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fevereiro 29, 2004

GLÓRIA (NÃO) BURGUESA E OUTROS ASSUNTOS

Retiro o que afirmei . o João Pedro Henriques não é burguês, pelo menos a avaliar pelos sítios onde faz compras. É que só os burgueses não fazem compras em grandes superfícies. Tenho um problema com o pequeno comércio, que não posso estar a explicar todo aqui. Mas o povo compra sobretudo em lojas de desconto. Depois, em hiper e supermercados.
Dito isto, sobre a caldeirada: os temperos eram só sugestões, mas aceito que saiba muito bem sem mais nada. Eu não compraria era a "caldeirada", mas as postas de peixes separadamente, a menos que soubesse muito bem o que estava a comprar. Mas isto também é só uma opinião.
Queria agora esclarecer que o meu nome é Filipe, com i. Em português escreve-se assim. Teria o João a delicadeza de corrigir? Felipe é o pinochetista selecionador nacional.

Publicado por Filipe Moura às 01:03 PM | Comentários (6)

RESNAIS

Amanhã, segunda-feira, na Abril em Maio (pelas 22 horas) são exibidos dois documentários obrigatórios de Alain Resnais: «Guernica» (uma curta de 12 minutos sobre o quadro de Picasso, com texto de Paul Éluard) e o terrível «Nuit et Brouillard» (de 1955, com texto de Jean Cayrol e imagens de arquivo dos campos de concentração nazis). Ou de «como podem voltar a crescer ervas no centro do horror».

Publicado por José Mário Silva às 01:01 PM | Comentários (0)

100 ANOS

Celebrar com um Madeira de honra em vez do usual Porto é um bocadinho provinciano, não acham?
Eu dou os parabéns ao Toni, ao Manuel Alegre, ao Miguel Portas e a grande parte dos meus amigos.

Publicado por Filipe Moura às 12:59 PM | Comentários (4)

fevereiro 28, 2004

UMA CRISE LAMENTÁVEL

Não falo de todo um santo dia escoado por estas paragens sem um só post para amostra. Não. A minha crise é mais umbiguista: uma constipação pavorosa. Entre o mal-estar da influenza e a moleza iatrogénica dos anti-histamínicos, a única coisa que hoje me consegue vir à cabeça é este esplêndido e deprimente poema:

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho. que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor .
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...


Trata-se, claro está, da "Caranguejola", de Mário de Sá-Carneiro. Quem ainda não a tem guardada nem na memória nem na estante, carregue no link abaixo para ler o resto...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom
édredon, bom fogo .
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! .
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Publicado por Luis Rainha às 11:49 PM | Comentários (5)

PARA NÃO DIZEREM QUE NÃO TENHO FAIR-PLAY

Parabéns ao Sport Lisboa e Benfica, pelos seus 100 anos (ou 96, tanto faz).

Publicado por José Mário Silva às 08:37 PM | Comentários (2)

MIL DISCOS

Augusto M. Seabra é o Prof. Marcelo dos melómanos.

Publicado por José Mário Silva às 06:46 PM | Comentários (0)

FÓRMULA 3000

As mensagens deixadas neste blogue (versão 2.0) ultrapassaram hoje uma barreira psicológica: são já mais de 3000. A todos os comentadores do BdE, o nosso obrigado.

Publicado por José Mário Silva às 06:33 PM | Comentários (2)

fevereiro 27, 2004

O SEXTO SENTIDO?

Embalo o meu filho de três meses. Deitado a seu lado, estou atento às pálpebras que caem sob o peso de mais um dia neste mundo ainda novo. Está a adormecer.
De súbito, num repente desprovido de aviso, ele abre muito os olhos, mira o tecto e solta um enorme sorriso sem alvo nem razão.
Com o riso mudo do meu bebé, há um calafrio que viaja pelo quarto. Esforço os sentidos, tentando merecer um vislumbre da presença que lhe parece tão óbvia.
O que terá ele entrevisto, mesmo antes de entrar no mundo simples dos sonhos sem idade? Que entidade curiosa ou apenas indiferente esteve ali em trânsito, a uma distância irremediável da minha curiosidade?
Penso nos leviatãs invisíveis que André Breton catalogou: "Les Grands Transparents qui se manifestent obscurément à nous dans la peur et le sentiment du hasard." Novo calafrio.

Minutos depois, tento comunicar à mãe do meu filho o inexplicável espanto que aquele sorriso em mim deixou. Resposta:
"Riu mesmo antes de adormecer? É normal; devia estar a fazer chichi".
E lá se vai o meu momento poético do dia.

Publicado por Luis Rainha às 11:40 PM | Comentários (18)

UM RELVADO À BEIRA-MAR PLANTADO?

Facto 1: geograficamente, Portugal é um rectângulo.

Facto 2: a forma de um campo de futebol é rectangular.

Facto 3: os publicitários adoram este tipo de analogias (simples e simplistas).

Facto 4: há quem diga que o Euro 2004 é um desígnio nacional (not me).

Facto 5: Chamem-me quadrado, mas não gosto de ver as fronteiras do meu país desenhadas com linhas de cal.

Publicado por José Mário Silva às 07:46 PM | Comentários (13)

NOVOS LINKS

Na coluna da direita, acrescentámos blogues recentes de que gostamos. São estes: A Ponte, Renas e Veados, Pagan Days, A Metamorfose, Vistalegre e o greenawayesco a|barriga|de|um|arquitecto.

Publicado por José Mário Silva às 07:30 PM | Comentários (8)

À LA P(L)AGE

É mais um blogue de esquerda (mais um irmão). Escrito com esmero, excelentemente ilustrado, grafismo impecável. O nome não podia ser mais soixante-huitard: Sous les pavés, la plage! É lá que está agora o Tiago Barbosa Ribeiro, ex-itálico e ex-autor do excelente Murmúrios. E também outra malta porreira, como o Rui Bebiano.
Façam o favor de os visitar diariamente, ok?

Publicado por José Mário Silva às 07:07 PM | Comentários (2)

WHEN I'M EIGHTY TWO

Na estação de Metro, o placard electrónico avariou-se. Em vez da data certa, um exercício de futurismo: 2055-01-01. Repeti mentalmente: «um de Janeiro de dois mil e cinquenta e cinco». A vertigem do tempo que se avoluma adiante, à espera de ser vivido. A memória que ainda não é memória. Proust ao contrário. E a ideia, muito vaga e desfocada, do que serei aos 82 anos. Um velho melancólico, olhando para o placard electrónico do metro (ainda haverá metro? ainda haverá placards electrónicos?), tentando lembrar-se do que era a vida em Lisboa, nesse longínquo ano de 2004.

Publicado por José Mário Silva às 06:31 PM | Comentários (7)

HAITI: SINÓNIMO DE INFERNO

Publicado por José Mário Silva às 05:37 PM | Comentários (3)

NOITES DE ANTROPOLOGIA E HISTÓRIA

Para quem quiser discutir a génese e a evolução do capitalismo, ou o conceito de cultura popular, haverá hoje à noite uma .conversa sobre livros. na Ler Devagar. O João Rodrigues vai falar sobre A Grande Transformação, de Karl Polanyi, e o Zé Neves de Costumes em Comum, de E. P. Thompson. Começa às 22 horas.

Publicado por Manuel Deniz às 01:48 PM | Comentários (1)

O FUTURO (NADA) RADIOSO

Publicado por José Mário Silva às 01:05 PM | Comentários (1)

AS RECEITAS GLORIOSAMENTE FÁCEIS

Gosto tanto da "Glória Fácil" que sinto-me mesmo tentado a começar a partilhar receitas de cozinha com eles. Primeiro fico à espera da Maria José, a ver o que ela nos oferece. Também tive umas experiências sociológicas interessantes (relacionadas com o grelhar peixe numa cozinha pública) ontem à noite, mas terei de as contar noutra altura. Para já, queria mesmo fazer uma crítica (por alto) das receitas.
João, a caldeirada não precisará de mais algum tempero? Que tal um copinho de vinho branco? E uns coentros? Por outro lado incluir gambas numa caldeirada parece-me notavelmente burguês. Para isso, prefiro o rancho pobre da Ana. Ainda que, se fosse eu, lhe acrescentasse um chispe ou uma entremeada. Continuaria a ser pobre e ficaria mais diversificado.

Publicado por Filipe Moura às 09:24 AM | Comentários (0)

MOMENTOS DE GLÓRIA

O João Pedro Henriques queixou-se de que a blogosfera está muito "doce" (será que também está muito "cosy"?)
Tem razão o João. A blogosfera, para mim, sempre foi assim. Mesmo quando havia mais blogues de direita. Porque eu escolhi que fosse. Pelos blogues que leio.
Tal não significa que eu goste de fugir às questões ou à polémica. De maneira nenhuma. Mas desde que haja civilidade. Ou seja, não me importo nada de a seguir ir tomar umas cervejas com quem antes estive a discutir. Dado que (talvez por ser um bloguista não muito relevante) até hoje fui eu que decidi ter as poucas polémicas que tive (e também decidi ter umas que ficaram por ter), posso afirmar sem dúvida: não tomaria a iniciativa de ter uma polémica com uma pessoa com quem não fosse de seguida tomar umas cervejas.
Será isto muito português, muito Miguel-Esteves-Cardoso no seu pior, muito nacional-porreirismo, muito "deixar-passar-à-frente-os-clientes-habituais-da-mercearia"? Talvez. Mas talvez as grandes guerras não devam ser travadas na blogosfera. Quem achar o contrário talvez se esteja a levar demasiado a sério.
Escrevi atrás um texto intitulado "parte da minha vida", poucos dias antes de finalmente conhecer pessoalmente o André Figueiredo, o Manuel Deniz e o André Belo. Da mesma maneira, e muito portuguesmente, afirmo aqui: gosto muito da "Glória Fácil". Mesmo quando é só conversa de chacha. Faz parte da minha vida porque a leio todos os dias.

Publicado por Filipe Moura às 09:20 AM | Comentários (3)

fevereiro 26, 2004

«ECLIPSE»

Perdido noutros livros, alguns de leitura obrigatória, é devagar que vou avançando pelo romance de John Banville («Eclipse»). Regresso quando estou cansado, ou enquanto o metro não chega, ou no intervalo para o almoço. Luto com o inglês perfeito do escritor, com o vocabulário que me escapa, com algumas sombras que enevoam as páginas (mas nunca as turvam). Há nesta escrita uma beleza cantabile, uma beleza que resiste até à minha ignorância ou incompreensão. Caminho por dentro do livro com as mãos esticadas, como quem deambula às cegas, na escuridão, pelos corredores de uma casa desconhecida. Vou percebendo os contornos, mais psicológicos do que físicos, de um homem: Alexander Cleave, actor à procura não sabemos bem de quê (talvez do mistério encerrado na palavra self). Leio pouco e lentamente, em doses homeopáticas, quase a medo. E deslumbro-me com passagens como esta, em que o narrador fala da mãe já morta.

«First of course there was my mother. She tried to but could not understand me, her changeling. She was a querulous, distracted person, given to worries and vague agitations, always labouring under unspecified grievances, always waiting, it seemed, tight-lipped and patiently sorrowing, for a general apology from the world. She was afraid of everything, of being late and of being too early, of draughts and of stuffiness, of germs and crowds and accidents and neighbours, of being knocked down in the street by a stranger and robbed. When my father died she took to widowhood as if it were the natural state for which her life with him had been merely a long and heartsore preparation. They had not been happy; happiness had not been part of life's guarded promise to them. They did not quarell, I think they were not intimate enough for that. My mother was voluble, at times to the point of hysteria, while my father kept silence, and so they struck a violent equilibrium. After he died, or finished fading . his physical demise was only the official end of a slow dissolution, like the full stop the doctor stabbed into his death certificate that day, leaving a shiny blot . she in her turn began gradually to fall silent. Her voice itself turned thin and papery, with a whining cadence, like that of one left standing in the dust of the road, watching the carriage wheels roll away, with a sentence half finished and no one left to finish it for.»

Publicado por José Mário Silva às 11:59 PM | Comentários (5)

COELHICES

O grandiloquente Eduardo Prado Coelho, intelectual da nossa praça com direito a sigla reconhecível pelo(s) público(s) . EPC . escreve hoje a sua habitual coluna no jornal também ele público, mas com letra Grande. A sua leitura despertou-me um certo sentido matemático, que vai não volta me desperta, e eis que já contei as linhas da dita coluna. São 83. Dessas, 43 saíram da pena de EPC (não sei se estão a ver quem é) e 40 saíram das páginas da Grande Reportagem, revista que foi sujeita a tratamento de endocrinologia e que actualmente é distribuída com o Diário de Notícias.
Perante o sucedido, raciocino «EPC (não sei se estão a ver quem é) estará a escrever em regime de trabalho temporário, folgazão e sem direitos? Existirá o regime de cronista a meio tempo ou a 50%? Como é que ele fará os descontos para a (in)segurança social?»
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 11:53 PM | Comentários (3)

NEM A MORTE TRAVA A "MÃO INVISÍVEL"

Hoje de manhã, fui honrar uns compromissos familiares no minúsculo cemitério da ínfima aldeia onde tenho estado asilado.
A páginas tantas, andava eu a passear por entre jazigos, lagos de pétalas artificiais e feias ilhotas de mármore, quando reparei que uma das alas do cemitério estava ocupada por um enxame de humildes e rasteiras cruzes em madeira, todas com pequenas tabuletas ferrugentas. Aproximei-me. Que seria aquilo? As campas dos defuntos mais desvalidos, com famílias incapazes de pagar umas inscrições em bronze ou, no mínimo, uma estatueta da Virgem de Fátima?
Nada disso. Cada cruz ostentava a orgulhosa proclamação: "VENDIDA".
Todos os talhões perto da entrada do cemitério estão já vendidos. Como se se tratasse de um condomínio onde os apartamentos com vista de mar são disputados com ferocidade.
Gente pouco precavida que se lembre de morrer agora será impiedosamente remetida para os sectores dos fundos, ainda vagos...

Estava eu já acabrunhado por esta demonstração do alcance das leis da oferta e da procura, quando chego ao jazigo mais rico do cemitério, por certo derradeira morada de alguma figura relevante lá na terra. O monumento integra uma escultura de um lindo anjinho ajoelhado entre grinaldas de flores. Ao lado, uma vistosa tabuleta em mármore, com o nome e a direcção do artífice de Viseu responsável pela fúnebre obra. Um anúncio, portanto.
Um jazigo com publicidade, talvez até patrocinado! (E não imaginem que se trata de modernice liberal; a coisa data de 1946.)

Segundo verifiquei na lista telefónica, o estabelecimento assim publicitado já não existe. Faleceu. Por uma questão de justiça poética?

Publicado por Luis Rainha às 11:52 PM | Comentários (3)

ITÁLICO INVOLUNTÁRIO

Eu gosto muito da Natureza do Mal (ok, isto já toda a gente sabe). Depois, dentro da Natureza do Mal, gosto muito de tudo o que escreve o Luís (também nunca o escondi). Talvez por isso, atrevi-me a roubar-lhe um post, sem pedir licença nem coisa nenhuma.
Desculpa, Luís, pelo abuso.
Apreciem, leitores do BdE, a miniatura.

QUEDA FELIZ DE UM CABO

Eiffel era um gastador. Construiu a ponte de Viana com cabos de segurança que não serviam absolutamente para nada. O mau tempo encarregou-se de corrigir os seus excessos. Não se percebe que agora, com gestores atentos ao desperdício, substituam essas excrescências.

Publicado por José Mário Silva às 05:23 PM | Comentários (3)

LOST IN TRANSLATION

Eu sei que parece estranho dizer isto, mas a piada do livro «George W. Bushismos» (Garrido Editores) perde-se toda na tradução, muito fraca e trapalhona. Resumindo: para quem aprecia a estupidez em estado puro, é preciso lê-la no original.

Publicado por José Mário Silva às 11:21 AM | Comentários (5)

DA PROMISCUIDADE

António-Pedro Vasconcelos foi o convidado do "É a Cultura, Estúpido!", no São Luiz, para falar sobre as relações entre a literatura e o cinema ("promíscuas", chamou-lhes Anabela Mota Ribeiro). E arrumou a questão dizendo que não se lembrava de nenhum bom livro que, adaptado ao cinema, tivesse dado um bom filme. João Miguel Tavares, quando lhe perguntaram, também não se lembrou (assim de repente). A máxima simétrica lá acabou por aparecer: maus livros dão bons filmes.
Como toda a gente parece estar a par destas leis universais, não percebo porque é que não avisaram, por exemplo, o Manoel de Oliveira quando lhe deu para adaptar o Amor de Perdição e teve a lata de assim realizar uma obra-prima. Com a agravante de seguir o romance frase a frase, desta forma desobedecendo à segunda regra de ouro das adaptações (também se falou disto no S. Luiz), a de que é preciso desrespeitar o modelo. Coitados também, que não foram avisados, do Renoir (Une Partie de Campagne), do John Huston (The Dead), do Orson Welles (Othello), do Visconti (Morte em Veneza), do Pasolini (à escolha), and so on, and so on (espero que o Luís Filipe Borges não tenha bocejado em todos eles).
Sem saber nada de estatística, parece-me que:
1. se quase todos os livros são maus
2. se quase todos os filmes são maus
é provável que, do pequeno grupo das boas adaptações cinematográficas, a maioria tenha partido de livros maus; e que os filmes bons feitos com bons livros sejam os happy few dos happy few. Nem todos os casamentos são felizes, com a complicação adicional de que, neste jogo, a fidelidade e a traição são ambas viáveis e nem sequer são incompatíveis.

Publicado por Francisco Frazão às 03:04 AM | Comentários (38)

ESTUPIDEZ

No Brasil, por altura do Natal, sob um calor tropical, vários homens vestidos de Papai Noel têm de ser hospitalizados com insolações ou desidratações. (Pelo menos era assim até há pouco tempo.)
Em Portugal, em pleno Inverno, ainda este ano, participantes de desfiles de Carnaval são hospitalizados por hipotermia.
Clima diferente. A mesma língua. A mesma estupidez.

Adenda: Pensando melhor, quem se veste de Papai Noel fá-lo porque precisa de dinheiro. Neste caso também há estupidez, mas não da vítima. O que há de comum na estupidez dos dois casos é o querer sempre imitar o outro.

Publicado por Filipe Moura às 01:53 AM | Comentários (2)

fevereiro 25, 2004

O QUE VOCÊS ANDAM A PERDER...

Sinto-me enriquecido. Hoje, só por almoçar (muito) tarde, com a TV ligada, descobri que a Lili Caneças caiu de cabeça e até chegou a pensar que "ia morrer estupidamente, como um futebolista". Agora, vai "repensar" a sua vida. Noutro canal, tive o raro privilégio de ver o Tino de Rans a discutir com o Alex "Mr. Gay" sobre o direito à diferença; antes que as coisas ficassem feias, o Zé Cabra subiu ao palco e desatou a "cantar".
Se estas cerimónias Dadá não são "serviço público", onde estará ele?

Publicado por Luis Rainha às 05:05 PM | Comentários (5)

É A CULTURA, ESTÚPIDO!

Hoje, pelas 18h30, no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, regressa a tertúlia «É a Cultura, Estúpido!», uma manifestação cultural organizada pelas Produções Fictícias.
O convidado será o cineasta António-Pedro Vasconcelos, que falará sobre as relações entre a literatura e o cinema, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Seguem-se as habituais escolhas dos críticos e jornalistas residentes: Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos e José Mário Silva. Após o debate entre os colunistas Daniel Oliveira e Pedro Lomba (sobre a nova imigração, a partir do livro «Migrações e Integração», de Rui Pena Pires, publicado pela Celta), a sessão encerra, como sempre, com dez minutos de stand-up comedy, desta vez a cargo de Luis Filipe Borges (em substituição de mestre RAP).
Apareçam.

Publicado por José Mário Silva às 10:29 AM | Comentários (3)

TV CABO

O canal Odisseia veio a Lisboa filmar um documentário sobre o Sport Lisboa e Benfica. Nada contra, claro, embora me pareça que a homenagem fazia mais sentido no canal História.

Publicado por José Mário Silva às 10:25 AM | Comentários (8)

A EVOLUÇÃO DA LIBERDADE

Tem dado que falar, nos comentários ao meu texto "Vai Passar", a suposta relação desta música com o movimento "Diretas Já".
Recebemos um email do nosso leitor Alexandre Lemos, que passo a transcrever.

Detalhando um pouco mais o que e como me lembro: o movimento das "Diretas Já" tinha dois hinos, por assim dizer : o Menestrel das Alagoas, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant em homenagem ao político nordestino Teotônio Vilela, e o próprio hino nacional brasileiro, todos os dois cantados, à época, pela paraense Fafá de Belém.

O fracasso do movimento popular, definido com a derrota parlamentar da emenda constitucional "Diretas Já" , deflagrou uma profunda ação de bastidores por parte de diversos caciques da política brasileira, visando uma aliança entre os setores mais conservadores da oposição com os setores mais progressistas ( ou apenas oportunistas ) da base parlamentar da ditadura.

Já durante o segundo semestre de 1984 se podia ter certeza da vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, fato que se confirmou em 15 de janeiro de 1985. O disco do Chico, ainda conforme minha lembrança, é lançado neste final de 1984, com os detalhes que mencionei em meu segundo post no BdE sobre o assunto.

O início de 1985, ao menos para a classe média brasileira, surgia com promessas de liberdade e prosperidade, sob a aura de uma tal Nova República prometida por Tancredo Neves e seus correligionários. O samba "Vai Passar", notado de início pela crítica apenas pela inclusão da palavra paralelepípedo na letra, se consolida assim como a canção do passar o Brasil a limpo, como a canção de novos tempos que, em verdade, acabaram não vindo ou vindo apenas em parte. Imagino que o próprio compositor não pretendesse enaltecer a vitória de um presidente eleito num processo indireto, ainda que um civil do partido da oposição, mas sabe-se que essas coisas não se planejam, e a conjuntura fez o samba de Chico cumprir esse papel na história.

À época do lançamento deste LP, inclusive, Chico Buarque deu entrevistas dando por cumprida a sua missão de compositor político, prometendo deixar de lado os temas mais engajados e dedicar-se a um universo de inspirações mais amplo, o que não se justificaria se, de fato, ainda estivéssemos em plena campanha das Diretas Já.
Valeu
Alexandre

Caro Alexandre, começo por lhe agradecer profundamente os seus comentários e o seu email. Foram bastante esclarecedores pela revisão do contexto histórico da época. (E os seus comentários permitiram-me entender melhor o significado, que desconhecia, da música "Pelas Tabelas".)
Sobre a relação entre o samba e o movimento:

eu aceito a sua versão. Segundo li na "Folha de São Paulo", passaram-se esta semana vinte anos sobre o primeiro comício do movimento, que é então, de facto, anterior ao disco. Só que pode ser que o samba, não estando na origem do movimento, tenha aparecido mais tarde e por este sido "adoptado", ou não?
Eu não tenho nenhum conhecimento sobre esta matéria baseado na minha experiência, e por isso não queria continuar com este assunto. Não há dúvida de que o "Vai Passar" é a canção que anuncia a democracia no Brasil; o resto é um pormenor. Eu só sei (e escrevi) o que li. Agora, o facto é que na página oficial do Chico Buarque pode ler-se
"Em 1983 [Chico] compõe o samba Vai passar, que no ano seguinte, apesar de Chico negar qualquer relação da música com o movimento, se tornaria uma referência na campanha pelas "Diretas já", da qual participa ativamente."
Ou seja: o samba não era para ter tido nenhuma relação com a campanha, mas acabou por ter. Valeu?
Obrigado mais uma vez e um abraço.

Publicado por Filipe Moura às 12:48 AM | Comentários (0)

fevereiro 24, 2004

UM PRESIDENTE CONTRA O SISTEMA

Aqui vai o meu candidato a presidente da República.


(Imagem de "A Bola")

O grande handicap é que ele quer ser presidente do Sporting até Julho de 2006, data em que se celebra o centenário do clube. Mas, se for preciso, ele está à altura de acumular os dois cargos por seis meses. Não deve haver nenhuma incompatibilidade.

Publicado por Filipe Moura às 11:48 PM | Comentários (2)

ALGO QUE TENHO OUVIDO MUITO NOS ÚLTIMOS DIAS

A sugestão musical que agora vos faço não é tão festiva quanto as recomendações do Filipe nem tão importante quanto as memórias do Zeca aqui evocadas ainda há pouco.
No entanto, trata-se de uma canção com um significado muito especial para mim. Mesmo não sendo a performance deste songwriter que eu prefiro, nunca me deixa indiferente quando a ouço. Carreguem no play só se não receiam emoções fortes...

Publicado por Luis Rainha às 07:03 PM | Comentários (5)

UMA PRENDA DE CARNAVAL








Ontem, pediram-me ideias para um autocolante. Pronto; sei que "isto" aqui ao lado não tem mesmo nada a ver.
Mas não resisti: inspirado pelo tratamento que o Ted Rall dá ao seu "Generalissimo el Busho", e animado da melhor caridade cristã, lembrei-me de oferecer este projecto de autocolante ao Dr. Santana Lopes.
Da forma que anda a correr a sua proto-candidatura, ele bem precisa de todos os apoios que conseguir encontrar... e estão aqui a dizer-me que hoje "ninguém leva a mal".

Publicado por Luis Rainha às 05:52 PM | Comentários (1)

O GENERALÍSSIMO BUSHO E A ARTE DA GUERRA



Publicado por Luis Rainha às 03:09 PM | Comentários (1)

PROGNÓSTICO

Tenho a impressão que hoje à tarde o Alberto João Jardim se vai mascarar de Presidente da Assembleia da República e o Luís Villas-Boas de drag queen.

Publicado por José Mário Silva às 11:43 AM | Comentários (3)

VAI PASSAR

Continuando com a música da época, depois da grande música da democracia portuguesa, não poderia faltar aqui no BdE, no dia de Carnaval, a grande música da democracia brasileira. Vai Passar era para ser um samba-enredo para uma peça de teatro e acabou sendo o hino do movimento Diretas Já, cantada em tudo o que era manifestação para pedir eleições livres.

A letra deste fantástico samba, um dos pontos mais altos da obra de Chico Buarque e Francis Hime, pode ser lida aqui. A história da sua criação pode ser vista aqui. Recordamos que em Junho deste ano Chico completa 60 anos. Não deixaremos a efeméride passar em branco.

Publicado por Filipe Moura às 01:02 AM | Comentários (9)

fevereiro 23, 2004

UMA PEQUENA HISTÓRIA QUASE INTERACTIVA (2)

Aproveitei este Carnaval para me disfarçar de gajo que percebe de HTML. De modos que aqui fica a ciber-versão de uma pequena história que já circulava por aí. Abaixo, estão dois links; a cada um corresponde um sentido na navegação pelo texto. Ah; cuidado com o botão do volume, que a coisa tem banda sonora.



Contagem / Decrescente

Publicado por Luis Rainha às 11:59 PM | Comentários (4)

GRÂNDOLA

Uma pausa na música carnavalesca para evocar os 16 anos da morte do Zeca. Com a música da democracia portuguesa.

Publicado por Filipe Moura às 08:51 PM | Comentários (7)

DOCUMENTÁRIO POLÍTICO

Hoje à noite (22 horas), na Abril em Maio, será exibido o documentário «FASINPAT», de Daniele Incalcaterra, com a presença do autor. Foi feito em 2002 e tem 64 minutos de duração. Sinopse: «Argentina. Patagónia. Os operários da fábrica de cerâmica Zanon ocupam a fábrica desde 2001 e asseguram a produção, sem o patrão que tinha querido reduzir para metade os salários para .superar a crise.. Conseguem pôr a trabalhar os desempregados da região, com salário igual - 800 pesos. Perto de 100 fábricas na Argentina seguiram este exemplo de luta e a produção passou a fazer-se com o controlo operário».

Publicado por José Mário Silva às 07:19 PM | Comentários (2)

DIA Z

Z de Zeca. Procurem aqui.

Publicado por José Mário Silva às 07:15 PM | Comentários (0)

O ZECA

Há 17 anos, morria Zeca Afonso.
O Zeca.
Não me esqueço do funeral, em Setúbal. A tristeza colectiva de uma multidão, os punhos no ar, as muitas vozes lembrando-o com as suas palavras.
Não me esqueço, sobretudo, dos discos e das canções.
Redondo vocábulo, a morte do trovador.

Publicado por José Mário Silva às 07:13 PM | Comentários (5)

LITERA DURA

Sim, já faço parte das dezenas de milhar de portugueses que leram o «Equador» do Sousa Tavares. Acabei por ler num ápice algo que demorei meses a encarar, num processo que classifico de "ervilhas e ovos escalfados". As páginas foram sendo engolidas sem dificuldade mas também sem grande sabor, excepção feita a pequenos resquícios de refogado. Ervilha atrás de ervilha, página atrás de página, até encontrar um final escalfado. O aproximar do ovo prendeu-me, é verdade, as ervilhas derraparam e aproximaram-se em vertigem de todas as direcções do prato.
O desenlace de gema e clara é interessante, não há lamechices de pinto frustrado. Se não pode comer pão de mafra e fumeiro de barrancos e não gosta de bimbo ou panrico opte pelo meio termo . consuma o «Equador». Palavra de ervilha.
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 06:56 PM | Comentários (1)

PRESIDENCIAIS

Não vale a pena esforçarmo-nos demasiado em campanhas. A agitação cómica de alguns .barões. do PSD, aflitos com a .pressa. de Santana Lopes (passível, segundo eles, de rasteirar o caminho a Cavaco; ou mesmo, quem sabe, de cercear algum sonho oculto de algum deles), não traz nada de novo.
De Santana esperam-se sempre os botes em todas as direcções característicos de qualquer animal político, por mais político ou animal que seja o animal político.
Nada que nos diga respeito.
Se, para nosso ridículo, ele vier a ser eleito Presidente da República, já se antevê o seu discurso apaziguador na tomada de posse:
«De agora em diante», dirá, parafraseando outros grandes políticos chegados à suprema magistratura, «não serei o Presidente da direita ou da esquerda. Serei apenas o Presidente de todas as portuguesas».

Publicado por tchernignobyl às 06:51 PM | Comentários (0)

«RAPARIGA COM BRINCO DE PÉROLA»

Aos quadros de Vermeer, prefiro-os fixos, com moldura. E pendurados numa parede.

Publicado por José Mário Silva às 11:01 AM | Comentários (11)

CARNAVÁLIA

Uma fracção de uma canção do melhor álbum de música brasileira dos últimos anos. Bem adequada à quadra.

Os Tribalistas reúnem as duas principais fontes da MPB tradicional, Rio e Bahia, e acrescentam São Paulo. Têm um bom poeta, um bom compositor e uma boa cantora. Tal como Vinícius, Tom e João, embora sem querer comparar. Mas o resultado é muito bom.

