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março 31, 2004

AMANHÃ, CHEGA ABRIL!

O mês da nossa Revolução está aí! Esta prancha do meu amigo Jorge Mateus vem só recordar-nos de que há 30 anos ainda havia presos políticos em Portugal; o Estado ainda se sentia no direito de torturar cidadãos. Num só dia, isso terminou. Por isso é que se tratou de uma Revolução; não de "evolução" como agora pretendem os ideólogos do PP/PSD...

Publicado por Luis Rainha às 05:19 PM | Comentários (11)

UMA ESCULTURA ASSOMBRADA

Imaginem uma escultura que se despiu de peso, "corpo", textura, matéria; irrompendo ante o nosso olhar menos como uma presença física e mais enquanto puro espaço, livre de contaminações matéricas. "Sense", obra de 1991 do britânico Antony Gormley é isto. Uma escultura "negativa" - ou "virada do avesso" -, onde o que interessa mesmo é o vazio contido pelo material, agindo este como mero receptáculo, sarcófago desinteressante e quase industrial na sua banalidade.

Dentro deste pedaço de cimento, jaz o "fantasma" do corpo do autor. Ele aflora à superfície do nosso mundo apenas através das suas mãos e cabeça.
É uma trouvaille genial, não é? E é também bastante mais do que isso: toda a obra de Gormley tem circulado em torno do território do corpo e dos hiatos entre este e o mundo do espírito. Assim, a instalação "Critical Mass", presente companheira da espectral e inquietante "Domain Field" na Gulbenkian, ataca-nos com 60 corpos de metal caídos numa sala sem janelas, presos no rigor mortis de vítimas de um qualquer cataclismo impensável. (Mais uma vez, as 12 posições destes corpos torturados foram moldadas do corpo do escultor; "Critical Mass" foi a primeira das suas obras a recorrer a voluntários, numa sessão gigantesca que envolveu enfermeiros e um psicólogo...)
Há uma palavra que nos sobe aos lábios mal acedemos ao espaço carregado de maus presságios desta instalação: "Pompeia". Todos conhecemos os "corpos" da cidade romana sepultada em cinzas vulcânicas: preservados em rictos de agonia, em poses de corrida interrompida, em gestos de vã protecção dos seus. Acontece que não se trata de despojos humanos mas sim de gesso, que preencheu o espaço vazio dentro da cinza solidificada. Os vestígios da carne há muito tinham sido reduzidos ao proverbial pó.
O que Gromley fez em "Sense" foi recusar a legibilidade excessiva dos moldes de gesso; escolheu regressar à crua pobreza do sarcófago despojado. Em vez do explícito, preferiu o oculto. E ainda bem: para mim, esta imagem "vazia", desamparada, fantasmagórica, é muito mais tocante que uma sala inteira cheia de cadáveres metálicos.

Quem quiser formar opinião diversa, tem bom remédio: a exposição vai continuar na Fundação Gulbenkian até 16 de Maio. Para quem mora longe, o site deste escultor fascinante é uma alternativa possível. Desfrutem!

Publicado por Luis Rainha às 02:51 PM | Comentários (11)

«É A CULTURA, ESTÚPIDO!»

Logo à tarde (18h30), no Jardim de Inverno do São Luiz, tem lugar mais um encontro «É a Cultura, Estúpido!», com os intervenientes do costume. Anabela Mota Ribeiro entrevista Jorge Silva Melo. O Pedro Mexia falará, com este vosso humilde escriba, sobre dois livros: «Os Contos . 1.º Volume» de Kafka (Assírio & Alvim) e «Alguns gostam de poesia», antologia de Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska (Cavalo de Ferro). O João Miguel Tavares abordará «A Paixão do Cristo», de Mel Gibson. Nuno Costa Santos falará de música alternativa. Daniel Oliveira e Pedro Lomba, no frente-a-frente ideológico, discutirão o problema do terrorismo. E a fechar, como sempre, teremos o humor de Ricardo Araújo Pereira, em mais um dos seus antológicos momentos de stand up comedy.
Apareçam.

Publicado por José Mário Silva às 01:49 PM | Comentários (1)

PEQUENA PROVOCAÇÃO (PARA P. M.)

Ele já cita textos de Marx sobre o dinheiro (dando-lhe razão).
Ele já escreve posts eloquentes como este:
«. Então, mais uma má notícia para a direita...
. Qual má notícia?
. A derrota do Chirac nas regionais.
. Qual má notícia?»
Ele um dia ainda vai descobrir que é de esquerda.

Publicado por José Mário Silva às 12:25 PM | Comentários (16)

ATENÇÃO: ESTA NÃO É A CASA DA IRA

Biliosos do mundo inteiro, uni-vos. Mas noutro lado, noutro blogue, noutra esquina da internet. Please. Já vai sendo tempo do BdE voltar a ser o BdE.

Publicado por José Mário Silva às 11:53 AM | Comentários (7)

OS COMENTÁRIOS NÃO SÃO OFF THE RECORD (A OUTRA LIÇÃO QUE EU APRENDI)

Quando se deixa comentários num blogue, na maior parte dos casos está-se "na boa". Pelo menos aqui no BdE. Não creio que quem deixe um comentário com o objectivo de insultar alguém esteja "na boa", mas felizmente, e se excluirmos a crispação da última semana, esses comentários aqui são uma minoria. Pelo que de um modo geral os comentários são muito menos cuidados do que um texto no blogue, por exemplo. Os comentários são mais pessoais; eu, pelo menos, ao escrever um tenho em geral a sensação de que quem os vai ler é somente o autor do texto original, e eventualmente quem já lá tiver deixado comentários antes.
Infelizmente, isso não é assim. Obviamente, tudo o que fica escrito num comentário é para qualquer pessoa ler. Qualquer informação que se deixe num comentário é passível de mais tarde ser utilizada. Por isso, tem de se pensar muito bem o que e como escrever nos comentários.
Outra questão é a da identidade dos comentadores. Qualquer pessoa pode assinar um comentário com o nome e o email de outra. Mesmo os serviços de comentários que requerem que o comentador deixe o seu email podem ser facilmente iludidos e não provam nada. Os comentários especialmente sórdidos vêm geralmente assinados com um nome falso e sem email.
Comentadores mais conhecidos e com um estilo próprio, como o Afixe e a Zazie (esta mais do que uma vez), já foram vítimas desta torpeza que é a falsificação da sua identidade. E estes são comentadores que ninguém sabe quem são. Apesar de eu condenar esta prática com os nomes deles, ainda a condeno mais com cidadãos que se identificam com nome e email, e que vêem esses dados serem utilizados abusivamente por comentadores mal intencionados. Foi o caso do Pedro Mexia. Desde que isso sucedeu, o Pedro nunca mais deixou nenhum comentário num blogue. Meus caros, isto é assim e não podemos fazer nada. Não esperem que tenhamos um ficheiro com o nome e o email de cada comentador e depois vamos confirmar o IP do computador onde o comentário foi escrito. Quem escreve comentários tem de saber no que se vai meter.
Seguindo o mesmo raciocínio, nunca se pode confiar num comentário como tendo sido realmente escrito pela "pessoa X". Só um texto num blogue permitirá uma identificação inequívoca.
Eu não quero com isto reabrir de novo um processo que já dei várias vezes por encerrado, mas preciso de dar este exemplo. Na semana passada, um dos factos que despoletaram a "crise do Médio Oriente" na blogosfera foram comentários meus escritos num outro blogue, onde contava que viessem a ser lidos por um número mínimo de pessoas. Foi com certeza ingenuidade da minha parte, mas escrevi-os como se de uma conversa de café se tratasse. Nunca escreveria um texto meu, aqui no BdE, de uma forma tão simplista. (Já agora, devo esta satisfação ao tchernignobyl e ao J - aquilo não era um texto do blogue, está bom, camaradas? Ao menos entre nós, peço-vos que não o leiam assim.) Mas quando fui confrontado por tal facto, é evidente que assumi o que escrevi. Agora, para aguçar a crise, vários blogues reproduziram somente um dos tais comentários, precisamente o mais panfletário, e nem se dignaram a confirmar comigo se tinha sido eu o autor de tais palavras, numa atitude que eu considero, no mínimo, de uma extrema leviandade. Um desses blogues (que não reproduziu, mas fez uma ligação comentada a quem tivesse reproduzido, o que vai dar ao mesmo) foi o de um conhecido jornalista e escritor da nossa praça, um facto que, confesso, me surpreendeu. É evidente que, se me perguntassem, eu confirmaria a autoria (como confirmei aqui), mas não julgava ser essa a função dos comentários. Mas é, também, pelos vistos.
A lição que eu aprendi, e que espero que todos os leitores do BdE e da blogosfera aprendam, é que, principalmente depois das duas "crises" por que o BdE passou nos últimos dias, a idade da inocência dos comentários acabou. Por isso eu espero continuar a ver muitos comentários dos leitores no BdE, mas lanço daqui este apelo: tenham calma, por favor não insultem ninguém... e pensem bem no que escreverem.
Dito isto, espero que a crise tenha acabado. E agora, venham os comentários!

Publicado por Filipe Moura às 02:26 AM | Comentários (6)

março 30, 2004

EM AUDIÇÃO

O disco reúne alguns motetes para três vozes e baixo contínuo, escritos pelo compositor Daniel Danielis no fim do séc. XVII e ressuscitados pelo Ensemble Pierre Robert, numa edição da Alpha, há meia dúzia de meses.
É um «Cæleste Convivium» (um «banquete celeste») que vai oscilando entre o fervor da fé e a melancolia do sofrimento humano.
São 11 peças de uma beleza quase impossível.
E não, não creio que seja necessário acreditar para descobrir aqui, nestas frágeis arquitecturas vocais, uma espécie de redenção.

Publicado por José Mário Silva às 08:42 PM | Comentários (1)

COM COMENTÁRIOS

Eu não queria abordar a última "crise" do BdE, a que envolveu a Zazie, o Luis Rainha e mais alguns comentadores, porque temo que estejamos a entrar num ciclo de crispação e de polémica pela polémica que francamente não me agrada, além de não me parecer minimamente produtiva. O que tinha a dizer aos "actores" da dita controvérsia, disse por e-mail. E não me parece que devamos perder mais tempo com acrimónias e quezílias. Se o BdE sempre foi um espaço ameno, onde se preza a discussão de ideias dentro dos limites da mais urbana cordialidade, não vejo porque razão haveríamos de o transformar agora numa espécie de arena em que os gladiadores se atacam e agridem selvaticamente.
Dito isto, e aproveitando um pretexto agradável (a ultrapassagem, há poucos minutos, da barreira dos 5000 comentários), importa recordar uma regra importante deste blogue: por norma, salvo em casos de excepcional gravidade, temos como princípio não apagar nem censurar comentários. Até hoje, contam-se pelos dedos os casos em que decidimos intervir. No entanto, sempre que se imponha esse recurso, seremos forçados a agir, nomeadamente nos casos de evidente abuso da liberdade de expressão, como quando alguém se apropria de forma grosseira do nick de outro comentador.
Além de nos fazerem perder tempo e energias, estas questiúnculas põem em causa o equilíbrio e a qualidade geral do blogue. Fruto destas perturbações, já tivemos pelos menos duas "vítimas" (o Boss e a Zazie). Não gostava que houvesse mais.
Por isso apelo, mais uma vez, à calma e ao bom-senso.
Os comentários são uma parte crucial do blogue, mas não são o blogue. Preferia não ter que os ignorar.

Publicado por José Mário Silva às 07:30 PM | Comentários (25)

UM CASO DE METEMPSICOSE?


Há uns tempos, era proibido afixar cartazes nas proximidades imediatas das auto-estradas. Agora, Santana Lopes, como todos os Grandes Homens, descobriu-se acima de tais minudências legalistas: os outdoors que cantam as glórias santanistas começaram a enfeiar as paisagens à beira da A5.
A empresa do brasileiro Einhart da Paz continua a facturar a sua cómoda avença à CML, depois dos serviços prestados ao PSD. E nós continuamos a levar com o Dr. Lopes.
Mas já repararam na obsessão que esta propaganda parece ter com a figura do Marquês de Pombal? Agora, até o usam para incitar os automobilistas a fugir da zona do... Marquês. E rematam a coisa dizendo que "o futuro está em marcha". Pois.
Será que Dr. Lopes está mesmo convencido de que o velho Sebastião José voltou à terra, reencarnado por debaixo suas melenas encharcadas de gel?
Quem anda com o famoso "azar dos Távoras" é mesmo a nossa Lisboa...

Publicado por Luis Rainha às 06:08 PM | Comentários (2)

A MARCA AMARELA

Este senhor, Edgar Pierre Jacobs, nasceu há 100 anos.
Foi ele que inventou a dupla perfeita: Blake e Mortimer.

A minha adolescência deve-lhes muito. Tardes de verão olhando pranchas de linhas claras, à sombra de uma figueira que já não existe. Tardes longínquas em que admirei a coragem dos dois heróis e abominei o perfil maligno de Olrik. Tardes perdidas que são, temo bem, a minha marca amarela.

Publicado por José Mário Silva às 05:54 PM | Comentários (3)

SABOTAGEM MUSICAL

No meio da tristeza em que mergulhou a TSF, ainda há quem consiga manter acesa a chama do bom-humor. Anda por lá a passar um spot de auto-promoção que inclui excertos de músicas nacionais. Finaliza com um pedaço da bonita canção dos Três Tristes Tigres, "O Mundo a Meus Pés". E a coisa corre assim:

(Locutor) - TSF.
(Canção) - Já não há, já não és...
(Locutor) - A paixão da Rádio.

Digam lá se isto não merecia o Oscar para a melhor sabotagem do ano...

Publicado por Luis Rainha às 03:17 PM | Comentários (45)

UMA PRENDA PARA O FILIPE MOURA

Estão a um "click" de uma bela surpresa: Jerry Seinfeld encontra o Super-Homem!
"Uniform" é um longo spot publicitário; mas não deixa por isso de ser hilariante!

Publicado por Luis Rainha às 02:56 PM | Comentários (4)

UMA PRENDA DOS MOÇOS LÁ DA MINHA TERRA

Não sei se vocês já ouviram falar no "Tuning". Sendo esta uma audiência culta e civilizada, presumo que não.
O Tuning é a religião daqueles cromos que gastam o que têm e o que pedem ao banco para comprar acessórios inacreditáveis para os seus carros: néons roxos, grandes asas traseiras para apoiar copos, escapes barulhentos, chips que dão a um Punto mais 100cv (pelos dois meses que o motor aguenta, claro), etc, etc. Depois, pegam nas anedotas com rodas e levam-nas a concentrações e a corridas na ponte Vasco da Gama.

Julgo que devo ter uma célula destes rapazes perto de minha casa. E olhem que são bem simpáticos!
Ontem, ao sair de casa, reparei que o meu pacato popó tinha sido beneficiado por uma destas intervenções estéticas. Durante a noite, a atenciosa malta do Tuning afadigou-se em redor dele, para que eu pusesse olhos nesta prenda logo pela matina. Vejam lá bem se não ficou uma maravilha:


Desculpem a falta de nitidez da imagem, mas a lente ficou embaciada de fúria.
Como bónus, ainda passei um bom bocado num posto da GNR, aguardando ocasião propícia para apresentar a competente queixa. Deu para decorar o conteúdo do poster dos "5 mandamentos do atendimento à vítima de crime". Estou em crer que os 40 minutos de seca não figuravam.

Publicado por Luis Rainha às 01:52 PM | Comentários (12)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ainda para a Jussara, deixo este poema do argumentista e poeta italiano Tonino Guerra, incluído num livro belíssimo, «O Mel», recentemente editado pela Assírio & Alvim (com tradução, do dialecto romanholo, de Mário Rui de Oliveira):


CANTO DÉCIMO OITAVO

Quando o melro de Pídio, o sapateiro,
fugiu da gaiola nós o esperávamos
no pátio e cada sombra que passava
parecia ele. E no entanto não era.

Até que uma tarde, na sebe de canas,
qualquer coisa negra baloiçava
mirando-nos com uns olhitos que pareciam pontas de navalha.
Então afastámo-nos da janela
e fingimos deslocar nossas cadeiras.

O tempo, Ju, é como o melro. Coisa negra que fascina e por isso fingimos ignorar, deslocando cadeiras ou escrevendo posts (que é quase a mesma coisa). Parabéns.

Publicado por José Mário Silva às 01:33 PM | Comentários (0)

FLORES

Para a Jussara, uma grande amiga (e blogger) que hoje faz 29 anos.

Publicado por José Mário Silva às 01:21 PM | Comentários (1)

DIGA LÁ, DOCÊNCIA

É para mim um enorme prazer registar o regresso à blogosfera do Pedro Lomba, um bloguista "clássico" e um dos meus favoritos.
O Pedro regressa com este texto onde discorre, bem ao seu estilo, sobre o título do programa de televisão e rádio "Diga Lá, Excelência" e o "apego provinciano do país aos títulos, ao 'doutor', ao 'engenheiro' e, agora, ao 'excelência'."
Não posso estar mais de acordo com o texto. Mas, então, por que será que, de três em três semanas, o Pedro assina uma coluna no "Diário de Notícias" onde aparece intitulado "docente universitário" sendo, tanto quanto eu sei, assistente? Está certo: "docente" também poderia ser um monitor, mas também um professor catedrático. E como muito bem diz José Manuel Fernandes, compagnon de route do Pedro, "o doutoramento não é o fim mas o princípio da carreira" (universitária, claro). Assim deveria ser sempre na carreira académica, mesmo no caso dos juristas, tradicionalmente um daqueles onde, em Portugal, se dá mais "apego provinciano" aos títulos. Ficaria muito bem ao Pedro, um tipo bastante acessível no trato pessoal, dar este exemplo.

(Nota: Pedro, isto não é nada de pessoal contra ti, pá. Apenas te tomei como exemplo. Há malta do Bloco de Esquerda que faz a mesma coisa.)

Publicado por Filipe Moura às 12:51 AM | Comentários (9)

O MUNDO ESTÁ PERIGOSO, NÃO ESTÁ?

Há quem tente esconder a cabeça na areia e se acolha à sombra tranquilizadora do sr. Lomborg, por muito desacreditado que este esteja perante uma parte significativa da comunidade científica.

Alterações climáticas provocadas pelo homem?
No pasa nada, o que interessa é o progresso.
Nem todos, porém, são igualmente crédulos e pelo sim pelo não os mais realistas, incluindo "lendas" do Pentágono como Andrew Marshall (ver aqui um artigo menos encomiástico) e estrategas como Peter Schwartz começaram a investigar.
A colaboração de Schwartz no argumento de «Minority Report» do Spielberg e a alcunha do Marshall, "Yoda", poderá sugerir que se trata de mais um "filme", mas para já o resultado foi um relatório suficientemente credível para ser referido na Fortune (enfim... a Fortune é credível, não é? pelo menos não é a New Left Review, querem mais "abertura"?).
É de dar uma olhadela.
Especialmente à passagem:
«Identify "no regrets" strategies to ensure reliable access to food and water and to ensure our national security
Hey! Vocês fazem parte do pessoal abrangido pela «our national security», não fazem?
OOOOPs... Não fazem? Então ponham-se à tabela.

Publicado por tchernignobyl às 12:40 AM | Comentários (9)

março 29, 2004

LINHA VERDE, 11 DA NOITE

Olho para os corpos na carruagem. O seu cansaço. Tudo o que os puxa para baixo e não é a força da gravidade: tristezas, empregos miseráveis, memórias de uma alegria agora inalcançável, lutos, impasses, contas para pagar ao fim do mês, paixões mal resolvidas, tantos equívocos. E as janelas. As janelas reflectindo a mesma derrota, a mesma resignação, as mesmas olheiras.

Publicado por José Mário Silva às 11:06 PM | Comentários (1)

AGORA ELOGIEM-NO VOCÊS

Vi agora que parece ter finalmente entrado em funcionamento o Fora do Mundo, de Lomba, Mexia & Viegas. Eu bem sentia a falta da direita com quem se pode debater. (Até já estava a elogiar o José Manuel Fernandes.) Bem vindos, colegas.

Publicado por Filipe Moura às 09:02 PM | Comentários (6)

ZÉ MANEL, ESSE INCOMPREENDIDO

Não, isto não é outra vez "a minha mão direita" a teclar mais forte, como diz o thirdbacus. Mas o Luis escolhe o José Manuel Fernandes para bête préventive du jour, um conceito novo.
O José Manuel Fernandes é, como diz um amigo meu, um rapaz que sabe uma data de factos errados. Ele, coitado, bem tenta defender como pode a política neo-con, com os factos que conhece. (Reconheça-se que tem uma capacidade argumentativa muito superior a António Ribeiro Ferreira, o que nem é nada difícil.) Mas os factos não lhe costumam dar razão. As fontes dele devem ser as mesmas que garantiam as famosas armas de destruição maciça no Iraque...
Tal não implica que eu não concorde com um dos editoriais dele, vá lá, assim de seis em seis meses. O editorial do semestre do JMF com que concordei totalmente foi publicado na passada quarta-feira, especialmente quando fala do comportamento da oposição israelita.
(É claro que um texto do JMF tem de ter sempre alguma provocação à esquerda; senão não seria um texto do JMF. Neste caso, é o parêntesis final. Embora concorde com a ideia em geral, como não estive na manifestação em questão, não o quero comentar mais pormenorizadamente.)
Mas há uma coisa que o José Manuel Fernandes faz, como ninguém mais das pessoas que escrevem regularmente na imprensa em Portugal: é falar de ciência (os editoriais sobre ciência não contam para a "contagem dos seis meses"). Estou a lembrar-me de um editorial há alguns anos, sobre a catástrofe que é o desconhecimento da matemática pelos portugueses, e a necessidade imperativa de inverter esta situação. JMF descrevia muito bem por que os portugueses não se dão bem com a matemática: na matemática não há o "jeitinho", o "desenrascanço", a "improvisação" tão nossas características, e que permitem a um estudante que não estudou ir para um exame "inventar umas coisas" e safar-se. Tal é completamente impossível num exame de matemática. Da maneira como falava, via-se que tinha feito exames de matemática, tal como que sabe do que está a falar ao falar de ciência em geral. E de política científica também.

Dos grandes editorialistas portugueses, só ele escreveria um texto como este. Reproduzo aqui a parte final:

"dois aspectos essenciais para o sucesso das carreiras de investigação: a noção de que o doutoramento não é o fim mas o princípio da carreira e que isso implica que o período de pós-doutoramento continue a ser submetido a avaliação; e a convicção de que "a investigação científica não é uma obra social, antes um sector muito competitivo", o que implica ser capaz de distinguir os melhores com mais meios e melhores salários em lugar de os abandonar à rotina "protegida" de uma carreira medíocre. Ou seja, fazer exactamente o contrário do que fazemos em Portugal."

Ao ler isto, eu comento: boa, Zé Manel! Devias era escrever sempre sobre ciência, pá!

Publicado por Filipe Moura às 09:00 PM | Comentários (6)

IRRELEVÂNCIAS: UM PEQUENO TESTE DE RORSCHACH

Não é preciso ser-se pintor para descobrir, por vezes com um frémito de susto, como até a imagem mais banal e utilitária pode ser invadida por uma corrente subterrânea de significados inesperados, mal se vê desligada da moldura de contexto que originalmente a justificava. Não falo dos encontros fortuitos que Lautréamont tão bem catalogou. Falo da labiríntica confusão de identidades que só eclode na solidão mais radical; à falta de uma identidade unívoca e bem referenciada, a essência vital das imagens estilhaça-se em miríades de fragmentos, cada um com a sua hipótese de "explicação", a sua tentativa de reinstalar a ordem e exorcizar o caos.
A imagem que inspirou João Lopes a escrever o belo texto de que o Zé Mário abaixo fez eco caiu-me de supetão nesta categoria mal abri a "janela" do DN que a continha.

Assim isolada, a mulher do tal cartaz da feira de gadgets não convive com logótipos, parangonas chamativas ou incitações ao consumo. A imagem surge-nos virgem de tatuagens de sentido. E a sua personagem central aparece desamparada como um anjo caído sabe lá Deus de onde. Que vejo eu ali, quando por uns segundos me esqueço da razão de ser desta ilustração?
A mulher não sorri. Ela urra o seu desespero por não conseguir fotografar, capturar as imagens e movimentos que lhe assolam as retinas. Tal é-lhe interdito: os óculos presos ao seu crânio vedam-lhe o acesso a outra realidade que não a imposta pelo sistema de mediação em que se deixou aprisionar. Ela já adivinha que a sua câmara é inútil: apenas poderia fixar a aparência de um mundo irrevogavelmente fora do seu alcance. A informação é agora um anjo exterminador, que já não redime mas antes nos pune com o degredo numa terra de ninguém, para sempre separada de todos os continentes habitáveis.

A mulher da imagem . ou será "a imagem da mulher"? . não jaz em "êxtase" nem se afirma "exuberante". É antes um retrato do derradeiro terror da alienação: ela já não pode retornar à limpidez do olhar "humano" sobre o Mundo; a tecnologia substituiu-se aos reflexos desse Mundo nos seus sentidos.
O mais patético é que nada, absolutamente nada se passa em redor desta criatura perdida: apenas deserto, céu árido a coroar montanhas inatingíveis. Nada a sua câmara irá capturar para além disto, por mais que ela a dispare ao acaso. O simulacro que lhe é servido . à força? - será por certo mais intenso, mais significativo, mais humano, do que a realidade. Será até mais real?

Peço desculpa, com uma vénia, aos senhores do tal certame, ao João Lopes e ao Zé Mário. Mas não resisti a montar sobre esta imagem uma espécie de teste de Rorschach...

PS: desculpas suplementares a todos, por hoje não conseguir falar de coisas importantes, como as eleições francesas; além de uma constipação tremenda, ainda me estou a recompor de um atentado nocturno à minha propriedade...

Publicado por Luis Rainha às 02:53 PM | Comentários (7)

COMO DISSE?

O sr. Raffarin dizia numa conferência de imprensa que passou hoje de manhã na EuroNews que "o que foi feito nos últimos cinco anos, não fora feito nos cinco anos anteriores".
E nos próximos cinco ?

Publicado por tchernignobyl às 02:10 PM | Comentários (0)

MAIS ESQUERDA EM FRANÇA

Com a devida vénia à Vera Rodrigues (vv), "posto" aqui um excerto alargado de um comentário de que gostei:

«A França acorda à esquerda, e há sorrisos cúmplices nas ruas, entre as pessoas.
21 regiões . em 23 . são agora da coligação de esquerda (PS, PC e Verdes); a Alsácia continua a ser, sem surpresa, o bastião da direita, da Córsega esperam-se ainda os resultados.
A abstenção, fantasma agitado esperançosamente pela direita antes da primeira volta, recuou ainda na segunda volta. A Frente Nacional recuou, bem como a extrema-esquerda: a clivagem direita-esquerda reafirmou-se clara e inequivocamente, contrariando a opinião de todos aqueles para quem "direita" ou "esquerda" são classificações que já não fazem sentido perante a complexidade dos problemas actuais... É assim, em certa medida, a um regresso do "político" que se assistiu nestas eleições, confirmado ainda pela taxa de participação.
À esquerda e à direita, de maneiras diferentes, o desconcerto é grande. A direita paga a factura de uma política económica e financeira duríssima e brutal, sem contemplações quaisquer pelas incidências sociais das medidas que implementa. Ao revogar e diminuir direitos sociais adquiridos (saúde, educação, habitação, desemprego), procedendo ao mesmo tempo a políticas de privatização e de incentivo ao grande capital, este governo fragilizou e remeteu para a precaridade largas franjas da população, classe média incluída; cedendo às pressões reivindicativas daquele que considerava ser o seu fiel eleitorado (tabaqueiros, restauração) e mostrando-se absolutamente intransigente perante as reivindicações dos intermitentes do espectáculo e dos investigadores (CNRS), designadamente, o governo de Raffarin exerceu uma política de pequeno comerciante e descredibilizou-se moral e politicamente; permanecendo surdo aos protestos e às numerosas manifestações pelas ruas do país, este governo traíu a arrogância e a brutalidade das medidas que tentava implementar; contando excessivamente com o desmembramento da esquerda, após o 21 de Abril e a saída de Jospin, deu largas a um autismo político cuja soberba e opressão não poderia senão alienar eleitorado.

Os Franceses responderam-lhe agora, consequentes com todos os sinais prévios que já tinham exprimido.
Em noite de resultados, a direita tentava sublinhar a dificuldade de quem tenta fazer reformas em França, insistindo ao mesmo tempo que esta derrota não era a dos protagonistas políticos, mas a dos programas e das reformas em questão. O argumento é frágil: justamente, são essas reformas, este programa concreto de reformas, que os franceses recusam. Invocar a necessidade de "pedagogia" governamental relativamente às reformas, como invocaram alguns dirigentes de direita, não faz senão irritar mais ainda aqueles para quem a acção deste governo despreza e menoriza já, e demasiado, os cidadãos.
Enfim, o governo ouve agora de uma só vez o que durante dois anos se recusou a ouvir: o descontentamento, o "não" a estas reformas. Para Chirac, de quem se diz que acabou de entrar no início do fim, a situação é dilacerante: difícil conceber uma remodelação governamental que não passe por Sarkozy, ministro do interior e objecto para o Presidente de um ódio cordial difícil de engolir.
E para a esquerda o desafio é de dimensões inesperadas: um 21 de Abril ao inverso, como disse Fillon, que, se é algo reparador, é tão pesado de consequências e de responsabilidade como imprevisto (nestas dimensões). A F. Hollande restam agora três anos para elaborar um programa de governo consistente e federador à esquerda. À esquerda, restam três anos para provar, a nível regional, que outras soluções são possíveis e que outras modalidades de reforma, menos desumanas, são praticáveis.
Como quer que seja, hoje, respira-se melhor por aqui.»

Publicado por tchernignobyl às 01:49 PM | Comentários (6)

LA FRANCE EN ROSE

Os resultados da segunda volta das eleições regionais em França, disputadas ontem, representam uma vitória esmagadora da esquerda e uma reviravolta política sem precedentes (pelo menos na V República), tendo em conta que 20 das 22 regiões francesas vão ser dirigidas pela oposição. Este sinal inequívoco de descontentamento com o governo do sr. Raffarin deve agora ser devidamente ponderado por outro dos grandes derrotados da noite: o presidente Jacques Chirac.
Deixando para mais tarde a análise em pormenor desta tempestade eleitoral, regozijemo-nos por agora com a visão do surpreendente «mapa cor-de-rosa» (onde só a Alsácia, hélas, destoa), prenúncio de outras viragens à esquerda que hão-de vir, para desespero de uma direita cada vez mais arrogante e menos lúcida.

Publicado por José Mário Silva às 08:54 AM | Comentários (9)

março 28, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

Por razões cá muito minhas (concedo: nossas), aqui vai um poema do Fernando Assis Pacheco que é uma espécie de antecipação toponímica. Podem encontrá-lo a páginas 122 de «A Musa Irregular» (Edições ASA, 1996). Quem tem que compreender, compreenderá.


CAMPO DE OURIQUE, LISBOA: OS CHEIROS

Sobre os cheiros podia falar infindavelmente o do amor é o mais feliz
aos 7, 8 anos eu tinha já as narinas despertas para o esplendor das rosas
antes de me curar dele para sempre amei o rasto da pólvora nos foguetes
sobre cheiros conheço uma quantidade de coisas que ninguém compendiou

soube mesmo que num dia melancólico de Outono
que cheirando a azedo foi porque me gastei por dentro
aquelas taxas de que se morre não estão famosas e
eu devia cheirar como . como o pasto as ervas doces! muito!
como as rosas! e só depois ficar pregado (seco) no muro de adobe

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (5)

NÃO

E se hoje os franceses disserem «não» às políticas de direita, de quem será a culpa? Da Al-Qaeda?

Publicado por José Mário Silva às 07:57 PM | Comentários (4)

LA BÊTE D'HIER

Instado por um comentário de alguém que depois se arrependeu de o ter feito, dei-me ao incómodo de pegar no Expresso e ler a crónica do José Lamego. Isto, para decidir se haveria de lhe "colocar uma caudinha e tridente na mão".
Depois de ler a coisa, fico com ideia que tal seria um triste desperdício de adereços diabólicos. O senhor assalariado da dita Coalition of the willing parte do princípio de que é necessário desmontar uma tendência que se opõe à invasão do Iraque porque ela é um epifenómeno de uma política de "direita" ou "reaccionária".
Ora este ponto de partida é absurdo.
Julgará ele que Jacques Chirac é um perigoso esquerdista? Ou que o Presidente da Polónia é membro do ATTAC?
Este último dignitário expressou da forma mais sintética e sincera a reacção que também devia ter passado pelos lábios de Durão Barroso: "Sinto que fui enganado".
A invasão foi errada porque se baseou em mentiras, porque foi armada em contra-relógio contra o trabalho dos inspectores da ONU, porque causou dezenas de milhares de cadáveres escusados. E por mais razões, que agora vamos descobrindo:
1- Paul O.Neil , Secretário de Estado do Tesouro nos primeiros dias do governo de Bush II já teve a amabilidade de explicar ao Mundo aquilo de que já todos desconfiavam: a ideia de invadir o Iraque florescia nas meninges apertadinhas do monkey boy desde que ele se sagrou 2º candidato mais votado nas eleições presidenciais dos EUA. Nada teve a ver com terrorismo, 11 de Setembro ou armas sinistras.
2- Richard A. Clarke veio dar-nos um outro ponto de vista. De acordo com o homem que era, em 2002, o líder americano da luta contra o terrorismo, Dick Cheney e Condoleezza Rice souberam logo no dia do ataque ao WTC quem estava por detrás do massacre: o Iraque. Cada "memo" que Clarke enviava aos seus superiores com outras pistas voltava com a resposta clara "wrong answer". Nem lendo se acredita: ".Rumsfeld was saying that we needed to bomb Iraq,. Mr Clarke said in last night's interview. And we all said ... .no, no. Al-Qaida is in Afghanistan. We need to bomb Afghanistan.. And Rumsfeld said .there aren't any good targets in Afghanistan. And there are lots of good targets in Iraq.."
Assim se condenaram milhares e milhares de inocentes iraquianos à morte. Isto nada tem que ver com Esquerda e Direita. É filhadaputice pura e simples.

Voltando à realidade comezinha de José Lamego, percebe-se bem onde ele quer chegar com a sua converseta: "olhem que não é por estar aqui a sacar os meus dólares que deixei de ser um gajo porreiro e de esquerda, hem?" O resto é poeira que ele nos deita para os olhitos: a ideia de que os paladinos do "alter-mundialismo" representam um pensamento "romântico reaccionário", virado contra a "democracia liberal" é um excelso exemplo disto.

Lamego finaliza a coisa escrevendo que "é a política prática que interessa. Não justificar a guerra mas ganhá-la". Isso já tínhamos nós percebido.
Ao pé de tal figura, o JMF do Público é um querubim revestido da mais flagrante pureza de intenções.

Publicado por Luis Rainha às 07:56 PM | Comentários (20)

LA BÊTE DU JOUR


Ainda não li o Público de hoje. Mas, para atribuir este troféu, nem preciso; aposto que o José Manuel Fernandes deve lá ter deixado escrita outra patifaria infame. Se não, já a deve estar a planear. Ou então, anda a mancomunar-se com algum outro mânfio do mesmo calibre. A esta gente, não se pode dar uma abébia que seja; temos de os atacar antes que nos ataquem a nós.

