

DIGA-NOS UMAS PALAVRINHAS SOBRE O 25 DE ABRIL, POR FAVOR... (1)

Publicado por Luis Rainha às 10:12 AM | Comentários (0)

"NÃO ME REPUGNA"

Diz-nos o "Público" de hoje que o caso de pedofilia dos Açores está em riscos de se ver resolvido pela lei mais poderosa dos nossos dias: a Lei da Oferta e da Procura.
Várias das alegadas vítimas fizeram chegar ao Ministério Público declarações - ao que parece todas preparadas pela mesma entidade - em que cada uma jura "por sua honra nada ter tido a ver com o arguido que acusara em concreto, nem ter conhecimentos dos crimes em que afirmara que ele tinha praticado." Isto, segundo clama o MP, em troca de verbas que irão dos 500 aos 2.500 euros. Mais: "Só as testemunhas maiores de 16 anos assinaram elas próprias as desistências das queixas. As declarações das restantes, com idades inferiores, foram assinadas pelos pais ou encarregados de educação. E, segundo a PJ, há casos em que os próprios menores desconheciam que os pais tinham decidido deixar em paz os abusadores e se revoltaram com o facto."
Se explorar assim a miséria das famílias destes miúdos açorianos já vos parece abjecto, esperem aí que o pior ainda está para vir:
Um senhor do "Comité para os Direitos Humanos" da Ordem dos Advogados disse aos microfones da TSF que nada disto o repugna. Ele até julga que se trata apenas de "negociações normalíssimas entre advogados". Tudo normal e até talvez desejável, como forma expedita de acabar com processos complicados e morosos.

Este senhor está a fazer de conta que se trata de um simples acordo, em que uma das partes desiste de levar a outra a tribunal por entretanto ter sido devidamente ressarcida dos danos que sofreu.
O que se passa aqui é bem diferente: temos crianças e pais a mentir, por escrito e de forma organizada, para evitar que crimes públicos ou semi-públicos venham a resultar em julgamentos. O que os pedófilos açorianos desejam é que tudo decorra como se não tivesse havido crime nenhum. E usam o seu dinheiro para aliciar a miséria alheia a colaborar nesta farsa sem nome. Amanhã, poderão voltar aos vícios do costume, mais tranquilos que nunca.

Para o senhor da Ordem dos Advogados, tudo está "normal". Talvez o seu comité devesse mudar de nome, deixando de ser "dos Direitos Humanos" e adoptando nome mais realista: "do Direito do Mais Forte à Liberdade."

Publicado por Luis Rainha às 10:10 AM | Comentários (4)

abril 19, 2004

ESTADO CRÍTICO

Não te deixes fintar, Diego. Aguenta firme.

Publicado por José Mário Silva às 06:55 PM | Comentários (7)

JOVEM CRIADORA

Ainda não tinha dito isto, mas impõe-se. A nossa Marta foi seleccionada para a Mostra Nacional de Jovens Criadores, na área de Literatura. Muitos, muitos, muitos parabéns.

Publicado por José Mário Silva às 06:42 PM | Comentários (3)

COMENTÁRIO A POST ANTIGO (2)

Lembram-se do Nanopops!, um «Contributo para a (sua) alegria no trabalho» que o Luis Rainha sugeriu há mais de um mês? Pois bem, a leitora raquel (assim mesmo, com minúscula), em mais um dos tais comentários que vão chegando à zona de penumbra dos arquivos, revela-nos que conseguiu encontrar a solução do enigma: «100%. Com uma equipa de seis gajos e gajas. Sem batotas. Mas chegámos lá.»

E a solução é:

village people
george michael
kiss
the sex pistols
hanson
las ketchup
jimi hendrix
bananarama
the pogues
guns n' roses
rem
the beatles
the supremes
milli vanilli
U2
aha
barry white
mariah carey
The Monkees
roxette
fleetwood mac
mc hammer
nirvana
madonna
tom jones
christina aguilera
abba
meat loaf
pink floyd
dire straits
robbie williams
madness
elvis presley
oasis
aqua
prodigy
duran duran
rick astley
boney m
zz top
eminem
culture club
boyzone
stevie wonder
nickelback
all saints
mel and kim
shakira
prince
bob marley
morrissey
backstreet boys
the osbournes
the doors
blur
queen
garbage
blondie
britney spears
the cure
david bowie
red hot chili peppers
the police
the temptations
jamiroquai
no doubt
the corrs
bruce springsteen
tatu
iggy pop
metallica
pet shop boys
alanis morrisette
the rolling stones
billy idol
vengaboys
the jackson five
the bangles
b-52s
smashing pumpkins
elton john
the bee gees
michael jackson
simon and garfunkel
marilyn manson
simple minds
the stone roses
rage against the machine
roy orbison
ramones
take that
tina turner
pixies
sigue sigue sputnik
radiohead
ac/dc
deff leppard
robert palmer
avril lavigne

Obrigado, raquel.

Publicado por José Mário Silva às 06:35 PM | Comentários (4)

COMENTÁRIO A POST ANTIGO (1)

Todas as semanas, há dezenas de textos publicados neste blogue que passam para os arquivos. Isto é, para uma zona de penumbra, menos acessível à navegação febril dos habitués, mas ainda assim concreta, como certas prateleiras das bibliotecas que nunca vemos mas nos tranquiliza saber que existem, escondidas, quase secretas, à espera de uma consulta futura.
Mais importante ainda é o facto dessa zona de sombra estar continuamente sujeita ao escrutínio dos motores de busca. E isso faz com que cibernautas de passagem por aqui, vindos do Google, possam descobrir casualmente certos posts, muito tempo depois de terem sido escritos. Foi esse o caso, suspeito eu, do leitor jorge lira (assim mesmo, com minúsculas).
Se forem a este texto, publicado em 14 de Janeiro (onde isso já vai!), descobrirão um comentário escrito hoje:

«Isso é muito poético, mas experimentem montar um andaime, a 20 e tal quilitos por cada peça, e depois façam poesia. Não se esqueçam: apenas andaimes da Layher!!!... e, melhor ainda, montado, certamente bem e sem dúvidas face à fiscalização mais exigente, por Wemotechnik - 22.987.15.20.»

Fiquei esmagado. Não apenas pela desmontagem do meu lirismo de flâneur (alguém que observa o esforço dos outros mas não sua, não carrega os «20 e tal quilitos»), como pelo genial golpe de rins publicitário, com número de telefone e tudo.
Já o sabia mas confirmo: é uma caixinha de surpresas, esta coisa dos blogues.

Publicado por José Mário Silva às 06:27 PM | Comentários (3)

OMBROS

Marilyn Monroe por Philippe Halsman (1952)

Publicado por José Mário Silva às 06:02 PM | Comentários (11)

EUFORISMO

Aquela criança era tão precoce, tão precoce, mas mesmo tão precoce que aos cinco anos os pais não lhe davam livros do .Egas e do Becas., mas sim do Hegel e do Beckett.

Publicado por José Mário Silva às 05:39 PM | Comentários (0)

EU CONHEÇO ESTA SENHORA DE ALGUM LADO...

Tinha de acontecer. A britânica Belle de Jour já tem émula lusa: a sofisticada mas frontal habitante do Palácio do Desejo.
O encontro com esta "trabalhadora sexual" - nas palavras do Boss - tem, para mim, o travo de um regresso a locais familiares. Acontece que a "Ladyana" desse novo blogue é precisamente a criatura de mistério e muitas faces a quem me referi num dos meus primeiros posts aqui no BdE.
Há dois meses, deu-me para concluir que "há por aí, mesmo debaixo dos nossos olhares distraídos, vidas muito complicadas e muito estranhas." Hoje, pensando bem, decido que não tenho nada que me preocupar com isso. Penitenciando-me pelas investigações abelhudas, deixo aqui os meus votos de felicidade à Ana. Melhor: à Ladyana.

Publicado por Luis Rainha às 12:52 PM | Comentários (6)

RELAÇÕES DE VIZINHANÇA

Um bairro não é feito apenas de ruas, jardins, vozes cruzando-se no ar, esplanadas, candeeiros, arquitectura. É feito também de pessoas subitamente próximas.

Publicado por José Mário Silva às 10:09 AM | Comentários (0)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (5)

Number 1, 1950 (Lavender Mist), Jackson Pollock

Publicado por José Mário Silva às 09:57 AM | Comentários (4)

BUSH POR VPV

No sábado, o Filipe já tinha chamado a atenção para o facto das crónicas de Vasco Pulido Valente estarem out of memory, na edição electrónica do DN. Felizmente, o problema já foi resolvido e os nossos leitores (especialmente os de direita) podem ler, aqui, uma das poucas crónicas de VPV a que não trocaria sequer uma vírgula. «Um Bush cínico, um Bush hipócrita e mentiroso como Blair, não meteria medo. Este Bush [com o seu ar simpático e bonzão, a preparar uma catástrofe] mete medo.» Nem mais.

Publicado por José Mário Silva às 09:23 AM | Comentários (8)

GUERRA DAS ESTRELAS

Não, George, por uma vez a culpa não é tua. Dorme descansado.

PS: E daí, se acaso houver ainda um resto de consciência no fundo dessa cabecinha, George, és capaz de ter insónias. Mas olha, sempre é melhor ficares acordado do que sonhares, sei lá, com o Iraque.

Publicado por José Mário Silva às 09:19 AM | Comentários (6)

ALVORADA

«Ao alvorecer não há diferenciação entre imaginário e realidade.
Tal como ante saecula.
Ao alvorecer há loucura perpétua e terror perpétuo. (Talvez o mesmo se passe com os animais. O que explicaria o extremo pavor dos bravios.)»

Pascal Quignard, As Sombras Errantes (Gótica)

Publicado por José Mário Silva às 08:49 AM | Comentários (0)

abril 18, 2004

TANGRAM

Como na vida, às vezes parece impossível encaixar todas as peças.

Publicado por José Mário Silva às 11:26 PM | Comentários (4)

NENHUMA MÁQUINA É PACÍFICA

«― Veja esta fábrica: estamos perante o espanto sobrenatural. Tudo é tão estupidamente previsível nestas máquinas que se torna surpreendente; é o grande espanto do século, a grande surpresa: conseguimos fazer acontecer exactamente o que queremos que aconteça. Tornámos redundante o futuro, e aqui reside o perigo.
Se a felicidade individual depende destes mecanismos e se torna também previsível, a existência será redundante e desnecessária: não haverá expectativas, luta ou pressentimentos.
Fala-se em máquinas de guerra, mas nenhuma máquina é pacífica, Walser.»

Já tenho nas mãos «A máquina de Joseph Walser», do Gonçalo M. Tavares, segundo romance do ciclo «Livros Pretos», editado pela Caminho. Depois de ter cantado hossanas ao primeiro, «Um Homem: Klaus Klump» (para mim um dos dos grandes acontecimentos literários do ano passado, em Portugal), a expectativa não podia ser maior.

Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (0)

LA BÊTE DU JOUR


Cartoon de Steve Bell, "The Guardian"

E lá se foram mais uns olhos, mais uns dentes... Enquanto o poder em ambos os lados deste conflito estiver nas mãos de extremistas sanguinários, que poderemos esperar para lá de mais sangue, mais retaliações, mais ódio?

Publicado por Luis Rainha às 06:44 PM | Comentários (4)

SUSTO

Por momentos, temi que a Ana Sá Lopes fosse acabar de vez com a Vanessa. Mas depois, mais aliviado, percebi que não.

Publicado por José Mário Silva às 05:57 PM | Comentários (1)

UM QUADRO QUE EU GOSTARIA DE OFERECER AO ZÉ MÁRIO, PARA A CASA NOVA (3)




"O Mar Vermelho", de Anselm Kiefer (1985)

Pronto; este é o derradeiro que vos ofereço. Sei que é um bocado para o grande (279 x 425 cm); se não couber no salão ou não combinar muito bem com os sofás, avisem. Tenho aqui dois ou três Klees mais pequeninos para a troca.

Publicado por Luis Rainha às 05:51 PM | Comentários (3)

O 25 DE ABRIL DOS CONSERVADORES (2)

Num post de há três dias, lembrei-me de pisar os terrenos movediços da ironia: "Para o ano, se calhar, a comparação já será feita com o ano de 1973. Ou de 1975. O que interessa é ver as bonitas setas dos gráficos a descolar, voando rumo aos promissores céus do progresso e da qualidade de vida. A ninguém interessa que tenha havido uma revolução pelo meio."
"Se calhar"? "Para o ano"?
Era fatal como o destino. E já aconteceu. No "Expresso" desta semana, anda um anúncio de página inteira que nos maravilha com a evolução do número de lares com electricidade, desde 1970. Na TV, já vi hoje um cartaz que fala em "31 anos", a propósito, julgo eu, da quantidade de licenciados portugueses.
Precisamente o que eu só por brincadeira previra: a "Evolução", afinal, não precisou do 25 de Abril de 1974 para nada. Já começara alegremente quatro anos antes, pelo menos. Sem agitações. Sem "R" na bendita palavra.
Eis a História refeita para se conformar à visão conservadora. Comemora-se Abril - porque daria demais nas vistas ignorar a data - mas apenas como mais um passo numa marcha lenta e contínua. Afinal, o progresso que o governo agora celebra já vinha de trás; se calhar, a Revolução até veio atrapalhar esta lenta marcha rumo a mais electrodomésticos, mais auto-estradas.
Aios os patam.

Publicado por Luis Rainha às 05:28 PM | Comentários (2)

CAIS HOJE À TARDE NA LER DEVAGAR?

Hoje à tarde na ler devagar, mais uma iniciativa da cais com a colaboração das palavras da tribo.
Aqui fica o programa:
"DIA 18 DE ABRIL
Domingo, das 10 às 18
Livraria Ler Devagar, ao Bairro Alto
O que irá acontecer durante o dia de Domingo na Ler Devagar:
10:00 - 11:00 - Yoga
11:00 - 13:00 - Dança
13:00 - 14:00 - (intervalo)
14:00 - 16:00 - Dar Vida às Sombras (pintura)
16:00 - 16:30 - Lançamento da Revista
16:30 - 18:30 - Códigos de Linguagem
(entre as 10:00 e as 18:30 o MEF, Movimento de Expressão Fotográfica, irá dar uma oficina de Fotografia Digital, à descoberta do que se passa dentro e fora da livraria)
As Oficinas são gratuitas e abertas a todo o público que queira experimentar estas actividades, independentemente da idade. Crianças, adultos, contamos com todos!
"
Apareçam por lá.

Publicado por tchernignobyl às 01:19 PM | Comentários (0)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (4)

Biblioteca, Maria Helena Vieira da Silva (1949)

Publicado por José Mário Silva às 12:35 PM | Comentários (4)

TEXTO SOBRE FUTEBOL

Fomos roubados.
O Futebol Clube do Porto é a melhor equipa portuguesa, mas o Sporting este fim de semana foi roubado. Sem tirar o mérito ao FCP, nunca vi tal coisa acontecer a esta equipa nesta época. Ao Sporting, foi em Moreira de Cónegos e agora.

Publicado por Filipe Moura às 12:27 AM | Comentários (22)

O MEU PRESIDENTE

Tenho orgulho em ter um presidente activo e interveniente em questões de política e de cidadania, e com cujas intervenções nestes domínios eu estou sempre de acordo. Refiro-me ao presidente do meu clube, pois claro. A quem julgavam que eu me referia?
Não sei se terá grande acolhimento a minha proposta de candidatura de António Dias da Cunha a presidente da República. E é pena, pois mais facilmente votaria (de longe) em Dias da Cunha do que em qualquer dos outros "candidatos a candidatos" de que se fala (mesmo os que dizem que nem isso são). Dias da Cunha é simplesmente a única pessoa presentemente com um cargo de alta responsabilidade em Portugal que eu respeito. E quem diz que ele fala sem base nenhuma, olhe para a vergonha que ocorreu este fim de semana no Estádio do Bessa... Mas eu não quero misturar política com futebol, e este é um texto sobre política.
Se não for ele, que seja outro membro deste clube a tomar a iniciativa de avançar e marcar a agenda, desde que não seja Vasco Lourenço (Helena Roseta, por que não?). Quanto mais não seja, porque Guterres precisa de uma ameaça à esquerda, como Cavaco tem Santana à direita. Depois, e se Guterres não avançar? E, mesmo que avance, por que há de ser ele o candidato?

Publicado por Filipe Moura às 12:25 AM | Comentários (13)

PÁGINAS FOTOCOPIADAS

«Um contrafogo consiste em fazer arder um bosque na direcção de um incêndio florestal, de modo a que se crie um vazio que as chamas não possam atravessar. Supõe-se que este pequeno vazio deterá o avanço do braseiro imenso privando-o simplesmente do que o alimenta.
Um contraponto é um canto suplementar que diverge da linha melódica. Escrever em contraponto significa escrever em réplica da energia principal.
Uma contracarta consiste num acordo escrito e secreto que anula um contrato público.
Como erguer um contraponto à economia que se tornou geral, aos interesses que ela multiplica, sem incorrer na perseguição imediata ou na fome?
Como fazer valer a força de três ou quatro contra o império de todos?
Estes três ou quatro escondem-se; fundam sociedades secretas frágeis; são forçados a fingir partilhar os costumes joviais e os gestos agressivos dos bárbaros; exibem-se nas suas cidades, nos seus templos, nos seus anfiteatros. Mas no canto, ou seja, in angulo, ou seja, ao abrigo da sombra, secretamente, passam uns aos outros, como se fossem fotografias pornográficas, em vez de folhetos sectários, ou publicitários, ou nacionais (ou seja, em vez de notas de banco), obras publicadas em nove exemplares, ou recordações de livros, ou reprografias dos próprios livros antigos que, entre todas as mercadorias, não mercadejam nada.
Estas páginas fotocopiadas e cinzentas, imagens sem imagens, furam o tempo.

Pascal Quignard, As Sombras Errantes (Gótica)

Publicado por José Mário Silva às 12:17 AM | Comentários (0)

abril 17, 2004

UM QUADRO QUE EU GOSTARIA DE OFERECER AO ZÉ MÁRIO, PARA A CASA NOVA (2)




Arena Brain, de Robert Longo (1986)

Publicado por Luis Rainha às 10:10 PM | Comentários (3)

POR FAVOR, ENTENDAM-SE

Primeiro, Durão Barroso critica duramente Zapatero por este admitir retirar as suas tropas do Iraque. Pouco depois, o Ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, vem dizer que pondera justamente uma retirada da GNR do Iraque, «se o conflito se agudizar». Por fim, a Ministra dos Negócios Estrangeiros, Teresa Patrício Gouveia, vem negar qualquer mudança de política e garantir que a GNR permanece mesmo em solo iraquiano, haja o que houver.
Em que é que ficamos, afinal? É sim, é não ou é nim? Todos sabemos que Figueiredo Lopes tem uma certa tendência para gerar confusões e equívocos, mas um governo não pode ser um catavento, muito menos numa matéria tão delicada. É para evitar situações destas que se fazem os Conselhos de Ministros. E se pagam telemóveis aos governantes.

Publicado por José Mário Silva às 06:11 PM | Comentários (4)

O BIN LADEN É UM HOMEM BELO E AMARO

Tudo começou assim:

Ilustrações como esta (havia algumas muito melhores, mas não as guardei) andaram pela internet a seguir ao 11 de Setembro de 2001. Sabendo da sua parecença física com o terorista, notada por atentos brasileiros, Caetano Veloso, com o particular sentido de humor que o caracteriza, disse sobre Bin Laden qualquer coisa como "eu não concordo nada com o que ele faz, mas é um homem muito bonito!" O resto vem, por exemplo, aqui. Já sabia há uma semana, e quis confirmar antes que não era mentira. Daria vontade de rir, se não fosse verdadeiro.

Publicado por Filipe Moura às 02:41 PM | Comentários (4)

NA REDE

Lê-se esta entrevista e só a custo se percebe quem é o entrevistado. Tem de se ler a entrevista do princípio ao fim para perceber. Frequentemente só se percebe indo à "cara da notícia", mas desta vez não puseram a cara do Tozé.
A opinião de Vasco Pulido Valente está out of memory. E frequentemente, aos sábados, no lugar da opinião aparece a opinião... do suplemento de economia! (Pina Moura e outros que tais.) Para se ler a opinião do Vasco, tem de se esperar pelo domingo.
Alguém pode dizer aos senhores da Av. da Liberdade que a edição na rede deles é abaixo de cão?

Publicado por Filipe Moura às 02:39 PM | Comentários (2)

A APOTEOSE DA ORIGINALIDADE

Em 1994, o recém-criado partido de Silvio Berlusconi fez campanha para as europeias com este cartaz. Qualquer semelhança com o nome da coligação PSD/PP que vai concorrer a outras eleições europeias, dez anos depois, é pura coincidência.

Publicado por José Mário Silva às 02:31 PM | Comentários (1)

O REGRESSO DO CLIENTE PRÓDIGO

Com o anúncio da escolha de Deus Pinheiro para cabeça-de-lista da coligação "Força Portugal" . que nome... . abriram-se garrafas de champagne em Estrasburgo. Aqui, mais concretamente.

Publicado por Luis Rainha às 01:06 PM | Comentários (4)

OBRIGADINHO, PÁ, MAS NÃO PRECISAMOS MESMO NADA DISSO

Pinto da Costa (professor de Medicina Legal) defende a clonagem de Pinto da Costa (presidente do F. C. Porto).

Publicado por José Mário Silva às 12:52 PM | Comentários (5)

IRRITARAM SUA MAJESTADE

Jorge Sampaio começou hoje o dia avisando os jornalistas de que se encontra "muito irritado". O motivo para a zanga? Um artigo de Miguel Sousa Tavares.
Temo que o nosso presidente esteja a ficar parecido com o Herman José. E não é por ter começado a desenvolver um sentido de humor; é mais pela completa alergia a críticas.
«Se alguém contava com a oposição do Presidente para travar as sucessivas investidas deste Governo contra o património natural do país . basta citar a entrega da competência sobre os Parques Naturais às autarquias, o seu principal inimigo . pode esperar em vão. Sampaio já disse claramente de que lado está. E, infelizmente, está do lado errado.» Eis algumas das pérfidas palavras que estragaram a disposição ao nosso Chefe de Estado. Hoje, podemos contar com largos minutos da sua oratória opaca, espalhados pelos diversos noticiários, a reclamar contra o atrevimento. Afinal, não se irrita impunemente uma figura como Jorge I, o Consensual.

Publicado por Luis Rainha às 12:47 PM | Comentários (3)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (3)

Cypress Trees and Houses, Amedeo Modigliani (19??)

Publicado por José Mário Silva às 12:35 PM | Comentários (2)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Manuel Resende é sobretudo conhecido como tradutor (notável, diga-se), mas os leitores mais atentos sabem que a sua prosa insubmissa também andou à solta, para quem a quis apanhar, nesse magnífico blogue chamado Quartzo, Feldspato & Mica. Há umas semanas, no acaso das deambulações pelas livrarias lisboetas, descobri um livrinho que ele editou na & Etc, em 1997. E como sou um tipo generoso, aqui vos deixo dois belos poemas do volume «Em Qualquer Lugar seguido de O Pranto de Bartolomeu de las Casas», com um abraço de gratidão ao seu autor:


PENSAMENTO DE KAVÁFIS VELHO

Num café mesquinho e sujo, os teus olhos me buscaram,
Brasas negras sem morada pairando no ar ralo.
Estou velho e murcho, o corpo vai-me comendo a alma:
Porque me procura a tua beleza escandalosa?

Dinheiro, não tenho, nem o desejo me visita;
E, quando te vejo, vejo os amantes que já tive.
Mas o que buscarás tu nesta vela no pavio?
Eros não pode viver em cidade tão viscosa.