Publicado por Filipe Moura às 01:24 AM | Comentários (19)

fevereiro 22, 2004

PONTE SOBRE O ATLÂNTICO

Conheci finalmente o André Figueiredo e com ele passei um agradável fim de tarde no Quartier Latin. Confirmei que o André tem um conhecimento "no terreno" invejável de Nova Iorque, tendo-me inclusivé descrito alguns locais da cidade que eu não conhecia. (Deveria ter explorado melhor Brooklyn...) Fiquei a saber que, no meu regresso a Nova Iorque, deverei explorar a vida nocturna de Williamsborough. Mas procurei transmitir-lhe alguma da minha experiência de habitante de Long Island, em Long Island, Nova Iorque e nos EUA. Gostei muito, por outro lado, de saber mais sobre a vida de um estudante na cidade de Nova Iorque, uma experiência por que nunca passei. Trocámos ideias sobre política nacional e fiquei mais esclarecido sobre o financiamento de estudantes portugueses no estrangeiro em áreas diferentes da minha. Oportunamente pretendo escrever sobre este assunto e a conversa com o André permitir-me-á fazê-lo mais bem informado. Falámos ainda de música, pois temos vários gostos em comum (vê lá esse concerto do David Byrne no Carnegie Hall, pá). Espero que o André continue, quando tiver tempo, a escrever relatos úteis para quem Nova Iorque não se limite a um quadrado definido por Times Square, Rockefeller Center e o sul do Central Park. Eu por aqui farei o mesmo. Até breve, André.

Publicado por Filipe Moura às 09:04 PM | Comentários (0)

RUBE GOLDBERG E AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES NO IRAQUE


Este cartoon é do grande Pat Oliphant; e usa um dispositivo claramente goldberguiano ao retratar as propostas americanas para a mecânica de futuras eleições no Iraque...

Publicado por Luis Rainha às 08:46 PM | Comentários (10)

ANGÚSTIA

É suposto os dias de Carnaval serem alegres, bem dispostos, brincalhões. Acontece que eu nestas alturas fico triste, deprimido, chateado. Não sei se é pela "obrigatoriedade" de uma pessoa se divertir, e ficar contente à força, se por estar contagiado pela depressão e pelo fado nacional. (Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico)

Publicado por José Mário Silva às 06:41 PM | Comentários (5)

AR DE TONTO?

Longe vão os sábados em que abríamos o "Expresso" em busca de informação fiável, análises perspicazes, colunas interessantes. Hoje, compra-se este semanário em busca de diversão. (Sem esquecer o volume do papel - importante para quem tem lareira ou pássaros em casa.) Folhear a coisa é apreciar um tratado do humor involuntário: notícias inventadas, o Espada e respectiva prole infame, o lóbi descarado a ver se empurram o canastrão de Boliqueime para a Presidência... e, acima de tudo, os editoriais do arquitecto José António Saraiva.
Depois dos papéis de Confidente dos Decisores, de Supremo Influenciador, de Profeta Infalível, o homem arma-se agora em Grande Educador das Massas Obtusas (GEMO). E isto a propósito da questão do aborto.
Na sua última crónica, intitulada "ar do tempo", ele explica-nos de forma sucinta que, hoje, só se fala em despenalizar o aborto por ser moda, por causa do tal air du temps.
Mas graças a Deus que podemos contar com o génio do GEMO para nos apontar o caminho justo, por entre a floresta de enganos que só nos pode levar ao pecado!
É o próprio quem nos dá dois modestos exemplos da sua actividade pedagógica:

1º caso- Um suposto "homem do talho" diz que não acha bem o aborto "mas que, enfim, às vezes não há outro remédio."
O GEMO demole esta inquietação com uma penada retórica: "Se calhar, mais tarde arrependem-se de ter abortado. Conheço mulheres que estiveram para abortar mas que decidiram ter os filhos, e acabaram por se sentir satisfeitas por terem tomado essa decisão."
Resultado imediato: o pobre talhante encolhe-se, esmagado por tanta sapiência; "também ele agora tem dúvidas. Só que nunca tinha pensado no assunto."
2º caso- No refeitório, o sábio encontra um seu jovem subordinado, que se indigna com o recente julgamento de Aveiro, em "pleno século XXI". Mas nada temamos, que o GEMO está a postos!
Fulminante, ele logo responde: "Com tantos métodos anticoncepcionais (...) é preciso uma pessoa ser muito irresponsável para ter de recorrer ao aborto! (...) Se calhar, deviam empenhar-se mais em alertar as mulheres para que o aborto é uma prática horrível, que deixa marcas muito profundas".
O efeito é de novo imediato: "o meu interlocutor olha-me surpreendido. O que eu digo é evidente mas nunca lhe tinha ocorrido. Ele defendia o aborto apenas porque isso corresponde ao .ar do tempo.".

Houve mesmo quem decidisse gastar bom papel, produzido graças ao abate de centenas de árvores inocentes, para imprimir isto. Agora que tenho a lareira acesa, já estou calmo o bastante para escrevinhar uns comentários:
1- A amiga do arquitecto escolheu levar a gravidez até ao fim e está feliz; ainda bem. Mas fulcral é isto: a amiga teve direito à escolha. À escolha que o GEMO quer ver negada às outras mulheres deste País. E até apostaria eu que a amiga teve informação . e dinheiro- suficiente para ficar indecisa entre Badajoz ou Londres, ao seleccionar o local onde poderia terminar a gravidez. Não me parece que as mulheres do "povinho" tenham direito a tais hesitações.
2- Provavelmente, o subordinado do GEMO lembrou-se dos conselhos que ouviu ao entrar para o jornal: "acima de tudo, nunca o contraries!" É a única explicação para não ter logo perguntado ao omnisciente patrão por onde andam a informação generalizada e a disponibilidade universal de métodos anticoncepcionais que ele parece ter por certas. Sem esquecer que nenhum método é 100% eficaz; quando a coisa falha, muitas vezes não há outras "soluções" para além do aborto.
O que o GEMO nos diz é isto: as mulheres são umas irresponsáveis e ignorantes que recorrem ao aborto porque nem imaginam que se trata de uma experiência "horrível". E só devem ter direito a escolher quando decidem levar a gravidez ao seu termo natural.

Depois, o GEMO, dedica uma linhas a explicar-nos porque é que a prescrição médica de derivados do Cannabis é um absurdo: "não há nenhum argumento médico que implique o uso da cannabis: os seus efeitos podem ser obtidos através de outros produtos". E acabou-se a discussão, sepultada por tão douta erudição.
Que haja países onde este uso clínico já seja autorizado, e outros onde está em estudo, só pode ser explicado de uma forma: os seus governos ainda não tiveram a honra e o privilégio de ter uma "conversita" com o GEMO. Senão, estariam já iluminados. Como o "homem do talho" e o jovem jornalista da fantasia do arquitecto.

Publicado por Luis Rainha às 05:42 PM | Comentários (10)

JAZZ TENSO



Miles despediu Coltrane do seu quinteto por causa dos longos solos em que Trane se perdia. Hummm... A tensão entre os dois acumulara-se lentamente. Demorou dois anos. 1955-57. Coltrane justifiva-se com a prepotência das ideias que não paravam de usurpar-lhe os neurónios, impedindo-o de parar no tempo previsto. Miles foi ficando cada vez mais irritado. Deu murros na mesa e exasperado levantou bem alto o tom de voz. Os génios estavam no limite. Miles vociferou e fez um ultimato a Trane, dizendo-lhe que tinha de conseguir travar o ímpeto das ideias e a obstinação solipsista. Mas na hora do solo Coltrane voltou a ser impotente ante a sua própria natureza. O solo alongou-se e arrastou-o irremediavelmente para fora do mítico quinteto de Miles. A verdade é que os solos infinitos deTrane eram trips de heroína. Sobre o inferno da droga Miles sabia o suficiente e passados muitos anos veio a saber demasiado. Ao despedir Coltrane, Miles não fazia ideia que o atirava para a trincheira de um novo jazz. A chamada «Coisa Nova». O vanguardismo puro e duro. A dissonância ciclópica e fosfórica. O ruído carburante. A free-tadeira revólver-cionária. Esqueçamos Ornette Coleman por instantes. Aí, Coltrane teve como principal cúmplice Eric Dolphy, saxofonista alto e clarinetista baixo. Um radical-livre dotado de um sopro de magnitude sísmica. Miles não suportava Dolphy. Dizia que Dolphy não fazia música mas sim barulho. Eu gosto da tríade. Miles, Trane, Dolphy. Não sei viver sem eles. (Thirdbacus)

Publicado por José Mário Silva às 03:26 PM | Comentários (6)

NOVO ITÁLICO

Nós já o conhecíamos bem das caixas de comentário. O thirdbacus é daqueles opinadores fiéis, que nos lêem todos os dias e deixam sempre uma ideia, um complemento, uma emenda factual, uma piada, uma provocação. Agora, passou para o lado de cá, na célebre qualidade de itálico. Fala de jazz e das tensões entre dois gigantes (Miles vs Coltrane), com um misto de paixão e conhecimento de causa. Não lhe falta ritmo, balanço, swing. E eu diria que estamos perante, não o princípio, mas a continuação de uma bela amizade.

Publicado por José Mário Silva às 03:23 PM | Comentários (2)

EU VI O FUTURO, E É BEM COMPLICADO

Há uns anos, os produtos de limpeza perfilavam-se nas nossas prateleiras com a alegria simplória de personalidades unas e honestas. Depois, alguém inventou os champôs que também amaciam a rebeldia capilar; chegara a triunfante era do "dois-em-um".
Agora, acabo de pôr olhos numa embalagem de uma coisa chamada "Calgonit 3 em 1".
O futuro aterroriza-me. Receio que, quando a minha filha chegar à idade de gerir a sua própria economia doméstica, já terá de se haver com a complexidade inaudita do indispensável "Calgonit 13 em 1". (Este deverá vir com um manual de 30 páginas que a custo explicará todas as suas benfazejas propriedades...)

E julgava este homem que as suas engenhocas imaginárias eram complicadas...


Picture Snapping Machine

As you sit on pneumatic cushion (A), you force air through a tube (B) which starts ice boat (C), causing lighted cigar butt (D) to explode balloon (E). Dictator (F), hearing loud report, thinks he's been shot and falls over backward on bulb (G), snapping picture!

Publicado por Luis Rainha às 01:06 PM | Comentários (5)

MANHÃ DE CARNAVAL

Manhã, tão bonita manhã...

Luís Bonfá/António Maria

(Agradeço ao André a informação técnica.)

Publicado por Filipe Moura às 03:29 AM | Comentários (4)

fevereiro 21, 2004

A MÁQUINA DO TEMPO

400 Km e 4 horas depois, chego às profundezas chuvosas e mal iluminadas do País Real. Dentro da casa, faz mais frio do que lá fora. A lâmpada da entrada fundiu-se e está a 5 metros do chão. Ligo o portátil e reparo que, pela primeira vez desde que por aqui ando, deixei passar um dia sem incomodar os leitores do BdE. Bem, pelo menos esta última contrariedade tem solução pouco trabalhosa: uma pequena trafulhice com as definições do post e já está feita a milagrosa viagem no tempo que anula o meu desmazelo.
Se houvesse disto nos dias do H.G. Wells...

Publicado por Luis Rainha às 11:59 PM | Comentários (1)

COINCIDÊNCIA

No outro dia, estava eu a ler, com o habitual deleite, um post do Alexandre sobre «o fôlego lírico das mensagens de erro informáticas», quando uma outra janela do Internet Explorer, através da qual tentava aceder a um site difícil, abriu de repente dizendo: «Internal Server Error - The server encountered an internal error or misconfiguration and was unable to complete your request». É disto que eu mais gosto: a forma subtil como o acaso e as coincidências se intrometem nas nossas vidas. Se tivesse um caderno vermelho, como o Paul Auster, já haveria (mais) uma história para contar.

Publicado por José Mário Silva às 11:22 PM | Comentários (0)

ANTROPOFAGIA CULTURAL

Na casa de crepes, pedimos um Voltaire (queijo/fiambre) e um Mozart (açúcar e canela). Ao nosso lado, há quem se lambuze com Beethoven; quem debique Van Gogh. Triste condição dos génios de antanho: serem devorados, num franchising do Colombo, por flâneurs de fim-de-semana que nem sequer conhecem os nomes, quanto mais as obras.

Publicado por José Mário Silva às 11:10 PM | Comentários (2)

EUFORISMO

O ministro da Segurança Social é tão católico, tão católico, tão católico que para ele o pior insulto é chamarem-lhe Pagão Félix.

Publicado por José Mário Silva às 02:40 PM | Comentários (8)

O TRISTE «FIM» DE ARNON MAARTEN

De António Correia Guerreiro, o musicólogo que gentilmente nos tem cedido os seus textos de análise à obra de Arnon Maarten (1933-1996), recebemos a seguinte carta:

Caro José Mário Silva,
Em primeiro lugar gostaria de lhe agradecer a simpatia e dedicação com que tem vindo a publicar no Blogue de Esquerda II os meus textos sobre a «Vida e Obra de Arnon Maarten».
Acontece que na último fim-de-semana fui vítima de um "acidente" informático (o meu computador portátil . único local onde conservava os textos sobre Maarten . foi atacado por um vírus informático que me obrigou, já na segunda-feira, a formatar o disco rígido) que me impede de continuar a enviar-lhe os referidos e prometidos textos.
Uma vez que estou em fase de intensa investigação para conclusão da minha tese de doutoramento sobre o compositor em causa, não me resta tempo (nem forças, admito) para fazer de novo todos os textos que tinha já preparado para o Blogue. Como sabe, tinha já em tempos redigido todos os textos, mas concordámos que só lhos ia enviando após rever cada um. Como os perdi todos (salvam-se os que já tinham sido publicados por si), a falta de tempo (e motivação) para voltar a redigir textos acessíveis ao comum dos leitores sobre cada uma das obras de Maarten deixa-me como única alternativa a conclusão precipitada da minha colaboração no seu blogue.

Sem lhe querer fazer promessas, pode ser que um dia, finda a minha tese e ultrapassado o trauma de ter perdido os textos anteriores (salvaram-se os meus textos de investigação, excepto uma ou outra actualização mais recente, dado que com estes trabalhos tive o cuidado de ir gravando CD's...), tenha oportunidade e vontade de escrever do zero os textos que faltam para a conclusão do projecto que combinámos.
Para já terá de ficar mesmo por aqui. Espero que compreenda.
Com os melhores cumprimentos,
António Correia Guerreiro
Roterdão, 20 de Fevereiro de 2004

Como é óbvio, não só compreendemos a "tragédia" informática, como a lamentamos profundamente. Resta-nos agradecer a ACG o seu contributo e esperar que um dia possa ser reatado.

PS: A quem possa interessar, deixamos a lista completa das obras do compositor holandês.

LISTA COMPLETA DAS OBRAS DE ARNON MAARTEN (1933-1996)

1ª fase:
. Op. 1 - Peça para piano, 1961 (8 min)
. Op. 2 - Trio para viola, contrabaixo e piano, 1961 (17 min)
. Op. 3 - Sonata para piano nº 1, 1963 (14 min)
. Op. 4 - 8 peças soltas [piano], 1963 (26 min)
. Op. 5 - Evocação da guerra [piano e percussão], 1964 (8 min)
. Op. 6 - Evocação da guerra nº 2 [violoncelo e percussão], 1964 (8 min)
. Op. 7 - Evocação da guerra nº 3 [violoncelo e piano], 1964 (1,5 min)
. Op. 8 (nºs. 1 a 12) - Primeiro cancioneiro [soprano e piano], 1965 (34 min)
. Op. 9 - Nadine [piano], 1965 (11 min)
. Op. 10 - Duo para violoncelos, 1965 (19 min)
. Op. 11 - Quarteto de cordas nº 1, 1966 (21 min)
. Op. 12 - Esboço sinfónico [orquestra], 1966 (10 min)
. Op. 13 (nºs. 1 a 7) - Segundo cancioneiro [barítono e orquestra], 1966 (28 min)
. Op. 14 - Evocação de Cristo nº 1 [piano], 1966 (4 min)
. Op. 15 - Música para mesa de café [clarinete], 1967 (15 min)
. Op. 16 - Silêncios [voz solo], 1967 (7 min)
. Op. 17 - Evocação de Cristo nº 2 [orquestra], 1967 (11 min)
. Op. 18 - Sinfonia nº 1, 1967 (39 min)
. Op. 19 (nºs. 1 a 4) - Terceiro cancioneiro [contratenor e quarteto de cordas], 1968 (17 min)
. Op. 20 - Variações sobre um tema jazz [orquestra], 1968 (29 min)
. Op. 21 - Concerto para piano e orquestra nº 1, 1969 (22 min)
. Op. 22 - Quarteto de cordas nº 2, 1970 (30 min)
. Op. 23 - Sonata para piano nº 2, 1970 (16 min)
. Op. 24 - Trio para piano, violoncelo e fagote, 1970 (20 min)
. Op. 25 (nºs. 1 a 9) - Quarto cancioneiro [menino soprano, contratenor, baixo e violoncelo], 1970 (33 min)
. Op. 26 - Missa de câmara [tenor, quarteto de cordas e cravo], 1970 (3 min)
. Op. 27 - Peça para guitarra de 10 cordas, 1970 (4 min)
. Op. 28 - Revisão do Op. 1 [piano], 1971 (30 seg.)
. Op. 29 - Abertura para orquestra, 1971 (6 min)
. Op. 30 - Quarteto de cordas nº 3; com piano, 1971 (18 min)
. Op. 31 - Quinto cancioneiro [guitarra solo], 1972 (12 min)
. Op. 32 - Sinfonia nº 2, 1972 (36 min)
. Op. 33 - Evocação da guerra nº 4 [orquestra], 1972 (19 min)
. Op. 34 - Sonata para violoncelo e piano, 1972 (17 min)
. Op. 35 - Concerto para piano e orquestra nº 2, 1974 (14 min)
. Op. 36 - Sinfonia nº 3, 1978 (59 min)

2ª fase:
. Op. 37 - Sonata para violoncelo solo, 1981 (20 min)
. Op. 38 - Cantata de fim de ano [soprano, contralto, tenor, barítono e orquestra], 1983 (47 min)

. Op. 39 - Sinfonia nº 4, 1983 (56 min)
. Op. 40 - Sonata para piano nº 3, 1984 (22 min)
. Op. 41 - Concerto para violoncelo e orquestra, 1985 (38 min)

3ª fase:
. Op. 42 (nºs. 1 a 6) - Sexto cancioneiro [baixo e violoncelo], 1988 (20 min)
. Op. 43 - Catorze variações sobre um tema original [piano], 1988 (26 min)
. Op. 44 - Oito variações sobre um tema pop [cravo], 1989 (21 min)
. Op. 45 - Finale para grande orquestra, 1991 (5 min)
. Op. 46 - Dez variações sobre um tema de de Cavalieri [quarteto de 2 violas e 2 violoncelos], 1993 (31 min)
. Op. 47 - Sinfonia nº 5, 1993 (27 min)
. Op. 48 - Concerto para viola, flauta e violinos, 1994 (11 min)
. Op. 49 - Requiem para violoncelo e piano, 1994 (43 min)

NOTA: a bold aparecem as obras estreadas em vida do compositor. Para cada obra é indicado o ano da sua composição, bem como a duração aproximada estimada pelo compositor para a interpretação da mesma. Indica-se também, dentro de parêntesis rectos, o efectivo instrumental e/ou vocal para cada peça, sempre que tal não é explícito no próprio título da obra.

Publicado por José Mário Silva às 02:30 PM | Comentários (2)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (11)

Pelos motivos que se mencionarão noutro post, o musicólogo António Correia Guerreiro termina hoje a sua colaboração com o BdE. A análise do opus 10 de Arnon Maarten é o texto final de um projecto que pretendia apresentar a obra completa do compositor holandês. Nos próximos tempos, hélas, isso não será possível. Fiquemos então com esta última prosa, em tons de despedida.

Duo para violoncelos Op.10, de 1965 (19 min)
I . Allegro; II . Marcia; III . Final

Logo após a .secreta. composição do Op. 9 para a mulher que acabara de conhecer, Arnon Maarten embarca na composição de uma peça para o instrumento de Nadine: o violoncelo.
O Op. 10 será a primeira de diversas obras em que o violoncelo de Nadine assume um papel preponderante na escrita de Maarten. Após todas as revisões e eliminações, chegaram até nós cinco peças compostas para Nadine, que viria a estrear três em vida de Arnon Maarten (a sonata para violoncelo e piano, Op. 34, a sonata para violoncelo solo, Op. 37, e o concerto para violoncelo e orquestra, Op. 41), bem como o opus final (Requiem para violoncelo e piano), que interpretaria aquando da morte do marido.
Assim, de entre as obras que Arnon Maarten compôs para Nadine, apenas este Duo não terá sido interpretado pela violoncelista, pelo menos em público, até à data.
Desconhecem-se as razões para esta lacuna, mas podemos supor que tal se deverá, pelo menos em não pequena parte, aos escrúpulos de Maarten para com a sua própria criação, que eventualmente não consideraria suficientemente bem conseguida para que a .sua. Nadine a interpretasse diante de terceiros.

O Duo inicia-se num andamento marcado Allegro, em que os dois violoncelos surgem identificados como Nadine e baixo contínuo. Durante todos os cerca de dez minutos que dura o andamento, o segundo violoncelo limita-se a repetir um tema de apenas oito notas, de claros contornos minimais, ao passo que o primeiro violoncelo recebe total protagonismo, o que faz com que este Duo se inicie .no fundo como uma peça para violoncelo solo encapotada..
Nadine aventura-se assim numa .passeata irrequieta por caminhos muito livres, transportado seguramente por mãos sábias, ágeis e determinadas, que se encarregarão de extrair toda a beleza possível de um denso conjunto de notas francamente difícil..
Efectivamente, parece que Arnon Maarten tentou coligir neste andamento o maior número possível de dificuldades técnicas que um violoncelo pode oferecer aos seus intérpretes, explorando todos os recursos e registos do instrumento, numa espécie de .sequência lógica que parte de Bach, pára em Kodály e termina aqui..
O segundo andamento apresenta-nos uma marcha muito peculiar em que, durante cerca de quatro minutos, o primeiro violoncelo (que agora já só surge assim identificado, caindo a designação Nadine) .assume um papel percutivo, com o arco enfrentando as cordas à maneira do mais militar dos tambores..
Cabe agora ao segundo violoncelo (que também já não se designa baixo contínuo) a interpretação de duas frases melódicas que se vão alternando até final do andamento.
O primeiro dos dois curtos temas é, no fundo, uma escala descendente, que percorre todo o registo do instrumento, ao passo que o segundo tema corresponde a uma série de cinco notas que .marcham. em passo minimal por todo o andamento.
Maarten viria a classificar esta Marcia como .uma das peças mais simples e desinteressantes que fui capaz de compor, vazia de quaisquer rasgos criativos ou dificuldades técnicas., mas que sempre .[.] agradou, como contraponto à frenética orgia de notas do anterior andamento, quanto mais não seja, pelas potencialidades de ironia proporcionadas pelo contraste..
O Duo Op. 10 conclui-se com uma fuga canónica para os dois violoncelos (que apenas surgem na partitura identificados como violoncelo, sem mais especificações), interpretada em prestissimo, em que Maarten volta .ao espírito de Bach do primeiro andamento, mas desta vez na sua componente organística e formal., conseguindo um andamento de grande efeito e um final apoteótico para a sua peça.
Temos pois um conjunto de três andamentos muito diversos, em que parece que o autor assume a vontade de explorar ao máximo as potencialidades de um instrumento que até então não lhe merecera demasiada atenção, como se soubesse que precisaria de dominar bem a técnica composicional para o violoncelo, pois a ela teria de recorrer no futuro, a fim de presentear a .sua. Nadine com algumas das suas criações mais conseguidas. O Op. 10 é assim uma .obra quase iniciática. e de uma deliberada tentativa, por parte de Arnon Maarten, de .criar a maior empatia e familiaridade com o instrumento do instrumento dos [seus] sonhos..

Publicado por José Mário Silva às 02:22 PM | Comentários (0)

fevereiro 20, 2004

UM POST RESSUSCITADO

Já estou a perceber que toda a gente saiu deste estaminé antes da hora regulamentar. Talvez atraídos pelas delícias indolentes de um fim-de-semana prolongado, longe de blogues, computadores e outras modernices incómodas.
Eu confesso que também vou embarcar num retiro por paragens bucólicas, numa daquelas aldeias tão ínfimas que nem vêm nos mapas mais reputados. A ver vamos se me lembro de levar a câmara digital para vos transmitir um dos lindos rituais de Carnaval em que os moços rurais se embebedam até cair para o lado e desatam a pegar fogo a tudo o que topam pela frente.

Até lá, resta-me beber inspiração no surrealismo que andou por aqui à solta na noite de ontem e apresentar-vos um casamento entre o meu pintor preferido, Giorgio de Chirico, e um belíssimo poema de Sylvia Plath, inspirado precisamente por esta pintura.



Giorgio de Chirico é, para mim, o espírito mais original de toda a Arte moderna. Sim; sei que foi influenciado por Arnold Böcklin e talvez por Fuseli. Sei que a geometria do cubismo também contagiou as praças e os monumentos solitários do italiano. Mas nada consegue diminuir ante os meus olhos a radical novidade da sua obra (pelo menos aquela produzida até 1919). Nada diminui o assombro de viajar por estas avenidas carregadas de ausência, por estas arenas habitadas apenas por mudos manequins e estranhos presságios.
As "Musas Inquietantes" pertencem ainda à sua fase proto-surrealista - que depois ele viria a renegar - e foi alvo de mais de 60 (!) "falsificações" do próprio pintor.

The Disquieting Muses

Mother, mother, what illbred aunt
Or what disfigured and unsightly
Cousin did you so unwisely keep
Unasked to my christening, that she
Sent these ladies in her stead
With heads like darning-eggs to nod
And nod and nod at foot and head
And at the left side of my crib?

Mother, who made to order stories
Of Mixie Blackshort the heroic bear,
Mother, whose witches always, always
Got baked into gingerbread, I wonder
Whether you saw them, whether you said
Words to rid me of those three ladies
Nodding by night around my bed,
Mouthless, eyeless, with stitched bald head.

In the hurricane, when father's twelve
Study windows bellied in
Like bubbles about to break, you fed
My brother and me cookies and Ovaltine
And helped the two of us to choir:
'Thor is angry : boom boom boom!
Thor is angry : we don't care!'
But those ladies broke the panes.

When on tiptoe the schoolgirls danced,
Blinking flashlights like fireflies
And singing the glowworm song, I could
Not lift a foot in the twinkle-dress
But, heavy-footed, stood aside
In the shadow cast by my dismal-headed
Godmothers, and you cried and cried :
And the shadow stretched, the lights went out.

Mother, you sent me to piano lessons
And praised my arabesques and trills
Although each teacher found my touch
Oddly wooden in spite of scales
And the hours of practicing, my ear
Tone-deaf and yes, unteachable.
I learned, I learned, I learned elsewhere,
From muses unhired by you, dear mother.

I woke one day to see you, mother, Floating above me in bluest air
On a green balloon bright with a million
Flowers and bluebirds that never were
Never, never, found anywhere.
But the little planet bobbed away
Like a soap-bubble as you called : Come here!
And I faced my traveling companions.

Day now, night now, at head, side, feet,
They stand their vigil in gowns of stone,
Faces blank as the day I was born,
Their shadows long in the setting sun
That never brightens or goes down.
And this is the kingdom you bore me to,
Mother, mother. But no frown of mine
Will betray the company I keep.


Lendo este poema num programa de rádio da BBC, Plath comentou: "It borrows its title from the painting by Giorgio de Chirico--The Disquieting Muses. All through the poem I have in mind the enigmatic figures in this painting--three terrible faceless dressmaker's dummies in classical gowns, seated and standing in a weird, clear light that casts the long strong shadows characteristic of de Chirico's early work. The dummies suggest a twentieth-century version of other sinister trios of women--the Three Fates, the witches in Macbeth, de Quincey's sisters of madness."

PS: Já tinha feito esta associação num outro local; mas também tenho direito à preguiça, que diabo! Quem quiser ouvir o poema "Lady Lazarus" lido pela própria Plath em 1962, encontra-o aqui.

Publicado por Luis Rainha às 04:51 PM | Comentários (5)

PERDIDOS NA TRADUÇÃO

Ao ler Finkielkraut e Steiner, deparo com duas abordagens opostas às figuras do poliglota e do exilado. Enquanto que, para Finkielkraut, o poliglota é, tal como o exilado, um homem condenado a permanecer sem identidade, alguém que vive na fractura entre o mundo da palavra e o mundo dos afectos; na opinião de Steiner o exilado, tal como o poliglota, por ser imune ao "blut und boden" e ao "la terre et les morts", é um ser emancipado das nostalgias que originaram a tragédia do século XX.
Pergunto-me: não será a nostalgia, o sentimento de pertença a um lugar ao qual possamos regressar, ao qual também possamos renunciar, um aspecto definidor da humanidade? Sem Pátria, sem Língua . mesmo que seja apenas para rejeitá-las tal como nos querem impô-las, com maiúsculas . ainda somos homens da linhagem de Ulisses? Ou já somos algo radical e admiravelmente novo? Fantasmas, aparições, corporizações do "jet-lag"? Aquilo que se perde na tradução?
(Bruno Vieira Amaral)

Publicado por José Mário Silva às 04:42 PM | Comentários (4)

BOLETIM CLÍNICO

1) Quero agradecer a todos os leitores e bloggers que se manifestaram preocupados com o meu estado de saúde e me desejaram as melhoras.
2) Depois do sobressalto de terça-feira, as coisas serenaram. Ainda não estou em forma, mas para lá caminho. Podem ficar descansados.
3) O "repouso absoluto" foi mesmo curto. Ontem e hoje, voltei ao trabalho a 100%. Ao trabalho pago, entenda-se.
4) Amanhã, com mais calma, narrarei (para quem estiver interessado em relatos expressionistas) «a minha noite em S. José».

Publicado por José Mário Silva às 04:37 PM | Comentários (1)

O SUSPEITO DO COSTUME

Publicado por José Mário Silva às 04:32 PM | Comentários (5)

QUEM ACREDITA NESTE MILAGRE?

Num post anterior, desenvolveu-se uma discussão curiosa, via comentários, acerca do dito "milagre económico chileno", que terá ocorrido sob a batuta dos Chicago Boys de Friedman, durante o reino do ogre Pinochet.
Comentou JCD: "Quando Fidel chegou ao poder, Cuba e Chile estavam ao mesmo nível. Hoje, pior que Cuba restará o Haiti. Melhor que o Chile, já não há."