Ah! Nada como começar o dia com uma pequena guerra preventiva, armado em George Bush do subúrbio. Por certo que o JMF não vai levar a mal. Se até aplaude a ocupação - ou "ocupação", como ele prefere - de um país, baseada neste tipo de raciocínio...

Publicado por Luis Rainha às 09:00 AM | Comentários (16)

PAZ

Eu nem era para voltar a abrir outra vez um assunto que já estava encerrado, mas foi bom deixar as coisas acalmar. Cozinhar uma boa refeição, beber um bom vinho, dormir umas horas, assistir a um episódio do Seinfeld... Tudo coisas que não fiz esta semana, desde que a crise do Médio Oriente se estendeu à blogosfera. Tinha andado a comer ovos mexidos e a deitar-me quase de manhã.
Tudo isto me fez reflectir melhor. Isto e, pormenor não despiciendo, passar um dia sem ser insultado nos comentários. Também já não sucedia há algum tempo.
Todos nós temos tendência a querer sempre achar o culpado, o responsável de tudo, o mais rapidamente possível. Em todos os problemas. São assim mesmo as pessoas mais bem intencionadas. E graças aos julgamentos precipitados muitas vezes cometem-se erros graves. Eu, como pessoa, admito aqui que tenho às vezes esse defeito, nas situações que me revoltam particularmente. E faço questão de frisar que não é nenhuma má vontade particular, a priori, que me move (não sou anti "os meus culpados"). É mesmo o simples desejo de "fazer justiça".
Muito poucas pessoas são completamente imunes a este defeito.
Voltando, então, à velha polémica. Conforme referi aqui, existe um poderosíssimo lóbi pró-Israel, pró-Sharon, nos media americanos. Sei isso de experiência própria e ninguém me vai convencer do contrário. Nesse lóbi, pois com certeza que estão judeus. Mas é certamente errado dizer que os culpados são "os judeus" em geral. É certamente errado julgar automaticamente que qualquer judeu americano o apoia. (Explicito aqui o "americano" mais uma vez. Faço notar que o primeiro texto, o que deu uma grande polémica, referia-se explicitamente a judeus americanos.) Eu próprio conheci judeus que não apoiavam o tal lóbi e fiz amizade com eles (os cientistas que referi no texto "O Mundo Em Que Vivi" e não só).
Portanto, não retiro o que afirmei; só queria deixar aqui claro o seguinte: que tal não se aplica "a todos os judeus" em geral, e que eu não tenho absolutamente nada contra os judeus. Em boa consciência, sempre pensei assim, mas tal não era claro no primeiro texto.

Poderão dizer "mas isto era óbvio; por que não o disseste desde o princípio?" Honestamente, pelas razões que expliquei só agora se tornou claro para mim. (Se me permitem, retiro o que disse sobre o preconceito anti-judeu num texto anterior. Após introspecção, o meu problema é mais este do que propriamente um preconceito. E é um pouco mais geral, sem ser generalizado, do que somente neste contexto.)
Conforme referi atrás, muito poucas pessoas são imunes a este defeito do julgamento precipitado. A maior prova está no enorme número de pessoas que, sem me conhecerem, se apressaram a chamar-me "anti-semita" (e coisas muito piores) nas caixas de comentários. (A dona Charlotte, honra lhe seja feita, ao menos teve a simpatia de me chamar anti-semita marxista-leninista. As bombas suicidas gostam de explodir israelitas; as inteligentes gostam de explodir anti-semitas e outros infiéis. Tem piada.) E não refiro as pessoas que escreveram as suas blasfémias noutros blogues, pois essas pessoas já estariam com certeza à espera de uma oportunidade destas há muito tempo. Aí, o defeito é outro, mais grave.
Termino dizendo que, com tudo isto, creio ter aprendido uma importante lição para a vida. E agora, desejo sobretudo paz.

Publicado por Filipe Moura às 12:22 AM | Comentários (33)

março 27, 2004

SOS; SOMOS NUMEROSOS!

Este é um dos temidos/adorados fins-de-semana em que temos aqui em casa as nossas 5 (cinco) crianças. Hoje, entrei no automóvel às 13h. Quando dei por findas todas as idas e voltas aprazadas - ao torneio de ténis, à avó, a casa da mãe, a casa da amiga, à festa de anos, ao supermercado, à churrascaria manhosa - já o meu relógio assinalava 20:30. Gastei mais de 7 horas enfiado no diabo do carro; provavelmente, mais tempo do que lá passo durante o resto da semana.
Tenho mesmo pena que os senhores da Associação das Famílias Numerosas não consigam fechar os olhos à situação de pecado mortal em que vivo; de outra forma, já teria quem me defendesse com garbo. Mas podiam, ao menos, emprestar-me uma das tias platinadas que lá abundam - de preferência com uma carrinha grande e "moooontes de gira" - para me dar uma mãozinha...
Sobrevivi a uma dura semana de trabalho. Vamos agora a ver se o lazer do fim-de-semana não me liquida de vez.

Publicado por Luis Rainha às 10:26 PM | Comentários (5)

A ARTE DE VER

Eis um excerto do texto, magnífico, que João Lopes publicou hoje no DN:

«O São Jerónimo de La Tour sabe para o que está a olhar. Ou melhor, há uma relação directa com o objecto do seu olhar, alheia a qualquer delírio virtual. Ele mantém um contacto físico com aquilo que olha (a mão no papel) e, mais do que isso, controla a fonte de luz que lhe permite conhecer o objecto da sua leitura (a mão com a vela). Estranho, não é? Em tempos tão primariamente hedonistas como os nossos, a imagem nossa contemporânea é um acontecimento gelado, empenhado em delirar um êxtase em que, tristemente, não é possível acreditar. Ao contrário, o santo do pintor impõe-se como um prodígio de fruição . sem nenhum determinismo figurativo, ele é também uma personagem de religiosa serenidade.»

PS- Queria, para ilustrar o post, trazer até aqui a imagem do belíssimo quadro de Georges de la Tour («S. Gêrome lisant»). Infelizmente, em nenhuma das minhas pesquisas encontrei um link que funcionasse. Alguém me ajuda?

Publicado por José Mário Silva às 08:21 PM | Comentários (11)

CANDIDATO SARAMAGO

O que pretenderá a CDU ao incluir o nome do escritor José Saramago . mesmo se em lugar não elegível . nas listas para as eleições europeias de Junho? Apelar ao voto em branco? Ensaiar, literariamente, uma peculiar forma de lucidez? Coligar-se, depois dos Verdes, com os Brancosos? Testar os limites e as fragilidades do sistema democrático?
Pela minha parte, abstenho-me de responder.

Publicado por José Mário Silva às 07:02 PM | Comentários (12)

BIN KADHAFI E MUAMMAR LADEN


Cartoon de Luís Afonso, no «Público» de hoje

Pois é. Dois tempos. Dois pesos. Duas medidas. A mesma hipocrisia.

Publicado por José Mário Silva às 06:05 PM | Comentários (3)

ACTOS DA NATUREZA

Por meritíssima decisão, a culpa da queda da ponte Hintze Ribeiro assenta apenas nas amplas omoplatas da Mãe Natureza. No meio do seu douto parecer, o senhor juiz até nos conta uma bonita historieta de uns médicos que têm tantos doentes velhinhos que não podem andar sempre a examiná-los; claro que não têm culpa nenhuma se um ou outro resolve falecer inopinadamente.
Pois. Eu também posso inventar uma linda história de moral incerta: a família que tinha tantos idosos improdutivos a seu cargo que resolveu trasladá-los para a rua, onde ficaram ao relento e entregues à sua sorte. Ao fim de uns dias, lá começaram a morrer, um a um. Criminoso? Não há. Os velhotes expiraram todos de "causas naturais".

PS: por acaso, até me lembro de ver, há uns anos, umas imagens subaquáticas com uns técnicos de olhares clínicos a diagnosticar problemas no enrocamento do pilar que acabou por causar a desgraça. Mas, se calhar, a irresponsável da Mãe Natureza não ligou a tais relatórios...

Publicado por Luis Rainha às 03:00 AM | Comentários (6)

RIP VAN WINKLE


Conhecem por certo a história do caramelo que se deitou a dormir e só acordou uma caterva de anos depois, numa sociedade já irreconhecível. Sabem? Acho que me pode ter acontecido algo de similar.
Olho aqui para o BdE e encontro tudo em paz: acabaram-se os linchamentos, as perseguições religiosas... agora fala-se de Arquitectura, de figuras históricas, de Malevich até!
Mesmo o mundo real parece ter sido sujeito a melhoramentos vários: o Refúgio Aboim Ascenção está eugenicamente livre de deficientes, não há culpados pela queda da ponte de Entre-os-Rios, a mão invisível do Deus Mercado zela por nós, etc.
Nos próximos dias, vou furtar-me a qualquer contacto com jornais, televisores e outros desagradáveis mensageiros da realidade. Assim, irei preservar a ilusão de que o universo entrou mesmo nos eixos durante a minha ausência. Concentrando-me muito, até me parece provável que o Bush Jr. e o Portas do PP tenham sido corridos do poder. E o Benfica, vendo bem as coisas, é capaz de afinal não ter sido eliminado da Taça UEFA!

Publicado por Luis Rainha às 02:41 AM | Comentários (2)

FUI APANHADO

Não. Não estive mesmo a dormir. Infelizmente.
Nem me entreguei à indolência relapsa da greve ao blogue por solidariedades étnico-religiosas. Foi mais prosaica e triste a razão da minha ausência: o trabalho atrasado, sem aviso nem justa causa, começou a recuperar terreno. Quinta-feira, acabou por me apanhar.
O sacana corre que se farta. E eu canso-me muito mais depressa do que ele.

Publicado por Luis Rainha às 02:33 AM | Comentários (3)

março 26, 2004

ACORDA UM HOMEM PARA ISTO...


Despertei da minha hibernação anual mesmo a tempo de ouvir na TV que o refúgio Aboim Ascensão recusa crianças com deficiências ou portadoras de doenças inconvenientes como a SIDA. O director de tão solidário estabelecimento é a criatura que há uns dias nos andava a explicar quem é que deve ou não adoptar crianças, não é?

PS: leio agora no site do Refúgio que esta "instituição particular cristã de solidariedade social" é "hoje um grande lar para crianças em risco de ambos os sexos, normais e deficientes". Deve ter sido por engano que andaram a exigir "declaração médica que prove que a criança não é portadora de doença infecto-contagiosa sem tratamento ou de deficiência".

Publicado por Luis Rainha às 11:51 PM | Comentários (11)

O MAIS BELO DOS EPITÁFIOS

Escrito por Adão, segundo Mark Twain, na campa de Eva:

«Onde quer que ela estivesse era o Éden.»

in «Excertos dos Diários de Adão e Eva» (Cavalo de Ferro)

Publicado por José Mário Silva às 09:24 PM | Comentários (2)

UM FACTO CURIOSO

Quando António Guterres era primeiro-ministro, ao mínimo aumento do preço dos combustíveis caía logo o Carmo e a Trindade, abriam-se os telejornais com a notícia, glosava-se o assunto nas colunas de opinião. Agora, no intervalo de poucas semanas, a gasolina sem chumbo de 95 octanas (a que eu utilizo sempre, por razões ecológicas e não só) aumentou sete-cêntimos-sete. Ou seja, 14 escudos dos antigos. E alguém reclamou? Alguém vociferou? Eu não dei por nada.
O que seria um escândalo há cinco anos, não levanta quaisquer ondas nestes dias ciclotímicos, em que o país oscila entre a euforia futebolística e a depressão casapiana.
Será que ninguém acha isto estranho?

Publicado por José Mário Silva às 09:16 PM | Comentários (25)

UMA LUTA QUE VEM DE LONGE

Eu bem me parecia que a direita portuguesa no poder não insistiria tanto em certos pontos de vista que já se prevêem inapelavelmente derrotados a curto prazo, se não estivessem em jogo razões profundas enraízadas no período mais dourado da nossa história.
E o e-mail que me passou pelas mãos, sendo ou não um hoax ou notícia de almanaque, adianta pistas importantes de reflexão.
Diz o texto:

"José de Freitas Ferraz wrote:

Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo
SENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE
TRANCOSO
(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5.o,maço 7)

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres".
"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo"
."
Como bom cristão e patriota, o Padre Francisco empenhou-se num dever patriótico sendo por isso justamente recompensado. Hoje, com os fantasmas que assombram o futuro da Segurança Social, e não me refiro só ao dr. Félix, é altura dos portugueses se empenharem em seguir o seu exemplo frutuoso.
Eu pelo menos, prometo que vou começar desde hoje, mais logo, a pensar mais seriamente no meu e no nosso futuro.

Publicado por tchernignobyl às 12:20 PM | Comentários (15)

março 25, 2004

CAUSAS NATURAIS

Afinal, parece que não houve culpados, nem sequer negligência, no "caso" de Entre-os-Rios. Segundo o juiz de instrução do processo, Nuno Melo, a queda da ponte Hintze Ribeiro deveu-se simplesmente a «causas naturais» (duas cheias sucessivas, em 2000 e 2001).
Como de costume, a Natureza tem costas largas. E compreende-se: é a arguida perfeita. Sobretudo porque nunca ninguém a viu sentar-se no banco dos réus.

Publicado por José Mário Silva às 11:38 PM | Comentários (12)

O CRUZES, AGORA MAIS PERTO

Um dos nossos blogues de eleição, o magnífico Cruzes Canhoto (do não menos magnífico J), mudou-se finalmente aqui para o bairro.
Eis uma boa notícia para salvar a semana.
A frente de esquerda amplia-se por estes lados e a ferocidade nos debates, estamos certos, também.
Bem-vindo, Cruzes.

Pequena adenda: o Cruzes não é só o J. É também o MA, blogger mais recente mas não menos merecedor dos nossos encómios. Fica assim reposta a verdade dos factos. (As minhas desculpas pelo esquecimento.)

Publicado por José Mário Silva às 11:19 PM | Comentários (4)

IR VIVENDO


This dream is not a map
A poem is not the territory

(Harryette Mullen)

Lembro-me de outras palavras sábias, como estas . «Yes, I know I'm speaking perfect English, but speaking beautifully doesn't mean you are telling your truth. Just because you are understandable, doesn't mean you are revealing truth» (Thúy Lê, performer norte-americana de origem vietnamita, sobre o seu modus de expressão corporal).
Gosto de ter palavras assim nos bolsos, todos os dias. Sinto-me mais seguro perante um mundo tão incerto e tão igual a si próprio. Proliferam as vozes do apocalipse, oiço dizer que tudo mudou, mas não acredito. Penso que se trata apenas de uma questão de percepção, como diria Paul Virilio . «o campo de batalha é antes de mais um campo de percepção». Claro que a ironia é um terrível campo de batalha de sentidos e significados. É o que vislumbro à minha volta. Ironias ferozes. O melhor é ir vivendo e aprendendo.
Dentro de dois meses, um grupo de teatro experimental britânico pretende levar à cena um cadáver. Isso mesmo, um cadáver. Os pormenores da operação deverão ser acordados entre a direcção artística do grupo e a família dadora. Fica prometido que o morto será tratado com todo o respeito e carinho em palco. No fundo a ideia é quebrar um tabu. Adiante.
O famigerado filme de Mel Gibson, «A Paixão de Cristo», já terá causado uma vítima mortal, isso mesmo, uma vítima mortal. O padre, de 43 anos de idade, faleceu enquanto assistia ao filme, na sequência de um ataque cardíaco. Ainda não vi o filme, mas não me parece que venha a sair com tremores da sala de cinema. Sou um tipo demasiado duro e perverso. Reparem que dei por mim a estabelecer analogias entre o assassinato, há 72 horas, do carismático paraplégico líder do Hamas, Ahmed Yassin, e a famosíssima cena de um carrinho de bebé a rolar pela escadaria de Odessa abaixo, na obra prima de Serguei Eisenstein, «O Couraçado Potemkine». De resto, o filme é um símbolo da luta dos oprimidos contra os opressores. No vasculhar de ironias e metáforas pelo Médio-Oriente descubro uma antítese. Isso mesmo, uma antítese.
Pela primeira vez, em quarto de século de história, o Prémio Pritzker de Arquitectura foi atribuído a uma mulher. Zaha Hadid, de 53 anos de idade, nascida no Iraque e residente em Londres. Uma lição para os burkanófilos das arábias, e, porque não, uma sirene pela reconstrução e reabilitação de Bagdad. Obrigado, Zaha Hadid.
Ora, a Virgin Airlines admitiu a possibilidade, testou a proposta, e por fim agradeceu sem jeito, por ver-se forçada a recusar tamanha inovação. Motivos de força maior levaram a companhia aérea a não colocar nos WC's das suas instalações no JFK Airport, Nova Iorque, urinóis vermelho-forte em forma de uma boca feminina aberta. Isto. Atenção, não se precipitem nos juízos. A ideia partiu da cabecinha de uma mulher, designer de uma empresa holandesa. Os clientes da Virgin (NY) é que não acharam a mínima graça à fantasia imposta de 'mijar' para a boca de uma 'femme fatale' imaginária, e o projecto foi-se pelo ralo de mictório. Certas mulheres pensam que os homens são tão estúpidos como parecem. E são, só que a estupidez masculina bate sempre um pouco mais fundo. Não é captável pelo design. Por isso tanto gostam os homens de política, de preferência a acéfala. O fenómeno é lindamente explicado por Terry Eagleton. Sábias palavras, para guardar na algibeira.
(Thirdbacus)

Publicado por José Mário Silva às 02:03 PM | Comentários (93)

AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELY DIFFERENT

Enquanto o Luis Rainha repousa ali atrás (no quarto dos fundos) e o Filipe Moura se recompõe de dois dias de furor polemista (será que lhe podem dar uns minutos de descanso, a ver se ele regressa aos seus brilhantes textos sobre Ciência?), abrimos de novo as portas do blogue ao thirdbacus, comentador residente e itálico esporádico.
O post vem já aí. E não, não fala de judeus, nem de anti-semitismo. Leiam-no de uma ponta à outra, por favor. Aviso já que é brilhante.

Publicado por José Mário Silva às 02:01 PM | Comentários (1)

ATÉ JÁ


Tenho ideia que se leio hoje mais uma meia-dúzia de vezes a palavra "anti-semita", acontece-me um AVC. Como gosto do meu encéfalo assim como está (que remédio...) e a coisa por aqui não promete, acho melhor descansar um bocadinho.

Publicado por Luis Rainha às 11:49 AM | Comentários (11)

PONTO FINAL

Com os quatro posts que o Filipe Moura assinou esta madrugada, desfizeram-se de vez . espero bem . todos os equívocos. O Filipe pode ser impulsivo, desajeitado na exposição de alguns argumentos, pouco diplomático e até (admitamos) preconceituoso em relação aos judeus. Mas isso não faz dele um anti-semita e muito menos, como é óbvio, um nazi. As pessoas que proferiram tais atoardas e insultos deveriam saber, mas pelos vistos não sabem, que estas são palavras demasiado negras para serem usadas sem fundamento.
Aliás, o problema das pessoas que atacaram o Filipe de todas as formas e feitios, com uma violência nunca vista por estes lados, reside no facto de não o conhecerem. Se o conhecessem, como eu felizmente conheço, perceberiam o ridículo das acusações graves que lhe fizeram. Tanto no blogue como fora dele, o Filipe sempre teve um comportamento notável, de uma correcção, honestidade, rigor e humanismo exemplares. Mais importante ainda: tenho muito orgulho de o ter como amigo.
O seu problema . e nem sequer estou certo que seja verdadeiramente um problema . está na tendência para dizer, talvez de forma pouco canónica, tudo o que pensa. E o que pensa nem sempre é interpretado como ele desejaria. Daí nascem todo o tipo de equívocos, indignações (umas vezes justas, outras nem tanto) e leituras que conduzem, com estrépito, à polémica.
No caso "judaico" que tantos bits fez correr nos últimos dias, o Filipe começou por defender uma ideia que nos pareceu infeliz. Na altura própria, dissemos o que pensávamos, abrindo o leque das opiniões deste blogue (como de resto também fizeram o tchernignobyl e o Luis Rainha). No BdE não há uma opinião colectiva unânime, há várias opiniões individuais que umas vezes coincidem e outras não. Sem ferir a solidariedade intrabloguística, não caímos na hipocrisia de esconder as nossas divergências.
Infelizmente, assistimos depois, abismados, à "pessoalização" da polémica nas caixas de comentários. Não interferimos nem censurámos nada, mas ficámos tristes com o nível muito baixo a que se chegou em certos momentos. Por muito que dele se possa discordar, o Filipe não merecia aquilo. Nem nós, BdE.
Agora, depois de todos os esclarecimentos que entretanto foram feitos e de todas as correcções que o Filipe teve a dignidade de assumir, não faz sentido continuar com esta polémica. O que se poderia dizer, já foi dito. A controvérsia, de tão gasta, tornou-se feia, biliosa e, sobretudo, inútil. É tempo de a concluir, para podermos falar de outras coisas.
Game over.
A programação segue dentro de momentos.

Publicado por José Mário Silva às 10:27 AM | Comentários (0)

PARA ACABAR A DISCUSSÃO

Para acabar, uma série de esclarecimentos.
Sou totalmente a favor da existência do estado de Israel, e acho que este Estado tem o direito (como qualquer outro) de defender-se do terrorismo. Defender-se! Não praticá-lo!
De igual modo, sou a favor de um estado palestiniano independente. Sou contra o terrorismo palestiniano, muito embora reconheça que, face às humilhações por que passam e à actual desproporção de forças, não restam muitas saídas aos palestinianos para se defenderem. É horrível reconhecer isto. Pois é, mas horrível é esta situação toda. Tal não significa que eu simpatize minimamente com estes terroristas. Nem com estes, nem com nenhuns.
Reconheço que há (e não poucos) fanáticos palestinianos que não aceitam o estado de Israel e querem acabar com ele à força, como o recentemente falecido xeique Yassin. Sobre esta morte: não tenho pena absolutamente nenhuma do senhor ter morrido, mas lamento a forma como morreu. Este assassinato é um bom exemplo do terrorismo de estado israelita que só vai piorar ainda mais a situação.
A paz só poderá ser alcançada através de um acordo político. Para tal, ambas as partes terão de ceder. Principalmente Israel. Não por serem "os maus", mas por serem os mais fortes e os que, por terem o apoio dos EUA, quase sempre recusaram ceder um milímetro que fosse. Mas tal não será possível enquanto beneficiar do total apoio (e consequente total impunidade) do seu braço armado, os Estados Unidos da América. A principal força motriz deste apoio incondicional é, creio eu, o famigerado lóbi judeu americano que eu referi. Uma das maneiras de concretizar esse apoio junto da opinião pública, creio eu, é a forte presença nos media que eu referi.
Falando a sério, espero não estar a ser preconceituoso.

PS: Acrescentei algumas partes ao texto, sem mudar nada do que tivesse sido antes escrito, para o tornar mais claro.

Publicado por Filipe Moura às 07:23 AM | Comentários (22)

PRECONCEITOS

O que acabei de descrever foi o mundo em que vivi por seis anos. No computador, na Universidade, lia o Diário de Notícias e os editoriais de António Ribeiro Ferreira. Quando chegava a casa, ligava a televisão. A descrição do que via foi muito bem sumarizada num comentário da nossa leitora Ana Miranda, que reproduzo aqui com a devida vénia.

Absolutamente correcta a observação de Filipe Moura, que nao é só a dele mas também a da maior parte dos europeus informados quando se deparam com os media americanos (nos EUA, ou aqui pela Net ou pela TV por satélite). Basta espreitar um canal do tipo Fox News, por exempllo, que até há algum tempo se podia captar por satélite na Europa. Ou ouvir os "talk shows", em geral direitistas, das estações de rádio, ou oservar a ferocidade de muitos colunistas dos jornalis americanos (tipo Daniel Pipes). O poder desta gente e das suas organizações pró-israelitas é tamanho que qualqyer visão imparcial ou racional do conlflito israelo-palestiniano é impossível. Pelo que me pude aperceber, para informação internacional com o standard a que estamos habituados na Europa só mesmo sintonizando a BBC World ou BBC America, a versao internacional da CNN ou algum canal de informação canadiano. Mesmo as estações da CBS ou ABC (demasiado viradas para a informação nacional) perdem terreno para canais do tipo Fox News com a sua agenda, descaradamente, de extrema-direita, racista e xenófoba em relação aos árabes (e mexicanos...), onde, nos talk shows, quem quer que tente defender os palestinianos é imediatamente ridicularizado. O israelita, ou o judeu americano, ou alguem que defenda Ariel Sharon, é em geral recebido com tapete vermelho. A situação´contrasta de tal forma com os media europeus (que já nada devem aos americanos) que se torna caricato e incrível quando visto pela primeira vez.

Com este .caldo de cultura., até admito que possa ter desenvolvido um preconceito anti-judeu. É possível. (Eduardo Prado Coelho escreveu uma vez, e com razão, que António Ribeiro Ferreira acabava por funcionar como o maior inimigo de Israel em Portugal.)
Mas, por favor, judeus de todo o mundo, ter preconceitos contra alguma coisa não é ser contra essa mesma coisa. Toda a gente tem preconceitos. Vocês também. Os preconceitos não são nada de patológico, e curam-se. Curam-se com informação, e não rotulando imediatamente as pessoas de anti-semitas.

É possível, uma vez mais, que tenha sido por efeito de algum preconceito anti-judeu meu que escrevi aquela primeira generalização sobre os judeus e os media. Com um bocadinho de reflexão e um bocadinho de informação (providenciada por pessoas que não me catalogaram), pude reconhecer que tinha exagerado, que tinha sido parcial e que a verdade não era só aquela. Corrigi o meu texto, e neste momento não tenho nada a alterar a tudo o que escrevi aqui sobre este assunto.
Uma nota final. Num comentário no Renas, o Nuno Guerreiro afirma que tudo o que eu escrevi poderia ser facilmente subscrito por um skinhead. Ora, a minha posição, sumarizada, é que Israel é a principal ameaça à paz mundial, presentemente. Eu lamento desiludir o Nuno, mas esta minha posição não é só a dos skinheads (se é que é a dos skinheads): é a opinião de 59% dos europeus, de acordo com uma sondagem recente encomendada pela Comissão Europeia. Bem pode o Nuno clamar que 59% dos europeus são skinheads ou, mais comedidamente (adivinhem!) ...anti-semitas! Foi mesmo isso que fez,indirectamente, Ariel Sharon e escreveu António Ribeiro Ferreira, assim que se soube da notícia. Não creio que tenha grande sucesso. O que na Europa há, felizmente, é um acesso a informação mais plural sobre este assunto. O que na Europa não há é um lóbi judaico tão forte.

Publicado por Filipe Moura às 07:19 AM | Comentários (16)

UMA PERGUNTA AOS JUDEUS

Apercebi-me disto enquanto estava a escrever o texto anterior. Escreve-se anti semita ou anti-semita?
(Os comunistas têm uma questão semelhante . marxista leninista ou marxista-leninista? . que dá discussões intermináveis. Congressos. Artigos. Processos disciplinares. Expulsões. Uma questão muito relevante.)
Vá lá, amigos, esclareçam lá este anti semita (ou serei anti-semita?).

Publicado por Filipe Moura às 07:13 AM | Comentários (9)

O MUNDO EM QUE VIVI (TÍTULO EM HOMENAGEM A ILSE LOSA)

Vivi seis anos em Long Island, nos EUA. Trabalhei num Instituto onde mais de metade do pessoal docente era judeu. Todos grandes cientistas, como só os judeus sabem ser. O calendário docente era judeu. Os feriados eram judeus (numa Universidade pública americana . não foi na Universidade Yeshivah). A comunidade judia era sem dúvida numerosa, mas não era maioritária. Habituei-me a ter feriados no Rosh Hashanah e no Yom Kippur, mas tive que dar aulas numa sexta feira de Páscoa.
Os melhores alunos que eu tive eram judeus. Os mais trabalhadores. Os mais motivados. Alguns, sempre com o seu kippah. Sempre tive uma relação espectacular com todos. Melhor do que com os hispânicos, que eram uns preguiçosos que só queriam boas notas. Os chineses, por sua vez, não se percebia nada do que diziam, como era óbvio. Os indianos dão uns guinchos a falar que me fazem dores de cabeça. Ainda hoje, assistir a um seminário por um deles é uma dor de cabeça certa.
(Algum dos democratas que me chamaram nazi anti-semita dirá que estou a ser preconceituoso agora?)
Tive um que me pediu uma carta de recomendação, que passei com todo o gosto. Voltando aos judeus. Um dos meus alunos favoritos tinha uma t-shirt com uma inscrição .não é kosher..
A comida kosher. Presente em todos os supermercados. Receitas intragáveis. Que mal aquela gente cozinha. O Francisco José Viegas, que tanto se gaba, bem podia escrever um manual de cozinha para eles, a ver se aprendiam alguma coisa.
Minto. Há uma excepção. (Sempre excepções para tudo, que raiva.) A melhor cozinheira que eu conheci em toda a América era judia. É claro que não era minimamente ortodoxa e não cozinhava comida kosher. Era a mulher do director do Instituto. Tanto ela como ele, duas jóias de pessoas. Na estante da sala de estar, exibiam orgulhosamente uma cópia de O Capital. Devia ser por isso que ela cozinhava tão bem.

Numa das vezes que lá fui a casa, e sabendo que eu era português, perguntou-me se conhecia o Richard Zimler e se já tinha lido os seus livros. Sendo eu uma besta ignorante anti-semita, é evidente que nunca tinha ouvido falar em tal autor.
(Quantos dos democratas que me chamaram racista, nazi e anti-semita já terão sequer ouvido falar no Richard Zimler?)
Mas disse-lhe para ler o Saramago que era muito bom. (Saramago, que escreveu o Memorial do Convento, mas que confunde o Sharon com Israel. Mais uma besta anti-semita.) Ela já conhecia e perguntou que livros recomendava. Sendo ela uma judia, recomendei especialmente o Memorial. Quando a voltei a ver, disse-me que tinha procurado na livraria local o Baltazar and Blimunda, mas que não tinha encontrado. Disse-lhe para se deixar de tretas e encomendar na Amazon, que vinha num instante.
Havia também o Fred, que trabalhava em solitões e era, para além de uma excelente pessoa, o judeu mais orgulhosamente judeu que eu conheci. O Fred pertence a um clã de físicos famosíssimos, o mais conhecido dos quais é o patriarca Maurice, que nasceu na Alemanha e veio refugiar-se dos nazis nos EUA tal como a mulher Gertrude. Maurice desenvolveu um importantíssimo trabalho pioneiro nos neutrinos.
Almoçava às vezes com o Fred, que me dava lições de judaísmo enquanto comíamos (ele kosher, eu não). Fez-me deduzir quais os dois produtos alimentares de origem animal não kosher autorizados, isto é, que podem ser consumidos sem a aprovação de um rabi. Uma das respostas, pelo menos, é muito lógica. A outra, não cheguei lá, mas ele disse-ma.
(Quantos dos democratas que me chamaram racista, nazi e anti-semita saberão quais são estes dois produtos?)
A minha Universidade tinha uns directores independentes, em grande parte judeus. Havia umas conferências, chamadas .Provost Lecture Series., abertas a toda a gente e em que uns convidados famosos, quase todos judeus, iam lá falar do que faziam.
Uma vez foi lá o Shimon Peres, esse ubíquo homem, Prémio Nobel da Paz e já na altura ministro de Sharon. Foi lá e defendeu essa coisa extraordinária: o caminho para o entendimento entre palestinianos e israelitas passava por esquecer a história. Para chegarem a acordo, tinham de esquecer completamente o passado. Perguntei ao Fred o que achara da conferência. O Fred disse-me que tinha gostado, mas que discordava completamente.
Para comprar comida, eu preferia ir a um supermercado hispânico com produtos portugueses. Mas sem comida kosher. Havia mais espaço para estacionar o carro, pois não havia clientes judeus. Os carros deles, meu Deus... Umas banheiras. Com finalizações de madeira. Já os vi aqui em Paris, também. No bairro judeu (estes filhos da mãe estão por todo o lado). Em Nova Iorque não se pode andar cinco metros sem se ver um. Em Manhattan ou Brooklyn, claro (o Harlem é para os pretos).
A maior loja de fotografia do mundo fica ao pé do rio Hudson, na 9ª Avenida, perto de Chelsea. Esta loja viola despudoradamente as leis de igualdade de oportunidades no acesso a emprego. Todos, acreditem, todos os empregados, e são mesmo muitos (não vi nenhuma empregada), usam kippah. Não faz mal, são judeus, afinal são uma minoria e um povo perseguido. Foi lá que eu comprei a minha máquina fotográfica. Foi lá que eu experimentei o que é fazer um negócio com um judeu. Foi lá que se recusavam a abrir os modelos das máquinas para eu as ver, pois senão tinham de vender as máquinas abertas mais baratas. (Nas outras lojas há produtos abertos.) Foi lá que eu fui enganado.
Também há os museus. Os vigias dos principais museus são todos negros, sem uma única excepção. Trabalham para terem comida, casa, roupa e para pagarem a escola dos filhos. Depois há os directores. Quase todos judeus. Que financiam palestras e congressos para discutirem como os judeus são um povo perseguido.

Publicado por Filipe Moura às 07:11 AM | Comentários (6)

março 24, 2004

À PASSARADA

Julgo que bastará ler este meu post para perceber que não fiquei muito feliz com o ressuscitar da ideia da "cabala dos media", tão glosada por gente muito pouco salubre.
Do mesmo post se retira sem necessidade de clarividência que não concordo por inteiro com o conteúdo do "Ponto de Ordem" emitido pela "Gerência" da casa. Creio ter havido, por parte do Filipe, mais descuido com as palavras do que intenção dolosa. Se não saí logo em sua defesa, de modo mais explícito, tal ficou a dever-se à irritação inicial que o seu texto me causou. Talvez tenha errado; pouco fazer quando se vê um colega a ser atacado por abutres . e sei distinguir os comentadores de boa-fé destes passarocos sombrios que aqui arribaram de repente . não me parece muito digno.
Isto para dizer, mui simplesmente, que esta tempestade já está grande demais para tão exíguo copo de água: até palavrões andam a voar pelas caixas de comentários!
O Filipe já reformulou a generalização que irritou tanta gente. Agora, nada do que ele escreve parece chegar para saciar a sede de sangue de alguns. O que querem mais? Que o homem se imole pelo fogo para apaziguar a vossa sensibilidade? Irra!