O meu amor não precisa já de nenhum pretexto,
Nem do suporte do corpo, nem de feitos de atleta,
Vive das noites já idas, da memória indiscreta
Onde hei-de enterrar a tua imprevidente proposta.

Vou-te dizer em verdade o que em mim me preocupa:
Beber teus olhos mancebos, o teu corpo sem rugas,
Roubar-te toda a beleza, deixar-te nu na rua.
Só percebemos a vida quando já murcha a rosa.

EU GOSTO DAS PALAVRAS

Eu gosto das palavras e do canto
E dos ecos que trazem à lembrança,
Dessas canções de frança e aragança,
Que são só sons que cobrem, como um manto,

O que têm que cobrir, porque, entretanto,
Já há, profissional, uma ordenança
A recolher em fichas, sem parança,
O tom, o cheiro, o muco, do seu pranto.

Que cante, e dance, e viva, e morra, e vibre,
Que se desdobre em nervos e minutos,
E seja para sempre eterno e livre

O grito que se ergueu irresoluto
Desse sítio onde o corpo se coíbe
E súbito triunfa do seu luto.

Publicado por José Mário Silva às 12:22 PM | Comentários (0)

AINDA A QUESTÃO DO .R.

Para o Governo português, este livro não foi escrito por este senhor. Foi escrito por este.

Publicado por José Mário Silva às 12:18 PM | Comentários (5)

INIMIGO PÚBLICO

Nome: Adenovírus
Subgénero: B
Local de ataque: creches

Médicos e fármacos de todo o mundo, uni-vos contra o estafermo.

Publicado por José Mário Silva às 12:12 PM | Comentários (1)

CONTRA OS ÍDOLOS (E OS IDÓLATRAS)

«Ídolo é o que exige ser adorado ou recebe adoração, ou seja, absoluta entrega; absoluta, enquanto dura. Ídolo é o que se alimenta dessa adoração ou entrega sem medida e uma vez que lhe falta, cai. É uma imagem desviada do divino, uma usurpação. Toda a pessoa convertida em ídolo, ainda que com o seu pesar, vive em estado de fraude. Parece estranho que até agora apenas em algumas clareiras da história se tenha vivido livre desta tirania.»

Maria Zambrano, in Pessoa e Democracia (Fim de Século)

Publicado por José Mário Silva às 12:08 PM | Comentários (0)

abril 16, 2004

BAGDADE, ABRIL DE 2004

Publicado por José Mário Silva às 08:58 PM | Comentários (10)

FAIL BETTER

O mendigo do outro dia estava no mesmo sítio, esta manhã. E eu gostava de dizer a realidade concreta e mal cheirosa daquele corpo, daqueles olhos, daquele silêncio, daquela imagem de Cristo em sangue que ele guarda dentro do plástico vermelho da McDonald's.
Não. Não. Não.
O que eu queria mesmo era outra coisa.
O que eu queria mesmo era falhar outra vez a descrição deste homem a que as minhas palavras, miseráveis, não chegam. Falhar outra vez o retrato do seu abandono. Sim. Falhar outra vez. Mas falhar melhor. O único problema é que não me chamo Samuel Beckett.

Publicado por José Mário Silva às 08:03 PM | Comentários (3)

AMOR DE MÃE

Já sentiram aquele instante de revelação em que olham para uma coisa mil vezes vista e a descobrem de súbito banhada por uma luz única e mágica? Ontem, dei comigo embasbacado ante a mais comum das cenas: uma mãe e um bebé que trocavam um olhar igualmente banal. Banal?
Engano. Nada existe de corriqueiro ou inofensivo em tais olhares. Ali, entre uma mãe e a sua criança, chispa um arco voltaico, um campo carregado de partículas potentes e imparáveis. O elo que se firma naqueles momentos de contacto ocular transcende a ternura, transcende o amor, pouco tem a ver com a previsibilidade de sentimentos ou apetites.
Este olhar é feito de pulsões abissais; surge do domínio dos códigos genéticos e celebra-se no âmago dos mistérios que nos tornam humanos. Se algo disto se pudesse reduzir a palavras, poderíamos afirmar que a mãe comunica ao mundo que seria capaz de morrer por aquela criatura ao seu colo, sem uma só respiração sustida como marca de hesitação. O bebé não olha para um ser separado de si; antes abarca todo o âmbito da sua vida, encontrando os universais alfa e omega coalescidos em cada íris de sua mãe.

Um homem, por devotado pai que seja, bem pode tentar a entrada neste rio tormentoso; mas é esforço votado ao fiasco. O caudal não lhe permitiria mais que uma ou duas braçadas, antes de o afogar inapelavelmente. Nós não estamos equipados para resistir à força, à brutalidade serena de um tal olhar.
Ia escrever "terna ferocidade", mas lembrei-me a tempo que este laço pouco tem a ver com ternura. Talvez até seja em parte fruto do ódio: são milhões de anos de evolução a deixar sobre mães e filhos a memória rancorosa de legiões de portadores do cromossoma Y, pais sempre errantes e indiferentes. (Esta visão evolucionista pode ser disparatada, mas sempre serve para atenuar a minha sensação de culpa e de exclusão...)

Olhem que até pode bem haver alguma verdade nesta minha "descoberta". Para ilustrar o post, procurei obras de arte capazes de nos restituir a intensidade única do olhar maternal. Procurei, voltei a procurar e nada encontrei que sequer servisse de pálida imitação. As obras que mais próximo chegavam desses locais perigosos eram, claro está, de uma mulher: Mary Cassat. Por fim, acabei por fazer batota; a gravura de Picasso que escolhi retrata uma Mãe, sim. Mas o seu filho está morto.
Será mesmo possível que a grande Arte não consiga reproduzir essa maravilha quotidiana, todos os dias derramada em incontáveis e banais álbuns de família?

PS: quem me quiser indicar obras que o consigam fazer, excluindo representações religiosas . pois aí a transcendência aspira a ser de uma outra ordem . e tragédias como esta de Picasso, fica desde já credor do meu agradecimento...

Publicado por Luis Rainha às 07:28 PM | Comentários (2)

GRAVIDADE ZERO

Dali Atomicus, retrato de Salvador Dali por Philippe Halsman (1948)

Publicado por José Mário Silva às 06:46 PM | Comentários (3)

DESCULPEM LÁ A INSISTÊNCIA

É claro que a ironia tem a ver com questões de origem cultural, mas não necessariamente com classes sociais. Não se adequa uma divisão num sentido tão lato, porque há códigos que atravessam esse tipo de fronteiras. É entre cada grupo, cada comunidade, cada país, cada casal, cada momento histórico, cada pessoa em contextos diferentes, em tudo o que implique um discurso próprio, que ela se manifesta. E só é compreendida se houver essa cumplicidade, muitas vezes afectiva, que deixa antever o contexto: aquilo que se recusa, aquilo que se deseja e a sua formulação dúbia. A relação que a ironia suscita é de natureza política precisamente porque pressupõe uma hierarquia na exclusão e inclusão dos intervenientes. E sendo a actividade discursiva uma forma de actividade social, implica relações de poder, real e simbólico. Essas tais “comunidades discursivas” fornecem o contexto tanto para a codificação como para a atribuição de ironia. Não é o uso da ironia que cria estas comunidades mas são as comunidades que tornam possíveis a ironia (comunidades que implicam opiniões, ideologias, acordos, referências culturais). São estas mesmas comunidades que estabelecem também as convenções, que permitem que a ironia actue, os pequenos sinais não indicam em si a ironia mas adquirem esta propriedade num contexto circunstancial específico. Tudo será obviamente relativizado conforme a situação discursiva em que estamos envolvidos.
Tem, claro, um carácter elitista, mas é essa a natureza cruel que faz um juízo de mérito (a lei do mais forte, do mais espirituoso). Aliás, aqui a blogosfera é um exemplo de comunidade discursiva, nesse sentido, bastante elitista, uma vez que não se destina à compreensão absoluta ou ao grau zero do discurso mas antes um lugar onde persiste a valoração, a escolha, a identificação, sob critérios de cada um, mas que se sustentam muitas vezes na base do processo irónico. Porém, o carácter subversivo persiste, claro, e nas formas de abertura do discurso, desmontando a sua lógica de poder. Por exemplo, ao se desmascarar e subverter a carga simbólica de muitas palavras, dando-lhe outras leituras, ou dizendo o seu contrário - o que intensifica o ridículo de certas coisas - estamos já a pensar de outra maneira. Pensar de outra maneira é o começo de uma nova instauração do discurso, é aprender a diversidade de sentidos. Daí a importância das vanguardas artísticas que nos abriram horizontes, longe de serem panfletárias.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 05:04 PM | Comentários (2)

UM QUADRO QUE EU GOSTARIA DE OFERECER AO ZÉ MÁRIO, PARA A CASA NOVA...




"Duas crianças são ameaçadas por um rouxinol", de Max Ernst (1924)

Este quadro, além de fabuloso, é ideal para esconder o contador da electricidade...

Publicado por Luis Rainha às 01:08 PM | Comentários (3)

AS DUAS FACES DO AFIXE

Ontem, não gostei mesmo nada do post do Afixe sobre o Barnabé e o Daniel Oliveira. Não gostei porque foi injusto (toda a gente sabe que o Barnabé não é apenas o mais visitado; é também o melhor blogue da blogosfera portuguesa). Não gostei porque foi mal argumentado. E não gostei porque foi deselegante e grosseiro (por muitos crimes que cometa, ninguém merece ser comparado com a Manuela Moura Guedes).
Hoje, gostei de constatar a (quase) redenção do mesmo Afixe, num bom post que só peca, mais uma vez, por insistir em ler ódio e violência num blogue que apenas exerce uma justa indignação com uma invulgar combatividade.
Eu já conhecia, das caixas de comentários do BdE, estas duas faces do Afixe: o trauliteiro que parte a loiça toda e o interlocutor civilizado que vem, depois, apanhar os cacos. Então como agora, continuo a preferir o segundo.

Publicado por José Mário Silva às 12:58 PM | Comentários (15)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (2)

Untitled, de Mark Rothko (1968)

Publicado por José Mário Silva às 10:30 AM | Comentários (15)

POST TENEBRAS

«Da máxima dos calvinistas, Post tenebras lux, conservo apenas as duas primeiras palavras.
Algo que não ofusca ilumina os que foram engendrados sexualmente e se desenvolveram na penumbra.
Um pequeno núcleo de homens sussurra: "Post tenebras."
Na beira dos terraços, com os melros, preservamos algo que não é negrume na treva mas também não é luz no dia.»

Pascal Quignard, As Sombras Errantes (Gótica)

Publicado por José Mário Silva às 10:24 AM | Comentários (0)

Ó PÁ, EU SE FOSSE A TI, CONSTRUÍA UM MURO


Cartoon de Mike Lane, «The Baltimore Sun»

Publicado por José Mário Silva às 10:17 AM | Comentários (2)

ONDE É QUE ELE ESTAVA NO 25 DE ABRIL

A música dos Mão Morta (de 91) mais adequada a este mês.

CHARLES MANSON
[Adolfo Luxúria Canibal / Zé dos Eclipses - Carlos Fortes]

Tianamen e o massacre de Pequim
Pablo Escobar e o cartel de Medellin
Mais a queda do muro de Berlim
E a guerra do Saddam, Saddam, Saddam, Saddam Hussein
Os ataques com gaz Sarim
Ou a Rússia de Boris Ieltsin, Ieltsin
Não estava lá
Não estava lá
Não, não estava lá
Na Primavera, não estava em Praga
No 25 de Abril, estava em Braga
Demasiado entretido a crescer
Para dar conta do que estava a acontecer
Do que estava a acontecer
Mas ouvi dizer
Quando o Charles Manson sair da prisão
É que vai ser
Parem o relógio
Vamos todos para a revolução
Fazer a festa de cocktail na mão
Vamos todos aparecer na televisão
De cocktail na mão

Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 09:20 AM | Comentários (4)

A ESQUERDA CAVIAR OU O DISCURSO DA AMBIGUIDADE

Num jantar do Bloco um jornalista pergunta a um dirigente o que acha de serem conhecidos como “esquerda caviar” ao que este responde que o prato é bacalhau, não está ali a ver nenhum caviar. Um professor meu, que é uma figura mediática (como são quase todos os professores da Nova), conta este episódio para dizer que uma esquerda que não sabe reconhecer uma figura de estilo, nem tem capacidade de auto-ironia, nem de superar a ironia com uma resposta irónica, é porque algo de errado se passa em termos ideológicos. Mas desde quando é que os partidos alguma vez tiveram essa capacidade?
A ironia funciona como ferramenta e arma contra uma autoridade dominante, sobretudo contra aqueles que defendem um discurso sem ambiguidade, que é especificamente o discurso da propaganda, o discurso dos partidos, tenham a linha que tiverem. Como nos lembra Linda Hutcheon, estudiosa da ironia, a função subversiva da ironia está ligada à ideia de que é um modo de auto-crítica, auto-conhecimento, auto-reflexão susceptível de desafiar a hierarquia do discurso, baseada nas relações sociais de dominação. Hutcheon alega ainda que é a intimidade que faz da ironia uma estratégia eficaz de oposição, no acto de se apropriar da linguagem do discurso dominante, do seu poder. A ironia tem, no entanto, um carácter transideológico e pode servir para os mais variados fins. A coexistência de elementos dialógicos no seu processo revela a sua potencialidade para ilustrar o mundo de contradições em que o homem vive e é figura de conflito. Por isso, nunca poderá ser uma arma da política que é exercida pelos partidos, onde a linguagem é linear e não sabe lidar com a ambiguidade. Aí não se pode esperar ironia. Um partido que consiga reinventar a linguagem da política ainda está para vir.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 09:08 AM | Comentários (11)

O SOBRESSALTO

Acordo cedíssimo (há já duas horas que me arrasto pela casa a tentar espantar esta vontade) e apetece-me escrever no blog de esquerda. Estarei doente?
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 09:07 AM | Comentários (9)

FALTAM DOIS MESES E MEIO


Cartoon de Mike Keefe, «The Denver Post»

Publicado por José Mário Silva às 08:57 AM | Comentários (0)

abril 15, 2004

ALMOÇO EM S. BENTO

Como tudo em Portugal, também o mea culpa do primeiro-ministro ao Prémio Nobel da Literatura (por causa daquilo) se consumou à mesa.

(...)

Durão Barroso . Pronto. E não se fala mais naquilo?
José Saramago . Não se fala mais naquilo.
Durão Barroso . Assunto encerrado?
José Saramago . Encerradíssimo. Já lhe pus uma pedra em cima.
Durão Barroso . Óptimo. Assim podemos comer descansados.

(Sentam-se frente a frente, afrouxam os nós das gravatas, pousam no colo os guardanapos de pano)

José Saramago . Quanto ao sabor não sei, caro sr. primeiro-ministro, mas lá que cheira bem, cheira.
Durão Barroso . Ui, a nossa cozinheira é uma categoria. Você nem imagina. E o vinho? Quer escolher o vinho?
José Saramago . Claro que sim. Com todo o gosto.
Durão Barroso . Parece que há para aí um tinto muito jeitoso...
José Saramago . Talvez. Mas olhe que eu, por mim, votava no branco.

Publicado por José Mário Silva às 08:17 PM | Comentários (5)

REGRESSOS

A Margarida voltou ao activo (hip! hip!); a Marta também (hurra!). E já não era sem tempo . até porque o lado feminino deste blogue andava, digamos, um tanto ou quanto adormecido. Agora só falta o atarefadíssimo Manel e o Frederico bissexto. Porque o Frazão, esse, hélas pour nous, anda com a cabeça noutros lados.

Publicado por José Mário Silva às 05:22 PM | Comentários (9)

A COISA MAIS BELA DO MUNDO

Reparem bem. Isto que vêem é um líquen. Um pequeno prodígio da natureza. A associação de um fungo com uma alga. Sem o fungo, a alga morre. Sem a alga, o fungo não se aguenta. Juntos, resistem a tudo. Juntos, vivem de quase nada. Juntos, abrem caminho para a vida (mesmo sobre rochas nuas, onde a vida nunca existiu). Juntos, constroem a coisa mais bela do mundo. Aquilo a que se costuma chamar simbiose mutualista.

Publicado por José Mário Silva às 05:15 PM | Comentários (10)

A NOVA RESISTÊNCIA E A DEMOCRACIA DOS HIPÓCRITAS

Tariq Ali é um intelectual e artista paquistanês que vê o conflito do Iraque de forma ousada e libertária, dentro da linha de uma certa esquerda. Ensaísta político, editor, historiador, marxista crítico da experiência soviética, é também autor de romances, argumentos para cinema, textos para teatro e óperas – uma delas sobre Khomeini. Apoia e participa nos Fóruns Sociais Mundiais. Este seu texto foi originalmente publicado no jornal italiano Il Manifesto e eu tirei-o do boletim on-line Porto Alegre.

Logo após a ocupação, os Estados Unidos e seus aliados – os militares e os ideológicos – apresentavam a resistência iraquiana como “elementos estrangeiros”, “terroristas”, ou “ex-seguidores do regime de Saddam”. Esta fraseologia, porém, tornou-se inócua, e agora os porta-vozes militares norte-americanos referem-se à guerrilha definindo-a simplesmente como “forças anti-iraquianas”, como para sugerir que as tropas estadunidenses, inglesas, espanholas, búlgaras, ucranianas, italianas, japonesas, sul-coreanas e polonesas representam o Iraque, enquanto os iraquianos que resistem à ocupação são o anti-Iraque. Estranho mundo...

Quando as mentiras utilizadas por Bush, Blair, Aznar e Berlusconi perderam crédito junto da opinião pública, porque não se encontraram as armas de destruição em massa, os escritórios de propaganda de todos estes governos, e seus jornalistas favoritos mudaram de linha. Começaram a dizer: “Bem, talvez não haja armas, mas livramos o mundo de um tirano e levamos a democracia ao Iraque”. A sério? Democracia? Ainda que ponhamos de lado os muitos milhares de civis iraquianos mortos, e os que têm vindo a cair nos últimos dias, esvaiu-se agora qualquer discurso de democracia que tenha um mínimo de significado.

O velho ideólogo imperial Samuel Huntington fala de um “paradoxo democrático”. Sabem o que isso significa? Quando a democracia não exprime o que o Ocidente gostaria que exprimisse, surge um “paradoxo”. E para a democracia capitalista de hoje, qualquer desafio à ordem económica neoliberal é um paradoxo. Os iraquianos, a quem não agrada que seu sistema de saúde e educação seja privatizado, vivem, “no passado”. Os profissionais iraquianos, que desprezam as corporations introduzidas com a invasão, são “elementos atrasados”. Quando os homens de negócios estrangeiros são atacados, os iraquianos de todas as classes (excepto os colaboracionistas) comemoram. As companhias estrangeiras são vistas como um enxame de gafanhotos que vêm devorar o país ocupado.

Marta Lança

Novas alianças contra a ocupação

É óbvio que se no Iraque a democracia fosse finalmente consentida, os representantes eleitos exigiriam a remoção de todas as tropas não-iraquianas, o controle iraquiano sobre o petróleo do Iraque e talvez um acordo de paz de longo prazo com o Irã. Nada disso serve aos interesses imperiais. Henry Kissinger e outras aves de rapina sugerem, em contrapartida, a balcanização do Iraque. Daí os discursos sobre uma guerra civil iminente. Daí a provocação de bombardear os peregrinos em Kerbala (um crime não assumido por ninguém, no Iraque). Nem o discurso dos religiosos sunitas e xiitas, nem o das forças laicas de origem sunita e xiita, destoa hoje da ideia de um Iraque unido contra a ocupação colonial. O aiatolá xiita Sistani encontrou-se com os líderes sunitas para enfatizar a unidade do país. Em privado, frisou que um modelo clerical à iraniana seria um desastre para o Iraque. Moqtada al-Sadr fala de libertar o país, não de um Iraque xiita.

Nas últimas duas semanas, tornou-se claro que, com excepção dos líderes curdos, o resto do país é contra a ocupação e quer o seu fim imediato. No interior dos grupos religiosos xiitas, está agora em curso uma luta aberta para conquistar o apoio das massas no Sul. A decisão das forças de ocupação de provocar os habitantes de Falluja (apenas dois dias antes que os quatro mercenários norte-americanos fossem atacados e brutalmente mortos, um ataque de marines resultara na morte de dez civis) é claríssima. Por que o jornal de Al-Sadr foi fechado pelos ocupantes? Quando as palavras são proibidas, as bombas tomam seu lugar. Ouçam os sinos que dobram em Falluja e Bassora.

O Iraque e seus habitantes continuam a sofrer. O poeta Sinan Anton leu há poucos dias, em Bagdade, um poema que evoca a atmosfera reinante:

O Eufrates
é uma longa procissão
As margens acariciam as cidades,
enquanto as palmeiras choram

A resistência não é um filme de Hollywood

A decisão de Al-Sadr e seus seguidores, de se unir à resistência, levou milhares de pessoas às ruas, e representa um novo desafio aos ocupantes. É inútil que os ocidentais vertam lágrimas hipócritas pelo Iraque, ou lamentem que a resistência não tenha os altos padrões ocidentais. De que resistência falamos? Quando uma ocupação é repugnante, a resistência não pode ser doce, excepto num filme de Hollywood ou numa comédia italiana. E se os partidos religiosos dominam no sul do Iraque, isso deve-se em parte ao apoio que os Estados Unidos e o Reino Unido deram a alguns deles, nos últimos doze anos.

A solução, para muitos de “centro-esquerda”, é transferir o controle do país à ONU. Foi assim já em 1924, quando os britânicos governavam o Iraque por meio de um mandato da Liga das Nações, que eles próprios haviam imposto. Os EUA poderiam facilmente contar com um mandato análogo do Conselho de Segurança, e garantir, assim a permanência de suas bases militares no país por mais vinte anos. Mas o que ocorrerá se não for possível obter esta solução, que visa perpetuar o controle, enquanto se transmite à opinião pública mundial a ideia de que os nativos retomaram o comando sobre seu país? Washington voltará aos bombardeios e aos “danos colaterais”? (as vidas dos civis importam pouco ao Ocidente, como vimos no Iraque e Afeganistão). “Sim”, poderia argumentar um bom liberal, “mas substituir os EUA pela ONU não seria um primeiro passo?” A resposta poderia vir na forma de outra pergunta: isso não depende de quem controla e decide o que as Nações Unidas fazem? E quem decidirá?

Para os cidadãos dos países cujos governos e líderes apoiaram a guerra, a prioridade deve ser o castigo dos que cultivam a violência e a rapina – a exemplo do que fizeram os espanhóis. Se Aznar for seguido no Valhala por Berlusconi, Blair e Bush, esta será uma vitória importante. E então devemos montar uma campanha para que seus sucessores acabem com a ocupação. O uso puro e simples das Nações Unidas poderia revelar-se um pretexto para livrar a cara dos invasores. Nada mais que isso.
Tariq Ali

Publicado por José Luís Peixoto às 03:57 PM | Comentários (6)

A FALTA QUE UM 'R' FAZ

«Du_ão que_ da_ cont_ibuto pa_a 'cicat_izar as fe_idas da _evolução'» (ler no «Público»).