Retorqui, indo buscar um bookmark antigo, referente a este artigo do colunista do "Observer" Greg Palast.
Vou fazer um resumo da coisa ( mas leiam o artigo completo, que até está em Castelhano), começando por alguns factos interessantes:
Em 1973, quando Pinochet tomou o poder, a taxa de desemprego no Chile era de 4.3%. Em 1983, depois de 10 anos de liberalização selvagem, já atingia os 22%. Os salários reais baixaram 40% sob o governo militar.
Em 1970, 20% da população do Chile vivia na pobreza. Em 1990, quando o ogre saiu do poder, este número duplicara. Belo milagre.
Mas as revelações estavam só a começar:

Nem tive muito trabalho para encontrar mais análises sobre o tal "milagre" que ainda hoje é reverenciado pela escola liberal como se se tratasse da segunda vinda de Cristo à Terra. Por exemplo:
Entre 1972 e 1987, o PNB per capita caiu 6,4%. Em dólares constantes de 1993, o PNB per capita do Chile ultrapassava os $3.600 em 1973. Já em 1993, este apenas recuperara até aos $3.170.
Apenas 5 países da América Latina tiveram um desempenho pior neste indicador, durante os anos "miraculosos" de Pinochet (1974-1989).

Que se terá passado? Algumas das primeiras iniciativas de Pinochet foram: privatizar mais de 200 empresas industriais estatais e 66 bancos; eliminar o salário mínimo e os impostos sobre a riqueza; anular o poder negocial dos sindicatos; amputar a função pública. Resultados? Só em 1982 e 1983, o PNB caiu 19%. As empresas privatizadas, por preços bem abaixo dos seus valores reais, acabaram nas mãos de apenas dois grupos, que passaram a dominar a economia chilena, através de uma espécie de esquema piramidal: com o dinheiro dos seus bancos e apoiados em garantias das suas próprias companhias, começaram a adquirir tudo o que lhes passava à frente. Até 1982, ano em que a pirâmide estourou e ambos os grupos faliram.
Chegado aqui, Pinochet viu-se obrigado a engrenar a marcha-atrás: o salário mínimo e a negociação com os sindicatos regressaram; a função pública "inchou" em meio milhão de empregos; até surgiu a que ainda é a única lei da América do Sul a restringir a circulação de capitais estrangeiros.
Ou seja, foram as velhas receitas do Keynesianismo a salvar a situação. No entanto, o mais estranho estava para vir.
Para evitar a derrocada do sistema de segurança social, Pinochet começou a nacionalizar bancos e indústrias. Fê-lo numa escala bem mais ampla que a do "perigoso comunista" Allende.
Mesmo após as posteriores re-privatizações, um importante sector permaneceu nas mãos do estado: o cobre. Com a folclórica curiosidade de 10% dos lucros do cobre estatal continuarem a pertencer às forças armadas...

O cobre tem representado entre 30 a 70% das exportações do Chile, sendo ainda hoje o motor por detrás da relativa prosperidade deste país. Mas trata-se de um motor nacionalizado, que pouco tem a ver com a "relação entre desenvolvimento e liberdade Económica" que JCD deduziu dos números.
Por outro lado, a agricultura é mais um dos esteios da economia chilena actual; mas apoiada numa classe de proprietários e cooperativas que só tiveram acesso à posse da terra após a reforma agrária levada a cabo pelo governo de Allende!
Palast cita o Professor Arturo Vasquez, da Universidade de Georgetown (esse perigoso antro de esquerdistas), que atribui o sucesso agrícola chileno à destruição do esquema feudal de propriedade antes vigente: "Para ter um milagre económico, talvez seja preciso um governo socialista para antes fazer uma reforma agrária". Ou seja; este académico concorda com o que seria, para JCD, uma brincadeira de "Carnaval"!
Agora, deixo aqui a pergunta retórica: somando tudo isto, quem terá salvo o Chile? Friedman ou o ultrapassado receituário de Keynes?

No seu último comentário, JCD chamou-me a atenção para evolução do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Sobretudo para a evolução que o Chile teve entre 1975 e 2000: 18%. Parece-me muito bem. Mas, pelo que ficou exposto acima, continuo sem ver a relação entre tal surto de desenvolvimento e a "liberdade Económica".

Mas há mais. Pegando no útil Índice de Desenvolvimento Humano . que eu até já tinha referido aqui no BdE, a propósito de Cuba . olhemos para a sua edição relativa aos dados de 2001.
Que encontramos? A situação descrita por JCD: "Hoje, pior que Cuba restará o Haiti. Melhor que o Chile, já não há"? Ou algo de diferente?
Vejamos: Cuba está em 52ª posição, com um índice global de 0,806. O Chile segue em 43º lugar, com 0,832. Ambas as nações estão no patamar de "Desenvolvimento Elevado"; não há qualquer abismo a separá-las.
E há "melhor que o Chile": o Uruguai (40º) e a Costa Rica (42ª) estão à sua frente, para nem mencionar a Argentina (34ª), que hoje deve ter posição algo diferente...
Por outro lado, e sem sair das vizinhanças, Cuba bate nações cheias de liberdade económica como: México, Panamá, Colômbia, Brasil, Venezuela, Jamaica, Peru, Paraguai, Granada e a República Dominicana. Enganou-se ligeiramente o JCD quando me garantia que "pior que Cuba restará o Haiti". (A bem da verdade, este país segue num pouco honroso 150º lugar.)


PS: de Economia, sobram-me uma ténues luzes de duas cadeiras estudadas já há quase 20 anos. A informação acima, e muitas das conclusões, é obra de gente mais informada que eu. Se alguém dentro do assunto quiser enriquecer o que ficou exposto, agradeço. A sério.

Publicado por Luis Rainha às 01:07 PM | Comentários (4)

VIVA AFONSO COSTA!

Existe um número enorme de mal-entendidos no debate sobre a legislação francesa proibindo os símbolos religiosos ostensivos. Em parte, porque em Portugal é mal conhecida a tradição laica francesa. Para agravar o caso, parece haver muitos interessados (uns à direita e outros "muito" à esquerda) em dar da laicidade uma ideia distorcida.
A laicidade consiste (entre outras coisas) em criar um sistema em que cada um possa seguir uma religião, mudar de religião, ou até abandonar a religião. E quem diz "religião" diz o conjunto de preceitos a ela ligados.
O problema em França é justamente a tentativa de alguns grupos extremistas de criarem uma "comunidade" muçulmana que não abandone esses preceitos, e que imponha ao Estado todas as cedências possíveis para os cumprir. Daí as pressões para que haja horários segregados para mulheres muçulmanas nas piscinas municipais, para que os serviços de saúde não coloquem médicos-homens a examinar mulheres muçulmanas, para que o genocídio dos judeus não seja mencionado nas aulas de História, para que as raparigas não frequentem as aulas de ginástica, etc. Essas pressões incluem insultos e agressões contra as raparigas de origem magrebina que se recusam a usar o véu. (Este é um aspecto que tem sido negligenciado no debate em Portugal.)
Contra a ditadura da família e da "comunidade" de origem, é justificável que o Estado imponha na escola a libertação dessa opressão. Porque a escola não é um sítio qualquer. E o véu islâmico é parte de uma estratégia para impedir o convívio entre raparigas de origem muçulmana e rapazes. É uma limitação de um direito fundamental, ou seja, da liberdade de expressar uma pertença religiosa? Sim. Mas também existe o direito de cada moça a abandonar a religião da sua família e dos seus antepassados. (Para além do direito a uma escola pública livre de pressões proselitistas.) Está-se a forçar essas raparigas a abandonarem a sua fé? Não. Está-se a criar a possibilidade de aprenderem que existe algo mais para além daquilo que lhes foi transmitido por via familiar. De serem senhoras do seu destino. Entre o forte e o fraco, por vezes é a liberdade que oprime e a lei que liberta.
(Ricardo Alves)

Em Portugal, infelizmente, sabe-se pouco de laicidade. Ignora-se que a escola francesa se laicizou há quase um século (em 1905!), e que isso significa total ausência de símbolos religiosos e mesmo de "Educação Religiosa" (mesmo que facultativa) na escola pública. E que foi feito contra a ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana), que evoluiu face às pressões francesas e outras (Viva Afonso Costa!), e que hoje se encontra em posições mais recuadas. O Islão também pode recuar sem deixar de existir. E existem boas razões para que recue.
Não me venham com "relativismos" culturais. Uma "cultura" que transforma as raparigas em "coutada sexual reservada" ou lhes impede o acesso à contracepção não me merece respeito. Seja católica ou muçulmana.

Publicado por José Mário Silva às 11:20 AM | Comentários (3)

QUER ACABAR COM A FOME NO MUNDO? VÁ AO TOTTA!

Anda por aí uma campanha publicitária que nos fala do sofrimento das crianças subnutridas em África. Com palavras duras: "algumas tão fracas que nem podem ser vacinadas", "algumas não resistem". (Cito de memória.)
Como acabar com este flagelo?
Enviando dinheiro a ONGs de boa reputação? Trabalhando para angariar donativos? Chateando os nossos políticos para que a solidariedade seja coisa real? Indo lá?
Nada disso. Quem quiser alimentar as crianças de África só tem de abrir uma "Conta Ordenado" no Totta. É-nos prometido, sem grandes pormenores, que os magnânimos senhores do banco vão mesmo ajudar as crianças de Angola, em parceria com a AMI. Acredito. Agora, quanto darão ao certo por cada conta aberta, é coisa que ninguém diz.
Certo é que "abrir uma conta é quanto basta para ajudar a tirar crianças do estado de desnutrição".
Este tipo de marketing vampírico sempre me irritou. E por alguma razão é proibido ou ferozmente regulamentado em muitos países mais civilizados. Se querem dar dinheiro a boas causas, por que diabo é que fazem depender essa generosidade da venda de mais uma tralha qualquer?
Claro que dá muito menos trabalho apelar ao sentimento do que criar produtos que ofereçam vantagens bastantes, por si mesmos, para atrair novos consumidores.

O pior é que, por este andar, a pouca sensibilidade que o nosso público reserva para tais desgraças distantes não tardará a ficar reduzida a zero:
- Preocupar-me? Porquê? Se hoje já comi um hambúrguer, já usei o meu cartão de crédito e até duas cervejas bebi, que querem que faça mais? Disseram-me na rádio que isto é "quanto basta"!

Publicado por Luis Rainha às 10:59 AM | Comentários (17)

A REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

Cartoon de Mike Lane («The Baltimore Sun»)

Publicado por José Mário Silva às 10:50 AM | Comentários (2)

PARTE DA MINHA VIDA

Olhando para trás, desde que há pouco mais de um ano entrei para a blogosfera por intermédio do BdE I, e graças a iso, já fiz vários amigos blogosféricos. Felizmente, só amigos. Que leio quotidianamente e que fazem parte da minha vida.
O Zé Mário e o Pedro Mexia já faziam parte da minha vida há vários anos, por via do DN Jovem (de que eu era leitor). Travar conhecimento físico com eles foi, para mim, algo perfeitamente natural. Já lhes conhecia as fotografias. Se os visse na rua, saberia identificá-los. Outros bloggers que conheci, como o Daniel e o RAP, e ex-bloggers (infelizmente) como o Pedro Lomba (sobre quem tenho ainda muito para dizer), só faziam parte do meu quotidiano desde um tempo mais recente, quando entraram na blogosfera. Mas já conhecia as caras deles da imprensa.
Conheci entretanto outros bloggers que só conhecia de nome. Mas estes foram encontros casuais. Não imprevisíveis, dadas as circunstâncias em que ocorreram, mas não foram planeados.
Com o Ivan e o Crítico a história é diferente. Já os conhecia, mas não fazia ideia de que eram bloggers... Vim a saber pelo Zé Mário, no primeiro caso, e num encontro, no segundo.
Nos próximos dias vou finalmente travar conhecimento com alguns bloggers que fazem parte do meu quotidiano, mas que eu não faço ideia se são altos, baixos, gordos, magros, louros ou morenos. Com quem só troquei emails (e com um falei ao telefone). Os encontros já estão, ou estão a ser marcados. Espero que seja o início de belas amizades. Também é para isto que a blogosfera serve.

Publicado por Filipe Moura às 02:39 AM | Comentários (16)

fevereiro 19, 2004

JEAN ROUCH (1917-2004)

Rivette, em 1968, sobre Rouch (ou o cinema enquanto exemplo):
Rouch é o motor de todo o cinema francês de há dez anos para cá, ainda que poucos o saibam. O Jean-Luc [Godard] partiu de Rouch [...] Todos os filmes de Rouch são exemplares, mesmo os falhados, mesmo Les Veuves de quinze ans. O Jean-Luc não é exemplar, é provocante. Provoca reacções, quer de imitação, quer de contradição ou recusa, mas não pode ser tomado como exemplo. Rouch ou Renoir, sim.
"Le Temps déborde", Cahiers du cinéma, nº 204, Setembro de 1968

Publicado por Francisco Frazão às 11:36 PM | Comentários (4)

ÚLTIMA HOMENAGEM A R. M. (POR HOJE)

Ceci n'est pas un post.

Publicado por José Mário Silva às 11:16 PM | Comentários (1)

TAMBÉM GOSTO MUITO DESTE MAGRITTE

«La clef des champs» (1936)

Publicado por José Mário Silva às 11:10 PM | Comentários (2)

JUSTIÇA E FUTEBOL

Pela primeira vez, desde há muito tempo, Vale e Azevedo dá contributos
para alimentar a fogueira em que se consome . irreversivelmente, digo eu
. a credibilidade da justiça (em que no fundo ninguém confia de verdade
e todos confiam de conveniência). O tema é enfadonho e o caso cinzentão:
falta-lhe o tom épico da ministra ofendida com o desaparecimento dos descontos para a segurança social. Mas mesmo assim, acho que é tempo de
deixar algumas notas sobre o episódio de hoje:

1) o conflito surdo entre a magistratura judicial, a magistratura do Ministério Público e a Polícia Judiciária, que se arrasta desde Cunha Rodrigues, Marques Vidal, etc. não tem solução à vista; é como um aglomerado em praia invernosa . não se desfaz, vai-se desfazendo...

2) a comunicação social ataca vampirescamente o desenrolar dos acontecimentos e lança para o público o pasmo de um tribunal superior ser contrariado por um inferior; no entanto, a comunicação social não pasma que o detido esteja preso por condenação por crime (caso Ovchinikov, se não erro) e/ou em prisão preventiva por suspeita de outro crime (caso Euroárea, creio);

3) a advocacia bem pensante, europeia e modernaça, proclama os direitos da defesa e a protecção do cidadão contra os arbítrios do poder judicial (dos outros, não fala, infelizmente); Portugal vive uma crise de garantismo agudo, talvez doença infantil da democracia; (JCampos)

4) os fazedores de opinião virão bramar (ai vêm, de certeza que vêm) contra os métodos da comunicação social; porque o tempo de antena para a vítima é tabloidismo, para o real ou presumido culpado é presunção de inocência, direito individual, liberdade de informação, etc.

5) não conheço os contornos exactos deste episódio em concreto. Mas fica-me uma frase da mulher de Vale e Azevedo em que referia a necessidade de explicar aos filhos porque o pai não ia para casa; como pai, pergunto-me como terá explicado porque o pai saiu de casa;

6) memorável é apenas a ideia de José António Barreiros de que o risco de fuga é aplicável a todos os portugueses, tal o estado a que o país chegou; com ironia, marcou ponto para a sua causa, e fê-lo com classe, o que é caso raro e quase nunca visto;

7) João Pinto explicou (ou insinuou) porque foi afastado da selecção. Confesso que não tinha dado conta . este Scollari (serão dois ls?) exaspera-me, é quase tão insuportável quanto o Mourinho ., tal é a esperança e confiança que tenho no Euro. A ideia de que era preciso um "bode expiatório" faz sentido; pena que não tenha reconhecido que deu o murro que só o Major Valentim Loureiro parece que não viu.

Publicado por José Mário Silva às 11:07 PM | Comentários (4)

CHUVA HUMANA

Já agora, o meu Magritte preferido é este: «Golconde» (1953).

Publicado por Margarida Ferra às 10:59 PM | Comentários (5)

HOJE É "DIA MAGRITTE" NO BDE

Este é o meu Magritte favorito; também "alvo" de diversas versões. Caso raro na pintura surrealista, o título até acrescenta bastante à pintura: "La Condition Humaine".

Publicado por Luis Rainha às 09:22 PM | Comentários (3)

A NOITE DENTRO DO DIA

De todos os quadros de Magritte, este é o meu preferido. Chama-se «L'Empire des Lumières». É de 1954.

Publicado por José Mário Silva às 06:26 PM | Comentários (5)

AVISO

Ainda há pouco, caí na esparrela de tomar por minhas as dores de uma famigerada "Nova Esquerda", supostamente acoitada algures neste blogue. Já depois da minha resposta estar na rua, pus-me a pensar melhor no tema "Nova Esquerda".
Pelo que me toca, e pela minha data de nascimento, não sei se tenho direito a pertencer a uma coisa "nova", seja lá o que for.
E quanto à parte da "Esquerda"? Confesso que tenho a impressão de ser mais ou menos "de esquerda" (um dia destes, talvez tente explicar porquê). Mas nem disto tenho a certeza; acontece que, face a um dado problema, não me ponho a calcular "o que é que um fulano de esquerda faria/diria/pensaria nesta situação?"; faço/digo/penso o que me parece melhor na altura. Só chegando ao fim do dia é que me sento para fazer as contas: "tudo isto somado, será que continuo a ser um fulano de esquerda?"
Quando a resposta começar a ser "não", saio daqui, começo a jogar golfe e passo a levar o Santana Lopes a sério.
Isto para dizer que falo só por mim, e nem sequer com uma voz muito doutrinária ou coerente. Não tomem, por favor, aquilo que eu aqui possa escrever como representando alguma "corrente", "grupo" ou organismos similares. E, acima de tudo, não impliquem com as restantes pobres almas deste blogue à pala das minhas insuficiências ideológicas. Obrigado.

Publicado por Luis Rainha às 04:45 PM | Comentários (3)

ATRÁS DO BALCÃO

Primeiro entrou o cão preto, a abrir caminho. No extremo da trela metálica, o dono, de óculos escuros. Enquanto eu procurava um «Morreste-me» disponível em vinte e quatro horas, ficaram parados, quase imóveis junto às novidades. O cego de pé, o guia deitado.

Publicado por Margarida Ferra às 04:41 PM | Comentários (2)

COISAS ESTRANHAS QUE FAÇO NA MINHA HORA DE ALMOÇO

Em má hora li o post do tchernignobyl sobre uma tripartida teoria, exposta n.O Observador, de seu patusco nome "A Nova Esquerda e a sua Tentativa em Destruir a Civilização Ocidental Liberal".
Em má hora, porque comecei a ler aquilo e deu-me vontade de responder. Fui lendo e escrevendo. A primeira parte da teoria ainda me pareceu fazer alguma espécie de sentido. Quando cheguei à segunda, já duvidava da bondade da ideia de gastar assim a minha preciosa hora de almoço. Ao finalizar a terceira parte, só pensava no belo bitoque que podia ter estado a comer.

Bem, por vossa conta e risco, e desde já avisados que o esforço não vale muito a pena, podem seguir para a minha "resposta" propriamente dita....

Primeira Parte
Depois de mencionar a guerra do Iraque e a questão Israelo-Palestiniana, o autor (AAA) explica-nos que a Nova Esquerda (NE) não "quer que os EUA se defendam". Fico sem perceber se esta defesa seria contra os Palestinianos, os Israelitas ou contra as famosas armas capazes de, em 45 minutos, reduzirem o Ocidente a cinzas pejadas de micróbios. Se bem me lembro, não reparei em muita gente a protestar contra a intervenção no Afeganistão (e é até curioso que os Franceses foram os primeiros, depois dos EUA, a participar em bombardeamentos naquele país; isto diz muito quanto ao que pode e não pode ser aceite como autodefesa), pelo menos no seu início.
Queixa-se de seguida que "apontam o dedo para os erros que os norte-americanos cometeram no passado". Julgaria, na minha inocência, que tal atitude teria mais a ver com bom-senso do que com inclinações políticas. Basta recordar o treino dado por operacionais da CIA aos valentes "combatentes da liberdade" do Afeganistão: incluía, por exemplo, técnicas bombistas para ataques em larga escala; os "consultores" ingleses presentes nos mesmos campos de treino recusaram-se a ministrar tais ensinamentos...
Adiante.
Segue-se a fulgurante revelação: a tal NE terá deixado de pensar "em termos económicos". Isto porque a "Velha" esquerda defendia "a centralização planificada da economia" e terá perdido definitivamente o combate com o liberalismo de Hayek e Friedman (Curioso é ver um blog tão conservador a louvar um teórico que defendeu a liberalização das drogas e da prostituição. Por outro lado, não convém esquecer que este Friedman foi obreiro, com os seus Chicago Boys, de um suposto "milagre do Chile de Pinochet", aqui desmontado pelo colunista do "Observer", Greg Palast ).
Ora isto é, por exemplo, ignorar que Marx continua dar-nos excelentes pistas para compreender o capitalismo. A sua famosa admissão de não ser marxista foi muito mais que uma blague; enquanto que muitos dos seus seguidores viam o capitalismo como um monstro moribundo, Marx sabia que se tratava de um organismo muito bem equipado para crescer e sobreviver. A Globalização, assim como a criação de campos de investimento radicalmente novos como a Internet e a biotecnologia, só nos vêm demonstrar que o Capitalismo ainda é capaz de progresso, ainda está longe dos seu limites, como definidos pela análise do bom Karl. Ademais, há analistas do pensamento de Marx que o vêem mais próximo do Mercado do que da planificação centralista!
Nos dias que correm, académicos como Paul M. Sweezy, Duncan K. Foley, Samir Amin e muitos neo-marxistas continuam a criar aquilo que AAA nos diz que não existe: teorias económicas de esquerda. (Pode ser que ele se refira não à Esquerda em si, mas sim aos indivíduos que escrevem nos blogs que cita; eu, por mim, admito desde já, e sem problemas, que nunca tive uma ideia inovadora sobre Economia na minha vida!)

Depois, AAA refere um post do Zé Mário -que, afinal, nem era dele- em que se lamentava o fecho de duas livrarias em Lisboa, "culpando a capitalismo global do facto". Quem lê o post em apreço fica elucidado: AAA divaga, como divaga ao partir daqui para uma condenação global do "discurso de Louçã e as suas preocupações com a liberalização da droga e a questão do aborto (!!)" ou do "governo de Guterres". Enfim... salva-se desta Primeira Parte a frase "O que a Nova Esquerda pretende é alterar a nossa sociedade como um todo." Que a Esquerda queira mudar o mundo, continua a parecer-me muito bem.

Segunda Parte
Hmmm. Chegado a este ponto, que hei-de eu dizer sem ser grosseiro?
A ideia de AAA aqui apresentada resume-se assim: a NE, quando muito, só reconhece ao mercado importância em questões económicas. Depois, "acontece que, existem outras necessidades. Necessidades sociais, culturais, ecológicas e outras que mais. Estas necessidades, defende a Nova Esquerda (representada na política pelo Bloco de Esquerda e parte do Partido Socialista e na blogoesfera pelo Barnabé e o Blogue de Esquerda) não se manifestam por meio das escolhas que o indivíduo faz no mercado livre.
Para a Nova Esquerda, estas necessidades são perceptíveis apenas por alguns que se arrogam em conhecer o que precisa a sociedade.
Isto explica porque a Nova Esquerda está constantemente a lançar, para o debate político, questões e soluções, como a liberalização do uso de drogas, que não representam a vontade da maioria. Isto explica a certa arrogância que se nota e sente quando se ouve Francisco Louçã e se lêem os escritos do Barnabé.
A Nova Esquerda considera-se aprioristicamente sabedora das nossas necessidades. Ela representa, pois, um retrocesso ao passado."

Pois. Lançar discussões sobre temas novos e que "não representam a vontade da maioria" é arrogante e denuncia uma mentalidade totalitária, que assume saber tudo sobre as necessidades dos demais.
Seguindo por esta prometedora vereda, logo descobrimos que nunca deveríamos ter tido democracia parlamentar, repúblicas, vacinas, internet, arte moderna, aviões, livros, Cristianismo, etc, etc, etc. É que todas estas "coisas" nunca interessaram, por certo, às vontades das maiorias dos tempos em que foram "lançadas". Talvez até tenham sido idealizadas por facínoras irresponsavelmente convencidos de poderem antecipar "as nossas necessidades".
Desculpem lá, mas este arremedo de ideia é que é "um retrocesso ao passado". Ao passado das cavernas, em que novas ideias não eram discutidas... porque ainda ninguém sabia falar.

Terceira Parte
Lamento: a coisa não melhora. Mas prometo finalizar depressa. Vamos ver: a NE detesta os EUA, abomina o Bush mas está pronta para excomungar amanhã o Kerry, Israel vai pró mesmo saco, pois é uma "imposição liberal e capitalista" (honra seja feita a AAA: não sacou do famoso "anti-semitismo"). Pronto; disto já sabemos, a estas acusações já muita gente respondeu há muito tempo. Sigamos.
Ah. As vítimas que se seguem são os movimentos ecologistas. Diz AAA que "a grande maioria dos movimentos .Verdes. são de esquerda". (Eu tenho como pessoalíssima convicção que isto não é verdade; mas trata-se de assunto para outras conversas.) E que defendem apenas "um ambiente à sua maneira, com as prioridades pré-definidas e não determinadas pelo indivíduo".
Então, não sabemos nós, ó ignaras criaturas da tonta NE, que "qualquer pessoa consegue provar que um meio ambiente saudável é essencial ao bem estar e desenvolvimento económico."?
Por certo que sabemos. Então, quando vemos o amor da Nova Direita a "ecologistas" do calibre de um Lomborg ou de um George Bush . grande defensor do Protocolo de Quioto e inimigo declarado da exploração petrolífera no Alasca, como é público e notório . a elucidação torna-se quase deslumbrante, de tão clara.
Só falta a AAA recordar-se da famosa filosofia anywhere, but not in my backyard; assim talvez compreendesse porque é que empresas mui amigas dos ambientes americanos e europeus se dedicam a transformar porções apreciáveis do Terceiro Mundo em lixeiras, quando não em armadilhas mortais como a de Bhopal.

Gostaria de terminar este arrazoado com um ponto em que estou de acordo com AAA: "Não é preciso ser de esquerda para defender a floresta e acreditar na limpeza dos rios e dos mares." Pois não.
Deixo para outrem a tarefa de comentar o pequeno segmento final, relativo à globalização, também porque quero ir almoçar e também porque aqui não se aprende nada.

Publicado por Luis Rainha às 02:20 PM | Comentários (11)

CARIBE (2)

Publicado por José Mário Silva às 12:22 PM | Comentários (2)

CARIBE

Perante mais um festival gastronómico de catana & matança que actualmente decorre no Haiti, Colin Powell criticou a actuação do presidente Jean-Bertrand Aristide (por acaso também ele um golpista), salvaguardando porém que um regime não deve ser deposto pela força. Ficámos assim a saber que a entrada no Iraque se fez por convite expresso de Saddam e não por uma revoltante acção militar. (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 12:16 PM | Comentários (3)

UM FRAGMENTO DO HOMEM INVISÍVEL

Dadme para mi vida
todas las vidas,
dadme todo el dolor
de todo el mundo,
yo voy a transformarlo
en esperanza. Dadme
Todas las alegrías,
aun las más secretas,
porque si así no fuera,
cómo van a saberse?
Yo tengo que cantarlas,
dadme las luchas
de cada día
porque ellas son mi canto,
y así andaremos juntos,
codo a codo,
todos los hombres,
mi canto los reúne:
el canto del hombre invisible
que canta con todos los hombres.

Permiti-me aqui usar, à laia de ciber-charada, o final do poema El Hombre Invisible, de Pablo Neruda. A leitura do mesmo, em corpo inteiro, é quase obrigatória. Talvez a tal "Nova Esquerda" ainda tenha direito a gostar de poesia com lutas lá dentro...

Publicado por Luis Rainha às 11:30 AM | Comentários (4)

A ESQUERDA DESMEMBRADA

Uma vez que ele teve a amabilidade de nos avisar, aqui fica a informação para os interessados.
O André, do Observador, procurou entrar directamente para o Guinness, procedendo a uma ambiciosa desmontagem d' A Nova Esquerda e da sua Tentativa de Destruir a Civilização Ocidental Liberal.
Já vai na terceira parte e promete continuar.
Espero que o Governo Civil tenha sido avisado dentro dos prazos legais e os bombeiros estejam a postos.
Como o André considera o BdE e o barnabéJ, isto é indecente, pá) os representantes dessa Nova Esquerda que ele se propõe desmontar, apelo também desde já aos Hospitais para que estejam de prevenção e tenham as equipas de cirurgiões e dadores com órgãos supérfluos a postos, não vá dar-se o caso de precisarmos de algum pedaço, nem que seja o tal órgão teórico que anda desaparecido em parte incerta e tanta falta faz à revolução.
Aliás, pensando bem, esta gripe do ZéMário não será já obra do André?

Publicado por tchernignobyl às 10:26 AM | Comentários (6)

A PROPÓSITO DO VÉU ISLÂMICO

Em França, uma lei de 1905 separa o Estado da Religião. Por certo uma herança de 1789, da Comuna de Paris (1870), da Declaração dos Direitos do Homem, caldeada pelos humanistas. Trata-se fundamentalmente de retirar à Religião a enorme influência na educação dos futuros cidadãos, numa idade em que eles ainda não têm bases para decidir. Como todas as leis socialmente evoluídas, teve avanços e recuos, durante estes cem anos. Mas uma coisa é certa: ficou indelevelmente gravada na cultura francesa.
Em Portugal, ainda há trinta anos (sim, Fevereiro de 1974), as aulas de Religião Católica eram obrigatórias, os baptismos forçados (feitos em série nas vésperas dos exames da quarta classe), os casamentos indissolúveis nas igrejas, a água benta nas inaugurações, a caridadezinha (em vez do pagamento de impostos). Era o Fátima, Fado, Futebol. Ou melhor: Deus, Pátria, Família. Ainda hoje, por ausência do Estado, grande parte da assistência à saúde, aos desfavorecidos, aos jovens deserdados, é feita pelas Misericórdias (só o nome!). Mesmo quando morre, o cidadão ateu, não tendo alternativa por parte do Estado, tem de repousar numa qualquer igreja, antes de ir para o cemitério. E o aborto, problema íntimo, social e até de saúde pública, é regulado por concepções religiosas. Na cultura portuguesa está ainda gravado este peso que impede a convivialidade das convicções. A meu ver, continua-se a resolver questões cívicas e morais à luz das doutrinas religiosas.
É enorme a quantidade de desinformação e de falsidades que apareceram nos media sobre o assunto. Não me espanta, sabendo eu quem está por detrás da maioria dos media. Espero que, aqui nos blogues, o assunto possa ser discutido, reflectido e analisado livremente, porque penso ser este um dos mais importantes problemas civilizacionais do nosso tempo.
(Vítor Dinis Silva, aka Pai Itálico)

Publicado por José Mário Silva às 10:21 AM | Comentários (4)

SEMPRE MAIS À ESQUERDA

Na banca da Ler Devagar, «Les habits neufs de L.Empire . remarques sur Negri, Hardt et Rufin», a mais recente apreciação do livro «Empire» de Hardt.Negri, considerado por muitos como o moderno «manifesto», vinda do mais filósofo dos biógrafos de Debord . Anselm Jappe, autor de «Guy Debord» (que inicia com a pergunta «Faut il bruler Debord?») . em colaboração com Robert Kurtz, do grupo Krisis do «Manifesto contra o trabalho».
Para Jappe-Kurtz, o Imperium é o «ressuscitar das ilusões pequeno-burguesas e proletárias dos dois últimos séculos quanto à possibilidade de um capitalismo equitativo».
Uma pessoa bem que quer ser de esquerda e radical mas há sempre alguém mais radical do que nós. Vá-se lá ler como.
Há cerca de cinquenta anos, um grupo de bêbados que circulavam pelos cafés do centro de Paris, entre os Boulevards Saint Michel e Saint Germain, importunando os turistas, pintaram num muro «Ne travaillez jamais» e desenvolveram um conjunto de ideias que marcaram profundamente a nossa civilização.
Quando passo junto a uma loja Extra gosto de imaginar que dali vão sair os filósofos do Maio de 2010. Quem sabe?