Publicado por Luis Rainha às 06:49 PM | Comentários (22)

DE MAL A PIOR DIGO EU

Já fui aqui acusado de tudo, desde anti-semita até nazi. Vindo de quem veio, confesso que em geral encolhi os ombros. Seriam insultos ou da direita trauliteira ou dos Uncle Leos da blogosfera nacional, e vindo de quem vêm não me aquecem nem arrefecem.
Agora o comportamento do Renas e Veados é que me tem deixado de boca aberta. Primeiro o Boss difamou-me chamando-me anti-semita (não sei onde é que alguém pode ter visto isto, especialmente depois do que escrevi hoje). Depois fez um comentáriototalmente descabido a propósito deste texto do Zé Mário. E agora - cúmulo dos cúmulos! - insinua que eu terei dito que os judeus foram "culpados" da Segunda Guerra Mundial! Para além de ter insultado uma das nossas frequentes comentadoras. O que, infelizmente, nem é a primeira vez que sucede - ele próprio já foi insultado no mesmo espaço -, mas não lhe fica nada bem.
O Boss refere ainda que "a invasão da Rússia, da Polónia, da França foram completamente acessórias..." Pois bem que fique bem claro: comparado com o Holocausto, foram acessórias, sim. A mim bastar-me-ia a barbárie que estava a ser cometida contra os judeus para ter defendido uma guerra contra Hitler. E nunca diria que os judeus eram "culpados".
E depois o anti-semita sou eu!
Boss, em resumo, vai-te tratar. E espero que, por te dizer isto, não me acuses de homofobia.

Publicado por Filipe Moura às 05:39 PM | Comentários (21)

AINDA A PROPÓSITO DE YASSIN

"Não há espaço para ambos os povos nesta terra. A única solução é uma Palestina sem essa gente. (...) e não há outro meio que não retirarmos essa gente daqui para os estados vizinhos; transferi-los a todos - talvez exceptuando Belém, Nazaré e a Jerusalém Antiga- nem uma aldeia, nem uma tribo deve ficar."

Quando estas palavras foram escritas, a "filosofia" que as havia motivado já tinha sido posta em prática; o terror chegara para ficar. Centenas de ataques brutais, com bombas em autocarros, casas, mercados... em 5 meses, 2.500 pessoas foram assassinadas. Numa só noite, um terrorista que, anos depois, havia de ganhar fama mundial, fez correr o sangue de 254 homens, mulheres e crianças, mortas enquanto dormiam. O criminoso gabou-se assim da "obra": "A lenda de Deir Yassin ajudou-nos (...) essa gente, em todo o país, caiu num pânico sem limites e começou a fugir para salvar as suas vidas."

Assim são as palavras e os actos dos terroristas do Médio Oriente: bárbaros, inumanos, sem piedade. Nada de novo aqui; os radicais islâmicos são mesmo um bando de fanáticos, não é?

Experimentem agora substituir a expressão "essa gente" pela palavra que figurava mesmo naqueles textos: "Árabes". E tratemos de dar rostos e nomes aos terroristas: a primeira citação jaz no diário de 1940 de Joseph Weitz, director da "Jewish Agency's Colonization Department". O ogre que se gaba do horror de Deir Yassin é Menachem Begin. O massacre deu-se a 9 de Abril de 1948, quando o terrorismo já há muito era usado como arma quotidiana para afugentar a população Árabe da "Terra Prometida". 21 anos depois, Golda Meir até conseguia garantir que "não é como se já existisse um Povo Palestiniano na Palestina, que se considerasse Palestiniano, tendo nós chegado depois e tratado de os expulsar e roubar o seu país. Eles não existiam."

Se calhar, sou capaz de ser anti-semita por relembrar coisas tão antigas. Conservar alguma memória histórica é bem capaz de ser coisa de racistas. Insinuar que os Israelitas também foram capazes de lançar bombas contra civis quando tal lhes convinha... bem; isto é capaz de me valer uma lapidação ao bom estilo do Antigo Testamento.
Só mais uma provocação: lembrem-se de que o falecido xeque Yassin foi um dos desalojados pelos bravos do Irgun, do Haganah, do Stern Gang. E imaginem um boomerang, feito do mais refinado Mal, num mortífero voo de regresso, lento de décadas...

Publicado por Luis Rainha às 05:16 PM | Comentários (4)

PEQUENO ECO DA DISCUSSÃO DE ONTEM

Na passagem de ano de 2002 para 2003, véspera do primeiro post do BdE, estive numa festa, em Paris, onde se discutiu acesamente a questão do Médio Oriente. Ali, num círculo de amigos, à volta de uma mesa, por entre copos de vinho, ouvi as críticas mais violentas que se possam imaginar a Ariel Sharon, ao Estado de Israel, aos colonatos e à repressão do povo palestiniano. Ao pé daqueles amigos, garanto-vos, senti-me um moderado. Aspecto curioso: os autores das críticas eram todos israelitas e (pelo menos culturalmente) judeus.

Publicado por José Mário Silva às 01:14 PM | Comentários (18)

O TERRÍVEL CÍRCULO VICIOSO DA VIOLÊNCIA

Publicado por José Mário Silva às 01:02 PM | Comentários (7)

SOBRE "ANTES ELES DO QUE NÓS" E O RESTO

A blogosfera é um meio aberto, e vieram à colação dois comentários no Renas:

"É por causa desta duplicidade de critérios, deste complexo do Holocausto que o Ocidente tem em relação a Israel, que houve o 11 de Setembro, o 11 de Março e há-de haver mais. Quando é que o Ocidente se aperceberá de que antes os israelitas do que nós?"

"Nós somos melhores do que eles (os israelitas) porque não somos terroristas. Porque não ocupamos territórios ilegalmente. Porque não assassinamos. E ainda por cima somos assassinados. Nas nossas estações de comboio, nos nossos prédios, nos nossos aviões. Há aqui qualquer coisa de errado. A luta de Israel não é minha e eu não quero ter nada a ver com ela."

Começo por confirmar a autoria dos referidos comentários. E adicionar que eles carecem de uma justificação e enquadramento (são comentários e não posts). Farei esse enquadramento, se Miguel Sousa Tavares não o fizer na sexta feira. É que já não é a primeira vez que ele refere uma ideia que eu acho muito acertada: uma terceira guerra mundial pode muito bem vir a acontecer devido à cegueira americana relativamente a Israel. (Ria-se à vontade, Francisco José Viegas. Eu não acho muita graça ao cenário.) E aí, meus amigos, eu digo: ter feito uma Segunda Guerra Mundial pelos judeus europeus obviamente justificou-se (chamem-me anti-semita, vá). Fazer uma outra por Israel (e só por Israel, sem outros ataques a países terceiros), já tenho as minhas dúvidas. Isto não é covardia, é realismo. É que os judeus nas mãos de Hitler eram pobres inocentes. Os israelitas não o são.

Publicado por Filipe Moura às 04:43 AM | Comentários (38)

SOBRE OS JUDEUS E OS MEDIA

Posso ter exagerado em algumas partes do meu texto. Exagerei, sem dúvida. Mas fui muito cuidadoso na forma como escrevi certos aspectos.
Um deles era que se tratava de uma visão pessoal, a minha, eu que vivi seis anos em Nova Iorque.
O outro foi a frase final. "Os judeus americanos são, em conjunto com Rupert Murdoch, responsáveis por uma grande parte do estado de intoxicação informativa em que o povo americano vive."
Notem que eu disse que são responsáveis "por uma grande parte". E com o Murdoch (nada inocente)! Não disse que são responsáveis, nem sequer "pela maior parte". Mas então por que será que a maior parte das críticas que eu recebi foram como se eu tivesse escrito qualquer coisa como "os judeus americanos são responsáveis pela intoxicação informativa em que o povo americano vive"? Leiam bem e vejam a diferença, que não é nada pequena. Eu não esperava esta falta de rigor generalizada, que chega a ser desonesta; esperava-a somente dos comentadores filo-israelitas, de direita e não só.
Agora reconheço que ter falado nos judeus como um todo dá um ar de ódio a um grupo que eu não queria transmitir. Esta frase, começada com "os judeus", poderia noutro contexto ser utilizada para instigação ao ódio étnico e racial, e não é isso que eu quero. Não é isso que eu penso. Este assunto não é propriamente como o hambúrguer de Uncle Leo, pelo que há que ter cuidado e identificar bem os alvos, sem generalizações.
Mas a presença de judeus nos media, como disse o Luís, é um velho assunto. Basta pôr as palavras "jews" e "media" no google para entrarmos em diversos textos e fóruns de discussão, da extrema direita à extrema esquerda, passando por gente moderada. Aos exemplos que ele deu podem juntar-se muitos outros. É inegável a existência de um lóbi judaico nos centros de decisão americanos. Não será o único lóbi e nem é melhor ou pior que os outros. Mas é evidente que existe.
Deixem-me assim reformular a minha frase, substituindo "os judeus" por "o lóbi judaico, em conjunto com o de Rupert Murdoch e outros".
Mesmo assim, isso não explica nem justifica tudo. Depois de ler os textos do Luís e do Daniel e os oportunos comentários do thirdbacus em vários dos textos que foram surgindo, não tenho dificuldade em admitir que a minha análise era (involuntariamente) parcial. Para sustentar melhor o que digo, e porque estes merecem melhor atenção, promovo alguns dos comentários do thirdbacus em que me revejo.

"Como diria um americano, não é este o ponto. O ponto é que é recorrente (daí deslizarmos num abrir e fechar de olhos para o mais fácil rótulo do anti-semitismo) essa espécie de diabolização dos judeus norte-americanos. Aliás, o Filipe que adora o Woody Allen sabe bem disso concerteza. É que se formos a ver bem as coisas também existe algum bom anti-judaísmo nos EUA. Mas uma coisa é certa, os judeus estão do lado dos EUA. A comunidade judaica norte-americana defende os interesses dos EUA a dente. Eles são mais americanófilos que os wasp. Também têm o seu interesse nisso, dir-me-ão, pois é claro. O certo é que esse 'patriotismo' os norte-americanos em geral(comunicação-social incluída) percebem e reconhecem. Agora, ver na política externa de Washington tentáculos do polvo judeu, e descortinar o mesmo nalgum parcialismo da comunicação social parece-me exagerado. Então o que dizer do seguidismo de Blair em relação a Washington? Andarão os trabalhistas ingleses também a soldo dos judeus norte-americanos? Porque é que Clinton esteve mais perto de conseguir estabilizar os ânimos no médio-oriente e Bush só dá sinais de querer entornar gasolina na lareira? Não se viu já em variadíssimos casos que a comunicação social norte-americana tem o defeito de dar quase sempre o benefício da dúvida á política externa do país(uma tradição curiosa)?Não será útil desconfiar que a posição pro-israelita de Washington dever-se-á mais ao facto do fundamentalismo árabe preferir olhar para a Grande Maçã como o Grande Satã? Como de costume, acredito que em cenários tão complexos como o do médio-oriente é de evitar simplismos."

"Independentemente do lóbi judeu junto da Casa Branca. Antes de mais Israel é um aliado dos EUA. Alguém acredita que se não existisse essa tal poderosa comunidade judaica norte-americana a política externa de Washington para o Médio-Oriente seria muito diferente? Eu não. Acho que seria praticamente a mesma coisa, variando de democratas para republicanos. Os judeus 'limitam-se' a pressionar uma matriz pré-existente."

Tem razão o thirdbacus nesta análise. Mas isto não invalida o que eu disse, se for visto como parte do problema. Uma parte, como escrevi na frase que tanta polémica despertou. Grande ou não tão grande, não se sabe bem.

Publicado por Filipe Moura às 04:40 AM | Comentários (7)

ANTI-SEMITISMO

As minhas três grandes referências humorísticas são judeus: os irmãos Marx (em especial Groucho), Woody Allen e Jerry Seinfeld.
Para falar de anti-semitismo tomemos um deles. Nada como um judeu para saber retratar o seu grupoi étnico/religioso. Allen é óptimo (veja-se As Mil Faces de Harry). Mas vejamos Seinfeld e o episódio The Shower Head.

O tio Leo, judeu como Jerry e de idade avançada, arranjou uma namorada muito mais nova. Jerry encontra-se com o tio a almoçar no sítio do costume: o Monk's que, na verdade, é o excelente Tom's diner. Vejamos o diálogo:

"Uncle Leo: Look at this, I told them medium rare, it's medium.
Jerry: Hey, it happens.
Uncle Leo: I bet that cook is an anti-Semite.
Jerry: He has no idea who you are.
Uncle Leo: They don't just overcook a hamburger, Jerry.
"

Mais tarde, Jerry faz um show de comédia na televisão com o seguinte trecho:

"Yeah, I got some family backstage. Course my family's nuts; they're crazy. Yep. My uncle Leo, I had lunch with him the other day, he's one of these guys that anything goes wrong in life, he blames it on anti-Semitism. You know what I mean, the spaghetti's not al dente? Cook's an anti-Semite. Loses a bet on a horse. Secretariat? Anti-Semitic. Doesn't get a good seat at the temple. Rabbi? Anti-Semite."

O tio Leo vê o programa com a namorada. A namorada acha graça às piadas de Jerry. Leo acaba tudo com ela, por esta ser... anti-semita.
Uma semana mais tarde Jerry e Leo voltam a encontrar-se no Monk's:

"Leo: Move back with Lydia?
Jerry: C'mon, you're lucky to have anybody.
Leo: Last week you told me I was in my prime, I should be swinging.
Jerry: Swinging? What are you, out of your mind? Look at you, you're disgusting. You're bald, you're paunchy, all kinds of sounds are emanating from your body twenty-four hours a day. If there's a woman that can take your presence for more than ten consecutive seconds, you should hang on to her like grim death. Which is not far off, by the way.
Leo: But she's an anti-Semite.
Jerry: Can you blame her?
"

Não pode culpá-la, respondo eu. Não de realmente ser anti-semita, coisa que ela obviamente não é, mas de não ter paciência para pessoas que querem, e pelos vistos quererão eternamente, que o resto do mundo viva com pena delas.
Uma notinha para duas pessoas que merecem que eu lha deixe, mas que me acusam de "tomar a parte pelo todo" relativamente aos judeus e de fazer generalizações erradas. Boss, Pagan, se acham que eu não tenho o direito de generalizar, o que dirão destes senhores? Vão chamar anti-semita ao Seinfeld ou ao Allen, sim?
E com quem me acusa de anti-semitismo (quando não de nazi!!!), estou conversado.

Publicado por Filipe Moura às 04:33 AM | Comentários (2)

março 23, 2004

LUCIDEZ

No meio das convulsões deste dia pródigo em exageros retóricos (e excessos de linguagem), retenho uma frase do Afixe, escrita algures numa das caixas de comentários: «Assim não vamos lá, não com a esterilidade destas discussões, onde toda a gente grita e ninguém se ouve. Nem a si próprio.»
Nem mais, Afixe, nem mais.

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (8)

BACK TO THE OLD DAYS

Hoje não houve imagens neste blogue. Só textos, polémicas, troca de galhardetes, ânimos exaltados, esclarecimentos, justificações, ataques de outros blogues, muito som e alguma fúria.
Por momentos, confesso (não sem alguma nostalgia), até me pareceu que tínhamos voltado aos velhos tempos.

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (0)

QUE PENA

Ontem fui um dos poucos privilegiados a assistir, na FNAC de Almada, ao recital de Pedro Sena-Lino. Foi uma noite linda, calma, serena, apaziguadora, com o poeta sentado à nossa frente num sofá vermelho, ladeado por um candeeiro, uma estante com livros e um leitor de CD's. Entre quatro ou cinco poemas, passaram por lá Chopin, Shostakovich, Bach, Mahler, Arvo Pärt. Uma beleza para tão poucas pessoas. À saída, deambulando por aquele supermercado da cultura descartável, meditei num número que tinha ouvido há uns dias. Em Portugal editam-se 11.000 (onze mil) livros por ano, qualquer coisa como 30 livros por dia . mais de um livro por hora. Pelos vistos, não devem de ser de poesia. (Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico)

Publicado por José Mário Silva às 11:37 PM | Comentários (2)

UMA PRÉ-PUBLICAÇÃO, PARA DESANUVIAR...

A minha micro-editora está a preparar a edição de um romance do albanês Florian Raunig. A tradução . do alemão . está a chegar a conta-gotas. Mas promete. Deixo-vos aqui um morceau intrigante. Se também vos cair no goto, hei-de mostrar mais fragmentos deste "Diário Inventado"...

18 de Janeiro . Sobre a ameaça incongruente do arame farpado no muro do hospital, um triste ajuntamento de árvores secas, ramos sem folhas perfilados contra o céu como tomografias de cérebros doentes, veias agitadas pelo vento sinalizando os sintomas de enfermidades mentais ainda por catalogar.
Ele reclina as costas do banco do Renault e faz por adormecer. Os sons da rotina do hospital começam a fundir-se no ritmo longo e dolente de um murmúrio familiar. Mais perto do sono, ele julga reconhecer ali o ronronar do mar: um leve alvoroço de coisas molhadas, uma toada indistinta de pequenas vagas sem consequências. Mesmo o grito eléctrico de um berbequim é absorvido por esta fantasia: agora, é o bramido de uma esquecida criatura marinha, pronta a emergir e reclamar de volta as fronteiras do seu território, a praia...
Uma súbita dormência na mão esquerda, dobrada sob a nuca, desperta-o. Terá passado pelo seu pulso uma das partículas subatómicas disparadas pela máquina suave e acetinada onde refulge a palavra "Clinac ®", vocábulo de aura mágica que, nos seus sonhos, conjura todas as promessas benfazejas da radioterapia?
Onde estará agora esse electrão sem rumo que o atingiu, depois de passar pelo tumor da sua mulher? Talvez a caminho de Alfa do Centauro; ali, dentro de quatro anos, um outro ser semi-adormecido talvez vá também despertar, atingido por uma súbita dormência, trespassado pelo mesmo mensageiro quântico das artes alquímicas "Made in Palo Alto, California".

Publicado por Luis Rainha às 07:23 PM | Comentários (9)

PONTO DE HONRA

Para acabar de vez com este assunto, falta esclarecer uma questão.
O Filipe Moura é membro permanente do BdE e continuará a ser, enquanto o desejar . mesmo que escreva textos que não recolhem, dentro e fora do blogue, aquilo a que se costuma chamar unanimidade. Recorrendo às palavras do mais amado escritor da blogosfera direitista, a unanimidade é burra. E nós não queremos ser unânimes (nem burros).
Importa também lembrar aos mais desatentos que no BdE nunca existiu uma linha fixa: nem editorial, nem estética, nem ideológica. Somos todos de esquerda, claro, mas de maneiras diferentes. Não temos de concordar uns com os outros, nem é suposto cantarmos a uma só voz. Dentro dos limites da razoabilidade política, podemos e devemos polemizar internamente (como de resto acontece noutros blogues, como o Barnabé). E quando algum de nós pisar o risco, cabe aos outros mostrar que a opinião fica apenas com quem a emitiu. Foi o que aconteceu hoje. É o que acontecerá sempre.

Publicado por José Mário Silva às 07:22 PM | Comentários (18)

PONTO DE VISTA

O Filipe Moura não precisa de ninguém que o defenda. É crescidinho, sabe pensar e não lhe falta capacidade argumentativa para sair das trapalhadas em que se mete. Ainda assim, confesso que me fez impressão a forma violentíssima como foi atacado, por gente de todos os quadrantes, nas várias caixas de comentários que se abriram, aqui no BdE, nesta agitada terça-feira. Já expliquei que não concordo minimamente com o que ele escreveu, mas isso não me leva a rotulá-lo, apressada e injustamente, de anti-semita primário. Além disso, embora não da forma desajeitada como o fez, as questões que o Filipe levanta, sobre a influência que os grupos de pressão detêm na política americana, são questões que se devem colocar, porque correspondem a factos inequívocos (como o Luis exemplifica no seu post).
O que me perturba, ao constatar a reacção exacerbada a este caso, é não saber se se levantaria um tamanho coro de indignações caso, no lugar da infeliz expressão «os judeus americanos», o Filipe tivesse escrito a infeliz expressão «os evangélicos americanos» ou a infeliz expressão «os milionários do petróleo texanos».

Publicado por José Mário Silva às 07:17 PM | Comentários (6)

PONTO DE ORDEM

Sejamos claros: o que o Filipe Moura defendeu no seu post THE JEWS THAT CONTROL THE MEDIA (UMA VISÃO PESSOAL) não é defensável. Nenhum dos criadores do BdE concorda com generalizações grosseiras que juntam um povo inteiro (ou uma etnia, ou um grupo religioso) no mesmo saco. Mais: consideramos muito infelizes, além de perigosas (pela proximidade de estilo e forma com o argumentário da extrema-direita), expressões como «os judeus americanos são, em conjunto com Rupert Murdoch, responsáveis por uma grande parte do estado de intoxicação informativa em que o povo americano vive».
O post do Filipe Moura, acreditamos nós, não teve como origem qualquer sentimento de ódio para com os judeus. No entanto, pode ser lido (aliás, foi lido por dezenas de comentadores) como um texto anti-semita. E isso é muito grave.
Independentemente das justificações e respostas que o Filipe venha a escrever, no seguimento desta polémica, queremos deixar bem claro que o Blogue de Esquerda, enquanto colectivo, não se revê nas posições por ele defendidas sobre esta matéria.
O BdE não acredita em teorias da conspiração nem em cabalas judaicas para dominar o mundo, os media ou o que for. Se o Filipe lhes dá crédito, explicará o como e o porquê, quando quiser. A sua posição, porém, não vincula os restantes membros do blogue nem pode ser lida, de nenhuma maneira, como posição oficial do BdE.
Aos leitores que se sentiram ofendidos com as generalizações do texto em causa, as nossas desculpas.

José Mário Silva e Manuel Deniz Silva

Publicado por José Mário Silva às 07:14 PM | Comentários (13)

PONTO PRÉVIO

Devido a razões de força maior (incluindo o facto, não despiciendo, de ter um trabalho que me exige uma percentagem elevadíssima do meu tempo), só às 17h45 tive acesso à internet e à blogosfera. De manhã, antes de sair de casa, numa espreitadela rápida ao BdE, topei com o título de um post do Filipe que me deixou preocupado, mas nunca supus que fosse encontrar a casa assim: de pernas para o ar, em polvorosa, com troca de insultos, acusações graves, punhos cerrados e gritaria.
Fez-me lembrar o dia em que a Margarida decidiu fazer um pequeno texto sobre a Anita, acendendo assim (involuntariamente) o rastilho para uma interminável discussão, só que muito mais grave, porque desta vez o motivo da controvérsia é tudo menos trivial.
Bombeiros de serviço, o tchernignobyl e o Luis Rainha já puseram alguma água na fervura, com bastante tino e bom senso (obrigado aos dois).
Impõe-se agora que os sócios fundadores deste blogue também digam de sua justiça. É o que faremos de seguida.

Publicado por José Mário Silva às 06:53 PM | Comentários (2)

Palavras que se gastam

Gostaria de poder fazer a estatística dos que se horrorizam quando se classifica alguém de "extrema-direita" e não hesitam em classificar de "anti-semita" quem quer que faça qualquer crítica à política e aos métodos do estado de Israel.

Publicado por tchernignobyl às 02:49 PM | Comentários (20)

A MINHA DESORIENTAÇÃO

O dia, por razões que não vêm ao caso, começou-me mal. Quando cheguei ao escritório e liguei o computador, a coisa piorou bastante.
No BdE, contava com o lenitivo gentil de mais um belo post do Zé Mário sobre a Prima dele para me deixar o espírito um pouco menos nublado. Mas nem aqui tive sorte: comecei por ler o elogio ao "pensamento desorientado" do Tchern. Concordei mas alarmei-me logo: "deve ter havido coisa..." Depois, deparei com o título "The Jews that Control the Media" e decidi que tinha chegado o improvável dia em que me ia aborrecer com um colega de blogue.
E porquê? Simples: tudo somado, devo ser para aí uns 25% judeu. Isto sob o ponto de vista genético; culturalmente tais ancestralidades há muito se diluíram sob o cristianismo quase unânime na minha família. Mas entre esta e linhagens de judeus ilustres ainda correm fortes laços de sangue. Com muito orgulho meu.
Sabendo disto, cresci habituado a sentir um pequeno acréscimo de felicidade a cada filme do Sr. Allen Konisberg que via, a cada prémio Nobel entregue a um cientista de nome terminado em "stein", a cada livro que lia de Kafka, Levi, Proust, entre muitos outros. Não sei se a minha peculiar sensibilidade ao Holocausto também está relacionada com esta herança. Talvez.

Foi portanto com alguma apreensão que comecei a ler o post do Filipe. Não que esperasse uma actualização do infame "Protocolo dos Sábios do Sião" ou alucinações sinistras deste jaez. Mas o título causou-me alguns arrepios, confesso.

A velha "cabala" segundo a qual os judeus americanos dominam os media sempre me pareceu meio fictícia. Verdade é que, com efeito, alguns impérios informativos nos states pertencem a accionistas judaicos. Mas será que isto se traduz automaticamente numa perda de independência face a Israel? Não sei bem.
Por certo que a imprensa americana se coloca, sempre e em grande maioria, ao lado de Israel. Mas também defende posições estranhas, como a não adesão ao TPI, com argumentos que a nós, europeus, parecem completamente lunáticos. Isto para dizer que existem factores culturais importantes a pesar nesta questão: julgo que o americano médio tem bastante simpatia pelos judeus em geral e até vê o Estado de Israel como uma espécie de prolongamento dos EUA. Assim, o conflito da Palestina tende a ser visto como um caso de "nós contra eles". Os jornais limitam-se a acompanhar a tendência, a fazer a vontade ao leitor.

E se os media importantes estiverem mesmo nas mãos de judeus?
Mesmo eu, assumindo um conjunto de referências e orientações "de esquerda", claro que por ele sou "enviesado" ao criar uma opinião sobre o que quer que seja. Se um dos vectores centrais da minha vida fosse o Judaísmo, não conseguiria escapar à sua influência no meu dia-a-dia. Se fosse jornalista, ser-me-ia impossível uma imparcialidade total quanto a Israel. Nem sei se isto seria mesmo uma questão de "deturpação e enviesamento informativo", como referiu aqui um comentador; talvez seja apenas ser-se humano. Desta forma, a falta de isenção da imprensa americana não carece de sinistras cabalas para ser explicada.

Mas não nos iludamos. A influência da comunidade judaica nos EUA vai muito para além do poder dos seus votos.
Earl Hilliard e Cynthia McKinney desobriram isso da pior maneira, perdendo eleições contra adversários desconhecidos que foram financiados por organizações judaicas, furiosas pela falta de paciência com Israel demonstrada por estes dois políticos. Leiam: "McKinney and Hilliard are considered two of the most anti-Israel members of the House of Representatives. They were among the 21 representatives who voted against a May congressional resolution endorsing Israel.s right to defend itself against terror."
"Both races attracted national attention because of the heavy influx of out-of-state money, and because they pitted an outspoken black critic of Israel against the organized Jewish community. In the Alabama race, Davis raised $900,000 -- $300,000 more than Hilliard . most of it from out-of-state Jewish contributors. The victorious Majette raised only slightly more money that McKinney, but again much of it was from out-of-state Jewish contributors."

Atenção que não se trata de propaganda anti-semita. É um artigo presente no Jewish Media Center.
Mesmo no vizinho Canadá, um embaixador do Líbano que se atreveu a ventilar opinião semelhante quanto ao controlo judaico dos media foi logo apodado de "racista", acabando por ser retirado do país.


Uma das formas seguras de saber como se anda a portar o Estado de Israel é tomar nota da quantidade de acusações de "anti-semitismo" que andam pelo ar num dado momento. Quem tenha a veleidade de pensar que o governo de Sharon é uma entidade racista cujo principal objectivo parece ser a sonegação de terra e de direitos aos palestinianos é logo alvo certo: "anti-semita!", grita a turba ultrajada.
E olhem que se nos queixamos disto aqui, nos EUA este ambiente amordaçante é bem mais poderoso e muito mais antigo. Quem lá se atreva a escrever o que o Filipe escreveu ou faz parte da Aryan Nation ou tem vontade de descobrir a que sabem as sopas do Exército de Salvação...

Este texto está a ser escrito a correr e "a quente". Caso não tenha ficado claro, a minha posição face ao post do Filipe é a seguinte: não acredito na existência da tal "cabala" judaica que telecomanda os media americanos. Mas não duvido que os cidadãos e até os órgãos de soberania americanos são em muito condicionados pelas posições dessa comunidade organizada e poderosa. Não encontro no post sinais de anti-semitismo, dado que a acusação mais grave que dali se poderia tirar é que os judeus americanos defendem os interesses de Israel, coisa que me parece natural. Escusada seria aquela generalização de "os judeus americanos são (...) responsáveis"; fora isto, leio ali apenas uma análise com que não concordo mas com que consigo conviver.
Ah, é verdade: abomino o presente governo de Israel e as suas acções na Palestina. Tal basta para fazer de mim um anti-semita? Isso queriam "vocês"!

Publicado por Luis Rainha às 12:47 PM | Comentários (25)

O blog desorientado

dmarques, comentou no post do Filipe sobre "os judeus e os media" ter reparado que .o blog está um pouco desorientado..
Provavelmente porque se têm aqui defendido opiniões diferentes sobre vários assuntos da actualidade.
Acontece que este blog não dispõe ainda de um instrumento precioso para acabar com a desorientação:
Um Comité Central, uma Comissão Política ou até mesmo uma Linha Editorial!
Lamento imenso.
Somos um grupo de indivíduos unidos pela ideia fluida de .sermos de esquerda. correndo apesar disso o risco de pensarmos pelas próprias cabeças.
Mal ou bem, com maior ou menor coerência e consistência, vamos descobrindo diariamente e por vezes com alguma surpresa as nossas convergências e divergências.
O exercício é tanto mais arriscado quando se torna a cada dia mais evidente que os problemas com que todos nos deparamos neste momento começam a ultrapassar os limites das esferas .económica. e .política. que demarcam os campos de confronto tradicionais entre a "esquerda" ou "esquerdas" e a "direita" ou "direitas" e deixam antever um cenário até há pouco imaginado como demasiado futurista em que a ameaça terrorista nas suas formas mais .convencionais. será apenas uma entre tantas outras fontes previsíveis de insegurança como a escassez de recursos vitais para a nossa civilização ou os caminhos do desenvolvimento de certos sectores da biotecnologia.
Não que seja impossível continuar a discernir as linhas de fractura esquerda/direita reflectidas habitualmente nas perspectivas individuais de cada blogger.
Não que o .económico. e o .político. estejam prestes a desaparecer.
As linhas de fractura persistem e persistirão. Qualquer presente é sempre um reflexo da luta entre vários campos e das opções decorrentes da relações de forças entre eles ao longo da história.
Não existe é uma cartilha que permita aplicar claramente um conjunto de regras fixas a um .tabuleiro. mais ou menos imutável, e cada um tem a obrigação de descobrir esse caminho por si e a obrigação de procurar pontes e convergências com os outros, o direito a escolher e porventura a mudar o seu campo.
Se existem períodos históricos em que se pode distinguir claramente um certo .pano de fundo., este não é um deles com certeza.
Estamos entregues a nós próprios, às nossas vivências e referências, aos nossos valores individuais, à nossa informação, ao nosso temperamento.
Dessa busca resulta aqui talvez alguma aparência de .desorientação. para quem procura .guias espirituais. ou pratinhos .ready made. servidos por quem tem clientelas a satisfazer ou .alguidares de plástico. a ganhar para exibir como troféus na parede da barraca.
Feitas as contas, eu acho que é muito positivo que continuemos um bocado desorientados. É sinal de que não fomos ainda devorados pela ferrugem do pensamento único.

Publicado por tchernignobyl às 10:50 AM | Comentários (17)

Glória equívoca ao lusco fusco

.Como?.
Estiquei o pescoço e franzi a testa tentando concentrar-me no que a mulher vestida de preto me dizia.
O rosto, bonito e pálido, sem traços de maquilhagem, os olhos claros, os cabelos escuros lisos e cortados pelos ombros lembraram-me um certo tipo de inglesa e pensei tratar-se de uma turista perdida num canto dos Restauradores lá onde costuma estar o sujeito distribuindo aos passantes cartões de um restaurante indiano.
.Tenho um quarto. disse.
.Queres lá ir?.
Quando começava a correr para apanhar o elevador da Glória em andamento ainda a ouvi murmurar:
.Olha que é bom, hein?.

Publicado por tchernignobyl às 09:18 AM | Comentários (7)

O BLOGUE E O JORNAL

Confesso que me irritam um bocado os jornalistas que usam os seus blogues para se .desforrarem. dos seus jornais, isto é, para aí escreverem o que não escrevem no seu trabalho. Não é, ou pelo menos não era, esse o estilo da Glória Fácil. Há geralmente uma preocupação de separar o jornal do blogue. Mas não se pode admitir que um jornalista tenha uma opinião no blogue, sobre um assunto de tamanha importância, que não seja visível no jornal. Principalmente se for um jornalista da secção política, e de política se tratar. É uma questão de honestidade básica para com o leitor.
O João Pedro Henriques obedece a estes requisitos e até já tem escrito artigos de fundo no jornal onde trabalha. Mas preferiu atacar directamente o Pedro Oliveira (e indirectamente todo o Barnabé e o Blogue de Esquerda) escrevendo no blogue. Ora, opiniões como as que levaram a tal ataque têm sido expressas ao longo de vários anos nas páginas do Público por diversos autores, com destaque para Vital Moreira e Miguel Sousa Tavares. Por que não escreve o João Pedro um artigo sobre essa esquerda burra no Público? O director nem se deveria importar nada. Ou será que o João gosta muito de polémicas (conforme não se cansa de nos recordar), mas só na blogosfera?

Publicado por Filipe Moura às 04:23 AM | Comentários (9)

A SITUAÇÃO EM PORTUGAL

Em Portugal frequentemente acusa-se a imprensa de ser pró-palestiniana, mas não percebo de onde possa vir tal classificação. Se olharmos para os colunistas, parece-me haver um equilíbrio para ambas as partes. Se olharmos para as redacções nos jornais, parece-me aí haver uma tendência nitidamente pró-israelita. Não nos esqueçamos do passado recente do Diário de Notícias: a apresentação de notícias era parcialíssima, o espaço reservado às diferentes partes era diferente (as fotografias de Sharon eram constantes), as primeiras páginas eram panfletárias. Tudo comandado em clima de total impunidade por um director-adjunto de muito má memória, de seu nome António Ribeiro Ferreira (estou em crer que foi o principal responsável pela recente grande quebra do volume de vendas no jornal), e mais os seus editoriais pró-Sharon (seguramente um caso único na imprensa europeia .de referência.) que faziam corar de vergonha amigos meus de ascendência judaica.
O Público, neste aspecto, costumava ser mais equilibrado nas notícias. Até que, ontem, um seu jornalista, o João Pedro Henriques, escreveu (no blogue e não no jornal) um texto com uma linguagem trauliteira como já não se via desde os tempos de António Ribeiro Ferreira. A defender o assassinato do xeique Yassin como um .acto de guerra.. A defender a .guerra. entre Israel e a Palestina.
Estará encontrado o sucessor de ARF?