Publicado por José Mário Silva às 03:55 PM | Comentários (3)

O 25 DE ABRIL DOS CONSERVADORES

A ideia de substituir a Revolução de Abril por uma mais civilizada e anódina "Evolução" já tem dado muito que falar.
Houve quem se espantasse com a audácia descarada da ideia. Não percebo bem porquê. Para um conservador, a própria ideia de revolução é um embaraço. Ele prefere imaginar a História como um fluxo tranquilo, sem rápidos traiçoeiros e livre de turbulências perigosas. Para que o progresso faça mesmo sentido, deve obedecer apenas a um lento moldar da nossa realidade social à "verdadeira" essência do ser humano; processos mais urgentes ou abruptos são de relegar para a prateleira das aberrações sem significado especial.
Para este conservador bem-pensante, devemos até evitar que as massas ignaras sequer sonhem que pode haver melhor forma de cuidar dos seus destinos do que confiar na "gestão" e nos "aperfeiçoamentos" "implementados" pelas elites - sempre com máxima temperança, claro.
Há uns tempos, a moda era proclamar o fim da História; agora, suspira-se pela atenuação da História, pelo nivelamento dos seus cumes e vales numa planície isenta de acidentes topográficos. Um espelho sereno que se estende ininterrupto em direcção ao futuro, mas que também engole o passado. Assim, o estadista conservador poderá gabar os "combatentes do ultramar" enquanto bajula, sem sobressaltos morais, os ladrões que mandam em Angola. Não há contradições em territórios onde a memória histórica é coisa fluida e "subjectiva".

À laia de caução, o ministro Sarmento sempre foi dizendo que quer falar "à geração para quem o 25 de Abril é uma data da História, como o 05 de Outubro, e para quem a liberdade e a democracia são valores adquiridos". Solução? Comparar indicadores de nível de vida do "Antes" e do "Agora". Ignorar como minudência irrelevante o dia que ficou a separar aqueles dois tempos: o 25 de Abril. Esquecer que no "Antes" havia gente presa, torturada e morta por ousar imaginar Portugal num "Agora" onde se pudesse viver sem mordaças nem algemas quotidianas.
Como "liberdade" e "democracia" correm o risco de decair em "valores adquiridos", o melhor é nem falar neles. Toca a esconder que, há apenas 30 anos, se podia ir dentro só por enumerar esses substantivos em voz alta. Óbvio, não é?

Morais Sarmento começou logo por nos assegurar que as comemorações "não podem ter nenhuma carga subjectiva ou política", mas devem focar a evolução do país, pois "é de evolução que se trata quando comparamos o país em 1974 com o de 2004".
Para o ano, se calhar, a comparação já será feita com o ano de 1973. Ou de 1975. O que interessa é ver as bonitas setas dos gráficos a descolar, voando rumo aos promissores céus do progresso e da qualidade de vida. A ninguém interessa que tenha havido uma revolução pelo meio. Pensar nisso representaria apenas mais uma "carga subjectiva ou política" a esforçar as meninges, que se desejam tranquilas, do bom povo português.


PS: As próximas ideias do ministro-boxeur passam, ao que consta, por falar aos jovens da Internet, de DVDs e de telemóveis. Isto a propósito da (R)Evolução de Abril. Porquê? Sei lá; talvez porque, nas palavras do fulano, importa mais "olhar para a frente do que olhar para trás". Amanhã, os nossos filhos talvez acreditem que o e-mail foi a grande conquista de Abril...

Publicado por Luis Rainha às 03:50 PM | Comentários (10)

AS SAUDADES IMPOSSÍVEIS

No dia 25 de Abril de 1974, eu não ouvi, vinte minutos depois da meia-noite, a «Grândola» do Zeca na Rádio Renascença, o som das botas a marchar, aqueles versos libertadores («o povo é quem mais ordena/ dentro de ti ó cidade»), o sinal de que algo se iria romper na ordem cinzenta de um país sufocado, a certeza de que o fruto podre de um poder podre haveria finalmente de cair por terra. No dia 25 de Abril de 1974, eu não escutei o primeiro comunicado do MFA, lido pela voz de Joaquim Furtado na antena do Rádio Clube Português: «Aqui posto de comando das Forças Armadas». No dia 25 de Abril de 1974, eu não vi os soldados da Escola Prática de Cavalaria de Santarém a ocuparem o Terreiro do Paço, nem a marcha das chaimites através das ruas da cidade, nem o cerco ao Quartel do Carmo, nem Salgueiro Maia, de megafone em punho, apelando à rendição de Marcello Caetano, nem o Presidente do Conselho a exigir a presença de um oficial de patente «não inferior a coronel», nem a chegada de Spínola (altivo como sempre, de monóculo e pingalim), nem a espera tensa da multidão que ali se havia juntado, nem o silêncio que precede os grandes momentos da História, nem a bandeira branca da rendição hasteada no quartel, nem a alegria irreprimível do povo já certo da vitória, nem a saída de mansinho da chaimite Bula (com Caetano e dois ministros lá dentro) enquanto o Largo se enchia de um grito unânime: «Assassinos». No dia 25 de Abril de 1974, eu não vi os verdadeiros assassinos escondidos atrás das janelas, na sede da PIDE, descarregando as armas sobre os manifestantes que enchiam a Rua António Maria Cardoso, disparando a eito com a raiva da derrota, matando quatro pessoas e fazendo dezenas de feridos. No dia 25 de Abril de 1974, eu não andei pelas avenidas de Lisboa, a saborear letra a letra, sílaba a sílaba, a palavra Liberdade. Não ofereci cigarros aos soldados, não pedi um cravo para pôr na lapela, não fotografei rostos eufóricos, não fiquei rouco de cantar palavras de ordem, não subi às estátuas para contemplar os rios de gente, não guardei na memória, minuciosamente, cada segundo daquele que já era o «dia inicial, inteiro e limpo», cantado mais tarde pela Sophia.
No dia 25 de Abril de 1974, eu não escutei, nem vi, nem fiz nada disto por uma razão muito simples: estava longe, em Paris. E tinha apenas, de idade, dois anos, um mês e 23 dias. A minha memória do 25 de Abril, a memória da mais bela das revoluções, é por isso uma coisa construída pelas palavras dos outros, pelas imagens dos outros, pelos olhos a brilhar de nostalgia dos outros. Eu não fiz, eu não vi, eu não escutei. E tenho pena. É como se me tivessem roubado aquele dia de puro espanto. Aquele dia de que ainda hoje, quando desço a Avenida num ritual melancólico, sinto saudades.

Nota: este texto foi publicado, ontem, no «Jornal de Letras».

Publicado por José Mário Silva às 03:45 PM | Comentários (6)

PARA VOSOTROS, PUTAS Y DINERO

Há meia dúzia de semanas eram galácticos, deuses da revienga de outro planeta, Figo, Raul, Zidane, Beckham e Ronaldo, os novos Starbucks e Apollos numa nave espacial cujo limite não se conhecia. Afinal o limite está já ao virar da esquina, em qualquer canto do Retiro ou da Gran Via. Os pés de barro da rapaziada aqueceram demais e estão prestes a ficar em cacos. Ainda por cima, no vernáculo dos aficionados, que há pouco lhes cantavam loas, a louça é das Caldas e o que conta mesmo é o NIB. Desporto cruel, o que hoje é verdade amanhã já não o é, mais vale um golo de braço do que mil rabos de cavalo fashion. Caro merengue, não perca toda a fé na magia destes rapazes, pode sempre vê-los a dar o litro num spot publicitário em qualquer televisão perto de si. Olé! (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 03:41 PM | Comentários (1)

CUIDADO

Anda um serial killer à solta nos hospitais portugueses. O seu nome: anestesia.

Publicado por José Mário Silva às 01:07 PM | Comentários (1)

O LINDO ROSTO DA DEMOCRACIA NO IRAQUE

A ideia de levar a Democracia ao martirizado Iraque até soa bem, não é? O pior é quando se desce do pedestal das bonitas utopias para os pormenores comezinhos e sórdidos. É aqui que entra Ahmed Chalabi.
Este matemático, que esteve ausente do Iraque durante 45 anos . exceptuando uns dias em que tentou "organizar" um levantamento curdo, com os resultados conhecidos . lidera o Iraqi National Congress, uma entidade fundada em 92 com o apoio exclusivo do governo dos EUA.
Ele é também o alvo de um pedido de captura por parte das autoridades da Jordânia, que gostariam de o ver cumprir a pena de 22 anos de trabalhos forçados a que foi condenado por fraude. A falência do Banco Petra causou o desaparecimento de 300 milhões de dólares e do próprio Chalabi, que agora se diz alvo de uma cabala envolvendo os dois Husseins . Saddam e o então rei da Jordânia. Em 2003, circulou entre os deputados jordanos uma petição a exigir, apesar das fortíssimas pressões do tio Sam, a extradição do bom Ahmmed.
É esta criatura insalubre que já afia as garras para se locupletar com o cargo de primeiro-ministro do "Iraque Democrático". E mais: na sondagem da BBC que há um mês fez as delícias de José Manuel Fernandes, Chalabi aparecia no fundo da escala de confiança atribuída pelos iraquianos aos seus líderes, com uns meros 0,3% de preferências - bem atrás do próprio Saddam - e seguindo destacado à frente da lista das personalidades... em quem ninguém confia!
Mas que raio interessa a opinião do povo se o homem sempre foi um favorito dos falcões do Pentágono? Hoje, ele lidera a comissão de "desbaathificação"; e, de acordo com este artigo da UPI, gasta o seu tempo a acumular dinheiro e influência. Dinheiro, através de comissões cobradas a empresas que queiram a sua piece of the pie na reconstrução. Influência, graças aos ficheiros da polícia secreta de Saddam que o INC entretanto desviou e graças à nomeação de fiéis seus para postos-chave na administração provisória.
Chalabi usou os mais de 40 milhões de dólares que recebeu desde 94 para forjar provas e testemunhos quanto ao poderio militar de Saddam e às invisíveis armas de destruição em massa. Chalabi enganou mais uma vez os seus sponsors americanos quando lhes garantiu que todo o povo se ergueria em hosanas aos invasores, mal estes pusessem pé em território iraquiano.

Já em 2002 o analista Richard Dreyfuss escrevia que "The Pentagon's critics are appalled that intelligence provided by the INC might shape U.S. decisions about going to war against Baghdad. At the CIA and at the State Department, Ahmed Chalabi, the INC's leader, is viewed as the ineffectual head of a self-inflated and corrupt organization skilled at lobbying and public relations, but not much else."
Vincent Cannistraro, um antigo quadro da CIA, afirmou, sem papas na língua: "The [INC's] intelligence isn't reliable at all, much of it is propaganda. Much of it is telling the Defense Department what they want to hear. And much of it is used to support Chalabi's own presidential ambitions. They make no distinction between intelligence and propaganda, using alleged informants and defectors who say what Chalabi wants them to say, [creating] cooked information that goes right into presidential and vice-presidential speeches."

E como se pune este esforço de desinformação e de perpetuação da corrupção no Iraque?
Simples: coloca-se o homem no cargo de primeiro-ministro do Iraque. E o mais depressa possível.
Já no próximo mês de Julho, Chalabi vai conseguir o que sempre quis. Depois, os seus abundantes dólares hão-de olear as máquinas propagandísticas que irão convencer os iraquianos a votar no homem que hoje consideram ser muito menos digno de confiança do que Saddam. Se isto falhar, por certo que não falhará uma qualquer "avaria" dos mecanismos eleitorais...

Sai Hussein, entra Chalabi. E foi para isto que se invadiu um país e se liquidaram incontáveis milhares de vidas humanas. Só me apetece acabar este post com um palavrão.

Publicado por Luis Rainha às 12:42 PM | Comentários (5)

QUADROS QUE GOSTARIA DE LEVAR PARA A CASA NOVA (1)

La bouée rouge, de Paul Signac (1895)

Publicado por José Mário Silva às 12:22 AM | Comentários (10)

LIVROS DE BOLSO

Não pude trazer muita bagagem de Lisboa para Paris (muito menos do que estava habituado para os EUA). Trouxe quatro livros de literatura. Quatro clássicos da literatura francesa. Quatro livros de bolso da Europa-América, comprados pelo meu pai nos anos 70.
Nos países desenvolvidos há um cuidado em fazer sempre edições dos livros a preços módicos. Nos EUA há as edições de capa mole. Na Itália, há uma indústria de livros de bolso, como Lyon de Castro criou, mas com uma expansão muito maior. Praticamente todos os grandes livros de ficção universal têm ou uma edição em capa mole ou uma edição de bolso. Esta é a política de todas as editoras.
Em Portugal, o mercado do livro de "edição económica" é pouco relevante, e aplica-se somente a clássicos. É praticamente impossível encontrar edições económicas de livros recentes. E toda a gente parece muito feliz com o estado das coisas. Preferem queixar-se da falta de hábitos de leitura dos portugueses, fingindo ignorar o sucesso das recentes "colecções de quiosque" promovidas pelos dois principais jornais e por algumas revistas.
Mesmo alguns autores sentem repelência pelos livros de bolso. Lembro-me de aqui há uns anos, o grande poeta Vasco Graça Moura ter-se referido desdenhosamente, num dos seus artigos no DN, às edições de bolso como livros baratos e pouco sofisticados. Cito de memória, até porque foi o último texto do poeta que eu li até hoje. Espero que a sua obra nunca seja publicada em edições de bolso, se isso lhe causa tanto incómodo.
Estes dados são para reflectir, principalmente por quem acha que o "meio cultural" é dominado pela "esquerda".

Publicado por Filipe Moura às 12:14 AM | Comentários (6)

O GRANDE DEMOCRATIZADOR DO LIVRO

Francisco Lyon de Castro morreu. Tão perto dos 30 anos do 25 de Abril.
Será justamente lembrado, como os jornais o recordaram, como o editor mais velho do mundo em actividade e como um antifascista que fundou uma editora (as Publicações Europa-América) em 1945, quando esperava alguma abertura política em Portugal. Em conjunto com Fernando Piteira Santos, foi o principal editor do neo-realismo português, tendo publicado inúmeras obras de autores antifascistas. Além disso, teve a coragem de publicar em Portugal obras de escritores estrangeiros "malditos", como Jorge Amado, Graciliano Ramos ou Gabriel García Marquez. Para uma boa evocação (em três partes), veja-se aqui, aqui e aqui.
Mas outra das suas principais contribuições, que não tem sido referida, foi a de tornar acessível ao grande público uma série de obras-primas da literatura portuguesa e universal, através da colecção dos "Livros de Bolso". Hoje em dia há várias colecções de livros de bolso, de diversas editoras, mas a de Lyon de Castro foi pioneira. A maior parte das pessoas da geração dos meus pais que eu conheço têm vários volumes desta colecção, e muitos, como o meu pai, dedicaram-se mesmo a comprar a colecção toda nos primeiros anos. Francisco Lyon de Castro tornou possível que muitos portugueses com menos posses lessem mais. Só isso já seria altamente meritório. A colecção dos .Livros de Bolso. já não é o que era, no que diz respeito aos livros que publica actualmente (muitos, objectivamente, não são grandes obras da literatura universal), mas isso não diminui o papel pioneiro e a grande importância que teve e continua a ter. O facto de grande parte dos livros que Francisco Lyon de Castro publicou serem incómodos para o regime fascista, então, merece todo o nosso respeito. Curvo-me perante a sua memória.

Publicado por Filipe Moura às 12:10 AM | Comentários (7)

A HISTÓRIA REPETE-SE (COMO TRAGÉDIA E FARSA, AO MESMO TEMPO)

Publicado por José Mário Silva às 12:07 AM | Comentários (1)

abril 14, 2004

VAGA DE FUNDO

Será que ele vai aceder?

Publicado por tchernignobyl às 04:29 PM | Comentários (11)

CESSAR-FOGO?

As imagens de combates passadas ontem à noite na Skynews sobre o "cessar fogo" em Fallujah, dão uma pálida ideia do que eu queria dizer com o meu post do iceberg carregado de "sombrio pessimismo".
nota: lamentavelmente não consigo encontrar um link que mostre essas imagens de combate nocturno.

Publicado por tchernignobyl às 01:18 PM | Comentários (1)

HELP! I NEED SOMEBODY

Num súbito acesso de bom senso, os Estados Unidos pedem agora ajuda à ONU . não já para dirigir "creches", como sugeria o fascistóide Perle, mas para dar com os cornos numa guerra que eles criaram . e até ao Irão, negociando assim abertamente com um país "terrorista" do "eixo do mal", com certeza para escândalo dos pachecos, fernandes e delgados .
Tudo isto até estaria bem. Não podemos de facto voltar as costas . por quê nem para quê não sei bem, mas enfim . à tragédia que se está a desenvolver.
O problema é saber-se que os Estados Unidos só estão agora a pedir ajuda porque perceberam que AINDA precisam dela, ao contrário do que pensavam os seus estrategas mais paranóicos. E não há aqui infelizmente nenhuma conversão ao "multilateralismo", o que envena à partida qualquer possibilidade de colaboração com a actual liderança, sobretudo sendo os EUA o país no planeta com maior orçamento militar em termos brutos (e de longe) e que uma das correntes que dominam o seu pensamento estratégico é abertamente desfavorável ao "sentimentalismo" que de algum modo limite a prossecução dos seus "interesses nacionais", i.e. o domínio de todo o planeta.

Publicado por tchernignobyl às 01:07 PM | Comentários (0)

POST DEDICADO AO FILIPE MOURA E A TODOS OS CIENTISTAS ESTRANGEIRADOS


Cartoon de Pancho, «Le Monde»

A não ser que esta medida da até aqui discretíssima ministra da Ciência e do Ensino Superior, Maria da Graça Carvalho, consiga mudar o estado das coisas.
Mas acham mesmo que mudará?
Quantos investigadores portugueses é que já publicaram «100 artigos científicos em revistas internacionais referenciadas nas bases de dados do Instituto para Informação Científica, nos EUA» e conseguiram «200 citações em trabalhos de outras equipas de investigação»?
Conhecem algum?

Publicado por José Mário Silva às 12:43 PM | Comentários (21)

VINHETA URBANA

Nas escadas do metro, o mendigo exibia o seu pé negro, a sujidade escondendo uma monstruosa anatomia. Tudo nele era lentidão: cada gesto, os olhos baços, o gorro para o frio que já passou.
Junto à perna disforme, um pequeno altar para as esmolas. A imagem do Sagrado Coração de Jesus . com espinhos, sangue e auréola . dentro de um copo de plástico da McDonald's.

Publicado por José Mário Silva às 12:26 PM | Comentários (3)

O FINGIMENTO DE ULISSES

João Barrento escolheu e traduziu, para a Assírio & Alvim, algumas das Parábolas e Fragmentos de Franz Kafka. Escusado será dizer que são textos magníficos. Atentem, por exemplo, neste:

O SILÊNCIO DAS SEREIAS

Com o que se prova que até os meios mais insuficientes,
mesmo infantis, podem servir para nos salvar.

«Para se defender das Sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e deixou que o prendessem ao mastro. A mesma coisa poderiam, naturalmente, ter feito desde sempre todos os viajantes (à excepção daqueles que já à distância se deixavam atrair pelas sereias), mas todo o mundo sabia que isso de nada serviria. O canto das sereias atravessava tudo, até a cera, e a paixão dos seduzidos teria conseguido soltar-se de mais coisas que correntes e mastros. Mas Ulisses não pensava nisso, embora talvez tivesse ouvido falar de tais coisas; confiava plenamente no bocadinho de cera e no molho de correntes e, cheio da alegria ingénua que lhe davam estes seus ínfimos meios, lançou-se ao encontro das sereias.
Acontece que as sereias têm uma arma ainda mais terrível que o canto . o seu silêncio. Na verdade nunca aconteceu, mas é perfeitamente plausível imaginar que alguém se pudesse salvar do seu canto. Do seu silêncio, certamente que não. Nada de terreno pode resistir à sensação de as ter vencido com as próprias forças, à arrogância que, na sequência disso, tudo derrubaria.
E, de facto, quando Ulisses passou, estas portentosas cantoras não cantaram. Ou porque pensaram que a este adversário só se lhe chegava pelo silêncio, ou porque, à vista da felicidade estampada na cara de Ulisses, que só pensava em cera e correntes, esqueceram de vez a cantoria.»

«Ulisses, no entanto . se é que assim nos podemos exprimir ., não ouviu o seu silêncio; pensou que elas cantavam, e que ele é que estava impedido de as ouvir; começou por ver nelas, de fugida, os movimentos do pescoço, a respiração funda, os olhos rasos de água, a boca semi-aberta, e pensava que tudo isto acompanhava as árias que ecoavam à sua volta. Mas depressa tudo se desvaneceu diante dos seus olhos postos na lonjura, as sereias desapareceram realmente do seu horizonte, e precisamente no momento em que delas mais próximo esteve é que nada delas pôde saber.
Elas, porém, mais belas do que nunca, espreguiçavam-se, giravam, deixavam esvoaçar os cabelos soltos ao vento, estendiam as garras para se agarrar aos rochedos, já não queriam seduzir, queriam apenas deixar-se captar pelo brilho do grande par de olhos de Ulisses, e quanto mais tempo, melhor.
Se as sereias tivessem consciência, nessa altura teriam sido destruídas; assim, lá ficaram, mas Ulisses escapou-se-lhes.
A tradição, porém, legou-nos ainda um complemento da história. Ulisses, diz-se, era tão manhoso, era uma raposa tal que nem a deusa do destino conseguia ler-lhe na alma. Talvez ele tivesse notado . mas isso já está para lá do entendimento humano . que as sereias estavam caladas, e respondeu-lhes, a elas e aos deuses, com aquele fingimento, de certo modo apenas para se defender.»

Publicado por José Mário Silva às 10:55 AM | Comentários (1)

ONOMATOPEIA

Na banca das novidades, um romance: «Bombons Chineses» (Editorial Notícias). Autora: Mian Mian. Agora experimentem ler este post em voz alta.

Publicado por Margarida Ferra às 10:33 AM | Comentários (7)

READ MY LIPS: S-A-D-D-A-M


Cartoon de Cam Cardow, «The Ottawa Citizen»

Publicado por José Mário Silva às 09:41 AM | Comentários (0)

SEGUNDA FEIRA DE PÁSCOA, NUMA UNIVERSIDADE FRANCESA

Desde domingo de manhã até ontem, durante mais de quarenta e oito horas, não consegui estabelecer ligação com o computador principal do centro da Universidade onde trabalho. Houve um problema com a alimentação do computador, e não houve quem a reparasse. Durante esse período, não consegui ler o meu email (que vai todo para aquela máquina), e nem consegui obter as versões mais recentes dos ficheiros de computador necessários para o meu trabalho.
Pus-me a pensar. Uma comparação é inevitável. Na minha anterior universidade, nos EUA (uma universidade pública, deixem-me referir, antes que apareçam os liberais do costume), uma avaria destas seria reparada, em condições normais, em poucas horas, mesmo ao fim de semana. Condições anormais seriam o dia de Thanksgiving (talvez demorasse um pouco mais, mas não muito) e condições atmosféricas especialmente adversas (neve, ...).
Este é um argumento a favor da diversidade religiosa nas universidades. Deixem-me só referir um pormenor que, julgo, tem importância: os responsáveis informáticos dos diferentes grupos de investigação do meu departamento, na minha anterior universidade, eram todos... chineses. O responsável pelo departamento do Instituto Superior Técnico onde trabalhei, também (e nunca lá houve uma avaria tão demorada, em vários anos). Os responsáveis pelos computadores no meu actual centro de investigação são franceses (que fazem bem o seu trabalho, quando estão ao serviço).
Conclusão? Acho que toda a gente tem a ganhar com a flexibilização dos horários de trabalho (não tem nada a ver com flexibilização de contratos!). A França, neste aspecto, parece-me um pouco mais avançada do que Portugal, mas não muito.