Publicado por tchernignobyl às 09:35 AM | Comentários (3)

fevereiro 18, 2004

THERE IS NOTHING WRONG WITH THAT

The outing: um episódio memorável de Seinfeld. Jerry e George ganham a reputação de manterem uma relação homossexual. Ao desmentirem, algo que se repetirá por todo o episódio, e para não serem vistos como homofóbicos, acabam sempre com o esclarecimento "not that there is anything wrong with that!" Essa expressão, ou "there is nothing wrong with that", é dita várias vezes no episódio, por todas as personagens, sempre que alguém se refere à homossexualidade. There is nothing wrong with that.
É por vezes complicado falar de homossexualidade (there is nothing wrong with that) sem cair (como por exemplo o Seinfeld nunca cai) nas preocupações do politicamente correcto. Mas é isso que eu vou tentar a seguir, ao falar de um blogue gay (there is nothing wrong with that). E que é, de acordo com o meu conhecimento, dos blogues portugueses no activo, o mais politicamente incorrecto dentro de todos aqueles que são bem escritos. E notem que este é um blogue muito bem escrito, com um cuidado formal evidente. Refiro-me ao Renas e Veados.
O que mais surpreende quem entra neste blogue nem são as ilustrações. Vi uma ou outra ilustração explícita, mas sempre com bonecos. As restantes fotografias poderiam perfeitamente aparecer na capa da Men's Health ou em jornais desportivos. Aparecem inclusivé fotografias de mulheres bem bonitas.
O que verdadeiramente mais surpreende é que este é um blogue feito por homossexuais (there is nothing wrong with that) que não têm vergonha ou pena da sua condição, e sobretudo que não nos pedem para termos pena deles. E é isto que torna este blogue tão diferente das habituais peças escritas por e/ou sobre homossexuais (there is nothing wrong with that), que já de si são todas muito diferentes.
Há as hipócritas, associadas à vida mundana e social. Os melhores exemplos serão as peças associadas a José Castelo Branco e os diários do suplemento de Verão do DN. Nestes casos a homossexualidade (there is nothing wrong with that), sendo evidente, nunca é explícita. Será, quanto muito, do foro privado. É, evidentemente, um direito, mas este encobrimento é ridículo (toda a gente sabe), hipócrita e parece querer transmitir que a homossexualidade (there is nothing wrong with that) é uma vergonha ou uma "doença com cura".
Há, depois, as galas de Carlos Castro e os arraiais "Gay Pride", onde se quer sobretudo afirmar o direito à diferença. Bem, há que afirmar que a generalidade dos participantes nesses eventos são pessoas diferentes. Têm todo o direito a serem como são, mas são diferentes do cidadão comum. Fazer o cidadão comum aceitar essa diferença é uma tarefa meritória, mas que está sempre associada a um discurso de discriminação e vitimização. Creio que a generalidade dos homossexuais (there is nothing wrong with that) não querem o "direito à diferença"; o que querem é, justamente, afirmar que são cidadãos comuns e reivindicar o tratamento devido por parte da sociedade. Onde em Carlos Castro há vitimização, aqui há orgulho.

O autor principal, o Boss, é um comentador frequente do BdE e do Barnabé. Basta ler os seus comentários para se verificar que é um rapaz formado e informado. É do Porto, é homossexual (there is nothing wrong with that), ateu e esquerdista (there is nothing wrong with that either). Não se limita a falar do seu quotidiano, que o leitor reconhecerá como semelhante ao de qualquer pessoa, mas de como a sua condição o afecta. (Recordo-me particularmente do texto em que explica - aliás, denuncia - por que não pode dar sangue.) Hoje, por exemplo, tem estado bastante activo a argumentar contra as recentes declarações de Luís Villas-Boas, seja no Renas seja discutindo com os leitores do Barnabé. Mas não se julgue, porém, que o blogue se limita à temática gay (there is nothing wrong with that). No blogue são também (muito bem) abordados outros temas de interesse geral, como o aborto, aspectos da política nacional e internacional, as eleições americanas e crítica de cinema. Quando o Boss se zanga, como hoje, argumenta. Quando está bem disposto, tem ainda um sentido de humor notável.
Este blogue vai, e merece, dar o que falar. Espero que ainda só tenha começado. Um blogue assim faz mais pelo "sindicato" do que quaisquer arraiais no Príncipe Real. "Sindicato" é como o Boss se refere à comunidade homossexual (there is nothing wrong with that). Até nisso o Boss é diferente. Mesmo sendo nesse contexto, julgo tratar-se do primeiro homossexual a usar a palavra "sindicato" em Portugal desde Júlio Fogaça. Ah, já me esquecia. There is nothing wrong with that.

Publicado por Filipe Moura às 08:43 PM | Comentários (14)

REDUNDANCY . A ESTUPIDEZ DA PALAVRA

O economês, por si só, não é criticável . é óbvio que cada ciência necessita de um léxico próprio, nem que seja para se auto-afirmar e definir-se. Ridícula, no entanto (não encontro melhor termo), é a apropriação pelo planeta económico . globalização linguística? . desse mesmo léxico.
Falar com um qualquer economista pressupõe saber o que é o "benchmarket", o "warrant", o "middle-office", as "commodities", saber descodificar siglas como CEO, EBITDA ou LISBOR, sob pena de o monólogo se tornar insuportável.
A invenção, por teóricos anglo-saxónicos, da expressão "redundancy" para os trabalhadores é o espelho ulterior da pujança tecnocrata e do labor criativo dessa corporação.
Amesquinhados no poder do gabinete e da secretária, do balancete e do balanço, do orçamento e do relatório, o "man-management" e o "man-manager" acobarda-se, esconde-se de tudo e inventa expressões pomposas, a utilizar pelas massas dos economistas/gestores.
"Redundancy" serve para o despedimento. O orgasmo-magno é atribuir a alguém o epíteto de supérfluo, redundante, a mais, e mandá-lo para o outro lado da estrada, para o centro de (des)emprego e ainda o culpar . ao desempregado . pelos males da economia.
(Rui Santos)

Publicado por José Mário Silva às 07:44 PM | Comentários (4)

FALTA DE AR (2)

Talvez por simpatia com um dos fundadores, talvez por despeito (prometi um post que acabei por não escrever), o certo é que o BdE também foi vítima de uma bizarra falta de fôlego. Desde as 23h30 de ontem até cerca das 11h00 de hoje, o blogue esteve simplesmente «out». Nem textos novos, nem comentários, nem acessos ao site. Nada se passou por aqui (ou quase nada .consultem as estatísticas e confirmem). Pelo fenómeno incompreensível e alheio à nossa vontade, pedimos desculpas aos nossos visitantes habituais.

PS- A minha falta de fôlego (literal, porque respiratória) manteve-se ontem e hoje, ao ponto de me ver forçado, coisa rara, a um curto período de repouso absoluto. C'est la vie. Logo que me sinta em condições, caros amigos e leitores, prometo retomar o ritmo do costume.

Publicado por José Mário Silva às 07:37 PM | Comentários (9)

UMA PEQUENA SUGESTÃO...

... para a Marianinha Cascais está neste artigo do Guardian. Tenho a certeza que ela adoraria. (Jean Luc)

Publicado por José Mário Silva às 07:29 PM | Comentários (1)

POSE DE ESTADO

Julgam vocês que isto de um tipo se andar a pôr em bicos dos pés para ser candidato a PR é coisa fácil? Nada mais falso. Construir um Estadista é uma ciência precisa, envolvendo dúzias de quadros altamente especializados: assessores, maquilhadoras, jornalistas, namoradas, alfaiates, etc.
No diagrama, podem ver alguns dos componentes necessários para formar a virtude intangível a que chamamos "carisma". Mas cuidado: não tentem fazer isto em casa.

1- Cenho carregado, a denunciar inegável concentração nas coisas profundas do universo, tipo: "acho que já vi esta fulana na Kapital..."
2- Boca aberta em perpétuo espanto. Dá ideia que a criatura está mesmo quase a dizer qualquer coisa brilhante. Funciona bem nos jornais. O pior é na TV, quando se percebe que, afinal, ou sai asneira ou entra mosca.
3- Óculos de design garantidamente intelectual. Servem para que ninguém confunda o Estadista com o Victor Espadinha.
4- Carradas de gel a colar os já escassos cabelos ao escalpe. Confesso que ainda não percebi qual a utilidade deste adereço.
5- Microfones. Muitos microfones. E câmaras a rodos. Sem esta parafernália, a Figura de Estado até talvez nem exista.

Publicado por Luis Rainha às 12:38 PM | Comentários (5)

fevereiro 17, 2004

LER ÀS AVESSAS

A importância do primeiro parágrafo de um romance está mais do que cartografada. É o "anzol" com que o escritor rapta a atenção do possível comprador, do leitor, do crítico. Existem tantos exemplos de primeiros parágrafos fabulosos que ninguém me convence que esta não é uma disciplina cuidadosamente cultivada por grandes crânios de todo o mundo. Coisas como "Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo Lee Ta." não surgem no início de um romance por acidente (desculpem a reincidência na cabotinice do Inglês, mas nem imagino como é que isto terá sido traduzido por cá). Ainda há pouco, o Zé Mário partilhou connosco um destes arranques de génio.

No entanto, julgo eu que temos andado a descurar uma estrela igualmente merecedora de aplausos: o parágrafo final.
Se a abertura por norma encerra em si as sementes, o "programa" das páginas que se seguem, o último suspiro da obra talvez seja igualmente eloquente, a seu modo. Pode revelar-nos a harmonia .ou a fractura- de um fecho de abóboda; pode, como o trecho de "Julian" que citei abaixo, encapsular todo o espírito da obra; pode revelar-nos um caos sem solução nem acalmia à vista; e por aí adiante.
Inspirado por estas conjecturas, decidi escolher a minha próxima leitura avaliando os finais de dois romances "concorrentes". Eis os candidatos, anónimos como convém a estes testes:

a- "Mas eu estava a pensar num outro tempo, um breve período em que Chelsea Marina foi um local de promessas reais, quando um jovem pediatra persuadiu os moradores a criarem uma república única, uma cidade sem sinais, leis sem castigos, acontecimentos sem significado, um Sol sem sombras."

b- "Não sei quanto tempo fiquei assim, mas, mesmo enquanto as lágrimas jorravam, eu estava feliz, mais feliz por estar vivo do que alguma vez me sentira. Era uma felicidade para lá da consolação, para lá da miséria, para lá de toda a fealdade e beleza do mundo. Por fim, as lágrimas pararam e fui ao quarto vestir roupas lavadas. Dez minutos depois, eu estava de novo na rua, caminhando em direcção ao hospital para ver Grace."

Qual escolheriam, tendo por base apenas isto?

Publicado por Luis Rainha às 05:52 PM | Comentários (17)

FALTA DE AR

Quem tenha estranhado o meu súbito silêncio dos últimos dias (por silêncio entenda-se "poucos posts") que fique descansado. Está tudo bem. Quer dizer, agora está tudo bem. Ou por outra: a aparente falta de fôlego não foi só aparente. Foi literal. Eu já explico melhor. Primeiro tenho que respirar fundo.

Publicado por José Mário Silva às 02:02 PM | Comentários (5)

OS LIVROS DEVIAM VIR COM GARANTIA

Já alguma vez vos aconteceu comprar um livro tão mau, tão mau, que só vos dá vontade de o devolver ao editor, acompanhado por uma carta insultuosa e ameaçadora? A mim, já.
Este obscuro objecto da minha ira é uma coisa intitulada «Camaleão na Sombra da Noite». E é suposto ser uma recolha de poemas de Peter Hammill. Escrevo "é suposto", porque o que lá está impresso é mais obra do tradutor do que do songwriter inglês. Sim, sei dessas coisas todas do tradutor/traidor; garanto-vos que isto não tem mesmo nada a ver.
No meio de tanto dislate e tão numerosas atrocidades, é difícil escolher amostras. Mas deixo-vos com meia dúzia de pérolas, à laia de pálidos exemplos:

We have looked upon heroes and
They are found wanting

"Olhámos para os heróis e eles querem-no"
(To be found wanting significa falhar, ficar aquém)

"Unreal, unreal", ghost helmsmen scream
"Irreal, irreal, gritam fantasmas com elmos"
(Surpreendentemente, o helmsman nada tem a ver com "elmos"; é o nosso popular "homem do leme")

My pail has sailed into the sea
"O meu balde pôs-se ao largo no mar"
(Pail não faz parte do poema no original; pain é a palavra certa. Para dar sentido à coisa, o "tradutor" acrescenta uma nota explicativa: "Cfr. A capa de .The least...' Aberta a dupla sleeve poderemos ver PH ainda criança a brincar com um balde e uma pá numa praia". Ah; assim já se entende tudo...)

No more travelling chess
"Fora com a viagem de xadrez"
(Trata-se, como é óbvio e ululante, de xadrez "de viagem"; em tabuleiro portátil.)

Dropping the torch
"Pingando (!) o archote"
(To drop significa "deixar cair". "Pingar" seria To drip)

Agora, um excerto maiorzinho, não vá alguém acusar-me de roubar o contexto à obra:
SILVER
You lay your plans, I take them as they come
I understand, we dance to different drums

"SILVA
Estendes-te nas tuas planícies de corda,
estendes os teus mapas hispânicos, aceito-os como vêm,
compreendo, dançamos originalmente em dois
ritmos de tambores de vida diferentes em sonho de frente"
(Ahnn? Daqui, nem a tradução do título entendo!)

Isto não é má vontade armada de lupa: limitei-me a abrir o livro ao calhas e escolher alguns disparates mais visíveis. O resto nunca anda longe disto. São erros básicos, invenções, acrescentos espúrios, tudo embalado, ainda por cima, numa falta de ritmo e de graciosidade simplesmente atroz.
Para piorar o caso, esta compra deu-se em circunstâncias que tornaram a burla ainda mais irritante: eu queria à viva força partilhar com a minha namorada as letras das canções do senhor PH. Sabia que o livro existia mas não o conseguia encontrar, por mais que procurasse. (Vejo agora, claro está, que andar à procura deste livro foi o mesmo que desatar a correr atrás de um facínora berrando: "Senhor ladrão! Assalte-me, por favor!") Ao fim e ao cabo de meses de buscas, dei com ele na Ler Devagar; levei-o logo para casa, todo contentinho. Só depois de o oferecer, é que me lembrei de o folhear com atenção; ia tendo uma síncope.

É verdade: não convém que esta aberração fique anónima. Há culpados da coisa: o senhor Alexandre Vargas e a editora Assírio e Alvim.


Publicado por Luis Rainha às 01:29 PM | Comentários (12)

MANIFESTO PELO REGRESSO DA COLUNA

Pode não parecer, pelo que tenho escrito e pelo facto de estar a escrever agora. Sinto que tenho muitas coisas para comunicar ainda. Mas sinceramente a minha motivação para escrever num blogue, neste momento, é muito baixa.
Podemos fazer sempre como os gauleses da aldeia do Astérix que, numa das suas aventuras, não sabiam dos romanos e batiam uns nos outros para se entreterem. Experimentei esse exercício este fim-de-semana. Embora tal seja, por vezes, necessário e inevitável (e até saudável - desde que ninguém se magoe), não é só para isso que escrevo. Há muitas ideias a trocar dentro da esquerda, sem dúvida, mas eu não consigo escrever sem ter uma direita. E a minha direita (passe a expressão), inteligente, avançada, leal, honesta, é a do Pedro Lomba e do Pedro Mexia. A da "Geração de 70", incluindo também, claro, o João Miguel Tavares. Eles vão continuar a escrever, esperamos nós que por muito tempo, no DN. Mas é necessário um espaço onde haja debate, e esse espaço só pode ser a blogosfera.
Compreendo perfeitamente os motivos que, presumo, levaram o Pedro a tomar esta decisão tão radical. Conheço as suas obrigações académicas e profissionais. Eu também as tenho, e quando cheguei à conclusão de que o que queria era escrever num blogue político que fosse actualizado todos os dias, e que obviamente não conseguia manter um sozinho, concluí que o mais sensato seria voltar para o Blogue de Esquerda. É uma forma de cooperativismo: BdE, UCRL. O João também concluiu o mesmo e ingressou no "País Relativo".
Há que recordar igualmente que o Pedro Mexia promete somente uma actualização quinzenal, ou mensal, do seu blogue.
Sei que a direita é avessa ao cooperativismo. Sei também que a experiência do fim da Coluna Infame foi traumática. Mas o seu fim não foi nada convincente. Não importa o que lhes possam ter dito e chamado. O Pedro Lomba e o Pedro Mexia não devem nada a ninguém. Escrevem juntos na "Geração de 70" e podem perfeitamente escrever no mesmo blogue. O Lomba disse que pode escrever cinco textos por mês. Mais cinco do Mexia e cinco do João Miguel faz um texto novo a cada dois dias. Sabemos que eles podem fazer isso. Vamos criar uma vaga de fundo. Pelo regresso da "Coluna Infame", com esse ou com outro nome.

Publicado por Filipe Moura às 12:13 PM | Comentários (3)

BALDE DE ÁGUA FRIA

Vai um tipo jantar a casa de um amigo que não tem visto muito nos últimos anos. Encontra na estante desse amigo uma cópia de "O Óbvio Ululante". O amigo era e é novato nos blogues. Depois do jantar segue-se uma sessão de iniciação à blogosfera. Começa-se com O Meu Pipi. E não saímos dali. Não há tempo para mais. Há que apanhar o último autocarro. Menciono ainda um blogue de um fã de Nelson Rodrigues. Depois falamos. Eu mando-lho por email. Chego a casa. E dou com isto.
(Este texto foi escrito assim. Mesmo ao estilo do Pedro. Com frases curtas.)

Publicado por Filipe Moura às 12:06 PM | Comentários (2)

QUEM QUER GANHAR UM PRÉMIO?

Já que os jornais aumentam as suas vendas oferecendo tralha diversa, porque não importar essa prática comercial de sucesso para os blogues?
Assim sendo, lanço aqui o que pode bem ser o primeiro concurso/promoção da blogosfera nacional. A coisa é simples: primeiro leitor capaz de responder a uma singela pergunta de algibeira vai ter direito a um prémio bem simpático!
Atenção, que aqui vai:

Quem escreveu as linhas seguintes?
"Os negros encontram-se actualmente em situação social muito atrasada. Contudo, esse atraso favorece-os numericamente uma vez que o seu baixo nível de vida os protege das medidas anticoncepcionais e do planeamento familiar. As suas tradições sociais atrasadas também os levam a não limitar os casamentos, o que favorece o seu crescimento ilimitado, enquanto que as outras raças vão decrescendo de número devido às práticas de controlo dos nascimentos, às restrições impostas ao casamento e à permanente ocupação no trabalho (em contrapartida, os pretos vivem ociosamente num clima sempre quente)."

Algumas modestas pistas: este excerto provém de um capítulo intitulado "Os Pretos Prevalecerão no Mundo". A resposta certa não é "Adolf Hitler" nem "o programa do Ku Klux Klan".

Publicado por Luis Rainha às 11:11 AM | Comentários (21)

HIGH EXPECTATIONS

O comissário Vitorino, todos o dizem, é brilhante e tem feito um .óptimo lugar. em Bruxelas.
Tanto quanto baste para que uma série de notáveis de vários quadrantes políticos se comprimam a pedir ao governo para apoiar a candidatura de Vitorino a Presidente da Comissão Europeia.
O primeiro-ministro, acossado pela imprensa e para não deixar passar para o mau goto do povo a imagem de não apoiar .um português. para presidente da Europa, vai-se entaramelando em espúrios salamaleques à estatura política gigantesca do comissário socialista, entre outras vagas manifestações de .apreço..
Isto parece um bocado absurdo.
Desde quando é que o PS de Alcabideche vai pedir à secção local do PSD que insista com a Direcção Nacional do seu partido para manter o lugar de deputado (ou até elevá-lo a Presidente da Assembleia) de um .filho de Alcabideche. membro do PS? Eu sei que o exemplo é simplista, mas no fundo no fundo no fundo, a ideia é mesmo esta, não é?
Ora António Vitorino, como quase todos os políticos profissionais, procede na sua vida e no seu trabalho a uma gestão cuidada da sua carreira política pessoal, equilibrando as suas ambições carreiristas e uma sábia dosagem dos sinais exteriores de .fidelidade aos ideais. que dão coesão à familia política a que pertence.
Isto levou-o por exemplo a borrifar-se para a crise interna grave do seu partido, o PS português, onde chegou a ser falado para suceder a Guterres, em detrimento do seu lugar na Europa.
Dirigir o PS tornou-se uma tarefa de macho a exigir sangue, suor e lágrimas.
Bruxelas pareceu a opção lógica de qualquer pessoa de bom senso.
Como o mundo gira, eis Vitorino face à opção de ser Califa da Comissão ou perder o lugar de Grão-Vizir Europeu num momento em que a correlação de forças é negativa para os socialistas, ainda que reste saber se seria eleito, caso fosse outra a tal correlação de forças.
Tudo isto é absolutamente natural. É política, é democracia. É o fado.

Se Vitorino tiver de voltar aqui para a parvónia, a vida e a política não acabaram. O que resta é trabalhar para varrer a vaga direitista. Eu aposto que ele não volta de todo, arranjará um outro lugar qualquer noutra comissão mais discreta, ou aproveitará para doutorar-se numa universidade de prestígio num qualquer assunto bizarro, enquanto não se arranja um novo tacho à sua altura. E fará muito bem, já que ninguém espera que ele se meta de novo nesta chatice depois de voos tão altos.
O intolerável ridículo, porém, é assistir-se a esta humilhação de se andar a chatear o governo de direita para engolir um socialista na Presidência de um órgão de soberania europeia, só porque é português.
Os que promovem essa pressão esquecem que o governo não engole o sapinho, quando muito finge e arranja mais um pretexto para cavalgar a onda patrioteira e no futuro exigir compensações. Depois admirem-se se, daqui a meia dúzia de anos, vier a direita invocar o precedente, quando pretender idêntico tratamento preferencial para um qualquer dos seus .barões..

Publicado por tchernignobyl às 10:00 AM | Comentários (11)

fevereiro 16, 2004

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA QUESTÃO QUE NÃO ESTÁ DE TODO AÍ

Andava eu pacatamente a circular pelo dossier do Público sobre o .compromisso histórico. proposto pelos empresários quando me deparo com esta passagem:

.Um estudo publicado no final de 2003 pelo National Bureau of Economic Research (NBER), da autoria de Gary Becker, Nobel de Economia em 1992, concluiu que Portugal foi no conjunto dos países desenvolvidos o que mais cresceu entre 1965 e 1995, apresentando um aumento do seu rendimento de 298,3 por cento..

Ainda estou à espera de um desmentido formal deste estudo e daqui apelo ao zelo vigilante dos bloggers liberais para reporem a verdade o mais rápido possível.
Mas enquanto o João Miranda se informa e não chega uma explicação plausível, deixem-me dizer que acho extraordinário que a imprensa tenha deixado passar em claro esta novidade assombrosa.
Que Portugal sofreu uma transformação extraordinária nesse período, é visível à vista desarmada e possível de quantificar em diversos estudos como os que foram conduzidos por António Barreto. O que é surpreendente é ter essa transformação sido tão marcante entre os países desenvolvidos, sobretudo porque esse progresso é quantificado com base nos critérios estabelecidos pelo o autor do estudo, Gary Becker, um economista da Escola de Chicago, que é como quem diz um neo-liberal.
Vendo bem, entre 1965 e 1995, Portugal passou por um regime ditatorial envolvido numa guerra colonial, por uma situação pré-revolucionária, por uma situação de democracia tutelada pelos militares, por governos socialistas e social-democratas e, cereja no topo do bolo, a integração na comunidade europeia com a injecção maciça de capitais que se conhece.
O curriculum é diversificado e quase confuso mas onde brilha a surpreendente ausência de um governo capaz de impor o conjunto de .medidas estruturais. que é costume associar ao neo-liberalismo duro.
No período de trinta anos que decorreu entre 65 e 95, verificou-se que ao contrário do que a presciência da generalidade dos economistas-de-todos-os-bordos, empresários e comentadores-económicos-da-imprensa-de-referência assegura ser a tragédia maior do nosso país, o .peso. do Estado, o paralisante controlo público de sectores importantes da economia durante grande parte desse período, a implantação da Segurança Social, as Leis do Trabalho não foram o tal impecilho determinante que bloqueou o progresso.
Talvez que as conclusões do estudo não permitam concluir taxativamente por um .antes pelo contrário.. Mas de certeza que nos permite repetir com António de Sousa e o seu brilhante discípulo maradona: a questão não está de todo aí!

Publicado por tchernignobyl às 10:51 PM | Comentários (7)

GRANDE CORRIDA TV

Um evento fantástico juntou num antigo convento da capital, sugestivamente conhecido por .beato., 500-empresários-500, gordos e luzidios, rigorosamente uniformizados de azul escuro e animados dos melhores propósitos para encontrar ao país em deriva uma .estratégia. .
O assunto teve o destaque devido nos noticiários televisivos do início desta semana.
E com razão. Não é todos os dias que se assiste a uma manifestação de unidade de classe tão vigorosa, até no aspecto cromático. Não se via nada assim desde que os operários da Lisnave fizeram a sua célebre marcha de cacilheiro até ao Terreiro do Paço e daí ao Ministério do Trabalho, nos idos de setenta e cinco.
Quase que se podia ouvir a palavra de ordem no Beato:
Poder aos empresários!
Grande manifestação de consciência de classe, quando se sabe que os organizadores são, de acordo com o dossier do Público, de tendência neo-liberal e se conhece a defesa apaixonada que esta corrente política e económica faz do individualismo e o desprezo a que vota o associativismo.
Dos assalariados.

Poder-se-á especular sobre quais os temas que se discutiram no abrilhantinado brainstorming mas foi evidente que, nos intervalos das idas ao Rosa e Teixeira, os empresários têm meditado longa e seriamente dentro dos seus fatos iguais, arejado e amadurecido tantas ideias idênticas que, salvo pequenos pormenores distintivos, como um nariz um pouco mais ou menos adunco, uma careca mais ou menos luzidia, as listas de uma gravata um pouco mais ou menos largas, se diria falavam todos a uma só voz.
Uma convergência tão impressionante que os empresários podiam ser todos clones de um deles, o único aliás que reuniu e juntou os outros para fazer número.
O mesmo crâneo enfim que descobriu há anos a solução para o problema da falta de competividade da indústria portuguesa. É que faça chuva ou faça sol, cheire a crise ou sopre a retoma, a resposta do empresário é um verdadeiro milagre em construção, um prodígio de imaginação pujante e pertinaz...
Quando soube da magna reunião, fiquei intrigado. Queres ver que os empresários descobriram a pólvora?
Teriam proposto medidas para melhorar a produtividade num país como Portugal, soluções inovadoras para diminuir a falta de formação dos trabalhadores que tanto os aflige?
Preparava-me para ler umas reportagens quando um título lido de passagem num quiosque me poupou o tempo e me devolveu, não sei bem porquê, aquela sensação de tranquilidade e segurança que apenas o déjà vu pode proporcionar:
Segundo o credo do beato empresário, parece que continua, mesmo depois da vigência piedosa do senhor Bagão e das lágrimas amargas de Ferreira Leite, a ser necessário flexibilizar (mais; e mais) as leis do trabalho. É isso. Os empresários que têm a sorte de se defrontar com a massa assalariada mais amorfa, acarneirada e desarticulada da Europa, acham pouco e exigem mais regalias. Mais ajudas para eles e menos .desperdícios. na ajuda aos mais tesos. Mais .flexibilização. nos despedimentos.
Um corpo de medidas já bastamente comprovado pelos sucessos obtidos no desenvolvimento fulgurante das economias de países como a Bolívia, a Argentina ou a Nigéria, a que justamente ansiamos aceder, inspirados pelo exemplo de tão brilhantes e aparatosas .elites..
Na noite anterior, no rescaldo de um desses programitas em que um .painel. de personalidades discute .temas da actualidade., um desnorteado .comentador de economia. (ou seria política? ou seria desporto?) tentava extrair um significado, .fazer a síntese. da discussão que imagino tenha sido outra vez sobre a .retoma. ou afins e .deixava uma nota positiva. para a operária da Brax recentemente despedida e presente na reunião. Para os empresários e comentadores, nem sei se a "nota" é assim tão positiva. O atraso na entrega dos subsídios de desemprego cifra-se neste momento apenas nos seis meses e o governo continua a não dar garantias de que esses subsídios não venham a ser pagos.

Publicado por tchernignobyl às 09:57 PM | Comentários (2)

O VÉU DIÁFANO DA FANTASIA?

Convenhamos que a palavra "véu" não é lá muito simpática; associamo-la de imediato a ocultação, a identidade diminuída. (Mesmo que o costume de velar as noivas continue a parecer-nos encantador...)
Poderemos assim esquecer que, em França, não está em causa um "véu" propriamente dito mas apenas, na grande maioria dos casos, o hijab - pouco mais do que um lenço que cobre o cabelo e o pescoço.

Mas será mesmo que querer usar tal adereço só pode ser explicado pela pressão de "fundamentalistas" e "fanáticos"? Não sei bem qual a percentagem de muçulmanas francesas que são a favor desta polémica lei (1); mas sei de alguns argumentos importantes:
Afirma o Corão que as mulheres, quando em locais públicos, se devem vestir "com modéstia". O que é isto da modéstia ao certo, depende dos humores regionais e da imaginação dos estilistas locais... do nikab à burqa, cabem uma série de fashion statements religiosos. O Corão também recomenda qualquer coisa como "cubram os seus seios com os seus véus", o que facilmente pode servir de caução a ditames de moda mais restritivos.
Ou seja: esta prática tem a seu favor algumas palavras oriundas do Profeta Maomé.
Por outro lado, num país como o Egipto, nenhum destes resguardos é obrigatório; acontece é que muitas das mulheres mais jovens e instruídas usam hoje hijabs à laia de protesto contra o que entendem ser a ocidentalização excessiva do seu país...