Publicado por Filipe Moura às 04:16 AM | Comentários (4)

THE JEWS THAT CONTROL THE MEDIA (UMA VISÃO PESSOAL)

Esta expressão faz parte da gíria da esquerda norte-americana. Os judeus que controlam os media.
O posicionamento político dos judeus americanos é ambíguo para um europeu. Costumam estar na sua esmagadora maioria com os democratas, mas são defensores inabaláveis da política externa republicana típica (veja-se o caso do candidato às primárias democratas Joe Liebermann). Tal facto é muito importante, pois permite entender como o Partido Democrata fica refém do voto judeu. E permite explicar muitas tibiezas e contradições entre os democratas em assuntos de política externa. E permite explicar o apoio incondicional norte-americano a Israel.
Mas serão os judeus um grupo étnico tão numeroso para ser assim tão decisivo? Bem, em algumas zonas, como em Nova Iorque, são-no, claramente, mas não o são a nível nacional, onde não se comparam aos WASPs, aos católicos de origem europeia, aos hispânicos e aos negros.
A razão por que se deseja ter o apoio judeu é que este sempre foi um grupo muito influente. Certos negócios são completamente dominados pelos judeus. Os mais importantes advogados são judeus. E têm uma presença decisiva nos media, particularmente nos de tendência democrata. Graças a esta presença, a informação disponível nos EUA sobre o conflito israelo-palestiniano é totalmente parcial (obviamente para o lado israelita). Mais: tudo o que tenha a ver com muçulmanos é apresentado da pior forma possível para estes, que são vistos como o adversário a derrotar. E assim se compreende em grande parte a total desinformação da opinião pública americana em assuntos de política externa. E assim se compreende que a administração Bush possa fazer as campanhas sujas que quiser, a guerra no Iraque, as "armas de destruição maciça", com o apoio da comunicação social para tudo o que seja favorável a Israel.
Os judeus americanos são, em conjunto com Rupert Murdoch, responsáveis por uma grande parte do estado de intoxicação informativa em que o povo americano vive.

Publicado por Filipe Moura às 04:12 AM | Comentários (29)

março 22, 2004

COMO PRODUZIR UM EXTREMISTA; COMO CRIAR UM MÁRTIR


Ainda a propósito do atentado que liquidou o xeque Yassin, sugiro-vos um pequeno passeio pela biografia do falecido. Não o vou fazer com a ajuda de panegíricos encontrados em sites como este. (E não exagerarei na diabolização do homem que, para a SIC Notícias, tinha ficado tetraplégico "ao montar uma bomba"...) Para tal, a insuspeita CNN bastará.
Então, de onde surgiu este "animal que ía aos bairros mais pobres da Palestina excitar adolescentes e crianças para a jihad"? (Palavras de um comentário aqui deixado.)

Nasce (em 29 ou 38, consoante as fontes) no que é hoje a cidade israelita de Ashkelon. Em 1948, a criação do Estado de Israel desaloja a sua família, passando ele a crescer em campos de refugiados de Gaza. Depois - já paralisado por um acidente num jogo de futebol - cria 11 crianças num apartamento nos bairros degradados de Gaza City. Em 87 funda o Hamas, que logo surge como o maior rival da Fatah de Arafat (consta que graças à generosa ajuda financeira de Israel).
Em 89, Yassin é preso e condenado a prisão perpétua; na cadeia, sofre várias doenças, como bronquite crónica e infecções nos olhos e ouvidos. Oito anos depois, é trocado por dois agentes da Mossad, capturados ao tentar assassinar outro dirigente do Hamas.
Setembro de 2003: escapa quase incólume à concretização, através de uma bomba de 200kg, das ameaças do governo israelita. Hoje: é abatido por um helicóptero enquanto saía da sua mesquita.

Pois é: de vidas assim, pouco admira que emirjam criaturas como o xeque Yassin. E ele sempre afirmou desejar a morte do mártir. Hoje, fizeram-lhe a vontade. Amanhã, mil jovens estarão dispostos a morrer para o vingar.
Nasser Badawi, da brigada dos Mártires de al-Aqsa já avisara: "A situação está tão má que muitos estão dispostos a explodir-se. Não temos de os escolher, eles vêm até nós, prontos a morrer". Nem quero imaginar quantos estarão agora mesmo a bater-lhe à porta.

Publicado por Luis Rainha às 03:20 PM | Comentários (10)

DAS PEDRAS DE DAVID AOS TANQUES DE GOLIAS

Artigo de JOSÉ SARAMAGO
Público, 3 de Maio de 2002

«Afirmam algumas autoridades em questões bíblicas que o Primeiro Livro de Samuel foi escrito ou na época de Salomão, ou no período imediato, em qualquer caso antes do cativeiro da Babilónia. Outros estudiosos não menos competentes argumentam que não apenas o Primeiro, mas também o Segundo Livro de Samuel foram redigidos depois do exílio da Babilónia, obedecendo a sua composição ao que é denominado por estrutura histórico-político-religiosa do esquema deuteronomista, isto é, sucessivamente, a aliança de Deus com o seu povo, a infidelidade do povo, o castigo de Deus, a súplica do povo, o perdão de Deus. Se a venerável escritura vem do tempo de Salomão, poderemos dizer que sobre ela passaram, até hoje, em números redondos, uns três mil anos. Se o trabalho dos redactores foi realizado após terem regressado os judeus do exílio, então haverá que descontar daquele número uns quinhentos anos, mais mês, menos mês.
Esta preocupação de rigor temporal tem como único propósito propor à compreensão do leitor a ideia de que a famosa lenda bíblica do combate (que não chegou a dar-se) entre o pequeno pastor David e o gigante filisteu Golias anda a ser mal contada às crianças pelo menos desde há vinte e cinco ou trinta séculos. Ao longo do tempo, as diversas partes interessadas no assunto elaboraram, com o assentimento acrítico de mais de cem gerações de crentes, tanto hebreus como cristãos, toda uma enganosa mistificação sobre a desigualdade de forças que separava dos bestiais quatro metros de altura de Golias a frágil compleição física do louro e delicado David. Tal desigualdade, segundo todas as aparências enorme, era compensada, e logo revertida a favor do israelita, pelo facto de David ser um mocinho astucioso e Golias uma estúpida massa de carne, tão astucioso aquele que antes de ir enfrentar-se ao filisteu apanhou na margem de um regato que havia por ali perto cinco pedras lisas que meteu no alforge, tão estúpido o outro que não se apercebeu de que David vinha armado com uma pistola. Que não era uma pistola, protestarão indignados os amantes das soberanas verdades míticas, que era simplesmente uma funda, uma humílima funda de pastor, como já as haviam usado em imemoriais tempos os servos de Abraão que lhe conduziam e guardavam o gado. Sim, de facto não parecia uma pistola, não tinha cano, não tinha coronha, não tinha gatilho, não tinha cartuchos, o que tinha era duas cordas finas e resistentes atadas pelas pontas a um pequeno pedaço de couro flexível, no côncavo do qual a mão experta de David colocaria a pedra que, à distância, foi lançada, veloz e poderosa como uma bala, contra a cabeça de Golias, e o derrubou, deixando-o à mercê do fio da sua própria espada, já empunhada pelo destro fundibulário. Não foi por ser mais astucioso que o israelita conseguiu matar o filisteu e dar a vitória ao exército do Deus vivo e de Samuel, foi simplesmente porque levava consigo uma arma de longo alcance e a soube manejar. A verdade histórica, modesta e nada imaginativa, contenta-se com ensinar-nos que Golias não teve nem sequer a possibilidade de pôr as mãos em cima de David, a verdade mítica, emérita fabricante de fantasias, anda a embalar-nos há trinta séculos com o conto maravilhoso do triunfo de um pequeno pastor sobre a bestialidade de um guerreiro gigantesco a quem, afinal, de nada pôde servir o pesado bronze do capacete, da couraça, das perneiras e do escudo. Tanto quanto estamos autorizados a concluir do desenvolvimento deste edificante episódio, David, nas muitas batalhas que fizeram dele rei de Judá e de Jerusalém e estenderam o seu poder até à margem direita do Eufrates, não voltou a usar a funda e as pedras.
Também não as usa agora. Nestes últimos cinquenta anos cresceram a tal ponto a David as forças e o tamanho que entre ele e o sobranceiro Golias já não é possível reconhecer qualquer diferença, podendo até dizer-se, sem insultar a ofuscante claridade dos factos, que se tornou num novo Golias.

David, hoje, é Golias, mas um Golias que deixou de carregar com pesadas e afinal inúteis armas de bronze. Aquele louro David de antanho sobrevoa de helicóptero as terras palestinas ocupadas e dispara mísseis contra alvos inermes, aquele delicado David de outrora tripula os mais poderosos tanques do mundo e esmaga e rebenta tudo quanto encontra na sua frente, aquele lírico David que cantava loas a Betsabé, encarnado agora na figura gargantuesca de um criminoso de guerra chamado Ariel Sharon, lança a "poética" mensagem de que primeiro é necessário esmagar os palestinos para depois negociar com o que deles restar. Em poucas palavras, é nisto que consiste, desde 1948, com ligeiras variantes meramente tácticas, a estratégia política israelita. Intoxicados mentalmente pela ideia messiânica de um Grande Israel que realize finalmente os sonhos expansionistas do sinonismo mais radical; contaminados pela monstruosa e enraizada "certeza" de que neste catastrófico e absurdo mundo existe um povo eleito por Deus e que, portanto, estão automaticamente justificadas e autorizadas, em nome também dos horrores passados e dos medos de hoje, todas as acções próprias resultantes de um racismo obsessivo, psicológica e patologicamente exclusivista; educados e treinados na ideia de que quaisquer sofrimentos que tenham infligido, inflijam ou venham a infligir aos outros, e em particular aos palestinos, sempre ficarão abaixo dos que padeceram no Holocausto, os judeus arranham interminavelmente a sua própria ferida para que não deixe de sangrar, para torná-la incurável, e mostram-na ao mundo como se se tratasse de uma bandeira. Israel fez suas as terríveis palavras de Jeová no Deuteronómio: "Minha é a vingança, e eu lhes darei o pago." Israel quer que nos sintamos culpados, todos nós, directa ou indirectamente, dos horrores do Holocausto, Israel quer que renunciemos ao mais elementar juízo crítico e nos transformemos em dócil eco da sua vontade, Israel quer que reconheçamos de jure o que para eles já é um exercício de facto: a impunidade absoluta. Do ponto de vista dos judeus, Israel não poderá nunca ser submetido a julgamento, uma vez que foi torturado, gaseado e queimado em Auschwitz. Pergunto-me se esses judeus que morreram nos campos de concentração nazis, esses que foram perseguidos ao longo da História, esses que foram trucidados nos pogromes, esses que apodreceram nos guetos, pergunto-me se essa imensa multidão de infelizes não sentiria vergonha pelos actos infames que os seus descendentes vêm cometendo. Pergunto-me se o facto de terem sofrido tanto não seria a melhor causa para não fazerem sofrer os outros.
As pedras de David mudaram de mãos, agora são os palestinos que as atiram. Golias está do outro lado, armado e equipado como nunca se viu soldado algum na história das guerras, salvo, claro está, o amigo norte-americano. Ah, sim, as horrendas matanças de civis causadas pelos chamados terroristas suicidas... Horrendas, sim, sem dúvida, condenáveis, sim, sem dúvida, mas Israel ainda terá muito que aprender se não é capaz de compreender as razões que podem levar um ser humano a transformar-se numa bomba.»

Publicado por Filipe Moura às 02:01 PM | Comentários (8)

E AGORA, QUEM É DAVID E QUEM É GOLIAS?



Publicado por Luis Rainha às 12:17 PM | Comentários (22)

O CANTO DA COTOVIA

Até à próxima sexta-feira, dia 26, a editora Cotovia leva a cabo na sua livraria (Rua Nova da Trindade, 24) uma venda de livros manuseados («livros que nos chegam devolvidos das livrarias, que estiveram expostos em montras ou que apresentam pequenos defeitos não muito significativos»). Os preços podem ir de 1,5 a 5 euros. Haverá também promoções do catálogo completo, com descontos até 50%. Aproveitem.

Publicado por José Mário Silva às 11:21 AM | Comentários (6)

LA BÊTE DU JOUR

Tal como em Espanha, em França a abstenção baixou e o eleitorado virou à esquerda, na primeira volta das eleições regionais. Infelizmente, nem tudo são boas notícias. Se por um lado Raffarin começa a vacilar (o que é bom), por outro o odioso Mr. Le Pen continua a ter razões para sorrir (o que é péssimo), ao ultrapassar a barreira dos 17% e ao atingir a segunda volta em 19 das 22 regiões metropolitanas.

Importa agora que o ogre maldito leve um valente soco de esquerda naqueles maxilares xenófobos e revisionistas, já no próximo domingo. Aux urnes, citoyens!

Publicado por José Mário Silva às 11:11 AM | Comentários (10)

OLHO POR OLHO, ATÉ FICARMOS TODOS CEGOS

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Israel vangloriou-se da morte do xeque Yassin dizendo que "ele foi pessoalmente responsável pela morte de centenas de inocentes".
A quem pareça razoável esta insanidade, recomenda-se uma enorme dose de paciência. Para gastar enquanto se aguarda que o corajoso Tsahal administre a mesma "justiça" aos israelitas responsáveis pela morte de milhares de palestinianos, desde o início da intifada de al-Aqsa.

Enquanto incendiários destes continuarem a comandar os seus helicópteros e os seus homens-bomba, bem podemos nós clamar coisas bonitas como o "EM MARCHA CONTRA A LÓGICA DA GUERRA E DO TERROR" que se pode ler um pouco mais abaixo nesta página.

Publicado por Luis Rainha às 11:11 AM | Comentários (2)

Vitória da Esquerda em França

As eleições em França com um travo amargo doce.
Boa a vitória da esquerda demonstrando que a direita não está a ser "castigada" apenas por ter apoiado o Bush.
Péssima porque LePen saiu reforçado.
Esperemos os posts dos nossos homens em Paris.

Publicado por tchernignobyl às 10:02 AM | Comentários (0)

Na melhor altura

Toda a gente defende agora com vigor a reorganização e o reforço dos serviços de segurança.
Espero que os titulares das pastas da "tutela" e os que agradeceram à AlQaeda a sua participação nas eleições espanholas não se esqueçam de lhe agradecer também a preciosa ajuda na instauração da presente paranóia securitária.

Publicado por tchernignobyl às 09:55 AM | Comentários (0)

Gente séria

Aqui já ninguém negoceia com ninguém.
Terroristas de um lado, terroristas do outro, ambos os lados seguros dos seus princípios sagrados.
E o mundo fica mais tranquilo quando os princípios são respeitados.

Publicado por tchernignobyl às 09:41 AM | Comentários (3)

ÁGUAS DE MARÇO

Anda tudo muito contente porque começou a Primavera. Mas aqui por Paris ela parece que acabou: após uns dias realmente primaveris, seguiram-se hoje grandes chuvadas, como ainda não tinha aqui apanhado. Mas é sempre bom ter um pretexto para ouvir as "Águas de Março", neste caso a minha versão favorita (em conjunto com a de Elis & Tom): cantam David Byrne (um génio) e Marisa Monte (uma grande cantora).

Publicado por Filipe Moura às 12:07 AM | Comentários (5)

março 21, 2004

Mais negócio

Palavra que não é nenhuma campanha orquestrada aqui no blogue.
É que hoje me apareceram cá em casa para jantar com um tinto Quinta de Cabriz e por causa dele dei comigo a meditar:
Se todos bebemos da mesma água por assim dizer porque há-de um gajo meter-se em discussões aqui no blog?!
E que discussões! Mas quem sou eu para decidir se o Ocidente deve ou não deve dialogar com a AlQaeda!?
Tentei explicar a discussão aos recém-chegados e deparei com vários pares de olhos fixados em mim com um ar incrédulo.
Autismo por autismo, lembrei-me então que talvez seja de evitar um pequeno equívoco quando debatemos a questão das famosas negociações.
É que com maiores ou menores limitações, (vide a esse respeito o excelente texto do daniel no barnabé que explica muito bem e numa perspectiva isenta de "idealismos" as limitações do "cenário das negociações" ) quer queiramos ou não, quer nos choque ou revolte, alguém há-de negociar com alguém se é que isso não se passa já.
Tem a ver com o tal submundo dos "vasos comunicantes".
E por favor não relembremos a natureza diferente da ETA ou do IRA. Ou até do Hamas! Há uma semana atrás (não aqui é certo) houve quem se escandalizasse pelo facto de alguns acharmos pouco crível que o atentado fosse cometido pela ETA como era voz corrente ( e de resto nem se pode ainda excluir a hipótese de algum tipo de colaboração entre os dois grupos). Era .tudo. terrorismo, tudo igual e ai de quem sugerisse sequer que existem diferenças óbvias. E com os terroristas, quaisquer que eles sejam não se negoceia... enfim...
É claro que isto é dificultado porque não existe um "centro", apesar de o Marcelo só agora o ter com abundância de pormenores depois de já terem sido atacados dois países, e sem qualquer reavaliação retrospectiva das teses que defendeu anteriormente.
No entanto, a galáxia AlQaeda não é composta por fantasmas ou deuses. São homens. Assassinos obcecados pelo ódio ao ocidente. Mas homens.
E não é esta a altura de começarmos a esquecer de que houve uma génese, uma evolução, uma história até se chegar a HOJE.
Pode até ser IMPOSSÍVEL dialogar e negociar. Mas isto só se saberá se não pusermos de parte o princípio da negociação.
O mesmo se aplica aos tresloucados do "paradigma do banco". Eles até já podem ter começado a fazer vítimas mas há sempre que tentar evitar mais vítimas. E isto não é apenas verdadeiro para alimentar uma parte significativa dos filmes de suspense made in holliwood.
Ainda por cima quem tem de negociar não somos nós.
Não sou eu que me vou deslocar do blog numa noite asfixiante do próximo Verão a uma pensão manhosa do Martim Moniz para discutir o problema com o próprio Dr. Ayman al-Zawahiri, desistir até, "capitular" "entregar-lhe as "chaves da cidade".
Ao preço a que está a gasolina não vou agora pegar no meu helicóptero particular e dirigir-me a um lugar cujas coordenadas serão enviadas para o meu GPS quando já sobrevoar o Tademait, talvez certo canyon sombrio algures a poucos quilómetros da pista de Gao, para me encontrar com uma delegação da AlQaeda disfarçada de caravana de touaregues em Toyotas Landcruiser .
Quem deverá negociar com a AlQaeda através dos meios próprios são os nossos representantes legítimos.
Como isso se fará, como estará a ser feito não sei, o que me interessa é defender que se aceite o princípio da negociação.
Defender o princípio da negociação.
Algo que tem andado alheado do vocabulário político nos últimos anos, dominado pela lógica do império.

Publicado por tchernignobyl às 08:24 PM | Comentários (11)

OCUPAÇÃO? MAS QUAL "OCUPAÇÃO"?

Parece que o famoso "livro de estilo" do Público foi alterado para passar a decretar que a ocupação do Iraque seja sempre referida como "ocupação". Assim mesmo, com as aspas a sinalizarem-nos que só um néscio ou um alienado poderia acreditar que o Iraque foi mesmo ocupado.
Por sinal, o dicionário de termos militares do Departamento de Defesa dos EUA define "território ocupado" como sendo "terrítório sob a autoridade e controlo efectivo de uma força armada beligerante."
Por sinal, o Iraque continua pejado de militares estrangeiros (embora alguns, como os espanhóis e os polacos . cujo presidente se confessou "enganado" . estejam neste momento já de malas aviadas.)
Por sinal, nas manifestações de Lisboa, Porto e resto do mundo, estiveram alguns milhares de pessoas com ideias algo divergentes quanto a este preciosismo linguístico das aspas.

Mas nada disto interessa. O José Manuel Fernandes é que sabe. Afinal, ele é o "director" do que já foi um "jornal" de "referência"...

Publicado por Luis Rainha às 01:46 PM | Comentários (11)

NEGÓCIOS ESCUROS

"Negociar" implica dar algo a um nosso interlocutor, em troca de qualquer coisa que nos interessa. E vice-versa.
O que poderemos "dar" à alQaeda? Qual será a primeira exigência do CEO Usama? Uma solução justa na Palestina? Ou o fim das Democracias no mundo? Nenhuma é . infelizmente no primeiro caso - gambito hoje praticável.
E qual o bem de primeira necessidade que a alQaeda pode colocar sobre a mesa das negociações? O fim dos atentados?
Isto não é negociar. É pura e simplesmente ceder a chantagem; é aceitar como contrapartida válida a mera modificação do comportamento da outra parte.
(Não que a história não esteja já juncada destes processos pouco edificantes: a marca de alimentos para bebé que paga ao sabotador, os parentes aflitos que financiam o raptor, etc.)

Importante será ter sempre em vista que a alQaeda não é um movimento com amplas raízes e responsabilidades na vida colectiva de um povo, como é o Hamas. No limite, ela até se pode limitar a um bando de loucos cheios de dinheiro e de dinamite. (E loucos que não atacaram o WTC em retaliação pela invasão do Afeganistão; foi ao contrário.)
Com gente assim, pode negociar-se para evitar o mal maior que é sempre a morte de inocentes. Mas nunca se poderá fazê-lo de forma aberta; tal só iria adubar as flores malignas de milhares de explosões terroristas, infestando sem remédio as próximas décadas.
O paralelo que o Tchern criou entre os loucos das bombas e um bando de assaltantes de bancos só funcionará se os criminosos estiverem mesmo interessados em dinheiro; se o que eles querem é ver sangue a jorros, de nada servirá tentar salvar os prisioneiros.
(Resumindo: não me parece que exista um imperativo moral a proibir negociações com terroristas. Mau, parece-me ceder publicamente a quem apenas poupará os seus reféns . todos nós - se alguma vez atingir objectivos... que implicam a nossa destruição.)

Publicado por Luis Rainha às 01:07 AM | Comentários (5)

março 20, 2004

LA BÊTE DU JOUR

Hoje, este não mui desejável troféu vai para... eu mesmo.
E olhem que mereço. Depois de um dia a andar de um lado para o outro, com uma insolação ridícula no nariz e dores musculares em locais que nem sei bem onde ficam no meu corpo... eis-me em casa. E que faço? Sirvo-me de um abundante e retemperador gin and tonic?
Não. Corro para o computador e leio as novidades do BdE. Pior ainda: mesmo que desprovido de uma única ideia decente ou significativa, dá-me uma comichão incontrolável nos deditos do teclado. Tenho mesmo de escrever qualquer coisa, embora não tenha sequer ainda "decidido" se o Zé Mário tem razão em agredir a carola do Dr. Mário Soares (mas sinto-me tentado a achar que sim...).
Vai daí, confecciono um jantar sofrível e rápido, encharco a namorada em "Quinta do Cabriz" e, aproveitando a narcolepsia resultante, lanço-me a escrever o post mais vazio da história da blogosfera.
É isto. Não há mais nada. Desculpem-me, por favor.

Por comportamentos bastante menos compulsivos e desviantes que este, muitos crânios foram sujeitos ao "tratamento" que valeu meio Nobel ao nosso Dr. Egas Moniz.

Para finalizar esta mísera amostra de post no mais desbragado umbiguismo, a secção que se segue é um recado para o nosso estimado comentador e itálico, o honorável thirdbacus:




thirdbacus, assesta bem a vista nisto. Eis o único e autêntico "Luís Rainha quando jovem". Nestes dias já longínquos, as Democracias ocidentais podiam dormir tranquilas, sabendo-se guardadas por guerreiros de tal gabarito. Agora, andamos temerosos e entregues ao Paulo Portas...

Publicado por Luis Rainha às 11:57 PM | Comentários (23)

Negociar, não negociar

Penso que vale a pena debater as questões levantadas pelo post do Zémário sobre a opinião expressa por Soares de que se deve negociar com a AlQaeda.
Se bem que a nossa atitude geral relativamente ao terrorismo deva ser clara e inequívoca, na minha opinião, em qualquer conflito, e normalmente em qualquer fase de qualquer conflito, é vital tentar manter linhas de comunicação e nunca se deve colocar de lado e taxativamente a hipótese de se estabelecerem negociações.
Isto nada tem a ver com .capitulação..
Isto nada implica quanto à repulsa que nos possam inspirar os terroristas.
Isto nada tem que se confunda com qualquer espécie de apoio directo ou implícito às suas teses.
Antes pelo contrário. É uma questão meramente pragmática.
Aliás, não é necessário ir longe sabemos que as negociações são estabelecidas em primeiro lugar por aqueles que mais tentam convencer a opinião pública de que com "o outro" não se negoceia de jeito nenhum!
Não é preciso ser demasiado "vivo" para se imaginar as negociações e contactos que já decorreram e decorrem a esta hora entre os americanos e(ou) franceses, alemães, italianos, russos, enfim os que se quiserem com a Alqaeda ou grupos semelhantes.
Lembremo-nos por exemplo do particularmente chocante caso Iran/contra, um negócio de tráfico de armas para uma guerrilha contra revolucionária em que o governo americano se envolveu com o governo Iraniano nos pincaros do antagonismo com o regime dos ayatollahs no seu esplendor mais veemente.
O coronel Oliver North, um dos principais envolvidos nesse caso é ainda hoje um herói dos neoconservadores.
As negociações quase contínuas entre israelitas e palestinianos, na Irlanda do Norte, em Angola, entre Caetano e os comunistas, entre o governo colombiano e as farc, etc etc etc., por todo o lado onde rebentam os conflitos mais irredutíveis.
Quando a polícia "negoceia" com os assaltantes de um banco que detêm um grupo de refèns não está "atemorizada", está a tentar todo o possível para salvar a vida dos reféns, o que é nos regimes democráticos e civilizados uma prioridade maior do que abater todos os terroristas e os reféns de caminho para obter uma "grande vitória" sobre "o medo e sobre o terrorismo" como a que as forças especiais russas obtiveram no assalto ao teatro de Moscovo.
Negociar ou tentar negociar, repito, não é sinónimo de "capitular".
A ideia contrária, saída da arrogância dos neoconservadores que num momento acreditaram poder impor doravante os seus dictats, com o mero recurso à sua enunciação, já mostrou o lindo atoleiro aonde conduz, e venham depois as famigeradas Nações Unidas atrás, limpar o esterco produzido.
Neoconservadores que têm uma digna história, como quando nos anos 80 colocaram a hipótese de .resolver. o problema da .guerra fria. com uma .guerra quente. contra o .império do mal..
A ideia contrária ancora-se ainda na tese surgida recentemente de que lá porque o Bin Laden é multimilionário e pertence a uma família de multimilionários próxima do clã Bush, o terrorismo islâmico se deve a causas puramente endógenas da cultura árabe e da religião islâmica, nada tem a ver com problemas de desenvolvimento e distribuição de riqueza e acesso a recursos, é um problema do foro psicanalítico, e o resto do mundo nada mas absolutamente nada tem a ver com isto, quase como se tivéssemos agora chegado aqui vindos de um planeta diferente.

Como muito bem diz o Thirdbacus num comentário ao post do Zémário, quais são as alternativas?
Aqui é que bate o ponto.
É que se em termos práticos a hipótese negociação parece frágil, o que dizer da hipótese .mão de ferro.? Onde estão os gajos, pá? Já se bombardearam e invadiram dois países sem resultados palpáveis. Onde vamos agora? Marrocos? É arranjar um jantar de caridade, fazer uma tômbola e tirar à sorte?
O escândalo de alguns com a sugestão de Soares procede mais da sua recusa em avaliar as limitações da política da força bruta que tem sido seguida e do conjunto de preconceitos e chavões em que esta assenta do que de uma análise séria e desapaixonada da situação, para além do problema do foro pessoal que para eles se tornou aceitar, vindo de uma figura da esquerda, por mais ou menos consensual que seja, uma intervenção pública e construtiva sobre qualquer problema fundamental para o país e para o mundo.
Negociar nestas circunstâncias não é uma garantia de sucesso, é mais uma via possível e não pode ser rejeitada liminarmente com um mínimo de .realismo..
Soares tem razão, há que tentar perceber o que quer a AlQaeda.
Por exemplo, suponhamos que a AlQaeda pretende um empenhamento claro do Ocidente na resolução do problema da Palestina.
Será que, por que é uma reinvindicação da AlQaeda, deixa de ser uma questão de justiça tentar resolver esse problema, para não ceder à AlQaeda como está subentendido no discurso da direita?
Será que o que se passa na Palestina é menos bárbaro porque os fascistas da AlQaeda resolvem fazer dessa questão uma bandeira?
Será que dar passos decisivos para resolução desse problema - sem ceder na garantia de segurança do Estado de Israel dentro das suas fronteiras - tal como é desde há muito convicção generalizada no mundo civilizado é "capitulação"?
Acho que se deve pensar nisto.

Publicado por tchernignobyl às 11:12 PM | Comentários (3)

ÚLTIMAS SMS

Dentro de duas horas, terão início as manifestações nacionais pela Paz, uma em Lisboa e outra no Porto. Quem ainda não enviou mensagens por telemóvel, aos amigos e conhecidos, deve aproveitar o último fôlego da mobilização.
Aqui ficam mais três exemplos:

VAMOS GRITAR NÃO À GUERRA E AO TERRORISMO. HOJE, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)

NEM BUSH, NEM BIN LADEN; QUEREMOS PAZ. HOJE, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)

EM MARCHA CONTRA A LÓGICA DA GUERRA E DO TERROR. HOJE, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)

Publicado por José Mário Silva às 01:05 PM | Comentários (2)

A BELA. E O MONSTRO?

À primeira faixa do último disco da Norah Jones, «Sunrise», falta a voz do Tom Waits das «Mule Variations» para fazer um dueto que seria inesquecível.
A bela e o Monstro continua a ser uma ideia muito forte.
Talvez mais especialmente para os monstros.

Publicado por tchernignobyl às 01:02 PM | Comentários (6)

SOARES "TERRORISTA"

Se Mário Soares pretendeu de facto dizer o que os jornais lhe atribuem (isto é, a defesa do estabelecimento de negociações com a Al-Qaeda, como forma de evitar novos atentados), o mínimo que se pode dizer é que o ex-Presidente da República desferiu um perigosíssimo tiro no pé.
A mim, parece-me claro que não é possível negociar com a Al-Qaeda porque esta organização não pretende obter dinheiro, territórios ou direitos cívicos. O que ela pretende é eliminar, com pressupostos teológicos, outras formas de viver e entender o mundo. Qualquer negociação com este tipo de terrorismo implicará sempre uma cedência, que é sinónimo de fraqueza e futura rendição. Ignoro qual seja o melhor caminho para resolver o complexo problema com que nos defrontamos, mas estou certo que não é o sugerido por Soares.
Resta a hipótese de que o ex-presidente estivesse a provocar as hostes, lançando mais uma das suas blagues incendiárias, pretendendo assim agitar as sempre tão paradas águas políticas do país. Mesmo neste caso, as declarações de Soares não deixariam de ser muito graves.
É que há coisas com as quais não se deve brincar. E o terrorismo é certamente uma delas.

Publicado por José Mário Silva às 12:50 PM | Comentários (9)

O TOUREADOR TOUREADO



Cartoon de António, no «Expresso» de hoje

Publicado por José Mário Silva às 12:49 PM | Comentários (2)

O CONDOR TAXINOMISTA PASA DE LONGE POR CIMA E AO LADO

De um outro gabarito é a crónica de Vasco Pulido Valente no DN de hoje.
Aos admiradores da sua prosa talentosa e vasta cultura oferece um catálogo das reacções aos atentados de Espanha, acompanhado da sua apreciação inevitavelmente severa de cada uma delas.
As reacções catalogadas, nove, algumas delas frontalmente contraditórias entre si, são todas anatemizadas e postas a nu na sua "torpeza" mesquinha e ridícula.
De fora ficaram duas:

1- A dos argutos cidadãos que se estão nas tintas para estes problemas, seguem a sua vidinha e não se manifestam para além da leitura atenta das crónicas de Pulido.

2- A do próprio Pulido.

O autor .paira. sobre a crónica como uma categoria à parte, apenas catalogável indirectamente, por defeito, tão ocupado na dissecção dos restantes que não lhe sobra espaço para dizer ao menos, no fim, de que ideia própria ou virtualidade se faz a especificidade que o separa dos restantes, fundidos numa indistinta ralé, após a passagem do rolo compressor da sua crítica.
Se não fosse pela ausência notável das palavras "prócere" e "opaco" esta crónica seria o exemplo acabado do seu estilo inimitável. Mas ainda assim evidencia o que parece ser o seu génio e o segredo da sua popularidade tão abrangente: conseguir o prodígio de semana a semana fazer pensar aos poupados numa determinada crónica, e até mesmo a alguns dos nela visados, que ele diz exactamente o que pensam quando critica as posições contrárias.
Semana a semana, todas as .criaturas. que o lêem, revêem-se com orgulho na forma talentosa como o grande Zelig lhes .tira as palavras da boca. e destrói com uma lógica e clareza implacáveis os argumentos dos seus adversários. Como eles próprios o fariam certamente, assim tivessem tempo e pachorra para escreverem nos jornais.
Este tipo de pensamento aproxima-se perigosamente, com o tempo, do lugar geométrico de algo a que se poderia chamar de "senso comum", em suma o buraco negro da banalidade demissionista.
Enquanto apreciamos o trajecto (reconheçamos que é bonito), conforta algumas almas e sobretudo vende.

Publicado por tchernignobyl às 12:48 PM | Comentários (0)

NOVOS MUNDOS AO FUNDO

A expressão "bater no fundo" é pouco rigorosa.
A natureza esquiva do fundo, o exemplo do tom dos "dispatches" dos repórteres e analistas da bolsa, ao longo do desenrolar da mais recente crise económica no nosso país, aconselha-nos a suspeitar que é sempre possível bater num fundo mais fundo.
É por isso que a afirmação assumidamente eufemística . "a crónica da Helena Matos, no Público de hoje, bate no fundo do ridículo" . é bastante relativa.
Sobretudo se partirmos da convicção optimista de que Helena terá certamente à sua frente ainda muitos e bons anos de crónicas e já demonstrou as suas potencialidades para descobrir novos fundos ao mundo.

Publicado por tchernignobyl às 12:40 PM | Comentários (4)

OS QUATRO ASES

Esta é a capa da última edição da revista «The Economist», mais uma a defender que as eleições espanholas foram ganhas pelos terroristas . uma ideia ao mesmo tempo fácil e falsa.
O que me chamou a atenção, porém, foi a manchete escolhida, como sempre muito forte tanto do ponto de vista editorial (uma pergunta incómoda) como do ponto de vista gráfico. Partindo de uma inversão do famoso baralho de Saddam, e representando os líderes que apoiaram Bush na campanha iraquiana como os ases dos vários naipes, a «The Economist» sugere que Aznar foi apenas a primeira vítima e que os outros (nomeadamente George W., que vai a votos em Novembro) podem estar na calha para sair do poder.
Até aqui tudo bem. Acontece que um olhar mais distraído poderia imaginar o primeiro-ministro português no papel do quarto ás (logo depois de Bush, Blair e Aznar), sobretudo numa semana em que foi relembrada a Cimeira dos Açores, durante a qual Durão Barroso, pateticamente, tudo fez para aparecer no retrato de grupo.
Ó doce ilusão. Ó triste engano. A realidade, dura e amarga, é outra. O ás de ouros não foi ornamentado com a efígie do nosso primeiro, mas sim com a carantonha de John Howard, chefe de governo da Austrália. É mesmo assim: para a «The Economist» (e para uma grande parte do mundo) o diligente e submisso Durão Barroso, por muitos salamaleques que tenha feito na Ilha Terceira, simplesmente não existe.

Publicado por José Mário Silva às 12:35 PM | Comentários (4)

PRIMAVERA

Agora não há retorno possível. A primavera pousou as malas, instalou-se, despiu o casaco, anda por aí à solta. Se quiserem partilhar a minha sorte, dêem-lhe um beijo. Na boca.