Publicado por Filipe Moura às 02:09 AM | Comentários (2)

SEGUNDA FEIRA DE PÁSCOA, NUMA UNIVERSIDADE AMERICANA

Ainda estou incluído na lista de emails da minha anterior Universidade. E recebi este:
.Monday, April 12, 2004 - YITP Seminar

Thomas Schwetz, TUM, Munich

"Neutrino Oscillations: Current status and prospect for the coming ten years"

1:00 PM
.

É assim numa segunda feira de Páscoa. Estes americanos são mesmo uns infiéis.

Publicado por Filipe Moura às 02:05 AM | Comentários (0)

abril 13, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

RETRATO [FRANCESCA WOODMAN]

Antes da morte, houve ilusões de óptica:
a geometria interior do medo, espelhos,
flores barrocas, casas que são corpos em
ruínas e a janela violenta, temível, aberta.

Antes da morte, houve súbitas revelações:
espanto, dor, luz vermelha, molas da roupa,
tantos gestos a meio caminho, eclipses, fugas,
talvez já este olhar que atrai todas as sombras.

José Mário Silva, Nuvens & Labirintos (Gótica, 2001)

Publicado por Margarida Ferra às 11:53 PM | Comentários (5)

AINDA LEMBRANDO FRANCESCA WOODMAN

«. Não respire!
Não estava no fotógrafo. Estava no serviço de radiologia de Reykjavik. É a frase de todas as sociedades aos seus cidadãos: "Não respirem."»

Pascal Quignard, As Sombras Errantes (Gótica, 2003)

Publicado por José Mário Silva às 11:48 PM | Comentários (2)

POEM ABOUT 14 HANDS HIGH

«i am apprehensive. it is like when
i played the piano. first i learned to
read music and then at one point i
no longer needed to translate the notes:
they went directly to my hands. After a
while i stopped playing and when i
started again i found i could not
play. i could not play by
instinct and i had forgotten how
to read music.»
(Francesca Woodman)

Publicado por José Mário Silva às 11:45 PM | Comentários (1)

HOJE ANDEI COM ESTA IMAGEM DENTRO DA CABEÇA

A fotografia é de Francesca Woodman.
Imagem estranha, como quase todas as que conseguiu captar.
Olho para a sombra desenhada no chão branco e vejo um corpo. Olho para o corpo sentado na cadeira e vejo uma sombra.
O título é o lugar: Providence, Rhode Island.
A data: 1976.
Cinco anos antes da sua morte. Cinco anos antes do suicídio. Cinco anos antes do voo sem asas.

Publicado por José Mário Silva às 11:41 PM | Comentários (9)

O ESPELHO


Francesca Woodman, Self-Deceit, Rome (1978-1979)

Publicado por José Mário Silva às 11:38 PM | Comentários (1)

QUASE UM AFORISMO

O único espelho verdadeiro é o que nos devolve um rosto estilhaçado.

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (2)

UMA VERDADE QUE FERE


Cartoon de El Roto, «El País»

Publicado por José Mário Silva às 06:36 PM | Comentários (5)

LEAVES OF GRASS

Num poema do seu mais recente opus («Blues for Mary Jane», & Etc) . livro atravessado, como todos os outros, por inúmeros eflúvios alcoólicos e um forte cheiro a cannabis ., Manuel de Freitas sai-se, às tantas, com estes versos:

«(...) Até fumo por semana
menos charros do que os livros
que entretanto publiquei. (...)»

À primeira vista, este desabafo pode ser lido como um assomo de melancolia, um lamento de quem já não abusa, como outrora, de baudelairianos paraísos artificiais. Pura ilusão. Basta conferir a generosa bibliografia do rapaz para compreender que não lhe há-de faltar matéria para os hebdomadários transportes e delírios.

Publicado por José Mário Silva às 06:28 PM | Comentários (2)

DA CIDADE PARA AS SERRAS (4)

Quem se assustar com o castelo do meu post anterior tem bom remédio. É só seguir este sinal e fugir para paragens mais preservadas: a bonita vila medieval de Trancoso.
Da última vez que aqui estive, o sinal ainda assinalava os 10Km de distância, cuidadosamente cadastrados por quem zela por estas coisas do turismo. Acontece é que se trata de um caminho que nem a cabras se recomendaria. Depois de algumas dúzias de automóveis atolados num beco-sem-saída intransitável, alguém teve a piedosa ideia de emendar a tabuleta.
O caminho em questão é uma subida quase contínua, por entre calhaus e urzes. Conta-me quem se lembra que, há apenas 60 anos, ainda era usado pelos criados das casas senhoriais que demandavam Trancoso em busca de mantimentos. Imaginem as viagens de regresso, com os pobres ajoujados por quilos de carnes e litros de finos vinhos...
(Os senhores por certo que nem sonhariam gastar os seus preciosos e raros automóveis em tão rasteira tarefa.)

Publicado por Luis Rainha às 06:17 PM | Comentários (0)

O PROBLEMA DA ABSTENÇÃO

Agora que as eleições europeias foram marcadas para um domingo complicado (13 de Junho) . complicado, esclareça-se, porque fecha uma das raras "pontes" de 2004 e coincide com o fim-de-semana de abertura do Campeonato da Europa de Futebol ., voltámos a ouvir falar do magno problema da abstenção. Do Presidente da República aos líderes parlamentares, toda a gente parece preocupada com a hipótese de os eleitores portugueses, fugidios por natureza, se baldarem em grande a mais este acto eleitoral. Temendo a debandada em massa para os Algarves, para as praias da Linha e para os cafés com cerveja, tremoços e bola no ecrã gigante, os poderes públicos afadigam-se na defesa da participação democrática e no apelo ao voto como dever cívico, indo ao ponto de sugerir urnas com horário nocturno (até às 22 horas).
Se calhar o problema é meu, mas não consigo entender . nunca consegui . os argumentos de quem não vota porque, supostamente, está a fazer outra coisa qualquer. Não votar porque não se quer votar, eu compreendo e respeito; mas não votar porque se foi à Fonte da Telha, ou ao cinema, é uma sabotagem, uma desistência cobarde e uma hipocrisia. Passo a explicar porquê.
O acto de votar compreende as seguintes fases:

- levantar do sofá
- conferir se temos o cartão de eleitor no bolso
- sair de casa
- caminhar a pé até uma das escolas da freguesia onde se habita (ou conduzir até outra freguesia da mesma cidade, onde ainda se esteja . por mera preguiça . recenseado)
- Entrar na escola
- Procurar a sala correspondente ao nosso número de eleitor (é quase sempre a mesma)
- Esperar na fila uns cinco ou dez minutos, no pior dos casos
- Entregar o BI, antes de pegar no boletim de voto e numa caneta
- Fazer uma cruzinha, escondido por um biombo, em frente do político ou do partido que nos parece melhor, ou menos mau (no caso de algumas pessoas . e de muitas personagens de Saramago . não escrever nada; no caso do meu amigo Luis Graça, mais dado ao nulo do que ao branco, criar com o boletim um objecto de arte impura)
- Dobrar o papel em quatro
- Voltar à mesa e depositá-lo na urna
- Reaver o BI e o boletim de eleitor, guardá-los e sair da escola
- Regressar a casa (ou não)

Tempo total dispendido: meia hora, no máximo.
Quer isto dizer que:

- quem quer ir à praia, pode ir à praia antes (ou depois) de votar
- quem quer ir ao cinema, pode ir ao cinema depois (ou antes) de votar
- quem quer aproveitar o sol de Verão, pode aproveitar o sol de Verão antes (ou depois) de votar
- quem quer ver os jogos do Euro, pode ver os jogos do Euro depois (ou antes) de votar
- quem quer votar, vota mesmo

Será assim tão difícil de perceber?

Publicado por José Mário Silva às 05:42 PM | Comentários (15)

DA CIDADE PARA AS SERRAS (3)

Decidi mostrar-vos um monumento da minha terrinha nas beiras. De início, ainda ponderei escolher a ponte romana que por aqui persiste em suportar gentes, bichos e ciclomotores. Mas o que é uma ponte mandada construir há séculos e séculos por uma civilização sediada a milhares de quilómetros, quando comparada com um autêntico castelo, em pleno processo de edificação?
Reparem bem na arquitectura neo-medieval da coisa. E não percam de vista pormenores como a periclitante ponte levadiça, a bem integrada antena parabólica, ou o atrelado cheio de víveres, pronto para afrontar o mais prolongado cerco!
Fora do enquadramento, ficaram detalhes fascinantes como o tupperware azul posicionado debaixo do contador da água ou o fosso já escavado e a aguardar apenas a chegada dos competentes crocodilos.
Juro-vos que não aproveitei as horas mortas destas férias campestres para inventar monstros com ajuda do Photoshop. Isto existe mesmo. E os senhores de tal castelo até já lá vivem, circunscritos ao rés-do-chão enquanto as ameias e seteiras do 1º andar não estão a postos para defender o castelo e toda a sua inexpugnável glória...

Publicado por Luis Rainha às 05:20 PM | Comentários (8)

ERA UMA VEZ UM GATO QUE AFINAL SE REVELOU UM TIGRE


Cam Cardow, «The Ottawa Citizen»

Publicado por José Mário Silva às 05:01 PM | Comentários (2)

TRAGÉDIA PÓS-MODERNA

Mudei de telemóvel e houve logo quem me perdesse o rasto, afinal tão ténue.

Publicado por José Mário Silva às 04:33 PM | Comentários (4)

CORDA AOS ZAPATOS

Serão reverberações do efeito Zapatero?
O primeiro-ministro aconselhou os cidadãos portugueses a abandonarem o Iraque.
As perspectivas pareciam boas. Empreiteiro que faz a javardice do túnel do Terreiro do Paço está bem qualificado para reconstruir o Iraque.
Os operários que construiram os palácios de Saddam já conhecem os cantos à casa e bem podem reconstrui-los para a nomenklatura da coligação.
O preço inicial é baixo, imbatível, mas o lucro é garantido, com o recurso aos erros e omissões inevitáveis após cada bombardeamento... e com a mão-de-obra barata dos imigrantes deles, ainda para mais.
Infelizmente não há condições climáticas para a prática da sinecura nem orçamento extraordinário que pague os subsídios de risco. O calor aperta, as balas zunem, os camiões troam.
Bah! Deixemos! Outras batalhas esperam os portugueses. Mais exaltantes.
Ao que consta, esgotaram as viagens de avião da carreira Bagdad-Lisboa com a afluência de sensatos militares da GNR que querem regressar ao país, ansiosos por se envolverem de alma e coração nessa batalha mais nobre e difícil (uma luta prolongada, segundo as palavras sábias de Ronald Dumbsfeld, e à qual não podemos virar as costas, esclareceu o escaldado Zé Fernandes) que é o patrulhamento das perigosíssimas estradas portuguesas, metro a metro.
As ordens são claras, de Najaf ao IP4: não negociar com os contraventores.

Publicado por tchernignobyl às 03:52 PM | Comentários (0)

13 DE ABRIL DE 1947

Há 57 anos, o meu pai ainda não era meu pai (muito menos itálico). Era só um recém-nascido assustado com a luz . tão brutal . do mundo. Dentro do seu corpo, no núcleo das suas células, à espera, estavam já alguns dos genes que hoje me dão forma e humildemente lhe agradecem, em silêncio, o facto de existirem. O facto de existirem, sim. E tudo o resto.
Parabéns, pai.

Publicado por José Mário Silva às 12:59 PM | Comentários (7)

ENSAIO SOBRE A LUCIDEZ

Do livro

Bem ao estilo habitual de Saramago, este romance nasce duma impossibilidade, ou melhor, de uma enorme improbabilidade, que é não só a da maioria da população votar em branco, mas também de executar acções simultâneas sem aparente coordenação.
A primeira parte do livro é sublime. Nela se vê o nervosismo crescente do governo face à serenidade da população e o povo da capital a agir como um só, como uma personagem una. O governo é composto por diversas personalidades com constantes picardias, o que funciona verdadeiramente bem como contraponto.
Fazendo uso da sua escrita característica, Saramago estabelece, por vezes, diálogo directo com o leitor, facilitando a empatia, e conferindo mudanças de ritmo à narrativa. Na segunda parte do livro, quando o mesmo se transforma numa sequela ilógica do «Ensaio sobre a Cegueira», a qualidade decai. Mais na trama que na escrita, mas também nesta.

«O silêncio que se sucedeu a estas palavras demonstrou uma vez mais que o tempo não tem nada a ver com o que dizem os relógios, essas maquinetas feitas de rodas que não pensam e de molas que não sentem, desprovidas de um espírito que lhes permitiria imaginar que cinco insignificantes segundos escandidos, o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, haviam sido uma agónica tortura para um lado e um remanso de sublime para o outro.»

Da leitura política

Este é um livro de onde é impossível não retirar uma leitura política. E não se pense que é um livro de elogio ao voto em branco. Não. Se algo é elogiado neste livro é a celebre máxima do anarquismo - ordem sem coacção. Na verdade, o livro chega a retratar uma sociedade ideal, plena de entreajuda e solidariedade, onde não é necessária a existência de forças da ordem ou de órgãos do estado.
É igualmente impossível não retirar algum paralelismo com a actual conjuntura portuguesa, desde a composição do governo de coligação, à democracia mole e pouco participativa ou ao aproveitamente político por parte dos diversos partidos onde o p.d.e. (partido da esquerda) também não é poupado, ao ser o partido que mais se tenta aproveitar do maciço voto em branco.

«Ao ministro da defesa, um civil que não havia ido à tropa, tinha sabido a pouco a declaração do estado de excepção, o que ele tinha querido era um estado de espiríto a sério, dos autênticos, um estado de excepção na mais exacta acepção da palavra, duro.»
(Pedro Farinha)

Do autor

José Saramago é indubitavelmente um excelente escritor e este livro, mesmo não sendo um dos de eleição da sua obra, vem mais uma vez comprovar isso mesmo. No entanto, vem também demonstrar alguma incoerência no seu percurso. O ataque feroz a certas instituições e a criação de um marketing absurdo, relativo à enorme polémica que o livro supostamente viria a ter.
Mesmo no próprio livro, o final (que não vou contar) é incoerente face a todo o rumo que a narrativa tinha tomado. Como se o autor tivesse tido medo de chegar ao final óbvio...

«Uivemos, disse o cão.»


Da polémica

A primeira conclusão a que se chega, ao ler o livro, é que muitas das críticas inflamadas que lhe dirigiram foram feitas por quem o não leu.
A polémica sobre a democraticidade do voto em branco, que chegou a diversas personalidades ou até às sondagens do «Público», resulta muito mais de declarações feitas pelo autor, numa lógica de marketing, do que do livro propriamente dito.

«Passaram os dias, as dificuldades iam em crescendo contínuo, agravavam-se e multiplicavam-se, brotavam debaixo dos pés como tortulhos depois da chuva, mas a firmeza moral da população não parecia inclinada a rebaixar-se nem a renunciar àquilo que achavam justo e que expressara no voto, o simples direito a não seguir nenhuma opinião consensualmente estabelecida.»

Publicado por José Mário Silva às 12:48 PM | Comentários (9)

CIDADE DE DEUS

Os acontecimentos no Iraque, os biliões de excluídos vivendo em megacidades completamente favelizadas, histórias como as da favela da rocinha, podem ser entendidos à luz das nossas construções morais eurocêntricas?
Qual é o diálogo possível aqui? Que bases comuns de entendimento?
Até que ponto é que não assistimos aos primeiros indícios de uma brutal clivagem "civilizacional" sim, mas não no sentido do "choque das civilizações" do Hutington, mais no sentido em que uma minoria de priveligiados, de cujas fronteiras fazemos ainda parte, tenta desesperadamente entricheirar-se em torno dos recursos finitos e não renováveis do planeta que, directa ou indirectamente, controla na sua quase totalidade, contra o assalto de uma massa de totalmente despossuídos, vivendo da economia "informal", da ausência de estado, próximo do mais puro paradigma darwiniano de "luta pela sobrevivência" e "sobrevivência dos mais aptos", com mais afinidades com o "biológico" do que com o "político"?

Publicado por tchernignobyl às 10:45 AM | Comentários (4)

O TIRO PELA CULATRA

Publicado por José Mário Silva às 10:41 AM | Comentários (1)

abril 12, 2004

ASSIM SE VIVE E MORRE NO SEC. XXI

Hoje mesmo, no estado indiano do Uttar Pradesh, 21 mulheres morreram num comício em que um político local, Lalji Tandon, comemorava o seu aniversário. Da celebração fazia parte a oferta à multidão . que excedia as 5.000 pessoas . de saris, o popular vestido indiano. Quando circulou pela assistência que os saris estavam prestes a acabar, todas as senhoras presentes resolveram correr para o palco. Na confusão que se seguiu, as mortes por esmagamento ou asfixia tornaram-se inevitáveis. Sete das vítimas eram crianças.
Como um amigo me disse há dias, é nestes momentos que realmente compreendemos como vive a esmagadora maioria da Humanidade: longe das nossas angústias bizantinas, tão perto da urgência dos actos necessários para sobreviver. Nestas paragens, a pobreza é de tal forma abjecta que vale a pena arriscar a vida por um pedaço de pano. E os políticos lá estão para tirar o devido proveito disso.

PS: E se estão a pensar que só num país como a Índia poderiam candidatos querer conquistar votos desta forma, pensem outra vez. E lembrem-se dos electrodomésticos do major e dos chapéus de chuva com que o "senador" do PP quer mudar de câmara.

Publicado por Luis Rainha às 08:54 PM | Comentários (14)

A MINHA PÁSCOA

A minha Páscoa teve a companhia de um velho amigo meu, também por estes lados, da sua família, de visita de Portugal, e de muito mais gente. Houve bacalhau, chouriço e pão-de-ló. E ovos moles e vinho tinto, directamente de Aveiro. Houve música ao vivo. Cantou-se o Guantanamera e a Internacional. Revi amigos que não via há uns anos (mais esquerda LEFT). Conheci leitores deste blogue. E recebi uma prenda, o almanaque Euroxuto, da Abril em Maio, que analisarei mais tarde, noutro texto.

Publicado por Filipe Moura às 08:50 PM | Comentários (4)

PELAS COMUNIDADES EMIGRANTES, NUM FIM DE SEMANA DE PÁSCOA

Uma Páscoa, para mim, tem de ter um folar. Em Long Island, da minha casa, bastavam-me quinze minutos de carro para arranjar um folar de Páscoa. Se não quisesse dar-me a esse trabalho (ou se não tivesse a sorte de ter uma comunidade portuguesa relativamente perto), em qualquer supermercado encontrava uns bolos polacos praticamente com a mesma massa, mas sem os ovos.
Tendo Paris supostamente a maior comunidade emigrante portuguesa, achei que não deveria ser difícil arranjar um folar. Na zona de Paris em que vivo, perto da Porte d.Orléans, não é raro ouvir emigrantes portugueses nas ruas ou nas lojas. Há uma agência da Caixa Geral de Depósitos e vêem-se pastéis de nata numa ou noutra padaria. Perguntei nessas padarias e confirmei nos supermercados onde às vezes se vê Nestum e atum Bom Petisco. Nada. Rien de rien. Comecei a ficar com saudades de Long Island, nem que fosse pelos bolos polacos.
A comunidade emigrante da Porte d.Orléans está muito bem integrada (óptimo) e definitivamente aburguesada. Para encontrar as nossas raízes, tem de se procurar as classes trabalhadoras, os subúrbios.

Um amigo disse-me que havia uma larga comunidade portuguesa em Saint Denis, a norte de Paris, próximo do Stade de France. É verdade (fica aqui a referência, para quem interessar). Chega-se a Saint Denis e dá-se logo de caras com uma mercearia onde se vendem produtos portugueses. O que mais me interessava eram as charcutarias e os folares. Encontrei as primeiras, mas nada dos segundos. Perguntei à encarregada, que disse que não tinha, mas telefonou a uma padaria ali perto. Já tinham acabado... Recomendou-me então uma outra loja, ainda maior, também a norte de Paris, à saída, perto da Porte de la Vilette. Deu-se ao trabalho, ela e outros emigrantes que ali se reuniam para tomar umas cervejas ao fim da tarde, antes do fim de semana, de me explicar que transportes apanhar e como me orientar lá. Ainda me ofereceu uma fatia de bom pão-de-ló.
Graças às indicações dos simpáticos portugueses, no dia seguinte cheguei sem grande dificuldade à tal loja, inserida numa comunidade de emigrantes de diversas origens. Ainda tive uma dúvida, mas a primeira pessoa a quem perguntei esclareceu-me logo. Lá estavam os folares. Fui atendido por um puto de não mais de doze anos. Depois de ter pago o folar, agarrou num pacote de amêndoas e disse-me .Toma!. Agradeci-lhe, como agradeci à senhora do dia anterior. Em ambos os casos espero ter sido simpático e ter sorrido. (Eu não sou lá muito expressivo quando sou tratado desta maneira. Fico embasbacado. Era um puto!)
Dei duas voltas à cidade de Paris, mas trouxe o folar e amêndoas. E ainda fiquei de bem com a vida. Certamente regressarei a estas lojas, em presença e aqui no BdE.

Publicado por Filipe Moura às 08:44 PM | Comentários (6)

COM VÉU OU SEM VÉU, POR FAVOR SUBAM AS ESCADAS


Cartoon de Pancho, no «Le Monde»

Publicado por José Mário Silva às 05:29 PM | Comentários (13)

FUNDAÇÃO COF!BENKIAN

Junto às bilheteiras da Fundação Calouste Gulbenkian, deparei-me com o seguinte aviso:

AVISO

A qualidade dos concertos pode ser grandemente prejudicada por ruídos que perturbem a concentração dos músicos e afectem a audição musical. Se tiver necessidade de tossir, procure fazê-lo num momento de maior intensidade sonora, evitando os intervalos entre andamentos de obras, em que qualquer ruído mais facilmente perturbará a concentração dos artistas. Faça-o tentando abafar o som com um lenço ou com a mão.

Apesar do estilo trôpego e palavroso, este texto (uma espécie de raspanete preventivo) justifica-se, como concordará qualquer pessoa que frequente regularmente o Grande Auditório.
O problema não é esse. O problema é que o aviso chega, no mínimo, com três gerações de atraso.

Publicado por José Mário Silva às 04:40 PM | Comentários (9)

O ICEBERG

Quando ouvimos falar nas "boas perspectivas" de acalmia da situação do Iraque nos próximos dias, esquecemo-nos de que as notícias de combates que vão aparecendo na imprensa são apenas a face visível do iceberg.

Publicado por tchernignobyl às 03:17 PM | Comentários (10)

LEI DA COMPENSAÇÃO

Depois de tantos maus tratos às mãos do Mel, exigia-se no mínimo uma pequena compensação.
Os fornecedores de tecido agradecem.
Agora se percebe o significado das primeiras obras do artista, quando embrulhava caixas de sapatos. Que longo caminho do grupo KWY e da SNBA ao Parque!

Publicado por tchernignobyl às 01:40 PM | Comentários (0)

O CALVIN É QUE SABE

E quem diz um dia, diz uma semana.

Publicado por José Mário Silva às 01:23 PM | Comentários (3)

O AFIXE, AGORA FIXO

Já era de prever. Depois do upgrade para itálico, o Afixe tomou-lhe o gosto. Vai daí, além de nos comentar os textos, o homem que tem enviado lá da província frases assassinas e garrafas de vinho (n'est ce pas, Luis?) decidiu montar o seu próprio estaminé.
E qual será o nome do novo blogue? Obviamente, Afixe. A boa nova é que a escrita nascerá de um exercício a quatro mãos, com outro habitué das nossas caixinhas: o gibel.
Agora, toca a visitar os rapazes. E a afixar comentários, claro.