Quer isto dizer que banir os "véus" pode ser uma genuína e real agressão às crenças religiosas de muçulmanas pouco ou nada "fundamentalistas." E pode até ser uma forma de impedir que jovens totalmente livres manifestem o seu apego às suas raízes e tradições, ocidentalizando-as à força de decreto.

Neste carrossel de factos e opiniões contraditórias, é engraçado relembrar que a defesa dos direitos femininos, já nos séculos XVIII e XIX, foi um dos argumentos para defender a colonização de grande parte do mundo islâmico. Não que os teóricos de então revelassem igual desvelo na Europa natal; a antropóloga Dawn Chatty relata-nos que um dos notáveis ingleses que promoveram a "libertação" das mulheres egípcias era, no remanso do lar, membro da Men's League for Opposing Women's Suffrage. Pois; também é instrutivo observar a nula indignação que suscitam, no ocidente, os véus de freiras...

Isto tudo para dizer que já pensei um bom bocado nesta questão e continuo sem arranjar forma de solidificar certezas mais ou menos firmes. Mas suspeito que uma "posição correcta", a existir, terá menos a ver com "princípios" grandiloquentes do que com a situação específica das comunidades islâmicas na Europa de hoje.


(1) Uma sondagem do CSA publicada no "Le Parisien" deu-nos algumas pistas:
"- 53 % des musulmans interrogés se disent tout à fait opposés ou plutôt opposés à une loi sur les signes religieux, seuls 42 % seraient favorables à une loi
- 71 % des musulmans interrogés estiment qu.on parle trop de la question du voile à l.école
- 45 % des musulmans interrogés apportent leur soutien aux manifestations contre la loi, 28 % seraient indifférents et seulement 23 % opposés
- 64 % des hommes musulmans interrogés seraient tout à fait favorable ou plutôt favorable à ce que leur femme porte le voile
- 59% de l.ensemble des musulmans interrogés seraient tout à fait favorable ou plutôt favorable à ce que leur fille porte le voile"

Mais importante ainda, temos que a pergunta "Favorable, plutôt favorable, plutôt opposé ou tout à fait opposé à ce qu'une loi interdise les signes et tenues qui manifestent ostensiblement l'appartenance religieuse des élèves ?" deu nisto: 56% das muçulmanas opuseram-se à lei, enquanto que apenas 51% dos homens o fizeram. No que toca às jovens entre os 18 e os 24 anos, a oposição a esta lei atinge 65%!

Isto talvez baste para desmentir a tese da maioria moderada refém dos fundamentalistas fanáticos. Dos jovens muçulmanos, nada menos que 81% afirmam preferir que a sua noiva use o pano da polémica...


P.S. picuinhas: O véu antecede em vários séculos o nascimento do Islão, sendo já tradicional entre os antigos Assírios, p.ex. A natureza nómada dos primeiros muçulmanos impediu qualquer tentativa de esconder as mulheres, mesmo quando em público; só por alturas do sec. X é que surgiram as primeiras regras a impor a modéstia têxtil às mulheres do Islão. E não é um exclusivo muçulmano: ainda hoje, as hindus ortodoxas cobrem os rostos quando na presença de homens desconhecidos.

Publicado por Luis Rainha às 03:21 PM | Comentários (13)

PEDAGOGIA E BOMBARDEAMENTOS À DISCRIÇÃO

Tenho-me deliciado nos últimos dias com a conversão de alguns falcões à pedagogia, a propósito da legislação anti-véu em França. É uma ternura ler o Fernandes a queixar-se da .falta de pedagogia. da lei recentemente aprovada e até a lamentar que por causa dela uma tal menina muçulmana vai passar a ver a tv dos emiratos em vez da banal televisão francesa.
Em França, o Fernandes quer liberdade para os fundamentalistas exercerem a sua coacção sobre o resto da sociedade, criticando uma medida que vai afectar uma ínfima minoria de muçulmanos e que de resto só colide com a sua liberdade religiosa devido ao conceito totalizante e totalitário com que pretendem viver a sua religião.
Algo que, a ser aceite, tornaria num inferno a vida numa sociedade moderna, se todas as confissões religiosas e respectivas subfacções entendessem fazer o mesmo. A não ser que se defenda a criação de guettos.
Invocam que a medida vai afligir .oito por cento dos franceses que são muçulmanos., esquecendo que desses oito por cento a esmagadora maioria pretende viver a sua religião longe dos fundamentalistas que estão por detrás desta luta.
Para os países muçulmanos, o Fernandes propõe uma solução mais pragmática e acima de críticas, por ser aplicada pelo amigo americano: é bombardear tudo. Os fundamentalistas, os outros e as mulheres e filhos de todos, dentro e fora das escolas, hospitais e mesquitas. Não lhes proibem os véus, mas matam-nos. O que é preciso é que haja decência.

Quem tente manter os fundamentalistas em respeito nos países democráticos, de forma perfeitamente razoável, contida e legítima, para todos que não uma minoria de fanáticos, é para o Fernandes antidemocrático.
Quem tente explicar-lhe como é estúpida a forma como os Estados Unidos e alguma direita "idealista" têm encarado o problema do terrorismo, já é simpatizante da AlQaeda.
No DN, Pulido Valente também critica a decisão francesa. Considera-a na linha directa das perseguições do Estado laico às religiões que vem de longe e atingiria agora os muçulmanos: lembra também que LePen apoia esta lei. Era bom fazer-se de vez um inventário do que o LePen apoia ou não apoia, e do que o Pulido Valente e o resto do povo apoiam ou não apoiam, para se tornar mais claro em que âmbito é ou não aceitável este tipo de demagogia.
De resto, se a lei não fosse aprovada, ele escreveria a crónica ao contrário e atacaria os fundamentalistas em particular e o clericalismo em geral.
Haja vontade e talento para escrever que o que não falta por aí são convicções fortes.

Publicado por tchernignobyl às 10:08 AM | Comentários (20)

A RETOMA DE TCHERN

Qual Lin Chung, qual carapuça! A retoma (ou «letoma») que é preciso celebrar, aqui no BdE, é outra: o regresso do tchern, esse herói tresmalhado, após umas curtas férias sabáticas. Welcome back, my friend.

Publicado por José Mário Silva às 09:41 AM | Comentários (0)

DON.T DESPISE THE SNAKE BECAUSE IT HAS NO HORNS

O leglesso de Lin Chung!
Agola sim, é a retoma. Oops... a letoma.
Solicita-se urgente gravação de todos os episódios.

Publicado por tchernignobyl às 09:35 AM | Comentários (5)

UMA DEFINIÇÃO POLÍTICA

Definir-me-ia como um tipo que é moderado nas suas posições radicais e radical nas suas posições moderadas.

Publicado por Filipe Moura às 02:00 AM | Comentários (8)

QUEM PERCEBE DISTO É O MEXIA

Uma vez o Pedro escreveu que o Maio de 68 "mostrou, uma vez mais, como o esquerdismo (isto é, a esquerda à esquerda dos comunistas) não passa de um passatempo de burgueses, facilmente reabsorvíveis pelo conformismo. E o Maio chateou de morte o PCF. Só por isso valeu a pena. Foi bonito ver o irreconciliável e ainda actual conflito entre os amigos dos sindicatos e os amigos dos orgasmos."
Eu também sou muito amigo dos orgasmos, mas que fique bem claro que, politicamente, estou mais próximo de ser um amigo dos sindicatos.

Adenda: Eu deveria ser era um amigo do trabalho.

Publicado por Filipe Moura às 01:59 AM | Comentários (0)

QUEM É, AFINAL, O DANIEL OLIVEIRA?

Eu julgava que era o tipo com quem eu tinha vindo a polemizar, e sobre quem escrevi estes textos todos. Afinal, no Barnabé, o próprio Daniel e o Celso descobriram mais duas identidades diferentes. Parece que um até vota no Santana Lopes.
Vim a descobrir depois que Daniel Oliveira é afinal o actor protagonista do filme-biografia de um dos meus cantores favoritos.
(Aproveito para dizer: espero que este filme sirva como ocasião para se redescobrir o Cazuza.)

Publicado por Filipe Moura às 01:57 AM | Comentários (1)

ARGUMENTOS!

Vamos então aos argumentos que o Daniel tanto me pede. Desta vez são, espero, "com nível!"
Comecemos pelo texto "Uma questão de geografia política". Bem, reconheço que todo esse texto foi uma provocação mal sucedida que, se não fosse contra a ética bloguística, seria apagada. Foi mal sucedida até pelas reacções que teve dos leitores. De qualquer maneira, há sectores de esquerda . até na blogosfera portuguesa . que os defendem. E não me parece correcto nem construtivo despachá-los como "estalinistas", até porque isso não é verdade.
Sobre a antevisão: Daniel, respondeste que eu acho "que é demagogia comparar o Muro de Sharon com o Muro de Berlim. Não, não é por que sejam casos completamente diferentes, crítica que até seria legítima. É porque sim". Eu é que não me dei ao trabalho de explicar.
Pareceu-me que o que tu chamas "crítica legítima" era demasiadamente óbvio para precisar de ser explicado. Era essa a minha crítica; tu já a explicaste por mim, e ainda bem que a achas legítima.
De seguida dás a entender que eu defendo a "superioridade moral" do Muro de Berlim sobre o "do Sharon". Por favor, não vás por aí, lá por certa direita achar o contrário. Não é o meu caso: acho ambos os muros execráveis. Não tentes ler coisas que eu não escrevi e nem escreveria. Não enfio o barrete que me tentaste enfiar.
Segues dizendo que eu "não percebi" que tu simplesmente usaste "uma opinião marginal e inaceitável num sector da esquerda para atacar a direita e não o contrário." Como é? Importas-te de repetir? Então agora usas "uma opinião marginal e inaceitável num sector da esquerda" para atacares a direita? Que escola de argumentação é essa? Francamente agora é que não percebi. Continuo sem perceber o que é que chamar a Odete Santos e o Bernardino Soares a esta questão pode ter a ver com "atacar a direita".
Mantenho que o teu texto, tal como está escrito, é mais um dos teus ataques ao PCP, desta vez gratuito e totalmente injustificado. É possível que tu o faças tão naturalmente que, desta vez, nem tenhas dado por isso.

Não me importo mesmo nada . tens todo o meu apoio . que ataques o PCP quando este merece ser atacado. Por exemplo, com tudo o que diga respeito ao Muro... de Berlim. Agora na questão israelo-palestiniana não me parece que haja nada a apontar ao comportamento do PCP. Utilizar esta questão para atacar este partido revela profunda má-fé. Se, no mesmo texto em que condenas . muito bem . um assunto tão grave como o "Muro do Sharon" e a respectiva tomada de posição do parlamento português, não consegues evitar atacar o PCP, então tudo te serve para atacares o PCP. Imagino que culpes o PCP de cada vez que apanhas uma gripe, tens um pneu furado ou o Sporting perde.
Concluis dizendo que eu acabo "mesmo num tom muito rasteirinho, que nem os blogues de direita costumam usar contra o Barnabé". Já me retractei por ter usado tal tom e já pedi desculpa. O que eu queria dizer, na parte final desse texto, e mantenho, é o seguinte: espero que a atitude do Bloco de Esquerda relativamente ao PCP nunca seja a que aqui descrevi. Fulanizei esta opinião (referindo-me concretamente a ti) e não o deveria ter feito. Mas deixa-me agora devolver-te a acusação: nem a direita costuma referir-se ao PCP (nalguns casos eu diria mesmo enxovalhar o PCP) da maneira como tu o fazes.

Publicado por Filipe Moura às 01:30 AM | Comentários (3)

EU E O DANIEL OLIVEIRA

Ainda como itálico na primeira versão do BdE, fui a primeira pessoa a referir o nome do Daniel Oliveira em toda a blogosfera. Foi a propósito de um seu texto no Público. Referi-me a ele como o "Prolixo", em referência ao seu passado na luta contra a Prova Geral de Acesso ao Ensino Superior, em 1992, em que também participei. Foi no dia 9 de Fevereiro de 2003.
O Daniel começa a participar nos encontros "É a Cultura, Estúpido!" e, mais ou menos ao mesmo tempo, inicia a sua colaboração com o BdE, também como itálico. A reacção inicial dos leitores do blogue à sua participação não é boa, receosos que estavam de uma "partidarização" do BdE. Eu saúdo e defendo o ingresso do Daniel e desminto a partidarização do blogue, pelo menos no que dependesse de mim. Estávamos no dia 7 de Abril de 2003. Hoje, aquele meu texto parece-me mais ou menos premonitório.
Talvez tenha sido somente uma coincidência, mas o primeiro texto do Daniel no BdE é a defender uma iniciativa política do seu partido.
A 7 de Junho, o Daniel escreveu o tristemente célebre texto que deu origem ao fim da "Coluna Infame". Pereira Coutinho respondeu da maneira que os leitores se devem recordar, e o Daniel usa o seu direito de resposta no BdE. Já mais habituado ao estilo do Daniel, escrevi um comentário a este último texto, cujas partes relevantes para esta questão aqui reproduzo:
"Será que daria para escreveres um post que não fosse de apoio explícito a iniciativas do Bloco de Esquerda? Desculpa lá mas é que, se me é permitido citar Salazar, em política o que parece é."
Passa-se o Verão. O Daniel sai do BdE para fundar o Barnabé com amigos. Pouco depois eu saio do BdE para fundar o Estrangeiros no Momento com amigos. O Daniel saúda o aparecimento deste blogue.
O tempo passa. Os textos do Daniel no Barnabé seguem a um ritmo elevadíssimo. O Daniel deixa de defender tanto propostas do Bloco e passa com frequência a atacar o PCP, umas vezes de uma forma gratuita, outras bem fundamentada. Uma das entradas mais conhecidas dessa altura é a da famosa fotografia de Odete Santos na revista. Reagi com um texto no "Estrangeiros no Momento".
Em Dezembro de 2003, o Barnabé decide incluir os "Estrangeiros no Momento" e mais 35 blogues na lista das suas ligações permanentes. Agradeci, na área dos comentários, a ligação, mas acusei o Daniel (com uma frontalidade que me é característica e que por vezes pode parecer desagradável) de ser um "anti-PCP primário".

Até anteontem não há muito mais a registar. Encontrei o Daniel duas ou três vezes nos encontros "É a Cultura, Estúpido!" e jantei com ele e mais uma série de bloguistas no final do ano passado.
Os meus textos de ontem, que tanta polémica deram, não foram portanto o resultado de uma ocorrência esporádica. Resultaram, sim, de uma atitude mais ou menos sistemática do Daniel que, confesso, me vinha a aborrecer. Mas espero, com esta revisão, ter convencido o Daniel e quem nos lê que não tenho, muito pelo contrário, nenhuma animosidade especial contra ele. Simplesmente caem-me mal certos aspectos de alguns dos seus textos.
Agora, como aconselhava o Lenine, "olho na pressão, olho na panela..." Eu não tive olho na pressão e o caldo entornou-se. Veio todo por fora de uma vez. Sujou o fogão todo, e isso não foi bonito. Se passei o limite da cordialidade, peço desculpa por tal. Essa atitude não foi deliberada, mas resultou do súbito aumento de pressão derivado da leitura do texto original do Daniel. Dito isto, vamos limpar a cozinha, que é como quem diz deixar tudo em pratos limpos.

Publicado por Filipe Moura às 01:25 AM | Comentários (2)

fevereiro 15, 2004

BABEL

Cá em casa, mudanças. Mesas que saem, mesas que entram, móveis em trânsito, livros (finalmente) arrumados, pó no ar, purgas de papel, alguns quadros (finalmente) nas paredes, novos arranjos das mesmas coisas.
Resumindo: a minha paisagem visual alterou-se. À minha frente, enquanto escrevo, tenho agora uma reprodução da «Torre de Babel», de Pieter Brueghel:

Belo quadro, não acham?
A mim, por vezes, parece-me uma metáfora da blogosfera.

Publicado por José Mário Silva às 09:21 PM | Comentários (0)

S&M

Lado a lado, na prateleira da livraria, estão «Os Crimes do Amor» de Sade e a «Vénus em Peles» de Sacher-Masoch.

Publicado por Margarida Ferra às 07:57 PM | Comentários (2)

SUGESTÃO DE TACHO PARA A DR.ª MARIANA CASCAIS

Consta que a Dr.ª Celeste Cardona está prestes a ser "promovida" para o Parlamento Europeu. Esta progressão na carreira, também conhecida como "Chuto para Cima", é uma original estratégia que os partidos inventaram para esconder a tralha embaraçosa. Bruxelas surge assim como uma espécie de sótão, um armazém para monos indesejados.
Agora, podiam aproveitar a embalagem e despachar para lá trastes do calibre de Jerónimo de Sousa, Albano Nunes, Valentim Loureiro, Alberto João, Edite Estrela e Fernando Gomes.
Sem esquecer, claro, toda a (pequena) tribo do PP. Aqui, até posso recomendar uma personalidade mesmo talhada para uma promoção no estilo:
Mariana Cascais, a suposta secretária de estado da Educação que proclamou o catolicismo "religião oficial portuguesa" e que, não contente, ainda deu esta entrevista, já muito glosada, em que revela a sua antipatia pela educação sexual nas escolas, pelos preservativos, pelo bom-senso, etc.
No entanto, o Parlamento Europeu não me parece ajustado ao perfil da figurinha. Eu recomendo-a, sim, para um cargo internacional da maior importância e que, segundo consta, não deverá tardar muito até ficar vago.

Já estou mesmo a vê-la a tomar posse:



Publicado por Luis Rainha às 01:00 PM | Comentários (8)

UM LIVRO QUE SE ME ACABA

Sempre que leio um livro de Gore Vidal, acontece-me isto: à tantas, dou por mim a lamentar as poucas páginas que me restam até ao final e ponho-me a racioná-las, a fazer render o peixe por mais uns dias, mais umas horas. Tenha o livro em questão 500 ou 100 páginas. Seja ensaio, romance histórico ou coisas esquisitas como o "Live from Golgotha".
Já desisti de tentar descobrir razões para esta paixão antiga; o homem nem sequer tem um estilo brilhante e costuma escolher temas que, à partida, não me dizem grande coisa.
Desta vez, foi o "Julian". A biografia romanceada do imperador romano Juliano, o Apóstata. O homem que, no séc. IV, tentou inverter a marcha da história e substituir o cristianismo então já oficial pelos antigos deuses helénicos. (Como está á vista de todos, ele morreu antes de completar esta meritória tarefa...)

"Julian" termina com estas palavras, que Vidal coloca na pena do sofista Libanius: "I have been reading Plotinus all evening. He has the power to soothe me; and I find his sadness curiously comforting. Even when he writes: .Life here with the things of the earth is a sinking, a defeat, a failing of the wing.. The wing has indeed failed. One sinks. Defeat is certain. Even as I write these lines, the lamp wick sputters to an end, and the pool of light in which I sit contracts. Soon the room will be dark. One has always feared that death would be like this. But what else is there? With Julian, the light went, and now nothing remains but to let the darkness come, and hope for a new sun and another day, born of time.s mistery and man.s love of light."

Nem precisaria de acrescentar que se trata de leitura altamente recomendável.

Publicado por Luis Rainha às 12:38 PM | Comentários (5)

fevereiro 14, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

In Memoriam Emanuel Félix, poeta açoriano (1936-2004):


FIVE O'CLOCK TEAR

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

Poema incluído no livro «A Palavra O Açoite» (1977)

Publicado por José Mário Silva às 09:44 PM | Comentários (1)

EVIDÊNCIA MELANCÓLICA

Quando morre um poeta, há palavras que ficam para sempre de luto.

Publicado por José Mário Silva às 09:40 PM | Comentários (1)

EMANUEL FÉLIX

Por SMS, o Joel Neto avisa-me: «Morreu o Emanuel Félix». Coisa brutal, saber assim da morte de alguém que só conhecíamos em verso.

Publicado por José Mário Silva às 09:33 PM | Comentários (1)

MY FUNNY VALENTINE (2)

Publicado por José Mário Silva às 09:29 PM | Comentários (1)

LENÇO BRANCO

A mim, parece-me que não vale a pena enterrar o machado de guerra, porque não chegou a haver guerra. Como era o título daquela peça do Shakespeare? «All's Well That Ends Well». Nem mais.

Publicado por José Mário Silva às 09:26 PM | Comentários (0)

MY FUNNY VALENTINE

Publicado por José Mário Silva às 03:21 PM | Comentários (2)

DUAS PEQUENAS PERGUNTAS RETÓRICAS

Caro Filipe: então com tanto blogue de direita mesmo a jeito, tu só se te lembras de ir chatear o Barnabé? Não achas que devemos guardar a pólvora para quem mais a merece?

Publicado por José Mário Silva às 03:19 PM | Comentários (8)

UMA QUESTÃO DE GEOGRAFIA POLÍTICA

Imaginem que era criado um imposto especial sobre o tabaco. As receitas desse imposto reverteriam exclusivamente para a cura de cancros do pulmão, que são na sua maioria causados pelo tabaco. Esse imposto deveria ser calculado de forma a a cura deste tipo de cancro ser totalmente por ele financiada, quer em fumadores activos quer em passivos.
Imaginem que em alternativa os fumadores eram obrigados a declarar-se como tal, e a pagar mais por isso nas suas contribuições para a Segurança Social, para poderem beneficiar desta totalmente. Caso não o fizessem, e mais tarde viessem a ter cancro do pulmão e se comprovasse que eram fumadores, seriam responsáveis pelo pagamento do seu tratamento.
Eu sei que estas posições parecem assustadoras para os portugueses, principalmente para os de esquerda, habituados que estão aos herdeiros do Maio de 68 ou aos amigos do Muro de Berlim. Em qualquer dos casos, e isto é comum aos países latinos, estão habituados ao É proibido proibir. E sobretudo responsabilizar.
Mas nem por isso estas posições devem ser deixadas de ser consideradas de esquerda. (Não têm nada a ver com as posições moralizantes da direita norte-americana.) É assim que a esquerda pensa nos países anglo-saxónicos e do norte da Europa. Particularmente, é assim que pensa o Partido Ecologista alemão, uma organização com que eu simpatizo muito. É tudo uma questão de geografia.
A geografia do Daniel Oliveira é que parece andar muito por baixo, já que ele primeiro confundiu o Minho com a Beira Baixa e, agora, confundiu Berlim com a Palestina. Mas valia a pena que ele pensasse nisso. Sobretudo antes de usar certos rótulos.

(PS: Vale a pena que todos nós pensemos nisto. Não quer dizer que eu concorde com estas propostas. Oportunamente regressarei a este assunto.)

Nota bene (acrescentada a posteriori): Eu não concordo na generalidade com as propostas aqui apresentadas, precisamente pelos motivos apresentados pelo Luis Rainha no seu comentário. Só disse "imagine-se...", e que valia a pena pensar sobre elas. E tem mesmo de se pensar, uma vez que são as propostas de partidos de esquerda de alguns dos nossos parceiros comunitários.

Publicado por Filipe Moura às 01:47 PM | Comentários (12)

ANTEVISÃO

Na próxima manifestação contra a ocupação ilegal por Israel dos colonatos da Palestina, lá estará o camarada Daniel, esse grande timoneiro, esse verdadeiro federador da esquerda, a protestar contra o Muro... de Berlim. De seguida, os mauzões dos amigos do Muro de Berlim com as suas bandeiras da foice e do martelo tomarão conta da manif e não deixarão o Daniel aparecer nos jornais e na televisão. O Daniel, por sua vez, virá queixar-se, com o tom de vítima do costume, que por causa destes tipos não é possível uma unidade de esquerda.

(Daniel, agora falando a sério: será que nem com um assunto tão grave como o do "muro do Sharon" - e a tomada de posição do Parlamento português - tu deixas de fazer demagogia barata? Eu sei que tu não és o Bloco de Esquerda, mas se és assim em política espero que nunca passes de um cargo de secretaria.)

Publicado por Filipe Moura às 01:37 PM | Comentários (3)

UM FABULOSO BLOG AOS QUADRADINHOS




Eu sei que não é um blog. Nem nada que se pareça. Nem nada que se pareça com nada.
Enfim, uma vez que me faltam as palavras, aqui está a sugestão de leitura: uma belíssima história, também ela sem palavras. Com agradecimentos ao Nuno Marques, que me apresentou a pérola.
Atenção: não é propriamente "infantil".

Publicado por Luis Rainha às 01:16 PM | Comentários (0)

VIDA E OBRA DE ARNON MAARTEN (10)

Por mera coincidência, a obra do compositor Arnon Maarten que o musicólogo António Correia Guerreiro hoje analisa, na sua rubrica quinzenal, tem uma componente amorosa (e até erótica) não despicienda.

Nadine [para piano] Op.9, de 1965 (11 min)
Allegretto

Como já vimos, o ano de 1965 foi um período de importantes .descobertas femininas. para Maarten, uma das quais seria absolutamente marcante para o compositor, pois tratou-se de Nadine, a companheira com quem partilharia o resto da sua vida.
Do passado amoroso de Maarten desconhece-se quase tudo, parecendo que o compositor procurou apagar as suas anteriores vivências, da mesma forma e com o mesmo afã com que reviu as suas obras.
A descoberta de Nadine, quando Arnon Maarten contava já 32 anos, constituiu uma espécie de primeiro grande amor, ou, pelo menos, foi essa versão do seu passado, eventualmente romanceada, que o autor nos quis deixar.
Nadine era, na altura, uma estudante francesa de pós-graduação que foi estudar violoncelo para o Conservatório de Roterdão.
Quando Maarten travou conhecimento com a .deslumbrante morena, de corpo longilíneo e curvas suaves, dotada de uma absoluta delicadeza em tudo o que fazia, em tudo o que dizia e, muito especialmente, na forma como sorria., sentiu-se .irremediavelmente cativado, rendido e enfeitiçado..
Os dois travaram conhecimento em 1965 (tinha Nadine 29 anos) e podemos deduzir que a atracção foi mútua, dado que se casariam em 1967, para apenas se .separarem. no momento da morte de Arnon Maarten.
O Op. 9 do compositor terá sido elaborado .no silêncio desolado do apartamento, quando não podia deixar de pensar na Nadine que não era ainda a minha Nadine [expressão com que Maarten sempre se referiu à mulher], ganhando coragem para a abordar e começando a construir o meu mito pessoal nos pentagramas..

Aparentemente, Nadine só mais tarde (talvez aquando do nascimento da sua filha Eva, em 1968) veio a conhecer esta composição que Arnon Maarten parece ter tido pudor em lhe mostrar antes, pois .não é costume dar a conhecer os delírios erótico-criativos de alguém ao objecto desses delírios, pelo menos por parte das pessoas bem comportadas..
Terá pois sido num estado de quase êxtase, por um amor emergente mas não concretizado, que Maarten compôs esta .fantasia platónica. a que, facto único na sua obra, optou por dar um título pouco formal e muito explícito sobre o seu conteúdo: «Nadine».
A obra em si consiste numa longa improvisação, em um só andamento, de características .deambulatórias, talvez mesmo sonâmbulas, e melodia incerta., um pouco à maneira de algum jazz, em que .o intérprete/autor se deixa levar pelo momento, passando os dedos a funcionarem independentemente de qualquer plano pré-estabelecido, o que permite revelar o íntimo mais íntimo de quem assim se expõe sem filtros cerebrais..
A visão que Maarten nos tenta dar desta peça é, como noutros casos, uma evidente falácia, dado que se trata de uma composição rigorosamente construída e muito revista ao longo de toda a sua vida, apesar da aparente improvisação.
Assim, temos um tema amoroso que é exposto logo de entrada, de forma alegre e leve, mas que não se chega a concluir, passando o autor como que à procura do final perfeito para essa melodia inicial, ao longo da restante partitura.
Formalmente, a obra é complexa, assistindo-se a polifonias sucessivas e divergentes, que se interrompem constantemente, num jogo audaz entre a mão direita e a mão esquerda, construindo uma fuga que avança como que segura por arames, a uma curta distância de se tornar melodicamente caótica, mas sem nunca se afastar de uma agradável simplicidade sonora, pelo menos para quem ouve.
No final da peça, há um regresso à melodia inicialmente exposta, que volta a terminar inconclusa, como se o compositor admitisse não ter conseguido completá-la de forma satisfatória, pelo que .a única forma de resolver esta armadilha musical [.] passa por outras páginas, mais secretas e mais agradáveis..
Com o final da obra, ficamos com uma espécie de círculo concluído, sem, no fundo, se sair do tema inicial. É esta característica que faz com que Nadine tenha então essa atmosfera tão próxima do jazz, em que um tema é exposto, para depois ser percorrido por caminhos progressivamente menos familiares para o ouvinte, regressando então, de forma algo tranquilizante, ao tema inicial que é, normalmente, aquele de melodia mais reconhecível. Trata-se quase de um modelo clássico de tema e variações, se bem que neste caso sejam .variações virtuais, sobre a conclusão de uma melodia que não é nunca apresentada..

Publicado por José Mário Silva às 12:15 PM | Comentários (0)

POST MATINAL, SÓ PARA FAZER INVEJA AOS CITADINOS

Vista da janela do meu quarto, há cinco minutos:

Como é bom viver no campo, pelo menos ao fim-de-semana...

Publicado por Luis Rainha às 11:01 AM | Comentários (5)

fevereiro 13, 2004

SEPARADOS À NASCENÇA

Hoje, a capa do suplemento «Y» (Público) traz o retrato de uma rapariga loira, muito gira, com o título: «Joss Stone - nossa menina da soul». Já o rival «DNMais» (Diário de Notícias) exibe, na sua primeira página, a mesmíssima foto da mesmíssima rapariga (só muda, ligeiramente, o enquadramento), com a chamada: «Joss Stone - 'Soul' adulta em corpo de menina».
Quem é que disse que não há coincidências?