Publicado por José Mário Silva às 12:28 PM | Comentários (1)

março 19, 2004

SMS

Até à hora da manif, vale a pena continuar a enviar mensagens para os telemóveis de amigos e conhecidos. Como esta:

MANIF. CONTRA O TERROR DA GUERRA E A GUERRA DO TERROR. DIA 20, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)

Publicado por José Mário Silva às 11:41 PM | Comentários (0)

«Ó AZNAR, COMO É QUE SE ESCREVE MANIF EM ESPANHOL?»


Imagem pedida de empréstimo ao Grão de Areia, blogue da ATTAC

Publicado por José Mário Silva às 11:34 PM | Comentários (1)

GOVERNO (IN)CIVIL

Não é a primeira vez que isto acontece. De uma forma perfeitamente abusiva e ridícula, o Governo Civil de Lisboa (conhecida coutada do PP) veio pôr entraves ao percurso da Manifestação pela Paz que se realiza amanhã, dia 20 de Março, a partir do Largo Camões.
À falta de melhores argumentos, os responsáveis do Governo Civil, os mesmíssimos que abriram excepções à lei para a manifestação dos movimentos "pró-vida", vêm agora afirmar que a passagem dos manifestantes pela Rua do Arsenal pode «constituir um perigo» para o Tribunal da Relação de Lisboa. Que tipo de perigo, ninguém sabe dizer. Até porque esta foi uma das artérias por onde passou a primeira manifestação contra a Guerra, a 15 de Fevereiro de 2003, não havendo registos de quaisquer perturbações ao funcionamento do referido tribunal.
A atitude do Governo Civil é vergonhosa, hipócrita e indigna. Mas amanhã terá, espero eu, a resposta que merece, dada por uma multidão ordeira e com a consciência cívica que aos senhores do GC visivelmente falta.

Publicado por José Mário Silva às 10:27 PM | Comentários (3)

E OUTROS EXCELENTES CANDIDATOS AO TROFÉU

Alguém quis incendiar a Formosa a tiro, na véspera das eleições presidenciais e de um referendo que muito tem irritado a China continental. O Presidente Chen Shui-bian e a Vice-Presidente Annette Lu foram baleados em plena campanha eleitoral. Ao que parece, estão fora de perigo. A ver vamos se a estabilidade daquela zona merecerá semelhante diagnóstico...

Publicado por Luis Rainha às 02:43 PM | Comentários (8)

LES BÊTES DU JOUR


As bestas que atiçaram novo incêndio no Kosovo. Já há uns anos que o ódio não era tão claramente visível por aquelas paragens.
E de novo a Europa treme com as convulsões desta verdadeira falha tectónica entre os mundos cristão e muçulmano...

Publicado por Luis Rainha às 02:42 PM | Comentários (9)

EU JÁ FUI CONVOCADO PARA A MANIFESTAÇÃO


Não receiem, que não vos venho melgar de novo com a excelente ideia do Grão de Areia.
A "manifestação" de que falo é de ternura. Logo às 8:14 deste Dia do Pai, recebi uma mensagem dos meus filhos mais velhos (o menor ainda só sabe usar o telemóvel como substituto da chucha). E já tenho a grande manif do dia marcada para o jantar.
Eu sei que isto do amor paternal é só uma artimanha dos nossos genes para nos obrigarem a cuidar da sua sobrevivência. Mas não há volta a dar-lhe: as criaturas egoístas e birrentas a que chamamos "filhos" acabam mesmo por ser os únicos antídotos eficazes para a falta de sentido deste mundo.
A todos os Pais que por aqui passem: desejo-vos um grande Dia!

Publicado por Luis Rainha às 01:14 PM | Comentários (3)

LINHAS COPIADAS

Na sua crónica de hoje, Luís Delgado cita um trecho de Eduardo Prado Coelho e responde com um texto de José António Lima. De original, nesta crónica, uma frase no máximo. Eu sei que este é um assunto já muito referido, mas acho que hoje foram batidos todos os recordes.

Publicado por Filipe Moura às 01:09 PM | Comentários (3)

PARABÉNS HERMAN


Há uns dez anos atrás (nem tanto), o dia de hoje seria assinalado com uma festa de anos ao vivo. A audiência, na plateia e em casa, poderia assistir à festa, mas o champanhe e o caviar ficariam reservados aos comensais, entre eles um ministro "socialista".

Hoje já não é assim. E ainda bem, por um lado, se bem que nem tudo o que contribuiu para isso seja bom. Por aqui preferimos recordar o genial comediante. A minha geração é a "geração do Herman", que cresceu a vê-lo. Faz hoje 50 anos. Parabéns, Herman.

Publicado por Filipe Moura às 01:00 PM | Comentários (10)

CONSTATAÇÃO (AO SAIR DE CASA)

Esta luz um pouco mais sólida, mais doce, menos inclinada. Uma árvore coberta de minúsculas flores brancas, delicadíssima, quase oriental. O ar que vibra, como que ferido pela sua própria leveza. Um súbito canto de pássaros nos telhados da minha rua. O azul do céu tão azul . prenúncio de dias longos e tardes quentes.
Nada disto engana: hoje, antecipando-se ao calendário, a primavera entrou na cidade.

Publicado por José Mário Silva às 10:51 AM | Comentários (12)

DEMOCRACIA E PASTILHAS ELÁSTICAS

Num post abaixo, escapou-se-me a coda fundamental para vos dar a inteira dimensão da citada notícia do Guardian: um chefe tribal afegão, Haji Arsala, disse aos jornalistas britânicos que "os americanos portaram-se pior que o Exército Vermelho dos soviéticos, nos anos 80: eles nada reconstruíram na nossa zona. Limitaram-se a dar pastilhas elásticas aos miúdos".

Publicado por Luis Rainha às 01:16 AM | Comentários (13)

março 18, 2004

HAPPY ANNIVERSARY, MR. PRESIDENT! (OU O SÓSIA DO SÓSIA)

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (1)

UMA APOTEOSE DE GRAÇA

Já que o Zé Mário, ao partilhar connosco um belo excerto do Eclipse, não teve em atenção os leitores linguisticamente desafiados, dei-me ao trabalho de buscar uma tradução. Aqui fica ela. Mas atenção ao título deste post: a coisa é de graça. E mesmo quem não entende grande coisa de Inglês sabe que you get what you pay for...

"Quando Lydia e eu fomos casados primeiramente nós vivemos em um terceiro-assoalho cavernous flat em um terrace georgian desintegrando-se, com um banheiro acima de um vôo curto das escadas, através da janela elevada pequena de que, se eu craned, eu poderia ver para baixo no bedroom de um plano na porta seguinte da casa, onde frequentemente de uma manhã, quando o tempo era clement, eu glimpse uma menina despida que se começa pronta para seu dia. Com uma mola inteira e verão eu prestei atenção para ela lá cada manhã, um joelho pressionados tremblingly no assento do lavatory e meu esticar da garganta da tartaruga; Eu pude ter sido um shepherd e ela do sótão uma ninfa em seu toalete. Não era bonita particulary: vermelho-haired, eu recordo, rather grosso na cintura, e com um pallor insalubre. Contudo fascinou-me. Não estava ciente de ser espiado sobre, e assim que era? que devo eu dizer? livre. Eu tive nunca antes testemunhei tal purity do gesto. Todas suas ações? escovando seu cabelo, puxando nela as calças, prendendo um clasp atrás dela para trás? teve uma economia que fosse além do mero adroitness físico. Este era um tipo da arte, em uma vez que primitivo e tornado altamente. Nada foi desperdiçado, não o elevador de uma mão, a volta de um ombro; nada era para a mostra. Sem saber, no self-absorption perfeito, da conseguiu no início de cada dia lá em seu quarto médio um apotheosis o grace e o suavity. Unadorned a beleza grave de seus movimentos era, ele causou dor ao performer em mim para reconhecer, inimitable: mesmo se eu gastei uma vida do rehearsal eu não poderia esperar aspire ao elegance thoughtless do gesto o mais trivial desta menina. Naturalmente, tudo não era dependente precisamente lá de ser nenhum pensamento unido a o que fazia, nenhuma consciência. Um glimpse de meu olho ansioso na janela do banheiro, prestando atenção a lhe, e à a teria scrambled para esconder seu nakedness com todo o grace de uma cadeira desmoronando da plataforma ou, mais mau, deslizaria no travesty da exposição self-conscious. Inocente de ser prestado atenção, era uma despida; ciente de meu olho nela, giraria em um nude."

PS: Escusam de me agradecer; o mérito é todo dos senhores do Google.

Publicado por Luis Rainha às 11:58 PM | Comentários (1)

AN APOTHEOSIS OF GRACE

«When Lydia and I were first married we lived in a cavernous third-floor flat in a crumbling Georgian terrace, with a bathroom up a short flight of stairs, through the small high window of which, if I craned, I could see down into the bedroom of a flat in the house next door, where often of a morning, when the weather was clement, I would glimpse a naked girl getting herself ready for her day. Through a whole spring and summer I watched for her there each morning, one knee pressed tremblingly on the lavatory seat and my tortoise neck straining; I might have been an Attic shepherd and she a nymph at her toilet. She was not particulary pretty: red-haired, I remember, rather thick in the waist, and with an unhealthy pallor. Yet she fascinated me. She was not aware of being spied on, and so she was . what shall I say? . free. I had never before witnessed such a purity of gesture. All her actions . brushing her hair, pulling on her pants, fastening a clasp behind her back . had an economy that was beyond mere physical adroitness. This was a kind of art, at once primitive and highly developed. Nothing was wasted, not the lift of a hand, the turn of a shoulder; nothing was for show. Without knowing, in perfect self-absorption, she achieved at the start of each day there in her mean room an apotheosis of grace and suavity.

The unadorned grave beauty of her movements was, it pained the performer in me to acknowledge, inimitable: even if I spent a lifetime of rehearsal I could not hope to aspire to the thoughtless elegance of this girl's most trivial gesture. Of course, all was dependent precisely on there being no thought attached to what she was doing, no awareness. One glimpse of my eager eye at the bathroom window, watching her, and she would have scrambled to hide her nakedness with all the grace of a collapsing deck chair or, worse, would have slipped into the travesty of self-conscious display. Innocent of being watched, she was a naked; aware of my eye on her, she would have turned into a nude.»

[John Banville, «Eclipse»]

Publicado por José Mário Silva às 11:57 PM | Comentários (4)

O SMS É UMA ARMA!








Era só para vos relembrar que ainda vão bem a tempo de aderir à campanha do Grão de Areia. Olhem que isto da tecnologia não é só para uso do adversário!

Publicado por Luis Rainha às 11:56 PM | Comentários (55)

COMO DAR PEQUENOS RETOQUES À VERDADE

No "Público" de hoje, o já indispensável José Manuel Fernandes explica-nos os resultados de uma sondagem, recentemente levada a cabo no Iraque.
A páginas tantas da sua croniqueta, escreve ele: "mais ainda: 64,4 por cento acha que a primeira prioridade é continuar a restabelecer condições de segurança, sendo que só 3,3 por cento acham que a primeira prioridade é a devolução do poder aos iraquianos. "
Na página 6 do documento da BBC, lemos exactamente esse resultado de 64,4%, mas relativo ao número de iraquianos que tem como primeira prioridade "restabelecer a segurança pública no país". Sem o verbo "continuar".
É engraçado como o esforço do frete se torna tão óbvio através de uma só palavrita...

No mesmo quadro, vemos que, acima dos tais 3,3% que parecem tão irrisórios a JMF, só aparecem . como primeiras prioridades para os inquiridos - a já citada segurança, a "Reconstrução das infra-estruturas", "Dar a cada iraquiano uma vida decente" e, com 8,1%, "Levar a cabo eleições para um governo nacional". O que significa que, logo a seguir a 3 objectivos de sobrevivência, vêm reivindicações de soberania.
Isto não nos relata o pressuroso JMF; tal como não nos diz, por exemplo, que Saddam ainda é o sexto líder iraquiano a merecer mais confiança (estranho mas aparentemente verídico) e que Ahmed Chalabi, o menino querido do Pentágono a quem os EUA vão, contra tudo e contra todos, entregar o poder, aparece no fundo da tabela, com uns meros 0,3% de preferências, liderando destacado a lista das personalidades em quem ninguém confia!
Mais: à pergunta "o que pensa que o Iraque necessita nos próximos 12 meses", 46,6% respondem "Um só líder forte, iraquiano", deixando para 1,4% a preferência pela "Coalition Provisional Authority".
Quanto ao resto, parece-me natural que a maioria diga que as coisas andam melhor que antes da guerra. Esquisito é, tendo em vista como era Saddam, que essa maioria se cifre apenas em 56%!

Mas que interessa tudo isto, se JMF acaba o seu texto com este lindo pensamento: "ainda ontem Zapatero voltou a proclamar que .a ocupação é um fiasco.. Pois é. Só é pena os .ocupados. serem de opinião diferente."
Se juntarmos o "pequeno acrescento" ao resultado da sondagem às eloquentes aspas que desvalorizam a palavra "ocupados", fica tudo dito quanto à honestidade de JMF.
Só é pena que os civis mortos pela invasão . entre 8.581 e 10.430 . não estivessem em condições de responder à sondagem. Mas estes mortos não entraram por certo nas contas de JMF, quando intitulou a sua crónica "Mais Sangue em Bagdad"...

Publicado por Luis Rainha às 04:49 PM | Comentários (9)

AO LEITOR DESCONHECIDO

O penúltimo livro da micro-editora de que sou sócio foi revisto por tanta gente que, na hora de escrever a sua ficha técnica, decidi inventar um revisor de nome flagrantemente imaginário. Assim nascia um dos nossos mais produtivos funcionários, o Dr. Inapto da Silva.
Meio grotesco, não é? Pois olhem que a primeira carta que recebemos de um leitor desse livro vem co-endereçada precisamente à tal personagem de ficção.

Ao leitor em questão, que preferiu permanecer anónimo: o autor agradece os elogios. O Dr. Inapto manda dizer que já não trabalha aqui.

Publicado por Luis Rainha às 03:21 PM | Comentários (6)

IN MEMORIAM


A minha mãe, arqueóloga pertinaz, não desiste de tentar desenterrar as escondidas raízes das nossas árvores familiares. Descobriu agora esta pagela, relativa à morte de uma das minhas 8 trisavós.
Isabel Maria de Azevêdo Mavigné do Souto. Assim se chamava a senhora que, ao que parece, "fez da prática da caridade o fito da sua vida e deu sempre com prazer a quem se lhe acercou."
Há quanto tempo não aflorava este nome e esta mulher à memória de alguém? Mesmo que de forma tão abreviada e parcial? Será este post suficiente para a retirar de um qualquer limbo destinado às almas esquecidas?
Gostaria de conseguir acreditar que sim. Que, pelo tempo em que estas palavras se mantiverem online, enquanto alguém ainda puder ler no fósforo cansado dos monitores o nome "Isabel Maria de Azevêdo Mavigné do Souto", de alguma forma esta vida fará de novo sentido, deixando de se resumir a uns quantos genes diluídos em descendentes que a ignoram.
Exagero, claro. Se calhar, alguns dos que dela "se acercaram" ainda vivem e conservam reminiscências da sua propalada caridade. Ou, e isto é mesmo o mais certo, a Dona Isabel Maria não precisa para nada deste arremedo de ressurreição digital. Ela teve a sua vida, bem longa por sinal. As suas alegrias e desilusões. E que mais contará, na hora de regressar ao pó?
Claro que ela também sabia de "Aqueles que por obras valerosas/Se vão da lei da morte libertando"; mas espero que tenha morrido em paz, sem remorsos por não ter sido capaz de tais "obras" fenomenais. Se é que elas bastam para ajudar quem quer que seja a "bem morrer", como reza a pagela...

Publicado por Luis Rainha às 01:15 PM | Comentários (7)

TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS?

O rescaldo das eleições espanholas continua fértil em úteis ensinamentos.
Inesperados e até inverosímeis para alguns crentes.
Começa agora a saber-se, via testemunhos de inúmeras fontes dos meios de comunicação, provavelmente a soldo ou chantageados pela alqaeda, a extensão da tentativa de manipulação da informação por parte do governo espanhol. Ao mais alto nível, o do seu próprio presidente.
Confiemos que não é por isto que vai ser minimamente abalada a fé dos apoiantes de Aznar, ou sequer o tom das explicações para o desaire fornecidas pelos nossos analistas rigorosamente independentes, mas é sem dúvida um novo mistério para quem está habituado às críticas ao eleitorado "esclerosado e incapaz de mudança" do PC.
Por outro lado, a actuação da TVE esclarece-nos finalmente acerca da aversão natural dos governos de direita aos meios de comunicação públicos.
Eles bem sabem as manipulações de que são capazes, e apenas tentam sabiamente alertar-nos contra as suas próprias tentações. Tudo boas almas.
Outra coisa em que a direita se destaca é na sua permanente confiança nas regras da alternância democrática e na crítica à arruaça de rua, esta sim, apanágio exclusivo de "uma certa esquerda", expressão com que designam a esquerda de cada vez que se irritam um pouco mais.
Quando esta põe em prática as tais regras da "alternância", por exemplo.
Ora numa manifestação "espontânea" que houve ontem em Madrid, por supuesto de apoio e desagravo ao governo, uma senhora presente dizia, alterada, que "não os vamos deixar em paz", referindo-se ao novo governo.
Ao contrário do anterior, já percebeu que este governo não será de "todos os espanhóis" nem beneficiará da anteriormente exigida "unidade" na luta contra o terrorismo.
A cerejinha no topo do bolo, ou a maçã na boca do leitãozinho, foi a indignação da senhora (e das que gritavam indignadas por detrás dela) com a "manipulação dos meios de informação privados".
Desta é que eu francamente não estava à espera.
É que nós, esquerdistas, também denunciamos a manipulação dos meios de comunicação e, por vezes, fazemos estas figuras mas enfim, já se sabe o que somos.
Agora a direita das discussões elevadas...? Tsss tsss.

Publicado por tchernignobyl às 11:00 AM | Comentários (9)

VENTURAS E DESVENTURAS DA RETOMA

O ministro Carmona Rodrigues foi apanhado de surpresa pelo encerramento da Bombardier (ex-Sorefame), uma das empresas mais emblemáticas da cintura industrial de Lisboa. A classificação de "emblemática" não lhe advém de ser uma relíquia histórica, papel que lhe poderia ser disputado por muitas meras fabriquetas de vão de escada, assentes na exploração de mão-de-obra barata.
Precisamente o contrário, foi uma escola de quadros técnicos e uma unidade industrial de vanguarda em Portugal que fez as suas provas também a nível europeu.
Quando abordado pelos jornalistas, o Ministro disse (sempre sorrindo) que o governo "não pode fazer nada", por se tratar de uma empresa privada. E acrescentou, à laia de desculpa, a frase enigmática: «é um sector em expansão mas...»
Tranquilizados pelo facto de o sector se encontrar em expansão, e confiantes na plena .retoma. económica garantida pelo governo e pelos diversos analistas económicos, vão ficar com certeza os 400 trabalhadores despedidos. E nós também. Este é um sinal claro de como a excelência técnica nos aproxima rapidamente do melhor que a Europa tem.

Publicado por tchernignobyl às 10:38 AM | Comentários (2)

março 17, 2004

AO TELEFONE COM F. MULDER?



- Eh pá, estás com uma voz estranha...
- Não conseguia adormecer. Passei a noite toda a pensar na mesma coisa.
- ?
- Pode parecer-te uma parvoíce, mas... tenho de te contar isto. Lembras-te da miudinha que ontem foi à nossa mesa, no café, e começou a falar contigo?
- Hmmm... sim, estou a ver. Não percebi nada do que ela disse.
- Pois é. E lembras-te que a mesma miúda apareceu depois, no restaurante, e veio à nossa mesa falar contigo?
- Sim. Por acaso, até achei estranho; não reparei que lá andassem os pais dela. Mas que tem isso a ver...
- Ouve com atenção. Passei a noite de volta disto. Sabes: acho que aquilo não era criança nenhuma!
- Ahn? Estás mesmo a precisar de dormir, não?
- Ouve-me até ao fim. O que era a "entidade" ao certo, não sei. Mas sei que queria comunicar contigo, ela tinha de certeza uma mensagem para ti. E puxei pela memória até me conseguir lembrar do que ela disse...
- Uma mensagem? Para mim?
- Sim! E a mensagem era esta: "Luis, amanhã, não te esqueças de passar o cheque que prometeste ao Jorge!"

Jorge: desconfio que deve ser ilegal revelar assim uma conversa telefónica. Mas, tendo em vista que até já tens o cheque, não resisti a partilhar o sorriso tonto que me vem à cara cada vez que me lembro deste telefonema...

Publicado por Luis Rainha às 05:16 PM | Comentários (5)

PEQUENA BRINCADEIRA PARA OS NOSSOS AMIGOS DE ÉVORA

Quando partimos, há dois. Depois, A6. Quando chegamos, há quatro.

Publicado por José Mário Silva às 03:14 PM | Comentários (5)

UMA PERGUNTA E UMA NOTÍCIA

Há uns dias, ainda nas primeiras horas de incredulidade ante a carnificina de Madrid, surgiu um comunicado das Brigadas Abu Hafs al-Masri a reivindicar o horror. Um excerto: "nós não sentimos pesar por tombarem aqueles a que vocês chamam civis. Será aceitável que eles matem as nossas mulheres, crianças, idosos e jovens no Afeganistão, Iraque, Palestina e Kashmir, mas proibido que nós os matemos?"
Uma amiga minha, entendida em coisas islâmicas, disse-me que esta é uma tentativa de justificar, face ao Corão, o direito à retaliação. E, sem aviso, deixou-me a questão fatal: "mas não deixa de ser uma boa pergunta, pois não?"
Eu sabia uma resposta; falei-lhe no abismo que separa mortes acidentais em cenários de guerra e ataques deliberados a civis, com bombas preparadas para destroçar ou mutilar o maior número de inocentes possível. E ainda lhe disse que justificar o Mal com o Mal não me parece itinerário capaz de nos levar a paragens seguras.
Não sei se a convenci. Eu é que fiquei um pouco menos convencido quando li hoje esta notícia:
A Força Aérea americana acaba de se absolver de culpa na morte de nove crianças no Afeganistão, em Dezembro último. Estas crianças, todas com menos de 12 anos, tinham cometido o erro de estar numa casa erroneamente identificada por um piloto como pertencendo a um líder talibã.
Logo na altura, a ONU protestou e os EUA pediram desculpas. Agora, o inquérito americano terminou com a conclusão de que as famosas rules of engagement tinham sido seguidas de forma "apropriada" pelo piloto em causa. Como? Não adianta fazer mais perguntas, que o inquérito é para permanecer secreto.

Digam-me agora: o que queremos nós, Ocidente civilizado e democrático, comunicar ao mundo islâmico com "inquéritos" destes? Que resposta estamos a dar à tresloucada pergunta do comunicado?
Eu sei que o terrorismo é abjecto, que não vale a pena procurar razões ou sentidos nos seus actos. Mas também sei que não foi o Darth Vader nem o Belzebu quem colocou as bombas em Madrid; foram pessoas. Criminosos que começaram por ser jovens mal orientados e até pouco esclarecidos quanto à sua própria religião. Mas talvez também enraivecidos por histórias de nula moral como esta.

Publicado por Luis Rainha às 02:36 PM | Comentários (29)

TODOS À MANIF!

No próximo dia 20 (sábado, às 15 horas), decorerrão duas manifestações simultâneas contra a guerra e o terrorismo: em Lisboa, no Largo Camões; e no Porto, na Praça da Batalha.
Para que as manifs tenham verdadeiro impacto, todos os esforços de mobilização são poucos. Por isso, juntamo-nos à campanha que o blogue da ATTAC está a levar a cabo, pedindo a todos os bloggers que enviem SMS's aos amigos e conhecidos, com um slogan e as coordenadas (hora/lugar) das concentrações.

Um exemplo:

CONTRA O TERRORISMO E A GUERRA, MARCHAR, MARCHAR! MANIF. DIA 20, ÀS 15H00, NO LRG. CAMÕES (LISBOA) E NA PR. BATALHA (PORTO)

Comecem já.

Publicado por José Mário Silva às 02:32 PM | Comentários (16)

COMO EU VOU FICAR RICO

Neste fim-de-semana, tive a sorte de testemunhar uma "grande estreia" da TVI: o fabuloso "Inspector Max"!
Trata-se de um pastor-alemão, de QI incalculável, que ajuda o seu parceiro da Judiciária a capturar vilões, salvar criancinhas perdidas e sacar namoradas. (Qualquer semelhança com o inspector Rex da SIC só pode ser má-vontade vossa.)
A coisa é do melhor que tem passado na TV nacional em termos de humor involuntário: a acrescer à típica "Qualidade TVI" (cores deslavadas, gente sempre com três ou mais sombras, diálogos risíveis, etc.), tivemos direito a uma historieta mirabolante que, por respeito à vossa inteligência, nem vou tentar resumir. E parece que foi um êxito popular!

Aqui, comecei a matutar: se a SIC e a TVI já têm os seus gémeos caninos armados em estrelas do prime-time, o que me impede de inventar um outro herói policial de quatro patas, e, quem sabe, impingi-lo à RTP?
Vai daí, após noites e noites de trabalho febril, inventei o Sargento Tox!
Este audaz elemento da GNR acompanha o seu treinador, o Cabo Silva, no seu dia-a-dia recheado de peripécias valorosas: sacar copos à borla na taberna da esquina, oprimir vendedores ambulantes, receber umas "atençõezinhas", atrapalhar a vida à Judiciária, etc, etc.
Para lá de alguns truques que envolvem pulgas, copos de três e gases digestivos, ainda não sei bem que repertório de habilidades espantosas irei atribuir ao Sargento Tox. Qualquer ajuda será bem vinda...

Isto, pelo menos, dará certamente uma série mais verosímil que as concorrentes. E o meu rafeiro tem mesmo pose de herói!

Publicado por Luis Rainha às 01:32 PM | Comentários (13)

A EXPANSÃO DO UNIVERSO E O ATRASO PARA O TRABALHO

O seguinte texto serve para dar um exemplo de como se pode fazer uma comédia (da melhor) baseada em termos e conceitos científicos (precisamente da área em que trabalho) e sem "ajavardar" a linguagem. Tendo ideia do que se está a falar. Sendo rigoroso. E o resultado final é engraçadíssimo. (Quem dera ver textos assim escritos originalmente em português.) Talvez certas partes não possam ser compreendidas por todos, mas para serem escritas não foi necessário nenhum conhecimento extraordinário de Física. Havia o The New York Times todas as terças-feiras, e havia interesse científico por parte do autor. Que se chama Woody Allen.

Publicado por Filipe Moura às 12:46 AM | Comentários (0)

DO RIGOR (RESPOSTA AO LUIS)

Eu não gosto nada mesmo de coisas mal definidas, de falta de rigor. Pode (deve) mesmo ser deformação profissional. Mas isso explica inclusivé o ramo da Física a que me dedico. Não tolero faltas de rigor mesmo (e principalmente) a colegas.
Talvez por isso, de facto não gosto de ver a linguagem científica "ajavardada", Luís. A bem dizer, não gosto de ver linguagem nenhuma ajavardada. Por exemplo, não tolero erros de ortografia (nota que não sou imune a erros deste ou de nenhum outro tipo). Não vou ao ponto de fazer como um amigo meu que, quando éramos monitores de Matemática no IST, ia ao ponto de corrigir os erros de ortografia dos exames dos alunos. Sei identificar algumas causas perdidas, e lamentavelmente a ortografia dos alunos do Técnico parece-me ser uma delas.
Tornei-me assim desde tenra idade. Por exemplo, é comum falar-se em "espaço de tempo", mas nas minhas aulas de física do décimo ano era proibido. A minha professora (uma das que mais me marcaram) logo nos interrompia com um "essa foi mesmo à locutor de televisão!", antes de concluir com a expressão correcta, "intervalo de tempo". E continuou assim até ao meu orientador de doutoramento. Enquanto assistia a seminários, era capaz de se levantar e ir enfrentar o orador no quadro da sala, se achasse que este estava errado ou a ser pouco rigoroso, desonesto ou se não soubesse do que falava.
Por isso, embora ache que não seja preciso recorrermos a expressões matemáticas para comunicarmos (todavia, se recorrêssemos, seguramente haveria menos mal entendidos), julgo que deve haver um certo rigor na utilização de expressões ou termos científicos e técnicos. Sem que haja aqui nenhum tipo de "carta de alforria" - como se a ciência fosse algum tipo de escravatura!
Concluo dizendo que a reconhecida "falta de rigor" dos portugueses é consequência da nossa baixíssima preparação em Matemática (é essa a principal função da Matemática, a meu ver - desenvolver o rigor e o espírito crítico). Se houvesse uma melhor preparação científica da população, talvez se tolerasse menos os malabarismos financeiros da sra. ministra e mentiras generalizadas como as das "armas de destruição maciça".

Publicado por Filipe Moura às 12:13 AM | Comentários (9)

março 16, 2004

POIS; PUSERAM-SE ASSIM UM BOCADO A JEITO...


Confesso: aquando do episódio dos cartazes do Bloco de Esquerda relativos ao aborto que surgiram todos pintalgados, imaginei logo o Miguel Portas a dar ordens à brigada de agit-prop: "Vão lá vandalizar os cartazes, mas tenham cuidado e não tapem as letras!"
Desta vez, nem me passa pela cabeça que este "acrescento" seja uma manobra de auto-vitimização. Quem o inventou pode ter uma noção de design pouco apurada, mas tem um sentido de oportunidade mortífero. (Também há que reconhecer algumas qualidades ao adversário, que diabo!)
Eu, ao contrário do Daniel Oliveira, até nem acho o cartaz mau de todo; mas estava mesmo a pedi-las...

Publicado por Luis Rainha às 08:14 PM | Comentários (5)

UM ANO DEPOIS

A 16 de Março de 2003, estes quatro senhores (Tony Blair, de costas; José María Aznar, de perfil; George W. Bush e Durão Barroso) reuniram-se nos Açores, na famosa cimeira que lançou o derradeiro ultimato a Bagdad e serviu para declarar, na prática, a guerra contra Saddam.
Um ano depois, é fácil compreender que estes senhores se perderam num labirinto de equívocos, dúvidas e estratégias falhadas . não havendo já Ariadne que os salve. A ocupação do Iraque assentou numa mentira (a existência das inexistentes WMD) e descredibilizou totalmente quer a política externa americana quer a dos seus fidelíssimos aliados europeus. A luta global contra o terrorismo, essa, caiu num impasse duradouro, sendo óbvio que as principais ameaças se mantiveram, quando não foram ampliadas (vide Madrid). Para resumir tudo numa frase, o mundo não se tornou um lugar mais seguro, como se prometeu na ilha Terceira. Muito pelo contrário.
Há 365 dias, se bem se lembram, a reunião dos quatro líderes pareceu-nos vergonhosa (para nós, portugueses, involuntários anfitriões) e muitíssimo preocupante (para o mundo, à beira de mais um conflito sem razão de ser). Hoje, uma guerra e muitos atentados terroristas depois, o conclave atlântico ficou reduzido à sua insignificância histórica: a imagem de Bush carregando a espingarda em território neutro, rodeado pelas suas marionetas. A cimeira foi um não-acontecimento, uma mera antecâmara, uma encenação mediática. Dela não guardaremos memória, porque não se recordam coisas assim: tão patéticas quanto inúteis.

Publicado por José Mário Silva às 06:17 PM | Comentários (0)

SE A CIMEIRA DOS AÇORES FOSSE HOJE

Publicado por José Mário Silva às 06:14 PM | Comentários (6)

ENTRE O MEDO E A MENTIRA

De uma forma pouco honesta, a generalidade dos comentadores de direita brama que as eleições em Espanha foram um triunfo do terrorismo. Assustados com o crime hediondo de Madrid, os espanhóis teriam cedido, por cobardia, à chantagem da Al-Qaeda. Os mesmos espanhóis, repare-se, que saíram à rua, aos milhões, na sexta-feira, gritando contra o terror sem recear novos ataques.
Para estes comentadores, a hipótese de uma indignação geral com o governo de Aznar (mentiroso reincidente, depois do escândalo do Prestige), chega a ser ponderada, mas só para reforçar que "não pode ter sido isso". A questão é que pode. E é por isso mesmo que a vitória do PSOE representa um triunfo, não do receio de represálias, não da Al-Qaeda, mas da consciência cívica e democrática dos espanhóis.
Num dos kalkitos que publicou hoje no DN, o meu amigo Pedro Mexia resume a questão assim: «foi o medo . e não a mentira . que decidiu as eleições». Ora a meu ver passou-se justamente o contrário: foi a mentira . e não o medo . que decidiu as eleições. É nesta diferença que reside toda a perplexidade dele e toda a minha esperança.

Publicado por José Mário Silva às 06:05 PM | Comentários (5)

UM PEQUENO COMENTÁRIO ANISÓTROPO

O termo "entropia" foi apresentado ao mundo da Ciência por Rudolf Clausius. A confusão em redor desta palavra começou logo no seu nascimento, e, de acordo com o cientista alemão, de forma propositada: "Eu prefiro ir às línguas antigas para dar nomes a quantidades científicas importantes, para que elas tenham o mesmo significado em todas as línguas vivas. Assim, proponho chamar a S a Entropia de um corpo, seguindo a palavra grega para .transformação.. Criei a palavra .entropia. com o propósito de ser semelhante a .energia., pois estas duas quantidades são tão análogas no seu significado físico que uma analogia de designações parece-me útil." (1)

O que ele criou foi também uma grande balbúrdia nas cabeças de muito boa gente. Há quem diga que Clausius conseguiu mesmo inventar uma palavra que tem um só significado para toda a gente: nenhum.
Quando Claude Shannon descobriu que a fórmula de Boltzmann podia ser aplicada à Teoria da Informação, hesitou em chamá-la "entropia", exactamente por causa da confusão já então reinante. Terá sido John Von Neumann a sossegá-lo, dizendo: "ninguém sabe o que é a entropia, portanto vais estar sempre em vantagem nos debates!"

Sem simplificar demais - espero eu, Filipe! - , poderemos dizer que a Entropia é uma quantificação da desordem. E é este exactamente um dos significados que já assumiu em muitos dicionários de Português: "desordem".
Aqui surge o meu busílis: se uma dada palavra foi popularizada pela Ciência e até já tinha um étimo antigo, não terá direito a carta de alforria, podendo emigrar para outras sebentas mais populares, correndo embora o risco de aí ser maltratada?
Ou será que expressões como "buraco negro" devem para todo o sempre ser mantidas a salvo das unhas sujas dos não-iniciados?

Se calhar, o tal Cunha e Silva queria só usar um sinónimo finório para "desordem" e a coisa deu para o torto...

PS: Atenção que isto nem é bem um comentário; surge apenas à laia de boca, uma vez que não consegui ter acesso à página do DN em questão. (De qualquer forma, creio que o senhor exagerou mesmo nos tratos de polé a que submeteu a pobre entropia: "desordem negativa" seria coisa estranha demais para o meu entendimento...)
Aliás, até já tinha tido aqui uma polémica com o meu amigo Nuno Ramos de Almeida, em que assumi a defesa de uma posição mais ou menos simétrica a esta...
Foi apenas um modesto contributo, semi-brincalhão, para adubar a discussão :-)

(1) Leon Cooper: An Introduction to the Meaning and Structure of Physics

Publicado por Luis Rainha às 01:33 PM | Comentários (12)

EUFORISMO

Àquele homem os contratos corriam-lhe sempre tão mal, tão mal, tão mal, que ao ler histórias aos filhos, na hora de dormir, nunca havia lobos, bruxas ou homens do saco, só primeiros outorgantes.