Publicado por José Mário Silva às 01:10 PM | Comentários (5)

GUERRA SEM TRÉGUAS

Uma guerra de todos os dias que requer uma intervenção da ONU no terreno, já.
Para quando a eliminação do "factor humano" nos itinerários principais, com a automatização das estradas?

Publicado por tchernignobyl às 12:47 PM | Comentários (1)

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DE UM MUNDO PRIVATIZADO

Publicado por José Mário Silva às 11:29 AM | Comentários (7)

IMOBILIÁRIA MÓVEL

A construção de um edifício com setenta e dois metros de altura e trezentos de comprimento na zona ribeirinha de Lisboa é um crime urbanístico digno de um país de terceiro mundo. Foi o que aconteceu no Sábado com a chegada do maior paquete do mundo ao cais de Alcântara.
Neste caso, porém, tem uma desculpa de peso. Move-se. Em poucos dias sairá do Tejo e entrará em Southampton.
Se fosse possível deslocar assim os edifícios, permitindo uma reconfiguração permanente das cidades, já eu não me oporia e até defenderia a criação de torres à Siza, errando pela paisagem, da Brandoa ao Cacém, de Vialonga à Bobadela.
O que aborrece não é bem o objecto em si é a sua irreversível e monótona imobilidade.
Nessa perspectiva até os mastodontes (à escala lusa) da avenida Malhoa seriam porventura mais friendly cityuser se pudessem dispôr-se, semana a semana, de formas diversas ao sabor dos caprichos dos passantes, dos porteiros, do último funcionário a sair, do primeiro a entrar, assumir diferentes configurações, distribuindo-se por todo aquele vale de Campolide ora em leque ora em fila indiana ora de acordo com os caprichos de uma votação organizada em site específico da net, para alegria dos apressados frequentadores do eixo Norte Sul..
Poderá vir um dia a ser possível criar uma tecnologia baseada nos sistemas de construção naval que permita ligar as duas margens do tejo através de uma estrutura urbana flutuante, flexível e em perpétua mutação?
Será que o primeiro passo nessa direcção poderá a vir ser dado pela Câmara de Almada, ao convidar o arquitecto inglês Richard Rogers, conhecido pelo talento para desenhar edifícios e espaços urbanos multifuncionais, sempre com a mesma interessante aparência de fábricas cimenteiras, para retomar o processo de urbanização dos antigos estaleiros da Margueira?
Como Lisboa chegou àquela fase em que pelos vistos mais milhão menos milhão de metros quadrados de área de construção é coisa de somenos, sobretudo quando o el dorado urbanistico a atingir é o das terceiro-mundistas Lagos, Xangai, Dacca ou Kuala Lumpur, é cedo para o dizer, mas quanto ao gigantesco transatlântico que é aquele caixote contínuo na 24 de Julho, da Rocha do Conde de Óbidos à Infante Santo, eu não teria dúvidas: rebocava-o para o mar alto e afundava-o, criando nas profundezas do oceano um parque temático onde as escolas e turnos de turistas cheios de curiosidade poderiam observar as mais exóticas fauna e flora subaquática, através de vastos vãos em vidro fumado.
Assim como está, firmemente ancorado, só resta uma solução: implodi-lo.

Publicado por tchernignobyl às 01:18 AM | Comentários (3)

ALELUIA HERMANO - ENCHE-ME O DEPÓSITO

Sinal dos tempos, uma procissão de cinquenta carros portugueses dirigiu-se a Ayamonte no Sábado de Aleluia.
Não se tratava, porém, da Boa Nova que os cristãos portugueses demandavam por terras de Espanha, mas apenas encher os depósitos dos seus carros com gasolina e gasóleo mais baratos.
Estou plenamente de acordo com a frase de Sérgio Figueiredo publicada no Jornal de Notícias de 2 de Abril e citada no .diz-se. do público de sábado dia 3:
«Este país, às vezes, tem uma enorme piada. Andou durante anos a protestar contra a instrumentalização dos preços dos combustíveis . Agora fica chocado com as consequências da liberalização
Isto é como tudo Sérgio, desde São Tomé que as pessoas preferem "ver para crer", a palavra .liberalização. tem óbvias conotações mágicas e só depois de passarem por aventuras deste género é que as pessoas começam a vislumbrar os factos por detrás dos mitos.
Tal como nos combustíveis, também a anestesiante propaganda sobre as vantagens da "gestão privada" nos serviços de saúde e nos hospitais não tardou a dar os seus frutos.

Na realidade há aqui apenas uma pequena dúvida: se o "país" que anda chocado com a instrumentalização é o mesmo que agora está chocado com as consequências.
Na melhor das hipóteses, podemos aceitar que muito do "segundo país" tem agora o que merece por acreditar no discurso messiânico e "libertador" do primeiro acerca dos "benefícios da concorrência", da "eficácia" da privatização de certas áreas e dos "óbvios" "benefícios" "acrescidos" para essa entidade difusa que ocupa o lugar de honra no panteão dos "agentes económicos", pelo menos dos vendedores nem que sejam da banha da cobra: o consumidor.
Quanto ao primeiro país, que desde há tanto tempo clamava contra as "distorções" ao mercado dos combustíveis, promovidas pelo Governo Guterres, de uma forma tão indignada que cheguei a aguardar como eminente a constituição de um movimento cívico de notáveis pelo preço justo dos combustíveis, que propusesse a criação, em cada bomba de gasolina, de caixas de compensação pela distorção do mercado onde eles depositariam a diferença entre o preço praticado e o preço "justo", de cada vez que abastecessem as suas modestas viaturas, não me passa pela cabeça que esteja descontente com a situação.
Quando muito, alguns mandarão os choferes a Espanha encher os depósitos.
O aspecto positivo disto é que talvez as pessoas do segundo país tirem de futuro as devidas ilações acerca dos discursos amáveis do primeiro acerca da privatizações que se anunciam desde a água à Carris.

Publicado por tchernignobyl às 12:50 AM | Comentários (0)

abril 11, 2004

A MINHA PÁSCOA

E ao terceiro dia a ligação da Netcabo não ressuscitou.

Publicado por José Mário Silva às 11:05 PM | Comentários (2)

ATÉ PARA A SEMANA

José Lamego finaliza o seu último artigo no Expresso com uma alegre profecia: "Mas a crónica da próxima semana será escrita já num contexto de maior distensão e acalmia."
Era bom que a sangria parasse. Que mais inocentes não morressem todos os dias ninguém sabe bem porquê. Que parassem os estúpidos raptos de funcionários de ONGs. Que o "fogo do Inferno" se mantivesse apagado.
E que bom seria que erros grotescos como a extinção do exército iraquiano, a "desbaatificação" da função pública, a entrega de poder a um boy do calibre de Chalabi . em quem ninguém confia . e o menosprezo de figuras moderadas e populares como Ali Sistani, só para referir alguns, pudessem ser desfeitos com uma qualquer varinha de condão...
Mas não me parece. Infelizmente.
Para Lamego, agora não é hora de "pôr em causa a via que foi seguida". É tempo de "nervos de aço e cabeça fria".
Pena é que a tal "via" pareça englobar um chorrilho de erros aparentemente inexaurível . sendo que a vitimização permitida a al-Sadr, com o encerramento do seu jornal, foi apenas um dos mais recentes . e que as cabeças do Pentágono pareçam muito pouco dedicadas à tal frieza. Quanto ao estado dos nervos, julgo que a teimosia no calendário pré-definido de transferência do poder, acautelando as presidenciais americanas e condenando os iraquianos a uma guerra civil certa, é mais loquaz do que páginas e páginas de wishful thinking dos colaboradores da coligação.
Dei a este post o mesmo título da crónica de Lamego. Para a semana, veremos. E, para variar, até ficarei feliz se estiver enganado.

Publicado por Luis Rainha às 10:58 PM | Comentários (7)

OOPS!

Com a publicação do famoso briefing presidencial de 6/8/01, a administração Bush é apanhada em flagrante exercício de parcimónia com a verdade. Por dois anos, "Condy" bem barafustou que ele continha apenas vagas resenhas históricas sobre a al-Qaeda e ténues ameaças a alvos no exterior. Isto não é verdade.
Claro está que o relatório não é específico quanto a datas e locais de futuros ataques; mas se tal fosse necessário para que os EUA se pudessem defender, até o meu filho de 11 anos poderia estar na Casa Branca que a coisa não pareceria pior entregue. Os sinais de alarme claramente descritos neste documento deveriam ter suscitado, no mínimo, alguma acção.
Agora, Bush diz que "teria movido montanhas para impedir ataques" a Nova Iorque e Washington, se tivesse recebido informações claras quanto a ataques nessas cidades. Óbvio e louvável. No entanto, alguns meses depois, já não se coibiu de invadir um país tendo como justificação um punhado de fantasias e elucubrações apócrifas...

Publicado por Luis Rainha às 09:58 PM | Comentários (6)

A FAMA DO CONSTANTINO...

Ainda há uns dias, eu citei um artigo da revista Fortune sobre um relatório do Pentágono em que se previne os Estados Unidos de que devem estar preparados para tomar medidas do tipo "no-regret" para enfrentar cataclismos naturais previsiveis a curto prazo, como consequência do impacto da actividade do homem no clima do planeta.
Tudo isto para evidenciar uma "recente" atitude isolacionista e imperialista do poder americano.
Eis que o fabuloso e provocatório artigo de Richard Manning intitulado "The oil we eat" na Harper's de Fevereiro faz a seguinte citação de um relatório de George Kennan . Presidente da Comissão de Planeamento do Departamento de Estado em 1948:
«Temos 50% da riqueza do mundo e apenas 6,3% da população. Nesta situação tornar-nos-emos certamente objecto de inveja e ressentimento. A nossa tarefa nos anos que se seguem é encontrar um padrão de relacionamentos que nos permita manter esta posição de disparidade sem prejuízo da nossa segurança nacional. Para isso temos de dispensar todo o tipo de sentimentalismo e focar sempre a nossa atenção nos nossos objectivos nacionais imediatos.
Não vale a pena enganar-nos a nós próprios de que poderemos dar-nos ao luxo do altruismo à escala mundial.
(...) Não virá longe o dia em que teremos de tratar com conceitos estritamente de poder
».

Nota: a minha tradução foi feita a la minuta e o meu inglês é demasiado "pragmático", pelo que transcrevi o original de kennan tal como citado por Manning aqui para baixo... De qualquer modo aconselho a leitura completa do artigo no link que deixei acima.

«We have 50% of the world.s health but only 6.3% of its population . In this situation we cannot fail to be the object of envy and resentment. Our real task in the coming period is to devise a pattern of relationships which will permit us to maintain this position of disparity without positive detriment to our national security. To do so, we will have to dispense with all sentimentality and day-dreaming; and our attention will have to be concentrated everywhere on our immediate national objectives . We need not deceive ourselves that we can afford today the luxury of altruism and world benefaction.
(.) The day is not far off when we are going to have to deal in straight power concepts.»

Publicado por tchernignobyl às 07:50 PM | Comentários (0)

"CONDY" ESCLARECE-NOS SOBRE O 11 DE SETEMBRO...

Publicado por Luis Rainha às 01:32 AM | Comentários (5)

abril 10, 2004

DESASSOSSEGADA

Descobri este blogue quase por acaso. E gostei. Muito. Muitíssimo. É que a Sara Pais (uma comentadora regular aqui no BdE) consegue evocar, no fio instável dos dias, tanto o «Desprezo» do Godard como um quadro do Rothko, Piazzolla e Ruy Belo, a desaparecida Vírgula (pois, pois) e o introspectivo Ivan. Tudo escolhas impecáveis, já se vê. Ah, e ainda revela o bom gosto de juntar duas canções que nasceram para se misturarem uma na outra: «Você não entende nada», de Caetano, seguida de «Cotidiano», do Chico.
Vá lá. Visitem a Desassossegada «todo dia». Não se vão arrepender.

Publicado por José Mário Silva às 05:59 PM | Comentários (10)

A TRISTE REALIDADE PÓS-SADDAM


Cartoon de Vince O'Farrell

E do terror emergiu o terror.

Publicado por José Mário Silva às 04:56 PM | Comentários (6)

UM ANO DEPOIS

Tem alguma piada ver o que se escreveu aqui, no BdE, sobre a queda da estátua de Saddam, a 10 de Abril de 2003. Eu, por exemplo, disse isto, isto, isto e isto. O Manel, quase ao mesmo tempo, lançava-se numa análise minuciosa da difícil construção dos símbolos, em quatro etapas: 1.ª fase, 2.ª fase, 3.ª fase e desenlace. E o Daniel Oliveira, ainda um itálico pré-Barnabé, lembrava a ameaça do Império.

Publicado por José Mário Silva às 04:47 PM | Comentários (1)

A ARTE DO EMBUSTE

Só para visualizarmos um pouco melhor aquilo de que o Luis Rainha fala no post abaixo, recordemos a simbólica queda da estátua de Saddam, no centro de Bagdade, a 9 de Abril de 2003:

Pelos relatos eufóricos das televisões, parecia que estávamos a assistir a um imparável movimento popular, uma versão oriental da queda do Muro de Berlim.
Só que nem sempre o que parece, é. Vista de longe, no instante em que a estátua tombava, a praça de Bagdade tinha este aspecto:

Não é a isto que se costuma chamar um mar de gente, pois não? Mas, se bem se lembram, José Manuel Fernandes até chorou de alegria perante o «25 de Abril» iraquiano.
Mais comentários a esta invenção mediática, aqui.

Publicado por José Mário Silva às 04:09 PM | Comentários (3)

NÃO É ASSIM TÃO FÁCIL TAPAREM-NOS OS OLHINHOS...

Parece que ontem se comemorou o primeiro aniversário do mediático derrube da estátua de Saddam, em Bagdade. Na SIC, à laia de aperitivo para coisa de maior fôlego a transmitir hoje, tivémos direito a declarações comovidas de marines, iraquianos, testemunhas várias. Um soldado americano envolvido no episódio até nos garantiu que "há quem diga que eu sou um herói. Mas eu respondo sempre que não; estava apenas a fazer o meu trabalho."
Enquanto imaginamos o glorioso showdown entre este modesto herói e a belicosa e imprevisível estátua, podemos dar um saltinho ao Google. É que convém não esquecer que se tratou de cerimónia cuidadosamente encenada, com apoiantes de Chalabi como extras e um rigoroso cordão de segurança a isolar a praça onde tudo "decorreu".
Sempre estou com alguma curiosidade quanto ao tal "documentário" que vai hoje para o ar...

Publicado por Luis Rainha às 02:17 AM | Comentários (0)

DA CIDADE PARA AS SERRAS (2)

Apresento-vos um burro. Mas é um burro especial. Mesmo sem ter as credenciais académicas do defunto Nabunda, este jumento tem papel essencial na organização da casa que a minha família mantém no "País Real" há quase cinco séculos. Bem, "essencial" é capaz de ser exagero: o bicho reboca um atrelado com alfaias diversas ou batatas de um lado para outro e pouco mais.
Hoje decidi, como competente senhor feudal, conhecer melhor este vassalo dos meus domínios. Descobri que o desgraçado não tem nome, cheira bastante mal e, como se a vida não lhe corresse já de forma funesta, alguém teve a ideia de o capar.
Enquanto me lembrar deste pobre bicho, não me volto a queixar do estado dos meus dias. Posso ser um asno e não ter o emprego mais interessante do mundo. Mas, ao menos, não cheiro muito mal. E lá vou conservando a minha integridade física: nem um dentito me conseguiram ainda arrancar.
Guardem esta fotografia do Incógnito. Da próxima vez que quiserem amaldiçoar a vida madrasta, olhem para ele e lembrem-se da bela consolação do Reverendo George Whitefield: "there but for the grace of God, go I".

PS: o mais que posso fazer para confortar o burro é arranjar-lhe um nome. Estou indeciso entre "Dubya", "Coalition" e o singelo "Bush". Agradeço sugestões ou votos.

Publicado por Luis Rainha às 01:45 AM | Comentários (28)

abril 09, 2004

SEXTA-FEIRA (POUCO) SANTA

Desculpem, caros leitores, a escassa produção. É que o calvário, para mim, hoje teve um nome: Netcabo.

Publicado por José Mário Silva às 10:32 PM | Comentários (6)

DA CIDADE PARA AS SERRAS

A respiração pausada da terra, medida em compassos de estações, ritmos seculares de colheitas, sementeiras e pousios. A energia paciente que vibra do céu para cada folha, cada pássaro apressado, cada gesto das gentes serenas. Muito mais vos poderia dizer para vos contar como é um dia aqui, a 400km de Lisboa, mesmo no sopé da Serra da Estrela. Mas, se me deixasse de lirismos, meia dúzia de palavritas bastariam: é mesmo uma seca do caraças.

Publicado por Luis Rainha às 07:19 PM | Comentários (14)

INQUÉRITOS

Também gostava de ver ser feito este inquérito.

Publicado por tchernignobyl às 06:57 PM | Comentários (0)

O PEQUENO ADVÉRBIO

No depoimento de Condoleezza Rice (a Conselheira para a Segurança de George W. Bush) à Comissão que está a investigar os atentados de 11 de Setembro de 2001, não se encontram grandes novidades ou factos desconhecidos que ajudem a esclarecer o comportamento da Administração republicana perante a ameaça terrorista. Ainda assim, há uma frase com uma carga não desprezável de ambiguidade. Esta: «Tenho quase a certeza de que o Presidente nunca pressionou ninguém para manipular os factos.» Sublinhe-se a palavra quase.

Publicado por José Mário Silva às 12:33 PM | Comentários (13)

abril 08, 2004

AS FLORES


Cartoon de Mike Keefe, «The Denver Post»

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (0)

EMPREITEIROS DE ÁGUAS TURVAS

As notícias iniciais diziam que os desgraçados cujos corpos foram há dias desmembrados por uma multidão de iraquianos enfurecidos eram "empreiteiros" americanos.
Gente boa, trabalhadora, disposta a dar o litro para construir a sua vida à custa de muita "labuta", tal qual os nossos emigrantes, pensei eu logo...
Não tardou porém a saber-se que os "empreiteiros" eram "civis" ao serviço de uma empresa apropriadamente designada como "blackwater", especializada noutro tipo de "obras".
Sendo do domínio público a apetência que os empreiteiros têm por cobrar "trabalhos a mais", não é de todo irrealista pensar que as perspectivas são boas para mais "missões humanitárias" deste género no futuro.

Publicado por tchernignobyl às 10:41 PM | Comentários (8)

A ÚLTIMA PAZADA

A brutal escalada da violência dos últimos dias no Iraque, que ultrapassa tudo o que seria previsível temer, mesmo na imaginação delirante do mais intoxicado saudoso da saga vietnamita, é a última pazada na vala comum das ficções que levaram à guerra.
As WMD, já se tinha percebido que foram uma invenção para convencer os mais temerosos. Consegue agora finalmente perceber-se o que queria o Wolfowitz dizer sobre as "razões burocráticas" naquela célebre entrevista.
Quanto às ligações ao terrorismo, Saddam e companhia eram (sempre foram...) uma praga sobretudo para o seu povo e povos vizinhos, mas não era esse o contexto em que se falava de "ligações ao terrorismo". Afinal, como é que com tanta "prova" de ligação ao terrorismo não se conseguiu mais do que apanhar um terrorista doente que acabou por morrer recentemente de "morte natural"... Ignorância? Talvez, pelo menos tão interessante como não se ter visto estranheza na extraordinária coincidência do pessoal da coligação logo dar de trombas com o referido terrorista e o ter reconhecido na horinha, no meio da balbúrdia da entrada em Bagdad. Será que os propagandistas da guerra andavam assim tão à nora? Quer dizer, os propagandistas andavam, os executores é que já não se pode garantir...
Restava aos idealistas a tese da .libertação. e consequente dádiva da democracia ao .povo iraquiano., o derrube da primeira peça do .dominó. que arrastaria uma mudança generalizada de regime, pacificando a região e criando as condições para que, engodo último para os .esquerdistas. honestos que apoiaram a guerra, finalmente se pusesse em marcha o tal road map para a Palestina.
Porém, a natureza de força ocupante desprovida de idealismos retóricos das tropas da .coligação., apenas foi mais exposta pela violência generalizada de que foram a espoleta e de que são agora apenas e cada vez mais um dos intérpretes em presença, tornando-se na auto-estrada para a isrealização em curso.
Infelizmente, nem em caso de retirada nos podemos alegrar. Estão criadas as condições para que o cenário "alternativo" seja, para os que ficarem, o de uma "insalubre" libanização.
Maravilhosa "engenharia social" dos conservatives, com ou sem neos estampados. Mas isso agora "já não interessa nada"...
Quanto a democracia estamos conversados, esperemos pelo festim mediático dos próximos massacres.
Quanto ao road map, tudo parece correr de feição. Sharon já anunciou que vai retirar da faixa de Gaza. E como de costume já está garantido que vai ser lá mais para o ano...
Ah! E as forças da coligação detêm o controle sobre a exploração petrolífera. Mas o que interessa isso? Afinal de contas não se foi para o Iraque por causa do petróleo, não é?

Publicado por tchernignobyl às 09:55 PM | Comentários (14)

O FOGO DO INFERNO CAIU SOBRE O TEMPLO DOS INFIÉIS

Ontem, as bravas forças da coligação que ocupa o Iraque atingiram uma mesquita em Fallujah com duas bombas e um míssil. Mais do que discutir se o edifício da mesquita foi mesmo atingido ou se o direito de santuário foi violado, chamo a vossa atenção para o patusco e apropriado nome do míssil em questão: "Hellfire".
Mas quem é que baptiza estas coisas? O Schwarzenegger?

Publicado por Luis Rainha às 05:37 PM | Comentários (7)

AINDA A "PAIXÃO"

Julgo que algo terá ficado por clarificar, a propósito do eventual anti-semitismo do filme de Mel Gibson: muitas coisas que aqui na Europa (mormente em Portugal) são inócuas e aparentemente inofensivas, podem revestir-se de matizes inesperados na realidade cultural americana, território natal do filme em questão. Duvido, por exemplo, que algum europeu se lembrasse de escrever o texto abaixo:

"Church Members, I've got to tell you this movie is fantastic! Mr. Gibson has taken the Planet of the Apes (replacing the Apes with Jews), and a few chapters from the Gospel of Luke, and he's created the most accurate depiction of Christ's terrifying crash landing on a donkey in Jerusalem, EVER! I want you to print out these flyers and nail them to the doors of unsaved family homes with the same authentic replica gold-plated 9-Inch-Nails that the mean old hairy Jews drove through Jesus' innocent snow-white limbs. These lovely nails are available for prices starting as low as $27 at the Landover Baptist Gift Shop (a Mel Gibson The Passion of the Christ authorized merchant and moneychanger)! Let's get the Word out! And let's get some folks saved! Praise God!" - Pastor Deacon Fred

Este divertido mas revelador pastiche foi amavelmente cedido pela Landover Baptist Church. Se "clicarem" no link abaixo, terão acesso a um belo folheto de promoção deste filme, carregadinho de ofertas aliciantes...

Publicado por Luis Rainha às 12:24 PM | Comentários (6)

IRAQUE: O CAOS DEVORADOR


Cartoon de Plantu, no «Le Monde»

Publicado por José Mário Silva às 12:00 PM | Comentários (3)

NABUNDA NA IMPRENSA

Do jornal Diferencial:
Algumas bandas desenhadas com o Nabunda, da autoria de Vítor Santos, outro DNJ, como alguns dos pioneiros da blogosfera portuguesa, aqui e aqui.
Infelizmente não encontrei as magníficas Aventuras do Inspector Nabunda, publicadas em 1995. Numa dessas aventuras, o Inspector Nabunda era um agente do MATA (Movimento Anti Tradição Académica), que protegia os caloiros dos vilões de capa e batina.
Mas se querem mesmo saber quem era o Nabunda, leiam aqui (vale mesmo a pena).