Publicado por José Mário Silva às 04:40 PM | Comentários (11)

ANATOMIA DA VIOLÊNCIA CAPITALISTA

Apesar do nome algo improvável, esta primeira longa metragem de Jean-Marc Moutout (trailer aqui) merece alguma atenção. Ignoro se está nos planos da Atalanta ou da Medeia Filmes levá-lo às salas portuguesas. Se não estiver, é pena. Porque, apesar de sofrer de alguns males habituais num primeiro filme (algumas cenas demasiado longas, certas redundâncias), é ainda assim uma análise convincente do mundo do trabalho e da sua violência, que tem sido aliás uma corrente interessante no cinema francês dos últimos tempos, desde o sucesso de Ressources Humaines, de Laurent Cantet. Pelo que sei, este é o primeiro filme que se abalança à descrição dos mecanismos ideológicos dos gabinetes de consultadoria, guarda avançada do espírito combativo do capitalismo actual. Um jovem diplomado de origens modestas descobre, logo na sua primeira missão numa empresa de metalurgia de precisão, a agressiva natureza do seu ofício: disfarçar pela ciência da auditoria, uma decisão patronal bem mais política. Depois de se aperceber da verdadeira intenção do seu chefe e do patrão da fábrica . despedir uma parte dos trabalhadores para depois vender a empresa a um grupo mais importante . o ainda ingénuo consultor júnior, esboça um movimento de revolta. Num registo sóbrio, vemos depois a sua gradual iniciação ao cinismo, o abandono de promessas incompatíveis com a sua progressão, até à perfeita integração no «espírito de empresa». Infelizmente, a falta de uma procura formal mais assumida impede o filme de ser mais eficaz (por vezes parece apenas um bom telefilme). Fica, pelo menos, a pertinente e amarga descrição sociológica.

Publicado por Manuel Deniz às 03:30 PM | Comentários (2)

EU CÁ NÃO PERCEBO PEVA DE FUTEBOL

Mas, como até gostava que a ignorância pudesse mesmo ser um ponto de vista, não me deixo inibir. Aqui vai um pequeno relato futebolístico:

Desde a mais precoce idade, o meu filho demonstra ter uns cromossomas misteriosos, adquiridos ninguém sabe onde, que lhe dão aptidões para qualquer actividade desportiva. E, claro está, gosta de jogar futebol.
Eu fiz o possível para o enviar para balneários bem frequentados, longe dos gabirus da bola. Pago-lhe lições de ténis a preços extorsionários; ensinei-o a jogar xadrez; até na natação o enfiei.
Resultados: algumas medalhas em campeonatos de ténis e a continuação do assédio choroso: "Pai, inscreve-me no futebol!"
Naturalmente, acabou por ir parar às escolas de um clube local.
Passado uns meses, a coisa piorou: o meu rebento foi seleccionado para a equipa de competição do clube. E lá disse eu adeus às madrugadas de sábado entre lençóis.
Mas, afinal, aquilo nem era tão mau quanto eu receara; os pais dos outros miúdos pareciam pessoas educadas e simpáticas, as equipas adversárias por norma revelavam desportivismo e bom perder.
Digo "por norma". A excepção surgiu quando chegou a altura de defrontar a equipa de um dos ditos "grandes clubes" de Lisboa.

A agressividade daquela turba de delinquentes infantis só teve desculpa por ter sido incentivada pelo respectivo treinador, que não parava de grunhir coisas como "dá-lhe!", entre outros incentivos à cacetada. Pela primeira vez, um destes jogos terminou com alguns miúdos impedidos pelo árbitro de voltar a entrar em campo.
A explicação? Parece que os senhores do tal clube "grande" estavam convencidos que nunca iriam perder aquele jogo (mas perderam mesmo...). E a expressão "fair-play" não devia fazer parte do vocabulário do troglodita disfarçado de treinador.
Moral da história: julgo que o futebol até pode ter piada. Mas convém não ser levado demasiado a sério. Senão, transforma-se, como muito bem disse a Natália Correia, num "desperdício de sentimentos". E, para os miúdos, acaba por ser mais uma escola dos melhores valores liberais, onde se aprende que tudo é lícito, desde que seja para ganhar.

Publicado por Luis Rainha às 02:27 PM | Comentários (10)

UM AUTOCOLANTE

Publicado por Luis Rainha às 02:00 PM | Comentários (24)

ERRATA

Nesta página do DN de hoje, onde se lê "Alistair Crawley", deve ler-se o correcto nome da personagem que, de acordo com Pessoa, "depois de ter cometido suicídio, decidiu viver na Alemanha": Aleister Crowley.
A famosa encenação, orquestrada para despistar os credores e as ex-amantes furibundas que não largavam as canelas do "Mago" inglês, teve lugar na Boca do Inferno, onde ainda hoje uma placa celebra a ocasião.

Este episódio surge, por exemplo, aqui, bem contado por Helena Barbas.

Publicado por Luis Rainha às 12:34 PM | Comentários (9)

SANTANA A DESLIZAR

À partida tanta, tanta promessa e cartaz de Lisboa em aflição. Ai que bom, que agora vamos ter Lisboa de escolas e piscinas, Lisboa com jovens no centro, mesmo no meio de tudo, Lisboa sem amigos do alheio nem filas de trânsito avenida abaixo avenida acima, Lisboa com um buraco escavado de fazer inveja ao túnel Dover-Calais, Lisboa com música, cinema, teatro e dança no Parque Mayer em 8 meses que, azar dos azares, e hoje é sexta-feira 13, se calhar só daqui a 8 anos. Era processos resolvidos em dois meses com o sugestivo nome de gesturbe, nome que conjugado com o narcisismo do Presidente . ainda não de todos nós, de momento só de alguns . tem uma sonoridade um poucochinho onanista. Era Lisboa Feliz e não se falava mais nisso. No meio de tanta expectativa, o que sai na rifa da cidade de luz branca e encantos cantados em fados e marchas populares? Uma pista de patinagem no gelo!!! Obra estrutural, necessidade premente de uma cidade que só por distracção ainda não se candidatou aos Jogos Olímpicos de inverno. Perguntam os mais cépticos: "mas quem vai dar uso àquilo?". Respondem os esclarecidos: "então com tanta gente que embarca para a Serra Nevada, este pode ser um primeiro passo para um complexo de neve colina abaixo ali em Santa Catarina ou no bairro do Castelo, desde há muito limpo de mouros".
Como cereja no topo do bolo, o slogan de antologia. Quando se pensava ser impossível fazer melhor que "Bairro Alto-Alto Astral", agora temos "Lisboa On Ice é Nice". Esmagador.

PS: junto à dita pista, projectam-se imagens de promoção numa parede branca onde o presidente aparece em destaque sucessivas vezes. Vá, povo de Lisboa, todos a darem vivas ao querido líder Santana Jong-Il. (Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 12:22 PM | Comentários (6)

POWELLPOINT BY CALVIN

Eu bem me parecia que o Colin Powell se tinha inspirado em alguém, quando apresentou na sede da ONU, há pouco mais de um ano, aquele Powerpoint manhoso com as "provas" irrefutáveis da presença de WMD no Iraque.

Já agora, uma salva de palmas para o Hobbes, esse tigre sábio que se revelou muito mais prudente do que alguns humanos (como Tony Blair ou Durão Barroso).

Publicado por José Mário Silva às 11:28 AM | Comentários (2)

VARGAS LLOSA E A EXCISÃO

A propósito do texto do Luís, vale a pena recordar esta "Pedra de Toque" (em castelhano), que encontrei após alguma pesquisa. É um artigo já com uns aninhos mas que, como qualquer texto de Mario Vargas Llosa, não perde actualidade. Não resisto a destacar uma parte:
"El multiculturalismo no es una doctrina que naciera en Africa, Asia ni América Latina. Nació lejos del Tercer Mundo, en el corazón del Occidente más próspero y civilizado, es decir, en las universidades de Estados Unidos y de Europa Occidental, y sus tesis fueron desarrolladas por filósofos, sociólogos y psicólogos a los que animaba una idea perfectamente generosa: la de que las culturas pequeñas y primitivas debían ser respetadas, que ellas tenían tanto derecho a la existencia como las grandes y modernas. Nunca pudieron sospechar la perversa utilización que se llegaría a hacer de esa idealista doctrina. Porque, si es cierto que todas las culturas tienen algo que enriquece a la especie humana, y que la coexistencia multicultural es provechosa, de ello no se desprende que todas las instituciones, costumbres y creencias de cada cultura sean dignas de igual respeto y deban gozar, por su sola existencia, de inmunidad moral. Todo es respetable en una cultura mientras no constituya una violación flagrante de los derechos humanos, es decir de esa soberanía individual que ninguna categoría colectivista -religión, nación, tradición- puede arrollar sin revelarse como inhumana e inaceptable."

Publicado por Filipe Moura às 01:59 AM | Comentários (4)

AINDA MAIS FUTEBOL

Não gosto de falar tanto de futebol de uma vez. Os leitores que me desculpem, mas apeteceu-me fazer uma pausa na questão da laicidade.
Só que me recordei que esta semana há "clássico" (Benfica-Porto). Qual resultado é que eu preferia? Eu só quero é que o Sporting ganhe!

Publicado por Filipe Moura às 01:37 AM | Comentários (2)

CRÓNICAS DA BOLA

Disse uma vez ao RAP que ele (e o Miguel Góis) eram as únicas pessoas que me faziam rir mesmo que o Sporting perdesse. Bem ao seu estilo, ele respondeu-me que também se fartava de rir sempre que o Sporting perdia.
Serve isto para apresentar a mais recente (e especialmente inspirada) crónica do Zé Manel, o único taxista de esquerda que anda por Lisboa.
Quero ver como o Miguel Sousa Tavares reage para a semana. Entretanto, a obsessão deste rabugento tripeiro pelo seu clube é tal que deu-lhe para fazer testes à resistência de camisolas de futebol (ler aqui, parte 5). Ó Miguel, isso é que é uma atitude científica!

Publicado por Filipe Moura às 01:32 AM | Comentários (3)

DUAS NOTAS FUTEBOLÍSTICAS

Caro Pedro, sportinguistas como esse Cunha Vaz, o Benfica que os leve e faça bom proveito! Repara que está ao nível do Malheiro. O Malheiro é que era insuportável, mas era benfiquista e ao menos era de esquerda.
Caro Jorge, obrigado pelos elogios ao BdE. Futebolisticamente adivinhaste: se o BdE fosse uma equipa de futebol, gostaria de jogar a médio avançado. Gostaria de ser um Pedro Barbosa da blogosfera, mas não passo de um candidato a Sá Pinto. O que não me desagrada nada.

Publicado por Filipe Moura às 01:11 AM | Comentários (0)

ENTRE COLEGAS

Somente um físico teórico ou um matemático para ter uma obsessão destas, digna de um Lewis Carroll, com a maneira como se lêem os blogues. João, bem te compreendo.

Publicado por Filipe Moura às 12:50 AM | Comentários (0)

fevereiro 12, 2004

UUUAAAAÁ!

Poucas coisas me afligem mais do que ver um recém-nascido, vulnerável e infeliz, a chorar desalmadamente com um ataque de cólicas. Tal basta para me convencer da maldade intrínseca do universo.

Ao fim de meia-hora de choro, eu é que me sinto infeliz e vulnerável e os recém-nascidos é que me parecem intrinsecamente maus.

Publicado por Luis Rainha às 11:12 PM | Comentários (5)

UMA BELA PERGUNTA, QUE DEVIA TER SIDO FEITA MAIS VEZES

John Kerry, a actual grande esperança de todos os que gostariam de viver num mundo menos perigoso, deu nas vistas por ter feito esta pergunta aos senadores dos EUA:
"How do you ask a man to be the last to die for a mistake?"

Bonita questão. Só é pena é datar de 1971, dizendo respeito à guerra do Vietname. Então, Kerry era um veterano penta-medalhado e liderava os "Vietnam Veterans Against the War".

Dia 9 de Outubro de 2002, John Kerry perdeu uma boa oportunidade de fazer a mesma pergunta ao Senado. Nesta ocasião, já senador, ele limitou-se a embarcar na nau guerreira de Bush Jr: "Why is Saddam Hussein attempting to develop nuclear weapons when most nations don't even try? ... According to intelligence, Iraq has chemical and biological weapons ... Iraq is developing unmanned aerial vehicles capable of delivering chemical and biological warfare agents..."

Graças a Deus que, não sendo americano, não vou ter de engolir este sapo, mesmo com o saboroso condimento do "voto útil"...

Publicado por Luis Rainha às 07:28 PM | Comentários (5)

HAJA SAÚDE (3)

Anda por aí um meloso anúncio radiofónico a proclamar que "a paixão pode ser vivida 24 horas sobre 24". Este fausto acontecimento, ao que dizem, seria possível graças aos bons ofícios de uma qualquer droga que combate a "disfunção eréctil".

"Paixão"? "24 horas sobre 24"?
Ó amigos, olhem que este senhor não é propriamente o Cupido...

Publicado por Luis Rainha às 04:41 PM | Comentários (0)

DELAY

Hoje, ao fim da manhã, houve finalmente um leitor que chegou ao BdE procurando, no Google, «imagens do peito de janet jackson». Tempo de delay: 12 dias.

Publicado por José Mário Silva às 01:20 PM | Comentários (2)

LIVRARIAS VS LOJAS DOS TREZENTOS

No jogo do capitalismo global, trava-se uma feroz batalha entre livrarias e lojas dos trezentos. A economia diz, aprumadinha, que se deixe oferta e procura trabalhar sem grandes contrariedades. tudo se resolverá.
Só em Lisboa, a lei da oferta/procura já fez fechar duas importantes livrarias: a Clepsidra em Picoas (entretanto mudada para a Av. Miguel Bombarda) e a Livraria Francesa, fechada sem efeito de substituição.
Sucede, porém, que ambas foram recauchutadas em lojas dos trezentos, trocando também versos por vernizes para unhas, ensaios por fichas-triplas, romances por aventais, literatura infantil por bonecas choramingas. De um cólofon para a pomada do dragão, da badana para o incenso afrodisíaco, tudo made in Taiwan, ai que caminho a percorrer!
E logo lojas dos trezentos chinesas . sem discurso xenófobo . prefigurando, de imediato, uma espécie de revolução cultural, mas sem livrinho vermelho, azul ou amarelo. É, pode dizer-se, a apropriação da cultura ocidental pelo Oriente.
(Rui Santos)

Publicado por José Mário Silva às 01:14 PM | Comentários (4)

DOIS CASAMENTOS E DOIS FUNERAIS

Ao que parece, uma assinatura do Presidente da República Francesa pode até selar um matrimónio entre uma noiva vivinha da silva e um morto.
Mas julgo que nem este poder quase sobrenatural vai chegar para manter a união entre Jacques Chirac e este defunto político...

Publicado por Luis Rainha às 12:22 PM | Comentários (1)

UMA PEQUENA PROVOCAÇÃO, DISFARÇADA DE "CONTRIBUTO"

Quero mesmo responder ao apelo do Filipe Moura. Quero mesmo; a minha ideia não é adoptar os comportamentos que apontei ao JPC. Juro.
Mas não resisto a partilhar convosco esta dúvida: a excisão . ou "circuncisão feminina" . é unanimemente tida como uma barbaridade a eliminar, nem que seja à força, nem que seja contra a vontade de mães e crianças. E muito bem, diria eu.
Mas, se essa prática tem poderosos fundamentos religiosos e culturais, não deveria ser tão imune a proibições quanto os véus nas escolas francesas?
A excisão é uma mutilação. Mas o véu também mutila as mulheres, não no seu corpo, mas sim na sua identidade, truncando-a, ocultando-a. Não esqueçamos que a horrenda burqa pode ser vista como uma versão aperfeiçoada do supostamente inócuo véu.
A agressão aos direitos das crianças levada a cabo nos dois casos é incomparável, eu sei; uma excisão deixa danos irreparáveis, enquanto que a submissão implícita no uso do véu pode sempre ser renegada. Mas este paralelo deixa a nu que não é com radicalismos folclóricos do tipo "nem um grama de liberdade a menos" que lá vamos.

PS: Depois de ter rabiscado isto, reparei que o texto do Vargas Llosa que o Filipe afixou abaixo já fazia referência à excisão. Mas, uma vez que já tinha tido o trabalho de escrever sobre o molhado, cá fica a provocação. Agora, podem lapidar-me à vontade.

Publicado por Luis Rainha às 12:01 PM | Comentários (7)

HAJA SAÚDE (2)

Autores como George Lakoff apresentam-nos uma teoria esclarecedora sobre as ideias dos conservadores: estes serão motivados, acima de tudo, por um desejo de disciplina. Disciplina para os outros, entenda-se; um bom conservador só descansa quando se vê investido de poder bastante para pôr os hábitos alheios na ordem.
Assim, é preciso disciplinar os madraços dos trabalhadores e, ao mesmo tempo, dar mais liberdade às ideias maravilhosas e sempre produtivas dos nossos empresários; é preciso educar os obesos mas também é imperativo dar rédea livre às empresas que produzem fast food quase tóxica.
Vem isto a propósito de algo que ouvi, ontem mesmo, ao nosso Primeiro-Cherne: "há que responsabilizar as pessoas. Por exemplo, um toxicodependente que, mesmo depois dos conselhos dos amigos, da família, da própria estrutura de saúde, persiste no seu comportamento, tem de ser responsabilizado pelas suas acções." (Cito de memória)

Julgava eu que muitas convenções internacionais a que Portugal aderiu definem os toxicodependentes como "doentes", e que até o actual ministro da Saúde disse que "um toxicodependente já não é considerado um criminoso mas um doente, que precisa de ajuda para se tratar". Mas o que importa isso face à clarividência de um Durão, que neles apenas vê malta com deficiente força de vontade?
Já estou mesmo a adivinhar o draculento Dr. Manuel Pinto Coelho oferecendo-se como voluntário para reeducar toda esta cáfila de débeis. Mediante uma generosa avença, claro.
E está-se a ver onde isto vai acabar: "mais insulina? Mas vocês, os diabéticos, não ouvem o que vos dizem?" ou "outra vez agarrado à máquina de diálise? Você é mesmo um irresponsável!"
Querem ceder à fraqueza da doença? Paguem!

Publicado por Luis Rainha às 10:08 AM | Comentários (8)

HAJA SAÚDE! (1)

Há poucas horas, as autoridades apreenderam umas arrobas de medicamentos falsificados.
Parece-me genial.
Então, não passam a vida a dizer que grande parte das baixas por doença é fraudulenta? Aí está a solução: para doentes falsos, medicamentos falsos...

Publicado por Luis Rainha às 09:52 AM | Comentários (3)

ALERGIA

O que incomoda não é tanto o eterno "pingo", os espirros consecutivos desde há quatro meses, o genocídio dos lenços de papel. Não. O que incomoda mesmo . na rua, no jornal, no metro . é o olhar misericordioso dos outros, perante o meu nariz tão vermelho.

Publicado por José Mário Silva às 09:40 AM | Comentários (3)

fevereiro 11, 2004

EL VELO ISLÁMICO

"Hay por lo menos tres millones de musulmanes radicados en territorio francés (algunos dicen que muchos más, considerando a los ilegales). Y, entre ellos, desde luego, sectores modernos y de clara filiación democrática, como el que representa el rector de la mezquita de París, Dalil Boubakeur, con quien coincidí hace algunos meses en Lisboa, en una conferencia organizada por la Fundación Gulbekian, y cuya civilidad, amplia cultura y espíritu tolerante me impresionaron. Pero, por desgracia, esa corriente moderna y abierta acaba de ser derrotada en las recientes elecciones para elegir el Consejo para el Culto Musulmán y los Consejos Regionales, por los sectores radicales y próximos al integrismo más militante, agrupados en la Unión de Organizaciones Islámicas de Francia (UOIF), una de las instituciones que más ha batallado para que se reconozca a las niñas musulmanas el derecho de asistir veladas a las clases, por "respeto a su identidad y a su cultura". Este argumento, llevado a sus extremos, no tiene fin. O, mejor dicho, si se acepta, crea unos poderosos precedentes para aceptar también otros rasgos y prácticas tan ficticiamente "esenciales" a la cultura propia como los matrimonios de las jóvenes negociados por los padres, la poligamia y, al extremo, hasta la ablación femenina. Este oscurantismo se disfraza con un discurso de alardes progresistas: ¿con qué derecho quiere el etnocentrismo colonialista de los franceses de viejo cuño imponer a los franceses recientísimos de religión musulmana costumbres y procederes que son írritos a su tradición, a su moral y a su religión? Adobada de desplantes supuestamente pluralistas, la Edad Media podría así resucitar e instalar un enclave anacrónico, inhumano y fanático en la sociedad que proclamó, la primera en el mundo, los Derechos del Hombre. Este razonamiento aberrante y demagógico debe ser denunciado con energía, como lo que es: un gravísimo peligro para el futuro de la libertad." (Mario Vargas Llosa) (Ler o texto todo, em castelhano, aqui.)

Publicado por Filipe Moura às 11:30 PM | Comentários (0)

VÉU ISLÂMICO

Um fragmento de um texto de Ferreira Fernandes onde se desenvolve aquilo que atrás defendi: o cerne da questão é o véu islâmico. Não outros véus. Há que dizê-lo com toda a frontalidade.

"Eu só lamento que o politicamente correcto tenha facilitado um falso debate. Para que a medida não fosse entendida como sendo dirigida exclusivamente contra o fanatismo muçulmano deu-se-lhe um cariz religioso geral: a escola devendo ser laica não permitia nenhum símbolo religioso. Ora uma cruz ao pescoço, um "kipah" judeu à cabeça ou um crescente muçulmano ao peito podem conviver numa escola, mesmo laica. São símbolos de se pertencer a religiões respeitáveis, são afirmação sem proselitismo (isto é, sem querer impor ao outro as suas ideias).
O véu islâmico não é isso. É a afirmação da mulher como inferior. No limite, pode permitir-se que uma adulta seja masoquista o suficiente para andar a alardear a sua submissão. Admito também que na igreja ou no clube haja costumes próprios: que os sexos não se misturem ou a assembleia-geral de benfiquistas não aceite gente de azul-e-branco. É lá entre eles. Mas na escola, na escola europeia, não. Ali se formam cidadãos e cidadãs. E a base dessa formação é: somos iguais. Somos iguais, de pais deste continente ou de outro, os Martins e os Palmela, nascidos rapazes ou raparigas. Isso é assim porque é assim e para quem não o entende é assim por decreto.
Por falar em França, em 1792 também houve quem não aceitasse a .egalité.. Não importa, ela foi imposta
." (Ler o texto todo aqui.)

Publicado por Filipe Moura às 11:24 PM | Comentários (10)

POLÉMICAS À ESQUERDA

"Não há nada como uma boa polémica à esquerda", escreveu o Zé Mário. Pela minha parte, a polémica a ter neste momento é a do véu islâmico.
Já afirmei atrás qual é a minha posição. É diferente da do Barnabé enquanto blogue, a menos que a opinião do Pedro Oliveira seja diferente (por onde andará ele?). É também bem diferente da do meu querido amigo André. Julgo aliás ser a primeira vez em muitos anos em que não estamos de acordo em política.
Quero esclarecer aqui várias coisas. Uma, óbvia, é que esta é a minha posição; não é, necessariamente, a deste blogue. Não faço ideia de quais sejam as posições dos meus colegas sobre este assunto.
A outra é que esta posição resulta de um exame de consciência. Como já tive ocasião de referir, é uma posição mais filosófica do que pragmática. Portanto, não tenho a certeza de que seja a posição certa; de que seja o que fazer. Concordo com a decisão tomada, mas reconheço que este assunto é tudo menos fácil. Se os resultados desta medida provarem que estou errado, cá estarei para o admitir. Mas creio que, apesar das críticas de que tenho sido alvo, ainda poderei vir a dizer, tal como o Comandante, que a história me absolverá. Muito mais do que absolverá o Comandante, acrescento.
Quero agora deixar-vos com fragmentos de alguns textos de outros autores sobre o assunto. Antes, refiro que o melhor resumo das medidas tomadas e a posição que mais se aproxima da que defendo que encontrei na blogosfera foi esta.

Publicado por Filipe Moura às 08:25 PM | Comentários (1)

QUE ESTRANHO, NÃO É?

Portugueses são os europeus mais pessimistas.

Publicado por José Mário Silva às 07:52 PM | Comentários (0)

FANTASMAS DIGITAIS

Recordam-se por certo da recém-licenciada que saiu directamente da UTAD para os computadores do mundo, em busca de porto de abrigo onde pudesse "desenvolver as competências".
Não sei bem porquê, mas depois de ler a provocante pergunta do Zé Mário . "será mesmo de carne e osso ou puro spam?" . não consegui libertar-me de uma outra questão: que ente magnífico poderia ser uma "criatura de puro spam"?
Ora aqui estava uma excelente desculpa para evitar o trabalho. Desatei a fantasiar. Imaginei, por exemplo, um computador arcaico, algures numa universidade em ruínas, entretido a falsificar curricula, esquemas nigerianos, ofertas de Viagra... num gorgolejo contínuo de spam apócrifo escorrendo Net abaixo, apenas para pacificar a angst dos seus circuitos sobreaquecidos.
Neste ponto, acordei e fui procurar a Ana Carla Magalhães.

Em cache no Google encontrei um débil vestígio desta donzela enigmática, uma "pegada" tão periclitante que, se calhar, hoje já nem existe.
Será que a Ana Carla ainda vive? Terá mesmo atingido o seu Eldorado, o tal "lugar relevante no mercado neste ramo de actividade"?
Daqui para a inquietação paranóica, foi um pequeno passo: será que, hoje em dia, quem não tem uma persona digital, um alias em perpétua circulação de server em server, existe mesmo?
E o caso simétrico: que dizer de quem projecta várias sombras distintas no ciberespaço? Será mais verdadeira, mais "real", aquela que angaria mais hits, mais page views?
Este sobressalto metafísico fora também desencadeado pela súbita recordação de um episódio antigo: há uns anos, dei comigo . por completo acidente, garanto - no boudoir virtual de uma senhora "acompanhante", à inteira disposição de cavalheiros, casais e outros animais solitários. A página tinha preços, regras de conduta, fotos da senhora em alegres cabriolas com vegetais, tinha tudo.
A estranheza começou quando eu comecei a "desmontar" o endereço dessa página, num exercício de espeleologia que todo o bom curioso conhece.
Sem dificuldade, desci um nível e encontrei a homepage de uma galeria de Arte, onde era dado grande destaque a uma pintora; nem mais nem menos, como já adivinharam, que a "acompanhante", agora com mais roupa e propostas menos lúbricas.
Isto consegue ainda ganhar bizarria acrescida: feita mais uma busca sumária, deparei com uma terceira identidade da senhora, num outro mister (que não revelo, pois tornaria a identificação demasiado fácil), completamente distinto dos anteriores.
Como será a existência desta mulher? Um acumular de quotidianos heterónimos, todos camuflados por biombos não muito opacos?
E quem será esta mulher? Um garrido conjunto de matrioskas, cada boneca dando esconderijo a uma outra mais pequena e mais críptica, até que nada resta para lá dos ecos digitais, dos fantasmas espalhados pela Net?
Pronto. Já estou a fantasiar outra vez.
Mas é verdade: há por aí, mesmo debaixo dos nossos olhares distraídos, vidas muito complicadas e muito estranhas.
Desculpem lá o devaneio apolítico.

Publicado por Luis Rainha às 05:40 PM | Comentários (9)

RESISTÊNCIA

Sobre a blogosfera, escreve Miguel Poiares Maduro, no DN: «Eu diria que a direita chegou primeiro mas se aburguesou e que a esquerda chegou mais tarde mas é mais resistente». Nós concordamos, claro. Ou não tivéssemos, como lema, «Abaixo a burguesia, viva a endurance».

Publicado por José Mário Silva às 02:22 PM | Comentários (5)

DE OLHO NA OCUPAÇÃO

O objectivo é «expor o impacto da ocupação militar e económica do Iraque». O site chama-se Iraq Occupation Watch. Vale a pena passar por lá e ir lendo o que nem sempre chega aos alinhamentos dos (tele)jornais.

Publicado por José Mário Silva às 02:18 PM | Comentários (3)

1106 (AND RISING)

Ontem voltámos a bater o record de visitas ao BdE (II), muito por culpa deste post do magnífico Barnabé. Não há nada como uma boa polémica dentro da esquerda para animar a malta.

Publicado por José Mário Silva às 10:33 AM | Comentários (15)

O NOVO SISTEMA DE VOTAÇÃO NA FLORIDA

Imagem enviada pelo leitor Pedro Fernandes.

Publicado por José Mário Silva às 10:30 AM | Comentários (7)

MARKETING FILOSÓFICO

Recebemos um convite para assistir a uma conferência de filosofia medieval na Faculdade de Letras do Porto, com este sugestivo título: «Caos e evento: notas sobre as metafísicas de Duns Escoto e de João de Ripa», por um tal Pedro Parcerias. Seguia depois um texto do conferencista, certamente para avivar a curiosidade do desconcertado leitor que, vá-se lá saber porquê, ainda se mantivesse recalcitrante:

«É a heterogeneidade do ente, como entidade do ente enquanto ente, que se move com a sua afirmação na presença virtual do ente ao tempo e ao eterno. É a entidade do ente enquanto ente que sempre atravessa o campo da doação do ente, fundado-a e, simultaneamente, habitando-a pela presença virtual da entidade do ente ao ente na sua doação. É a diferencialidade da diferença como afirmação originária do indiferente que se afirma como pensabilidade do pensável e que, como tal, se instala como poder do pensamento a partir da entidade do ente enquanto ente.
A homogeneidade é do reino da comutabilidade e da reciprocidade. Como a comutabilidade supõe um fim exterior ao comutável, a homogeneidade é desde sempre negação da afirmação originária e absoluta e, enquanto tal, relativização da mesma. Relativizando a afirmação originária, a homogeneidade opera por um prévio esvaziamento dos conceitos, através da sua nivelação nas proporções recíprocas, e por um consequente esvaziamento do pensamento também pelas mesmas proporções recíprocas.

Contudo, essa relativização operada pela alternância entre o que é e o que não é, encontra a sua possibilidade numa afirmação que permanece escondida na afirmação restrita da instabilidade originária, para além da oposição entre o ente e o nada. Para além dos enunciados recíprocos da comutabilidade afirma-se a heterogeneidade do ente enquanto ente que sempre avança com a presencialidade da presença no campo da doação do ente. No domínio da comutabilidade, o pensamento descobre o seu fundamento no exterior de si, numa origem que sempre se esconde. Na afirmação da heterogeneidade do ente, o pensamento encontra-se com a pensabilidade do pensável sem condições pois, todo o possível, tira a sua possibilidade de si mesmo. A heterogeneidade do ente enquanto afirmação originária e absoluta é, então, o que encontra o seu fim em si mesmo na unilateralidade sem contrário do ente enquanto ente. Ao se afirmar como poder da possibildade do possível e como poder da pensabilidade do pensável, a entidade do ente enquanto ente revela-se como refúgio do pensamento: revela-se como afirmação de si do pensamento no interior da heterogeneidade e da afirmação do ente.»

O BdE dá um prémio a quem conseguir provar que assistiu à conferência, apesar de ter lido o convite. Exigimos, no entanto, um relatório detalhado e fotografias comprovativas.

Publicado por Manuel Deniz às 12:23 AM | Comentários (15)

fevereiro 10, 2004

CORTE E COSTURA

Ao que parece, a cerimónia dos Grammys sempre foi para o ar com os tais cinco minutos de "delay". Se a moda pega mesmo, será que vamos voltar a ter momentos como este?