Publicado por José Mário Silva às 12:11 PM | Comentários (1)

UMA SAÍDA PARA A PAZ NO MÉDIO ORIENTE...

... exige que se pare, quanto antes, com a construção do muro na Cisjordânia. Porque a realidade, ao contrário da pomba, não é uma metáfora.

Publicado por José Mário Silva às 12:08 PM | Comentários (1)

UMA PERGUNTA

Aos defensores do pagamento de propinas no Ensino Superior, uma pergunta muito a sério. Criticam muito os estudantes, são uns preguiçosos, não vão às aulas, trancam as faculdades. Mas acham que se deve pagar para ser aluno de Paulo Cunha e Silva?

Publicado por Filipe Moura às 01:18 AM | Comentários (15)

S=k ln W

Esta é a definição de entropia de um sistema introduzida por Boltzmann. W é o número de estados possíveis desse sistema (um número inteiro positivo). k é uma constante (positiva). Não serão precisos conhecimentos aprofundados de matemática para concluir que a grandeza definida por tal expressão é sempre positiva.
Boltzmann foi um homem com uma vida atribulada, que se suicidou alegadamente devido à falta de acolhimento que o seu trabalho inovador em Física Estatística teve entre os seus colegas. Os seus discípulos inscreveram a fórmula da entropia no seu túmulo.

O que pensaria ele se soubesse que, no século XXI, a entropia seria comparada com o terrorismo?

Publicado por Filipe Moura às 01:11 AM | Comentários (5)

A CULPA É DELE

Discutiu-se por algum tempo se a responsabilidade dos atentados era da ETA, se da Al-Qaeda. Há sectores que defendem que a culpa é do Aznar e do Bush. Mas o sábio Paulo Cunha e Silva resolveu a questão: a culpa do terrorismo é do senhor Boltzmann, por ter definido a entropia e por ter formulado rigorosamente a segunda lei da termodinâmica.

Publicado por Filipe Moura às 01:07 AM | Comentários (5)

SEM PALAVRAS

"Mas este processo de construção de entropia negativa era sistematicamente interrompido por situações de entropia absoluta.
Como se de vez em quando o edifício ruísse. A civilização sempre foi acompanhada pela barbárie.
A luta contra a entropia é uma luta permanente.
O terrorismo é a mais perniciosa das entropias contemporâneas. Porque é uma entropia difusa. Uma entropia sem rosto.
"

Macacos me mordam. Eu vou enviar este artigo para o Sokal. E vou-me queixar ao Diário de Notícias. Não há liberdade de expressão que permita escrever barbaridades destas. Este artigo não podia ter sido publicado. A não ser que o Paulo Cunha e Silva seja outro Sokal.
Para quem não saiba quem é o Alan Sokal e o famoso "Sokal hoax", recomendo a leitura deste artigo e de outros na mesma página. Uma evocação mais recente (de ontem), que também recomendo vivamente, encontra-se no blogue No Mundo, do Carlos Miguel Fernandes, que também nos recorda a passagem da "relatividade do pi".

Publicado por Filipe Moura às 01:00 AM | Comentários (4)

OS DISCÍPULOS DO RELATIVISMO (3)

Miguel Sousa Tavares é ocasionalmente um relativista, que merece nesse aspecto a mesma credibilidade que qualquer pessoa que questione a utilidade da Matemática (como eu já lhe li numa entrevista). Nem é um académico (há quem diga que é escritor). O Pedro Lomba foi um relativista inadvertido e é um assistente (apesar de se identificar na "geração de 70" como "docente universitário", o que parece ser prática comum entre os advogados). Desculpa-se.
Agora esta luminária é um Senhor Professor Doutor.
Eu nem costumo ler os artigos do referido senhor, que geralmente não passam de uma série de banalidades irrelevantes. O que me chamou a atenção para o seu artigo mais recente foi o título: "Entropia e Terrorismo". Tratando-se da imprensa portuguesa, basta-me ler um título destes para pensar "vem aí asneira".
Ao ler o artigo, confirmei que não só as minhas suspeitas estavam certas, como o senhor ia muito mais longe. Com efeito, o autor desconhece por completo o conceito de entropia, nem faz ideia da aplicabilidade da segunda lei da termodinâmica, ignora o conceito de sistema isolado, e no entanto escreve todo um artigo baseado nestes conceitos. Por pessoas como este senhor escreverem nos "jornais de referência" pode também explicar-se a débil cultura científica nacional e o atraso do país.

(Nota bene: apesar de eu não conhecer muito bem o Pedro Lomba, das vezes que falei com ele fiquei com a impressão de ser um rapaz provocador mas despretensioso. Com certeza que ele não se importará que eu lhe devolva uma provocaçãozinha, nomeadamente esta do "assistente docente universitário").

Publicado por Filipe Moura às 12:53 AM | Comentários (9)

INSÓNIAS

Cá para mim, houve uma pessoa que perdeu o sono este domingo. O seu nome: Durão Barroso.

Publicado por José Mário Silva às 12:02 AM | Comentários (5)

março 15, 2004

NOTA BREVE SOBRE ESTES DIAS FRENÉTICOS (4)

Cruzei-me com eles e contive o sorriso irónico.
Vá lá, nada de provocações.
No seu canto, entristecidos, de monco caído (não sabem disfarçar), os direitistas pareceram-me francamente incomodados com o imprevisto sobressalto democrático em Espanha.
«Como é que isto foi possível?», ouvi um deles murmurar, abanando a cabeça. Nos seus olhos brilhavam sombras de apocalipse e perigos vermelhos, antigos, cintilantes.
«Não encontro explicações», respondia outro, de boca aberta, olhos presos no televisor. O rosto crispado. As mãos incrédulas. O corpo aturdido. Só desânimo e angústia.
Pois é, rapazes, eu se fosse a vocês ia-me habituando.

Publicado por José Mário Silva às 11:58 PM | Comentários (7)

NOTA BREVE SOBRE ESTES DIAS FRENÉTICOS (3)

Além de uma comovente lição de democracia, ontem os espanhóis deram-nos outra coisa (mais importante ainda): motivos para ter esperança.

Publicado por José Mário Silva às 11:55 PM | Comentários (1)

NOTA BREVE SOBRE ESTES DIAS FRENÉTICOS (2)

Hoje li nos jornais a expressão «virar à esquerda» e senti um arrepio de alegria. Caramba, que saudades!

Publicado por José Mário Silva às 11:53 PM | Comentários (2)

NOTA BREVE SOBRE ESTES DIAS FRENÉTICOS (1)

Como seria de esperar, o atentado de quinta-feira e as legislativas de domingo . dois factos maiores que estão a sacudir não só a Espanha como o mundo . provocaram uma verdadeira avalanche informativa. Nos jornais, nas TV's, na internet, há opiniões para todos os gostos, pânicos para todos os gostos, euforias para todos os gostos. E também muitos exageros, muitos disparates gratuitos, muitos erros de paralaxe.
Pela nossa parte . e apesar do BdE se ter transformado num Blogue de Espanha (ou quase) . temos consciência de que ainda falta pensar muito do que vimos e ouvimos nos últimos dias. É preciso deixar assentar as nuvens de poeira mediática e reflectir, serenamente, sobre o que mudou. Porque mudou muita coisa, disso não temos dúvidas. Resta saber como, até que ponto e porquê.

Publicado por José Mário Silva às 11:52 PM | Comentários (2)

PINÓQUIO (ANTES DE SAIR DA MONCLOA)


Cartoon de Plantu («Le Monde»), sugestão de Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico

Publicado por José Mário Silva às 11:35 PM | Comentários (0)

CANSAÇO

O meu comentário final, depois de um dia a vagabundear pelos comentários dos blogs e antes de sair desta e ir acabar de ler os sete loucos do arlt, que o zémário recomendou há umas semanas, é de desapontamento.
Seria natural que os direitistas portugueses estivessem chateados com a derrota, pelos vistos inesperada.
O que eu não esperava sinceramente era o primarismo com que o manifestaram.
Há até, parece-me, um rebaixamento do nível de argumentação de certos blogs, comparado com o de há uns meses atrás.
Os comentadores políticos dos jornais e da tv regrediram profundamente, como se agitados por ácidos marados (chega a ser patético, incomodativo, embaraçoso, ouvir o pacheco na sic).
Agora na defensiva, os direitistas não recuam perante nada, repetem incansavelmente os mesmos insultos, não lhes passa pela cabeça um argumento novo, uma reflexão positiva.
Pelo contrário, o único caminho que vislumbram é aquele traçado pela seita do Bush, quaisquer que sejam os factos.
Nem o impasse em que caíram no Iraque os alerta um pouco, os abala. Não, eles marram a direito sempre com a mesma cegueira, como junkies.
É desta obstinação, desta absoluta incapacidade de relativizar um pouco, que nascem nos momentos certos as guerras civis, a intolerância que descamba nas piores formas de violência.
É difícil estabelecer pontes com estes zombies.
Querem a .unidade. na luta contra o terrorismo, mas à imagem do argumento avançado, num artigo da Foreign Policy, por Max Booth, que ao defender-se das acusações de unilateralismo escreveu que os neoconservadores estão «empenhados acima de tudo na liderança global dos estados unidos e sabem que os custos dessa liderança (incluindo manter a paz e construir nações) são tão elevados que necessitam de aliados para partilhar a tarefa». Os nossos direitistas pretendem que estejamos todos .unidos. desde que sob o controle exclusivo do seu pensamento único.
Como no velho conceito de .frente., posto em prática por muitos partidos marxistas e estalinistas, frente sim, mas sob a .direcção. do .partido..
Uma receita para a tragédia.
Nos media dos EUA, tem-se assistido a um certo reequacionar, por parte de muitos dos apoiantes da guerra, do caminho que está a ser seguido.
Aqui, parece que estamos numa reunião de célula do MRPP.
Fogo sobre o quartel-general é o que eles conseguem repetir, e neste momento o quartel-general é para eles uma amálgama de esquerdistas, islamistas, a ETA, o drácula... Bah!

Publicado por tchernignobyl às 09:59 PM | Comentários (6)

AGORA, PARA DESANUVIAR, MAIS UM AUTOCOLANTE

Publicado por Luis Rainha às 02:16 PM | Comentários (12)

O RIDÍCULO CAUSA DANO.

É bem verdade. Nunca um título foi tão elucidativo sobre o possível conteúdo do seu texto. O Dr. Miguel Sousa Tavares não gosta da Ana Drago, do Dia Internacional da Mulher ou do mais recente livro de Cavaco Silva. Assim o escreveu no Público, no pleno exercício da sua liberdade de expressão, e nenhum desses assuntos me merece nenhum comentário. O mesmo não acontece com as suas opiniões, igualmente exercidas no âmbito da liberdade de expressão, sobre a adopção por parte de casais homossexuais. Diz o Dr. Miguel Sousa Tavares que «uma vez mais, é o direito das próprias crianças a uma infância saudável que passa para segundo plano, cedendo ao direito dos homossexuais, mulheres ou homens, de brincarem aos pais e mães». Ou seja, para o Dr. MST, os heterossexuais que adoptam crianças fazem-no levando a sério o seu futuro papel de progenitores, enquanto que os homossexuais que o pretendem fazer estão simplesmente a querer brincar. Parece-me plausível. Qualquer pessoa se sujeitaria a uma parafernália de burocracia e a uma mudança radical no seu quotidiano apenas por brincadeira. Quanto à infância saudável, o que é? É ter cuidados, atenção, carinho e todas as necessidades supridas, num ambiente familiar onde não haja violência física, psicológica ou de qualquer ordem, e onde o diálogo e a aprendizagem mútua marquem o dia a dia? Ou é simplesmente ter um homem e uma mulher como progenitores? Se é a segunda hipótese, estamos conversados. Trata-se apenas da mais básica mentalidade preconceituosa no que à natureza e às relações humanas diz respeito, baseada na bonita ideia da "família tradicional" (qual? E que tradição é essa?), e que tem sido responsável pela discriminação a que todas as pessoas que não encaixam no "modelo" se têm sujeitado ao longo dos tempos, obrigadas ao convívio regular com os estereótipos onde as gostam de encaixar (bichas, efeminados, camionistas, etc, etc, etc). Se é a primeira, qual é a relevância relativamente ao género e à orientação sexual dos futuros progenitores? (Sara Figueiredo Costa)

Conhece casais de gays e lésbicas, Dr. MST? Se conhecesse, ficaria pasmado com o facto de haver tanta variedade de relações, tal como acontece com os casais heterossexuais. E ficaria pasmado com o facto de, na maioria dos casos (que não são, obviamente, aqueles que passam na televisão para gáudio de preconceituosos amantes dos estereótipos), terem mais do que pensar para além da sua orientação sexual. Na casa, nas compras do supermercado, nos passeios, no dia a dia da relação que têm, no futuro e. nos filhos que gostariam de ter. Há assim tanta diferença entre orientações?
Ser heterossexual não dá garantias de nada. Como ser homossexual também não o dá. É assim tão difícil perceber uma coisa tão simples? Ou demorará ainda uns séculos valentes, como demorou (e para alguns ainda não se concluiu) o processo de acreditar que as mulheres, afinal, tinham alma, ao contrário do que defendia Santo Agostinho?
Quanto aos exemplos do reino animal, deixo a resposta (que creio merecida) aos cuidados de um especialista em biologia. Mas ainda assim, fica uma nota: é que me lembro, há uns anos, de uma tal comunidade de gaivotas lésbicas nas Berlengas. e quase que suspeito que as crias não se queixavam da "brincadeira"!

Publicado por José Mário Silva às 10:52 AM | Comentários (3)

AZ(N)ARITO...

Precisamente há um mês, proclamava o clarividente Durão Barroso que "o PSD e Portugal estarão ao lado de Mariano Rajoy e do próximo Governo de Espanha".
Azar: agora, para que este vaticínio se confirme, os nossos "laranjas" vão ter de estar em dois sítios ao mesmo tempo...

PS: parece que o nosso PM repetiu algumas vezes no seu discurso desse dia o slogan do PP "avançamos juntos". Que ao menos esta profecia se cumpra.

Publicado por Luis Rainha às 10:49 AM | Comentários (14)

ANÁLISE CONTORCIONISTA

Analisar os resultados das eleições é sempre um exercício que se presta a todas as contorções, e sendo assim aqui fica a minha.
De 2000 para 2004, o PP apenas perdeu cerca de 800 mil votos; ou seja, existe em Espanha, tal como em Portugal aliás, e isso é patente em inúmeros comentários e posts de blogues, um número significativo de pessoas que aturam um governo, independentemente de todas as manipulações e mentiras, desde que lhes proporcione um mínimo de sensação de "segurança".
O número de abstenções baixou cerca de oito pontos percentuais, e o PSOE ganhou cerca de três milhões de votos, um facto notável que ridiculariza a "tese" da vitória à custa do "voto útil", até porque a Izquierda Unida (que alguns querem fazer acreditar ser a grande derrotada destas eleições, vítima do "voto útil") teve agora praticamente o mesmo número de votos que nas eleições anteriores.
Aparentemente, o que se passou não foi um repúdio do PP pelos seus apoiantes habituais, mas a decisão tomada à última hora por parte de muita gente habitualmente "apolítica", para quem é em geral "indiferente" quem esteja no Governo, possivelmente escaldada com os escândalos em que se viu no passado envolvida a liderança socialista e oportunamente reavivados em vésperas de escrutínios eleitorais pelo eficaz serviço de informações dos conservadores, de ir votar revoltada com a forma como desta vez o governo abusou, ao tentar servir-se de um acontecimento trágico em seu proveito.
Ver nisto uma cedência ao terrorismo, como pretendem fazer alguns, é também ridículo sobretudo para quem viu as impressionantes manifestações da semana passada, que mostraram bem a firmeza dos espanhóis face ao terrorismo.
Quanto ao governo socialista, não vai ter uma vida fácil, entalado entre a gestão da situação criada pelo alinhamento de Aznar com o Bush no Iraque, por um lado, e a criação de expectativas que, defraudadas, se arriscam a provocar a fúria dos espanhóis.
Também para nós isto vai ter consequências. Como vai ser a convivência ibérica, com dois governos aparentemente com opções tão díspares em política externa?

Publicado por tchernignobyl às 10:08 AM | Comentários (15)

INGENUIDADES E RAPOSAS VELHAS

Há, entre algum do povo simples da direita, num espelho do que acontece entre o povo simples da esquerda, uma noção de que os "seus" políticos, aqueles representantes que julgam que pensam como eles, são incapazes de mentir deliberada e descaradamente, de os enganar, de segurar numa cruz de madeira presa a quatro fios e os tratar como fantoches de vontades secretas.
Foi esse sector que no momento em que o governo espanhol apontou o dedo à ETA, aceitou as palavras que saíam do gabinete de Aznar sem sequer parar para pensar cinco minutos pela sua própria cabeça. Em Espanha (e também um pouco pelo mundo inteiro de pessoas simples de direita), nos dias 11 e 12, era sem qualquer dúvida a ETA a responsável pelos atentados de Madrid. Pois se o governo tinha dito que o era! E o governo espanhol era composto por pessoas sérias e responsáveis, pessoas às direitas, pessoas que não os enganariam. Nunca. Mas enganaram-se. Foram enganadas fria e deliberadamente.
Alguns, as mais simples das pessoas simples de direita, entraram em negação. Que não podia ser, que ninguém enganou ninguém, que (contrariando as leis de causa-efeito e a seta do tempo) tinha sido o governo a dizer que não era a ETA. Mas, dentro dos mais inteligentes, algo se quebrou.
Sentiram-se traídos. Sentiram-se espezinhados nos seus sentimentos.
Descobriram que os "seus" são pelo menos tão sujos como sempre julgaram que os outros seriam. Perderam a ingenuidade.
E, em Espanha, votaram à esquerda ou em branco. Em massa.
(Jorge Candeias)

Claro, depois há os outros, as velhas raposas, os equivalentes morais de quem mentiu ao povo espanhol de cima de um monte de cadáveres. Esses, os Pachecos Pereiras de todas as terras, prolongaram a mentira e as análises deturpadas o mais que puderam, sabendo perfeitamente que mentiam e que retorciam as análises, com o único objectivo de minorar o estrago e de dar argumentos aos mais simples das pessoas simples de direita. "Afinal", pensaram eles, "mesmo que alguns se afastem, mentindo sobre isto
conseguiremos segurar ainda uns quantos, talvez muitos."
O drama é que têm razão. A mentira, a manipulação descarada, a aldrabice sem escrúpulos, continuam a dar dividendos. Os mais simples dos mais simples mantém-se fiéis apesar de todas as falsidades.
É de perder a esperança. Mas às vezes lá aparece uma vitória como que a dizer que não tem de ser sempre assim. Obrigado, Espanha!

Publicado por José Mário Silva às 10:06 AM | Comentários (0)

LES BÊTES DU JOUR (ESCOLHA ÓBVIA E INEVITÁVEL)

À esquerda (salvo seja), Mariano Rajoy. À direita, José María Aznar. Fora do governo, os dois.

Publicado por José Mário Silva às 10:02 AM | Comentários (4)

GANGRENADOS PELO DESPEITO

Não creio que esta vitória eleitoral possa ser recebida pelos espanhóis com demasiada alegria. No limite, fez-se um pouco de justiça no meio da tragédia.
Quanto aos portugueses que pensavam partilhar os louros de uma hipotética vitória do PP, fica-lhes bem o tom arrogante e despeitado, as desculpas parvas para "explicar" o que se passou.
Gosto de vê-los porque ficam mais cómicos, lembram aqueles bonecos com a cara de Napoleão que costumam existir nas barracas de tiro das feiras.

Publicado por tchernignobyl às 09:47 AM | Comentários (10)

O NOVO PARLAMENTO DE ESPANHA

É tão belo de ver, este retrocesso azul.

Publicado por José Mário Silva às 09:37 AM | Comentários (3)

março 14, 2004

DE REPENTE, COMEÇA A RESPIRAR-SE MELHOR NESTE CANTO DA EUROPA

Publicado por Luis Rainha às 10:22 PM | Comentários (14)

MAIS MAU TEMPO PARA OS REALISTAS

O timing prega por vezes partidas cruéis aos realistas aprendizes de feiticeiro.
Mais três mesitos e já a "máquina" tinha abafado todo este escândalo.
Assim foi provocar demasiado a população.
Mas não deixa de ser inquietante e triste que depois de tanta mentira seja a sofreguidão pela vitória absoluta a qualquer preço que abateu o poderio total do PP.
É triste que tenha sido uma tragédia tamanha e a forma pouco digna como o governo agiu que tenha provocado esta reacção.
Só se espera que o PSOE, a confirmar-se a vitória (com 80% dos votos contados), saiba ultrapassar a "adaptação" demasiado flexível ao poder, que em épocas passadas os levou para o desemprego durante tanto tempo e com tantos prejuízos.

Publicado por tchernignobyl às 09:18 PM | Comentários (4)

MADRID REVISITED

[...]
Chove sobre estas ruas desolada e espessa como esmiuçada chuva
a tua ausência líquida molhada e por gotículas multiplicada
0 céu entristeceu há uma solidão e uma cor cinzentas
nesta cidade há meses capital do sol núcleo da claridade
É outra esta cidade esta cidade é hoje a tua ausência
uma imensa ausência onde as casas divergiram em diversas ruas
agora tão diversas que uma tal diversidade faz
desta minha cidade outra cidade
[...]
Não é chuva afinal que cai só cai a tua ausência
chuva bem mais real e pluvial que se chovesse
Mais do que esta cidade é só certa cidade que jamais houvesse
numa medida tal que apenas lá profundamente eu fosse
e nela só a minha dor como uma pedra condensada
[...]

Ruy Belo

Publicado por Francisco Frazão às 08:33 PM | Comentários (1)

DESACORDO

Não concordo com os termos utilizados na manifestação de ontem para criticar o governo espanhol, ao culpabilizá-lo indirectamente pela sua participação na aventura do Iraque, "atraindo" a Al-Qaeda a Espanha.
Desiludam-se os que pensam que a condição para os deixarem tranquilos é fecharem os olhos ao fundamentalismo e agitarem cartazes da paz. É apenas uma questão de tempo e oportunidade até serem também atingidos. O costume neste tipo de situações. Somos todos infiéis para os fanáticos.
Os maiores males que o governo causou, e directamente, foi aos espanhóis, mentido-lhes sobre as razões da guerra, mentindo sobre as "provas".
Os maiores males que o governo causou foi directamente aos espanhóis, ao alinhar na visão doentia e corrupta dos neoconservadores sobre o poder americano global e na estratégia seguida pelo "Império" na "war on terror" após o 11 de setembro e minando a legalidade internacional.
Porém, se o combate ao fundamentalismo não pode ser feito esmagando países para colocar no poder títeres "democráticos" porque engravatados, apesar de corruptos, se não pode ser feito à revelia das instituições internacionais, devemos estar conscientes de que não é com ofertas de paz ou "diálogo" que estaremos protegidos.

Publicado por tchernignobyl às 08:18 PM | Comentários (6)

AS HORAS DIFÍCEIS DO REALISMO POLÍTICO

Admitamos que sim, que houve na manifestação de ontem algum cálculo político.
Admitamos, cheios de boa vontade e concedendo alguns pontinhos de avanço àqueles habitualmente tão cândidos acerca das manifestações "expontâneas", contra o Chávez por exemplo.
Admitamos que o pessoal tem de caucionar indefinidamente as mentiras descaradas dos nossos governos sem bulir, a não ser que arrebanhados por algum partido prestes a assumir a "alternância" e esgotado o longo calvário dos requisitos de "legitimidade jurídica", quando se trata de demonstrar o repúdio pelas acções dos nossos governantes.
Admitamos que a multidão que se juntou ontem à noite, à porta da sede do PP espanhol, era composta por alienígenas, gente que não tinha estado nas manifestações anteriores (fazendo parte integrante desse movimento de dor e repúdio pelo terrorismo), lacaios da ETA, funcionários clandestinos do PSOE arrebanhados metodicamente pela internet para irem desestabilizar de forma ilegal e em vésperas de eleições a unidade orgânica entre o partido do governo, o governo e o povo.
Pergunto:
Qual é o escândalo? Não iniciou o governo espanhol a cavalo do terror e do pânico uma operação deliberada de desinformação com propósitos estritamente eleitoralistas dando-se o cúmulo da ministra dos negócios estrangeiros "decretar" um culpado específico contra todas as evidências?
Pois parece que quem teve desta vez "azar" com o timing dos acontecimentos foi o governo espanhol e por culpa própria.
Onde estavam . e onde estão . os "realistas"?
Será que isto lhes vai servir de alguma emenda?
Não o creio, mas não custa sonhar.

Publicado por tchernignobyl às 07:58 PM | Comentários (10)

(INTERLÚDIO - SOBRE A EDUCAÇÃO SEXUAL)

Pedro, espero que a educação sexual não esteja no mesmo patamar do que a "física euclideana", isto é, que seja uma disciplina real e obrigatória. E espero que tenhas aprendido mais educação sexual do que "física euclideana". Com as opiniões que revelas no referido "kalkito", pareces-me é um discípulo de Mariana Cascais.

Publicado por Filipe Moura às 05:16 PM | Comentários (0)

OS DISCÍPULOS DO RELATIVISMO (2)

O saudoso (na blogosfera) Pedro Lomba é um discípulo involuntário do relativismo. Bem lhe tenta resistir, mas nem ele lhe fica imune.
Na "geração de 70" mais recente, no "kalkito" Sim, com condições, porém, fala na "física euclideana". Eu sou doutorado em física e não faço ideia do que seja tal coisa. O Euclides fez uns axiomas sobre geometria. Talvez o Pedro esteja a confundir física com geometria. São coisas bem diferentes. Mas está dado o primeiro passo para o vermos na Universidade de Coimbra, no Centro de Estudos Sociais.

Publicado por Filipe Moura às 05:13 PM | Comentários (6)

(INTERLÚDIO - SOBRE A ADOPÇÃO POR HOMOSSEXUAIS)

Sobre o artigo de Miguel Sousa Tavares (e a adopção de crianças por casais homossexuais) recomendo a leitura de opiniões mais especializadas. Gostei particularmente desta. Após defender uma explicação científica para a homossexualidade (que não comento por falta de conhecimentos), o Vasco exprime as mesmas dúvidas que eu tenho (e creio que têm a generalidade das pessoas sensatas).

Publicado por Filipe Moura às 05:11 PM | Comentários (15)

OS DISCÍPULOS DO RELATIVISMO (1)

Por "discípulos do relativismo" entendo articulistas que empreguem factos supostamente "científicos" a seu bel-prazer, mesmo desconhecento, a maior parte das vezes totalmente, esses factos.
O primeiro exemplo recente que apresento de "discípulos do relativismo" na imprensa portuguesa é Miguel Sousa Tavares. Eu não me vou debruçar sobre o seu mais recente artigo em si. Estou de acordo com vários aspectos (nomeadamente a crítica ao texto de Ana Drago) e sobre outros não tenho uma opinião bem definida. Mas o uso de argumentos "naturalistas" no sentido huxleyiano é por si demagógico e reaccionário. Toda a ideia de ciência, desde o seu começo, tem por base o conhecimento da natureza, e o progresso científico e tecnológico faz-se muitas vezes contra a natureza. É evidente que há limites para tudo (inerentes aos limites do homem), mas raciocinando como Miguel Sousa Tavares deveríamos todos voltar a ser uns "bons selvagens".

Publicado por Filipe Moura às 05:09 PM | Comentários (3)

LA BÊTE DU JOUR

La bête savante, entenda-se. O monstro do pensamento. Albert Einstein nasceu há precisamente 125 anos.

Publicado por José Mário Silva às 12:15 PM | Comentários (2)

PROBLEMAS DE PONTUAÇÃO

Na sua crónica de sexta-feira passada (no «Público»), Miguel Sousa Tavares afirma desdenhosamente que A Vírgula é Ana Drago. Vê-se mesmo que MST não lê, como devia, a blogosfera.

Publicado por José Mário Silva às 11:39 AM | Comentários (1)

março 13, 2004

O FUTURO

Get ready for the future, já cantava o Leonard Cohen.

Publicado por Filipe Moura às 11:31 PM | Comentários (2)

"NO ESTAMOS TODOS, FALTAN 200"

Publicado por Luis Rainha às 11:07 PM | Comentários (7)

BLACKOUT? (2)

Pacheco Pereira deve hoje ter recorrido aos ensinamentos da Revolução Cultural, para conseguir olhar para as imagens oriundas de Madrid e ver ali apenas o que lhe interessava ver: uma gente "tipo Bloco de Esquerda" que só tinha como objectivo culpar o governo espanhol pelos atentados de anteontem. O fulano da TV do Koweit parecia-me menos afastado da realidade.

Publicado por Luis Rainha às 10:54 PM | Comentários (4)

BLACKOUT?

Passei agora mesmo longos minutos a "zapar" por entre as centenas de canais que tenho disponíveis via parabólica. Garanto-vos que era mais fácil encontrar imagens da manifestação de Madrid na emissora do Koweit do que nos canais da estatal TVE.

Publicado por Luis Rainha às 10:47 PM | Comentários (5)

SANTANICES PLEONÁSTICAS

O ainda presidente da Câmara Municipal de Lisboa (e proto-candidato a Presidente da República) manifestou a intenção de instalar, no Parque de Monsanto, uma lucrativa «indústria de lazer», onde se poderão praticar diversos «desportos radicais».

Desconheço ainda, em detalhe, os pormenores do projecto. Mas há uma pergunta que me ocorre: tendo em conta o que se passa naquele arvoredo (de há muitos anos a esta parte), sou só eu que encontro no desígnio de Pedro Santana Lopes uma certa, digamos, redundância?

Publicado por José Mário Silva às 06:55 PM | Comentários (2)

ELEIÇÕES AMERICANAS - UM BLOGUE

Eis uma excelente ideia. Um jornalista do Público, Pedro Ribeiro, decidiu criar um blogue onde vai comentando, no registo habitual da blogosfera, as andanças e as muitas histórias da campanha para as eleições presidenciais americanas. Escusado será dizer que é de consulta obrigatória.

Publicado por José Mário Silva às 06:34 PM | Comentários (0)

ANTES A MORTE QUE TAL SORTE

Leio num jornal de hoje que há por aí uns seres humanos que se deixam classificar como "santanistas".
A seguir, vão dizer-me que também existe uma tribo de "patetistas": seguidores do amigo narigudo do rato Mickey. Andar sujeito a votos de obediência a bizarras personagens de ficção é mesmo fado incompreensível.
Haverá uso mais lamentável a dar a uma vida do que amarrá-la aos caprichos solipsistas do Santana Lopes? Talvez haja: ser prostituta em Bombaím. Ou ser o próprio pseudo-candidato a PR.

Publicado por Luis Rainha às 06:02 PM | Comentários (5)

POBRE LIVRO


Uma primeira edição de "Os Lusíadas" foi comprada em leilão por um dirigente futebolístico, de seu improvável nome Aprígio Santos. Este senhor, "camoniano por dedicação nacionalista" está convencido que comprou "um livro da raça". Tendo em vista que o mesmo objecto já fora descrito por um leiloeiro como sendo um "livro místico", até comecei a concordar com o que antes me parecera um disparate: Clara Ferreira Alves afirmou que o Estado devia comprar todos os exemplares ainda sobreviventes dessa primeira edição.
Pois. Sempre se salvavam de cair nestas mãos "nacionalistas", sempre ansiosas por se agarrarem a mais um bocado da tal "raça"...

Publicado por Luis Rainha às 03:28 AM | Comentários (2)

LA BÊTE DU JOUR

Porque nos terão impingido um directo do minuto de silêncio de ontem a partir do ministério da Defesa, com Paulo Portas a comandar os acontecimentos? Porque estaria ele sempre de olho e mão no relógio, como um árbitro nervoso a preparar-se para dar por findo um jogo?
Mas, acima de tudo e mais uma vez, porque tiveram, naquele momento, de dar tempo de antena a esta espécie de matraquilho com fatiota e pose de cangalheiro?

Publicado por Luis Rainha às 12:36 AM | Comentários (1)

março 12, 2004

E SE A REALIDADE NÃO LHES FAZ A VONTADE?

O PP espanhol e o seu governo apostaram tudo na tese da culpa da ETA. Porque é verosímil, porque a diabolização dos bascos é actividade normal para Aznar, porque há eleições ao virar da esquina. Agora, até já sabemos que os embaixadores de Madrid foram incitados por Ana Palacios a darem o seu melhor para "dissipar" todas as dúvidas relativas à autoria do massacre de ontem.
E se a culpa jaz mesmo sobre outros ombros, mais remotos?
Eu, por mim, ficarei aliviado. Não porque tenha a ETA em grande - ou pequena - estima. Mas simplesmente porque este novo rosto da desumanidade ficará dessa forma atribuído aos monstros que já conhecemos de outras atrocidades, que já sabemos capazes do pior.
Assim, ao menos, não teríamos de reconhecer que este Mal sem nome nem tamanho é capaz de contaminar tudo e todos, dispensando até a caução do fanatismo religioso. Não o teríamos um passo mais perto de nós.

Publicado por Luis Rainha às 09:51 PM | Comentários (5)

O MINUTO DE SILÊNCIO

Às seis da tarde, a redacção do jornal saiu à rua e fez um minuto de silêncio. Passeando na Av. da Liberdade, com o guia turístico de Lisboa debaixo do braço, um casal espanhol espantou-se com a pequena multidão e perguntou o que fazíamos ali. Uma jornalista explicou-lhes. A mulher começou a chorar. O homem olhou para os sapatos, tentando disfarçar a comoção.
Já em silêncio absoluto, olhando para as nuvens lá no alto, tecendo uma frágil arquitectura branca sobre Lisboa, lembrei-me do texto de Javier Marías sobre a tragédia, publicado hoje no El Pais e citado no blogue do Ivan Nunes. Recordei sobretudo este parágrafo:

«Cada vez que ETA asesina . y casi siempre lo hace de buena mañana, los terroristas madrugan, o quizá es que no duermen la noche previa ., existe la costumbre de que, hacia el mediodía, los responsables de los ayuntamientos de las ciudades salgan a la puerta de sus edificios, con calor, frío o lluvia, y guarden uno o dos minutos de silencio. A ellos se suman cuantos ciudadanos lo deseen, normalmente los que están cerca de allí. Es una cosa que impresiona mucho, ese silencio que es a la vez luto y repulsa, un silencio colectivo, de personas que interrumpen sus actividades o sus recorridos y se quedan quietas en mitad de la calle. Si alguien lanza un grito o una maldición contra los asesinos entonces, su voz suele ser acallada, porque en esos momentos la condena verdadera es no decir nada. Y, pese a la reiteración de esta costumbre a lo largo de demasiados años, el acto no ha perdido fuerza, ni se ha gastado, a diferencia de tantas otras reacciones que se han tornado huecas por culpa de las repeticiones.»
(O sublinhado é meu)

Publicado por José Mário Silva às 07:47 PM | Comentários (2)

NÚMERO DO TERROR

Publicado por José Mário Silva às 07:34 PM | Comentários (2)

ATOCHA

Tento imaginar o comboio cheio de estudantes e pessoas que se levantam cedo para trabalhar. Eu já andei, diariamente, em comboios assim. Lembro-me dos rostos, dos encontrões e pisadelas, do cheiro a suor, dos livros devorados entre duas estações, dos corpos ainda meio adormecidos, da respiração comum de quem inicia (por vezes já exausto) um novo dia. Tento imaginar um comboio assim chegando a Atocha, igual ao que me levava de Belém ao Cais do Sodré. Tento imaginar as explosões, o pânico, o negro vento da morte sobre os carris. Não consigo.