Publicado por Filipe Moura às 01:15 AM | Comentários (6)

IN MEMORIAM - NABUNDA

O Nabunda era o segundo aluno mais assíduo das aulas de Física Estatística daquele semestre que eu referi. Mais assíduo que ele, só mesmo a nossa colega Ana, que chegava antes do professor. A Ana, além disso, emprestava os apontamentos dela a quem precisasse. (O Nabunda não tirava apontamentos.)
O Nabunda era uma verdadeira mascote do Técnico. Em vez daquele símbolo com o escudo, que já é o mesmo desde o Estado Novo, sugiro que o IST adopte um novo símbolo com a figura do Inspector Nabunda.
O mínimo que o Técnico pode fazer pelo Nabunda (falo muito a sério) é pôr a bandeira a meia haste nestes dias. Espero que alguém se encarregue disso.

Publicado por Filipe Moura às 12:36 AM | Comentários (1)

abril 07, 2004

ACABEM LÁ COM ESSA POUCA-VERGONHA!



Há dois anos, o poderoso e virtuoso US Attorney General John Ashcroft gastou 8.000 dólares para instalar uma espécie de burqa de veludo capaz de esconder o embaraçoso "Espírito da Justiça"; a estátua de mamoca ao léu que servia de pano de fundo às suas por certo fascinantes conferências de imprensa.
Reposta a moralidade no reino da estatuária, chegou agora a vez de impor um pouco de disciplina aos seus concidadãos de carne e osso, que, como toda a gente sabe, andam perdidos no negrume da mais abjecta devassidão.
Antes que os EUA se transformem na Sodoma do sec. XXI, o impoluto Ahcroft . devoto cristão que não bebe álcool ou café e se recusa até a dançar . vai dar caça à pornografia.
Atenção que não se trata de pornografia infantil, nem sequer de actos menos próprios com animais inocentes: qualquer indecência, mesmo que consentida e entre adultos, arrisca-se a levar com o cruzado em cima. Salvo seja. Uma equipa de anjos justiceiros - que inclui 32 procuradores! . já está em campo, farejando o rasto fétido de pecadores a abater.

Depois, venham dizer-me se não é verdade que um bom conservador só está feliz quando se vê em posição de poder exigir disciplina... aos outros.
E, por falar em ideias geniais, mirem com atenção este plano do pio Ashcroft: através do programa "Patriot Registration", o governo americano vai recensear todos os bons patriotas da nação. Por eliminação de hipóteses, os que não se inscreverem só poderão ser sinistros terroristas... ou, se calhar, pornógrafos impenitentes. Será assim fácil identificar e deter tais facínoras. Congeminação admirável, esta!

Pronto. Admito que esta última é uma graça. O site www.whitehouse.org é satírico. O genuíno é o www.whitehouse.com. Não, esperem, este também não é coisa recomendável. Irra, que confusão!

Nota da Redacção: garantimos aos nossos estimados leitores que não existe qualquer relação entre este post e o título do anterior, da autoria do Filipe.

Publicado por Luis Rainha às 05:26 PM | Comentários (6)

MORREU O NABUNDA

Esta notícia não dirá nada à maior parte dos nossos leitores. A mim, e a quem passou pelo Instituto Superior Técnico nos últimos doze anos (pelo menos), só pode entristecer.
Morreu o cão mais manso e ternurento que eu alguma vez conheci. Para mim e para os meus colegas, foi além disso um querido companheiro de aulas. Durante um semestre tivemos aulas no anfiteatro GA1 do Pavilhão Central. Às 7:59 já lá estava o professor de Física Estatística, a olhar para o relógio, já de giz na mão, pronto a encher o quadro de fórmulas. Quem chegasse às 8:05 já tinha um quadro cheio. Quem chegasse às 8:10 não via o primeiro quadro.
Então entrava o Nabunda pelo anfiteatro dentro, sem passar cartão a ninguém. Descia os degraus e ia instalar-se a um canto do anfiteatro, à esquerda do quadro, perante o olhar atento do professor, que parava de escrever por uns instantes. Era a ocasião, para quem ainda tomava apontamentos, de tentar "apanhá-lo".
O Nabunda ficava para assistir às aulas de Técnicas Matemáticas. O professor, no fim das aulas, avisáva-nos: "se ficaram com dúvidas, tirem-nas ali com o Nabunda".
Às vezes ainda ficava para as aulas de Mecânica Quântica. O professor recordava-nos de que, nesta área científica, o animal mais famoso não era um cão, mas um gato (o de Schrödinger).
À hora do almoço, na cantina, lá circulava o Nabunda entre as mesas. Sem se importar ou meter com ninguém. Sem que ninguém se incomodasse. Poderia ser um cão orgulhoso; afinal, o cartoonista Vítor Santos fez dele o protagonista das Aventuras do Inspector Nabunda, que então faziam as delícias dos leitores do jornal Diferencial. Mas não. A tudo era indiferente e manso.
Após tantos anos, sempre que voltava ao Técnico não conhecia a maior parte das pessoas. O Nabunda era, dos "residentes" do Técnico, um dos que revia com mais prazer. Nos últimos tempos com apreensão, ao verificar os tumores e o sofrimento que eram já evidentes.
Sinto-me como se tivesse morrido um colega de curso. Um amigo querido. Nabunda, descansa em paz, pá.

(Nota: agradeço a esta minha amiga o ter-me dado a triste notícia.)

Publicado por Filipe Moura às 05:22 PM | Comentários (6)

ABSOLUT GROUCHINESS

Juro que não entendo como pode o álcool ter sido empregue à laia de lubrificante criativo por tantos génios certificados. A mim, uma noite de copos só inspira rabugice. Melhor será nem tentar escrever algo sério; o mais que ia conseguir era acabar o dia com uns quantos inimigos novos...

Publicado por Luis Rainha às 03:28 PM | Comentários (5)

E TU, ONDE É QUE ESTAVAS NO 25 DE ABRIL?

A brincar com legos, a 2000 quilómetros de distância. Não fazia a mínima ideia do que era uma G3 ou uma chaimite, mas desconfio que já conhecia o sabor luminoso da palavra liberdade.

Publicado por José Mário Silva às 01:28 PM | Comentários (7)

THE DEAD

«A few light taps upon the pane made him turn to the window. It had begun to snow again. He watched sleepily the flakes, silver and dark, falling obliquely against the lamplight. The time had come for him to set out on his journey westward. Yes, the newspapers were right: snow was general all over Ireland. It was falling on every part of the dark central plain, on the treeless hills, falling softly upon the Bog of Allen and, farther westward, softly falling into the dark mutinous Shannon waves. It was falling, too, upon every part of the lonely churchyard on the hill where Michael Furey lay buried. It lay thickly drifted on the crooked crosses and headstones, on the spears of the little gate, on the barren thorns. His soul swooned slowly as he heard the snow falling faintly through the universe and faintly falling, like the descent of their last end, upon all the living and the dead.»

Este é o parágrafo que fecha «The Dead», a história final de «Dubliners», primeira das obras-primas de James Joyce. Para mim, o mais belo e triste de todos os contos escritos em inglês (ou em qualquer outra língua). Um dia destes, talvez vos explique porquê.
Por agora, chamo apenas a atenção para a tradução portuguesa do livro: «Gente de Dublin», distribuído hoje nos quiosques e tabacarias, integrado na colecção Mil Folhas do «Público». Quem não tiver, compre. Quem tiver, ofereça.

Publicado por José Mário Silva às 01:13 PM | Comentários (1)

A PIADA DEMASIADO FÁCIL


Cartoon de Bandeira, no DN de hoje

Publicado por José Mário Silva às 11:48 AM | Comentários (1)

PRIMEIRO SINAL

Falou-se muito da viragem à esquerda em Espanha. Falou-se também muito da vitória da oposição de esquerda em França. Mas ninguém disse nada sobre o primeiro sinal (tímido, mas efectivo) de uma viragem política em Portugal: o cabeçalho do DN voltou a ser azul e branco, e deixou de ser laranja. Na edição em rede ainda se nota algum laranja, mas menos.

Publicado por Filipe Moura às 01:29 AM | Comentários (10)

A HISTÓRIA PODE MATAR

Admito que, por um lado, hesitei um pouco ao referir-me a este artigo. O assunto, para mim, ainda é delicado (mas não tabu). Por outro, não tenho andado com muito tempo para escrever. Mas não o posso deixar passar em branco. Afinal, trata-se do melhor artigo sobre o judaísmo que já tive ocasião de ler na imprensa portuguesa. Direi mais: os artigos mais estimulantes e que mais me têm feito reflectir que tenho lido na imprensa portuguesa nos últimos meses são da autoria deste rapaz da Geração de 70, da minha geração, o João Miguel Tavares. Isto não se aplica necessariamente a todos os artigos que o João escreve; uns são melhores do que outros, e concordo mais com uns do que com outros. Mas reconheço no João uma independência de pensamento e uma capacidade de justificação das suas ideias, sem nunca ser panfletário (exceptuando talvez aquele primeiro artigo do "segundo parágrafo"; mas isso era um primeiro artigo). Tais características são (infelizmente) incomuns na nossa imprensa.
O artigo em questão é o que eu gostaria de ter escrito há duas semanas (desculpa a inveja, João). O João é sensato (eu não fui) e defende-se bem dos prováveis ataques dos suspeitos do costume. Mas ele não deixa de ser bem contundente e revela uma argúcia que eu não tive; enquanto eu simplesmente relatei a minha experiência pessoal, o João vai ao fundo, à origem da questão. Só posso cumprimentá-lo pelo belo artigo, recomendar a sua leitura e reconhecer que eu não passo de um pobre engenheiro do Técnico (aqui poderia revelar um pormenor curioso, mas prefiro mantê-lo privado). Mas creio que não é na faculdade que se aprende a escrever artigos como este. Conforme já disse, concordo com o mesmo quase na totalidade. Gostaria de ler, nos comentários ou em blogues, opiniões fundamentadas de pessoas de boa vontade.

Publicado por Filipe Moura às 01:08 AM | Comentários (26)

abril 06, 2004

A CRUZ DE BUSH

Cartoon de Vince O'Farrell

Publicado por José Mário Silva às 11:22 PM | Comentários (1)

O IP5 DO MARQUÊS

Já várias vozes, com destaque para o activismo incansável de Manuel João Ramos (da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados), têm apelado ao bom-senso do presidente da Câmara de Lisboa, no sentido de interromper a construção do túnel do Marquês, um potencial «túnel da morte». Construído à pressa para cumprir uma promessa eleitoral estapafúrdia, com um declive médio de 9% (muito acima dos limites de segurança), sem visibilidade, sem suficientes meios de salvamento e em claro desrespeito das directivas europeias, a obsessão de Santana tem tudo para se transformar numa ratoeira mortífera, instalada no coração da cidade. Um verdadeiro locus tragicus de Lisboa.
Por isso, é fundamental que a opinião pública se mobilize e actue, para travar a tempo esta loucura. Quem quiser assinar um requerimento que pede a interrupção das obras, pode fazer copy/paste do texto que deixamos na parte escondida deste post, enviando-o para os seguintes e-mails: municipe@cm-lisboa.pt ou emailazul@cm-lisboa.pt (com cópia de conhecimento para gmopth@mopth.gov.pt, gabinete.seop@mopth.gov.pt e outros de que se lembrem).

REQUERIMENTO

Exmo. Senhor Dr. Pedro Santana Lopes
Digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa:

Venho alertar V. Exa. para o facto de a empreitada de construção do túnel rodoviário entre as Amoreiras e a Av. Fontes Pereira de Melo, em Lisboa (o .Túnel do Marquês.), cujos trabalhos se iniciaram há cinco meses, estar a ser executada em condições que contrariam diversas normas, pareceres, recomendações e desígnios de boas práticas nacionais e europeus. Nomeadamente:

- o gradiente de inclinação longitudinal previsto atinge em partes os 9,4% . ou seja, 5,9% superior ao máximo internacionalmente recomendável . e 4,5% ao máximo permitido pela proposta de Directiva sobre Requisitos Mínimos de Segurança Rodoviária em Túneis da Rede Trans-Europeia de Transportes, e ainda 1,4% superior às normas do Instituto de Estradas de Portugal para estruturas viárias à superfície;

- a visibilidade da curva para a esquerda em descida, para os veículos vindos da zona ocidental (Amoreiras), será inferior a 20 metros;

- o método de construção adjudicada é em placa com pilares, bidireccional, e não em tubo duplo com faixas unidireccionais, com conexões em porta de aço corta-fogo e anti-inundação (como se exige, dado a própria CML prever um tráfego superior a 9.000 veículos/dia/faixa);

- não haverá uma via de emergência para acesso de ambulâncias ou viaturas de combate a fogos, com possibilidade de encosto da dupla fila de viaturas aos lados, ou para encosto de viaturas avariadas em faixa dedicada, dado a largura prevista do túnel não atingir os 7,5 metros;

- não estão previstas rampas escapatórias de 250m em 250m ou, alternativamente, a construção de uma galeria paralela de segurança, para auto-salvamento dos utentes, nomeadamente aqueles com mobilidade reduzida;

- não foi elaborada, em fase de ante-projecto, de projecto, nem sequer durante o processo de execução da obra (nem, previsivelmente, antes da inauguração do túnel), uma análise quantitativa de potenciais riscos, nem produzido um plano de emergência, exigíveis dado o túnel ter mais de 1.000 metros (terá 1.300 metros), ter gradiente superior a 3% (terá em média 9%), e menos de 7 metros largura/faixa (terá 6,9 metros).

A CML estava, aparentemente, consciente da proposta de Directiva supra-citada quando projectou a obra do referido túnel:

- prova disso é que incluiu, na Memória Descritiva da obra e no Caderno de Encargos para o empreiteiro, um conjunto vasto de medidas de segurança que são directamente decorrentes das exigências da proposta de Directiva.

Mas, porventura devido à escolha do traçado e geometria, e à baixa orçamentação prevista, o projecto de construção do .Túnel do Marquês. apresenta gravosas faltas que poderão concorrer para fazer desta obra um gravíssimo caso de negligência dolosa e de crasso desrespeito de normas e boas práticas exigidas, não apenas pela supra-mencionada Directiva, mas também pelo Livro Branco da Segurança Rodoviária da Comissão Europeia, pelo Plano Nacional de Prevenção Rodoviária, e pelo mais óbvio bom-senso.

Na verdade:

Construir um túnel com inclinação média de 9%, com extensão crítica superior a 120m (será de 400 metros), sabendo que não existe outro exemplo semelhante em toda a Europa, deveria ter obrigado a análises quantitativas de riscos e de custos-benefícios detalhadas, antes de se dar início ao projecto de execução, à adjudicação da obra, e à execução da empreitada em si.

Tal nunca foi feito.

Tendo em atenção o facto de 80% dos condutores portugueses excederem normal e sistematicamente os limites máximos de velocidade legalmente estabelecidos (de acordo com um estudo produzido pelo LNEC, em 2001), resulta óbvio que a inclinação do .Túnel do Marquês. teria de ser inferior, e nunca superior, ao máximo recomendável de 3,5%.

Porque pretendo que sejam salvaguardados os direitos à vida e à segurança dos previsíveis futuros utentes do referido túnel;

Porque pretendo a aplicação sistemática das normas, recomendações, e desígnios de boas práticas técnicas, e nomeadamente a obediência às medidas propostas na Directiva da Comissão Europeia supra-mencionada quanto à não permissão de construção ou abertura de túneis com gradientes longitudinais superiores a 5% . dado ser este um requisito mínimo, e não médio, de segurança em túneis rodoviários;

Porque creio que é mandato da Câmara Municipal de Lisboa a promoção do respeito inquestionável pela segurança e pela vida, não apenas dos seus munícipes, mas de todos os utentes das suas infra-estruturas de tráfego;

Venho, por este meio, requerer a V. Exa. a suspensão imediata das obras de construção do .Túnel do Marquês., a revisão do seu projecto-base, e a eventual anulação de todo o procedimento . caso se revele que a previsibilidade dos custos . nomeadamente em vidas humanas potencialmente perdidas . venha ser superior aos benefícios esperados pela abertura dessa estrutura ao público utente.

Pede Deferimento


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Publicado por José Mário Silva às 11:10 PM | Comentários (2)

BLOGUES MADE IN USA

Não é só por cá que a blogosfera consegue recrutar alguns pesos-pesados da «indústria da opinião». Nos EUA, surgiu há poucas semanas o blogue pessoal do mais famoso, prolífico e prolixo dos agitadores anti-imperialistas: Noam Chomsky.

Vale a pena ir passando por lá, nem que seja para antever as apoplexias que as suas prosas provocam nos leitores de direita. E sempre é uma forma de contrabalançar a inteligência arrogante deste rapaz e o vazio ideológico que grassa aqui.

Publicado por José Mário Silva às 10:52 PM | Comentários (1)

BALANÇO

A página de (auto)-publicidade que o Governo publicou na imprensa, hoje, só revela uma coisa: falta de vergonha. A meio do mandato, a coligação PSD-PP atira-nos à cara, em letra miúda, o «muito trabalho feito». Mas se nos dermos à maçada de ler tudo aquilo, verificamos que falta trigo onde o joio abunda. Além de se apropriarem de decisões e medidas tomadas por governos anteriores, esquecem a lista infinda de promessas que ficaram por cumprir.
Por fim, como cereja em cima do bolo, fica o slogan (este com letras quase garrafais): «Um Governo de palavra». Que palavra? Não especificam. Mas temo bem que seja a tão badalada retoma, até agora tão difícil de encontrar, por cá, como as armas de destruição massiva no Iraque.

Publicado por José Mário Silva às 08:23 PM | Comentários (9)

EM AUDIÇÃO

Esta "impromptu suite of songs for guitar, electronics and voice" não podia estar mais distante da pop inteligente, luzidia e elegante que já esperamos de David Sylvian desde o tempo dos Japan. E nada tem a ver com o som escorreito mas inócuo do Sylvian que nos visitou há uns meses.
Um disco que honra o seu nome, Blemish está cheio de máculas: estalidos, dissonâncias, palavras sombrias, cantos mal iluminados. As colaborações com Derek Bailey e Christian Fennesz ajudam ao espírito labiríntico e algo amargo deste disco que vale a pena descobrir muito devagar. Eis uma minúscula amostra...

Publicado por Luis Rainha às 04:34 PM | Comentários (3)

RUANDA, 1994


James Nachtwey

Esta imagem, vencedora do prémio World Press Photo em 1995, foi captada pelo fotógrafo James Nachtwey no Ruanda e mostra-nos, com a violência de um murro no estômago, as marcas terríveis com que ficou um dos raros sobreviventes dos campos da morte ruandeses (montados pelos Hutus radicais).
Tantos anos depois de a ter visto pela primeira vez, continuo indeciso sobre o que me atormenta mais nestas cicatrizes: se a impossível crueldade que testemunham, se a acusação silenciosa que nos lançam. À nossa apatia, à nossa indiferença, ao nosso esquecimento.

Publicado por José Mário Silva às 04:19 PM | Comentários (7)

UM CARTOON MESMO A PROPÓSITO...

Ainda a propósito dos civis de Fallujah, que afinal eram "seguranças" de elite, o paralelo com o acontecido na Somália assomou a muitas cabeças. Convém recordar que a morte, em Mogadíscio, de 18 soldados americanos foi um pretexto muito em voga para recusar, no ano seguinte, uma intervenção no Ruanda.

Publicado por Luis Rainha às 03:17 PM | Comentários (6)

10 ANOS DE VERGONHA

A 6 de Abril de 1994, era abatido o avião que transportava os presidentes do Ruanda e do Burundi. Uma hora depois, começava a matança. Nos 100 dias que se seguiram, foram massacrados cerca de um milhão de Tutsis e de Hutus moderados, numa orgia de crueldade inumana planeada ao milímetro.
Hoje, abundam os pedidos de desculpas. Na altura, o Conselho de Segurança da ONU decidiu reduzir o seu contingente no Ruanda de 2.500 para 450 soldados. O resultado ainda está bem visível, em inúmeras igrejas "decoradas" com pilhas de crânios humanos.
O mal do pobre Ruanda foi não ter grande interesse económico ou estratégico. Houvesse lá petróleo e por certo que este horror sem limites não teria sido visto como coisa tribal de somenos importância, lá longe, num país que ninguém sequer sabia bem onde ficava....

Publicado por Luis Rainha às 02:25 PM | Comentários (7)

EU VI O FUTURO, E NÃO É NADA FAMOSO

LIDO NUM JORNAL PORTUGUÊS DE REFERÊNCIA, A 6/4/2006:

"Como já aqui tínhamos previsto, a trupe fandanga da esquerda nacional continua a agitar as suas bandeiritas insatisfeitas. Pouco lhes importa que já não se vislumbre um só marine em solo iraquiano. Nada se comovem com o facto de o país continuar livre de armas de destruição maciça. É-lhes indiferente que o terrorismo tenha feito malas e partido para paragens mais tolerantes...
Os 'pacifistas' antiamericanos ainda não perceberam que não está a decorrer nenhuma 'ocupação camuflada'; trata-se sim da primeira joint-venture entre um país e uma empresa! (Talvez a segunda, se nos recordarmos do frutuoso caso do Canal do Panamá...)
Convém aqui relembrar alguns dos passos históricos que restituíram o Iraque ao convívio das nações civilizadas: o Presidente Richard Cheney, nomeado após o embaraçoso impeachment de George Bush no rescaldo da fraude eleitoral da Califórnia, apresentou o seu plano logo no início de 2005. Meses depois, a Halliburton começou a substituir as forças da Coligação: tentadas por generosos bónus, divisões inteiras das forças armadas americanas e britânicas ofereceram-se para serem 'civilificadas', reforçando assim o corpo de segurança da companhia texana. A retirada oficial da Coligação consumou-se pouco depois, restaurando a independência plena do Iraque.
Através de uma cuidadosa política de acordos locais com líderes religiosos e senhores de guerra, a presença armada da Halliburton restringe-se hoje a locais ligados à indústria petrolífera: poços, refinarias e pipelines. Os restantes 99% do território iraquiano são integralmente autodeterminados.
Uma parte substancial da receita da venda do crude iraquiano foi desde logo canalizada para as forças vivas do país; mesmo os mullahs mais fanáticos cedo perceberam que era mau negócio tentar resistir à força do Mercado Livre. Tendo como única obrigação não se dedicarem a formas de terrorismo internacionalista demasiado óbvias, os líderes locais prosperaram e reforçaram a sua autoridade à sombra destes acordos.
Infelizmente, nem todos compreenderam a inevitabilidade histórica de tal mudança: os campos de detenção, financiados e patrulhados pela Halliburton, continuam a abarrotar de retrógrados em reeducação. Como é sabido, as populações árabes ainda não estão preparadas para viver em Democracia plena; o recente adiamento das próximas eleições para 2010 foi saudado pelo presidente Cheney como .mais uma prova da maturidade do povo e das instituições iraquianas..

Mas claro que a paz não é nem nunca foi o que os histéricos canhotos do costume na realidade desejavam. Agora, eles estão de novo em pé de guerra com queixas de .concentração da riqueza nas mãos de uma oligarquia religiosa. de 'desmandos. das autoridades islâmicas, de .humilhações. impostas às mulheres, etc, etc. Como se, ainda há uns poucos anos, não tivessem andado de cartazes em punho a exigir o respeito pelo multiculturalismo e pelas tradições do Iraque! Quem é que é .neocolonialista. agora?
Fora das zonas petrolíferas, a autoridade jaz de facto em mãos iraquianas. Os melhores e mais aptos indígenas foram escolhidos para posições de comando e têm dado boa conta do recado; mesmo Saddam Hussein . cuja nomeação para liderar o sector Curdo tanta celeuma causou . tem provado ser inteiramente merecedor da segunda oportunidade que lhe foi concedida, na melhor tradição do american way...