Publicado por Manuel Deniz às 11:47 PM | Comentários (0)

«NÃO»

Tal como o Francisco, «já não me vou queixar tanto se, de cada vez que for ao Dicionário à espera de coisas novas, encontrar sempre o mesmo post». Só que o post a que me refiro não é o da foto de Scarlett Johanson, mas o do texto (quatro dias mais abaixo) em que o Pedro, com a honestidade intelectual que o caracteriza, assume: «Se eu teria apoiado a guerra se soubesse (ou estivesse convencido) de que não existiam ADM? Não». Grande NÃO, Pedro, este que outros calam ou engolem, assobiando para o ar.

Publicado por José Mário Silva às 11:31 PM | Comentários (0)

SCARLETT

Durante as próximas duas semanas, já não me vou queixar tanto se, de cada vez que for ao Dicionário à espera de coisas novas, encontrar sempre o mesmo post.

Publicado por Francisco Frazão às 11:23 PM | Comentários (1)

O PROBLEMA DO CONSUMISMO

Publicado por José Mário Silva às 07:52 PM | Comentários (2)

CUBA LIBRE OU MENTIRITA?

Escrever sobre Cuba é algo que sempre me foi um pouco difícil. (Para começar, porque a minha namorada é uma feroz activista da solidariedade internacionalista e está sempre de olho no que me sai do teclado...) Vai daí, esta espécie de resposta aos muitos comentários que o meu outro post suscitou vai ser longa, torturada e muito pouco tocada pelas certezas inabaláveis de quem se sabe sempre ao lado da razão.
É que ser de esquerda não implica, ao contrário do que muitos parecem pensar, que se seja cego ou tonto. Portanto, nem precisava de ter estado em Cuba para saber que aquilo não é o Paraíso na Terra. E não preciso que me falem no Fidel para ter a noção de que é sempre triste ver a generosidade de um revolucionário decair em apego cego ao poder.

Feito este preâmbulo, vamos lá ao que importa:
O meu post, como terão reparado, não era um panegírico; era apenas uma resposta à visão de Aznar, que atribui a Cuba o estatuto de "anomalia histórica" condenada à extinção.
É que, apesar de tudo, ainda não me conformei à ideia de termos para todo o sempre um mundo rendido à grandiosa e inevitável superioridade do Capitalismo liberal; daí a menção ao "Fim da História" que povoava os sonhos dourados de muitos ainda há pouco tempo.

Por outro lado, eu não tive problemas em falar de "desmandos" e de "condenações sumárias". Não adoptei o esquema dos "nossos sacanas" vs. "os sacanas deles"; julgo eu aliás que nem passa pela cabeça de ninguém com um bocadinho de isenção comparar Fidel aos Somozas, Duvaliers e Pinochets dessa pobre América Latina. Então compará-lo a Hitler ou a Estaline, com o argumento que "a pretexto de haver esquerda e direita se cometem as mesmas atrocidades de sempre", é mesmo algo alucinado.

Em 2002, a Comisión Cubana de Derechos Humanos y Reconciliación Nacional já elaborara um relatório onde se documentavam 230 casos de presos políticos, incluindo condenados por delitos de direito comum com motivações políticas.
Em 2003, na véspera da invasão do Iraque, terminou um período que a Human Rights Watch qualificara como "de melhoria". Isto passou-se assim, segundo a Amnistia Internacional: "In June 2003 Amnesty International declared 75 new prisoners of conscience after they were detained in a massive government crackdown on dissent which began on 18 March 2003. Most of the detainees were subjected to hasty and unfair trials, and, just weeks after their arrest, were given long prison terms of up to 28 years."
A onda de repressão do ano passado saldou-se em 75 novos presos de consciência; mas trata-se de gente com nome e local de encarceramento conhecidos, não de milhares de "desaparecidos", como aconteceu no Chile, na Argentina, etc. Isto é uma diferença de peso, pelo menos para quem lá vive, "à mercê de um poder discricionário"...

Sei bem que, mesmo que fosse um só prisioneiro político, seria um a mais. Só é pena é que muitos pareçam oferecer aos Estados Unidos o beneplácito de uma isenção das regras do humanismo, a coberto da tal "guerra ao terror", ignorando as muitas centenas de pessoas que eles mantêm detidas, em condições inumanas e cruéis, nesta mesmíssima ilha de Cuba! Poderia assim escrever: "os cubanos também estão em guerra contra o terror do imperialismo, logo podem bem prender uns quantos desordeiros e cúmplices de atentados bombistas..."; poderia, mas não o vou fazer, que o Zé Mário não me paga para insultar a vossa inteligência. E sei bem que os tais 75 condenados, mais que provavelmente, nada tiveram a ver com atentados.

Deploro a minorada liberdade de que os cubanos desfrutam; mas não parto daí para estabelecer paridades entre o castrismo e ditaduras que elevaram a tortura, a aniquilação dos direitos e a repressão sangrenta a formas de arte. Colocar todos os regimes não-democráticos no mesmo saco nunca nos ajudará a compreender melhor coisa alguma; por certo que a Síria actual não é igual à Alemanha Nazi. Nem a Coreia do Norte é similar ao Portugal do Estado Novo.
Muitos outros casos de despotismo podem e devem ser analisados um a um, não colocados automaticamente numa só categoria, o que só empobreceria a nossa compreensão do Mundo. Não há ditaduras boas; mas há certamente as más, as muito más e as menos más.

Quando estive em Cuba há 3 anos, conheci muita gente. Conheci, por exemplo, um escritor que se "gabava" de ter visto o seu último livro "esgotar-se" num só dia . adquirido em massa pelo governo para que não causasse danos às moleirinhas mais frágeis... Ele garantiu-me que sabia de um homem que fora preso por contar uma anedota em público; e eu acreditei.
Mas até este contestatário admitia sem rebuço que a vida dele teria sido muito mais complicada noutros países daquelas latitudes; e anunciava com um sorriso que vivia da "FE", leia-se "Família no Exterior"...

O que nos leva a novo ponto de interesse: a questão dos cubanos que preferem "tentar atravessar o Atlântico cheio de tubarões a ficarem no paraíso de Fidel Castro". A mim, parece-me natural que gente que vive com dificuldades e permanentemente seduzida por promessas de dinheiro fácil a poucos quilómetros de distância se deixe tentar e cair em desespero. Isto recorda-me conversas que tive há largos anos no Egipto, com jovens candidatos a emigrantes que me garantiam que nos EUA toda a gente vivia como no "Dallas"; os meus desmentidos só serviram para destruir a minha credibilidade...
Nem convém esquecer a hipocrisia por detrás da política de imigração americana: criam muros para conter mexicanos e choram por não ver dilúvios de pobres cubanos a cair sobre Miami.

A pergunta "Fidel continua porque há embargo ou o embargo continua porque há Fidel?" já me serviu para irritar a namorada; mas, francamente, não lhe conheço resposta... Sei é que este embargo absurdo - e ditado apenas por considerandos da política interna americana - não é a única agressão vinda do exterior. Por exemplo, a famigerada Operação Mongoose não foi inventada por um Fidel paranóico; aconteceu mesmo. Hoje, os americanos podem ter desistido de tentar envenenar os charutos de Fidel, mas não desistiram, nem por sombras, de Cuba.
Nos dias que correm, qualquer auto-proclamado "grupo dissidente" recebe logo generosas enxurradas de dólares para fotocopiadoras, equipamento de comunicações, etc. E não é preciso dar muita corda à imaginação para ver os resultados destas injecções de cash num país como Cuba, pois não?

Mas não esqueçamos o essencial: a pena de morte é algo que me repugna em absoluto, pelo que sou o primeiro a lamentar que tenha chegado ao fim a moratória oficiosa que vigorou em Cuba durante uns anos. Não sei se isto faz alguma diferença, mas é um facto que os 3 homens executados em 2003 foram condenados por desvios de barcos, não por crimes de opinião.

E mais uma coisita respigada dos comentários anteriores: não me parece que Fidel seja equivalente a Salazar. Quando chegámos ao 25 de Abril, éramos uma nação maltrapilha, inculta e doente. Se o citado Índice de Desenvolvimento Humano então existisse, não duvido que nos deixaria bem atrás de Cuba. Isto para nem falar do modo como a riqueza estava distribuída por estas bandas: se há algo de que ninguém descortina em Cuba são grandes palácios ao lado de bairros de lata. Ali, nem a miséria nem a riqueza assumem rostos abjectos. E esta é mais uma das diferenças entre estes "nossos sacanas" e os "vossos sacanas", se quiserem mesmo ver a coisa assim.

Em Cuba "falta liberdade"? Licenciados têm "de carregar as minhas malas pelo dólar de gorjeta"? O "bordel continua"?

É certo. É péssimo. Mas não é isto que faz de Cuba uma "anomalia histórica" aos olhos de Aznar; se assim fosse, ele teria muitas outras paragens para onde olhar. Se calhar, irrita-o mais o pressentimento que talvez ainda seja possível salvar muitos dos sonhos da Revolução, mesmo apesar de Fidel, mesmo após Fidel. Tomara.

PS. Aos autores dos comentários que citei, desculpem lá não vos nomear individualmente, mas isto ia ficar ainda mais comprido e confuso. Vocês sabem quem são, eu sei quem vocês são, vocês sabem que eu sei que você sabem...

Publicado por Luis Rainha às 02:44 PM | Comentários (9)

EQUÍVOCOS

De uma tal Ana Carla Magalhães (será mesmo de carne e osso ou puro spam?) recebemos um e-mail com o seguinte teor:

«Acabo de finalizar o curso de Economia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Tenho conhecimento de que a vossa empresa ocupa um lugar relevante no mercado neste ramo de actividade, o que me dá garantias de ser um local onde poderei desenvolver as competências que adquiri na minha formação académica.»

Primeiro equívoco: não somos uma empresa. Ninguém que colabore connosco espera uma avença, muito menos um salário ou uma hipotética distribuição de lucros. Aqui não há sócios. Só cúmplices.

Segundo equívoco: não ocupamos um «lugar relevante no mercado neste ramo de actividade». Para começar, é duvidoso que a blogosfera seja um "ramo de actividade" (ainda se fosse inactividade...). Depois, não é um mercado . a não ser para quem gosta de brincar às blogshares e, talvez, para os fanáticos do liberalismo, como este, este ou este. Finalmente, isso do "lugar relevante" é muito complicado de definir. Contentamo-nos em ocupar um lugar, o melhor que sabemos e podemos.

Terceiro equívoco: nós não damos garantias de coisa nenhuma, muito menos de ser esse invejável lugar onde poderia "desenvolver" as competências que adquiriu na sua formação académica. Perdoe a ignorância, mas desconheço por completo quais as competências que se adquirem no curso de Economia da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Ainda assim, suspeito fortemente que não nos seriam de qualquer utilidade e vice-versa (isto é: as nossas competências, se as há, também de nada lhe serviriam).

Sendo assim, com todo o respeito e atenção devidos, sugiro à simpática e generosa Ana Carla que faça o favor de não perder mais tempo com este bando de diletantes e se apresse a apresentar o seu CV, decerto notável, em mais profícuas paragens. Obrigado e boa sorte.

Publicado por José Mário Silva às 01:28 PM | Comentários (23)

ELOGIO DO LUIS SEM ACENTO NO I

Só num dia, o homem já fez com que as visitas subissem, já criou focos de polémica, já escreveu um post com quase 30 comentários e chegou ao ponto de provocar uma discussão sobre gramática (o "i" de Luis leva acento ou não?) madrugada adentro.
Eu desconfiei logo, mas agora tenho a certeza: contratámos um craque.

Publicado por José Mário Silva às 12:21 PM | Comentários (1)

UM APELO EM PROL DA SANIDADE PÚBLICA

O João Pereira Coutinho, desde que subiu à primeira divisão dos semanários, anda a ver se bate o record de despautérios por centímetro quadrado de papel impresso.
Apenas por exemplo: há duas semanas, JPC escreveu que os sexólogos não praticam o que estudam; que as mulheres portuguesas violadas são é vítimas da sua estupidez e da sua incapacidade de dizer a palavrinha "não"; que gostar da poesia de Ary dos Santos é sintoma de deficiência mental profunda.
"Mas este gajo será tonto?", interrogou-se por certo muita gente. Nada disso. Não se trata de um peralvilho estridente e mal-educado; estamos é em presença de um brilhante estratega do marketing!
Vejamos: o "Expresso" já tem um paladino na luta contra as repugnantes "hordas" ou "trupes" do pós-modernismo e da cultura contemporânea: o João Carlos Espada. Gente a querer justificar o injustificável, como as Weapons of Mass Distraction ou o não cumprimento da lei que criminaliza o aborto, anda por lá aos magotes, a começar pelo divertido director do jornal que "O Independente" baptizou como "saco de plástico".
Quer isto dizer que o nosso bom JPC precisava de um nicho, de uma vantagem competitiva . para falar em marketês . como o Bush precisou do Supremo da Florida: desesperadamente.
A solução perfeita? Tornar-se the guy we love to hate, o nosso Rush Limbaugh, o provocador que atrai polémicas e ódios com a facilidade com que o papagaio do Franklin atraía coriscos.
Genial: assim, o nosso JPC fica dispensado de pensar, de argumentar, de procurar posições interessantes. Basta-lhe ser provocador, adicionar insultos qb, uma pitada de ofensas e a receita vencedora está pronta a ir ao forno.

O pior é que o esquema pode bem resultar. Neste último número do "Expresso", o artista já se entreteve a vergastar publicamente o Manuel Alegre, por crime de desacordo público. É isto que ele quer. É disto que ele se alimenta.
Confesso que eu também já caí na esparrela. Mas nunca é tarde para abrir os olhinhos. E ripostar da melhor forma.
Como? Simples: ignorando a criatura.

Não proponho nada de tão sério quanto um boicote. Vamos apenas não lhe ligar muito, como fazíamos àquele miúdo irritante que estava sempre no fundo da sala de aulas a fazer barulho e a mandar bocas para dar nas vistas e enervar a professora. Ao fim de uns dias de menosprezo ostensivo, ele acabava por se calar e deixava as aulas seguirem o seu curso normal...
Ignorar o JPC é um serviço público; é secar-lhe a gasolina com que ele gostaria de incendiar tudo à sua volta, feito Nero iluminado pelo esplendor de Roma em chamas (pelo menos, é esta a fantasia que imagino às voltas no crânio do ilustre colunista, esvoaçando entre citações avulsas de sir Karl e Oakeshott).

Em suma: não lhe liguem, que ele logo se cala. Vão ver.

Publicado por Luis Rainha às 11:18 AM | Comentários (9)

A QUEM POSSA INTERESSAR (2)

Ao que parece, o meu nome serviu de pretexto a algumas inquietações nocturnas.
Para satisfazer as mentes mais curiosas, vamos por partes:
Este "Luis" teve origem no mais comum "Luiz", incompetentemente transcrito do meu assento de nascimento para o BI. Tenho assim uma vaga noção de que a coisa está mal, mas não me apetece ir discutir com os senhores do Arquivo... e sempre é uma idiossincrasiazita engraçada.
Os sábios do Ciberdúvidas já me tinham esclarecido: "Cada um pode escrever o seu nome fora das regras estabelecidas, mas só para ressalva de direitos. Na imprensa, por exemplo, sujeitam-se a que os seus nomes se escrevam na grafia mais actual, como é uso nos jornais. As outras pessoas submeter-se-ão às regras ortográficas estabelecidas. Escreva-se, portanto, Luís."
Pelas razões acima expostas, vou continuar na minha; desculpa lá, ó José Mário Costa :-)

Quanto ao "Rainha", nunca tinha sido assaltado por dúvidas acerca da acentuação. Vocês gostam mesmo é de questionar os fundamentos da existência dum gajo!

Publicado por Luis Rainha às 11:03 AM | Comentários (1)

A QUEM POSSA VIR A INTERESSAR

Este post serve para informar as autoridades competentes do seguinte: neste preciso momento estou sentadinho à frente do meu computador. Não posso estar, portanto, minimamente envolvido nisto.
Só espero é que liguem mais a tal prova do que a recibos de cartão de crédito...

Publicado por Luis Rainha às 10:41 AM | Comentários (0)

UMA ENTRADA MAIS PESSOAL

Quatro e meia da manhã. Estive até agora a editar o texto anterior e a discutir a acentuação de "Luís Rainha". E ainda não é hoje que lavo a louça do jantar.
Boa noite.

Publicado por Filipe Moura às 03:37 AM | Comentários (3)

SOBRE O VÉU

Creio ser amanhã (ou já hoje...) que é votada, no Parlamento francês, a famosa lei da proibição do véu islâmico (e de outros sinais religiosos exteriores) nas escolas públicas.
Recém-chegado, não conheço a realidade francesa tão bem como, por exemplo, o André Belo. Mesmo assim, o mais recente texto do André é suficientemente genérico para eu estar de acordo com ele, salvo uma parte do título.
A minha posição é, assim, a de quem está de fora. É talvez mais filosófica do que pragmática.
Antes de a explicar, declaro que estou neste aspecto em total desacordo com o meu caro Pedro Mexia. Defende o Pedro que o problema não está no véu, mas sim na França "jacobina". Não fiquei muito convencido com tal argumentação e creio que ela resulta de ódios antigos ao sr. Chirac e aos "comedores de queijo". De uma vontade de que todos os véus islâmicos se transformassem numas armas de destruição maciça que nunca apareceram...
Por muito que se fale na proibição de outros símbolos religiosos, toda a gente fala somente no "véu". É evidente que o problema está todo no véu! (E não ver isto, caro Pedro, é que é um equívoco.)
Mais do que um símbolo religioso, o véu para mim representa uma opressão das mulheres islâmicas com que não devemos pactuar. Pode parecer menos grave, mas e o que virá a seguir?
E não venham com a história de que são mulheres "adultas" e "emancipadas". Bem, as estudantes dos liceus é que não o são, de certeza! Quanto à liberdade de escolha, é dever das sociedades democráticas zelar para que seja feita em condições. Recordo aqui o notável trecho do livro de Rubem Fonseca com cuja transcrição recomecei a minha colaboração no BdE (a parte que diz respeito ao flagrante do marido a bater na mulher). O comissário Mattos sabe que a mulher era violentada, mesmo que negasse tal facto no seu depoimento.

No caso em questão, pergunto: não será o uso ostensivo do véu um flagrante suficiente? Em nome de uma suposta liberdade de costumes, não estaremos na realidade a ser hipócritas?
Mas por outro lado, ao legislarmos tudo e ao intrometermo-nos em tudo interrogo-me, como o comissário Mattos fazia enquanto tomava um Pepsamar: estaremos a tornar o mundo melhor?
Sugiro-vos a leitura de mais uma das magníficas crónicas de Mario Vargas Llosa, desta vez sobre este assunto. Os seus argumentos são exactamente os meus. E note-se que Vargas Llosa tem autoridade para falar de emigração (ou imigração) e de liberdades pessoais. Pouca gente os defende tanto quanto ele.
Deixo-vos com a frase final da crónica: «o véu islâmico deve ser proibido nas escolas públicas francesas em nome da liberdade».

Publicado por Filipe Moura às 03:34 AM | Comentários (4)

fevereiro 09, 2004

NA CADEIRA DO DENTISTA (2)

Maior invenção da História da Humanidade: a anestesia.

Publicado por José Mário Silva às 10:57 PM | Comentários (6)

UMA PEQUENA HISTÓRIA QUASE INTERACTIVA

Para não me acusarem de ser mais um a aproveitar a tribuna dos blogues só para dar largas à minha insatisfação geral com a Humanidade . forma rebuscada de dizer "mau génio" . eis um minúsculo momento cultural. Uma pequena história que escrevi há uns anos e que sempre me pareceu pedir uma versão em HTML. Aqui fica...



O Relatório Corwin: versão 1.0, versão 1.1

Publicado por Luis Rainha às 06:41 PM | Comentários (0)

VISÕES "MUSSOLINESCAS"...

Depois de jurar a pés juntos que estava "absolutamente convencido" da existência de armas terríficas no Iraque, Aznar continua a dar provas da sua presciência em assuntos geo-estratégicos. Afirmou agora, face ao Congresso dos EUA, que Cuba é "una de las últimas anomalías históricas, no ya de las Américas, sino del mundo entero".
Presumo que o senhor ache anómalo que Cuba ocupe o 52º lugar no ranking de Denvolvimento Humano, elaborado pela Unesco, situando-se ainda em pleno nível de "desenvolvimento elevado", mais próximo de Espanha do que de "amigos" como Granada ou as Honduras. (Anómalo, sobretudo se pensarmos no estado do país aquando da revolução: um bordel/casino com direito a bandeira.)
Outras bizarrias que arregalam o olho ao señorito Aznar vivem por certo no povo cubano; na sua crónica boa-disposição, no seu espantoso nível cultural médio, no aspecto feliz das suas aldeias, no orgulho que, apesar de tudo, continuam a ter na sua Revolução.

Aznar suspira pelo fim destas anomalias incompreensíveis, para que tudo possa enfim entrar nos eixos. Pode ser que se engane: já há uns anos, ouvimos por aí uns camones a anunciar o "fim da História", e vejam lá no que deu...

PS: nem me passa pela cabeça justificar as condenações sumárias e outras práticas recentes do sempiterno Castro. Mas não deixo de reparar que todos os que berram de forma mais estrídula contra os desmandos em Cuba fecham diligentemente os olhos ao que se passa no pequeno oásis de virtudes democráticas ocidentais chamado Guantánamo. Relativismos...

Publicado por Luis Rainha às 06:02 PM | Comentários (37)

LAFARGUE NO CHIADO

Na parede de uma igreja, um graffiti tosco (caligrafia incerta; tinta fúchsia) grita que «o trabalho é o mal do mundo». A dez metros de distância, um taxista à espera de clientes, coçando a cabeça, parece concordar.

Publicado por José Mário Silva às 04:44 PM | Comentários (0)

O QUE DEVERIA TER SIDO O MEU PRIMEIRO POST AQUI

Agradeço a generosidade do Zé Mário ao ceder-me, nas suas palavras, "as chaves da casa". Como já tive ocasião de lhe dizer, a casa continua a ser dele; não é por cá estar aboletado que vou começar a escavacar a mobília e a fazer gestos obscenos pela janela. (Espero eu.)
Também agradeço, antecipadamente, a pachorra que os outros residentes do BdE vão ter de gastar para suportar o recém-chegado maniento. E apreciarei sobremaneira a generosa indulgência dos leitores; que me desculpem alguma inabilidade de estreante pouco afeito às luzes de tão distinta ribalta. (Este exercício de modéstia abjecta até saiu bonito...)

Publicado por Luis Rainha às 03:40 PM | Comentários (4)

MAIS UM SÓSIA

Há uns meses, "O Independente" anunciou a revelação tremenda: tinham descoberto um sósia de Carlos Cruz. A explicação para os enigmas do caso Casa Pia tornava-se assim clara; o único problema é que o putativo sósia nem sequer se parecia lá muito com o amigo da Bota Botilde. Mas não podemos deixar que um facto atrapalhe uma história interessante, não é verdade?
Nesta última sexta-feira, novo assombro estremeceu as páginas do "Indy": agora, descobriram um sósia do ex-embaixador Ritto: um padre, ainda por cima.
Perto da fotografia de mais este conveniente doppelganger, surge a "notícia" explosiva e definitiva: o acervo de "provas" apresentado pela defesa "arrasa completamente" os fundamentos da acusação!

Ao ler a ficha técnica deste semanário, também fiquei com a sensação de encontrar ali apelidos que já vislumbrei algures, em notícias relacionadas com acusados do processo Casa Pia.
Mais estranho ainda: aquelas folhas de papel mal amanhado até pareciam mesmo um jornal.

Publicado por Luis Rainha às 01:45 PM | Comentários (2)

MAIS UM REFORÇO

Depois do Filipe, o Fantasma.
Lembram-se daquele itálico ocasional e comentador obsessivo que respondia pelo nome de Fantasma do Natal Passado? Lembram-se mesmo? Então esqueçam. O Fantasma morreu. Isto é, invertendo a ordem natural das coisas, transformou-se numa pessoa de carne e osso. O seu nome: Luis Rainha.
E pronto. Está dada a notícia. É ele o nosso novo reforço (mais um, neste prometedor início de 2004) e há-de aparecer por aí não tarda nada. Sem correntes nem lençóis brancos a esvoaçar, mas com o humor e sentido de observação a que já nos habituou.
Bem-vindo, Luis.

Publicado por José Mário Silva às 11:03 AM | Comentários (3)

fevereiro 08, 2004

EM AUDIÇÃO

O que me chamou a atenção para este disco foi . admito . a bela capa (com a estrela tatuada no dedo) e algumas críticas que punham Gary Jules nos píncaros, como se o homem fosse a "next big thing" da música moderna. Todo o entusiasmo se esvaiu, porém, ao fim da primeira faixa. Que barrete, meu deus, mas que barrete! O rapaz da boina tem uma voz sem o mínimo de espessura, as letras são péssimas, as melodias banais. Nos melhores momentos, parece um cruzamento de Bob Dylan e Paul Simon, ambos em dia não; nos piores, assemelha-se a um decadente vocalista de boys band, em carreira a solo e com pretensões "artísticas". Uma desgraça absoluta, é o que vos digo. E no meio da ignomínia, nem a canção da banda sonora de «Donnie Darko» (o muito trauteável «Mad World») se safa.
Faz-te à vida, Gary. Daqui não levas mais nada.

Publicado por José Mário Silva às 10:12 PM | Comentários (0)

SÓSIAS

No AKI que fica junto à Estação do Oriente, sou atendido por um rapaz parecidíssimo com o Ruud Van Nistelrooy, o prodigioso ponta-de-lança do Manchester United.
Sósia até no profissionalismo, o funcionário de fato macaco verde corta o quadrilátero de vidro (69,5 por 67,5 cms) com a mesma perfeição, o mesmo rigor e esmero, com que o futebolista holandês marca golos na Premier League.

Publicado por José Mário Silva às 07:50 PM | Comentários (7)

fevereiro 07, 2004

UM PROBLEMA DE XADREZ BECKETTIANO

As peças (como Deus e Godot) estão ausentes; de Kleist, só temos nome e datas. Mas as brancas jogam e forçam o mate em 4 lances.

Foi o Alexandre, exímio xadrezista teórico, quem propôs o enigma. E (como Beckett) não nos deu a solução.

Publicado por José Mário Silva às 03:15 PM | Comentários (6)

DOCES & VINAGRES

Hoje, a partir das 15h00, a Abril em Maio acolhe mais uma das suas habituais «pequena vendas» de produtos biológicos e caseiros. No Regueirão dos Anjos (n.º 68) poderão encontrar-se doces, azeites, vinagres, aguardentes, além de todo o tipo de legumes, ervas e frutas. Também haverá música. E pessoas com quem falar. E livros. O muito apropriado «Livro de Cesário Verde», por exemplo.

Publicado por José Mário Silva às 02:24 PM | Comentários (10)

ARITMÉTICA DOS NÚMEROS

"Vingt quatre vingt trois", pede-me a caixa do supermercado. Julguei que eram 24.23 euros, mas eram 20.83. Mon dieu.
O francês é aquela língua em que tem de se fazer uma contalhada complicada para exprimir os números com maiores algarismos. Oitenta é quatre-vingt. Noventa é quatre-vingt dix. Noventa e nove é quatre-vingt dix neuf.
Deve ser por isso que os franceses são tão bons em Matemática.

Publicado por Filipe Moura às 12:23 AM | Comentários (6)

A BRONCA DO SÉCULO

O que se está a passar nos EUA e na Grã-Bretanha, com a admissão de que os pretextos para lançar uma guerra contra o Iraque foram francamente exagerados e de que as famosas armas de destruição maciça nunca existiram a não ser nos relatórios apocalípticos dos falcões, configura um escândalo inaudito. Podem vir agora os analistas tergiversar sobre todo o tipo de nuances, dizendo que não houve mentira deliberada mas apenas um engano, ou afirmar que a culpa foi toda dos serviços de informação. A verdade é só uma: os americanos e os ingleses, com a cumplicidade cega dos seus aliados (entre os quais se conta o nosso diletante primeiro-ministro), atiraram poeira para os olhos do resto do mundo e fizeram, por pura teimosia, uma guerra que não se justificava.
Quanto às consequências deste fraudulento casus belli para a tão badalada luta contra o terrorismo, temo que venham a ser trágicas. É que se George W. Bush conseguiu cumprir um desígnio que já estava traçado muito antes do 11 de Setembro (o derrube de Saddam e a invasão do Iraque), o certo é que a já escassa legitimidade para futuras "guerras preventivas" desapareceu de vez.
No fundo da caverna afegã onde se acoita, Bin Laden deve estar feliz da vida com mais este tiro no pé dos seus ex-amigos do peito.

Publicado por José Mário Silva às 12:19 AM | Comentários (6)

fevereiro 06, 2004

SUPER TIT

A histeria despertada pelo caso da maminha exposta de Janet Jackson, durante o Super Bowl (analisada em detalhe no post anterior), é um exemplo paradigmático dos extremos a que pode chegar a intolerância moralista nos EUA. Correr tanta tinta por causa do seio de uma mulher (ainda por cima parcialmente coberto por uma estrela prateada) é ridículo. Que a CBS tenha sido bombardeada por 200.000 telefonemas de protesto pela exibição das imagens obscenas (duzentos mil, leram bem) é ridículo. Mas que a NBC, na sequência do escândalo, tenha cortado dois segundos de um episódio da série «E.R.», só porque nele apareciam os seios de uma mulher de 80 anos, «estendida numa maca», já entra no domínio do anedótico.
Nos EUA, toda a gente tem ataques de pudor por causa das mamas de estrelas pop ou de actrizes mais do que secundárias. Se calhar, digo eu, deviam ter vergonha de outras coisas. Entrar em guerra por motivos que se revelaram falsos, por exemplo.