Publicado por José Mário Silva às 07:31 PM | Comentários (1)

AZNAR

Na conferência de imprensa desta manhã, o primeiro-ministro espanhol fez questão de apontar o dedo acusador quase em exclusivo à ETA, menorizando as pistas e os indícios que apontam para a "hipótese islâmica" (AlQaeda). A três dias das legislativas, tudo na pose e no discurso de Aznar . até o teatral pôr e tirar dos óculos . tresanda a calculismo político. E isso, a tentativa de ganhar dividendos eleitorais à custa dos 200 mortos de ontem, é simplesmente abjecto.

Publicado por José Mário Silva às 07:19 PM | Comentários (12)

AINDA MADRID

Os autores do atentado podem ter sido os filhos da puta assassinos da ETA ou os filhos da puta assassinos da AlQaeda. A repugnância é a mesma. Não há filhos da puta assassinos melhores ou menos maus.

Publicado por José Mário Silva às 04:44 PM | Comentários (4)

TARDE PIASTE

Não vou tecer mais considerações sobre o "horror".
Não tenho palavras. Não há palavras.

O que acho possível referir para já é como se processou a busca dos culpados.
Desde o primeiro instante, contra toda a lógica das aparências, a imprensa e o público encontraram um culpado.
Aquele que estupidamente mais se esforçou nos últimos anos para aparecer sob as luzes da ribalta nesta posição incómoda. A ETA, pois claro.
O porta-voz da "esquerda abertzale", tão ágil na manipulação das palavras noutras ocasiões (condenar, não condenar, isso agora é irrelevante, o que interessa é trabalhar para resolver os problemas...), atribuiu num primeiro instante, provavelmente ainda não consciente da dimensão do problema e recorrendo à habitual "langue de bois", a autoria a algo que designou como "a resistência islâmica" mas no fim do dia, já acossado, fez o impensável noutras ocasiões, no fundo semelhantes, e condenou veemente e inequivocamente os atentados.
Tarde piaste.
Tudo leva a crer que isto foi obra de gente da "galáxia al-qaeda", mas não nos precipitemos porque o leque de candidatos é vasto. Basta usarmos a memória e lembrarmo-nos de como há uns anos atrás certos atentados bombistas em Itália, curiosamente também em estações de comboio e curiosamente também logo atribuídos à "extrema-esquerda", se provou depois terem sido cometidos por militantes de extrema-direita com ligações insuspeitas ao mundo dos serviços secretos. E basta atentarmos como, no recente caso das escutas ao gabinete do secretário-geral da ONU, muitos dos habitualmente críticos das "teorias da conspiração" sentiram a necessidade de virem a correr tranquilizar-nos de que "toda a gente sabe que estas coisas são mesmo assim".
O que interessa referir, porém, é que a ETA (e a condescendência de que tem gozado por parte de muita gente à esquerda), mesmo que provavelmente "inocente" neste caso . o que de resto é quase irrelevante, pelo seu triste cadastro . se colocou no papel ideal de bode expiatório, o idiota a quem é "credível" atribuir, mesmo que de forma oportunista, a autoria do atentado perante grande parte da opinião pública.

Publicado por tchernignobyl às 01:23 PM | Comentários (22)

ÚLTIMO BALANÇO DO ATENTADO DE MADRID

- 198 mortos
- 1430 feridos
- A mesma infinita tristeza

Publicado por José Mário Silva às 01:19 PM | Comentários (0)

HOMENAJE A MADRID


Fomos buscar esta ilustração, em jeito de permuta, ao renas e veados (que a foi buscar ao El Pais)

Publicado por José Mário Silva às 10:41 AM | Comentários (3)

março 11, 2004

DEBATE NO BARREIRO

Tema: a blogosfera. Participantes: eu, o Vitor Vicente e o Rui Almeida. Quando: hoje, daqui a bocado (22 horas). Onde: bar da associação cultural Contraluz, situado na R. Futebol Clube Barreirense, 21. Convidados: toda a gente (especialmente bloggers e leitores/comentadores de blogues).
Vamos lá ver se conseguimos desanuviar um dia que nasceu tão negro.

Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (16)

OS SILÊNCIOS

Tudo o que pensei dizer sobre o terrível atentado em Madrid, hoje de manhã, já foi dito . e muitíssimo bem . pelo Luis Rainha, no post anterior. [Como ele sugere, também eu soube por telefone da angústia de uma familiar que está em Espanha.]
Nos próximos dias, como é óbvio, havemos de falar muito sobre esta explosão do horror, aqui tão perto. Mas, por agora, há uma espécie de silêncio que se impõe.
Vi as imagens televisivas sem som. Os feridos cambaleantes. Os mortos cobertos por lençóis. E as palavras ficaram todas presas na garganta.

PS: Que o servidor do weblog.com.pt tenha estado em baixo quase todo o dia é daquelas coincidências que parecem um sinal. Uma espécie de luto forçado, de silêncio involuntário, com que esta parte da blogosfera prestou homenagem às centenas de vítimas de um terrorismo abjecto.

Publicado por José Mário Silva às 07:14 PM | Comentários (2)

DE NOVO O HORROR, AGORA A CORES

(Talvez tenha sido bom ter estado impedido de aceder ao blogue durante tantas horas; acontecimentos há que exigem um longo silêncio como única reacção aceitável.)
"Estamos habituados a atentados com dezenas de mortos... Mas no Iraque, não aqui." De voz ainda incrédula, a jornalista da TV da Galiza anunciava assim a chegada das chuvas de sangue, dos cadáveres desfeitos a aguardar o recato dos cobertores dos bombeiros, dos feridos a vaguear de encontro a cordões policiais como fantasmas desorientados. Já nada disto se mantém a uma distância segura. Nada disto continua a ser apenas imaginável em países exóticos, tão distantes e "reais" como Saturno.
(Mal sabia ela que as "dezenas" que já lhe apresavam a dicção não bastariam para conter o horror desta manhã.)
Arnaldo Otegi, porta-voz do ilegalizado Batasuna, empurra a responsabilidade destes atentados para cima dos ombros de uma "resistência árabe" que teria actuado em retaliação pela presença militar espanhola no Iraque. Diz ele que "nem como hipótese" acredita que a ETA possa apontar as suas bombas a civis, sem aviso prévio.
(Mas também sabemos que a "interlocutora" da ETA, Belén González Peñalba, já avisara em 1984 que quando a ETA quisesse negociar, colocaria "cien muertos sobre la mesa". A esta hora, os corpos já não cabem sobre tal "mesa"...)
Confirme-se ou não a mais que verosímil suspeita que logo caiu sobre a ETA, tudo mudou hoje em Espanha. Mesmo para nós, portugueses, o horror já aconteceu too close for comfort: quantos de nós não terão telefonado para Madrid, em busca de boas notícias de amigos ou parentes? E quem não passeou já junto à estacão de Atocha, a caminho do vizinho Centro de Arte Reina Sofia?
(Hoje, as monstruosidades da "Guernica" de Picasso evadiram-se da tela, fugiram da parede asséptica do museu para as ruas de Madrid. Que diferença poderá alguém descortinar entre as bombas fascistas de 37 e as deste dia de sangue?)

Publicado por Luis Rainha às 05:54 PM | Comentários (21)

CAN.T LIVE WITH.EM, CAN.T LIVE WITHOUT.EM

Pois. Anda aqui uma alma a queixar-se do tempo que lhe toma isto dos blogues, a imaginar os feitos admiráveis que poderia ter alcançado se não fosse o montão de minutos gasto a ler e a escrever parvoíces algures na blogosfera. Depois, chega sem aviso a brutalidade de um blackout destes; ao fim de umas horas, lá anda a mesma alminha a roer as unhas pelos corredores e a carregar outra vez no massacrado botão do rato na esperança de encontrar o servidor já "de pé".
E deixei eu o tabaco há uns meses para agora dar comigo nesta dependência patética...

Publicado por Luis Rainha às 05:45 PM | Comentários (4)

PARADOXOS DA EVOLUÇÃO

Hoje, este fóssil demonstrou bastante mais vitalidade que o seu descendente.

Publicado por Luis Rainha às 05:42 PM | Comentários (2)

É A CIÊNCIA, ESTÚPIDO! (2)

Mesmo no jornal de que José Manuel Fernandes é director, basta sair da secção de ciência para se encontrarem pérolas como esta. Na sinopse do filme O Bom Rebelde, o Massachussets Institute of Technology, o famoso MIT, é apresentado como... "uma escola tecnológica do Massachussets"! O MIT é uma das principais universidades americanas e um dos mais prestigiados centros mundiais de investigação em todas as áreas do saber e não só em ciência e tecnologia (não é por acaso que o filme se passa lá). Mas o que o autor de tal sinopse sabe sobre o MIT (e sobre ciência, por arrastamento) não lhe permite distinguir esta instituição de uma qualquer escola secundária ou profissionalizante.
A questão da tão propalada "fuga dos cérebros" tem muito por onde se lhe pegar. Mas em Portugal há um problema mais grave do que em países como a França, a Holanda ou a Alemanha. Um cientista do MIT (por exemplo) sabe que o seu trabalho será reconhecido nesses países. Em Portugal, para começar, dificilmente será reconhecido nas Universidades, a menos que esteja relacionado com o trabalho que nelas se fizer (ou seja, será tanto mais reconhecido quanto menos inovador for). E depois... esse cientista verifica que o principal jornal de referência português desconhece a instituição onde tem trabalhado. Podendo trabalhar no MIT, valerá a pena vir para Portugal?

Publicado por Filipe Moura às 01:10 AM | Comentários (25)

É A CIÊNCIA, ESTÚPIDO! (1)

Há muito para dizer sobre o tema da ciência em Portugal, mas qualquer cidadão atento e minimamente informado (uma raridade, pelas razões que veremos a seguir) partilha das preocupações de José Manuel Fernandes sobre as fugas de cérebros portugueses para outras paragens onde têm mais oportunidades. O desinvestimento contínuo na ciência é apontado como a causa, mas eu julgo que tal desinvestimento é a consequência de algo mais profundo.
Ninguém em Portugal se preocupa seriamente com a ciência. E não me refiro somente à opinião pública em geral, mas (principalmente) a quem faz esta opinião pública: às elites letradas (mas não cientizadas), a quem escreve nos jornais.
Fazem-se abaixos-assinados para impedir o fim de um programa de divulgação cultural (que, ao que consta, consistia em dar a palavra a um grupo de amiguinhos, sempre em nome dessa entidade abstracta chamada "cultura"). Em contrapartida, ninguém se preocupa com a quase total ausência de um programa de divulgação científica visível na televisão portuguesa. Parece que existe uma coisa chamada "2010", escondida algures na programação da RTP2, mas eu nunca a vi referida nos jornais. Nunca vi nenhum crítico de televisão preocupar-se com ela.
Todos os jornais de referência têm diariamente uma secção de cultura, mas a divulgação científica (e as notícias do que se vai investigando e descobrindo, em Portugal e no mundo fora) é praticamente incipiente. Quando tal divulgação existe, é frequentemente apresentada de uma forma sensacionalista, quando não simplesmente errada.
A falta de preocupação científica dos portugueses reflecte-se no facto de toda a gente criticar um político (e bem) por não saber o número de cantos de Os Lusíadas ou por falar nos violinos de Chopin (eu não percebo nada de Chopin, mas eu não sou secretário de estado da Cultura; sou um engenheiro do Técnico). Mas ninguém criticaria um político que não soubesse fazer uma regra de três-simples, a tabuada ou o teorema de Pitágoras. E, repito, isto não é um problema do povo; é um problema das nossas elites. Sobre Descartes, mais facilmente conhecem o Discurso do Método do que o seu decisivo trabalho na geometria. Sem a geometria analítica cartesiana, não teria havido qualquer evolução na Física, e viveríamos como no século XVI. O mesmo poderia dizer-se de Platão, de Galileu...

Publicado por Filipe Moura às 01:06 AM | Comentários (12)

março 10, 2004

LE JOUR DE LA BÊTE

Quem nunca teve um daqueles dias tão recheados de más notícias, correrias, desgraças de formatos e cores variáveis, que parece mesmo pesar-nos demais no peito, emitindo ao entardecer pequenos presságios de dor à laia de aviso de colapso iminente?
E que me dizem de um dia de tal forma repassado de miséria que desejamos que essa dorzinha seja mesmo o prefácio de um qualquer desastre cardíaco? Um dia tão feio que nem as boas-vindas abanadas pela cauda estupidamente feliz do nosso cão o conseguem compor?

Suponho que sejam dias destes que fazem florir gestos suicidas, agressões absurdas, crimes que depois os jornais classificam como incompreensíveis.
Invejo os poetas. Eles podem evitar estas lamúrias sem estilo nem graça; conseguem até usar o negrume de dias assim como se tinta fosse:

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar.

Irra.

Publicado por Luis Rainha às 09:37 PM | Comentários (3)

FRASE QUE ANDAVA PERDIDA NO FUNDO DE UM BOLSO

Os pés de barro são o terror do idólatra.

PS: Este aforismo não se aplica, claro está, ao senhor Mel Gibson.

Publicado por José Mário Silva às 01:51 PM | Comentários (1)

«A ÚLTIMA EXPLORAÇÃO DE CRISTO» (ESTREIA AMANHÃ)

Publicado por José Mário Silva às 01:47 PM | Comentários (11)

PSEUDOFEMINISMOS E TIROS AO LADO

Pelas reacções que tive, foram mal interpretados os meus textos sobre o Dia da Mulher (espero ao menos que a receita seja bem interpretada e melhor confeccionada; é muito boa).
Vamos lá a ver um exemplo. Tomemos um dos arautos do feminismo em Portugal. Uma senhora jornalista que passou anos a queixar-se da falta de participação das mulheres e da sua ausência de cargos importantes. Sempre que podia, a senhora exigia quotas para a presença de mulheres no Parlamento (uma ideia com a qual à partida até nem discordo, mas não acho que seja o melhor caminho). A senhora em questão foi finalmente eleita deputada. E o que fez ela com o mandato? Onde está ela agora?
Num cargo para o qual nem reúne as qualificações necessárias! Era para isto que ela era feminista? (Sinceramente eu até simpatizava com a senhora, apesar de jamais votar nela, e fiquei muito decepcionado com a sua conduta.)
Eu apoio a causa feminista (e muitas outras causas) desde que não se transformem em corporativismos. Para começar, acho que não tem mesmo nada de feminista alguém orgulhar-se de não cozinhar! Com estas feministas Marie Claire, o feminismo está tramado! Tal como, como se farta de dizer este tripeiro refilão, certos homossexuais são os maiores inimigos das lutas pelos seus direitos. E, digo eu, certos esquerdistas são os maiores adversários da esquerda.
Era a feministas destas que me referia neste texto. A primeira vez que o escrevi fui bastante explícito, como estou a ser agora. Depois decidi não ser tão explícito, e porventura não saíu claro. Nada como pôr os pontos nos ii. Como diria o Daniel, atirei ao lado. Estou agora aqui a corrigir a pontaria. Mas, com a breca, nem toda a gente pode ser o Costinha.

Publicado por Filipe Moura às 01:31 AM | Comentários (18)

LITTLE SHORE

Não será nenhum santo, mas conseguiu calar esta noite um estádio cheio de red devils. Costinha foi a bête noire do Manchester United e . mais uma vez . o filho pródigo de Mourinho.

Publicado por José Mário Silva às 12:36 AM | Comentários (3)

março 09, 2004

OBRAS EM CASA

No outro dia, enquanto tomava o duche matinal, caiu-me o tecto na cabeça. Literalmente. Estuque, caliça, pó branco no ar, a casa de banho num caos, Sarajevo na Rua Carlos Mardel. Hoje vieram arranjar as coisas: escadote, berbequins, mais pó branco no ar, um novo tecto falso. E eu lembrei-me de um poema da Fiama Hasse Pais Brandão, incluído no livro «Fábulas», publicado pela Quasi em 2002. Fora o título, ligeiramente ao lado, tudo o resto bate certo.


OBRAS NA VIZINHANÇA

Os pedreiros enchem o silêncio
de pancadas. Batem nas pedras
como se elas fossem fragmentos de silêncio.
Mas só quando os martelos batem
sinto que o silêncio me pertence.

Publicado por José Mário Silva às 07:51 PM | Comentários (19)

JÁ PODIAM TER PERGUNTADO!

Ao que parece, os bispos portugueses juntaram-se para pedir aos políticos que decretem quando é que se dá "o início da vida".
A resposta não me parece complicada: como se vê pelo boneco acima, é bem antes da fecundação.
E agora? Lá vão ter de lançar associações para zelar pelos interesses destas cabeçudas criaturas! (Pensando bem, seria apenas um regresso aos hábitos do tempo do pobre Onan...)

Publicado por Luis Rainha às 06:41 PM | Comentários (9)

O LADO NEGRO DO DIA DA MULHER

Estes dias comemorativos ou solidários também servem para que informação normalmente obscura suba à claridade dos cabeçalhos. Só que, por vezes, eu preferiria permanecer na minha abençoada ignorância.
Leio agora no "Público" que, desde 1987, a percentagem de mulheres nas redacções dos jornais portugueses cresceu 100%, atingindo agora uns portentosos 39,1%.
Isto pode alegrar muita gente. A mim, que até andei a ler jornais nesse interim e tenho uma ideia da sua qualidade presente, parece notícia bem ominosa para o nosso gineceu.

Publicado por Luis Rainha às 02:55 PM | Comentários (6)

CONTRIBUTOS PARA UMA BIBLIOFILIA ORGANOLÉPTICA: A LITERATURA TRANSPARENTE

Não; não cedi este espacito ao Prof. Amaral Dias. Venho falar de transparência mas no sentido estritamente físico da palavra.
Passa-se que estive ontem a folhear o já famoso "Atiçador de Wittgenstein". Ainda antes de conseguir ler um só parágrafo, reparei num facto assustador: de tão transparente, o livro parece impresso em papel vegetal. De uma só vez, lêem-se três ou quatro páginas consecutivas, numa cacofonia visual perfeitamente atroz.
A seguir, peguei no último romance de Manuel Alegre - só por curiosidade, juro! - e confirmei logo o que já desconfiava: estamos face a uma epidemia nas edições nacionais.

Depois de pensar um pouco no assunto, decidi ser optimista. Decidi que os editores portugueses não serão por certo gananciosos ao ponto de emular os taberneiros que elevaram a uma arte a técnica de cortar fatias de fiambre com espessuras de mícrons. Recuso-me a acreditar que isto seja reflexo de mera cupidez ou da chico-espertice de quem está convencido que uma capa chamativa basta para atrair o papalvo letrado.
Estou antes em crer que se trata de uma inovadora técnica literária.
O Eco já há muito decretou que "um romance é uma máquina de gerar interpretações". Agora, surge o passo seguinte: temos livros que são máquinas de gerar leituras!
Como funciona a coisa?

Simples: a transparência autoriza vislumbres do que nos aguarda nas páginas seguintes. É assim possível compaginar vários momentos de uma narrativa numa só superfície, convocando ante o leitor maravilhado um audaz corte epistemológico: o que num livro comum era sincronia, surge agora revestido de virtualidades diacrónicas! (Esta foi mesmo uma singela homenagem ao Prof. Amaral Dias...)
Com esta subtileza gráfica, até o mais simplório enredo se multiplica em cascatas de variantes polissémicas: uma personagem ainda jovem pode coexistir com um seu duplo caquéctico; os detectives têm ao lado a solução dos enigmas mais teimosos; o apaixonado vê logo em que cama é que a sua amada irá cair, etc, etc.
As possibilidades da técnica são infindas. Imagine-se, à laia de exemplo, uma antologia de contos fantásticos, onde um marciano pode ter o fantasma de Maria Stuart a assombrar-lhe as páginas. Ou a colectânea policial onde o Estripador de Whitechapel é perseguido pelo inspector Maigret!
Genial.

Agora a sério: esta maneira de ganhar uns cobres suplementares não me parece hábito de gente honesta. Ainda por cima, tendo em vista que os paperbacks ingleses e americanos, mesmo de edições meio manhosas, têm páginas bastante mais opacas que as finas edições literárias cá do burgo. (Dizem-me que o papel nacional, mesmo tendo menor gramagem, até pode ser mais caro que o dos paperbacks, por este conter mais fibras e menos branqueadores ópticos.)
Ou será que o respeito pelo leitor é ideia que já não cabe nas páginas dos modernos tratados de marketing editorial?

Publicado por Luis Rainha às 12:17 PM | Comentários (2)

LA BÊTE DU JOUR

Na apresentação do segundo volume da sua «Autobiografia Política», Cavaco Silva não se descoseu. Candidatura a Belém? . perguntaram logo, ávidos, os jornalistas. E o professor, no jeito habitual, mudou de assunto, fez festinhas ao neto, desconversou.
Ou seja: nem sim, nem não, nem talvez. Mudam-se os tempos, não muda o tabu. E Santana, lá longe, ri-se.

Publicado por José Mário Silva às 12:05 PM | Comentários (5)

UM CONTRIBUTO PARA A (SUA) ALEGRIA NO TRABALHO.

Ao entrar hoje no meu estaminé, dei com um ajuntamento em redor de um computador. A galhofa era mais que muita. E qual a razão de tão inusitada alegria neste sombrio templo do trabalho escravo? Os Nanopops!
Trata-se de um ficheiro de Excel com um divertido quizz. (Sim, o sisudo e profissional Excel também pode servir para combater o stresse laboral.) Se ainda não conhece, descarregue a coisa e ponha à prova os seus conhecimentos de música Pop...

Publicado por Luis Rainha às 11:40 AM | Comentários (19)

PLAY IT LIKE JIMI (HENDRIX)

A Fender Stratocaster, guitarra de Hendrix e de mais uns quantos mestres, fez 50 anos. Quem me dera ter unhas para lhe arrancar, como Jimi, os vários solos de «All Along The Watchtower».

Publicado por José Mário Silva às 11:12 AM | Comentários (4)

março 08, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

Não é por ser 8 de Março. Não é por ser Dia Internacional da Mulher. É porque hoje me apeteceu partilhar um dos poemas . tão intensamente femininos . de Maria do Rosário Pedreira. Este pode ser encontrado na página 16 do seu último e recentíssimo livro («Nenhum Nome Depois», Gótica), o digno sucessor de «A Casa e o Cheiro dos Livros» (1996) e de «O Canto do Vento nos Ciprestes» (2001).


Toca-me onde me dói e verás
uma flor a abrir-se lentamente
sobre a pele, a maravilha nunca
adivinhada de um mistério. Esta

é a tua vez de o desvendares .
paixão é uma palavra demasiado
antiga no meu corpo, já não sei a
última vez, a única vez. Toca-me

por isso devagar, não me lembro
da primavera que fez nascer a
doença sobre a ferida, não sinto
o recorte da cicatriz que o tempo

pousou nela. Agora chama-me ao
teu peito com as mãos, tal como a
chuva chama pelos narcisos sem

cessar, ano após ano; diz o meu
nome com os dedos a serem rios
que latejam no coração adormecido

de uma aldeia. Não me adivinhes .
lá, onde me doer, vou recordar-me.

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (2)

ENQUANTO O MURO CRESCE

Ontem, forças do exército israelita mataram 14 palestinianos, num raide a dois campos de refugiados da Faixa de Gaza . Bureij e Nusseirat. Além de nove activistas do Hamas (potenciais homens-bomba) morreram três rapazes com menos de 16 anos (potenciais homens, só). «O exército afirmou que o propósito dos raides era apreender armas, mas nenhuma arma foi levada, nem qualquer detenção feita».

Publicado por José Mário Silva às 11:46 PM | Comentários (1)

POR QUE EU NÃO SOU FEMINISTA (OU TENHO CUIDADO COM OS FEMINISTAS)

Bem, não simpatizo com feministas cujo conceito de emancipação é terem uma mulher a dias.

Publicado por Filipe Moura às 11:32 PM | Comentários (9)

POR QUE EU SOU FEMINISTA

Porque sim. Obviamente.

Publicado por Filipe Moura às 11:30 PM | Comentários (4)

SUGESTÃO PARA OS FEMINISTAS

Eu já comprei todos os ingredientes desta receita (numa grande superfície, claro...) e vou deitar mãos à obra. Como deito todos os dias (hoje o jantar foram filetes de pescada no forno, arroz branco e brócolos). Na Glória Fácil já vimos que o João Pedro e o Nuno também vão à cozinha sem ser para provar a comida a ser feita (da Maria José é que ainda não vimos nada...). Sempre gostaria de saber se entre todos os feministas que há por aí a pedir dias de todos os seres desprotegidos (para quando um dia do sportinguista contra o sistema? e um dia do bolseiro doutorado com futuro precário?), há algum que saiba, ao menos, estrelar um ovo. Ou se chegam a casa e querem a comidinha feita... pelas mulheres (cônjuges ou a dias). Cozinhar o jantar, eis a minha sugestão para os feministas. A maior parte das mulheres agradece.

Publicado por Filipe Moura às 11:10 PM | Comentários (4)

NO DIA DA MULHER

Já dizia o Manelinho, da Mafalda, que para o Dia da Mãe não havia melhor do que panos, vassouras, esfregões... Ora, para celebrar o Dia da Mulher, creio eu, nada melhor do que uma boa receita.

CHOCOS À ALENTEJANO (deveria ser à alentejana mas é dia da Mulher)
Ingredientes:
- 1 kg de chocos grandes
- 1 copo de azeite
- 4/5 dentes de alho
- 1 folha de louro
- 1/2 copo de vinho branco
- pimenta q.b
- orégãos e coentros

Lavam-se bem os chocos, tiram-se-lhes os olhos e cortam-se em cubos. Juntam-se todos os ingredientes e deixa-se ficar umas horas. Levam-se ao lume com a marinada e deixam-se ferver, sempre tapados. Vai-se mexendo de vez em quando. Se necessário, junta-se um pouco de água. Depois de cozidos, destapam-se, para apurarem, e cobre-se com mais coentros frescos picados. Serve-se com arroz branco.

Quem já provou da minha comida sabe que, comigo, salgado só o bacalhau. No entanto, se quiserem adicionar sal aos chocos, devem fazê-lo no fim, só depois de cozidos, pois senão ficam muito rijos. Bom apetite.

Publicado por Filipe Moura às 11:05 PM | Comentários (6)

MULHERES QUE EU ADORO (4)

Desculpem o umbiguismo, mas esta lista tinha mesmo de incluir a minha Maria.

Publicado por Luis Rainha às 06:48 PM | Comentários (13)

BÊTE DU JOUR

A entidade obtusa vulgarmente conhecida como "opinião pública" está hoje de desparabéns. Ao que se lê no Público, 58% do povo inquirido é contra a "adopção de crianças por casais homossexuais". Esta abalizada maioria junta assim a sua voz aos brados de Luís Villas-Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção, que já nos garantiu "que mais vale uma criança passar toda a vida numa instituição" à "infelicidade de ser educado por homossexuais". (Talvez ele tivesse a Casa Pia em vista, não sei bem...)

Eu até nem estou 100% certo da opinião oposta. (Apesar do muito que já li nesse sentido e de até conhecer um casal em que ambos - ! - foram educados por progenitores gays, sem terem dado em psicóticos raivosos...) Mas, e aqui está o busílis, se a sondagem me tocasse ao telefone eu diria algo como: "não sei. E, se quer que lhe diga, até acho que isso não é da minha conta."
Quem for mesmo contra, não entregue filhos para adopção, ou não adopte, se for homossexual. Mas deixem os outros em paz. E deixem adoptar quem quer e tem condições para tal. Mesmo que isto implique tirar as crianças das "instituições" tão caras ao outro fulano. Isto enquanto continuarmos longe de ter alguma firme indicação científica de que estas adopções colocam as crianças em risco.

Só que, neste terra, todos têm opiniões. Todos "acham" montes de coisas, a propósito de tudo. A ignorância vê-se assim elevada a ponto de vista dominante, pelo menos quando se trata de colocar baias em redor de vidas alheias.
Para terminar numa nota condizente com o dia de hoje, a tal Dona Opinião Pública também "acha" que o lugar de uma mãe é em casa: "a sondagem chega à conclusão que 64 por cento dos inquiridos são favoráveis a uma alteração da relação da mulher com a actividade profissional, a partir do momento em que tem filhos."
Andam por aí umas senhoras a dizer que não precisam de Dias Internacionais. Mas, ao que parece, este ainda faz falta a 64% das cabecinhas nacionais.

Publicado por Luis Rainha às 06:21 PM | Comentários (5)

MULHERES QUE EU ADORO (3)

The leaves, like women, interchange
Sagacious confidence;
Somewhat of nods, and somewhat of
Portentous inference,

The parties in both cases
Enjoining secrecy,.
Inviolable compact
To notoriety.

Emily Dickinson.

Publicado por Luis Rainha às 05:55 PM | Comentários (7)

MULHERES QUE EU ADORO (2)

Publicado por Luis Rainha às 05:34 PM | Comentários (11)

MULHERES QUE EU ADORO (1)

Jenny Holzer.

Publicado por Luis Rainha às 12:57 PM | Comentários (1)

SOMOS TOD@S MARCIAN@S

Publicado por José Mário Silva às 11:37 AM | Comentários (1)

TODAS (E TODOS) AO CAMÕES

Logo à tarde, pelas 18 horas, o Movimento pelo (Novo) Referendo à lei do Aborto organiza uma concentração no Largo Camões. O pretexto é o Dia Internacional da Mulher, claro. E a ideia é mostrar mais uma vez que há causas (femininas mas não só) pelas quais vale a pena lutar, ainda e sempre.

Publicado por José Mário Silva às 11:18 AM | Comentários (1)

QUE TENHAM TODAS UM GRANDE DIA!

Publicado por Luis Rainha às 11:07 AM | Comentários (6)

março 07, 2004

HOWARD DEAN - A VERDADE

O candidato Howard Dean, depois de ter perdido a eleição primária no Iowa, ao dirigir-se aos seus apoiantes terá gritado supostamente de uma forma histérica. O som do microfone onde Dean teria gritado correu mundo, via rádio, televisão e internet. Dean foi então apontado como um candidato instável e pouco sóbrio, a juntar à imagem de radical que já tinha.
Só que a verdadeira história não é bem esta. Basta ir ao google e colocar as palavras dean microphone e descobre-se logo a história toda. Na verdade, o microfone que Dean usara tinha uma tecnologia avançada que recolhia somente o som emitido pelo candidato, eliminando qualquer ruído de fundo. Embora não parecessem assim quando eram ouvidos, os "gritos" de Dean eram na verdade bem tímidos, e foram proferidos numa altura em que a sala cheia dos seus apoiantes o ovacionava em peso. Quem estava na sala nem terá ouvido Dean gritar. Mas o som captado pelo microfone, ao ser emitido fora deste contexto, dava uma impressão totalmente errada ao ouvinte. Emitir esse som só se justificaria por lapso ou por má fé. As cinco principais estações de televisão americanas reconheceram que foi por lapso e pediram desculpas ao candidato. Só que a primeira impressão conta muito, o mal já estava feito e a emissão já tinha ido para o ar. Assim se destruiu a candidatura do único político que poderia trazer alguma coisa nova à política americana, para além de ser o único dos principais candidatos que se opusera, incondicionalmente, desde o início, à guerra com o Iraque.
Em Portugal, não li esta história em nenhum jornal e nem em nenhum blogue. A versão do "Dean histérico" ainda prevalece. Colunistas de jornais de referência como Eduardo Cintra Torres ainda a semana passada faltavam à verdade, relatando o episódio da seguinte maneira: "Dois ou três minutos do discurso de Howard Dean após as eleições primárias no Estado do Iowa deitaram por terra o seu esforço de anos para ganhar a nomeação dos democratas às eleições presidenciais. No discurso, o homem mostrou um verdadeiro "self": irascível, insuportável, sanguíneo. Bastaram minutinhos reais para os americanos ficcionarem o que seria se ele ocupasse a Casa Branca. Foi a televisão que lhes mostrou isso."
A mim não me preocupa nada que a comunicação social mostre. A mim preocupa-me é o que ela não mostra.

Publicado por Filipe Moura às 10:41 PM | Comentários (10)

BÊTE DU JOUR

E não se pode exterminá-lo, furar-lhe os pneus, impedi-lo de correr? É que a Fórmula 1 já foi um desporto. Agora, por causa dele, tornou-se uma coutada para a Ferrari e um entediante suplício para os adeptos.

Publicado por José Mário Silva às 09:57 PM | Comentários (18)

MAIS UMA PEQUENA HISTÓRIA QUASE INTERACTIVA (3)

Pronto. Terceira e última prestação da coisa. O submundo. Ficam assim acessíveis estes 3 episódios das noites de Lisboa.

Publicado por Luis Rainha às 06:48 PM | Comentários (0)

O IMPÉRIO CONTRA-ATACA

Há quase um ano, escrevia eu uma das minhas primeiras colaborações itálicas na encarnação inicial do BdE, a propósito do cartoonista Ted Rall:
"O homem tem um sentido de humor brilhante e um traço... estranho, para se ser caridoso. Mais uma vez, dedica-se a um dos seus passatempos preferidos, que é insultar a personagem que ele baptizou como 'Generalissimo el Busho' . também conhecida como 'George W. Bush' . ridicularizando também o sacrossanto esforço dos heróis yankees na libertação do Iraque. Isto, dada a erosão do espaço reservado à crítica e ao pensamento independente nos EUA, já é por si só interessante. Que, contra ventos e marés, o NYT continue a dar espaço a um fulano que não teve pejo em escrever, preto no branco, 'Our President is a twit', é admirável. E contraria algumas das ideias reinantes na esquerda europeia sobre o conformismo dos media americanos. Até aqui tudo bem; nem tudo está perdido por lá... "

Está tudo perdido, está. Já tinha reparado que o meu "bookmark" directo para a tira de Rall deixara de funcionar no início deste mês. Soube hoje que o NY Times achou por bem terminar a colaboração com Mr. Rall, porque "some of his humor was not in keeping with the tone we try to set for NYTimes.com".

Vá. Chamem-me "totó" e flagelem-me publicamente por ingenuidade incurável. Eu mereço.

Publicado por Luis Rainha às 03:48 PM | Comentários (2)

MAIS UMA PEQUENA HISTÓRIA QUASE INTERACTIVA (2)

A segunda camada desta historieta anda por aqui; sempre com bonecos do Jorge Mateus.

Publicado por Luis Rainha às 01:00 AM | Comentários (1)

março 06, 2004

SE BLOGAR COM UMA CRIANÇA AO COLO, AO MENOS NÃO BEBA!