Por cá, o desânimo impera nas hostes esquerdistas. Os ventos da História sopram contra as suas convicções ultrapassadas e eles sabem disso. Como afirmou o Presidente Santana Lopes, com o seu costumeiro espírito prático, 'o que conta é mesmo a obra feita; isso das ideias é coisa do passado!'
Olhando para o futuro, e ignorando o clamor dos fanáticos antiprogresso, há que ver the big picture: este modelo de joint-venture entre estados árabes e empresas ocidentais tem de ser levado a mais países carenciados. Exportar o sucesso iraquiano para países vizinhos irá beneficiar as muitas populações oprimidas da zona.
Os dias em que as mudanças de regime eram anunciadas pelas pontas das baionetas já lá vão. Nesta nova era em que o Mercado substituiu a Geopolítica, a palavra mais sussurrada nos corredores do poder internacional é agora .franchising.. Talvez a recentemente anunciada intenção de alterar o nome do Iraque para McRaq represente já um passo nesse sentido."

Publicado por Luis Rainha às 12:07 PM | Comentários (6)

VENHA O DIABO E ESCOLHA

Cartoon de Sandy Huffaker

Consta que um dos muitos nomes do Mafarrico (sempre em actualização) é Belzebush.

Publicado por José Mário Silva às 11:21 AM | Comentários (0)

MONTAIGNE

As citações do pensador que invadiram ontem este blogue, quase como um vírus, foram retiradas de «Montaigne . Pequeno Vade-Mécum», uma compilação de excertos dos «Ensaios», organizada alfabeticamente por Claude Barousse, traduzida por Luis Leitão, editada pela Antígona e distribuída nas livrarias ainda esta semana.
Fica a informação, para os interessados.

Publicado por José Mário Silva às 11:15 AM | Comentários (1)

abril 05, 2004

DÚVIDA

«Só os loucos têm certezas e são resolutos.» Michel de Montaigne (I, XXVI)

Publicado por José Mário Silva às 07:55 PM | Comentários (4)

O TAPETE DE GEORGE W. BUSH (OU DE COMO SE FAZ POLÍTICA "SECRETA" NA SALA OVAL)

Cartoon de Monte Wolverton

Publicado por José Mário Silva às 07:48 PM | Comentários (3)

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO (2)

Ele queria escrever verdades que coubessem numa frase, como Montaigne, mesmo sabendo que não era Montaigne.

Publicado por José Mário Silva às 07:35 PM | Comentários (6)

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Mais do que o branco da folha, angustiava-o a tinta desperdiçada em tantas páginas inúteis.

Publicado por José Mário Silva às 07:31 PM | Comentários (0)

UM POST TALVEZ XENÓFOBO

Os turistas japoneses sempre me causaram alguns arrepios passageiros, com os seus reluzentes olhinhos electrónicos Sony. Quando estou com a tal veia lírica, fantasio-os vanguarda de uma civilização belicosa a anos-luz, coleccionando informação estratégica que é de imediato transmitida à restante colmeia. Imaginar um clã nipónico . organismo colectivo de hábitos e pensamentos insondáveis . a ver-me de relance num travelling "casual" sobre uma rua lisboeta deixa-me um pouco inquieto.

Publicado por Luis Rainha às 05:08 PM | Comentários (1)

VINHO

«O costume faz mal em condenar o vinho só porque muitos se embriagam com ele.» Michel de Montaigne (II, VI)

Publicado por José Mário Silva às 04:52 PM | Comentários (0)

AFIXE A PRESIDENTE!


Depois do recente "Afixe é fixe!", chega a minha vez de parafrasear um outro slogan presidencial de antanho: "Muitos prometem, o Afixe cumpre!"
É que acabo de receber das mãos de um funcionário dos CTT a bela botelha que a imagem ilustra. Há uma quinzena, o nosso camarada Afixe tinha-me prometido o envio de um excelso néctar do Fundão. Fica confirmado . caso dúvidas a alguém restassem . que o nosso itálico é homem de palavra. Logo ao jantar vou tratar de degustar este resultado do labor da Adega Cooperativa do Fundão. Depois vos darei notícias...

Publicado por Luis Rainha às 04:44 PM | Comentários (4)

MUNDO

«O mundo não passa de um baloiço perene. (...) A própria constância é apenas um baloiçar mais lânguido.» Michel de Montaigne (III, II)

Publicado por José Mário Silva às 04:06 PM | Comentários (1)

CHEZ NOUS, AUSSI

Cartoon de Plantu, no «Le Monde»

É só substituir a Alsácia pela Manuela Ferreira Leite e o défice de 4,0% pelo défice de 2,8% do PIB (obtido não sabemos ainda bem como). A desgraça liberal, essa, vai dar ao mesmo beco sem saída.

Publicado por José Mário Silva às 03:52 PM | Comentários (4)

RETIRO

«Miserável, a meu ver, aquele que não tem um sítio seu onde estar sozinho, onde possa fazer a corte a si próprio, onde esconder-se.» Michel de Montaigne (III, III)

Publicado por José Mário Silva às 03:48 PM | Comentários (5)

COMO EU ME ANDO A TRANSFORMAR NUM TURISTA JAPONÊS

Numa destas noites, estava eu absorto pela beleza planante do "intimissimo sentimento" prescrito por Brahms, quando um telemóvel estraçalhou o silêncio quase espiritual do Grande Auditório da Gulbenkian. E qual foi a minha reacção? Irritação? Divertimento?
Nada disso. Dei logo por mim a pensar como poderia fazer daquele episódio desagradável um post interessante. Só a aspereza ritmada de Ligeti me conseguiu despertar desta rêverie ensimesmada. No intervalo do recital, deambulei pela exposição de Antony Gormley. E lá germinou mais um post.
Esta ânsia febril que me leva a tudo querer registar e interpretar começa a parecer-me uma forma insidiosa de divórcio da realidade. É que não é a primeira vez que me apanho a fugir dela:
Há quase 20 anos, visitei Marraquexe pela primeira vez. Levava comigo uma câmara VHS, instrumento desajeitado e pesadão que não largou o meu ombro durante o primeiro dia na capital dos Almorávidas. Só quando regressei ao hotel e me tentei lembrar do que vira pouco antes é que reparei que algo de muito errado tinha ocorrido. À minha memória, só regressavam imagens a preto-e-branco, recordações mediadas pelo viewfinder rudimentar, distorcidas pelo autofoco hesitante. Era como se aquele não tivesse sido um dia da minha vida, mas apenas um documentário banal a que nem dera muita atenção: gravações entediantes das férias de um estranho. E lá ficou o trambolho electrónico enfiado no quarto durante o remanescente da estada...

Olhem que isto dos blogues parece ter-me atacado da mesma forma. Enquanto apenas escrevia uns disparates sobre política ou arte, os sintomas eram suaves. Agora, aqui no BdE, deixei-me contagiar pela veia lírica e intimista do Zé Mário. E tudo mudou. Primeiro, comecei a abrir as várias assoalhadas da minha vida ao exibicionismo da escrita bloguística. Depois, a pouco e pouco, essa escrita, essa atitude de contínua análise e exegese começou a contaminar a vida de que deveria ser apenas reflexo discreto e obediente.
É como andar com um incansável naturalista da BBC sentado atrás dos olhos. Sempre a sussurrar observações certeiras ou apenas picarescas para o gravador oculto. Sempre a falar para a câmara, costas viradas às feras e demais perigos da selva.
Assim, damos connosco na posição anestesiada de detectives da nossa própria existência. O mundo torna-se menos real; as nossas experiências deixam de coalescer naquilo a que chamamos "vida" e passam a ser apenas matéria-prima para mais uns parágrafos de ciber-tagarelice.

Não sei se existe uma outra forma de escrita que convide de forma tão descarada à alienação. Mesmo um diário pode resumir-se à simples captura do nosso dia-a-dia, sem esta comichão de tudo querer indagar, interpretar e amplificar.
Há quem diga que a esquizofrenia implica também um radical distanciamento do mundo exterior. Alguns dos sintomas negativos desta doença mental assentam que nem uma luva sobre o blogger típico: atenuação do self, falta de emoções, tom de fala neutro, afectos inapropriados. Este último implica a existência de reacções a despropósito, como rir ao saber de uma perda devastadora; ou, acrescentaria eu, ter vontade de sacar do bloco-notas ao ouvir um telemóvel a interromper a Elizabeth Leonskaja...
Enquanto a comunidade psiquiátrica não se resolve a encarar esta patologia de frente, sugiro a criação de comunidades de auto-ajuda; assim uma coisa tipo "Bloggers Anónimos".
Por mim, vou ver se me trato, nem que seja ao estilo cold turkey.


PS: lamentável, lamentável é que lá acabei por escrever o post inspirado pelo telelé na Gulbenkian...

Publicado por Luis Rainha às 12:40 PM | Comentários (10)

POSTO DE COMANDO

No mês em que se comemoram os 30 anos do 25 de Abril de 1974, este vai ser um local de passagem obrigatória. Iniciativa da malta do Grão de Areia, com o apoio técnico (e não só) do Paulo Querido, este site vai reunir tudo o que se for escrevendo sobre a Revolução dos Cravos, quer na imprensa, quer nos blogues. A ideia foi empurrada, numa primeira fase, pelo Barnabé, pela Internet para as Domésticas e por nós, mas está a espalhar-se rapidamente à restante blogosfera.
Nome de código do projecto: Aqui Posto de Comando.

PS- Aviso a todos os bloggers: para aderir a esta comemoração, basta colocar nos vossos posts alusivos ao 25 de Abril o trackback URL do Posto de Comando (http://grupos.com.pt/s/mt-tb.cgi/8) ou lincar palavras dos textos sobre a Revolução para o Posto de Comando, para que eles apareçam na página.

Publicado por José Mário Silva às 10:58 AM | Comentários (9)

POESIA

«Gosto do caminhar poético, aos saltos e a passo largo. Trata-se de uma arte, como diz Platão, ligeira, volúvel, divina...» Michel de Montaigne (III, IX)

Publicado por José Mário Silva às 10:55 AM | Comentários (0)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Apresentemos o minúsculo livrinho: 32 páginas A5, 16 poemas, dois agrafos, uma heliogravura de Lourdes Castro na capa. O título: «Levadas». A editora: Assírio & Alvim. Quem conhece a bibliografia do prolífico (e excelente) poeta Manuel de Freitas, já suspeitará do que se trata. Sim, é a versão «revista e aumentada do conjunto homónimo de poemas», publicado em edição de autor, há dois anos (com um desenho de Luis Manuel Gaspar), e literalmente introuvable.
São poemas dedicados ao pai, deambulações melancólicas pela geografia madeirense e pelos labirintos da família, pequenas aguarelas carregadas de tristeza e de morte (mas nenhum Bach). Aqui fica uma amostra:


Podia, em vez de Glória,
chamar-se Festa, riso
ecoando pela loja dentro
a renovada surpresa das orquídeas.

Numa das paredes estava
(estará ainda?) um desenho
que não me lembro de ter feito
. palhaço morrendo às mãos
de quem fui, gerúndio local
escurecendo os agapantos.

Do terraço, viam-se esquivos petroleiros
parados em frente à Formosa,
praia onde nadava sempre
a poucos metros de meu pai,
o irmão com quem se parecia mais.
Antes dos turistas, dos hotéis,
da calma delapidação do mar.

Quando enviuvou, desistiu
de pintar o cabelo.
No quarto do meio, aquele
que foi por várias vezes meu,
uma guitarra sem mãos
esconjura memórias,
pesadelos, lágrimas de Verão.

E devo-lhe, pelo menos, isto:
o meu nome, a primeira poncha,
a morte florindo num terraço azul.
Saiba, minha tia, que desenho
ainda pior com as palavras.

Publicado por José Mário Silva às 10:51 AM | Comentários (3)

SP. BRAGA-SPORTING

2-3.

É bom perceber que o campeonato ainda não acabou.

Publicado por José Mário Silva às 10:31 AM | Comentários (13)

ABUSOS

«Todos os abusos do mundo resultam do facto de nos ensinarem a ter medo de manifestarmos a nossa ignorância.» Michel de Montaigne (III, XI)

Publicado por José Mário Silva às 10:25 AM | Comentários (0)

FOREIGN SOUND

Exactamente dez anos após a morte de Cobain, Caetano Veloso lança o seu novo CD. É amanhã. Chama-se Foreign Sound e é uma reunião de versões de clássicos da canção norte americana de diferentes épocas. É finalmente o famoso CD em inglês que Caetano já prometia ainda antes de Noites do Norte. A página oficial de Caetano ainda não refere nada sobre o novo CD, mas para saber mais (incluindo o alinhamento de canções) veja-se por exemplo aqui. No dia de hoje, fiquemos em jeito de antevisão com um trecho de 30 segundos de Come As You Are, versão Caetano.

Publicado por Filipe Moura às 02:20 AM | Comentários (3)

MORTE

«A premeditação da morte é premeditação da liberdade. Quem aprendeu a morrer, desaprendeu a servir.» Michel de Montaigne (I, XX)

Publicado por José Mário Silva às 01:46 AM | Comentários (1)

DEZ ANOS

And I swear that I don't have a gun
No I don't have a gun

Estas palavras cantava ele em Come As You Are. Mas quando teve um revólver na mão, foi o que se sabe. Isto de acordo com a versão oficial... Teorias mais ou menos conspirativas sobre a morte de Kurt Cobain é que não faltam, exactamente dez anos após a sua morte, aos 27 anos. Seja pelo que tiver sido, um pouco por toda a parte ele não será esquecido e cheirará a teen spirit.

Publicado por Filipe Moura às 01:39 AM | Comentários (0)

abril 04, 2004

TCHAU GENTE

Foi exactamente com estas palavras que Cesária Évora se despediu do público do Grand Rex, depois de Nhô Antone Escaderode e antes do encore. Foi o culminar de um excelente concerto, que deixou o público completamente rendido, a aplaudir de pé. Uma sala enorme, cinco datas, todas esgotadas. O "tchau gente" é um até à próxima, não é, Cesária?

PS: Cesária não poderá é actuar mais na Irlanda. Se tiver algum concerto lá marcado, o "tchau" será mesmo adeus.

Publicado por Filipe Moura às 09:50 PM | Comentários (0)

O FADO DA SINCRONICIDADE

Há uns tempos, convenci alguns amigos a embarcar numa estranha aventura: a convite da Gradiva, iríamos escrever e desenhar um livro sobre as noites de Lisboa. Lá dividimos a coisa por "tribos" e seleccionámos os estaminés a visitar. O capítulo dedicado ao Fado começou pelo "Forcado", o gigante da indústria fadística do Bairro Alto, onde manadas de turistas se revezam para assistir a números de fado e de folclore, entre garfadas de bacalhau e cabrito.
Ali, a quantidade de japoneses desafiava a imaginação: logo à entrada, um magote deles assaltava uma das divas de serviço, em busca de CDs, autógrafos, alguns frames de proximidade.
Decidi naquele instante que a pequena ficção deste capítulo ia descrever as aventuras de um turista nipónico que, mais ou menos por acidente, se transforma num fadista de sucesso em Lisboa.
Já tinha eu o conto quase acabado quando chegou a vez de jantarmos no "Clube de Fado". Trata-se de um restaurante onde o Fado é mesmo rei: sempre que um cantor sobe ao palco, tudo pára, nem um empregado de mesa na sala se vislumbra.
A estrela convidada daquela noite era Carlos Zel. Após três ou quatro fados, cantados de forma impressionante . e olhem que eu não sou nada dado ao género ., ele anunciou que ia chamar ao palco uma amiga "muito especial".
Os mais perspicazes entre vós já por certo adivinharam que se tratava de uma cantora japonesa. Fadista, claro está. Só depois de um "Foi Deus" trucidado pela dicção macarrónica da senhora é que me recompus do choque causado por tal coincidência.
Tsuquida Hideco, assim se chama a cantora, acabou por vir à nossa mesa, onde conversou connosco e até nos ofereceu um CD autografado . a simetria com a cena do "Forcado" não me passou ao lado -, por sinal bastante mau. Aparentemente, Tsuquida apaixonou-se pelo Fado ao assistir a um concerto de Amália em Tóquio. Daí a decidir seguir carreira como fadista foi apenas um passo, estranho mas dado sem hesitações.

Se eu fosse o Paul Auster, garanto-vos que saberia o que fazer com esta prova de que a sincronicidade anda mesmo por aí. Como não sou, limito-me a deixar-vos com este pequeno relato. E com algumas imagens e sons desta mesmíssima noite no "Clube de Fado".

Publicado por Luis Rainha às 07:01 PM | Comentários (4)

GIL VICENTE-F. C. PORTO

2-0.
É bom perceber que os monstros também se abatem.

Publicado por José Mário Silva às 10:34 AM | Comentários (11)

1000 POSTS

O post do Luis Rainha sobre lobotomias (e outras maldades clínicas) foi o milésimo do BdE II, em pouco mais de quatro meses. É obra? É. Mas estejam descansados. Outros milhares de posts virão.

Publicado por José Mário Silva às 10:32 AM | Comentários (9)

OS PICA-MIOLOS

- Sente alguma diferença?
- Sinto que está um livro na minha cara. Eles mexeram no meu lado esquerdo. Havia um desenho quando enfiaram a faca.
- As suas preocupações, desapareceram?
- Que preocupações? Estou a ver o que quer dizer. Sim, acho que sim.
- A sua consciência, dói?
- Não sei onde está. Estava perto do meu coração, mas não a consigo sentir de todo...
- Como se sente agora?
- Agora é como uma comichão no alto da cabeça.
- E nos seus genitais?
- Sim.
- Como é?
- Sinto que é o Diabo.
- Sente que o Diabo o está a castrar?
- Sim.
- Ou está só a masturbá-lo?
- Sim, é mais isso, acho eu.
- Você está corrompido?
- Uh-huh.
- O Diabo diz-lhe para melhorar?
- Sim.
- Para que faz ele isso?
- Para ser o chefe.
- Que dia é hoje?
- Quinta-feira. (Incorrecto)
- Você foi operado?
- Não.

Nas décadas de 40 e 50, os Doutores Walter Freeman e James Watts fizeram da lobotomia uma forma de arte. Inventores da expedita técnica denominada "Lobotomia Transorbital" . na realidade, pouco mais que enfiar um picador de gelo por cima do olho do paciente e esfrangalhar os miolos do pobre . destroçaram as mentes de centenas e centenas de vítimas. O diálogo acima foi gravado durante uma destas intervenções, em que o paciente recebeu apenas anestesia local.
Este lindo avanço da Ciência vem glosado num livro fascinante que ando a reler: "Neuro . Life on the frontlines of brain surgery and neurological medicine", de David Noonan.
A forma como Egas Moniz inventou a lobotomia (ou leucotomia) seria cómica se não fosse monstruosa: num congresso em Londres, ele assistiu a uma palestra em que eram descritos procedimentos semelhantes, aplicados a primatas. O cientista português não perdeu tempo: aproximou-se do conferencista e propôs-lhe logo ali levar a cabo a mesma operação num ser humano. Claro que tal "oferta" foi recusada. O que não desanimou Egas Moniz: escassos meses depois, estava já ele a dirigir a sua primeira psicocirurgia, em Lisboa.
Isto em 1935, quando não existia a menor ideia concreta do modus operandi dos nossos cérebros. Os "cirurgiões" limitavam-se a escarafunchar nos miolos para um lado e para outro, a ver se o doente acalmava.

O autor deste livro não é meigo para com o nosso Nobel: "Trágico foi que Moniz não fosse visto e rejeitado como um charlatão, graças ao seu trabalho psicocirúrgico. Ele não só não foi escorraçado como um perigoso excêntrico; foi até aclamado como um visionário."
Antes que alguém conclua que isto é simples má-língua de camone invejoso, termino com uma curiosidade: na lista de agradecimentos de Neuro, descobrimos um "John L. Antunes". Quem será esta personagem de mistério?

Publicado por Luis Rainha às 12:07 AM | Comentários (4)

abril 03, 2004

UM GAJO COM ELES NO SÍTIO (2)

Bem me parecia que era de louvar a frontalidade com que Pedro Mexia se atirou ao "Ensaio sobre a Lucidez".
É só ler o "Expresso" e o "Público" de hoje. São quatro páginas que cada um dos respectivos suplementos culturais dedica ao último Saramago; ou, melhor dizendo, às elucubrações políticas do candidato-que-apela-ao-voto-em-branco. Longas entrevistas em que ele tenta justificar o injustificável incitamento "brancoso".
E a crítica literária, onde parará?
Boa pergunta. No "Mil Folhas", o artigo que faz de rodapé à entrevista canta mais umas loas à "inteligente provocação intelectual", ao "grito sobre a revolta da cidadania" e a uma tal "hipérbole da revolta". E a Literatura, como fica? Este romance, enquanto tal, é bom, ou limita-se a ser panfleto de uma causa estapafúrdia? Respostas, não se encontram aqui.
Ora abóboras; se eu quisesse ser intelectualmente provocado, lia Stewart Brand ou Gore Vidal. Em Saramago, preferiria voltar a encontrar prosa do calibre daquela do "Levantado do Chão"...
No suplemento "Actual", do "Expresso", o panorama não é muito diverso: capa e longa entrevista. Torna-se necessário chegar ao final do pequeno artigo em caixa para descobrir a frase que por fim encerra um vislumbre de sentença: "Um livro fascinante, inquietante e muito sedutor". Quatro páginas para se obter um sumo de 7 palavritas.

A análise do Mexia será cruel, subjectiva, impressionista e o mais que queiram. Mas tem a coragem de ser uma opinião. De gente prostrada em adoração acéfala aos nossos bezerros de ouro, já estou eu farto.

Publicado por Luis Rainha às 07:42 PM | Comentários (9)

A LIBERTAÇÃO DO MELÓMANO

O Embaixador Jorge Ritto saiu do Estabelecimento Prisional de Lisboa, ontem ao fim da tarde, supostamente por ter 68 anos de idade e ser fácil de vigiar. Mas creio que a verdade é outra: faltam 20 dias para a Festa da Música e o diplomata melómano já deve ter saudades de ouvir um concerto ao vivo.

Publicado por José Mário Silva às 06:09 PM | Comentários (5)

A MANIF DAS FLORES

Por entre o muito spam que nos atravanca a caixa do correio, recebemos uma mensagem muito curiosa, enviada pelo auto-denominado Grupo de Cidadãos do Sabugueiro. Trata-se, muito simplesmente, de um press-release que anuncia (e justifica) uma Manifestação com Flores, a decorrer amanhã, Domingo de Ramos, na estrada de acesso à Serra da Estrela.
Como é óbvio, um protesto florido no mês de Abril parece-nos sempre bem. E este não escapa à regra. Força Cidadãos do Sabugueiro! O BdE está convosco.