Publicado por José Mário Silva às 07:56 PM | Comentários (2)

DESNUDA

Milhões e milhões de espectadores a assistir à final de um jogo que mais é desfile de Carnaval que jogo jogado. Superbowl é festa, é cor, é patrocínios, é consumo de refrigerantes e baldes de litro e sandocha radioactiva. É fatiotas com chumaços nos ombros à anos 80 e capacetes redondinhos. Jogadores com pinturas de guerra, estilo "camouflage" das tendas de Santa Clara, ali à Feira da Ladra. No intervalo, interlúdio musical com número da veterana Jackson e novel sedutor Timberlake. Dueto de gigantes, à laia de licor Sheridan's branco e negro, o público rejubila no estádio e em milhões de lares, incluindo os portugueses . cortesia Sport TV . e os iraquianos . cortesia Fox News ou TV Bush. Eis senão quando a mana Jackson desnuda o seio . AAHHHH, suprema ofensa à dignidade ufana dos descendentes de George Washington. A menina cai em desgraça, não por seduzir crianças, como o seu mano, mas por ser atrevidota, que isso de mamocas na América só na intimidade. Celeumas várias, menina dispensada de apresentar um prémio Grammy, caras ruborescidas por todo o lado, nem parece o mesmo país onde existe a maior indústria pornográfica do mundo. Ou a pátria onde se criou em laboratório um enigma da natureza chamado Pamela Anderson.
Por tudo isto e mais alguma coisa, a cerimónia de entrega dos Grammys, tal como a dos Oscares, não será transmitida em directo. Na terra da liberdade, do sonho e do prazer, teremos um pequeno "delay" de cinco segundos, não vá o diabo tecê-las e aparecer em cuecas. Assim dá para o corta e cola, a bem da moral e dos lares e dos patrocinadores que são gente séria e trabalhadora.
A pretexto de uma atitude de estrela em decadência, a terra da livre expressão lava mais branco. Deitem fora as sopas Campbell's, o Super POP vem para limpar e dominar.
(Pedro Vieira)

Publicado por José Mário Silva às 07:42 PM | Comentários (1)

AS CERTEZAS DE AVELINO

Diz Avelino Ferreira Torres, autarca em trânsito entre dois concelhos do Norte: «A não ser a morte, nada, rigorosamente nada, será capaz de me impedir de ser o próximo presidente da Câmara de Amarante». Nada? Rigorosamente nada? Nem sequer a vontade, expressa em votos, dos eleitores de Amarante? A convicção dos caciques é assim mesmo. Afirmativa. Determinista. Inabalável.

Publicado por José Mário Silva às 07:34 PM | Comentários (1)

INSULTOS

No editorial de hoje, no Público, José Manuel Fernandes insurge-se contra os políticos que usam e abusam dos insultos como forma de acção política. É uma posição perfeitamente defensável, diga-se, embora o jornalista revele algumas dificuldades quando se trata de aplicá-la em causa própria. Leiam e confirmem: na última linha, JMF chama «populista» a Francisco Louçã e «boçal» a Pires de Lima. A linguagem até deve ser branda, suponho, porque ele se choca com os insultos gratuitos na política. Agora imaginem se ele não se chocasse...

PS: Já Vasco Pulido Valente . num arroubo cada vez mais raro de lucidez (a patética e demagógica tentativa de linchamento "intelectual" de Jorge Silva Melo, no passado sábado, foi lamentável) . desanca forte e feio no CDS. Entre outros mimos, diz que o partido de Paulo Portas «não existe no Governo e deixou de existir fora dele», que até agora a sua acção no Governo «foi politicamente nula» e que aquele «objecto gasoso» (bela descrição da coisa) está em vias «de se esfumar». Lá nisso, VPV, estamos nós de acordo.

Publicado por José Mário Silva às 07:21 PM | Comentários (2)

NA CADEIRA DO DENTISTA

Calma. Não se assustem. Não vou massacrar-vos aqui com os detalhes das minhas desgraças bucais: o dente partido, a pequena cirurgia marcada para segunda-feira ou esse temível projecto de reconstrução dental que culminará com uma coroa no molar inferior (e um superior rombo na conta bancária). Nada disso. Do que vos quero falar é da radiografia. A radiografia que vi presa numa caixa de luz, enquanto tentava controlar, de boca escancarada, aquele arrepio na espinha que a proximidade das brocas de dentista sempre me provoca.
A radiografia era o retrato, planisférico, da minha dentição. E havia naquela bizarra geografia (cada dente um país de fronteiras indefinidas, marcadas a chumbo) qualquer coisa de assustador. Nunca me imaginei assim, visto por dentro da carne, abaixo da gengivas. A boca cheia de raízes, como um jardim perigoso.

Publicado por José Mário Silva às 06:55 PM | Comentários (10)

POLÍTICOS E POLÍTICAS

Debate-se a Administração Pública na RTP1. Políticos. Comissários políticos. Aprendizes.
Não será tempo dos debates passarem a incluir o cidadão comum que sabe dos assuntos: porque é profissional, utente, vítima ou mero curioso? Estaremos perante uma questão de audiências? Ou serão as mesmas razões que levaram Judite de Sousa a entrevistar a foragida Fátima?
A verdade é que o país não se resume a Fernando Rosas e Dias Loureiro. Porque não dar voz (clandestina, claro, que a liberdade é cada vez menos, e menos segura) a um pensamento não comprometido com partidos?
É que há pensamento para além dos partidos e esse é que vale a pena ouvir. A propósito: que estranha razão leva o Presidente da República a dizer, em terras da estranja, que a competitividade não assenta em baixos salários? Não o pode dizer na pátria? E não o pode esfregar na cara do Governo?
(JCampos)

Publicado por José Mário Silva às 06:47 PM | Comentários (5)

SUCH EXALTATIONS

«At first, it was a form. Or not even that. A weight, an extra weight; a ballast. I felt it that first day out in the fields. It was as if someone had fallen silently into step beside me, or inside me, rather, someone who was else, another, and yet familiar. I was accustomed to putting on personae but this, this was different. I stopped, struck, stricken by that infernal cold I have come to know so well, that paradisal cold. Then a slight thickening in the air, a momentary occlusion of the light, as if something had plummeted past the sun, a winged boy, perhaps, or falling angel. It was April: bird and bush, silver glint of coming rain, vast sky, the glacial clouds in monumental progress. See me there, the haunted one, in my fiftieth year, assailed suddenly, in the midst of the world. I was frightened, as well I might be. I imagined such sorrows; such exaltations.»

Este é o fabuloso primeiro parágrafo de «Eclipse», um romance publicado pelo escritor irlandês John Banville, em 2000.

Publicado por José Mário Silva às 12:04 PM | Comentários (5)

À SAÍDA DO METRO

Deitado nas escadas, o mendigo estendia a mão. Junto aos pés, amarela, uma caixa de plástico. Lá dentro: um coelho com o focinho a tremer, orelhas caídas e tristes, inerte sobre um tapete de folhas secas. Dez da manhã, pessoas apressadas, clamor urbano, indiferença.
Foi então que uma senhora com cara de burguesa caridosa (daquelas que vão à missa todas as manhãs e têm as quotas da Sociedade Protectora dos Animais em dia) se aproximou do vagabundo e lhe deixou, sem esconder um esgar de repugnância pelo cheiro, uma nota de dez euros.
Ainda estou para saber o que despertou nela tanta generosidade: se a miséria alcoolizada do homem, se os olhos assustados do pequeno roedor.

Publicado por José Mário Silva às 11:42 AM | Comentários (12)

MAIS SOBRE A CAMPANHA AMERICANA

Do movimento Move On, de cuja mailing list eu faço parte desde a altura da contestação à guerra no Iraque, recebi uma mensagem cujo conteúdo essencial divulgo a seguir.

«Dear MoveOn member,

We didn't think the hypocrisy at CBS headquarters could get any worse. But it just did.
As you know, CBS refused to run MoveOn Voter Fund's "Child's Pay" ad -- perhaps the most tasteful and uncontroversial advocacy ad in history -- during the Super Bowl. CBS executives claimed they had a blanket policy against all so-called "issue" ads.
Yesterday, we learned that the network plans to broadcast an ad promoting the Bush Medicare prescription drug law. This is part of a $13 million taxpayer-financed TV campaign to take the heat off the White House for pushing through a drug plan that benefits drug companies and insurance companies more than Medicare recipients. (...)
According to the Washington Post, the campaign is intended "to counteract Democratic criticism that changes to the (Medicare) program will harm older Americans."
If that isn't a controversial issue ad, we don't know what is.»

Publicado por Filipe Moura às 01:20 AM | Comentários (4)

fevereiro 05, 2004

CHEZ GLADINES

É este o nome de uma verdadeira instituição de Paris, conta-me um velho amigo mais veterano na cidade. Obedece às características descritas atrás. As mesas postas com toalhas de linóleo aos quadrados encarnados berrantes não enganam. A clientela e o tamanho das doses também não. Nem os preços. Está aberto até às duas da manhã.
É um restaurante basco, em plena Butte aux Cailles, onde era situada a Comuna de Paris. Fica na Rue des Cinc Diamants, nº 30, no 13º bairro. O pato cozinhado na sua própria gordura, com cogumelos, batatas e salada, deixa saudades.
Foi onde jantei ontem. Hoje, contei a um outro amigo, que já me tinha falado de um restaurante basco que eu haveria de gostar de conhecer. Era o mesmo! Estou aqui a divulgá-lo, mas locais como este só deveriam ser conhecidos por bolseiros e outras pessoas de vida sebenta.

(PS: Agradeço ao meu amigo João Jorge o ter-me levado ao "Chez Gladines" e o ter-me dado as explicações sobre o que aqui descrevi. Para que não me julguem especialista, a mim, parisiense novato.)

Publicado por Filipe Moura às 10:23 PM | Comentários (13)

CRÍTICA GASTRONÓMICA (E NÃO SÓ)

Lembrei-me que ainda está por fazer uma lista pessoal dos melhores restaurantes de Nova Iorque. (Fiquei de a fazer e de trocá-la com o André Figueiredo.) Agora que estou em Paris vou dando as minhas recomendações dos bons lugares por onde for passando. Deixo desde já claro que, para mim e para as pessoas de esquerda (não a esquerda jet-se7e), os melhores locais são os que maximizam a razão qualidade-preço, mantendo preços acessíveis. (Convém aqui esclarecer: a esquerda jet-se7e, na pessoa do João Gobern, passa o ano em restaurantes burgueses. Uma vez por ano, depois das críticas dos leitores . para quando uma crítica de restaurantes para as nossas bolsas? ., e para se sentirem bem com a sua consciência, vão ao McDonalds ou ao Pizza Hut. Ou seja, é esta a concepção que estas almas têm de como o "povo" come. Falo no plural porque o Pedro Rolo Duarte anda pelo mesmo caminho.) Os restaurantes que referirei são para quem quer uma boa refeição caseira sem gastar muito dinheiro. E sobretudo sem grandes pretensões. A qualidade da louça, desde que bem lavada e em condições, não é importante. O design dos pratos também não; por isso, estes são servidos bem cheios, tapados pela comida. São restaurantes democráticos, como gosto de lhes chamar. Para bolseiros de vida sebenta, que andam de autocarro, como diria a Ana Sá Lopes, que também percebe do assunto (de restaurantes e de autocarros). Para pessoas que pensam efectivamente que não deve haver propinas no ensino superior para os estudantes de mérito. E que percebem de boa comida.

Publicado por Filipe Moura às 10:13 PM | Comentários (6)

O NOVO RETRATO DE EPC

Em rigoroso exclusivo, o BdE teve acesso à imagem do cronista Eduardo Prado Coelho que passará, a partir de amanhã, a ilustrar os seus textos no Público:

PS: Qualquer semelhança com o quadro «La Reproduction Interdite», pintado por René Magritte em 1937, é pura coincidência.

Publicado por José Mário Silva às 06:28 PM | Comentários (1)

CINDY 'PRADO' SHERMAN (OU «É-ME ESTRANHA ESSA CARA - 2»)

Hoje, na habitual coluna que Eduardo Prado Coelho assina no Público, podemos entender melhor um dos paradigmas da arte contemporânea: a des-representação do "eu" . a fotografia do cronista não é a habitual; nem sequer, presume-se, uma outra representação de si.
Que Prado Coelho tenha mudado de visual, é lá com ele. Agora que pretenda, no retrato que suporta o texto diário, radicalizar o sujeito, transfigurando-o, mutando-o de uma para outra figura, sem prévio aviso, faz com que EPC entre no estrito campo da auto-desconstrução e da crítica de si próprio, como se o espelho de si lhe não servisse e procurasse a afirmação do texto, não através da exteriorização imagética, mas somente da semiótica linguística.
Prado Coelho consegue aqui, de forma indelével, a separação final entre texto e imagem, publicidade e mensagem, símbolo e acessório.
Um extraordinário ícone do devir, da arte pós-contemporânea e, sem sombra de dúvida, um artista a considerar para futuras bienais.
(Rui Santos)

Publicado por José Mário Silva às 05:05 PM | Comentários (2)

É-ME ESTRANHA, ESSA CARA

Na sua crónica de hoje, Eduardo Prado Coelho cita a seguinte história de Roman Jakobson:
Em África, um missionário censurava os fiéis por não trazerem vestuário. "E tu, disseram os indígenas, apontando para o rosto nu, também não estás despido nalgum lado?" "Está bem, mas isto é a minha cara." "Pois bem, responderam os indígenas, entre nós é cara em todo o lado."
Ora, precisamente hoje, a fotografia que acompanha a crónica na edição impressa do Público não é, arrisco dizê-lo, a de EPC. Bem podem repetir-me que é cara em todo o lado, mas eu gostava de saber onde pára a cara de Eduardo Prado Coelho... E afinal, quem é aquele cara?

Publicado por Francisco Frazão às 04:39 PM | Comentários (4)

VERSOS QUE NOS SALVAM

Ainda Helder Moura Pereira. Para mim, o melhor poema deste livro menor («A tua cara não me é estranha») talvez seja o da página 80:

Era um entusiasmo que só visto.
O corpo? Desengonçado. A cara?
A atirar para o feio. Foi
o que dizias, a forma como dizias,
a sedução do que dizias, o sorriso
absolutamente convidativo
que tão bem ia com aquele fim
de tarde. Fui, uma vez
que não tinha nada que fazer.
Bebi água três vezes de um púcaro
de ferro, de cada vez que me rasgavas
um pouco mais a pele.
Todo o teu quarto cheio
de pedaços de livros batia certo
com parares a meio
só porque te lembravas
de uma frase extraordinária.
Sim, está bem, mas continua
a fazer dos sons cintilantes nuvens.

Publicado por José Mário Silva às 11:40 AM | Comentários (1)

SG

A leitura do último livro de Helder Moura Pereira («A tua cara não me é estranha», Assírio & Alvim) foi uma decepção, como explico mais detalhadamente aqui. De um autor como HMP, era de esperar mais. Muito mais. Seja como for, entre poemas trôpegos e equívocos de linguagem, há também alguns achados. Como esta estrofe:

Gosto da tua boca quando sabe
a chocolate, a vinho tinto de Portalegre,
a mar (é sempre a mesma coisa, tem
de aparecer sempre o mar), pensando
bem gosto da tua boca sempre.

Ou estes dois versos:

Tu és o meu ídolo de pés de barro,
tu és o sg depois do charro

Publicado por José Mário Silva às 11:23 AM | Comentários (1)

MAIS GOYA

Para onde olham estas «Cabezas en un paisaje»? Será delas que o cão do post anterior tem medo? O que espreitam estes rostos desconfiados? Vêem o perro semihundido ou olham para nós?

Publicado por José Mário Silva às 11:00 AM | Comentários (5)

TURISMO CULTURAL

Não sabia que tanta coisa depende deste «perro semihundido en la arena» pintado por Goya entre 1818 e 1823.

Publicado por Francisco Frazão às 12:10 AM | Comentários (9)

fevereiro 04, 2004

VERSOS QUE NOS ARREPIAM

Decididamente, as aparições regressaram a Fátima. Depois da Virgem de há uns anitos, apareceu agora em voo planado sobre a Cova da Iria a musa da Poesia. E foi pousar justamente na mitra do Bispo de Leiria/Fátima.
Hoje mesmo a TSF transmitiu, na sua patusca rubrica «Mel com Fel», o resultado de tal epifania: um pequeno poema deste eclesiático vulto!
Preparem-se. Trata-se uma reflexão, em verso pé-quebrado, sobre a morte de
Miklos Fehér. Julgávamos nós que, depois de morto, já nada de mau lhe poderia suceder...
Dei-me agora ao trabalho de transcrever a obra. Uma coisa destas não se pode
deixar entregue ao desmazelo da oralidade; tem de ser preservada e divulgada! (Se bem que algo se perde na aridez do texto impresso, assim privado do arroubo da dicção empolgada do Bispo-Bardo.)
Cá vai disto:


SORRISO DE FEHÉR

A morte foi um poema
Que deu na televisão
Um sorriso após a pena
E o desmaiar para o chão

Ironia e humor
Foi reacção ao castigo
Para o jovem de Gyor
Respondeu com sorriso

Todo o Povo Português
E milhões em todo o Mundo
Viveram mais uma vez
Um sentimento profundo

"Fehér" significa branco,
Outra cor, penalidade,
Oxalá tenha no banco
Valores para a Eternidade

Uma breve entrevista
Mostrou a televisão
Um portista desportista
Que chorava o seu irmão

Os colegas de Fehér,
Todos nós, com certeza
Vamos na vida entender
O mistério e a beleza

Mais mistério que beleza
Por exemplo: "quem sou eu?"
Eu respondo com franqueza:
"Saberei melhor no Céu"

Agora que releio o "poema", já não me parece tão engraçado. À cabeça, vem-me a imagem de um abutre de sotaina a rondar um cadáver ainda morno; um vampiro que aproveita a dor alheia para impingir mais uma prestação do seu credo. O "Altar do Mundo" está bem entregue... (Fantasma do Natal Passado)

Publicado por José Mário Silva às 08:49 PM | Comentários (3)

UFFF! ASSIM JÁ FICAMOS MAIS DESCANSADOS

«Nunca pus os pés na Assembleia nem tenciono fazê-lo» . Alberto João Jardim (citado na primeira página do Diário de Notícias).

Publicado por José Mário Silva às 01:32 PM | Comentários (5)

ENSAIO PARA NOVEMBRO

É cada vez mais provável que John Kerry seja o candidato presidencial do partido Democrata americano.

Importa é que o gesto da vitória se repita em Novembro, de forma a libertar os EUA (e o mundo) do pesadelo G. W. Bush. As sondagens dizem que a missão não é impossível: se as eleições se realizassem agora, Kerry ganharia com sete pontos de avanço. Haja esperança.

Publicado por José Mário Silva às 12:06 PM | Comentários (22)

PEQUENO APONTAMENTO NECROLÓGICO (SEM PONTA DE HIPOCRISIA)

Morreu o general Kaúlza de Arriaga. O reaça-mor. O salazarento que era mais salazarista do que Salazar. O homem que só por engano não nasceu no pólo Norte (a mui setentrional reserva da inteligência humana) mas antes, para nossa infelicidade, nesta desditosa pátria.
Sendo ele católico, ignoro se irá para o Céu ou para o Inferno. Sei apenas que não estranhará o segundo. Dizem que é muito parecido com Wiriamu.

Publicado por José Mário Silva às 11:56 AM | Comentários (10)

LEITORES COM L MAIÚSCULO

Depois de terem lido em conjunto, de fio a pavio, o «Ulisses» de James Joyce (osso muitíssimo duro de roer, como bem sabem todos os que nunca o conseguiram levar até ao fim), os heróicos fazedores deste blogue já têm programa para os próximos meses: primeiro «O Som e a Fúria», de Faulkner; depois a interminável «Recherche» do Proust. Projecto arrojado? É óbvio que sim. Mas não se preocupem. Com o balanço que levam, vão ver que não custa nada.

Publicado por José Mário Silva às 09:23 AM | Comentários (5)

fevereiro 03, 2004

PEQUENÍSSIMA MINIATURA DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (SEM TÍTULO)

«... el drama del desencantado que se arrojó a la calle desde el décimo piso, y a medida que caía iba viendo a través de las ventanas la intimidad de sus vecinos, las pequeñas tragedias domésticas, los amores furtivos, los breves instantes de felicidad, cuyas noticias no habían llegado nunca hasta la escalera común, de modo que en el instante de reventarse contra el pavimento de la calle había cambiado por completo su concepción del mundo, y había llegado a la conclusión de que aquella vida que abandonaba para siempre por la puerta falsa valía la pena de ser vivida.»

Publicado por José Mário Silva às 11:46 PM | Comentários (8)

PRIMEIRA PÁGINA

Seguindo a sugestão do Paulo Querido, decidimos emagrecer a página de entrada deste blogue. Em vez de duas semanas, passaremos a apresentar apenas os posts dos últimos quatro dias. Tornamo-nos assim mais ecológicos (contribuindo para diminuir o tráfego fenomenal da plataforma weblog.pt) e facilitamos a vida aos nossos leitores que não têm acesso pela Netcabo ou pela ADSL. Para o resto, há a possibilidade de consultar os arquivos que, contrariamente aos do Blogger, funcionam sempre e bem.

Publicado por José Mário Silva às 05:50 PM | Comentários (3)

UM FRAGMENTO DE GERARD MANLEY HOPKINS (1844-89)

«The wind, that passes by so fleet,
Runs his fingers through the wheat,
And leaves the blades, where'er he will veer,
Tingling between dusk and silver.»

Publicado por José Mário Silva às 05:22 PM | Comentários (3)

CRUZES DOURADAS

O JN está a oferecer, aos seus leitores, magníficas cruzes banhadas em ouro de 24 quilates. Ainda assim, quando pensamos em Cruzes, continuamos a pensar nisto.

Publicado por José Mário Silva às 05:10 PM | Comentários (4)

DIMINUTIVOZINHOS

Da oficina, telefonam-me: «Sr. José Mário, já tem o seu carrinho prontinho». Caramba. Se um diminutivo já é demais; dois é quase ofensa.

Publicado por José Mário Silva às 04:42 PM | Comentários (3)

COITADOS...

Ao pequeno-almoço ouvi uma pequena descrição da Noruega, pelo repórter da TSF enviado para cobrir a visita oficial do presidente da República. O país mais rico do mundo só tem 200 quilómetros de auto-estrada (equivalente ao troço Lisboa-Coimbra), apesar de ser cinco vezes maior que Portugal. Não tem centros comerciais tipo Colombo, mas em qualquer vilória há comércio, banco, escola, pequeno hospital. Os ministros não andam de gravata, não são tratados por Dr. e vão trabalhar para o ministério de transportes públicos. Não há sigilo bancário e todos os rendimentos são cruzados com o património imobiliário e mobiliário, assim como todos os sinais exteriores de riqueza.
Nesta viagem, o nosso Presidente faz-se acompanhar por uma enorme delegação de industriais, investidores, homens de negócios. Parece-me deslocado. Esta delegação é indicada para países do terceiro mundo. Na Noruega, em vez de negociar, o essencial era aprender. E a comitiva deveria ser composta, não por empresários, mas pelo Governo em peso.
(Vítor Diniz Silva, aka Pai Itálico)

Publicado por José Mário Silva às 03:28 PM | Comentários (8)

ARMAS DE DESTRUIÇÃO MACIA

Publicado por José Mário Silva às 09:22 AM | Comentários (8)

SOZINHO EM CASA

Por uns motivos ou por outros, nos últimos dias a tribo do BdE tresmalhou-se. Ele é artigos para entregar, traduções urgentíssimas, gripes reincidentes, sonos trocados, cansaços ao fim do dia, deadlines para ontem, silêncios metafísicos, viagens de avião, amores intensos, filmes na Cinemateca, bloqueios criativos; etc, etc, etc. Tudo boas razões, excelentes razões, compreensíveis razões para abandonar o computador à sua sorte.
Mas não se inquietem, caros leitores. Daqui a nada isto regressa ao ritmo normal. Acreditem. E eu vou deixar de me sentir como o Macaulay Culkin às voltas numa casa vazia, enfrentando, com mais engenho do que arte, uma caterva de bandidos imaginários.

Publicado por José Mário Silva às 09:19 AM | Comentários (7)

fevereiro 02, 2004

VERSOS QUE NOS SALVAM

É um livro raro («o rei de sodoma e algumas palavras em sua homenagem», Presença, 1993) de um autor ainda mais raro (José António Almeida). Encontrei-o sexta-feira à noite, na mesa de saldos da livraria do King, a 2 euros. Ainda lá ficou um.


CONTRADIÇÃO

Giovanni Antonio Bazzi, alcunhado
o Sodoma, foi, sem contradição,
autor de muitas obras de arte sacra:
anjos, milagres, crucificações.
Sodoma e Gomorra são duas cidades
tão bíblicas como Jerusalém.


CHIADO

No meio dos lanches dominicais
de famílias sentadas com a prole
à volta da pastelaria defronte,
observo no largo a estátua pública
desse sodomita desconhecido
que deixou ao lugar o próprio nome.


MULHER TRANSFORMADA EM NUVEM

Depois do divórcio e do dilúvio,
no céu paradisíaco das ilhas
(onde Noé apenas despejara
a metade masculina da arca)
passava às vezes uma nuvem escura
espalhando uma sombra sobre o mar.

Publicado por José Mário Silva às 11:51 PM | Comentários (0)

PHILIBERT NO IFP

Mais logo, às 21h00, prossegue no Instituto Franco-Português o ciclo dedicado ao realizador Nicolas Philibert (autor de documentários, o último dos quais . «Ser e Ter» . está neste momento em exibição comercial em Lisboa, numa única sala do Corte Inglés). Depois do magnífico «O País dos Surdos», exibido há precisamente uma semana, poderemos ver «A Menor das Coisas», um ensaio visual sobre a psiquiatria. A entrada é livre.

Publicado por José Mário Silva às 07:58 PM | Comentários (2)

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DA ECONOMIA GLOBAL

Publicado por José Mário Silva às 02:21 PM | Comentários (2)

O ELEFANTE E A FORMIGA

Algo infantilmente, Mário Soares e Paulo Portas não param de trocar acusações, alfinetadas e frases assassinas sobre os mais variados assuntos. Já sabíamos que a política portuguesa se presta às fábulas (e às farpas). Agora sabemos que quem as escreve não é La Fontaine, mas Molière.

Publicado por José Mário Silva às 02:18 PM | Comentários (2)

fevereiro 01, 2004

EM AUDIÇÃO

De regresso às lides, após sete anos sem gravar um disco de originais, o cantor com «gueule de métèque» está em forma. Neste disco de uma simplicidade desarmante (até o título se reduz ao apelido), Georges Moustaki deambula pelas suas memórias, pelo olhar das mulheres que ama . ou amou . e pelas ruas de Paris. Tudo num registo sereno, envolvido pelas orquestrações subtis de Jean-Claude Vannier, um antigo cúmplice de Serge Gainsbourg. Destaque para as seguintes canções: «Emma» (deliciosa declaração de amor a Emma Thompson, em que a actriz inglesa lhe vai respondendo, meio embaraçada e em francês), «Quand J'etais Un Voyou», «Le Repenti», «Paris A Le Coeur Tendre», «Je M'en Irai» e «Odeon» (evocação nostálgica, por via cinéfila, de um tempo perdido . com uma melodia daquelas que não nos larga durante horas a fio).

Publicado por José Mário Silva às 08:33 PM | Comentários (0)

WQS

És preto e a tua cor rouba-te direitos, pedaços de vida que poderiam fazer de ti um cidadão, aqui. Essa tua tonalidade juvenil desafia o mundo das cores e suas consequentes funções. Enganam-nos, fazem de nós parvos. Dizem que o preto absorve, mas tu repeles. Continuas apenas a pedir um singelo tecto que te abrigue dos infortúnios, amargos recortes que te deixaram ainda mais e mais preto do que já és. Nem falas das tuas irmãs, que antes orientavas como digno chefe de uma família menos funcional que essas ditas normais. Esqueces-te dessa família quebrada com golpes de rins pelo nosso estado exemplar, protector de todos os menores que se encontram no risco mais ténue da passagem para a outra vida. És apenas isso e só isso. Um preto da Quinta do Mocho que um dia lhe viu a casa fugir contra todas as expectativas mais circunspectas de sucesso na terra das outras cores. Por isso voltaste a tocar à mesma campainha onde, noutros pedaços de ti, recebeste o carinho e o amor subtraídos à nenhuma infância que viveste. Abrimos a porta e o coração em memória de passados mais sorridentes. A porta do teu tecto fechou-se, confidenciaste-me nesse só teu estado líquido. Apenas à quarta noite dormida junto às estrelas, fazendo de todas companhia e calor, gritaste por mim. Atiraste o orgulho às favas e choraste por uma cama, quente aconchego para as facturas demasiado elevadas que esta vida resolveu cobrar-te. Adicionei-te esperanças numa horizontalidade em ruptura com o hall de entrada daquele prédio velho que adoptaste como teu quarto, tua casa, teu descanso, tudo aquilo que, por momentos, desejaste e sonhaste apesar de tudo. Foram três os telefonemas, todos à mesma temperatura dessa noite fria, muito fria mesmo, e tu baixaste o olhar em direcção à tristeza, e eu fiz o mesmo, e percebemos os dois, ali, o que somos e o que nos liga, essa corrente de electrões sanguíneos que nos mescla as cores. Ensinei-te que os polícias não são papões e que os brancos também podem, ainda assim, ser bons. Quiseste acreditar em mim, mas desconseguiste, perante as tamanhas armadilhas em que tropeçaste e caíste e voltaste a cair. (João Paulo Pereira)

Foram muitas as quedas e mais ainda as revoltas. Um qualquer mar revolto sobre particulares rochas que se prostraram quietas, de mansinho, cheias da inocência que te fugiu, e tu continuas à minha frente por respeito a alguém que te abraça como bem sabes, e eu imito-te em meros exemplos de uma amizade que resolvemos protocolar em palavras exactas. O tempo acelerou e a tua cama, aquele pequeno traço horizontal com a resma de lençóis e cobertores que poderiam esconder-te também de ti, dizia, a tua cama fugiu-te numa corrida menos justa, na qual te apresentaste descalço, alma desprovida de vestuário quente para que pudesses existir apenas. Fui eu, puto! Fui eu que te disse não e não outra vez! Foi a minha raiva pela mentira que não te ensinei e que me fez baquear, horas após. Fui eu quem te fechou a última porta, o último sorriso num virar de costas irregular. Quando desceste as escadas, já de saída para mais uma noite de amizade com o frio e de amor para com as estrelas, o meu coração desceu à cave e não havia luz por lá. Ou eram os meus olhos incapazes de brilhos, perdidos a olhar para um chão vazio e que tinha tanto espaço para te acolher, nem que fosse só por uma noite, um abraço e um beijo na tua testa de menor em risco de gostares de mim. Oh, puto! Nunca lerás estas palavras e eu escrevo-as para ti. Quando desapareceste prematuro, naquela noite da tua cor, já eu te dedicava palavras, lágrimas e muito mais coisas queridas do que possas imaginar, puto. É esta a minha admiração pela tua força de rapaz preto, nos teus quinze anos de sobras de vida, e que não me deixa calar as entranhas de uma alquimia cheia de certezas maiores.

Publicado por José Mário Silva às 07:51 PM | Comentários (7)

IN THE CUT

O último filme de Jane Campion não é mau. É muito mau. É um thriller pseudo-erótico a armar ao pingarelho, cheio de efeitos visuais, saturado de cores fortes, tecnicamente exemplar (como exemplares são os melhores anúncios publicitários), mas completamente oco, vazio, meaningless. É, além disso, um desperdício de actores, a começar em Meg Ryan e a acabar no surpreendente Mark Ruffalo.
Está visto: certas pessoas não deviam ter lições de piano.

Publicado por José Mário Silva às 11:45 AM | Comentários (5)