Publicado por Luis Rainha às 10:44 PM | Comentários (4)

O DESCONHECIDO

No «Independente», o lado folclórico do processo Casa Pia voltou a aparecer em todo o seu esplendor. Ao que consta, os juizes do Ministério Público decidiram autorizar que as fotografias de 128 figuras públicas fossem apresentadas aos jovens vítimas de pedofilia, com o intuito de descortinar, em tão heterogénea multidão VIP, presumíveis culpados. Há algo de profundamente grotesco nesta espécie de «Who's Who», em que intelectuais, políticos e jornalistas (mas também altas figuras da Igreja e até um ex-presidente da República) ficam alinhados numa página de jornal, como delinquentes contumazes de encontro à parede dos suspeitos do costume. Não mais grotesco, porém, do que outras piruetas processuais deste labirinto judicial.
O que me fez espécie, na burlesca lista publicada pelo «Independente», foi outra coisa. Foi aquele «desconhecido» que aparece no meio das celebridades. Quem será tão misteriosa figura? Nunca terá sido entrevistado pela Manuela Moura Guedes? Nunca assinou uma coluna de opinião? Nunca foi a um dos milhentos «talk-shows» da nossa praça? Não tem fotografia, sorriso, imagem pública? Estranho, muito estranho. Ser desconhecido, hoje em dia, é quase como não existir.
Dito de outro modo: ao permanecer incógnito no meio de tanta cara famosa, o «desconhecido» é uma espécie de enigma perverso. É um buraco negro. Atrai por isso, inevitavelmente, toda a especulação, toda a suspeita e talvez mesmo (desejo secreto de muita gente) toda a culpa.

Publicado por José Mário Silva às 10:01 PM | Comentários (1)

ASSIM SE VÊ...

Primeira decepção, e bem funda: o Jerónimo de Sousa não faz parte do elenco da festa. Sem esta atracção, lá fico condenado à hora mais aborrecida que já passei na Aula Magna desde o concerto do Hector Zazou.
Repare-se que eu nunca tive uma relação muito militante com o PCP; limitei-me a passar uns dias de juventude em redor das camaradas da UEC, a colar umas dúzias de cartazes, e pouco mais. Por isso, tenho de me esforçar para respeitar o sentimentalismo com que muitos amigos meus vêem estes tristes dias de declínio sem honra nem glória. Mas aquele mar de cabelos grisalhos e o ânimo esforçado com que as velhas palavras de ordem saem das gargantas tão cansadas... o ambiente não deixa de me enternecer um pouco, malgré tout.
Politicamente, é a treta do costume. Relevante, pareceu-me o facto de o PSD e o PP terem direito a ser mencionados, com nome e tudo. Já o Bloco de Esquerda se vê remetido ao anonimato do eufemismo "uma formação política", a propósito de ter ousado meter a foice na seara alheia do aborto. Esta malta não aprende.
No fim, canta-se "a Internacional" e o "Avante". Será aquilo que ainda ouço à saída o som de palmas, ou é o restolhar de centenas de carapaças de trilobites, indiferentes ao beco-sem-saída evolutivo onde se deixaram enfiar?

Publicado por Luis Rainha às 09:51 PM | Comentários (4)

LA BÊTE DU JOUR

A formiga de langton está de volta. Ainda bem. Fez-nos muita falta.

Publicado por José Mário Silva às 09:33 PM | Comentários (2)

CONFISSÃO DE UM POBRE VELHO

Confesso que me deixei convencer pela namorada a ir ao comício do 83º aniversário do PCP. Se não estiver de volta, com uma reportagem, até às 22H, mandem a GNR à minha procura pelos gulags dessas Sibérias afora.

Publicado por Luis Rainha às 02:51 PM | Comentários (5)

RESTAURANTES E RESTAURANTS

Por vontade do Olindo (que é meu colega agora e foi meu colega no doutoramento), aventurámo-nos ontem à noite, pela primeira vez desde que estou em França, num restaurante "português". O resultado? Ficámos com saudades do Olé.

Publicado por Filipe Moura às 02:50 PM | Comentários (3)

A MARCA DO CAVALINHO

Ainda vou decidir se aceito o convite do meu amigo Olindo e assisto em directo ao primeiro Grande Prémio da temporada, aqui, na Cidade Universitária, na Casa da Itália.
O meu amigo Olindo é da povoação fronteira a Maranello, onde fica o quartel general da scuderia. No coração da Emilia-Romana, a região mais comunista da Itália (e quiçá da Europa). Maranello é uma vilazinha industrial habitada por operários, muitos deles trabalhadores da Ferrari. Muitos deles partigiani, como o pai do Olindo, um canalizador que sempre viveu toda a sua vida como um verdadeiro comunista, recusando-se sempre a trabalhar, como privado, por fora da cooperativa a que pertencia (e a ganhar muito mais dinheiro).
Quando era miúdo, o Olindo levantava-se cedo para ir ajudar o pai a distribuir o L'Unitá, de bicicleta. Uma vez feito o trabalho, do que o Olindo mais gostava era parar junto do circuito de treinos privativo da Ferrari e ficar a olhar os seus ídolos a testarem e melhorarem o carro. Como ele, muitos outros trabalhadores e os seus filhos vibram com cada vitória da scuderia, sempre celebrada com o toque do sino da Igreja matriz local, num contraste tão tipicamente italiano.
No ano passado tive ocasião, eu próprio, de visitar os pais do Olindo e conhecer Maranello. Visitámos o museu da Ferrari e revimos todas as glórias, passadas e presentes. O preço (não muito barato) dos nossos bilhetes foi a nossa modesta contribuição para o salário de Schumi.
A Ferrari tem razões que a própria razão desconhece.

Publicado por Filipe Moura às 02:49 PM | Comentários (4)

ESTARÁ EDWIN MAIS PERTO DE VINCENT OU DE JACKSON?



Publicado por Luis Rainha às 12:40 AM | Comentários (6)

março 05, 2004

AGORA A SÉRIO, LA BÊTE DU JOUR

Nem podia ser de outra forma. A associação "SOS- Vida" foi a destacada vencedora de hoje do meu projecto de troféu. Estes senhores andaram a distribuir por escolas lisboetas uns coloridos folhetos em que se incluia uma foto de um prato com um feto humano pronto a ser devorado.
Além da estupidez brutal que é colocar uma imagem assim ante os olhos de uma criança, há mais. Há a menção à "facilidade" com que se compram, no Extremo Oriente, bebés abortados para confeccionar "manjares" exóticos e muito disputados.
Não vi o folheto, mas, pela descrição, estou capaz de apostar um rim em como a patusca associação se limitou a amplificar mais um dos mitos urbanos que infestam as nossas caixas de correio electrónico.
Este boato, já velhinho, foi originado por uma performance do artista chinês Zhu Yu, intitulada "Comendo Gente" e levada a cabo em Xangai, no ano de 2000. Não vou comentar a validade artística da coisa. Nem vou afixar imagens do acto, apesar de não imaginar muitas crianças por estas paragens. Quem tiver mesmo o estômago forte, pode começar por aqui.
Deus nos livre destes católicos.

Publicado por Luis Rainha às 09:26 PM | Comentários (7)

MAIS UMA PEQUENA HISTÓRIA QUASE INTERACTIVA

Preparando já o fim-de-semana, um pouco de entretenimento (espero) ligeiro. A um livro com dois anitos, fui repescar três histórias, dispostas, digamos, em camadas tipo cebola. A primeira está já aqui; só têm de carregar no boneco e depois a navegação fica óbvia...
Já me esquecia: as belas ilustrações são do Jorge Mateus.

Publicado por Luis Rainha às 07:21 PM | Comentários (0)

MC'DEF

A malta dos hamburgueres e pepinos de conserva quis dar provas de caridade e, com a parceria da câmara municipal de Lisboa, resolveu oferecer às crianças de poucas posses algumas entradas para o Euro 2004. Gesto altruísta e parceria de grata memória que ficaria para a posteridade, se não se desse o caso deste ser mais um gesto de "clube do bolinha" . menino deficiente não entra. A vereadora com a área da educação assinou de cruz em carta para as escolas, segundo o princípio "pobrezinhos sim, atrasadinhos não". Deu raia. E caldeirada, que é o melhor que se pode fazer com raia mas não se pode fazer com o McChicken. Pelos vistos, os McLads e a senhora Lopes da Costa estão com o mandatário eleitoral de Ferreira Torres, que há pouco tempo afirmava a certeza de que o desporto "serve para apurar a raça"... (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 06:38 PM | Comentários (6)

LA BÊTE DU JOUR

Publicado por Luis Rainha às 06:00 PM | Comentários (5)

ALERGIA A ÁCAROS (E MÉDICOS)

Em três dias seguidos, três consultas de duas horas. Numa respirei para dentro de tubos; noutra fizeram-me tracinhos no braço e o ritual completo de um screening test alergénico; na última fiquei de boca escancarada, enquanto solidificavam os moldes para um dente a precisar de coroa.
Agora juntem-lhe o resto: as longas esperas, as revistas de golfe e marketing ligeiramente desactualizadas (2001), a programação vespertina da TVI aos berros.
Tem mesmo que ser infinita, a paciência dos pacientes.

Publicado por José Mário Silva às 05:47 PM | Comentários (20)

SERÁ ESTE O FUTURO DE LINARES?

Espero bem que não.

Publicado por José Mário Silva às 10:42 AM | Comentários (3)

O ABORTO - UMA PERSPECTIVA DIFERENTE

Escrevi, no Estrangeiros no Momento, em Janeiro, dois textos com este título, onde discutia a questão do financiamento do aborto. Será que o Estado deve pagar abortos indefinidamente?
Bem sei que primeiro há que legalizar o aborto. Comparada com essa, esta é uma discussão secundária mas que vale a pena ter. Eu já a tive, e bem calorosa, num outro blogue, e a minha opinião pode ler-se aqui e aqui. Esta minha opinião foi muito bem resumida pelo João Pedro Henriques no seu recente artigo no Público, incluindo a recusa do argumento (tolo) de que o aborto "é uma questão das mulheres". Concordo mais ou menos com tudo neste artigo. Só discordo do ponto 8. Distinguir ricos e pobres por lei nunca dá bom resultado. E a esquerda que ganhe umas eleições!

Publicado por Filipe Moura às 01:19 AM | Comentários (22)

março 04, 2004

A PROPÓSITO DE SERPENTES


Já se sabe. Cada menção que se faça a brutalidades perpetradas por Israel ou ao infame "muro de separação" é logo recebida por um coro bem afinado, entoando os já conhecidos cânticos "Mas que dizem dos bombistas palestinianos?" e "Vocês são é uns anti-semitas!"
Não me cabe na ideia desmentir a barbárie dos atentados que espalham pelas ruas pedaços de homens, mulheres e crianças. Nem vou pôr-me a contar em público os meus (muitos) cromossomas judaicos. Mas convém não permitir que as vítimas de Israel sejam usadas para nos desviar a vista dos cadáveres que tombam do outro lado.

Aqui, poderão encontrar uma avaliação das baixas causadas, em ambos os lados, pela Intifada de al-Aqsa, de 29 de Setembro de 2000 a 22 de Fevereiro de 2004.
Entre civis e militares, nos Territórios Ocupados e em Israel, a triste contabilidade anda assim: mais de 2.400 palestinianos foram mortos por israelitas. No mesmo período, mais de 850 israelitas foram assassinados por palestinianos. Atenção, que estes números não incluem os bombistas-suicidas nem palestinianos feridos que acabaram por falecer devido a atrasos nos cuidados médicos.
Quem apresenta tais contas não é uma organização árabe, nem um qualquer aglomerado de pacifistas europeus. É o B.Tselem, o Centro Israelita para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados. Uma organização de "proeminentes académicos, advogados, jornalistas e membros do Knesset". Israelitas.
Não deixem de fazer uma visita ao site do B.Tselem. E não percam a secção dedicada à tal "serpente de betão". É educativo, para dizer o mínimo.

Publicado por Luis Rainha às 03:50 PM | Comentários (17)

LA BÊTE DU JOUR

Quando a Voxx e a Luna FM foram parar ao bolso de Luís Nobre Guedes, logo se temeu o pior. Hoje, à meia-noite, a coisa confirma-se com o silêncio definitivo de duas das minhas emissoras preferidas.
Este crânio da comunicação social, também famoso por desempenhar com brilho o papel de muleta de Paulo Portas, já andou com a AACS à perna por duas das suas rádios servirem de obedientes ecos a emissões do grupo Media Capital. Não se augura melhor futuro para as frequências da Voxx e da Luna.

Publicado por Luis Rainha às 01:50 PM | Comentários (25)

ORA BOLAS!

Eu sou do tempo em que o Benfica ia para um sorteio da UEFA com esperança que lhe tocasse "este" ou "aquele" clube mais fraquito.
Nos dias que correm, imagino que são os outros todos que vão para lá a fazer figas para que lhes calhe em sorte o Benfica.
Parece que hoje a coisa correu bem ao Inter de Milão.

Publicado por Luis Rainha às 01:34 PM | Comentários (6)

A SERPENTE DE BETÃO

Publicado por José Mário Silva às 01:08 PM | Comentários (26)

DINHEIROS PÚBLICOS E HOSPITAIS PRIVADOS

Ontem, acompanhei uma amiga a um bonito hospital privado nos arrebaldes de Lisboa. Ainda a meio de um longo tratamento de radioterapia, ela fora convocada por telefone para uma consulta "muito urgente".
Essa consulta fundamental acabou por demorar... 2 minutos exactos. O suficiente para o clínico recomendar à sua paciente o uso do medicamento exótico e de difícil acesso que dá pelo nome de Bepanthene.

Porque é que este conselho não foi fornecido por um dos técnicos que atendera a minha amiga umas horas antes, ou até via telefone, uma vez que nem receita seria necessária?
Só vejo uma razão plausível: estando ela a cargo do sistema público de saúde, esta amostra de consulta sempre serviu para o médico e o hospital em questão abicharem mais umas coroas, à pála sabe lá Deus de que protocolo ou convénio. Que isto resultasse num enorme incómodo para uma "utente" a quem já não faltam as preocupações, pouco parece ter importado.

Em Portugal, colocar fundos públicos ao alcance da cobiça privada continua a ser uma bela receita para o abuso.

Publicado por Luis Rainha às 12:27 PM | Comentários (7)

março 03, 2004

BOAS VINDAS

Um amigo nosso foi pai recentemente. Em nome do BdE quero dar os parabens ao J.
Dou agora ao bebé umas boas vindas musicais bem ao gosto do pai. Se não se ouvir, pelo menos a letra fica aqui.

Aproveito para desejar as maiores felicidades ao bebé. Que seja forte, saudável e de esquerda. (Buarquiano como só ele, o J. deve ficar a pensar responder-me dedicando a Receita para Virar Casaca de Neném.)

Publicado por Filipe Moura às 11:09 PM | Comentários (5)

A PROPÓSITO DE ALGUNS COMENTÁRIOS À "OBRA DE JUVENTUDE" DE PAULO PORTAS

Interessante é verificar, no discurso da direita de hoje, a utilização que faz do paradigma hermenêutico: todo o debate releva da interpretação, e a interpretação é traiçoeira e frequentemente perversa (Hermes em todo o seu esplendor, na ambiguidade do sorriso que exibe numa escultura fabulosa do Museu Arqueológico de Nápoles). E quem interpreta, aos olhos da direita? A esquerda, naturalmente. Manipuladora e maquiavélica, deturpadora de sentidos, literalmente sinistra.
Inscrito portanto o debate em terreno hermenêutico . e em nome da esquerda . a direita encontra habilmente a margem de manobra que procurava justamente obter e a justificação para o desfraldar da sua própria retórica e dos procedimentos interpretativos que condena; ao mesmo tempo que, reiterando o que apresenta como denúncia dos desvios interpretativos, sempre mal-intencionados, da esquerda, se auto-proclama isenta desses mesmos «vícios».
Se isto se passa assim do ponto de vista da prática política, do ponto de vista do próprio estatuto e definição do debate político as implicações são consideravelmente mais graves. Sendo a interpretação um fenómeno essencialmente subjectivo, a aplicação da sua etiqueta (com carácter exclusivo) à prática e ao debate políticos não pode deixar de conduzir a um esvaziamento de conteúdos, e, afinal, à própria impossibilidade do debate e da discussão. Uma vez que, neste sentido, todas as interpretações se equivalem, é o próprio objecto de interpretação que é submergido pela extensão das possibilidades hermenêuticas. O que significa, em última instância, que o facto ou objecto do debate se anula e aniquila, em pura perda de realidade, se transforma em não-facto, em não-acontecimento . ao mesmo tempo que o debate, refém da esfera da subjectividade para que foi relegado, se reduz ao encontro dessas subjectividades, ao confronto de processos de intenção e, frequente e lamentavelmente, à exposição dos psicodramas mais ou menos rasteiros a que nos vamos habituando.
(Vera Rodrigues)

Ora, que a esquerda, na reivindicação de objectividade que fundamenta a sua herança teórica (mais ou menos assumida), venha tentar restituir essa objectividade do debate, a começar pela do próprio objecto de discussão, é o que para a direita é prova justamente da sua «perversidade interpretativa». E isso, mesmo . e talvez sobretudo . quando a iniciativa da interpretação parte da direita, como foi o caso em alguns comentários aos artigos de juventude de P. Portas, editados no Barnabé pelo Daniel. A despeito da clareza do conteúdo dos artigos e da pouca ou nenhuma margem de ambiguidade que deixam, os Barnabés são ao mesmo tempo acusados de deficiência interpretativa (não fizeram «um esforço mínimo para perceber alguma coisa») e de sobre-interpretação («distorceram o seu significado»). Colocada a questão em termos de interpretação, e portanto de subjectividade, daqui até aos habituais juízos de ordem moral (oportunismo, má-fé, hipocrisia, e por aí adiante) vai um passo, aliás já implícito na forma lapidar e não argumentativa com que se denuncia a «distorção de significado».
Para terminar, um outro exemplo, infelizmente mais próximo da actualidade portuguesa: recentemente, o governo Raffarin adiantou uma proposta de lei que pretendia enquadrar juridicamente qualquer agressão a uma mulher grávida, susceptível de implicar a perda do bebé, ao mesmo tempo que previam penas agravadas para todo o acto podendo conduzir a uma interrupção involuntária da gravidez. Afim de determinar o carácter voluntário ou involuntário de um aborto, o projecto definia toda uma série de procedimentos de apuramento de causas de uma interrupção de gravidez, que, para além da extrema complexificação que introduziriam no processo, implicariam designadamente uma pesada responsabilidade para o corpo médico. Os resultados práticos que resultariam inevitavelmente desta lei (para não falar do importância da abertura de um precedente na modificação de uma lei que funciona bem) saltam aos olhos. Perante a vaga de protestos, vindas aliás de todos os quadrantes políticos e sociais, o projecto de lei foi (por enquanto) para a gaveta. Mas foi à esquerda que foi imputado o ónus de, por má-fé, aproveitamento político e desonestidade, se opôr a uma lei que visava apenas proteger mulheres grávidas e que, somente por interpretações perversas, poderia ser considerada como uma lei restritiva do aborto.
A extensão do domínio da retórica é uma realidade aparentemente incontornável, hoje. Mais importante se torna, por isso, não esquecer que, como para qualquer outra arte ou disciplina, existe, ainda assim, a possibilidade de avaliar o seu exercício, no âmbito mesmo dos seus próprios princípios reguladores.

Publicado por José Mário Silva às 08:26 PM | Comentários (1)

SONHAR A MORTE

A síndroma da morte súbita infantil (SMSI) é o pesadelo que mais vezes assombra as noites de quem tem um recém-nascido a dormir ao alcance dos seus ouvidos. Acordar a meio da noite e, por segundos, não encontrar na escuridão o conforto daquele fio de fôlego tão sumido, tão frágil... já desisti de contar as batidas de coração que perdi em segundos de pânico assim.

Durante séculos, a SMSI, de longe a maior causa de morte de crianças com menos de um ano, tem-se mantido ciosa dos seus mistérios letais. Sabe-se ainda mais sobre o que não a causa do que sobre o que a invoca.
No ano passado, o cientista australiano George Christos lançou uma nova teoria: os bebés morrem a dormir quando sonham com o útero materno, em que respirar não é preciso. Pura e simplesmente, cedem à saudade do ninho amniótico onde tudo era silêncio, protecção, calor. E viram costas ao mundo real.
Acreditamos nós que o sonho comanda a vida; afinal, talvez possa também chamar a morte.

Se calhar, amanhã novos dados provarão que isto não passava de uma hipótese interessante mas descabida. Não sei.

Nas sombras desta teoria, mais do que Ciência, eu leio Poesia: uma explicação fascinante e desfocada dos mecanismos subterrâneos que comandam a relojoaria oculta do nosso mundo. Com um brilho fugaz que nos ofusca sem que lhe percebamos origem ou destino.
Como esta hipótese. Ou esta experiência. Ou o poema de Mário de Sá-Carneiro que refulge no enigma:

O raio do sol da tarde
Que uma janela perdida
Reflectiu
Num instante indiferente - Arde,
Numa lembrança esvaída,
Á minha memória de hoje
Subitamente..

Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
- E não poder adivinhar
Porque mistério se me evoca
Esta ideia fugitiva,
Tão débil que mal me toca!...

A bem da verdade, também não sei porque me fui lembrar disto agora.

Publicado por Luis Rainha às 06:45 PM | Comentários (14)

MAIS VIDA, MAIS FAMÍLIA, MAIS VENDEDORES DE AUTOMÓVEIS

Ao que parece, o Governo Civil de Lisboa já se escudou, por várias vezes, numa lei de 1974 ao proibir manifestações incómodas para o governo.
No entanto, a "marcha silenciosa" do grupo "Mais Vida, Mais Família" foi autorizada pelo mesmíssimo Governo Civil. Apesar de decorrer antes da hora estipulada pela tal lei.

Depois, os senhores que nos governam fazem-se de ofendidos quando lêem coisas como o inquérito da Reader's Digest segundo o qual os portugueses confiam mais em vendedores de automóveis do que em políticos.

Publicado por Luis Rainha às 06:27 PM | Comentários (13)

E O QUE PENSAVA EU DO ABORTO HÁ 22 MINUTOS?

De forma instintiva, o aborto parece-me acto sinistro e a evitar. Tal como, por certo, o parece às mulheres que a ele se vêem obrigadas.
Mas também desconfio que quem lhes quer retirar essa última escolha, fá-lo por pensar que Deus decretou que se trata de assassínio, de coisa vil e inominável. (Sim, é a mesma divindade irada que matou Onan por este ter "derramado a sua semente" para o chão. Talvez liquidar legiões de espermatozóides fosse genocídio, na altura...)
Pois. Acredito piamente que ser contra a despenalização do aborto até às 10 ou 12 semanas só pode explicado pela crença em argumentos religiosos. Não civilizacionais, nem morais tout court. Religiosos.
Eu sei que "a vida de cada ser humano começa na fertilização" (como afirma categórica a American Life League, seguindo as pisadas do Senhor de La Palisse). Mas não vejo razões para que uma dúzia de células seja já uma pessoa. Assim, nem consigo começar a perceber o ódio que causa a tanta gente a "pílula do dia seguinte". E também duvido que um feto com 12 semanas seja, de facto mais do que em potencial, um ser humano.
Em busca de informação técnica digerível pelo meu entendimento de leigo, dei com este documento do Parliamentary Office of Science and Technology do Reino Unido. Não se trata de um panfleto com causas a defender e impingir; é simplesmente um relatório científico. Leiam-no se quiserem. E, depois, expliquem-me como é que uma interrupção voluntária de gravidez executada às 12 semanas de gestação pode ser condenada como "um crime atroz".
Cada aborto extingue uma vida; isto é certo e óbvio. Que essa vida seja "Humana", quando falamos de fetos que ainda não possuem sistema nervoso central capaz dos processos mais complexos que nos definem e estruturam, isto já me parece indefensável.

Recorrer à inspiração divina para angariar certezas inabaláveis não constitui pecado de maior. O problema surge é quando decidimos impor as nossas crenças às vidas dos outros.

Publicado por Luis Rainha às 02:32 PM | Comentários (15)

DA GENEROSIDADE DOS AMIGOS (3)

Vieram muitos (os outros telefonaram). Abraçaram-me. Deram-me discos e livros e coisas que não se compram. Sentaram-se à mesa. Riram-se. Discutiram. Comeram. Beberam. Divertiram-se (espero). Mas sobretudo estiveram lá, não se esqueceram.

PS- Desculpem o tom. Eu sei que sou um sentimental. Já me recomponho.

Publicado por José Mário Silva às 11:34 AM | Comentários (3)

DA GENEROSIDADE DOS AMIGOS (2)

E o que dizer da Jussara? Além de postar isto, ofereceu-me três cadernos, feitos à mão por ela, com nuvens na capa e poemas lá dentro. Acho que só não levitei . naquele restaurante apinhado . por uma questão de pudor.

Publicado por José Mário Silva às 11:23 AM | Comentários (0)

DA GENEROSIDADE DOS AMIGOS (1)

Há coisas que nos deixam sem palavras. Como isto. Obrigado, Rui. Não sei mesmo o que dizer/escrever.

Publicado por José Mário Silva às 11:09 AM | Comentários (0)

02-03-2004

Ontem, as cores do meu dia foram estas:

«Orange and Yellow» (Mark Rothko, 1956)

Publicado por José Mário Silva às 11:03 AM | Comentários (3)

março 02, 2004

ALGUÉM SABE O QUE PENSAVA PORTAS DO ABORTO HÁ 22 ANOS?

Sim.
Quero dizer: sim, o Barnabé sabe.
Sim, o Barnabé andou a investigar na hemeroteca e encontrou três pérolas: crónicas do então muito jovem Paulo Portas, publicadas no jornal «O Tempo», em 1982. Leiam e percebam como o pensamento da «direita inteligente» gira 180º, assim que chega aos degraus mais altos do poder político.

PS: Parabéns, Daniel. É por estas e por outras que a blogosfera continua (e continuará) a fazer sentido.

Publicado por José Mário Silva às 07:11 PM | Comentários (19)

HISTÓRIA DE UM SEGREDO

São raras as vezes em que a intimidade é tratada de forma tão inteligente e honesta. O documentário de Mariana Otero encontrou em Portugal uma estranha pertinência, uma vez que o debate sobre o aborto se reacende. Só que aquilo que para os franceses é uma longínqua realidade dos anos 60 – o aborto clandestino – é para nós uma absurda actualidade.
Um filme sobre a memória difícil e velada de uma morte. A pintura que se ilumina ao sair do armário. Um filme íntimo mas universal, familiar e despojado. Espero que as sensibilidades com tantas certezas éticas sobre a vida, encontrem neste filme a clarividência de que o medo e o silêncio, a crueldade do acto e a sua punição, são sofrimentos e consequências que se poderiam evitar se não houvesse tanta hipocrisia.
Marta Lança

Publicado por José Luís Peixoto às 01:56 PM | Comentários (1)

UM ITÁLICO MUITO ESPECIAL

INSTANTES
Atrás de mim os pintores procuram rostos para gravar, com carvão, em telas brancas. Ao meu lado, majestoso, o
Sacré Coeur. Estendem-se os telhados azuis de Paris à minha frente e a cidade parece infinita. (José Mário Silva)

Publicado por Filipe Moura às 08:59 AM | Comentários (9)

HAPPY BIRTHDAY TO ME

Publicado por José Mário Silva às 12:39 AM | Comentários (47)

março 01, 2004

O MEU DIA NO TRIBUNAL

Às 9:30, já estava eu no Palácio de Justiça, pontual e bem-comportado, pronto para cumprir o meu dever cívico como testemunha. (Bem; confesso que as ameaças de multas e prisão caso reincidisse na balda, feitas por um amável agente da PSP, talvez tenham servido de incentivo...)
Às 11:30, já esfomeado e sem julgamento à vista, decido-me por fim a confiar uma moeda à máquina das bebidas quentes, em troca de um copo de chocolate. Neste momento, falta a electricidade; junta-se um aglomerado de polícias junto à porta do elevador. Alguém ficou lá preso. E a máquina das bebidas encravou.
Às 12:00, volta a corrente eléctrica e começa o julgamento. Uma hora depois, lá me chamam.

E que processo de grande porte justificava tantos e tão atrasados trâmites?

Parece que, há 6 anos, uma jornalista estagiária cometeu o pecado de fazer uma entrevista com câmara oculta a um senhor que vendia pastilhas para emagrecer. Este queixa-se de ter sido reconhecido, apesar da pixelização com que se lhe escondeu o rosto.
Pergunte-se agora onde estavam sentados os responsáveis da estação de TV em causa? No banco de réus, não os vi.

Às 13:30, deixaram-me sair do tribunal, depois de ter feito o meu melhor para convencer os Senhores Magistrados que julgar aquela jornalista era como tentar culpar um operário de uma linha de montagem pelos defeitos de fabrico de um automóvel.
É que tinha ideia que a Justiça não serve só para lixar o mexilhão mais pequenino; mesmo que a dita cuja ande irritada por ter de suportar tralhas destas a emperrar-lhe as rodas durante 6 anos...

Publicado por Luis Rainha às 09:43 PM | Comentários (6)

AMANHÃ, VOU ODIAR-ME POR TER ESCRITO ISTO...

...mas pegar a gripe à cara-metade foi mesmo remédio santo para finalmente conseguir "postar" alguma coisita à noite.

Publicado por Luis Rainha às 09:38 PM | Comentários (7)

GRANDES NOTÍCIAS PARA OS CINÉFILOS!

No noticiário da SIC, vi uma "sneak preview" da sequela do Hulk. Agora, o monstro de maus-fígados transforma-se num morcão de cabelo cinzento e gravatas foleiras, que desata ao pontapé a tudo o que vê pela frente, mal entra num estádio de futebol. Parece é ter um vocabulário menos extenso que a original criatura glauca: "aldrabão" e "burro" foram as palavras mais ouvidas na entrevista que concedeu a Paulo Camacho.
Mas há motivos suplementares de felicidade para o cinéfilo portuga: os sagazes jornalistas da SIC descobriram que "1/36 dos 11 Oscars de 'O Regresso do Rei' pertencem" (?) ao nosso concidadão que fez as selas usadas na trilogia.
Quando souberem que o moço que andava estúdio fora atrás dos cavalos, para lhes recolher o cocó, veio da Bobadela, logo aumentam a fracção dos troféus agora em mãos nacionais. Aí para uns gloriosos 2/41.

Publicado por Luis Rainha às 09:19 PM | Comentários (0)

FUGIU-LHE A BOCA...

Na SIC, ao falar a propósito das tristes figuras que fez num campo de futebol, Avelino Ferreira Torres quis escudar-se no direito à indignação. No entanto, talvez devido ao fulgor das luzes no estúdio ou ao excesso de adrenalina no sangue, o que reclamou foi o direito à indignidade. Isso mesmo: à indignidade. De facto, tudo aquilo . mas também o que AFT tem feito em Marco de Canavezes . me parece bastante (in)digno de se ver.

Publicado por José Mário Silva às 08:42 PM | Comentários (2)

UM POST VÍTIMA DO LÁPIS AZUL DA CENSURA

O nosso camarada Zé Mário pegou-se com o "Afixe", que é um bom pedaço de asno. Dá-lhe, companheiro! Por favor, esse gajo não tem o que fazer? afugentem–no depressa que este blogue não precisa de tal estronço nem do seu paleio arrevesado. Irra, que rezingão!

Publicado por Luis Rainha às 05:24 PM | Comentários (11)

DESCUBRA AS DIFERENÇAS ENTRE ESTAS DUAS PINTURAS



1- Trata-se de uma das 14 celebradas "Pinturas Negras" de Goya. O derradeiro testemunho de um génio amargurado que pressente a aproximação do exílio e da morte; uma pintura destinada a um destino privado e oculto, onde o pintor leva o seu expressionismo até paragens sombrias que nunca antes visitara. Um quadro . "Saturno"- que foi descrito pelo historiador de Arte Fred Licht como sendo "tão essencial para a nossa compreensão da condição humana nos tempos modernos" quanto os frescos da Capela Sistina são fundamentais para entender o séc. XVI.

2- Obra de um artista menor, que sempre viveu à sombra do seu pai, artista consagrado. Ele nada mais terá feito senão macaquear, com limitado talento, o estilo paterno, acrescentando-lhe apenas uns toques "modernos" de sua lavra, como o negrume tão em voga no final do séc. XIX. Mesmo o tema desta imagem assustadora, Saturno a devorar um dos seus filhos, pode ser lido como um acre insulto ao vulto tutelar e castrante que nunca o abandonou.

Como escolher a hipótese certa?

Há uns dias, o Fernando Frazão postou aqui uma imagem do "Perro Semihundido", outra das obras fulcrais das "Pinturas Negras", outro dos antepassados ilustres de toda a Arte Moderna . e, por sinal, a primeira obra que Miró quis ver aquando da sua última visita ao Prado.
Na altura, recordei-me de um curioso artigo que lera havia tempos. Resumindo a teoria aí exposta: há quem pense ter razões para crer que foi o filho de Goya, Javier, a criar o famoso grupo de pinturas da Quinta del Sordo. Isto por suspeitas várias que começaram no simples facto de a dita quinta não possuir, nos dias de Francisco Goya, o segundo andar sobre cujas paredes várias destas obras teriam sido pintadas. (Googlem a coisa que irão encontrar argumentos interessantes, a favor e contra esta hipótese iconoclasta...)

Mais do que ansiar por uma verdade definitiva . que talvez nem exista, se tivermos em conta a já conhecida repintura de que as Pinturas Negras foram vítimas . deixo-me agora fascinar por estas perguntas:

Será que a lenda do artista maldito, pintando freneticamente o seu testamento nas paredes de uma casa decrépita, é o que nos atrai, antes de tudo o mais, nesta fabulosa série negra?
Conseguiremos admitir que imagens tão revolucionárias possam ter saído do pincel ignoto de Javier Goya, o artista amador de personalidade de tal forma apagada que lhe chamavam "el hombre gris"?
E, acima de tudo: se a dúvida se instalar de vez, poderemos continuar a admirar a pintura 1 sem lá vermos, para nosso desgosto, a pintura 2?

Publicado por Luis Rainha às 03:26 PM | Comentários (18)

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De há uns tempos para cá, o serviço telefónico que nos ajuda a encontrar um número difícil (ou que não temos à mão; ou que a preguiça nos coíbe de procurar na lista) é uma coisa tecnologicamente evoluída. Passo a passo, uma voz mecânica (mas feminina e cordial) vai-nos pedindo informações: o concelho, se é um particular ou uma empresa, o nome do particular ou da empresa, etc. Logo que estão reunidos os dados necessários, a voz resume tudo numa palavra convicta: «Entendi». O problema é que às vezes não entende. Já me aconteceu, por exemplo, pedir o número geral da revista «Visão» e darem-me o número geral da revista «Valor». Convenhamos que não é bem a mesma coisa. E lá tive que ir folhear as páginas amarelas.
Após alguma reflexão sobre o assunto, continuo a ignorar onde nasce o erro num sistema aparentemente perfeito. Suspeito que a culpa é da máquina, ainda pouco sensível às nuances da voz humana. Mas temo que o mal resida apenas em mim e na minha comprometedora dicção.

Publicado por José Mário Silva às 11:00 AM | Comentários (12)