Eis o press-release que recebemos, aqui publicado na íntegra:

«A EN 339, conhecida por estrada da Serra, é uma importante via de acesso ao Maciço Central, por ela passando largos milhares de veículos e autocarros, sobretudo em períodos associados à queda de neve.
Há mais de 20 anos que a população do Sabugueiro assiste aos fins de semana a verdadeiras situações de caos no trânsito, com pessoas a demorarem várias horas dentro dos seus veículos e outras em situações de perigo pela falta de meios, quer na prevenção, quer na actuação em situações de emergência, sem que para tanto e apesar de algumas promessas, nada seja feito para resolver esta situação.
Sendo o Turismo, a maior unidade empregadora do Sabugueiro, entendem os seus habitantes e sobretudo os comerciantes, dirigentes associativos e autarcas, que é chegada a altura de exigir às autoridades competentes, medidas conducentes à melhoria do sector e neste caso em particular, dos acessos, nomeadamente, desde Seia até à Torre.
Em concreto, o que se reivindica é a melhoria da estrada, desde Seia até à Torre e a criação de pequenas "Bolsas de Estacionamento" ao longo da mesma via e designadamente na Lagoa Comprida e no Sabugueiro, além de um melhor aproveitamento das valetas no troço que atravessa esta aldeia de montanha.
Outras medidas necessárias e reivindicadas são a dotação do Posto de Limpeza de Neve do Sabugueiro com melhores meios de intervenção na neve e a criação de um Posto de GNR temporário no Sabugueiro.
Cansada de esperar e de ver tanto engarrafamento, a população do Sabugueiro vai mostrar a sua indignação pelo abandono a que tem sido votada esta importante via de acesso à Serra, que é vital para o desenvolvimento turístico, promovendo uma Manifestação com Flores que terá lugar no próximo dia 4 de Abril (Domingo de Ramos). Durante este dia, que deverá ser dos mais movimentados do ano, a população distribuirá, aos turistas que utilizarem esta via, flores, procurando sensibilizar os governantes para esta questão, que se não tiver a evolução devida, poderá ser seguida de outras manifestações que, essas sim, terão sérias implicações na comunidade.
Simultaneamente será feito um abaixo-assinado para reforçar estes pedidos junto das entidades oficiais.»

Publicado por José Mário Silva às 03:59 PM | Comentários (1)

SERÁ O UMBIGUISMO A ESPADA DE DÂMOCLES DO BLOGGER?

Gravura de M. C. Escher

Publicado por José Mário Silva às 12:35 AM | Comentários (4)

UM MUNDO MEÃO!

Começo da única forma possível num blogue com este nome: sou de direita!
Esta, claro, é uma convicção que funciona à laia da presunção, que é como a água benta: cada um toma a que quer. Tem a ver com questões por demais debatidas que nem sequer quero aflorar, ainda para mais nestes tempos de guerra em que, como sói dizer-se, não se limpam armas.
De resto, quando iniciei os meus comentários neste blogue foi, para além do mais, porque o Blogue do Caldas (a que eu carinhosamente chamo das Caldas) não se abre, nem se agacha (foi sem maldade, esta) a comentários. A segunda razão foi mesmo apenas para ver se vos chateava. Não consegui. Vocês venceram. E aquele post do Luís censurado a lápis azul foi demolidor. Era para aí a segunda ou terceira vez que comentava num blogue.
Saiu este na rifa e agora é um amor que só visto.
Sem entender que está na hora de este blogue mudar de nome, mesmo porque a tradição, nalgumas coisas, ainda é o que era, chego à conclusão que hoje a discussão não se centra em esquerda e direita, cavaqueira que se não é despida de conteúdo, é completamente vazia de sentido prático.
Neste mundo de hoje o que mais interessa é distinguir os Medíocres (M) dos Não-Mediocres (NM).
E se o afixe (ora cá estou eu, qual jogador de futebol, a falar na terceira pessoa) mudou de estilo (em bom rigor não mudei, apenas me limitei a tirar a máscara de provocador barato e brejeiro) foi porque reconheci na generalidade dos escrevinhadores e escritores deste blogue (os de cima, os de baixo e os do meio) uma maior proximidade com os NM.
Fui gostando de ler o que era deixado e acima de tudo de não reconhecer nos mais frequentes idiotas ou "deixadores e deixa-dores de ideias" essa entupida inqualidade em que se consubstancia a mediocridade.
Não se trata de adorar o conteúdo deste blogue, o que nem sempre é um facto, trata-se, tão-só, de não identificar aqueles tiques que facilmente e ao primeiro olhar vejo no vulgo medíocre.
Mediocridade que tanto vejo em todos os partidos em que votei nas últimas eleições (o plural não é um lapso, eu votei mesmo em todos e acho, sem ter matéria para escrever um romance, que todos deviam ter feito o mesmo . pelo menos daquela vez).
Desabafo, pois, sobre algo que sempre me atormentou, que me vem atormentando de forma mais aguda ultimamente, algo que me enraivece até às lágrimas, que me tolda o espírito, que me altera o humor até ao Prozac: a Mediocridade!
(Afixe)

O mundo parece, cada vez mais, estar cheio desses pequenos répteis, repelentes e asquerosos que vêem o mundo por entre duas palas de orientação, como burros de carga que na realidade são. E eu, estupidamente, deixo-me incomodar com eles, com os seus olhares entupidos, com os seus sorrisos vazios, com as suas gargalhadas sonoras, com a seborreia com que me engraxam os sapatos.
A mediocridade da TVI.
A mediocridade do Zé-povinho.
A mediocridade do Paulo Coelho.
A Mediocridade de 80% dos meus colegas de profissão.
A mediocridade dos estudantes que não pagam, não pagam, nem eles sabem bem o quê.
A mediocridade das generalizações por falta de tempo e de interesse.
A mediocridade das descontextualizações.
A mediocridade a que a mediocridade nos conduz.
A mediocridade do terror.
A mediocridade da casa que um dia foi pintada de branco e, havendo falta de melhor nome, casa branca ficou . imaginem a confusão, se a moda pega cá pelo nosso mui português e desaguado Alentejo e começam os seus indígenas a dizerem-se moradores na casa branca. Pois se de cal foram as suas casas pintadas e se o outro, num país bem maior e provavelmente com maior número de casas brancas, se arrisca a que o carteiro não lhe conheça o paradeiro, porque não eles, que antes da tinta havia a cal e antes das Américas já o Alentejo deitava cal nas suas casas, findas as últimas chuvas, lá para os idos de Junho, não fosse a pintura ficar borrada . de um fôlego, este).
Dizia (mente tortuosa, esta minha, que não me deixa escrever sem a propósitos):
E o problema começa a ser sério e grave, pelo menos para mim que não consigo passar por cima da merda, acabando sempre por pisá-la. Fico ali, a fazer pontaria e lá vai.
Não consigo ignorar, não consigo olhar adiante, fico a remoer naquilo, horas a fio. Fico a imaginar como me saberia bem ter dito isto, feito aquilo.
Eu estudo o fenómeno.
A coisa vai ao extremo de ver o Jornal Nacional na semana da MMG (até o éme é repetido).
Para melhor combater a coisa, é necessário entendê-la.
Vejo!
Até se me arrepiar a espinha e depois vocifero. Impreco!
Aqueles olhos.
E não faço isto só com a TVI. Eu sou daqueles que, nos restaurantes, fixa os olhos e os ouvidos na mesa do lado quando revejo ali partidários do M.
Faço isso constantemente, até à náusea. Não fosse eu ter uma réstia de razão e coração e ter-me-ia casado por puro interesse científico. Seria um mártir da investigação. Teria escolhido uma MM (mulher medíocre que não manuela moura).
E estudá-la-ia. De forma afincada!
E descobriria a cura para o mal. Pelo menos para este mal em que todos os outros se condensam, a que todos se resumem.
A qualidade do assim-assim, do não-é-carne-nem-é-peixe, do cá-se-vai-andando.
Raios me partam se não!
Oportunidade perdida, reduzo-me a imaginar o mundo sem mediocridade.
Onde estaríamos, quem seríamos, onde teríamos chegado ou não.
Imagino isso tudo . vou ao dicionário e vejo: Medíocre: mediano; meão; que está entre o bom e o mau; ordinário; insignificante.
E penso em Adão e na maçã.
E sem concluir, antevejo: não podia ser de outra forma, tinha de ser assim.
Um mundo meão!

Publicado por José Mário Silva às 12:26 AM | Comentários (16)

O AFIXE É FIXE

Pois é. Tinha mesmo que acontecer. Depois de alguns piropos e convites descarados, o Afixe aceitou converter-se em itálico. Resumindo: o que começou com maus modos, reticências e provocações aparentemente gratuitas, culmina hoje na sua primeira colaboração, em clima de saudável euforia, diálogo virtual e palmadinhas nas costas. Ou como ele próprio diz: «agora é um amor que só visto». Recíproco, ainda por cima.

Publicado por José Mário Silva às 12:20 AM | Comentários (1)

abril 02, 2004

MATINHA MORNING HERALD

Juro que não ando a fazer campanha contra a TSF. Nem preciso, quando os próprios funcionários da casa se encarregam de produzir coisas destas...

Publicado por Luis Rainha às 04:33 PM | Comentários (8)

MANUSEADOS

Já aqui falámos da venda de livros em segunda mão da Cotovia. Agora é a vez da Assírio & Alvim organizar mais uma Feira do Livro Manuseado: até 29 de Abril, em Lisboa (Rua Passos Manuel, 67-B, de segunda a sábado, das 10 às 19h) e no Porto (Rua Miguel Bombarda, 531, de terça a sábado, das 15 às 19h), haverá muita escolha de romances, ensaios, poesia, banda desenhada, livros sobre fotografia, cinema ou música, entre 3 e 20 euros.
Além das «pechinchas», também se podem encontrar livros raros, obras esgotadas e primeiras edições (por exemplo: «A Phala . Um Século de Poesia (1888-1988)»; «Tabernas de Lisboa», Luís Pavão; «Carta ao General Franco», Arrabal; ou três obras de Herberto Helder: «Do Mundo», «A Cabeça Entre as Mãos» e «A Última Ciência»).
É aproveitar, minha gente, é aproveitar.

Publicado por José Mário Silva às 04:01 PM | Comentários (1)

O NOSSO JORNALISMO

Hoje, almocei com um meu amigo jornalista. Enquanto não conquistávamos mesa no restaurante, ele entreteve-se a rascunhar um pequeno artigo: algo que passava por descrever a festa do Bloco de Esquerda como "um ajuntamento de gente a precisar de banho, no meio de fumos estranhos". Só depois de acabada a colorida descrição me lembrei eu de algo basilar: a festa do Bloco ainda nem sequer começou. Resposta pronta do amigo jornalista: "e então? Duvidas que vai mesmo ser assim"?
A bem da verdade, não posso garantir que ele estivesse a brincar. E quem sou eu para duvidar da clarividência do nosso Quarto Poder?

Publicado por Luis Rainha às 03:47 PM | Comentários (6)

O ÚLTIMO SORRISO DE RAFFARIN

Cartoon de Pancho, no «Le Monde»

Publicado por José Mário Silva às 02:24 PM | Comentários (1)

A BUZZWORD DA SEMANA: "LIHOP"

Os entusiastas das teorias da conspiração, os émulos do agente Mulder, os cabalistas de trazer por casa; por uns dias, todos eles vão ostentar sorrisos de orelha a orelha.
E a causa deste júbilo é a súbita atenção que os holofotes dos media (alguns, pelo menos...) andam a dispensar à teoria LIHOP: "Let It Happen On Purpose".
Sibel Edmonds, antiga tradutora do FBI, testemunhou que o Bureau estava, bem antes do 11 de Setembro, na posse de indícios que apontavam claramente para a iminência de atentados contra cidades americanas, usando aviões de passageiros como mísseis. Esta informação teria sido passada às autoridades competentes, que agora negam tudo a pés juntos.
Daí o LIHOP: à semelhança do que muitos defendem que se passou com Pearl Harbour, os boys and girls de Bush teriam permitido os atentados, certos de que estes iriam garantir o apoio popular para muitas acções que andavam já a magicar . confiram-se as declarações de Paul O.Neill sobre a obsessão de Bush Jr com o Iraque. Só que calcularam mal a amplitude dos mesmos.
Mais: a tradutora, que já passou um teste no "detector de mentiras", afirma ter sido pressionada e subornada pelo FBI, a fim de alterar os seus relatórios.

Engraçado é que uma busca que ainda agora fiz no site da CNN apenas me revelou uma notícia relativa a Sibel já com dois anos... e julgo que nem vale a pena procurar tais coisas na Fox News. Por outro lado, as recentes vítimas da barbárie de Fallujah continuam a ser referidas como "civis", sabendo-se já que eram "commandos with private firm", nas palavras do "Washington Post"; aquilo a que noutros tempos se chamava "mercenários". Anda bem entregue a democratização do Iraque.

Publicado por Luis Rainha às 12:09 PM | Comentários (6)

FC

Em «Tudo isto é Fado», obra de Luís Galvão Teles que chegou ontem às salas, várias cenas decorrem durante uma imaginária final do Campeonato do Mundo de Futebol, disputada entre brasileiros e portugueses (sim, leram bem). Tendo em conta a forma como Figo, Rui Costa e Companhia jogaram contra a Itália, pode dizer-se que o filme é muito mais do que uma comédia. É ficção científica.

Publicado por José Mário Silva às 10:47 AM | Comentários (1)

ESTATÍSTICA

Ontem tivemos 1003 visitas ao BdE . tantas quanto as conquistas românticas que D. João, o rei dos sedutores, conseguiu em Espanha. Perdoem-me o exagero, mas há nisto qualquer coisa de poético.

Publicado por José Mário Silva às 10:40 AM | Comentários (12)

E O LOMBA?

Quando vejo um assistente a intitular-se "docente universitário", perco o controlo. Fico fora de mim. Ou é pretensão, ou imerecimento (com a quantidade de doutorados à procura de vínculo permanente que há no mercado). Isto em áreas científicas, naturais e humanas.
No direito, creio que a situação é bastante diferente, conforme me explicou o André Figueiredo. Há muitos assistentes convidados, muitos advogados que nem têm exclusividade com a Universidade. A situação, porventura, não é comparável com as áreas científicas. Enquanto não houver doutorados no desemprego para manter estes "turboadvogados", é lá com eles.
Fui eu atirar-me ao desgraçado do Lomba, recém regressado à blogosfera, e nem sei em pormenor qual é a situação dele. Mas pareceu-me encontrar uma contradição entre o texto dele no blogue e o modo como assina nos jornais. Salvaguardo que não pode ser pretensão, simplesmente porque ele não é nada pretensioso. Pode ser simplesmente uma questão de mentalidade, de parecer bem. Só que nos países anglo-saxónicos que ele tanto admira, tal não seria nada bem visto, e ainda bem. Mas eu não quero de modo nenhum personalizar esta questão. Mando-lhe este reparo e um abraço.

Publicado por Filipe Moura às 02:17 AM | Comentários (13)

DOCENTES E ASSISTENTES

Convém aqui esclarecer alguns aspectos a propósito do texto "Diga lá, Docência".
Em quase todos os países, em geral, qualquer aluno de doutoramento dá aulas. São contratos temporários, muitas vezes a única maneira de os alunos obterem financiamento para completarem o seu grau. É evidente que esses alunos são estritamente "docentes universitários", uma vez que dão aulas numa universidade. Mas a sua principal ocupação está no seu doutoramento, e é assim que se identificam. Posso garantir que, nos EUA (caso que conheço bem), se eu, enquanto dei aulas durante o meu doutoramento, dissesse que a minha ocupação era "docente universitário", seria no mínimo coberto de ridículo. E creio ser assim em todos os países onde, como referiu José Manuel Fernandes, o doutoramento é visto como o início da carreira académica, e não praticamente como o seu topo.
Em Portugal, a tradição nunca foi essa. Acabava-se a licenciatura, os melhores alunos eram convidados (!!) para assistentes, iam fazendo os mestrados e os doutoramentos e dando aulas, sempre com o futuro garantido. Esses assistentes eram "docentes universitários".
Hoje em dia, a situação é outra. E ainda bem que é assim. Devido a uma forte aposta na qualificação por parte do anterior Governo (e em particular devido a um ministro notável, Mariano Gago), hoje há muito mais doutorados portugueses. E continuam a formar-se, pese os cortes orçamentais do actual Governo.
A esmagadora maioria destes doutorados não teve nenhum vínculo laboral permanente enquanto fazia o doutoramento. Ainda hoje, uma parte substancial (que decidiu continuar a fazer investigação) não tem. (É o meu caso.) Vive-se de bolsas e contratos temporários, em Portugal e no estrangeiro.

A mentalidade do "assistente docente" é completamente ultrapassada, e um bloqueio ao desenvolvimento das Universidades portuguesas. Lamentavelmente, esta mentalidade mantém-se. Portugal é, em conjunto com a Espanha, o país europeu onde há maior número de contratações (para o quadro docente de uma Universidade) de doutorados por essa Universidade. É o favorecimento de candidatos, o chamado inbreeding. Há um favorecimento objectivo da "prata da casa", do material que já se conhece. As percentagens de inbreeding em Portugal e Espanha são assustadoras, tendo já sido objecto de artigos na Nature (ver aqui, aqui e aqui; para os artigos originais, é necessária uma assinatura, mas ficam as referências).
Comparando com países desenvolvidos, uma situação de inbreeding nos EUA é praticamente impensável. (Está certo que é um país com muito mais Universidades e um mercado académico competitivo.) Aqui em França, o inbreeding não é impensável mas não me parece tão provável.
(E antes que me acusem disso: sim, estou a defender os meus interesses.)

Publicado por Filipe Moura às 02:15 AM | Comentários (12)

abril 01, 2004

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!

George W. Bush acaba de pedir a demissão, em Washington, por motivos ainda pouco claros (mas que podem estar relacionados com revelações gravíssimas que Colin Powell se preparava para fazer, diz-se, na edição de amanhã do «New York Times»). Visivelmente transtornado, Bush acabou a conferência de imprensa em lágrimas, abraçado a um Donald Rumsfeld de olhos vítreos.
Só visto.
É um momento histórico.
Sintonizem a CNN.

Publicado por José Mário Silva às 05:21 PM | Comentários (14)

UM GAJO COM ELES NO SÍTIO

Não tenho sido grande apreciador da actividade do Pedro Mexia, enquanto crítico literário. Por isso, estou à vontade para aplaudir a coragem que ele demonstrou, ao arrasar o "Ensaio sobre a Lucidez" de Saramago.
Ainda não li o romance em questão. Espero não encontrar, quando o fizer, razões para crer que esta "demolição" foi levada a cabo apenas pour épater le bourgeois. Até ver, não me parece que seja o caso.

Publicado por Luis Rainha às 04:25 PM | Comentários (40)

O MEU ECRÃ É OUTRO

Segundo um estudo da Eurodata TV Worldwide, o tempo médio gasto por cada português, diariamente, em frente do televisor, passou no intervalo de uma década (1993-2003) de 2h50 para 3h27. Ou seja, mais 37 minutos diários de intoxicação televisiva.
Entretanto, num sentido inverso ao da generalidade dos compatriotas, o meu consumo médio por dia de TV baixou, no mesmo período, o equivalente ao referido acréscimo: 37 minutos.
Bom, para dizer a verdade ele já era, em 1993, de 37 minutos, mais coisa menos coisa. Agora façam as contas.

Publicado por José Mário Silva às 04:18 PM | Comentários (2)

O FIM DO BDE, TAL COMO O CONHECEMOS

Bem, mais tarde ou mais cedo, este dia tinha de chegar. A gerência do BdE, envergonhada mas enriquecida, encarregou-me de vos comunicar que fomos alvo de um lucrativo takeover, por parte destes senhores. Se, a partir de amanhã, notarem algumas pequenas diferenças na orientação editorial deste blogue, não se surpreendam em excesso.

Publicado por Luis Rainha às 03:50 PM | Comentários (9)

POBRES RICOS?

No DN de hoje, Eurico Barros fala-nos de "Lá Fora", último filme de Fernando Lopes. Aparentemente, este versa o triste fado dos pobres senhores ricos: "Parecem ter tudo, mas falta-lhes o essencial. (...) falta o resto: os sentimentos, o amor, a família, a companhia, a compreensão as palavras para comunicar. (...) É um filme sobre o viver mal parecendo estar bem na vida, o engano de estar protegido, a ilusão de barrar a realidade, sobre a liberdade do espaço privado que afinal é uma prisão de claustrofobia. Em Lá Fora, ninguém escapa ao abraço da infelicidade ou à sombra da incerteza, nem os mais modestos nem os mais jovens."
Para o crítico, este é um dos "raros filmes portugueses recentes que conseguem mostrar" como é que um grupo social vive e sente no "Portugal do século XXI" e mostra-nos "o mundo dos privilegiados, fazedores de comunicação para as massas e de rios de dinheiro para uma minoria, que se abriga em condomínios privados e vigiados."

Olhe; tenho más notícias para si, Eurico.
Por muito que nos custe a nós, pobres remediados, os obscenamente ricos não vivem assim, mergulhados em misérias existenciais várias. A malta da Quinta Patiño e das mansões de Belém vive em excelentes casas, é culta, educada e, por norma, é composta de indivíduos irritantemente felizes. Os ricos reformam-se cedo e têm mais tempo do que nós para se dedicarem às coisas do espírito. Viajam por todo o lado. Não têm de refazer o orçamento mensal sempre que querem comprar mais uns livros. As senhoras, uma vez que na sua maioria nem trabalham, têm menos neuroses e escolioses do que as nossas namoradas e conjuges. Ainda por cima, como podem pagar aos melhores médicos, os ricos vivem mais do que nós e dão naqueles velhinhos de ar simpático que vemos sair dos recitais da Gulbenkian para enormes Mercedes topo de gama. Os seus filhos são educados por excelentes escolas e embalados por nannies doces e competentes; tal não garante que não dêem em drogados, mas deve ajudar bastante.

Sei que a inveja é coisa feia. Mas não resisto: também quero viver abraçado a essa "infelicidade"...

Publicado por Luis Rainha às 12:19 PM | Comentários (16)

UM ITÁLICO ANÓNIMO

Na TSF, discutia-se há minutos o aumento dos combustíveis. Depois de doutas apreciações e ilustres pareceres sobre o aumento do crude, dos impostos, etc., chegou a vez de um anónimo motorista de camião: "O que eu sei é que é só passar a fronteira para Espanha e começo a ver a nossa Galp a vender gasóleo mais barato. E lembro-me de um senhor, que agora é ministro da defesa; quando ainda não era ministro e passava o tempo nas feiras aos beijinhos a toda a gente, apareceu na TV a cruzar essa fronteira e a apontar o absurdo de ali, num país onde se ganha bastante mais, haver preços mais baixos para quase tudo. Esse senhor agora está no governo. Nós continuamos a pagar tudo cada vez mais caro." (Cito de memória, naturalmente.)
Bendita vox populi!

Publicado por Luis Rainha às 11:10 AM | Comentários (3)

O SOCO MERECIDO

Publicado por José Mário Silva às 10:57 AM | Comentários (1)

NÃO CONFUNDAM O ZÉ MANEL

Há uns dias atrás, referi-me ao director do Público como "Zé Manel". Mas é preciso distinguir as coisas. Zés Manéis há muitos (até um primeiro ministro), mas nenhum como este, que é o maior. E mai'nada.

Publicado por Filipe Moura às 01:22 AM | Comentários (3)

UM TEXTO SEM INTERESSE NENHUM

A notícia "Deco: chamadas para o 112 em inglês e francês têm menos probabilidade de serem socorridas" aparece listada na secção de desporto do serviço "Última Hora" do Público.
Faz lembrar um professor meu que, uma vez, numa conhecida livraria da Av. de Roma, em Lisboa, encontrou um livro de Teoria de Campo na secção de agricultura.

Publicado por Filipe Moura às 01:20 AM | Comentários (6)

DIA DAS VERDADES

Há 59 anos, nasceu na Vidigueira uma bebé com nome de ópera: Aida. E essa foi a verdade mais bela que alguma vez aconteceu num dia das mentiras.
Parabéns, mãe.

Publicado por José Mário Silva às 12:32 AM | Comentários (6)